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Liberais

Há alguns anos eu conversava com o pediatra e epidemiologista Marsden Wagner (já falecido) enquanto tomávamos café no intervalo de uma conferência. Mostrei a ele a manifestação de um professor da Faculdade de Medicina da minha cidade sobre parto humanizado, cheia de críticas vulgares e posturas sem embasamento.

– Um “liberal”, disse ele. Estes são sempre os mais perigosos.

Pedi que me explicasse o que queria dizer com isso.

– Vou descrevê-lo, mesmo sem tê-lo visto jamais. Ele é sério, educado, afirma que mudanças são necessárias, que os médicos realmente abusam das cesarianas, que é preciso melhorar o ensino de obstetrícia, que os médicos de hoje não querem mais atender partos, que a arte obstétrica está acabando e que os médicos atuais “atrofiaram” suas habilidades de atender partos pélvicos e gemelares. Ele se posiciona contra condutas baseadas em “autoridade” e cita com frequência estudos e metanálises, em especial a Biblioteca Cochrane.

– Exatamente, disse eu. Você o descreveu muito bem.

Marsden continuou.

– Eles são os liberais da medicina, Ric. Acreditam que é possível “ajustar” o modelo hegemônico, sem mudar sua essência opressiva. Acham que as falhas encontradas (como o abuso de cesarianas, violência obstétrica, etc) não são devidas a um paradigma equivocado, mas relacionadas ao mau uso do modelo atual. Por isso eles falam em melhorar o atendimento, mas não aceitam sua reformulação. Aposto como ele combate os 3 pontos nevrálgicos do modelo de parteria:

1- Atendimento por parteiras profissionais aos partos de risco habitual,
2- Casas de Parto e
3- Parto Domiciliar.


– Acertei?

– Sim, este é exatamente seu discurso. Sempre fez de tudo para boicotar o atendimento ao parto realizado pela enfermagem no hospital escola, além de combater todas as formas de parto extra-hospitalar.

– Eles são iguais no mundo todo, meu caro. São gentis, estudiosos, avançados e se diferenciam da “velha guarda” dos professores. Entretanto, acreditam que é possível mudar a assistência deixando as pacientes atreladas ao velho paradigma – que garante aos profissionais relevância e importância social – mantendo gestantes coisificadas, tratadas como objetos e não como sujeitos de seus partos. Para eles o protagonismo reservado ao médico é o limite. Avançar para além disso seria uma perda inaceitável de controle, além de um sério risco de ver desaparecer toda a respeitabilidade conquistada.

Lembrei disso hoje ao debater sobre os liberais de esquerda, aqueles que acreditam na possibilidade de “domesticar o capitalismo”, humanizando-o e eliminando seus “exageros”, sem reconhecer que é da essência do capitalismo a divisão em classes e a exploração de uma pela outra.

O mesmo ocorre com os liberais da atenção ao parto e nascimento, os quais acreditam ser possível produzir avanços e melhorias mantendo a mesma lógica da assistência, a mesma hierarquia rígida e o mesmo sistema de poderes centrado no médico. Todavia, sem a garantia do protagonismo à mulher conquistaremos apenas a “sofisticação” da tutela sobre elas exercida há milênios pelo patriarcado. A verdadeira mudança profunda será possível com esta garantia e o entendimento que o nascimento só poderá ser verdadeiramente seguro se for com autonomia e em liberdade.

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Drogas

Sempre foi minha ideia de que não se faz bom combate ao uso de drogas com proibição. Isso se chama “proibicionismo” e não funciona no nível subjetivo. Não funciona agora – mesmo com todo dinheiro investido – assim como não funcionou há 100 anos com a “lei seca” nos Estados Unidos, que só criou “mercado paralelo” e produziu milionários (como os Kennedy) que exploravam o tráfico. Teve que ser abandonada logo depois. Da mesma forma proibir maconha é inútil e só serve para eliminar pretos e pobres e para enriquecer traficantes e políticos corruptos.

Outra coisa: não é a droga que vai fazer uma criança fracassar na vida, é o contrário. É uma vida fracassada e cheia de dores morais que vai levar um sujeito às drogas. Droga não é a origem do mal… É CONSEQUÊNCIA. A guerra às drogas é o ato desesperado de “tirar o sofá da sala”, trocando o resultado por sua causa. Este tipo de ato não produz nenhum benefício social. Não interrompe o uso e só coloca jovens pobres na cadeia onde farão a faculdade do crime. Em suma: uma perda de tempo e recursos que poderiam ser usados na prevenção.

É qual a prevenção? A resposta curta é acabar com o capitalismo, um sistema econômico que sobrevive do consumo de inutilidades (ou produtos para o desejo infinito, e não para reais necessidades) e que torna doentes e fracassados aqueles que não podem consumir. A droga se torna uma válvula de escape natural.

A resposta mais longa é parar com o estímulo à todas as drogas – sim, os remédios inclusive – dos quais as sociedades atuais se tornaram dependentes. Hoje se morre MUITO mais de ansiolíticos e antidepressivos do que de maconha e cocaína. MUITO MAIS. Por ano são 200 mil pacientes que morrem pelos efeitos colaterais de remédios prescritos, apenas nos Estados Unidos, e isso é muita gente!!! Essa medicina tecnocrática, drogal e intervencionista já é a terceira causa de morte entre os americanos, atrás apenas de doenças cardíacas e câncer.

Precisamos combater a CULTURA DA DROGA, que nos faz acreditar que a cura da angústia se vende em pílulas ou injeções. Qual a possibilidade de um adolescente não se drogar se desde a mais tenra infância ele é ensinado de que “para cada sintoma corresponde uma droga que se compra na farmácia”?

Ora… quando a adolescência e suas dúvidas e angústias começarem a doer de verdade (quem já não sentiu na pele essas dores?) ele vai procurar uma droga que lhe produza alívio; na farmácia ou na esquina. Como convencê-lo a não se drogar se a sua vida inteira houve estímulo para colocar nas drogas a solução dos dilemas????

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Classe

Perder eleição é momento, justiça social é um objetivo em longo prazo. À maioria expressiva do povo do Brasil sofre lavagem cerebral como todos que, mesmo sendo pobres, votam nos partidos dos ricos, acreditando que socialismo significa “não trabalhar”, quando é o OPOSTO: o capitalismo é que lhes dá o privilégio de não trabalhar e viver do trabalho alheio.

Ou achamos mesmo que os filhos dos milionários nos quais votamos trabalham e se esforçam igual a nós?

Não esqueça que passamos por um golpe. Lula ganharia a eleição de não fosse impedido por um juiz corrupto e uma mídia vendida. Mas eles sabiam que era necessário convencer os tolos – que consomem fake news pelo whatsapp – de que o problema do Brasil é a “corrupção do PT”. Veja… fomos tão estupidamente enganados que nem nos demos conta que (re)colocamos no poder o CENTRÃO, os partidos mais acusados de corrupção da história do Brasil. Pior, fazemos ainda vistas grossas para a corrupção da familícia do presidente. Sequer comentamos mais o fato de que nunca houve uma prova sequer contra o presidente Lula.

Em verdade, não queremos mesmo acabar com a corrupção; nunca foi do interesse da elite e dos poderosos terminar com isso. O que não suportamos é a justiça social; não desejamos acabar com a miséria, a fome ou a falta de moradias dignas. Não aceitamos pobres viajando de avião, ou comprando carros e TVs. E tudo isso porque nos consideramos “ricos”, diferentes dos pobres, apenas porque alguns tem o título de “doutor”, ou porque o mercadinho ou a lojinha nos fazem ganhar um pouquinho mais do que nosso vizinho.

Tolos… nunca faremos parte da festa dos ricos. No máximo seremos os garçons ou flanelinhas para os carros deles. Talvez o médico que vai atender a bebedeira deles e seus vômitos de canapés com Champagne.

Falta espelho. Falta ver quem somos. Falta reconhecer a classe onde fincamos nossos pés.

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Cloroquina, a droga da direita

Entrei em uma conversa numa página que criticava o uso da Cloroquina com a tese de que não há evidências de que esta droga produza benefícios, além de existirem suspeitas fortes de que seus efeitos colaterais suplantariam seus possíveis efeitos benéficos. Nada a discordar deste tipo de postura, por certo.

Resolvi, entretanto, responder dizendo que o mesmo comportamento de desconfiança com a Cloroquina deveria nos nortear em relação às vacinas – que estão sendo produzidas às pressas, nas coxas, e sem qualquer garantia de eficácia “in vivo” ou de que seus efeitos colaterais suplantam seus possíveis benefícios. Para mim é fundamental cultivar a coerência diante destas soluções exógenas criadas para tratar um desequilíbrio que – ao meu ver – tem relação com nossa ação destrutiva com o meio ambiente.

Sem surpresa fui atacado por pessoas desta página porque (ahhh, a velha falta de interpretação de texto!!) acreditaram que meu comportamento cioso com relação às vacinas (que estão para ser colocadas no mercado a “toque de caixa”), significava uma defesa da Cloroquina. Em verdade, era apenas um pedido de coerência. Se ainda guardamos na memória os desastres que já aconteceram com o uso insensato de drogas, deveríamos multiplicar nosso cuidado com uma vacina sem garantias. Não esqueçam da Talidomina, dietilbestrol, Vioxx, Rx na gestação, etc…

Porém, o que mais me chama a atenção nessas manifestações é a equação simplificadora presente nas mentes mais ingênuas. Para estes – que são até da esquerda!!! – a Cloroquina é uma droga de “direita”, pois o Bolsonaro e o Trump a defendem (ok, esquecem que Maduro, o cruel comunista, também). Por seu turno, as vacinas são de “esquerda”, porque são feitas por “cientistas”, que usam a ciência como ferramenta, sendo esta filha da razão, que é claramente de “esquerda”, em contraposição ao “misticismo” e ao “obscurantismo” que são de “direita”.

Se é importante combater a chaga do negacionismo – na história, na política e nas ciências – também é essencial entender como esta colocação de antípodas é absurda. A ciência NÃO é de esquerda, e nem de direita. Ela é apenas uma ferramenta para solucionar problemas. As vacinas, por exemplo, são medicamentos produzidos pelas indústrias mais poderosas do mundo capitalista, tanto do ponto de vista do imaginário popular quanto dos poderes sobre os governos. Achar que as vacinas – ou qualquer outra droga – representam a “Ciência” é uma conclusão tosca, em especial num planeta em que o sistema capitalista é dominante. Vacinas são drogas como quaisquer outras e sobre elas devemos ter a mesma exigência de segurança e eficácia.

A retórica das esquerdas precisa se aprimorar. A Cloroquina não é uma droga do “mal”, ou “conservadora”. Ela apenas é inútil para o uso nesta pandemia, pelo menos até onde os estudos recentes comprovam – o que pode até mudar. Para as vacinas, o mesmo raciocínio isento e equilibrado deve ser utilizado: tudo bem, desde que sejam adequadamente testadas e comprovadamente eficientes para oferecer proteção à população (tarefa que dura muitos anos para se alcançar), mas enquanto isso teremos apenas um remédio “mágico”, sem comprovação – como a Cloroquina.

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Punch Theory

Macaca-caranguejeira, como as utilizadas no estudo de Juan Carlos Izpisúa, ao lado do filhote

O alongamento do período fértil das mulheres através da intervenção tecnológica (leia sobre as recentes descobertas aqui) é um exemplo clássico do “modelo de punch” (Punch Theory) do antropólogo americano Peter Reynolds eternizado por Robbie em “Birth as an American Rite of Passage”.

O modelo capitalista determina o retardo da gravidez no mundo contemporâneo, fazendo com que a primeira (em geral a única) gestação ocorra perto do fechamento da janela fisiológica de fertilidade, no início da 5a década. Assim, ao invés de questionarmos os mecanismos sociais que retardam a maternidade – em suma o capitalismo em sua expressão social – criamos novos recursos tecnológicos para “consertar” o desequilíbrio criado por um estilo de vida que agride nossa programação paleolítica.

Evidentemente a criação de soluções para gestações após a época naturalmente determinada pelo processo adaptativo produzirá suas próprias consequências – o desaparecimento do suporte das avós jovens sendo apenas a mais óbvia – mas estas serão igualmente abordadas por outras intervenções tecnológicas, e assim sucessivamente.

O progresso científico é sempre enganoso. O que nos oferece é sempre fulgurante, mas o que nos retira fica ofuscado, as vezes por um tempo tal que impede qualquer retorno. Como… smartphones.

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A ciência

Quem trabalhou como eu durante 40 anos em um ramo que se percebe científico, mas que funciona com os mesmos dogmas e sistemas de poder como qualquer igreja, entenderia mais facilmente minha crítica à ciência como expressão humana. Falo da ciência com “c” minúsculo, aquela construção humana, e não a “Ciência” abstrata, o conhecimento racional. A primeira é uma produção contemporânea, feita por mentes humanas e carregada com sua falibilidade e corrupção; já a segunda é o ideal racional, a ferramenta da transcendência humana, mas que quase nada existe no mundo real, sendo uma habitante do mundo das ideias.

Existem fatos inequívocos que mostram a veracidade dessa visão cética sobre a ciência. Estudos demonstram que metade das condutas médicas correntes não tem uma conexão com as evidências científicas. Outras pesquisas denunciam que que as próprias pesquisas – que deveriam dar suporte às condutas médicas – não são tão confiáveis como gostaríamos de acreditar. Veja aqui.

Por vezes parece que existe um totalitarismo dos cientistas, que seguem uma espécie de “ciência soviética”, a qual produz um monobloco de visões que se colocam na posição de saber acima de todos os demais, e que condena todos os outros saberes à extinção.

Isso torna a ciência a irmã dileta da religião…

Lembro de um encontro da UNIMED do Paraná em que fui convidado a falar sobre humanização do nascimento, um evento perdulário que se realiza todos os anos. No jantar fui colocado à mesa junto com uma psiquiatra que me falou: “Há muitos avanços na psiquiatria no mundo todo, mas nenhum maior do que a extinção de todo o resquício de pensamento freudiano. Hoje sabemos que tudo o que pensamos e sentimos se resume a alterações bioquímicas dentro do cérebro. Isso inclui dor, prazer e até o sabor dessa sobremesa“.

Fiquei esperando ela terminar dizendo “… e Fiel é o Senhor”, mas ela apenas sorriu com um olhar que apenas aqueles que falam de uma posição de certeza e fé inabalável possuem.

Quando trabalhamos dentro de um hospital ou de um laboratório é muito mais simples perceber de forma clara as incongruências e paradoxos do sistema. Da mesma forma, se você trabalhar na justiça verá que a mulher que segura a balança NUNCA está usando vendas e estará sempre com os olhos bem abertos para manter e garantir o poder para quem tradicionalmente o controla: as castas superiores que detém o domínio sobre os recursos e a produção.

E digo mais: quem trabalhou por muitos anos em traduções sabe que as traduções são realmente “traições” e não existe uma sequer que seja “isenta” ou “neutra”; sempre haverá a ideologia do tradutor na obra que traduz. A ideia positivista de uma tradução sem viés é tão ingênua quanto a de uma medicina ou uma justiça não ideológicas.

Por isso não é difícil dizer que na ciência não poderia ser diferente. O quê – e como – investigamos, assim como os próprios resultados que atingimos, são determinados pelas nossas ideologias e sustentadas pelos dois grandes pilares da civilização contemporânea: o capitalismo e o patriarcado. Ambos decadentes, mas ainda vigorosos o suficiente para ditarem as regras para o mundo em que vivemos. Enxergar a ciência pelo que ela verdadeiramente é, sem as fantasias de isenção ou neutralidade, não a diminui, mas a conduz à condição de criação social digna dos valores do seu tempo.

Perceber a complexidade da cultura é fundamental para não nos deixarmos engolir pelas visões ingênuas de imparcialidade que nos tentam impor. A decisão de passar um bisturi e rasgar a pele de um doente, ou de bater o martelo para condenar são produzidas no âmago de nossas convicções mais profundas, mais afetivas e menos racionais. Somos governados por nosso fígado, pelos nossos instintos menos nobres como medo, angústia e egoísmo, muito mais do que pela tênue camada de massa cinzenta que envolve nosso cérebro.

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Hipocrisia capitalista

Ontem mesmo vi uma peça publicitária com o empresário, símbolo do bolsonarismo, Luciano Hang – o Véio da Havan – vestido de Papai Noel, o bonzinho do Natal. Sim, o mesmo personagem macabro que alguns dias antes debochou das necessidades das pessoas com deficiência; o mesmo condenado por fraude fiscal, o mesmo que desprezou as universidades públicas e aquele empresário que mais apoia o fascista autoritário e corrupto na presidência.

Claro que era um Papai Noel vestido de azul, pois se trata de uma propaganda anti comunista – aqui entendido como qualquer projeto de justiça social que afete a liberdade de enriquecer às custas do trabalho alheio.

As crianças – e alguns adultos – vividamente se emocionaram com os presentes oferecidos pelo personagem que o empresário encarna uma vez ao ano. Na verdade, este tipo de encenação não é nenhuma novidade. No início do século passado John D. Rockefeller – o mais rico e ganancioso dos capitalistas que já habitaram esse planeta – costumava caminhar pelas ruas com os bolsos cheio de “dimes” e distribuía para as crianças que o seguiam famintas pelas ruas. O Véio da Havan apenas repete o mesmo modelo de criação de imagem que os publicitários conhecem bem. Ora… se é possível transformar Bolsonaro em algo vendável para ganhar milhões de votos, mais fácil seria transformar um sonegador em um sujeito de bom coração.

Esse é o tipo de hipocrisia mais comum no capitalismo. Um empresário sonegador (como este) distribuindo balinhas, moedas e presentinhos para os pobres nada mais faz do que tentar se livrar de suas imensas culpas – conscientes e inconscientes. Mais condenável ainda é o uso da caridade para fazer propaganda de seu negócio, oferecendo alívio para pessoas sem qualquer consciência de classe e sem energia para lutar por uma distribuição mais justa de renda.

Precisamos mesmo disso ainda??

Não é tempo de recusarmos essa farsa de benemerência produzida por sonegadores desrespeitosos? Já não está na hora de vermos com mais profundidade a perversidade na estrutura social (tributária, em especial) que produz sujeitos como esse? Por quanto tempo ainda vamos aceitar o empresário ganancioso e desonesto que uma vez por ano distribui as migalhas dos seus lucros como propaganda, vestindo uma roupa de “bom velhinho” enquanto continua a saquear nossa economia?

Não será surpresa se o dono da casa de prostituição Bahamas, em São Paulo, também venha a vestir uma roupinha de anjo para seu negócio ser aceito por todos.

Eu realmente acredito que a produção de bilionários é uma patologia. A opulência imoral concentradora de renda produz uma visão de mundo deturpada por parte da elite. Não se trata de entender os bilionários como “pessoas iguais a nós, mas com dinheiro” – como erradamente afirmava Hemingway – mas pelo entendimento da degenerescência moral produzida pelo dinheiro sem limite, onde até as pessoas são tornadas objetos que podem ser comprados, usados e descartados segundo a conveniência de um bilionário.

Desta forma, mais do que eliminar a doença da iniquidade, é fundamental criar barreiras contra o surgimento de sujeitos cuja concentração de poder (dinheiro) ameaça a democracia e impede a plena autonomia dos povos.

Os bilionários são entraves ao sonho de uma irmandade planetária. Parasitas, sanguessugas e vampiros da riqueza dos povos.

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Ciência

Querem mais um pouco da barbárie patrocinada pela medicina? Ciência à venda.

Ainda me choco – mesmo nos dias de hoje – com os positivistas da ciência que a enxergam como uma entedidade espiritual, pura e neutra, que não é contaminada pelo seu tempo, a política, os interesses e os contextos onde aparece. É comum ouvir “mas a ciência diz que…” ou ainda – a pior vertente – “os cientistas chegaram à conclusão que…” como se isso fosse uma determinação divina, uma revelação sobre a qual não se poderia questionar. Não, estas são manifestações de sua época, formas de ciencia direcionadas por valores que só fazem sentido quando olhadas em conjunto com o ambiente político e econômico.

É evidente que entender a falibilidade da ciência, em especial pelos contextos e circunstâncias sociais, significa tão somente humanizá-la, a não suprimi-la. A pior ciência ainda é melhor do que o mais sublime misticismo. Entretanto, a ciência é uma vela firme e poderosa que precisa de vento para nos levar adiante, mas quem produz esse vento somos nós.

Sem reconhecer a face humana e corruptível da ciência ela não pode evoluir.

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Medicalização da vida

Autoridades afirmam que o medo é fator preponderante que leva medicos e pacientes a uma escalada inusitada de (ab)uso de medicamentos, em geral não direcionados à cura, mas para controlar doenças crônicas e mitigar o sofrimento.

Esse medo, ao contrário do que pensam aqueles que acreditam na fragilidade essencial humana, é uma construção social que tem como objetivo o controle e a dominação por parte das corporações diretamente beneficiadas por ele.

Ainda parecemos muito reticentes em apontar a origem dessa distopia. Fazemos rodeios, elogiamos os “bons remédios”, criticamos apenas o que nos parecem ser abusos e parecemos fugir da verdade que nos incomoda. Titubeamos ao falar que, por trás dessa tragédia medicamentosa, está o capitalismo, que faz da doença uma fonte inesgotável de clientes e do medo sua mais eficiente estratégia de captação.

Enquanto a doença for fonte de lucros estratosféricos a medicalização da sociedade será uma realidade inexorável. Para cada desassossego com o estilo de vida consumista e competitivo que vivemos mais uma pílula salvadora será lançada. As revistas semanais vão continuar a nos inundar com as promessas da “cura do câncer que se aproxima”; os novos brinquedos tecnológicos que nos vasculham as entranhas continuarão a mostrar o que desejamos ver e as injeções vão aumentar nossa potência sexual, sem contudo mexer no desejo que se esvai na coisificação biologizante do sexo.

Assim, continuaremos na ilusão de descobrir a cura fora de nós, sem nós e a despeito de nós. Para cada angústia nova mais um entorpecente, um estupefaciente ou um analgésico. E as dores que deveras sentimos continuarão no lado escuro da rua, junto com a chave que não queremos encontrar.

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Notre Dame

Em apenas dois dias 1 bilhão de euros foram arrecadados para consertar e reerguer uma igreja na França. Peço que imaginem o quanto isso ajudaria a minorar o desespero dos desabrigados no Haiti ou Moçambique em seus recentes desastres. Entretanto, a morte de negros miseráveis não afeta o coração destes ungidos. O êxtase da exaltação artística é mais importante que a dor e a morte dos excluídos.

Notre Dame é um ícone da religião é do catolicismo francês, mas também do colonialismo cruel da Europa durante séculos. Talvez esse segundo ponto seja o que nos leva a preservá-la e reergue-la, mais do que os aspectos místicos e religiosos. Precisamos preservar os símbolos da dominação branca no mundo e a velocidade dos milionários brancos para recuperar esta obra nos mostra como somos ágeis quando nosso poder precisa ser reforçado.

E não se trata de contrapor uma coisa à outra. Arte é essencial, assim como a fé das pessoas precisa respeito. Todavia, morte, fome, frio e doenças são muito mais importantes e a escolha feita pelos bem nascidos serve para nos mostrar como funcionam as prioridades no capitalismo desumano e racista.

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