Confesso que já vi muito piores, algumas atacando a perna inteira, com bolhas e úlceras coalescentes. Todavia, eu creio que a erisipela é o que existe de mais saudável no Bolsonaro. Em verdade, o aparecimento de um sintoma como este num momento depressivo como o que ele está passando se configura como uma legítima válvula de escape para os conteúdos emocionais extremamente danosos para a economia orgânica.
Ou seja: a erisipela (e menos ainda o estreptococo) não é a causadora do desequilíbrio, mas sua consequência – e representa sua tentativa derivativa de resolução. Sua simples supressão, com antibióticos ou tratamentos locais, não é capaz de devolver a saúde, apesar de resolver momentaneamente uma lesão local que pode inclusive ameaçar a vida.
Para Bolsonaro se “curar” – numa concepção mais analítica e profunda – seria necessário uma trajetória longa e dramática de retorno a um estado de homeostase. Todavia, não creio que ele seja capaz de empreender esta viagem de volta…
Pelé e Lula na Comemoração do cinquentenário do primeiro mundial (1958)
Já é possível sentir o bater de asas dos abutres esperando o Pelé morrer para despejar seu racismo em forma de críticas morais ao Rei do Futebol. Não é fácil para o Brasil Branco exaltar um Rei Negro. Nunca o aceitaram, e não será agora. Agora nas redes, e do alto de sua pureza moral, identitários estão postando críticas à vida privada de Pelé, numa tentativa de destruir a imagem do maior ídolo do esporte mais importante do planeta.
Sempre que eu escuto a narrativa da filha é nítido que aqueles que a contam não conhecem a história toda e estão fazendo críticas baseadas em meias verdades, mentiras e fofocas. Poucos se dão ao trabalho de escutar os dois lados do enredo. Mas antes desse episódio Pelé já era atacado por “não ajudar Garrincha” – sendo desmentido por Elza Soares – ou de “não ter ido ao seu enterro“, como se cuidar do craque das pernas tortas (que jamais foi seu amigo) fosse sua obrigação. Sempre existiu uma enorme patrulha sobre quaisquer atos de Pelé, como se o fato de ser negro e famoso lhe conferisse uma dívida com os brancos que permitiram a sua notoriedade.
Quando Pelé dedicou o milésimo gol às crianças, naquele jogo emblemático no Maracanã contra o Vasco, foi porque não passava de um ingênuo que estava fazendo demagogia. Quando levou o nome do Brasil para todo o mundo, sendo eleito o maior atleta do século XX e patrimônio da humanidade, o fez apenas por dinheiro. Se foi o maior jogador do mundo é apenas porque “naquele tempo era mais fácil”, mesmo que as agruras do futebol violento a que foi submetido nos anos 60-70 fossem inimagináveis quando comparamos com o que é praticado nos dias de hoje.
Em verdade os ataques a Pelé muito se assemelham às agressões sofridas por Lula desde que este se destacou como líder no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Paulista. Quando Lula ressaltou a importância de dona Marisa na criação do PT em seu velório foi atacado por estar fazendo comício sobre um corpo já sem vida. Se Lula vai a um restaurante caro é um “comunista gourmet”, mas se faz um piquenique com dona Marisa e carrega um cooler de isopor na cabeça é porque não passa de um populista criando um personagem. Quando Lula visitou um apartamento, sem jamais ter a posse do mesmo, foi caçado impiedosamente por uma horda de promotores fanáticos e um juiz corrupto.
A verdade é que, inobstante o que façam, Pelé e Lula jamais serão aceitos pela burguesia deste país exatamente por serem quem são: representantes das camadas populares, do povo pobre, dos descamisados, dos negros, dos operários, dos mulatos, nordestinos e retirantes. Ídolos dos torcedores cuja alegria máxima é o gol e heróis para os pobres que sonham com uma vida digna para sua família. Não há perdão para os ídolos que, emergindo das camadas inferiores da sociedade, tornam-se ícones planetários por suas habilidades, seja no esporte ou na política.
Não terei pena daqueles que resolverem tripudiar sobre o corpo frágil do Rei do Futebol, o atleta máximo do século XX, o maior gênio que o esporte já criou neste planeta. Eu me impressiono muito com o esforço imenso que algumas pessoas fazem para odiar Pelé. Pois eu digo: odeiem o Chico Buarque também. Apesar de ser branco, se procurarem bem vão achar alguma razão para ele ser cancelado. Vamos, sei que imaginação não lhes falta.
Em uma página de Facebook encontrei uma apaixonada defesa da Alemanha em que se tenta apostar na tese, muito disseminada no governo Dilma, de que os alemães são uma civilização superior e que essa superioridade moral determinou a vitória de 7 x 1 sobre um Brasil que construiu “estádios fantasmas” e estava grávido de bolsonarismo.
Estas teses xenofílicas e viralatistas, que apostam na inferioridade natural dos povos abaixo do Equador, são muito comuns aqui no sul do Brasil. O autor da página é de ascendência italiana e frequentemente dispara ataques violentos contra o cidadão Neymar, e recebeu de mim um discreto contraponto. Acho sua manifestação quase um estereótipo daquelas que testemunhei durante toda minha vida surgindo de colonos, tanto alemães quanto italianos do Sul do país e que estão na origem do bolsonarismo por estas bandas.
Sua manifestação trouxe também alguns pontos bem curiosos. Faz uma critica à gozação contra a Alemanha por sua desclassificação chamando-a de xenofobia mas, para além disso, trouxe uma informação final impressionante. Disse ele:
“É sério que tem torcedor de copa comemorando a eliminação da Alemanha por causa dos 7×1? Vocês acham mesmo que a culpa disso foi da Alemanha, que em um Brasil já grávido de Bolsonaro deu um exemplo de civilidade construindo um CT e deixando como legado, enquanto nosso país construiu estádios fantasmas? É tipo a rivalidade Brasil e Argentina, criada pelo Galvão Bueno em 1990. Vocês são sem noção.”
Ou seja, a velha marca macunaímica de achar que os europeus são moralmente superiores e nós, meros colonizados, não passamos de corruptos e perdulários. Ou seja, nossa derrota de 7 x 1 não foi pela lesão do Neymar no jogo anterior, ou pelos erros táticos do nosso time. Sequer ocorreu pela superioridade tática e técnica dos alemães. Não, ela ocorreu porque eles são alemães e nós simples brazucas, subdesenvolvidos, corruptos e moralmente inferiores, adoradores de Bolsonaro.
Mas o mais inacreditável da manifestação foi a frase final. A rivalidade Brasil x Argentina foi criada por Galvão Bueno? Em 1990?? E a “Copa Roca”? E a pauleira que os argentinos deram no Santos de Pelé nas libertadores dos anos 60? O que dizer da Copa de 78 na Argentina, e as suspeitas do jogo comprado do Peru para nos desclassificar? E o frenesi da nossa vitória por 3 x 1 no embate de 82? E nossa derrota em 90, com direito a envenenarem a água dada aos brasileiros?
Eu acompanho essa rivalidade desde os anos 60 e sei bem como é. A insinuação de que a maior rivalidade futebolística entre nações surgiu há 30 anos por causa de um narrador esportivo não faz sentido algum, mas bem demonstra o desconhecimento sobre essa disputa já centenária.
Quanto à Alemanha, nossa “vingança” contra eles só haverá no dia que eliminarmos os alemães na casa deles numa Copa, fazendo uma sonora goleada. Caso contrário, não. Precisamos maturidade para aceitar nossa derrota, assim como só conseguimos ser campeões do mundo após aceitar o fracasso de 1950.
Depois de explicar o quanto é absurdo considerar a rivalidade Brasil x Argentina como uma simples “invenção de Galvão Bueno” fui, claro, bloqueado.
Propaganda imperialista tradicional, manjada e corriqueira. Parece com as piadas que se usava nos anos 70 para estereotipar os ditadores africanos. A ideia é sempre mostrar os árabes (apesar dos iranianos não serem árabes, ainda que sejam muçulmanos) como bárbaros, selvagens, violentos e incivilizados. Pura propaganda. Entrem no Facebook, no Twitter e no WhatsApp e verão a quantidade enorme de ameaças feitas a todo mundo, mas ninguém coloca estas tolices como manchete principal com o único propósito de manchar a índole de uma nação.
Agora imaginem o que aconteceria no Brasil se a nossa seleção resolvesse ficar em silêncio e não cantasse nosso hino até que, por exemplo, revelassem quem mandou matar Marielle. E aí…. o que fariam os bolsonaristas? Talvez mandassem uma delegação ao Qatar com uma tonelada de pendrives para arremessar nos jogadores.
Todos já ouviram ou testemunharam algum dia o discurso de um sujeito que acredita na planicidade do planeta Terra em contraposição à versão hegemônica de que ela é redonda – ou bem perto disso. A esfericidade da Terra sempre nos pareceu um conceito bem claro, cientificamente determinado, claramente estabelecido por milhares de anos de observações e comprovações vindas do mundo da Ciência. Todavia, por mais estabelecida que seja esta crença ela começou a sofrer há poucos anos uma contestação muito poderosa de um grupo chamado de Terraplanistas.
Em verdade a ideia de contestar a versão dominante de uma Terra esférica renasceu depois de milhares de anos apenas em meados do século XIX. Quem primeiro a lançou foi um médico e inventor chamado Samuel Rowbotham (1816-1884) que escreveu em 1849 um panfleto (posteriormente transformado em livro em 1881) chamado “Astronomia Zetética – A Terra não é um Globo”, sob o pseudônimo de “Parallax”. Neste livro ele aponta uma série de “contradições” no modelo “globalista” e demonstra que a Terra é, em verdade, um disco com o polo Norte ao centro, tendo em suas bordas uma muralha de gelo, estando o Sol, a Lua e as demais estrelas apenas alguns poucos quilômetros acima de nossas cabeças. Essas ideia acabaram ficando restritas a um grupo diminuto de pessoas até que em 2016 começaram a ser publicados vídeos no YouTube que defendiam a tese de uma Terra Plana em contraposição à crença disseminada de que ela é uma bola que gira, tão redonda quanto o Sol, a Lua e as estrelas do firmamento. Aí se inicia o apogeu desta tese.
Entretanto, mais interessante do que entender porque Samuel e seus seguidores resolveram questionar uma das concepções mais arraigadas do conhecimento popular, é o título do livro: “Astronomia Zetética“. Afinal, o que isso quer dizer?
Zetética é uma palavra derivada do grego “zetein“, e significa perguntar, questionar, perscrutar e tem como finalidade desmanchar as concepções pétreas que carregamos como verdade, sem perceber que não são baseadas na observação clara dos fenômenos, colocando-as sob escrutínio infinito, sendo, portanto, explicitamente especulativa. O fundamento básico do zeteticismo é a dúvida, e seu método é analítico. Desta forma, para fazer suas investigações sobre a razão primeira de qualquer fenômeno, vai fundo no questionamento das premissas que o sustentam. Ou seja, o zeteticismo é essencialmente um modelo cético e radicalmente empírico de busca da verdade.
Nas palavras da professora Sabine Hossenfelder a ideia da Terra Plana está, apesar de toda a retórica que a sustenta, profundamente equivocada, mas isso não torna a ideia terraplanista uma profunda estupidez. Apesar de estar errada, sua sustentação é criativa, inteligente e curiosa, mas se sustenta em um erro lógico importante: afirmam que a Terra é plana pela falha dos seus detratores em provar o contrário. Em verdade, os erros do terraplanismo são até fáceis de explicar, mas os argumentos utilizados pelos cientistas para provar que vivemos em um Globo não são aceitos por seus adeptos por serem meros “argumentos de autoridade“. Como existe uma ciência muito elaborada para explicar o conceito de globo terrestre e a lei da gravidade, que não é acessível imediatamente aos sentidos, as evidências são rejeitadas.
Mesmo que as concepções da Terra Plana tenham se modificado nestes últimos 150 anos, o modelo de compreensão continua baseado na filosofia zeteticista, a qual assevera que “se quisermos entender a natureza deveremos nos basear tão somente na informação que nos chega através dos sentidos”. Por isso é tão fácil contestar o heliocentrismo, já que os nossos sentidos atestam com clareza que o sol se move diariamente sobre nossas cabeças, enquanto o chão se mantém estático. Quando navegamos pelos inúmeros vídeos que circulam pela Internet a respeito do tema veremos que os argumentos utilizados pelos defensores se baseiam claramente nesta perspectiva filosófica. Em um deles pessoas contestam a esfericidade da Terra ao mostrar a Lua e o Por do sol ao mesmo tempo, demonstrando que ambas estão visíveis a partir de uma terra plana. Outros vídeos, ainda mais simples, mostram pessoas com réguas emparelhadas com o horizonte do oceano, como a demonstrar que a ideia de uma curvatura é falsa, e que nossos sentidos provam essa falácia. Em seu livro Rowbotham nos diz explicitamente que “não vivemos em um mundo heliocêntrico esférico, e isso pode ser comprovado pelos nossos sentidos“.
Essa tese é muito semelhante ao zeteticismo aplicado pelos bolsonaristas nas últimas eleições, que exercitam um ceticismo e um empirismo que os leva às últimas consequências. Por isso pedem provas de que as urnas não foram fraudadas sem, contudo, apresentarem provas de ilegalidades ou vícios nas votações de 1º e 2º turnos. Assim, vociferam contra as eleições como autômatos, apenas por não aceitarem a derrota que o bolsonarismo teve nas urnas. Por certo que por trás dessa descrença não existe um “amor exaltado pela verdade”, mas sim um interesse de caráter político para permitir que os fazendeiros, latifundiários, financistas, militares, líderes evangélicos e especuladores possam manter um mandatário do seu interesse – e sob seu controle – no governo central. Por fim, é claro que os argumentos usados por estes “patriotas” – que se aglomeram em frente aos quartéis, passando privações e usando banheiros unissex enquanto cantam hinos nacionalistas – muito se assemelham ao zeteticismo dos terraplanistas, pois rejeitam a realidade através de um ceticismo radical pelo qual se negam a enxergar a vitória das forças populares nas eleições majoritárias de 2022. Desta forma, entender as bases dessa filosofia e suas consequências mais radicais nos ajudam a entender o bolsonarismo e sua negação da realidade, suas fantasias e o delírio anticomunista que pregam.
É importante levar a sério tanto os terraplanistas quanto os negacionistas que desejam a volta da ditadura militar. Se eles partem de um ponto correto – o ceticismo que nos estimula a duvidar e investigar sem preconceitos – eles o desvirtuam ao rejeitar sistematicamente as evidências científicas sólidas e bem estruturadas que lhes são apresentadas, demonstrando que seu ceticismo é apenas a fachada para encobrir ações antidemocráticas que desprezam a ciência em nome dos seus interesses.
Um jovem, cuidado por um padrasto militar e explicitamente nazista, pega armas do pai (CAC), vai para dois colégios munido de armamento pesado e mata várias pessoas. Depois disso volta para casa e vai para a praia com a família. Parece um enredo de uma peça de Nelson Rodrigues, mas é apenas o fato ocorrido na cidade de Aracruz, no interior do Espírito Santo. Apesar de ser algo pouco comum no Brasil é algo que ocorre diariamente nos Estados Unidos (school shootings), o país que mais produz este tipo de ação destrutiva. Parece que as iniciativas de distribuição de armas protagonizada por Bolsonaro estão desde já mostrando seus resultados.
Diante da barbárie desta ação, e a frieza com a qual foi conduzida, nos perguntamos: Por quê?
Parafraseando Tolstói, “As pessoas que não matam o fazem por uma única razão; as que matam o fazem pelas mais diversas razões”. As que não matam tem estruturas psíquicas – muito mais do que a lei – que as impedem de tirar a vida de alguém. Mas todas as explicações que eu poderia dar para o fato de alguém matar um semelhante se encontram confinadas apenas ao espectro da neurose; não há como me identificar com alguém que circula na perversão. Estas razões são para mim são um mistério.
Para alguns a resposta é simples: “São criminosos brutais. Gente do mal. Que se entendam com a lei”. Neste caso, para que debater? Coloquem logo em uma jaula. Pronto, o problema está resolvido. Simples, não? Mas com esta simplificação não teremos mais a necessidade de abordar estes casos através do cientista social, do criminologista, da assistente social, do psicanalista e do psicólogo. Precisamos apenas sistema judiciário e carcereiros. Ahhh… e se o espancador não for da cor “normal” a gente sabe como o judiciário atua, não?
Veja, esse é o pensamento clássico punitivista, um modelo moralista que entende as pessoas de uma determinada localidade (cidade, país, planeta) como divididas entre dois grupos essenciais: pessoas “do bem” e pessoas “do mal“. Todo mundo conhece um bolsonarista que usa essa perspectiva e essa divisão da sociedade. Nessa lógica a aplicação da lei e a segregação (ou mesmo eliminação) das pessoas “do mal”, com eficiência e precisão, determinará que na sociedade (e em liberdade) sobrem apenas as pessoas “do bem”. Assim, a lei depura “o cesto que contém maçãs podres”.
E aqui está nossa dose diária de essencialismo moralizante. Esse é o pensamento neoliberal de direita, de gente de bem, armada, que atira em assaltantes, criminosos, traficantes etc. Quem pode dizer que estão errados?
Bem, eu digo. Se estes sujeitos são criminosos – e precisamos contê-los – isso não impede que sejam entendidos em suas motivações. Pelo contrário, precisamos levar a fundo a pergunta que é fundamental: “O que leva alguém a matar…” pois sem essa resposta faremos o mesmo que os americanos, que transformaram a América Livre no “país dos prisioneiros”, um lugar onde quase 2.3 milhões de pessoas estão encarceradas a um custo de mais de 50 bilhões de dólares anuais, sendo que 200 mil desses presos são mulheres e mães. Ou mesmo o Brasil, onde 920 mil pessoas tem privação da liberdade. E de que adianta esse aprisionamento em massa? Do ponto de vista da eliminação da violência NADA. As ações punitivas tem resultados pífios. O crime é muito mais consequência do que causa. Colocar gente na prisão apenas abre vaga para novatos aqui fora…
Um sujeito que espanca talvez peça socorro. Outro está reproduzindo a única matriz de relacionamento que aprendeu na infância. Outro é psicopata. Aquele outro se vingou de um espancamento que recebeu previamente. Cada sujeito espanca por sua história e suas dores. Mulheres são as maiores espancadoras de crianças – mas a gente encontra justificativas com muito mais facilidade, não? – e também elas precisam ser entendidas para podermos curar a ferida da violência doméstica em sua origem, e não na ponta do iceberg – a pancada explícita e pública.
Dizer que estes sujeitos são criminosos é a típica meia-verdade, porque quem furta uma blusa na loja do centro também é ladrão, assim como a mulher pobre que rouba comida para dar aos filhos famintos, mas a história por trás desses furtos muitas vezes pode nos fazer entender a lógica que os motivam. E sem entende esta lógica jamais conseguiremos prever que novos crimes ocorram, exatamente porque desconhecemos a fonte de onde brota. Por trás dessas histórias por certo estará a estrutura perversa da nossa sociedade, a falha do capitalismo em oferecer justiça social e equidade e sua decadência espalhafatosa, que faz surgir em várias partes do mundo a sombra monstruosa do fascismo e, aqui no Brasil, sua vertente mais excludente e violenta: o neonazismo moreno brazuca.
Desta forma, sem entender o sujeito criminoso e o contexto político, econômico e social que o envolve qualquer abordagem será parcial. Prender o criminoso, seja ele o espancador, o assassino, o ladrão pode ter o efeito de estancar a hemorragia temporariamente – e por isso não podemos abrir mão da repressão ao crime – mas nada faz para impedir que novos cortes ocorram na carne da sociedade. Somos uma sociedade perversa; como esperávamos que os sujeitos que nela se criam não tomassem a perversidade como um signo a seguir?
Publiquei em outros lugares esta minha breve análise sobre vida em comunidade mas acredito que possa ser pertinente expandir o debate para mostrar o que realmente significa “viver em comunidade”. Minha motivação foi o fato de morar há 3 anos em uma comunidade, ter visitado comunidades como Osho Rashana e Findhorn (em Inverness na Escócia), e por ter lido esse post, que é uma bela provocação. Minha intenção é mostrar o quanto do que está escrito nele é profundamente fantasioso e idealista.
De uma forma geral as comunidades são empreendimentos de altíssimo risco. Quando me perguntam se é difícil uso o mesmo argumento para abordar o problema do “trissal“: se já é um terror com duas pessoas, imagine adicionar 50 pessoas no projeto.
Antes de abordar o sonho de criar uma vida comunitária é forçoso saber que existem 5 grandes fatores de dissolução de comunidades, a saber:
1. Comida. O tipo de alimentação é muito importante em especial nos grupos cuja motivação congregacional – também chamada “cola” – é religiosa. Mesmo em grupos pequenos o convívio de um churrasqueiro com grupos veganos pode se tornar insuportável. Também algumas restrições ligadas à religião, como carne de porco e crustáceos podem ser motivo de atrito. Na maioria das vezes a questão é vegetarianismo e carnivorismo, geralmente um “osso duro de roer”.
2. Religião. Não exatamente as crenças, normalmente bem toleradas, mas suas práticas. Isso até mesmo é importante em vertentes diversas dentro de uma mesma religião, como xiitas e sunitas, católicos e protestantes. Ateus e suas práticas niilistas em geral são mal tolerados. Satanistas são festeiros e em geral são gente boa, mas quem aguenta alguém dizendo “Deus é uma mera criação humana” todos os dias, ou “Onde está teu Deus agora?”.
3. Animais domésticos. Esses conflitos são terríveis em comunidades, e basta ver as brigas em condomínios de apartamentos para ver o quanto uma comunidade sem muros pode produzir atritos e até dissoluções por gatos, cães, galinhas, passarinhos, coelhos, etc. Os cachorros largam pelo, os gatos dão alergia, galos cantam ao alvorecer, galinhas cacarejam e, para piorar, as “mães e pais de pet” tem tolerância zero com atitudes é palavras grosseiras dirigidas aos seus filhos.
4. Drogas. Sim, mas qualquer droga, da caipirinha às metanfetaminas, passando por maconha e ópio. Até café, chá e Coca-Cola podem ser motivo para disputas, dependendo se houver mórmons na comunidade. Maconha é o uso mais frequente depois do álcool e cigarros, e todos são potencialmente conflituosos. Gente passada no álcool ou “muito loucos” destroem uma comunidade em minutos.
5. Conflitos pessoais. Nem precisa pressionar muito a imaginação para perceber o quanto a proximidade em uma vida comunitária estimula conflitos. Basta ver namorados que nunca brigam, mas bastou viverem juntos para que os enfrentamentos apareçam e tornem a vida de ambos insuportável. Coloque num caldeirão vários indivíduos com traumas, tristezas, vivências e valores diversos e a chance de sair uma sopa bem azeda é enorme. Além disso, ninguém conhece suficiente bem alguém antes de conviver com ele e suportar os choques inevitáveis do cotidiano.
Em suma, como diria León Tolstói em Anna Karenina, “Todas as famílias felizes são iguais; as infelizes o são cada uma à sua maneira“. Da mesma forma as comunidades que perduram são iguais em sua tolerância às diferenças e pela manutenção de uma cola unificadora firme e persistente. São caracterizadas por resiliência e respeito aos modos de cada família, estabelecendo regras e muros sólidos para evitar que conflitos perdurem mais do que o suportável. Já as comunidades que fracassam o fazem cada uma à sua maneira específica, que pode ser através de qualquer um dos elementos mais frequentes listados acima ou por fatores absolutamente únicos. As tragédias, como bem o sabemos, tem seu curso variado, insidioso, silente e muitas vezes imperceptível.
É claro que a pessoa que publicou este post o fez por puro humor. Criou uma situação idílica onde todos seriam felizes juntos, tão irreal quanto o “viveram felizes para sempre” que encerrava as histórias de príncipes e princesas nos contos de fadas. Entretanto é bom ter em mente que a salada de valores e projetos que consta no texto levaria muito facilmente o projeto a um retumbante fracasso – e num curto espaço de tempo. Em verdade, a estatística sobre o tema é bem clara: apenas uma de cada dez comunidades que se iniciam prospera. As outras todas sucumbem, muitas vezes deixando um rastro de ressentimento e decepção para trás.
Militante invadiu o campo com a bandeira do arco íris e a camiseta do Superman, com apoio às mulheres do Irã e o apoio à Ucrânia
Durante o jogo de Portugal contra o Uruguai pela Copa do Mundo de 2022 o jogo foi interrompido pela entrada de um manifestante vestindo uma camiseta do “Super Homem” contendo um explícito apoio aos gays e às mulheres do Irã. Entretanto, na sua camiseta à frente, em letras grandes apareciam os dizeres…. “Salvem a Ucrânia”. Claro, não poderia faltar o símbolo Tryzub do nacionalismo ucraniano no braço do ativista.
Sim, o objetivo era associar a luta pelos direitos gays e femininos com a guerra do Otanistão contra a Rússia. Para os novatos parece uma manifestação de apoio aos oprimidos, mas para quem conhece as manobras do poder hegemônico esta é uma tática antiga frequentemente utilizada. Entretanto, é inacreditável como ainda é fácil vender propaganda imperialista para identitários. Como sempre, de início a gente engole sem mastigar mas o problema depois é defecar todo essa mistura indigesta de boas causas com guerra e dominação ideológica e militar. Aliás, a camiseta do Superman é quase um deboche para as mentes ingênuas ou descrentes. Não há nada de nobre e de ingênuo nessa mistura de causas.
Neste caso, a defesa dos oprimidos vem acompanhada de propaganda para a manutenção do poder do Império criando, de forma esperta, um “combo” indissociável. Assim, se você é a favor da causa dos gays, trans, mulheres e qualquer outra minoria precisa estar associado à aventura belicista e russofóbica da guerra da Ucrânia, nem que para isso precise estar também apoiando os grupos nazistas mais violentos, brutais e abjetos da atualidade.
O mesmo é feito em qualquer invasão americana a países soberanos. A isca é sempre “direitos humanos”, “democracia” e “derrubada de tiranos sanguinários” – cujos feitos maléficos são fabricados nos laboratórios de fake news da imprensa hegemônica. Todavia, com isso compramos no “pacote” as guerras de dominação, que ao invadir para controlar o petróleo e outros recursos naturais deixamos um rastro de mais de 1 milhão de mortos durante a invasão no Iraque, grande parte deles de mulheres e crianças.
Aos identitários cabe uma boa parte de responsabilidade pela ingenuidade que os leva a comprar essa propaganda nojenta travestida de boas intenções. A nobre causa dos negros, trans, mulheres, gays, imigrantes, etc não pode ser tratada desta forma repugnante, prostituindo suas intenções originais em nome da garantia de privilégios ao Império. O exemplo do “pinkwashing sionista“* – que criou a falsa ideia de uma democracia sexual em Israel contra a “barbárie” do Islã para encobrir o massacre da população da Palestina – recebe de muitos brasileiros simpatia e apoio, como ocorreu com um ex deputado que defende a causa gay.
É contra esse tipo de engodo que a esquerda – e todos os grupos e partidos anti imperialistas – precisam se opor. Dar voz aos “Cavalos de Troia” que levam o imperialismo escondido no ventre de suas boas intenções aparentes é um crime contra a soberania dos povos.
* Pinkwashing (lavagem rosa ou lavagem de imagem rosa) é um empréstimo linguístico (do inglês pink, rosa, e whitewash, branquear ou encobrir) para referir-se, no contexto dos direitos LGBT, à variedade de estratégias políticas e de marketing dirigidas à promoção de instituições, países, pessoas, produtos ou empresas apelando a sua condição de simpatizante LGBT. A expressão é especialmente usada para referir à “lavagem de imagem” do Estado de Israel que, promovendo a sua população LGBT+, disfarça a violação sistêmica dos direitos humanos da população palestina. (wikipedia)
O futebol é pródigo em criar vilões e heróis, em especial na copa do mundo onde as emoções e projeções que lançamos em direção aos ídolos se misturam com sentimentos de nacionalismo e fervor patriótico. Isto é natural. O que me parece necessário é que estas paixões guardem alguma relação com a realidade, e não sejamos presa fácil das fantasias de “capa e espada”, criando mocinhos e bandidos, onde o Mau é vil e perverso, e o Bem é simples, humilde e puro, sem matizes e sem contradições.
Na busca de construir o vilão perfeito obscurecemos suas qualidades e priorizamos seus defeitos e falhas, enquanto exaltamos apenas as virtudes do herói, para produzirmos a imagem mais perfeita e acabada dos nossos ídolos. Por isso mostramos a imagem da esquerda, e suprimimos a foto da direita. Afinal, o Neymar companheiro, solidário e que compartilha a alegria com seus parceiros não cabe nessa narrativa.
O problema é que estas imagens são construções midiáticas que nem sempre se adaptam à vida real. Servem tão somente ao nosso desejo de criar projeções e espantalhos, mas com isso inevitavelmente produzimos injustiças. Existe muita maldade no bem, e muita bondade no mal aparente. Ou, como diria Caetano, “O mau é bom e o bem cruel“. Acreditar que aquele é um anjo de braços abertos enquanto este é um demônio frio e insensível é falso. A vida é um pouco mais complexa do que as novelas mexicanas nos fazem crer. Não se deixar capturar pela armadilha da imagética é uma forma de se proteger dos maus julgamentos.
Vou explicar da seguinte maneira: se o Brasil HOJE fosse invadido pela Argentina do “esquerdista” Fernandes, ou pelos Estados Unidos do Biden, eu estaria ao lado de Bolsonaro defendendo o ESTADO brasileiro, mesmo sendo crítico ao seu governo. É uma hierarquia de valores. Não gosto do Neymar, mas ele está com a camiseta do Brasil, e não vou torcer contra os interesses do meu país.
A discussão é entre “autor e obra”, mas também entre “governo e Estado”. O único problema é que esse tipo de lógica só é usada para alguns, e não para todos. Se vocês cancelassem TODOS que tem este tipo de falha moral a sociedade ocidental teria que eliminar todos os livros do racista Fernando Pessoa, ou de Simone de Beauvoir por seu comportamento e algumas teses que sustentou. E a lista seria imensa; em verdade duvido que sobre alguém. Mas as pessoas escolhem alguns alvos enquanto passam pano para outros. É uma “lei de cancelamentos” que ora é aplicada, ora desconsiderada. A postura política de Neymar agora nos serve como falha moral, mas no passado já foi seu comportamento sexual. A verdade é que Neymar gera esse tipo de sentimento e a gente fica escolhendo coisas que se encaixem no “index cancelatorium” para poder atacá-lo.
Aliás, a propósito da Argentina, eu tenho uma dúvida. A sociedade Argentina também é dividida entre posições à direita e à esquerda. Seu maior ídolo no futebol, quase uma divindade do ludopédio, foi Diego Armando Maradona. Pergunto: será que a direita Argentina cancelou e torceu contra sua seleção quando ele tatuou a imagem de Che Guevara, um comunista e guerrilheiro argentino, em seu braço? Ou os hermanos conservadores perceberam que, apesar das diferenças políticas, ele continuava a ser o maior representante da história e da glória da sua seleção?
Só curiosidade mesmo….
A culpa, como sempre, é da Globo. Não fossem por suas novelas e hoje não estaríamos tratando a seleção e seus jogadores como personagem de um folhetim de Gilberto Braga. Richarlison é o formoso galã, o rapaz que exala virtudes e humildade por onde passa. Neymar é nossa Odete Roitman, o vilão para quem Vale Tudo, cuja queda será o gozo mórbido para uma parte da nação.
“É exatamente quando o sujeito se considera infenso às influência das ideologias que elas mais se apoderam de sua alma e o controlam, sem que este perceba o domínio que exercem. A corrosão ideológica é sutil e insidiosa, transparente e silenciosa; enquanto o come por dentro impregna todos os seus sentidos”.
Esta é minha singela colaboração à uma ideia de Zizek sobre as ideologias – aquilo no que acreditamos sem saber a razão. Lembrei dela hoje porque me veio à mente a frase de um médico, dita há uma década, que sempre me alertou para a falha da formação Universitária em proporcionar o ensino da filosofia nas faculdades da saúde. A frase era: “Não existe ideologia na Medicina; existem apenas boas e más práticas.”
Não resta dúvida…. quanto mais o sujeito não enxerga a ideologia que o controla, mais ela está no comando de suas ações