Ódios liberados

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Para algumas pessoas os desastres que mancham de sangue as manchetes lhes oportunizam o exercício do ódio sem interdição. As vezes, quando vejo suas manifestações, é impossível não notar o gozo em concentrar toda a sua indignação e raiva em uma única pessoa. Em um mundo dominado pela passionalidade e pelo império da correção política, a racionalidade e a sinceridade são perigosas armas de conscientização de massas. Alie-se a isso o bom humor e teremos um perigoso terrorista. Precisam, portanto, ser exterminadas para o bem da sociedade. A realidade e a verdade sucumbem na Guerra das Causas.

Dimitri Ustalov em “O processo de Igor Narachev”, página 135, capítulo “O inverno da Sra. Ivanov”

Dimitri Ustalov foi um poeta e ensaísta Ucraniano nascido em Makevka, em 1886. Foi o líder do grupo literário “Os renegados” que lançou o jornal de poesia e crítica chamado “Удар в обличчя” (Patada na Cara, em tradução livre). Dimitri atuou na Revolução Ucraniana ou Revolução Makhnovista, que foi um movimento revolucionário guerrilheiro de orientação anarcocomunista, liderado por Nestor Makhno, que ocorreu em paralelo à guerra civil russa, de 1918 e 1921. Nos combates feriu-se na perna e nunca se curou plenamente do ferimento, por isso muitos o chamavam de “Dimitri, o manco”. Escreveu especialmente poesia e crítica literária, tendo uma vasta produção na primeira metade do século XX. “O Processo de Igor Narachev” (“Процес Ігоря Нарачева”) é o seu livro mais famoso e inspirou vários escritores da moderna literatura ucraniana.

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O menino da bicicleta

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Meu carro parou no cruzamento movimentado em sua rotineira volta para casa. O rádio antigo, travado em uma estação ordinária, repetia músicas feitas por um computador que fabrica sucessos imediatos e letras sem sentido. A fila de carros que passavam à minha frente parecia interminável enquanto eu procurava uma brecha segura para cruzar a preferencial. As canções intercaladas com propagandas de mercearias e bancas de advogados populares enchiam o espaço do carro com mensagens enfadonhas de amores desprezados e retirada de multas. E eu apenas sonhava em chegar em casa para tomar café.

Finalmente uma brecha apareceu ao longe. Pisei no debriador e coloquei a primeira marcha. Sabia que a brecha logo se fecharia e, sabe-se lá quando, outra apareceria. Ah, o trânsito desses dias. Olho para o retrovisor e há mais 4 carros aguardando em fila atrás de mim. Minha determinação e agilidade vai determinar não apenas o meu café, mas de todos estes que aguardam impacientes a minha decisão.

Piso no acelerador avisando que vou me arriscar em instantes. O carro anda 20 cm para frente. A brecha se aproxima. Vou sair.

Detenho-me.

Ao longe surge um personagem que não havia percebido: um menino e sua bicicleta. Ele pedala o mais que pode e está no meio da brecha. Vejo diante de mim duas possibilidades: correr e obrigar o menino a frear sua “bike” ou esperar que ele passe, e provavelmente perder a janela de rua vazia à minha frente.

Escuto a primeira buzina a apertar meus tímpanos enquanto meu pé angustiado aguarda as ordens do cérebro. Na dúvida avanço mais 20 cm e vejo melhor o menino da bicicleta que se aproxima. Sua imagem cresceu no vidro dos meus óculos e pude notar quem era o personagem que atrasava a fila de motoristas que tanto desejavam voltar para casa.

Negro, 20 anos, magricela. Sua bicicleta era tão simples e despojada quanto suas roupas: uma bermuda, camiseta e um chinelo havaianas. Olhou para mim mais uma vez enquanto se aproximava do cruzamento e seu olhar se fixou em mim, talvez querendo saber o que eu faria a seguir.

Desisti. Pisei no debriador e ajustei a marcha do carro para o “ponto morto”. Ouvi mais uma buzinada e me resignei. Coloquei as duas mãos no volante apenas a tempo de ver a nova leva de carros surgir ao longe na esquina da rua em frente. Minha brecha havia escapado. Eu nunca mais voltaria para casa. Adeus meus filhos, minha mulher e meu café com torradas.

Olho consternado para a rua enquanto o menino da bicicleta finalmente se aproxima do cruzamento. Foi então que o milagre aconteceu.

Quando sua bicicleta passava em frente ao meu carro ele levanta a mão esquerda, aponta o polegar para cima e me envia o mais belo sorriso do dia. Do mês, e certamente do ano que havia iniciado há 48 horas. Ele agradecia minha espera, minha paciência, meu tempo de aguardo para que ele pudesse passar. Respondi com um sorriso tímido, meio sem graça, e me limitei a esticar os dedos da mão esquerda do volante. Ele passou com pedaladas vigorosas e eu novamente fiquei aguardando pela bendita brecha.

“O menino pobre e negro agradeceu a oportunidade que o senhor branco havia lhe dado”. Não, talvez não. “O menino da bicicleta exigiu que sua vez de passar fosse respeitada pelos carros”. Pode ser. “O sorriso agradecido do menino negro desvela sua humildade diante de um confronto de classes e perspectivas de vida”. Quem sabe. Fui atropelado pelas metáforas possíveis sem saber a razão de ter ficado pensativo e, por que não, emocionado.

Talvez nenhuma das hipóteses anteriores e tudo se resume a ficar encantado diante de um sorriso de agradecimento

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“Revelhom”

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Fotos de revelhom:

Mulheres: lindas e sorridentes (ok, já disse), arrumadas, produzidas, pintadas, batom, lápis, delineador, cabelos (ohhhh!!!), sapatos, poses, caras e bocas, blusas, vestidos, tubinhos, mini-tubinhos, pretinhos, adereços, gloss (não sei exatamente o que é), calcinhas (não vi nenhuma, mas sei da preocupação), bijuteróias (um blend das duas), filhos e filhas.

Homens: Bermuda, chinelo e cerveja na mão.

Na maior parte do tempo ser homem é algo muito pesado. Morremos mais cedo, infartamos, brigamos, somos feridos e mutilados, precisamos matar o leão todos os dias para apresentar ao Pai. Mas nas festas temos uma folga. Casamentos, batizados, velórios, Natal e Ano Novo nossa preocupação com a apresentação é quase nula. Isso é uma bênção.

Durante 1 ano antes de me formar escutei as conversas das colegas sobre as “provas” que tinham a fazer, mas não eram os exames da residência médica, e sim as provas de roupa de formatura nas suas exigentes costureiras. Pior ainda, algumas delas me mostravam desenhos de roupas e pediam minha opinião!!

Toda a preocupação que tive com minha roupa de formatura foi engraxar meu sapato no dia da cerimônia e vestir exatamente a mesma roupa do meu casamento, que eu havia usado há 3 anos.

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Destino sábio

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Neste ano de 2017 completarei 40 anos de namoro. Comecei a namorar aos 17 anos, quando fazia cursinho pré-vestibular. Tinha a fixação de cursar medicina desde os 15 anos, surgida em uma enigmática epifania ao abanar para minha mãe que embarcava para a Europa para lá encontrar meu pai. Minha namorada não tinha muita certeza do que fazer, mas queria também cursar algo na área da saúde.

Havia dois cursos públicos de Medicina na época: Universidade Federal e Faculdade Católica  (que não era pública, mas subsidiada, portanto pagável). Para ambos estudar na PUC era absolutamente impossível; não haveria como nossos pais pagarem por isso, e nem chegamos a fazer o vestibular para lá.

Eu me decidi pelo ingresso mais difícil: a Universidade Federal, mas ela disse que teria mais chances na Católica. Fiquei muito triste de pensar que, se ambos passássemos, não seríamos colegas de turma. Consegui convencê-la a mudar de ideia e fazer para a mesma universidade que eu.

O resultado disso foi que eu passei e ela entrou em segunda opção – educação física. Só no ano seguinte ela fez novo vestibular e entrou na enfermagem. Entretanto meu remorso vem do fato de que a nota do primeiro vestibular para medicina foi insuficiente para entrar na Universidade Federal, mas teria a pontuação necessária para entrar na Faculdade Católica. Não fosse pela minha insistência egoísta em ser seu colega e ela teria cursado medicina. Assim as nossas histórias de vida teriam sido mais distantes, e por certo completamente diferentes.

Eu me divirto em pensar que hoje ela seria rica, tendo se especializado em “medicina estética”. Estaria casada com um cirurgião vascular famoso e milionário. Teria dois filhos: Wesley e Jéssica, ele surfista, ela modelo. Teria filhos só depois dos 30, pois seu namorado médico era obviamente cuidadoso e responsável. E eu …. bem eu seria para ela apenas aquela lembrança que passa pela cabeça das mulheres e que se expressa para nós como um suspiro. A gente tolamente pergunta “está cansada?” e elas, com o olhar preso no infinito, respondem “não, estou bem” e … suspiram de novo.

Por alguns anos carreguei essa fantasia e essa culpa, mas a minha namorada sempre disse que o destino foi sábio com ela. Sua realização sempre foi ligada à enfermagem. Todavia, o pensamento que hoje tenho é de que minha atitude egoísta ao desejá-la como colega e as consequências disso – não passar em medicina  e cursar enfermagem – acabaram sendo a maior bênção que eu poderia receber. A melhor parte do que fui como médico veio do fato de conviver 24h por dia com alguém cujo foco principal de seu trabalho não era cortar, intervir e medicar, mas cuidar e amparar.

Como se pode facilmente perceber, o destino foi sempre muito bondoso comigo. Por mais que 2016 tenha sido um ano de tristezas, perseguições e decepções seria uma injustiça imperdoável não olhar para trás e agradecer a dádiva de ter vivido aqui.

Feliz 2017

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Causas

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“Morro de medo de ver os fatos sendo sequestrados pelas causas ao sacrifício da verdade. Nenhuma luta honesta pode ser sustentada por mentiras.”

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Calabouço dos desejos


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Das minhas motivações sei eu; as dos outros, só eles mesmos poderiam saber. Também não carrego a esperança de um dia entendê-las ou descobrir-lhes a intimidade, pois sequer os autores dos crimes mais hediondos as conhecem plenamente.

Fico feliz de saber que as pessoas  que condenam os sujeitos (e não seus atos) o fazem agindo pelo primado da consciência e jamais tenham feito algo de forma claramente irracional e irrefletida. Nestes momentos é que percebo que durante toda a minha vida muito me afastei da lucidez e da clarividência das condutas acertadas pois que 99% das minhas ações diárias tem quase nenhum controle consciente.

Minha racionalidade é mesmo um verniz intelectual, uma fachada altiva que me dá a sensação de afastar os medos e as superstições através de uma ilusão de controle, mas que funciona como um soberano cuja imponência apenas esconde sua fragilidade.

Somos governados pelas sombras e as vozes mais poderosas que proferimos vem dos porões úmidos e frios, e não das altas e ensolaradas torres.

Condenar os que se afastam do nosso horizonte de ações não nos torna superiores, mas demonstra o quão limitado é o nosso conhecimento da alma humana no que ela guarda de luz, penumbra e profunda escuridão.

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Empatia

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A primeira vez que me deparei com essa perspectiva foi há muitos anos quando li a história de um sociólogo americano que foi estudar as comunidades negras e latinas do Harlem, em Nova York, e sua vinculação com o crime. Seu interesse era saber quais as razões levavam os jovens a entrar no mundo do tráfico  de drogas.

Sua resposta a esta pergunta me chocou pela simplicidade. Ao invés de elencar as conhecidas explicações educacionais, familiares, morais etc. ele respondia com outra pergunta: “Por que deveriam eles NÃO entrar para este mundo?“

O que ele testemunhou foi um universo de valores muito semelhante aos que controlavam nosso mundo branco e de classe média. As pessoas daquele espaço amavam, sofriam, cantavam, choravam, tinham ciúme e inveja e sonhavam como todos os humanos. Entretanto, ao contrário dos outros, eram marginalizados por não ter acesso ao consumo. Em uma sociedade em que a cidadania é constituída pela capacidade de consumir seu estatuto de pessoa era frágil, tornando-os sujeitos à margem.

Sim, marginais.

Nesse contexto, por que não aderir a uma proposta que poderia lhes oferecer acesso ao mundo do consumo, dando-lhes a possibilidade de ser, em fim, cidadãos?

“Mata!!”

“Bandido!!”

“Deixa apodrecer na cadeia!!”

Das virtudes humanas a que anda mais escassa é a empatia. Tão ocupados estamos com a periferia de nossos próprios umbigos que pouco tempo sobra para nos preocuparmos com a dor e o sofrimento alheios.

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Ordem Natural

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Se você espremer um direitista conservador neoliberal, cheio de convicções sobre a desonestidade de Lula, o “estrago petista” na economia ou a “corrupção sistemática” (que foi invenção do PT) em poucos minutos a máscara cai e o que aparece por baixo dela é a inconformidade explícita contra qualquer elemento que promova um reordenamento social. Essa ordem renovadora ofende e desafia as mentes mais simplistas que não suportam qualquer mudança nos planos que lhe oferecem conforto. Para muitos, como Janaína, estes não são nada mais do que os “planos de Deus” para nós.

Em outras palavras, o novo paradigma se impõe contra a “ordem natural”. Por isso mesmo tanto defendem o homem destinado apenas para a mulher, filhos, família, propriedade, tradição, meritocracia, livre iniciativa, estado mínimo etc. Não são modelos apenas, limitados pelo espaço e pelo tempo. Não, eles são o mapa que Deus desenhou para nós, o único caminho possível.

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Lawfare

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LAWFARE é um mecanismo que utiliza a lei de forma viciosa para condenar inimigos políticos, fazendo parecer que as perseguições abjetas e covardes tenham a aparência de simples “aplicação dura das leis”. Para isso é preciso usar os poderes à disposição para destruir o SUJEITO e desta forma atingir a MENSAGEM.

A humanização do nascimento é a MENSAGEM libertadora para milhões de mulheres sem voz e que sofrem todo tipo de violência no parto. Entretanto, ela incomoda muitos profissionais que se beneficiam do modelo atual, que objetualiza e coisifica gestantes. Por isso profissionais que se rebelam contra o abuso de cesarianas e procedimentos anacrônicos e abusivos estão sendo vítimas de LAWFARE. Como eu.

E como Lula sofre todos os dias.

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Atire a primeira pedra

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Esta semana fomos atropelados pelas imagens angustiantes de uma dupla de jovens espancado violentamente um vendedor ambulante dentro de uma estação do metrô em São Paulo. O resultado foi a morte da vítima.

Muitas vezes eu acho as reações à violência tão danosas e doentias quanto os atos cruéis a que se reportam. A gente quase nunca é suficientemente testado na vida a ponto de poder afirmar “isso eu jamais faria”. Como diria Terêncio, “O que é humano não me é estranho”. De minha parte posso me ver em qualquer dos personagens: nas travestis, nos espancadores, na vítima, nos espectadores petrificados e até nos milhares de “juízes” que imediatamente condenaram os infratores. Não me sinto – em essência – diferente de nenhum deles.

Com uma breve pesquisa na memória posso lembrar de coisas que eu fiz na minha juventude que só não se tornaram tragédias por pura sorte. Quando tinha 15 anos estava em um Grenal e joguei uma laranja de longe em um torcedor rival. A chance de acertar era desprezível, mas mesmo assim arrisquei. Ela acabou se chocando contra a cabeça de um menino da minha idade, explodindo em mil fragmento alaranjados. Sei que nada grave ocorreu porque ele saiu correndo com sua turma. Fui cumprimentado por meus parceiros pela minha “pontaria” certeira mas passei os últimos 40 anos lamentando essa atitude, só por imaginar que poderia ter se tornado uma tragédia.

Mais de 99.9% das brigas de rua e espancamentos terminam com escoriações e orgulhos feridos; esta briga no metrô de São Paulo terminou em morte – por azar. Este azar poderia ter ocorrido comigo há 40 anos em uma tola partida de futebol. Diga aí quão melhor que aqueles espancadores você me considera. Eu coloco minha ação e a dos espancadores no mesmo nível… só o acaso nos separa.

Qual a minha motivação para jogar uma laranja na cabeça de um torcedor rival? A motivação dos  espancadores foi ódio, mas não apenas do ambulante, mas de toda uma sorte de frustrações, ódios, tristezas e rancores que não me cabe julgar. A minha foi ainda mais tola: machucar alguém cujas cores na camisa eram diferentes das minhas.

No caso do metrô foi azar, mas também foi homicídio. Na minha opinião eles não queriam matar, queriam bater, mas mataram, por isso são homicidas. Eles erraram a “pontaria”, sim. Não era o objetivo a morte do ambulante; era para dar socos, pontapés e machucar, como são 99.98% das brigas de rua.

Erraram, tiveram azar e mataram.

Quando brigamos de cabeça quente não se pensa racionalmente. Tive muitas brigas na vida e sei como fica nosso estado mental. Algumas pessoas acham confortável se afastar desses sujeitos, achando-os muito diferentes de si mesmos, desumanizando-os. Eu não, pois suas atitudes são semelhantes a muitas que já tive.

Para nós é mais fácil perdoar pessoas com quem conseguimos construir uma ponte de empatia. Posso me identificar com crimes hediondos que me falam de experiências em comum, mas não é fácil fazer o mesmo com erros distantes da minha realidade.

O que estamos, afinal, medindo? O crime em si ou  nossa capacidade de compreender os dramas e angústias alheias?

E vejam, os CRIMES precisam ser julgados, mas quem se acha em condições de julgar o criminoso, no emaranhado de significados e significantes que o constitui? Quem atira a primeira pedra?

Eu sei o quão tênue é a linha que separa a barbárie da civilização. Eu consigo perceber que, oferecidas as condições de contexto e circunstância, eu mataria, mesmo sem ter nenhuma intenção e nenhuma justificativa razoável para um ato extremo como esse.

As vezes a direção incerta de uma laranja arremessada de forma irresponsável e tola pode ser a diferença entre o criminoso e o menino abusado.

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