Um ponto que acho importante sobre uma das manifestações tolas do candidato fascista: dívidas sociais são pagas socialmente; dívidas pessoais são pagas individualmente. A população branca tem uma dívida com o grande contingente negro desse país em função da escravidão e suas consequências. Esta é uma dívida da sociedade inteira, não entre os indivíduos. O pagamento precisa ser social, não pessoal.
O fato do indivíduo Bolso* nunca ter escravizado ninguém só o isenta de culpas diretas, mas não da dívida social que ele e – e eu – temos por sermos brancos. Por esta razão nós participaremos do pagamento conjunto da dívida da sociedade branca com os negros, para que nosso país se torne mais justo.
Não há como fugir dessa reparação em função de tantos privilégios que nossa cor de pele nos garante. Um dia, quando nossa sociedade for mais equilibrada e todo malefício tiver sido reparado, tudo isso será apenas história.
É evidente que manifestações de jogadores de futebol relativas à política são raras e a imensa maioria dos jogadores e clubes não se posiciona politicamente, por desinteresse, ignorância ou pura alienação.
Entretanto cabe ressaltar 4 episódios recentes que demonstram as relações de personagens do futebol com a política:
Os apoios de Neymar e Ronaldo Fenômeno à campanha de Aécio Neves;
A intenção de Ronaldinho Gaúcho de concorrer ao senado no mesmo partido do candidato da direita mais reacionária;
A frase gritada de cima do caminhão de bombeiro, por Renato Portaluppi, em apoio ao “juiz” da Lava Jato, nas comemorações do campeonato da América;
Os jogadores Felipe Melo, Jadson e Roger declaram apoio a um candidato de extrema direita à presidência, cujas posições incluem racismo, misoginia, ditadura, apoio a torturadores, penas capitais e ataque aos homossexuais
Existem, mesmo que de forma tímida, manifestações de caráter político circulando no mundo futebol. Entretanto é evidentemente um setor dominado pelos conservadores e pelas posições à direita no espectro político-partidário. A esquerda é uma expressão bissexta na cultura do futebol. Os clubes são controlados desde sempre pela burguesia empresarial, advogados, membros do MP e magistrados aposentados. Na CBF quem manda é o dinheiro e as ligações com as empresas de TV, material esportivo, etc. Isto é: o futebol está ligado de forma umbilical à nata das classes altas. São estes atores que puxam os cordéis dos marionetes de chuteira, enquanto manipulam a paixão do povo pelo ludopédio. Berlusconi e Macri são os ícones máximos dessa realidade.
Não é difícil de entender as razões para este divórcio entre os jogadores de periferia pobre e o mundo de significantes que deixam para trás. Ao ascender socialmente eles entram no mundo da fama e do consumo e, via de regra, assumem os valores da cultura que os recebe. Esquecem rápido de onde vieram e olham deslumbrados para o mundo de luzes que os recebe. Muitos, como Ronaldo Fenômeno, chegam a mudar de cor e assumem o tom de pele que mais representa suas aspirações.
Assim, o que é mesmo raro não é a adoção de posições política ativas e explícitas, mas que estas sejam relacionadas com o desejo de transformar o mundo do qual os jogadores são egressos. As posições progressistas e de esquerda podem ser contadas nos dedos; já as conservadoras se multiplicam na mídia. Na contramão do conservadorismo chamou atenção o apoio do técnico Wanderley Luxemburgo ao presidente Lula durante o cerco ao Sindicato dos Metalúrgicos, uma ilha de legalismo de esquerda num oceano de punitivismo, conservadorismo e o mais escancarado reacionarismo. As posições de Casagrande, sobrevivente da democracia do mito Sócrates, são notáveis exceções no universo da bola.
Há política no futebol, mas o que nos falta são personagens verdadeiramente engajados numa postura de esquerda, pelas minorias, pela democracia e, principalmente, pelos pobres, exatamente o que eles tentam de toda forma esquecer que um dia foram.
O problema da direita chucra é essa tolice de que “a corrupção é o grande problema nacional”. Que bobagem; nem de longe esse é nosso grande drama. Os Estados Unidos são muito mais corruptos do que o Brasil e a Coreia do Sul então, nem se fala. Nosso problema que se mantém, apesar de outros avanços, é a estrutura escravocrata de nossa sociedade, que herdamos de mais de 500 anos de história.
O problema é a iniquidade e a injustiça social; a divisão do país entre o que podem e os que servem. A corrupção PRECISA ser combatida, mas sem a crença de que ela é a “grande tragédia da nação”.
Todavia, a direita tenta sempre moralizar a questão criando estratégias para poder classificar nossos problemas dentro do seu maniqueísmo habitual: “bandidos x cidadãos de bem”, que nada mais é do que a manutenção da dualidade “Casa Grande x Senzala”. A estrutura é a mesma, mas hoje é feio admitir que sempre foi o horror aos negros e pobres que criou o ódio ao PT, enquanto o combate à corrupção sempre foi a capa encobridora da realidade odiosa do racismo e da exclusão.
É verdade que a decisão sobre o aborto acaba sendo tomada por um punhado de homens brancos, burgueses e ricos que conhecem as clínicas clandestinas “classe A” para levar suas mulheres, namoradas, filhas ou amantes. Esta decisão nunca está na mão da mulher negra e pobre que será submetida ao risco e à indignidade das agulhas, pílulas do mercado ilegal e dos aborteiros da favela.
Entretanto, muitas dessas mulheres votaram no pastor sedutor e no empresário falastrão, os mesmos que agora roubam sua esperança de dignidade e segurança na atenção à saúde. Só existe uma forma justa de mudar esse cenário: encarar a invasão da direita fascista evangélica como uma real ameaça às mulheres e seus direitos.
Estive circulando na medicina por 39 anos e as atitudes desrespeitosas e abusivas dos estudantes, residentes, preceptores e professores sempre ocorreram. Não acredito que exista uma “crise” real surgida há poucas semanas ou meses, mas apenas uma publicidade maior para um problema centenário. Não há nada que me faça pensar que na minha época de estudante a atitude dos alunos em relação a pacientes e familiares era melhor. Em verdade, lembro de alguns episódios que seriam impensáveis nos dias de hoje, tamanho o desrespeito e o desprezo com as mulheres, em especial.
O que temos agora são mecanismos mais rápidos e eficientes de disseminar a informação e uma cultura mais madura para denunciar abusos, mas o comportamento dos estudantes e médicos continua o mesmo das últimas 4 décadas. O problema pode ser melhorado com a vigilância sobre a formação e o reforço de conteúdos éticos na faculdade (nada a ver com ética médica, que tem muito mais a ver com Maçonaria e lealdade corporativa), mas nada vai mudar de verdade sem questionarmos quem são os brancos (87%) classe média alta (80%), filhos ou irmãos de médicos (40%) que constituem o corpo discente da maioria das faculdades de medicina do país.
Esse perfil de entrada é a base para entendermos o brutal fosso de valores, ideias, visões de mundo, perspectivas e posturas que separa os médicos do universo de pacientes que são por eles atendidos. Sem que essa distância seja encurtada toda e qualquer transformação será apenas parcial e/ou paliativa.
Não basta aumentar a carga horária da disciplina de deontologia médica para “passar uma cal branca sobre a casa rachada“. Não é com este tipo de atitude que vamos fazer uma revolução paradigmática. Precisamos debater que médicos queremos e quem estamos formando. Como bem sabemos, os médicos chegam à faculdade egressos de um estrato social completamente diverso dos pacientes que virão a atender, mas a escola médica, ao invés de tentar consertar este desvio e esta perversão ainda reforça os preconceitos, assim como a visão classista e excludente dos alunos. Os exemplos vem de cima; o preconceito é uma cátedra sem professor titular, mas que todos os alunos conhecem desde o primeiro dia do curso. É por isso que as pessoas que já conviveram dentro de uma faculdade de medicina não se espantam com o relato de doutores recém formados (ou não) desprezando enfermeiras, doulas e funcionárias(os) ou tendo atitudes absolutamente machistas e abusivas com os pacientes, os mesmos a quem juraram proteger e curar. Esse ainda é o padrão de uma corporação que insiste em se manter na Casa Grande.
Minha sugestão – e desde já deixo claro que ainda utópica e sonhadora – é a criação de uma instituição que existe em outros países, salvo engano, a França: a “Ordem dos Pacientes” ou o “Conselho Federal dos Pacientes” que se ocuparia de receber as queixas de pacientes e estaria a serviço da sua proteção contra erros e equívocos de hospitais e profissionais de saúde. Pedir que os médicos façam o controle de seu próprio trabalho é ingenuidade. Os conselhos servem para proteger a medicina e os médicos, e isso não é uma acusação aos conselhos diante dessa importante e essencial função, mas o reconhecimento de que ela não é eficiente para auxiliar os pacientes. O “caso Adelir” é um bom exemplo. Para mim seria importante criar uma instância extrajudicial que pudesse fazer essa mediação antes de que os casos fossem enviados aos tribunais, diminuindo as demandas e fortalecendo as negociações, sem ser movida por um caráter primordialmente punitivo.
Não parece interessante? Eu, por conhecer os tribunais e seus conselheiros, percebo o quanto é ingênuo imaginar que os conselhos de medicina possam deliberar contra si mesmos, cortar na própria carne e agir contra os poderes estabelecidos, os quais sempre beneficiam a categoria. Não faz sentido. Quando sou confrontado com esta minha desconfiança eu sempre pergunto aos amigos: “Na última eleição para o Conselho de Medicina, em quem você votou?“. Claro que as pessoas sempre respondem que só médicos votam nessa eleição. Então eu respondo: “E por que você acha que os conselheiros médicos favoreceriam os pacientes ao invés dos seus próprios eleitores?“
Durante a minha infância eu fui educado no cultivo de valores morais e espirituais cristãos, como a honestidade, o perdão, a fraternidade e uma visão teleológica de “evolução espiritual”. Poderia ter sido Rock n’ Roll, Elvis ou Stones, mas foi Allan Kardec. Nada contra nenhuma das possibilidades, mas isso tem um pouco de responsabilidade pelo que eu me tornei.
Em 1973 estávamos em plena ditadura militar e nessa época eu contava 13 anos de idade. Foi nesse período que moldei o meu coração vermelho, mesmo mantendo minha camiseta azul, preto e branco. A falta de liberdade e a sensação de constrição social começavam a gritar mais alto do que a visão perseverante, cristã, patriarcal e claramente conservadora que as vertentes religiosas – todas – ensinam nas entrelinhas dos versículos bíblicos e mensagens de Chico Xavier. Minha adolescência, que coincidiu com a entrada na escola médica, produziu esta guinada à esquerda aliada a uma visão social, já na própria medicina, que me acompanha até hoje.
Pois em 1973 eu tinha um amigo que morava há poucas quadras de minha casa e com quem conversávamos muito. Filho de uma família austera de alemães (a classe média de Porto Alegre é de “alemães” em sua maioria), seu pai era veterinário e ele tinha apenas uma irmã. Creio que foi por convite dele que fomos assistir o primeiro “filme proibido” no falecido cinema Carlos Gomes. Claro que no meio da sessão de “chanchada” brasileira – e antes de conseguir ver os almejados peitos descobertos da protagonista – a Polícia deu uma batida e todos os “dimenor” foram expulsos do cinema. O que poderia ser uma vergonha para nós foi motivo de orgulho, pois, mais do que uma sessão de cinema, participamos de uma aventura policial. Quem diria que naquela época seriam necessários pequenos crimes como este para ver inocentes mamilos. Pois este amigo, um certo dia, veio conversar sobre política comigo. Não era um assunto comum; era um tabu. Falamos da ditadura, do AI5, da falta de eleições e outros temas dentro da perspectiva de dos meninos entre 13 e 14 anos. O que fez essa conversa se tornar inesquecível é que os argumentos do meu amigo eram muito parecidos com os que a direita brasileira usa até hoje. A meritocracia ingênua, o culto ao “Cidadão de Bem”, a pobreza como escolha, o sucesso reservado aos competentes, a miséria como natural e a reação a este modelo como “ação criminosa”. Entretanto, em dado momento, diante dos meus argumentos de que a educação seria capaz de melhorar as condições de vida e fazer o Brasil alcançar níveis de civilização como na Europa, ele me respondeu:
– Isso é inútil, Ricardinho. O filho do ladrão será ladrão e o filho deste também. São valores que se perpetuam nas gerações que se seguem. Não há solução. É como meu pai sempre diz: tem que colocar uma bomba na favela, explodir tudo, acabar com esses vagabundos e começar tudo de novo.
Fiquei por instantes calado e, um pouco tempo depois, ainda chocado, perguntei: “Teu pai disse isso mesmo?” Ele aquiesceu com a cabeça e continuou explicando porque achava que a “solução final” era o único caminho, mas a partir de então eu já não consegui escutar mais nada. Não podia acreditar que as pessoas pensassem assim. Os valores ingênuos de tolerância e amor ao próximo que recebi na infância não me permitiam aceitar um argumento desses sem me espantar. Nos despedimos e acho que nunca mais falamos sobre esses assuntos. Passamos décadas sem nos ver e hoje sei que ele milita em grupos de extrema direita. Nesse ponto ele tinha razão; o filho saiu ao pai, e o filho do filho tem a cama das ideias prontas para se deitar.
O que me fez lembrar essa história foi o fato de que, nos anos 70, uma ideia genocida e preconceituosa era contada apenas na família, com o rádio ligado, no meio do jantar e não saía dali a não ser por uma inconfidência de meninos. Era feio e socialmente condenável ser fascista, ter pensamentos totalitários e sem nenhuma noção sobre a gênese social da pobreza. Eu acho que a proximidade com a II Guerra Mundial e os horrores do nazismo nos ofereciam essa possibilidade de vergonha. Alguns combatentes vivos e seus depoimentos mantinham a história viva entre nós.
Sobre essa transmissão transgeracional de valores eu lembro da imagem de crianças de 6 anos em Topeka, no Kansas, participantes da Westboro Baptist Church que carregam cartazes tipo “God Hates Fags” (Deus Odeia Gays). Não há como uma criança odiar homossexuais por seus próprios valores ou seu entendimento das “escrituras”. Estas atitudes só podem ter sido geradas através dos pais. Assim o ódio – tanto como o amor – pode ser ensinado para as crianças desde a mais tenra idade.
Entretanto, há alguns anos vi um documentário sobre adolescentes que conseguiram se libertar do torniquete mental do fanatismo fundamentalista da família que controla esta igreja, provando com isso que as duas proposições coexistem: as frutas não caem longe das árvores, mas é possível sair de perto delas através da informação e da ampliação dos horizontes. E isso tudo munido de muita coragem. Hoje em dia essas vergonhas se foram, o horror nazista pode ser “questionado”, o darwinismo social está em alta, a perseguição às minorias está liberada, questiona-se abertamente o estado laico, Bolsonaro é “mito” e o fascismo pode, finalmente, sair da toca depois de 70 anos de hibernação.
Um comentário como o do meu amigo de infância? Sim, ontem de tarde, no bar da esquina, entre uma cerveja e uma gargalhada.
Fato: ativista pró-Bolsonaro, vestido a caráter (camiseta Bolsominion) participa de um debate na UFMG e nas poucas frases que diz exalta o que chama de “nosso candidato”. Imediatamente a plateia reage ao orador e o expulsa do ambiente, primeiro com gritos e depois com imposição física. Ele não conseguiu expor suas ideias. Os gritos foram “Fascistas não passarão!!”. O vídeo que recebi tem um título mais ou menos assim: “Bolsominion tenta falar em evento na UFMG e se dá mal”.
Como eu sou um fanático da liberdade de expressão esse tipo de atitude sempre me faz muito mal, mais ainda quando vi o vídeo pela segunda vez e me certifiquei que o objetivo do pretenso palestrante NÃO ERA falar, mas ser expulso. Com essa expulsão ele conseguiu que sua imagem fosse disseminada pelas redes sociais e – mais importante – ser visto como vítima da intolerância (das esquerdas).
Em outras palavras, um fascista montou uma armadilha que todos caíram. Pior, saiu como herói da liberdade de expressão que foi silenciado a murros e gritos por um grupo de intolerantes. Era TUDO que ele e seu grupo desejavam.
Claro que foi uma provocação, mas por que temos que continuar caindo nessas armadilhas?
No mesmo dia recebo e publico no Facebook o vídeo de um dos (meus) heróis contemporâneos, o Snowden, que vai na direção oposta. Ele fala que o combate às mentiras na Internet (fake news) não pode ser feito através da censura ou qualquer ato proibitivo, mas através de MAIS abertura e mais debate. Esconder as posições fascistas FORTALECE O FASCISMO e censurar bolsominions os deixa mais coesos e firmes. O que pareceu aos olhos desavisados da esquerda como uma vitória dos democratas presentes contra um elemento fascista foi – ao meu ver – uma derrota da livre expressão e da própria democracia.
Afinal, o que devemos temer nesse discurso? Porque haveríamos de ter medo de um discurso grotesco e reacionário? Por que não permitimos que eles exponham toda a sua violência e radicalismo para assim serem mais facilmente combatidos?