Livre pensar

Não se passa um dia sequer sem que eu assista de forma clara e definitiva a derrocada espetacular de uma certeza, com a qual convivi durante boa parte da minha vida, e de onde muitas vezes tirei consolo e conforto.

Essa é, para mim, a melhor definição de um livre pensador.

Maurice Herbert Jones, comunicação pessoal.

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Nascer de novo

“A ideia reencarnacionista como pedagogia, é antiga e pertence a várias correntes religiosas (até cristãs, basta lembrar a conversa de Jesus com Nicodemus e a frase “é preciso nascer de novo”), mas não pressupõe ligações diretas de causalidade ao estilo “morreu num acidente de avião, portanto era aviador nazista na vida anterior“. Isso é apenas folclore ou motivo para boas piadas. Um modelo propedêutico não poderia se basear nestas fatalidades para se expressar.

A reencarnação se baseia numa visão teísta, inteligente e teleológica. De forma simplificada, a reencarnação se insere em um modelo de “universo inteligente” onde as múltiplas existências seriam apenas etapas de aprendizado para a depuração evolutiva da alma ou “princípio perene”. Seriam como os anos escolares, em que as lembranças do que foi aprendido no ano anterior se mantém apenas de forma intuitiva e emocional sutil. O esquecimento proporcionaria a oportunidade de “começar do zero” relações outrora complexas, difíceis ou conflituosas, mas também positivas e construtivas.

A reencarnação – dentro da lógica evolutiva espiritual – também ofereceria igualdade de experiências e vivências, diferentemente do que acontece em uma única existência. Sua característica mais marcante é a ideia de oferecer uma enorme multiplicidade de experiências, as mais diversas possíveis, para o desenvolvimento de aptidões e a reparação de erros, mágoas e falhas morais.

Se eu fosse inventar um universo usaria essa estratégia…”

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Primeira pedra

Existem seres humanos que merecem perdão; outros não. Quanto a isso não há dúvidas. A listagem de pessoas (e não seus crimes) imperdoáveis não é muito difícil de achar. Todos os sujeitos que cometeram crimes que estão distantes da nossa realidade são imperdoáveis. Furar fila, não declarar imposto corretamente, matar um ladrão (bandido bom é…) não são crimes, quanto mais imperdoáveis, porque qualquer um de nós pode ter tais atitudes.

E não precisa ser um gênio para entender isso. As tradições religiosas estão cheias de exemplos de que o perdão precisa ser seletivo. Não há porque perdoar todos de forma igual como se todos fôssemos iguais aos olhos de Deus. Se isso fosse verdade Ele não criaria pessoas cheias de virtudes (nós) e outros animalizados e perversos, afogados em seus defeitos (os outros).

Foi exatamente o que Jesus disse quando atirou aquela pedra na puta que – evidentemente – não merecia perdão. Peraí que eu vou achar o versículo certinho e vou postar aqui em baixo.

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Achei a parte que fala aqui na Bíblia mas essa que eu tenho é dos Gideões e deve ser uma versão muito recente porque (olha só que absurdo) está escrito que ele NÃO atirou a pedra, o que é um óbvio erro pois Jesus não era bobo nem nada e jamais permitiria que um crime nojento como esse (eu jamais seria uma prostituta!!!) passasse em branco. Eu tenho nojo das traduções mais novas da Bíblia que trocam arbitrariamente as passagens apenas para apoiar petralhas e defensores de direitos humanos (leia-se bandidos).

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Quer saber? Que se lixe a Bíblia. Estou olhando aqui outros posts de Jesus e acho que esse cara fumava um. “Ame ao próximo como a ti mesmo“, ah…. vá se ferrar!! Amar estuprador, assassino, ladrão???? Tá cheirado barbudo???? “Teus inimigos são teus verdadeiros amigos“: bebeu gasolina??? E só piora, agora vi essa aqui: “Pai, perdoai-lhes, pois não sabem o que fazem“. Sério que o pessoal não sabe? Um bando de ladrão vagabundo e não sabem o que estão fazendo?

Te larguei pras cobra, Bíblia…

(according to “irony act” of march 2017 this post follows the fundamental principles of post-truth and explicit irony, therefore is under the protection of that presidential bill)

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Hipocrisia

Escuto todos os dias os radialistas populistas de direita com esse discurso de armar a “população de bem” para combater a onda de violência e acabar com os criminosos. Entretanto, eu lembro que essa indignação só emerge quando a vitima é branca, de classe média e o crime ocorreu em um bairro onde transitam as castas superiores. Só escuto silêncios quando morrem dezenas de negros e pobres nas ações da Polícia na periferia ou nas guerras entre as as facções que lutam pela primazia de abastecer a droga para estes mesmos cidadãos de bem. A morte só nos afeta quando próxima e as vidas ainda valem tanto quanto a cor de quem as carrega.

A hipocrisia agora é o idioma oficial da nação.

Esta hipocrisia contemporânea nos oferece a oportunidade de chorar pelo menino branco de tênis Nike morto na guerrilha urbana, mas nos anestesia para morte de uma legião de pretos e pobres que morrem todos os dias para nos garantir o direito de fumar aquele baseado em paz.

Edgar Alan Pontes, “Ruas de Fumaça” Ed, Bonett, pág 135.

Edgar Pontes é um colunista de jornais nascido em Curitiba em 1985. Escreveu no “Diário do Povo”, no “Correio Popular”, na “Folha de Maringá”, todos no Paraná. Dedicou-se ao jornalismo popular e policial, tanto para o jornal quanto para o rádio, e seu programa “A Hora do Crime” ficou famoso nos anos 70 por apresentar uma visão mais pessoal e intimista dos criminosos, apresentando-os como pessoas de verdade que se colocavam entre dilemas humanos e complexos. Recebeu críticas de ambos os lados: dos justiceiros sociais, punitivistas e apologistas da pena de morte e dos representantes dos direitos humanos. Depois do término do seu programa de rádio dedicou-se à literatura e escreveu “Ruas de Fumaça” onde mostra o lado mais perverso das delegacias, as torturas, o preconceito social, o racismo e a misoginia que permeiam o encontro dramático entre os sujeitos e as autoridades policiais. Seu livro foi celebrado como um “retorno” às suas origens humanistas e um rechaço à política de extermínio das polícias do país.

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Religião e Fé

Segundo Reza Aslam, professor de teologia e escritor (O Zelota), a religião é como um poço e a água que ele procura é a fé. A água é a mesma para todos, assim como a fé. Ela nos atinge – ou não – como um sentimento impossível de descrever, mas é percebida por quem por ela foi tocado. Os poços podem variar em grandeza, sofisticação e até profundidade, mas sua única função continua sendo dar forma e vazão à água que corre nos subterrâneos. Com a mesma intenção, as religiões buscam alcançar a fé e dar-lhe corpo, verbo e ação. Qualquer erro de uma religião não pode ser atribuído à fé, mas à forma como as religiões ousam mergulhar no escuro da alma humana para traçar sua conexão com o invisível.

Por outro lado as religiões contemporâneas funcionam muito mais como elementos identitários do que como ferramentas para organizar e dar sentido às crenças. Elas funcionam como veículos para oferecer a sensação de pertencimento à uma humanidade cada vez mais homogênea. Lutar contra o obscurantismo das religiões contemporâneas (todas) pode ser uma boa luta, decifrando e trazendo à luz as interferências políticas de suas interpretações. Porém, combater a fé com racionalismo e cientificismo é tão inútil quanto iluminar um ambiente para mostrar o perfume das rosas.

Anton Van der Arbuit, “Plastic bloemen niet sterven”, Ed, Plantak, pág 135

Anton Van der Arbuit é um escritor holandês nascido em Roterdã em 1935. Estudou teologia na Theological University in Kampen, que é o seminário teológico das Igrejas Reformadas na Holanda. Escreveu várias críticas, ensaios e contos baseados na fé e na teoria da Graça. Tem uma visão plural e progressista da religião, e é conselheiro do “Conselho Ecumênico Cristão da União Europeia”. Mora em Kampen, na Holanda.

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Amor romântico

Não acho que amor romântico seja uma “ilusão”, acho apenas que ele ele é um fetiche que tem tanto valor quanto bunda grande, seios voluptuosos, carros esportivos ou peito cabeludo. Acreditar que ele é o “verdadeiro amor” é um erro; ele é tão somente uma forma de amar.

Para mim o amor se resume em três elementos básicos: desejo, cuidado e admiração. A forma como você vai organizar estes sentimentos pode variar infinitamente, mas se eles não estiverem presentes eu penso que uma outra palavra precisa ser usada.

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Transformações

Se o parto em si é incapaz de imprimir transformações positivas na carne e no espírito de quem é ultrapassado por sua energia então, por coerência, NENHUMA ação humana é capaz de abrir QUALQUER porta de percepção. Não é justo esperar tal processo através da chegada de um filho, por amar alguém, por ser amado em resposta, por lutar, vencer, conquistar ou alcançar um sonho. Não existe luz ou transcendência própria em nenhuma coisa, nenhum evento, NENHUM acontecimento.

Pode ser, mas precisamos forçosamente reconhecer que, de outra parte, qualquer evento é capaz de oferecer essa elevação, esse defenestrar, esta transformação, este deslumbramento, desde que o sujeito que delas participe se permita tocar pela sua força transformativa.

Nenhum evento em si, por mais fulgurante e esplendoroso que seja, é capaz de produzir mudanças; só o sujeito podem se transformar diante dele, desde que esteja pronto para tanto.

Não é?

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A conta

“Tanto Collor quanto Dilma foram eleitos sem ter a garantia de um parlamento capaz de sustentá-los. Nenhum deles jamais teve o carisma e a genialidade de Lula, que sempre teve o povo ao seu lado; nenhum presidente na história democrática moderna terminou seu governo com 92% de aprovação.

Collor e Dilma caíram por golpes parlamentares, apesar do caso Collor haver provas de crime eleitoral que ficaram claros no processo. No caso de Dilma se tornou impossível governar por causa das “pautas bomba” de Cunha e pelo impeachment, ações planejadas por Cunha-Temer para a desestabilização e o golpe. Mas não se iludam: o recorde de assassinatos em Pernambuco, que hoje testemunhamos horrorizados, está intimamente ligado ao golpe. Existe uma sensação clara de que não há porque obedecer às leis: manda o mais forte. Se é possível tirar uma presidente ao arrepio da lei, então você mesmo pode fazer sua lei.

Aos paneleiros, a conta”.

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Desapego

O pensador Sêneca, pintura de Rubens, Sec. XVII

“O Mestre Mahatma Gandhi nos ensinou que a vida na simplicidade era muito mais feliz e plena. Muito antes dele Sêneca, pensador romano, já nos mostrava que “a pobreza não está na falta de recursos, mas na multiplicidade dos desejos”. Não somos pobres por termos pouco, mas por desejarmos demais, nem ricos por termos tudo, mas por encontrar satisfação e alegria nas minúsculas aquisições.

Assim, a busca pela riqueza nos oferece dois caminhos distintos e opostos: a profusão ilimitada de bens, acumulados no limite possível do espaço para guardá-los, ou o desapego de todas a coisas materiais, no limite das necessidades básicas de sobrevivência. No matiz que se produz entre estes polos extremos estamos nós, entre a sedução ofuscante da matéria reluzente e a consciência cada vez mais vívida de que tudo o que possui real valor na vida nos é dado de forma gratuita.”

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Um Vinho com Moro

A postura de Leandro Karnal no papel de “Guru” acima do bem e do mal, sua atitude afetada e debochada contra elementos da cultura popular (como Luan Santana), suas tentativas infindáveis demonstrar sofisticação e erudição e suas ironias e frases de efeito clichê sempre me incomodaram. Porém, como ele está “do nosso lado” sempre relevamos. Talvez estejamos vendo o ocaso de um ícone da esquerda que em pouco tempo se transformará em “liberal”. Sairá reclamando da intolerância e dos xiitas. É provável que e as análises mais sombrias estejam corretas.

Leandro Karnal é um inegável sucesso recente da Internet através dos seus vídeos no YouTube. Eu não o conhecia antes disso, apesar de ele ser de São Leopoldo. Não há como negar que ele é inteligente, culto e sabe se expressar. Brinca com as palavras, os tempos do discurso e seus silêncios. Cativou multidões de fãs por oferecer pérolas de autoajuda ou por explicar alguns conceitos complexos com palavras simples.

Entretanto ele sempre me pareceu, em todas as suas manifestações, ser dominado por uma vaidade inegável. Sua fala é cheia de citações e referências que emolduram um discurso empolado e por vezes afetado. Por mais que sua erudição me pareça admirável creio que ele sucumbiu à soberba, engolido pela fantasia de se tornar um guru, ao invés de se contentar com o lugar de livre pensador.

Ora, um pensador mais cedo ou mais tarde terá suas ideias contestadas ou sua imagem arranhada por outro artista da palavra, mais brilhante e capacitado. Pode inclusive acabar produzindo um grupo muito grande de detratores e contestadores.

Já um guru atinge o desejo, e não a razão. Ele não quer que suas ideias sejam aprendidas ou que seus pensamentos tragam luz à escuridão que nos ameaça. Não, o guru quer ser amado.

Não acredito que o jantar com Moro tenha sido casual. Creio mesmo que o encontro e a foto são propaganda de um projeto pessoal. Eu lamento por um lado – ao ver um pensador à esquerda fazer média com uma pessoa nefasta para o país – mas por outro lado fico feliz ao ver a imagem de um “guru da esquerda” se esfacelar.

Triste do povo que precisa de heróis ou gurus.

PS: Uma piada que não consegui evitar “Foi só um vinho ou também rolou um encontro Karnal?”

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