Tubaroa solitária

“Preciso de um namorado senão vou fazer uma loucura!!!!”

Diante do debate surgido com descoberta de um tubarão fêmea que conseguiu se reproduzir sem sexo criou-se a ideia (ou a fantasia) de uma sociedade onde as mulheres clonassem a si mesmas, criando uma sociedade exclusivamente feminina. Explorei esse tema no meu primeiro livro, mas penso que é importante lembrar no outro lado da moeda, pois existe outra possibilidade: uma sociedade sem mulheres e com bebês meninos produzidos em chocadeiras, como em Matrix. Os tubarões não tem acesso a estes recursos, mas nós (já?) podemos um dia chegar a este ponto de controlar a natureza como desejamos.

A resposta que eu dei a esta pergunta no meu livro foi que isso produziria uma enorme perda de diversidade para a humanidade. Retornaríamos ao tempo da cissiparidade ou da partenogênese, que foi abandonada exatamente por carecer de diversidade. Um mundo só de mulheres seria muito chato e monótono; um planeta só de homens seria inabitável. A variabilidade psicológica e emocional é o que nos oferece aptidões e visões de mundo múltiplas e complexas.

Um mundo sem homens seria chato e atrasado. Um mundo sem mulheres seria feio, frio e triste. Não desejo nenhum desses lugares nem aos meus (minhas) piores inimigos(as).

Digo mais: se a cura da homossexualidade – ou sua prevenção – fosse um dia alcançada isso também seria uma perda de perspectivas ricas e desafiadoras para a cultura. Portanto…. não vejo muito sentido em cultuar uma tubaroa que agiu apenas por desespero. Prefiro o caos das disputas de gênero ao paraíso mórbido e invariável de uma sociedade feita de pessoas iguais.

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Radicais

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É verdade que os grupos de humanização do nascimento e amamentação abrigam pessoas radicais e, as vezes, até violentas, mas lembrem que TODOS os movimentos sociais funcionam assim. Olhem para o feminismo, o movimento negro, os grupos de gênero, proteção animal, meio ambiente etc. Não é possível ser diferente porque somos todos humanos. Os grupos de parto humanizado e amamentação obrigatoriamente terão pessoas à esquerda e à direita, como todos os outros. Inevitavelmente surgem radicalismos e revisionismos, e isso faz parte do crescimento de qualquer ideia. No conflito entre essas visões de mundo os movimentos balançam e seguem em frente. Não há como se afastar muito desse roteiro.

A maioria das queixas aos ativistas merecem atenção e algumas até estão corretas, entretanto os julgamentos não nos ajudam em nada. Analisar levando em consideração os contextos, exercitando a empatia são atitudes fundamentais. Por outro lado, sem objetivos claros (como os benefícios do parto e do aleitamento materno), e o respeito aos ritmos do bebê não construiríamos movimentos como o do parto e da amamentação. Nosso desafio agora é ajudar sem julgar. Não é fácil, mas vale a pena tentar.

Meu único conselho é tentar manter os ideais acima das vaidades pessoais e cultivar o perdão e o respeito pelos que sonham o seu mesmo sonho, mas com matizes levemente diferentes.

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Escolhas e Demandas

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Cesariana por demanda materna é um debate complexo, por certo. Não o considero simples, tampouco fácil. Eu entendo alguns argumentos de quem acha que o sistema público de saúde não deveria pagar por cirurgias desnecessárias e que, ainda por cima, arriscam o bem estar materno e fetal. Entretanto, assim como sou a favor da liberação do aborto e das drogas – apesar de não gostar de nenhum deles – eu prefiro que as mulheres tenham direito a fazer suas escolhas, mesmo as que julgo equivocadas, do que serem tuteladas e obrigadas a realizar o que outras pessoas julgam melhor para elas. Proibir nunca foi uma estratégia inteligente; infantilizar as mulheres, também.

Vou me manter firme em minha visão original: “Precisamos tornar  o parto normal tão prazeroso e gratificante que a opção por uma cesariana será a mais tola das escolhas. Mas, ainda assim, será uma escolha da mulher.“

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Nudes

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Na boa…. será que ainda é preciso fazer tanto escândalo sobre nudes? Ok, vamos combinar que publicar coisas privadas de alguém é crime, principalmente coisas que podem causar constrangimento, como a intimidade. Quanto a isso não vejo dúvida: privacidade é sagrada.

Por outro lado… nudes? Sério?

Falei muito com minha amiga sueca-americana que é uma líder no universo da amamentação e ela me contou da mania de nudez que os suecos tem. Existe uma verdadeira democracia com o corpo que nós ainda não entendemos. Eles curtem sair da sauna no inverno e fazer passeios na neve durante o inverno, completamente nus. Pai, mãe, irmãos, avós e os vizinhos. Eu fico imaginando como seria ridículo vazar a foto do bombadão pelado nesse contexto. Tem curiosidade sobre o pinto do garotão ou os titis da sua vizinha? Olha no Facebook deles!!! (e ganhe de brinde a tia e a avó peladonas na foto da família).

O Brasil é visto aqui nos Estados Unidos como um país de mulheres livres, homens bonitos (eu explico a elas que sou uma exceção) e liberalidade sexual. Mas esta última parte é absolutamente mentira. Somos moralistas com o corpo. Gordofóbicos e julgadores. Ficamos eletrizados com esses vazamentos fake de “celebridades de uma semana”. Ainda somos crianças excitadas com a diferença sexual.

Eu acho que estes comentários exagerados sobre o corpo alheio deveriam ser vistos como resquícios de um moralismo cristão anacrônico e sem sentido, e deveríamos – enquanto cultura – cultivar uma relação mais madura com a nudez.

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Invisibilidade

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“A violência é tão mais destrutiva quanto mais invisível. A lenta e insidiosa corrosão se faz mais intensa quanto mais se entrelaça com a banalidade das ações cotidianas, tornando-se imperceptível na complexidade da tessitura social. Ali, na camuflagem do dia a dia, sua força se faz mais robusta.”

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Elogio

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Um elogio possível a alguém que carrega o peso da originalidade:

“Sabendo da rejeição violenta da cultura contra pessoas que escapam de um padrão (físico, intelectual, sexual ou estético) normativo e reconhecendo a alternativa sedutora de simplesmente se esconder ou se camuflar na paisagem, é bom saber que lhe sobra suficiente ousadia e coragem para ser você mesmo neste ambiente que sempre lhe empurra em direção à mediocridade”.

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O Amor

Reflexões de aeroporto,

Instigado por Camille Paglia eu resolvi assistir o filme “A Vingança dos Siths“, cuja batalha final entre Obi-wan Kenobi e Anakin é descrita por ela como uma grandiosa peça de arte visual contemporânea. Neste capítulo da saga ocorre a degeneração de um mestre Jedi e o surgimento do grande líder do lado escuro da força, Darth Vader. Este último não é nada mais que o mestre Anakin Skywalker, que abandonou seu amigo Obi-wan Kenobi e uma lealdade que os unia por muitos anos. A magnífica batalha final acaba por selar esta separação. Mas qual a razão por ter se tornado uma figura grotesca e maligna, capaz de trair uma amizade profunda e abandonar todos os seus ideais de autonomia, liberdade e democracia?

Sim, o amor.

Força descomunal, incontrolável e violenta, ela foi o ponto inicial para a criação do pior vilão do cinema do século XX. George Lucas deve ter se perguntado: se eu precisar transformar um herói destemido e leal em um assassino destruidor e vingativo, qual poderia ser sua motivação profunda? Sim, o amor seria a única força humana com essa potencialidade. Nada mobilizaria nossas emoções mais densas e primitivas com tamanho efeito destruidor quanto o amor. Ele é a grande mola da criatividade humana, para o bem e para o mal.

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Frankenstein

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O assassino era como o monstro de Frankenstein, composto por centenas de pequenos fragmentos de rancor e decepção. Uma estrutura de ódio, retalhos de misoginia, um pouco de raiva, umas pitadas de indignação seletiva e um punhado generoso de auto condescendência. E como pano de fundo o amor deteriorado e doentio.

Não há nada de novo na sua fala e nos seus sentimentos, assim como não há nenhuma novidade em salitre, carvão e enxofre. Entretanto a mistura desses elementos produz a força destruidora da pólvora, enquanto agora a combinação de indignação, culpa, frustração, banalização da violência, machismo e uma mente frágil e doente produzem tantas tragédias.

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Minority Report

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Quanto mais leio sobre a chacina em Campinas mais me lembro do filme “Minority Report” de Stephen Spielberg, e fico pensando na possibilidade de sermos avisados quando um psicopata como este venha a agir. Quem não gostaria de saber a tempo e correr para impedir tantas mortes? A sensação foi a mesma quando um pai matou 3 filhos pequenos em Porto Alegre há alguns anos e um conhecido meu falou “Ele era o mecânico do meu carro e eu jamais reparei nada. Parecia uma ótima pessoa”. Nunca sabemos dos monstros que habitam em nós, mas eles estão sempre esperando uma brecha para mostrar sua face de horror.

Nesse caso havia sinais prévios de violência, mas se fôssemos encarcerar todos os homens violentos ou que ameaçam faltaria cadeia para tanta gente descompensada.

Talvez a chance de diminuir a ocorrência dessas tragédias, no terreno individual, seja estudando os gatilhos que cada um dos agressores carrega e trabalhá-los com psicoterapia compulsória. Já no aspecto social, podemos agir muito precocemente através da educação para a equidade de gêneros e para uma sociedade menos violenta, onde os conflitos possam ser resolvidos sem agressões físicas ou morais. Podemos também  estabelecer em nível comunitário uma vigilância severa sobre sinais precoces de agressividade descontrolada, em especial relacionada a gênero e em populações de risco.

Se não funcionar podemos tentar mergulhar sensitivos em uma banheira e esperar que tenham visões. Ou apenas lamentar o ocorrido e amaldiçoar a alma do malfeitor.

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Chacina

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O assassino era como o monstro de Frankenstein, composto por centenas de pequenos fragmentos de rancor e decepção. Uma estrutura de ódio, retalhos de misoginia, um pouco de raiva, umas pitadas de indignação seletiva e um punhado generoso de auto condescendência. E como pano de fundo, o amor deteriorado e doentio.

Não há nada de novo na sua fala e nos seus sentimentos, assim como não há nenhuma novidade em salitre, carvão e enxofre. Entretanto a mistura desses elementos produz a força destruidora da pólvora, enquanto a combinação de indignação, culpa, frustração, banalização da violência, machismo e uma mente frágil e doente produz incontáveis tragédias.

Só o amor é capaz de produzir este tipo de horror que nos agride e tritura a alma. O amor, quando desvirtuado, é maligno e destrutivo, mas ainda assim é amor. Sim, é domínio, é ódio, é desprezo, é possessividade e angústia. E ainda assim é amor. O contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença, mas a loucura e o ciúme não conseguem brotar da aridez de um coração indiferente.

O contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença, mas a loucura e o ciúme não conseguem brotar da aridez de um coração indiferente.

Não é justo “romantizar o amor”, no sentido de enxergar nele apenas sua potencialidade positiva. O amor pode ser doce e calmo, mas também furioso e agitado. Preferimos não olhar para esta face do amor, mas ela é igualmente verdadeira.

Não se trata de macular o amor, mas tirar-lhe a máscara. Ódio e desprezo são legítimos filhos do amor, e por isso mesmo, onde houver ódio e desprezo podemos procurar um amor corrompido que de imediato ele se mostra em todas as suas nuances.

É preciso enxergar o amor em suas infinitas dimensões, e entender que até a lua, por mais resplandecente e brilhante que seja, possui seu lado escuro.

Para reflexão, trago este texto de Slavoj Zizek:

“Mas o conjunto da realidade é só isto. É estúpido. Está lá fora e eu não ligo pra isso. Amor, para mim, é um ato extremamente violento. Amor não é “eu amo todos vocês”. Amor significa que eu seleciono algo e é, de novo, esta estrutura de desequilíbrio, ainda que este algo seja só um pequeno detalhe, uma frágil pessoa individual. Eu digo “eu amo você mais que qualquer coisa” e neste preciso sentido formal, o amor é o mal.” 

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