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demonio

“A seção de comentários das notícias é o que o demônio lê todas as manhãs em busca de novas ideias para o dia”

Que Deus nos perdoe por tanta maldade

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Nova Direita

A indefinição e a postura dissimulada caracterizam o novo discurso dos conservadores, que, aliás, foi predominante nos carnacoxas. “Eu não tenho partido; meu partido é o Brasil” (o que lembra o governador Sartori, do RS, em sua indefinição proposital). Outra muito comum é “esquerda ou direita não me definem“, mas a gente já sabe – há décadas – que quando um sujeito rejeita essas definições ele é, seguramente, de direita e conservador.

Esta tática nada mais é do que um “descompromisso” discursivo, e junto com ele ganha-se a possibilidade de se manter franco atirador. “Atiro no PT e depois me refúgio atirando balas de festim no Aécio, Cunha ou Renan, pois sei que essas não machucam ninguém, mas fazem barulho e me oferecem a máscara da isenção. Ninguém vai me cobrar que eu bato panela só contra a esquerda, né?

Essas manobras da direita buscam uma espécie de isolamento crítico cujo objetivo é sempre colocar o outro como fanático, enquanto simula um discurso de equidade e parcimônia. Para essa nova estratégia lembro de Brecht: “Dos rios dizemos violentos, mas não dizemos violentas as margens que o oprimem“. Calar-se diante das encruzilhadas tentando com sua mudez oferecer uma imagem de sobriedade apenas favorece o lado mais forte.

O silêncio dos opressores não é sabedoria ou moderação, é conveniência a favor da estagnação.

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Terêncio e o Humano em nós

terencio

Uma das formas corretas de entender o drama humano é honestamente colocá-lo dentro de si mesmo. A radicalidade dessa tarefa expressou-a Públio Terêncio Afro ao dizer sua famosa frase “Sou um homem e nada do que é humano me é estranho“. Peço especial atenção à última palavra dessa frase que já percorre os séculos, sempre se mantendo atual.   A palavra “estranho” vem do latim “extraneum“, de extra, aquilo que vem de fora. O “estranho” – assim como seu derivado “estrangeiro” – está fora de nós, não compartilha ideias, idioma, conceitos e valores. É um alienígena, não humano.  

Uma das formas mais corriqueiras de persuadir um interlocutor à aderir aos seus argumentos é desumanizar seu opositor, tratando-o como louco, estúpido, assassino ou insano. Vê-se diariamente na forma como tratamos os “terroristas” palestinos, os governantes de quem não gostamos, os abusadores ou os adversários de qualquer ordem.

Na ficção usa-se a loucura para justificar condutas que o trânsito pela sanidade impediria, e nas novelas existe um número imenso de personagens que se refugiaram na absoluta falta de lucidez para cometer crimes e desatinos. A loucura é uma forma de desumanização, por colocar o sujeito fora de um padrão lógico semelhante ao nosso. O louco vira “estranho”, alguém diferente de nós, que não se adapta ao nosso modo de ver e sentir o mundo.  

A importância da frase do ex-escravo de origem bérbere se deve à sua visão profundamente humanista. Para ele o que é o humano não está fora do sujeito; pelo contrario, é compartilhado com todos os que pertencem à grande família humana. Assim sendo, não apenas a beleza, a virtude e o amor nos são comuns, mas também o ódio, a vingança, o egoísmo, o orgulho e o todo o mal de que somos capazes. Desta forma, os assassinos, canalhas, estupradores, abusadores, vigaristas, meliantes, gênios e anjos, todos estão dentro de mim a fazem parte do que sou. O que você vê agora é muito mais obra de contexto e circunstância do que virtude ou perversão. Somos uma construção única, inacabada e complexa, onde nosso Eu é o resultado de experiências de tempos distantes em choque com as múltiplas faces com que o universo se apresenta.  

Diante do absurdo de um massacre, o abuso de uma criança, a violência explícita ou a expressão crua do horror é útil lembramos da extensão da frase de Terêncio. Ela nos lembra que o mal que nos causam estes relatos não se dá por serem estranhos, mas – paradoxalmente – por encontrar ressonância dentro de nós. O horror é parte do que nos constitui como humanos, pois somos feitos de sombra e luz, magia e mistério, pureza e podridão.  

Ao analisar os relatos cotidianos da miséria humana é sensato encará-los como parte dos atos que nós mesmos lançaríamos mão diante de circunstâncias semelhantes. Desumanizar o outro serve apenas para ignorá-lo e, assim fazendo, ignorar o que existe de confuso e contraditório em nós mesmos.

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Sócrates e Epicuro

socrates

O primeiro jogou no Corinthians, mas na época não tinha essa barba. O segundo jogou no infantil do Madureira, mas rompeu o menisco esquerdo num carrinho maldoso por trás e teve que abreviar a carreira. Ambos foram colegas na Faculdade de Filosofia (mas naquele época era Philosophia) e fizeram bons trabalhos de conclusão, pelo menos eles passaram a vida divulgando suas ideias. Eles tiveram muito seguidores apaixonados.

epicuro

Em sua despedida da escola de Philosophia Sócrates escreveu sobre “O não saber-se quem se é-se“, um épico do desconhecimento absoluto de si mesmo. Enquanto isso, seu colega Epicuro resolveu dedicar-se a um tema que lhe foi muito próximo, por isso apresentou o tema “A ataraxia e meu joelho – a inutilidade da filosofia nas rupturas meniscais“. Tanto Sócrates quanto Epicuro foram aprovados com “C”, mas apenas porque as fotos que usaram na apresentação eram de baixa resolução. Banca de TCC é sempre essa aporrinhação.

Ambos desistiram de Filosofia. Sócrates, como sabemos, dedicou-se ao futebol mas faleceu por efeitos da bebida. Epicuro teve vários empregos, mas no fim da vida trabalhava como plastificador de estátuas e escovador de cães em pet shops de Aricanduva.

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Túnel do Tempo

Parto realizado no Hospital da Aeronáutica de Canoas em 25 de março de 1992. Parabéns aos pais pelo lindo parto e pela filha, que veio trazer alegrias e esperanças.

Repetindo, para que não reste dúvida: o parto, como componente da vida sexual normal de uma mulher, será SEMPRE palco de disputas. Negar estes conflitos, entendendo o parto como evento meramente mecânico e biológico, serve aos interesses daqueles que historicamente oprimiram as mulheres fazendo delas objetos de troca. Aceitar que a visão sobre o parto muda no tempo e nas latitudes nos permite sonhar com uma era de pleno protagonismo e segurança para o nascimento.

A quem interessa impedir esse sonho?

“O parto vai congregar de forma exemplar todos os valores que circulam no campo simbólico. Sendo um aspecto da sexualidade feminina sua expressão será tão livre quanto livre for a mulher no tempo e espaço no qual ocorrer. Não existe parto livre em sociedades opressivas com as mulheres, e ele jamais será violento em um lugar onde a mulher sabe o papel fundamental a ela destinado pela vida.”

Esse parto aconteceu no HACO, hospital da aeronáutica em Canoas no ano de 1992. A paciente me trouxe essa cópia, a qual pude assistir quase 1/4 de século depois. O privilégio de atender nascimentos por 34 anos foi o maior presente que eu poderia imaginar para uma vida. A todas as mulheres que me ensinaram sobre o milagre da vida através dos seus partos os meus mais calorosos agradecimentos.

Ha 24 anos o simples fato de ser um parto de cócoras causava horror na comunidade médica. Tamanha era a repulsa por qualquer método “alternativo” de atenção ao parto que até hoje, duas décadas e meia depois, o parto deitado e imóvel ainda é ensinado nas universidades e serviços obstétricos anacrônicos da minha cidade como se fosse a única forma possível – e aceitável – de atender um parto. A pesquisa “Nascendo no Brasil” mostrou que 91% dos partos no nosso país acontecem nessa posição, que há décadas sabemos ser prejudicial para ambos, mãe e bebê.

Imaginem como os meus colegas me olhavam naquela época, e terão uma ideia do ódio e ressentimento que os “donos” do parto aqui na província sempre cultivaram por mim.

Parto realizado no Hospital da Aeronáutica de Canoas em 25 de março de 1992. Parabéns aos pais pelo lindo parto e pela filha, que veio trazer alegrias e esperanças.

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Humaniza

escadaria

“Para mudar o mundo é necessário coragem para produzir o enfrentamento necessário, resiliência para suportar os ataques inevitáveis e sabedoria para entender as dores que surgem como elementos de uma trilha natural de crescimento.”

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Na antessala de Belzebu

belzebu

Na fila do inferno o secretário do Capeta anuncia:

– Por favor, advogados, cesaristas e vendedores de telemarketing, fiquem na fila de esquerda e aguardem a chamada. Vendedores de plano de saúde, pedreiros que faltam na segunda e empregadas que queimam o arroz, fiquem na fila do centro. Segurem o seu cartão verde na mão junto com o atestado de óbito e o cartão do SUS.

– E nós?

– Neonatologistas que afastaram bebês de mães e enfermeiras que atacaram doulas segurem seus cartões vermelhos e aguardem aqui que o Sr Belzebu vem falar com vocês em pessoa.

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Privilégios

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Um sujeito conta a sua historia pessoal de auto glorificação e imagina que isso pode ser extrapolado para a complexidade das estruturas sociais e vocês chamam isso de argumento??? Quer dizer que o Pelé ser rico prova que não existe racismo no Brasil? Quer dizer que a existência de uma executiva de sucesso prova que não existe machismo? Esse é o “argumento arrasador”? Por favor… melhorem o discurso e parem de adjetivar e ofender quem discorda de vocês. Isso não me (nos) ofende e não ajuda em nada a causa dos liberais.

Essas histórias de “self-made man” são acima de tudo mentirosas, pois mais escondem do que expressam. Nunca se conta, por exemplo, o pai, a mãe, os irmãos, e escola, os professores, o livro, o calçado, a comida, a saúde psíquica dos pais, e bondade dos amigos, o grupo, a igreja, a coletividade, os avós, o clima político da época, etc… tire tudo isso de sua formação – coisas que você GANHOU GRACIOSAMENTE DA VIDA – e o desenrolar de sua vida seria bem diferente. Basta que no seu (ou meu) relato houvesse um buraco na figura paterna, ou um pai espancador (como se vê tanto entre os pobres) e sua história já teria um desfecho diferente.

Pense nisso, nos seus privilégios invisíveis, antes de se achar tão corajoso, brilhante ou especial.

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Corpo Fechado

terra seca

Sou a favor do pleno protagonismo – em especial das mulheres – e isso inclui aceitar escolhas que me parecem tolas ou inadequadas, mesmo sabendo que minha ideia pessoal sobre essas determinações de nada interessa a quem se responsabiliza por elas. Sem essa possibilidade de decidir nunca haverá liberdade plena. Por outro lado, e com as mesmas justificativas, reconheço para os médicos a “objeção de consciência“. Uma mulher pode se esterilizar aos 25 anos, mas não pode obrigar um profissional a produzir um dano físico em seu corpo. Isso significa que o pleno protagonismo feminino não implica no completo desempoderamento do profissional.

Mas nem sempre vemos os profissionais de saúde respeitando as decisões soberanas das mulheres sobre seus corpos. Em verdade, o que norteia a postura dos profissionais da assistência é a bússola do patriarcado. Sua visão a respeito delas é sempre colocada sobre o pano de fundo da defectividade essencial e do corpo servil que possuem. Nunca uma mulher pode tomar decisões sobre si mesma sem que estas sejam controladas pelo ordenamento falocrático. Mas, tão entranhada está tal configuração nas relações sociais que sequer é percebida pelos médicos, que escamoteiam seu machismo com um discurso cientificista ou higienista. “Acredite em nós, é pelo seu próprio bem“.

Para ser franco, eu defendo até cesarianas banalizadas. Não acredito que vamos oferecer maturidade tratando eternamente as mulheres como crianças. Escolham a cesariana e depois percebam o erro que cometeram; proibi-las de fazer más escolhas não as tornará maduras ou adultas.

Quanto ao consentimento do parceiro isso me parece uma “excrescência cultural que apenas permanece pela inércia dos preconceitos”, a qual precisa ser abolida. O desejo reprodutivo precisa ser investigado antes da formação da parceria. Se a mulher (ou o homem) não deseja filhos, não case com ela (ele). Não faz sentido um homem (ou mulher) deliberar sobre ou corpo de sua (seu) parceira(o).

Concluindo, uma mulher que deseja exterminar sua capacidade reprodutiva precisa ter garantido esse direito, por mais que isso nos cause dor. Se a um homem é permitido emascular-se para se tornar mulher, por que seriam as mulheres impedidas de tornarem-se estéreis, para dar conta de seus desejos e limites subjetivos?

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Apartheid

racismo

Para alguns é difícil compreender a diferença entre racismo institucionalizado e racismo como excrescência cultural. É realmente difícil explicar isso para quem se nega a enxergar a potência de uma norma institucional. Para muitos a promulgação da Lei Áurea não precisava ter acontecido, e poderíamos ter banheiros, escolas, cinemas e ônibus separados para brancos e pretos, afinal… não faz diferença alguma se estiver na lei ou nos costumes, não é?

Para estes mesmos, a luta de Martin Luther King foi inútil porque a polícia americana continua matando mais negros do que brancos. Portanto, se o racismo existe, porque não regulamentá-lo? (entendam a ironia, pelo amor de Deus)

Mandela? Pffff… um inútil idiota. Afinal, para que toda a sua luta, que consumiu uma vida inteira, para acabar com o racismo se a economia ainda hoje continua na mão dos brancos africaners?

Muitos, municiados por estas falácias, se negam a enxergar a força simbólica das leis. Mudá-las, em direção à justiça social, é um motor poderoso na direção da paz e da equidade.

Eu fico espantado com o quanto existe de gente de bem que nunca percebeu que as leis discriminatórias produzem uma MARCA na sociedade, uma “mancha” que é muito mais grave do que a existência de uma cultura ainda discriminatória e injusta por força da inércia de seus preconceitos. Não perceber essa diferença é grave, pois produz uma equalização TOLA. “Ah, já que o Brasil é racista e os Estados Unidos também, qual o problema de criarmos leis que separam as raças?“. Ou então: “Ah, já que Israel tem Apartheid, qual o problema de fazermos isso também com nossos índios e aplicarmos um genocídio LEGAL aos povos nativos?

Não entender essa diferença é a faísca da selvageria e da brutalidade, a qual facilmente acende os piores instintos fascistas.

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