Sobre o escrever

“Meu pai dizia: leia qualquer coisa, tudo que puder e sem preconceitos; até rótulo de shampoo. Sempre será um exercício com as palavras e como elas se encaixam nas linhas, nas frases e nos conceitos. Eu digo hoje: escreva qualquer coisa e divirta-se com o “lego das letras”. Dê voz à sua angústia; não é o mesmo que falar dela, mas permitir que ela fale por si. Escreva sempre, transforme sua fala em um discurso escrito e verá um novo tipo de expressão brotar com os signos que se formam à sua frente. É como ter um sonho na lembrança e trazê-lo à superfície da palavra: ao contá-lo ele se transmuta, ganha um novo corpo e passa a adquirir significados que não possuía quando ainda dormitava na matéria bruta do pensamento.”

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Pena Capital

Sempre que eu leio ou escuto dos defensores da pena capital o argumento(?) “Ah, mas a pena de morte que os bandidos aplicam nas ‘pessoas de bem’ tu achas correto?” eu sempre escuto como um lamento ao estilo: “Ah… quando é pra gente se divertir não pode, só eles que podem, é?”

Pode ser um exagero, mas a mim parece que os defensores apaixonados da pena de morte (não aqueles que ao menos procuram um debate racional sobre sua efetividade) possuem um desejo inconfesso e recalcado de matar, uma violenta pulsão destrutiva, que foi obstaculizada por inúmeros fatores sociais, em especial a educação e os princípios religiosos.

Todavia, quando falam em pena de morte eles se transmutam, se alteram, ficam com a cara do personagem Dexter e pensam “E se eu pudesse dar vazão a estes instintos dentro da lei, não seria o máximo?

Certo que os traumas não totalmente resolvidos de algumas pessoas nos fazem entender este comportamento, mas a imensa maioria dos defensores da pena de morte nunca teve um episódio traumático – pessoal ou próximo – de violência extremada. Por isso penso que o discurso em favor “das pessoas de bem”, ou da “punição exemplar” é meramente encobridor de sentimentos muito mais primitivos, tão difíceis de aceitar quanto de confessar.

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Minimalismo

Dias atrás vi um belo documentário no Netflix, o qual recomendo com fervor: Os Minimalistas. Trata da história de uma dupla de jovens que resolveu se desfazer de quase tudo e viver uma vida o mais despojada possível, tateando os limites do desapego material. Ao assistir à narrativa fiquei envergonhado de perceber o imenso grau de fetichismo que ainda depositamos (depósito) em coisas, de roupas, objetos, utensílios a tamanho de casas.

Somos verdadeiramente governados por objetos que gravitam ao nosso redor, deixando de lado os verdadeiros valores da vida. Todos os conceitos do Minimalismo já existem na minha cabeça como elementos racionais há muitos anos, e a própria opção por viver no meio da natureza e em comunidade vai nesse sentido. Como próximo passo cabe a mim a difícil tarefa de que tais ideias baixem um pouco do alvo inicial e atinjam o coração.

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Sintoma Médico

O que causa o verdadeiro desconforto com a atitude dos estudantes recentemente chegados à escola médica é que sua atitude não se desenvolve em um vácuo. Não se trata de uma anomalia ou um fato isolado, mas o sintoma de uma doença sistêmica que só agora parece ser mais facilmente diagnosticada. Não é uma unha encravada ou o ferimento superficial em um corpo previamente saudável; não se trata da aparição súbita de uma infecção exógena que ataca um corpo indefeso.

Não. O que traz preocupação é que tais manifestações são apenas os sintomas e sinais visíveis de uma doença profunda, que agride os sentidos de forma insidiosa, que contamina os tecidos e órgãos de forma silente, mas que pode ser percebida quando deixamos de olhar para o evidente e levantamos o véu para ver o que se encerra por detrás do meramente manifesto.

Não é porque são estudantes de Medicina apenas, mas por serem parte dessa classe média arrogante e retrógrada que infesta o Brasil. Esses estudantes vão apenas reforçar esse preconceito durante a formação médica, e vão reproduzi-lo durante toda a vida profissional. Muito triste saber que eles terão a saúde de pessoas em suas mãos.

Todo movimento na medicina, por mais sutil e delicado que seja, é traçado pelas linhas do poder. Ali, nas entrelinhas do discurso, no espaço que se estende entre as palavras, no gesto fino, no branco difuso, na luz ofuscante, na frase cheia de abreviaturas, na desconexão entre o sentir e o real do corpo, entre o sujeito e o objeto é que se constrói a força dessa relação.

Esse encontro mágico tem a potencialidade ser o mais criativo caminho de cura, mas exatamente pela magia que o constitui e sustenta acaba sendo permeado por gritos de soberba e arrogância. Estes apenas sinalizam que o caminho que escolhemos se perdeu há muito e que reconstruir a arte de curar é outra grande tarefa para o milênio que se inicia.

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Crime e Castigo

“Como regra civilizatória um presídio JAMAIS poderia tratar um prisioneiro da mesma forma como o bandido trata a sociedade. Um está doente, o outro precisa ser saudável para oferecer a cura. Nenhuma sociedade civilizada apoiaria o absurdo de criar “centros de punição e vingança social”, imaginando que tal barbárie deixaria a cidade mais justa e segura. Pensar isso é regredir à idade das trevas, sem receber nenhuma segurança em troca.

Estados policiais, cheios de guardas e prisões, apenas iludem o espectador com sua fantasia totalitária e com a ideologia da “segurança para o cidadão de bem”. Onde foi aplicada o resultado foi catastrófico, em recursos, em vidas e em desumanidade.

A única saída para a criminalidade é a justiça social, mas no Brasil a Casa Grande não aceita abrir mão dos seus privilégios e por décadas ainda veremos a criminalidade ser tolamente tratada como um transtorno da alma, ao invés de ser entendida como uma construção social da qual todos – sem exceção – participamos.”

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A revolta domesticada

Acabei de assistir ao comercial controverso da Pepsi (pode ser visto aqui) e achei a maior juquice da história da publicidade mundial. Gente linda, elegante e sincera fazendo protesto num lugar que parece o Moinhos de Vento em Porto Alegre – ou Morumbi em SP – protestando talvez contra o aumento do preço da banda larga. Aí a bonitinha se interessa pelo protesto super civilizado nas ruas, junta-se à galere e acaba com as animosidades oferecendo uma pépis pro guardinha fofo. Pronto.

É assim, com amor e refrigerante, que se faz a mudança na estrutura social. Acabou a briga e todos podem voltar pra casa, tirar suas roupinhas féchon, deitar no sofá a assistir suas séries no Netflix.

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Terra primitiva

Sobre geração espontânea…

Abro um saco de farinha fechado e um inseto alado sai voando. Percebo que todo o saco, que devia conter apenas farinha, contém uma curiosa e inesperada diversidade de vida. Geração espontânea, nada mais natural.

Pegue uma bola de fogo girando em alta velocidade e inclua elementos simples como enxofre, carbono e hidrogênio. Esquente bem com vulcões e cataclismos de toda ordem, maremotos, tsunamis, continentes que se movem, meteoros e lava incandescente aos borbotões. Deixe esfriar e espere. Aguarde 4 bilhões e um pouco mais de anos, destape e recolha árvores, borboletas, flores, lagartos, morcegos, tubarões  crocodilos, mosquitos e seres humanos. Espere mais um segundos e estes últimos vão falar, escrever, brigar entre si e destruir os demais. Esperemos mais alguns instantes e tudo pode se evaporar num cogumelo de fumaça.

Do nada faz-se a vida, da vida consciência e da consciência o egoísmo. Desse ponto em que nos encontramos já podemos escolher entre a vida ou a fumaça.

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Guerra de versões

Antes de adotar um lado de qualquer de matérias tão importantes é essencial situar-se e ver como as informações são produzidas. O que vem da Síria, Coreia do Norte e mesmo Cuba é filtrado por agências de notícias com claras vinculações com o poder econômico internacional. As notícias da Coreia até hoje, e as do Iraque antes da invasão, são exemplos claros do quanto é possível mentir sobre um país inteiro. Quem lembra do Antrax e das armas de destruição em massa? Pois estas desculpas absurdas foram usadas para justificar à opinião pública o massacre sobre um país soberano.

Na Síria de hoje podemos ver “crianças recicladas” sendo tratadas como “novas vítimas” pelos “Capacetes Brancos” para produzir a comiseração internacional e modificar a percepção ocidental da barbárie da guerra. Pode-se ver isso claramente nos inúmeros vídeos sobre o tema. É importante notar que em 2014 houve eleições nas quais Assad foi o vencedor. Portanto, esforçar-se pela deposição de Assad – como é o desejo americano – é correr o grave risco de repetirmos Iraque, Afeganistão e Líbia, onde a intervenção produziu mais miséria, destruição e o controle americano dos recursos, mas às custas de milhares de mortes de civis.

Em qualquer sociedade é necessário que haja pessoas que desafiem o senso comum, procurem visões alternativas, desconfiem dos poderes constituídos e lutem por perspectivas múltiplas e democráticas para os eventos. Não existe verdadeira liberdade quando somos atraídos por uma única narrativa e nos seguramos a ela como se ela fosse “A Verdade”. Os exemplos de fraudes internacionais patrocinadas por grandes nações são incontáveis.

No Brasil o simples convencimento das seis famílias de controladores da grande mídias é suficiente para garantir uma versão particular da história como hegemônica, por mais absurda que ela possa ser. A farsa do triplex do Lula e as escutas de uma presidente eleita sendo divulgadas na grande mídia seriam suficientes para demonstrar a falácia da “liberdade de imprensa”. A confissão de Boni, com 20 anos de atraso, da vergonhosa manipulação do debate presidencial Lula-Collor poderiam botar uma pedra sobre a questão, mas a ilusão de democracia de meios se mantém mais pela nossa fé do que por qualquer evidência. As versões filtradas da guerra da Síria, assim como qualquer outra, mostram que um conflito como esse produz narrativas controladas estritamente pelos poderosos, sendo que só conseguimos alguma visão diferente através da garimpagem criteriosa de descrições alternativas. Nem sempre podemos tê-las, mas quando as encontramos podemos descortinar uma realidade, via de regra, antagônica à versão oficial.

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Pos verdades

Numa guerra a primeira vítima é a verdade“. Num conflito os “false flags” – encenações de ataques para justificar retaliações – são disparados de todos os lados, e os tolos as recebem de braços abertos, bastando para isso que a mentira se encaixe na narrativa que momentaneamente nos interessa. Pode ser uma causa humanitária – mataram criancinhas inocentes!!! – ou para fazer valer nossos sentimentos racistas e xenofóbicos inconfessos – foram os malditos árabes!!!. Não importa, o objetivo é mirar no coração e deixar a razão de fora dessa briga.

Para tanto bastam cenas chocantes e até com pouca sofisticação; afinal é fácil contar uma história, por mais falsa que seja, para quem DESEJA acreditar nela. Coloque árabes, crianças sufocando, turbantes, cortes rápidos de cena, pais inconsoláveis e temos uma narrativa. Podemos tirar as imagens de vários contextos e de vários lugares, até de datas distintas. Como em um clip musical, seu objetivo é afastar a razão da arena das ideias, e colocar os nossos sentimentos mais primitivos no comando das ações. Da identificação primitiva e profunda que emana das cenas sobrevém o ódio àqueles que as tornaram fato, e a consequente onda de ódio, raiva e por fim o desejo de vingança. Com isso é possível manipular milhões de almas sem uma bala, um canhão ou um soldado.

Esta estratégia foi usada em um famoso “false flag” sobre um ditador na República Centro Africana há uns dois anos. Cenas de crianças sequestradas, usadas como escravas sexuais ou combatentes escravizados inundaram por semanas as telas dos computadores. Muitos bradavam que, por razões humanitárias, os Estados Unidos deveriam entrar nessa “guerra humanitária em nome da civilização“. Tudo muito justo e nobre não fosse o fato de que o ditador não era visto há dois anos e que provavelmente já estava morto. Tudo fantasia pós moderna, tudo pós-verdade. O criador da campanha internacional pela deposição do suposto ditador foi visto correndo nu pelas ruas de sua cidade, em um surto psicótico, quando toda a mentira veio à tona.

Acreditar piamente no que as agencias de notícias nos jogam diariamente é crer que o poder da informação em um mundo controlado pela infotecnocracia é democrático e se pauta pela verdade dos fatos. A importância da Globo nos golpes do Brasil e da Fox na eleição fraudada nos Estados Unidos há poucos anos (reeleição de Bush) nos deixa claro que esta é uma perigosa ingenuidade.

Se é verdade que milhares estão morrendo na Síria, e que algo precisa ser feito, também é certo que acreditar nas informações que nos chegam sem um “double check” das fontes é fazer o jogo infame dos poderosos, os que controlam as armas e a mídia. Reagir a isso não significa fechar os olhos, mas entender que a imposição de narrativas únicas serve a interesses políticos claros, dos quais nós – simples mortais – não somos quase nunca os beneficiários.

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Deputado X

Para ponderar:

A partir de mais uma demonstração explícita de fascismo do deputado X, a questão que nos cabe debater é como reagir. Que ele representa o que há de mais fascista, anacrônico e obtuso na política nacional já não há mais dúvidas, mas a reação que podemos produzir é que precisa ser meticulosamente analisada, e da forma mais racional possível.

Temos o exemplo recente de Donald Trump que deveria nos oferecer boas lições. Trump vomitava asneiras e frases de efeito racistas e xenófobas TODA A SEMANA; ele nunca saía das manchetes. Nada disso era ao acaso; tudo foi meticulosamente planejado. Acabou sendo visto como “autêntico”, aquele candidato de fala original, verdadeiro e espontâneo; o antipolítico que diz a verdade e o que lhe vem à cabeça, sem filtros. Aquele que não tem o “rabo preso”; o nacionalista que é contrário ao politicamente correto. O anti feminista que bem soube explorar as contradições do feminismo. Ele fez uma campanha memorável. Saiu de azarão e “piada” e tornou-se presidente da maior potência do mundo. Uma tragédia para o mundo e em especial para os americanos.

Todavia, lembrem-se que ele foi torpedeado por TODA a imprensa e TODA a intelectualidade, sem piedade. Houve “frentes” que se formaram de artistas, intelectuais, cineastas e escritores. O próprio partido lhe virou as costas (uma parte). As “frentes” que o atacavam aumentaram ainda mais a sua aura de “diferente de tudo que está aí”. Ele era uma máquina de declarações absurdas e violentas e a imprensa reproduzia tudo o que ele dizia, e com isso vendia muito.

Pois ele ganhou e se você prestar atenção o deputado X (em menor escala o atual alcaide de São Paulo) está encampando esta estratégia de sucesso, passo a passo. A pergunta é se temos o direito de incorrer nos mesmos erros e repetir o papel que os liberais americanos fizeram. Podemos repercutir e combater suas falas racistas e homofóbicas, vociferar contra sua mente medieval e criar “frentes” de intelectuais,  pacifistas, feministas e artistas para combatê-lo …. e assim agindo fazê-lo a grande estrela das próximas eleições.

Por outro lado, talvez possamos usar outra estratégia desta vez. Penso que parar de viralizar seus discursos e repetir seu nome seja uma etapa essencial.

Que acham?

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