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O Papel da Homeopatia no Parto

 

“Uma pergunta muito corriqueira é “qual a contribuição que a homeopatia pode trazer na atenção ao parto?”

As respostas são muitas, mas é importante deixar claro que a atenção ao parto é um processo que trabalha com mulheres (via de regra) saudáveis e no ápice de suas condições físicas. Muito mais do que medicar gestantes nossa tarefa é acompanhar seus passos e garantir que sua trajetória se mantenha na trilha da fisiologia. Entretanto, por seu um processo complexo e que se estabelece na interface entre sujeito e cultura, uma série de desacertos podem ocorrer durante a gestação, parto e o puerpério. Para tais transtornos a homeopatia pode oferecer um tratamento seguro, suave e sem efeitos colaterais.

A homeopatia parte de uma abordagem bem diversa sobre o binômio saúde-doença. Ela não se propõe a ser forma “alternativa” de tratar enfermidades conhecidas, como pneumonia, enxaqueca, gastrite ou anemia, mas uma forma diversificada de entender o sofrimento humano. Portanto, mais do que uma terapia, a homeopatia é um “modelo”, uma leitura diferente das aflições humanas, abrangendo através de sua visão holística tanto os aspectos físicos quanto os psíquicos. As formas de avaliação dos resultados obtidos pelos tratamentos homeopáticos serão, portanto, diferentes dos modelos biomédicos, da mesma forma como as ciências psíquicas o são. Como diz de forma categórica Thomas Kuhn, “As respostas que alcançamos vão depender das perguntas que fazemos”, e estas perguntas dependerão do paradigma adotado para analisar uma determinada ciência ou conhecimento.

Desta maneira, a homeopatia pode ser considerada um novo paradigma na atenção à saúde ao determinar uma nova leitura sobre a terapêutica, mudando de uma visão “maléfica” – como na medicina alopática hegemônica – para uma visão “benéfica”, considerando o conjunto reagente do sujeito como um movimento coerente no sentido da cura. Para analisar este novo paradigma é necessário entender o objeto de análise – o paciente – de uma forma distinta, de maneira integrativa e complexa, rompendo os limites do biologicismo cartesiano. Ao analisar os doentes como entidades onde a mente e o corpo atuam de forma conjugada as perguntas que avaliam uma ação terapêutica qualquer precisam ser modificadas, alteradas para captar a delicada tessitura da construção dos sintomas. A homeopatia vem mudar a visão da medicina tradicional ao reconhecer o organismo como dotado de um saber intrínseco e interno, cujas finalidades precisam ser respeitadas e, mais do que isso, seguidas. Ao lado da psicanálise – duas vertentes contemporâneas de visão endógena de adoecimento, se situam à margem dos modelos terapêuticos atuais exatamente por oferecerem essa visão da “doença dentro da linguagem”, afastando-se dos modelos da biomedicina que desconsideram a construção simbólica de nossas enfermidades.”

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Abayomi

Passei por uma experiência interessante e gratificante proporcionada por minha querida amiga Lucia Scalco. Resolvemos conversar com uma antiga “apanhadeira de bebês“, Dona Catarina (nome fictício), uma parteira tradicional urbana de 82 anos que trabalhou durante 38 anos num dos conhecidos bolsões de pobreza de Porto Alegre – RS. Atendeu seu último parto há 8 anos.

Catarina nos informou que sua formação veio pelo aprendizado com outra parteira que lhe cobrou (muito dinheiro, segundo ela) para a acompanhar e conhecer suas técnicas. Durante anos foi acompanhante desta sua “mestra” e depois seguiu em “carreira solo”. Não sabe quantos bebês nasceram sob seus cuidados, porque nunca se deteve a anotar ou contar, e não sobrou nenhum registro do seu trabalho. Vive em uma casa pobre com um parente que a ajuda, no coração da vila onde mora há mais de 4 décadas.

A entrevista foi valiosa por vários aspectos, em especial pela possibilidade de observar os ângulos mais sombrios da parteria. Ao invés de escutar um relato glamoroso e cheio de encantamentos e emoções, testemunhamos uma história de ressentimentos, dramas, dores e mágoas. Dona Catarina diz que seu ofício nunca foi recompensado, e que as pessoas a quem atendeu eram profundamente ingratas com seu trabalho. “Nem um muito obrigado elas me diziam. Viravam a cara quando me encontravam na rua“. Perguntada porque não era paga ela respondeu “Pagar com o que? Eram todos muito pobres. Tinham seus filhos em casa porque não podiam pagar um táxi para o hospital“. Perguntei se havia pagamentos simbólicos, como frutas, pães, galinhas, ovos, roupas ou mesmo um reconhecimento social, como é muito comum em comunidades do interior e ela negou. “Não me davam nada. Nunca ganhei para atender as pessoas“, disse.

Dona Catarina é pobre. Mora em uma casa de esquina no centro geográfico da vila, e sua história é cheia de pequenas e grandes tragédias. Ter seu trabalho explorado e não reconhecido é apenas uma delas, e das mais leves. Alguns de seus filhos se envolveram com drogas e chegaram a ser moradores de rua. O tempo inteiro se referiu a eles sem qualquer carinho, saudade ou doçura. É uma mulher pequena, miúda, aparentemente frágil, mas conta inúmeras histórias de lutas físicas contra agressores. Fala de uma briga em que enfrentou um vizinho alcoolizado de facão em punho, tendo lhe infligido um corte profundo no braço. Quando mais jovem levou um agressor ao hospital com golpes de madeira. Segundo ela, ficou um mês na UTI e veio a falecer. Conta a história sem qualquer remorso ou arrependimento. “Ela é uma fera, doutor. É pequena, mas muito brava.” Olha para ela e diz “Jesus manda perdoar também, viu?“, mas ela responde com um muxoxo.

Dona Catarina seguiu os passos de um contingente crescente da população de periferia no Brasil tendo se convertido a uma das inúmeras vertentes evangélicas que proliferam em sua comunidade. Agora diz-se “cristã”, mesmo tendo sido católica a vida inteira. Rompeu relacionamento com parentes e em especial com seus próprios filhos, alguns deles ligados a religiões de matriz africana. “Não existem duas águas boas para beber, só uma“, e esta sua visão de mundo é compartilhada pelo rapaz que nos acompanha na conversa, único parente que vive com ela. A Bíblia aberta sobre a mesa – ao lado do velho aparelho de som que toca música Gospel insistentemente – confirma suas palavras. “(Meus filhos) são batuqueiros do demônio. Quero distância deles“.

Quando perguntada sobre as mudanças que presenciou nos últimos anos em sua vila expressa a vontade de sair. “Vou vender o que tenho e ir embora daqui. Aqui só tem maconheiro, ladrão.” Parece profundamente consumida por ressentimentos e desconfianças.

Em relação ao seu trabalho dizia que usava luvas, cordão, tesoura e álcool. Nada de balanças/ “Eles iam pesar depois no armazém, mas já atendi muito bebê de mais de 5 kg“. Descreve suas habilidades com toques ginecológicos e repete mitos populares de “pentes fechados”, “bebês cansados”, “ossos que impedem o parto”, “bebês que engolem água do parto”. Conta um segredo: bafo de erva de chimarrão para facilitar os partos. A tudo termina com uma gargalhada, num sorriso em que nenhum dente sobrou para deixar testemunho.

Dona Catarina durante décadas era chamada a atender nas madrugadas, no frio, em lugares miseráveis e insalubres. Barro, sujeira, chuva, esgoto a céu aberto. Refere-se aos pobres da vila de invasões próxima de onde estávamos como “preguiçosos, vagabundos e acomodados”, para em seguida listar tudo o que conseguiu conquistar com seu esforço e determinação. Mesmo sendo muito pobre percebia nitidamente a diferença que a afastava destes outros, mais necessitados e despossuídos. Repetia um claro discurso meritocrático que coloca a pobreza como resultado da preguiça e da falta de vontade, uma fala muito usada pelos setores mais conservadores da sociedade, inclusive pela igrejas evangélicas.

Bradava sua independência como um grande valor pessoal. “Não preciso de homem nenhum, pra comida, pro serviço ou pra cama“. Vive de sua aposentadoria e refere o medo de que as pessoas que a cercam se aproveitem de si.

Dona Catarina sentir-se confiante com a nossa presença e por isso permitiu-se abrir o seu coração para a dor que acumulou durante tantos anos. Onde eu imaginava encontrar um anjo de doçura e transcendência encontrei uma mulher brava e indócil, que sobreviveu a um ambiente duro e violento usando as armas que lhe foram possíveis. Os nascimentos eram parte de sua tarefa, mas não como elemento de elevação espiritual ou como um “sacro ofício”. Não havia nada de sagrado ou superior nos partos que atendia, apenas uma tarefa “nem dura, nem fácil, mas para a qual era necessário ter conhecimento, para não ser como essas ‘parteiras facāo’ que estragam as mães e os bebês”.

Terminou nossa conversa dizendo que “parto não tem nada de bonito. É muita nojeira e sangue, mas não pode ter nojo e nem ter crise de nervos. Precisa coragem e se manter fria”.

Tomamos nosso café e nos abraçamos, mas ficou no meu coração o desejo de escutar por mais tempo a riqueza impressionante das histórias de dor e martírio de uma guerreira de partos, uma heroína tipicamente humana, com todos os defeitos e virtudes que compõem os nossos heróis.

Foto: Bonecas Abayomi. A palavra Abayomi significa “encontro precioso”, aquele que traz felicidade e alegria. Quando os negros vieram de África para o Brasil em navios Negreiros atravessavam o oceano Atlântico numa viagem penosa. As crianças choravam assustadas porque viam a dor e o desespero dos adultos. As mães negras, para acalentar suas crianças, rasgavam tiras de pano de suas saias para fazer bonecas para elas brincarem. Essas bonecas são chamadas de Abayomi. Quando você dá uma dessas bonecas a alguém significa que você está dando o melhor de você para essa pessoa. Este foi o presente que ganhei da comunidade que visitei.

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Rumos

Fatos que teremos de encarar nos próximos anos na atenção ao parto:

O modelo “um obstetra para uma gestante” está moribundo; é um doente terminal. Ele ainda sobrevive apenas a partir de 3 elementos:

  1. A indústria da cesariana
  2. O engodo do “parto normal se tudo der certo”, uma espécie de falsa propaganda criminosa.
  3. Meia dúzia de abnegados Kamikazes que aos poucos vão se aposentando, sendo excluídos, adoecendo, desistindo por exaustão e/ou desilusão.

“Não existe humanização do nascimento sem humanizar e proteger o trabalho dos cuidadores” já dizia meu colega Max há mais de 30 anos. O futuro aponta claramente para as “cooperativas” de parteiras profissionais ou para as Casas de Parto, com pré-natal coletivo e rodízio de cuidadores para atenção no momento do parto. O resto cai nas possibilidades acima.

Quando terminei meu sacerdócio pela humanização estava atendendo 80 pacientes por ano, o que ultrapassa em muito o número de excelência e qualidade. Não tinha férias tranquilas, nem descanso garantido e sequer paz de espírito em função do bullying. Portanto, o trabalho em equipe colaborativa não se trata sequer de uma escolha a ser dada aos pacientes, mas uma imposição para os próximos passos da atenção ao parto.

O tempo dos abnegados e daqueles movidos por pura paixão está no fim. Aceitemos isso e humanizemos (também) os humanizadores.

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Mensageiros Solitários

Fui lavar as mãos no lavabo de casa e percebi a pequena estatueta de vidro por sobre o balcão fazendo companhia à saboneteira e aos livros empilhados. O brilho imponente do objeto me jogou imediatamente para um espaço da memória distante e para uma cidade do interior do Brasil onde ela foi feita. A estatueta foi um presente que ganhei após fazer uma palestra em um hospital, algo que se repetiu mais de uma centena de vezes nos últimos 10 anos.

No último dia de estada na cidade a simpática esposa de um colega me ofereceu o objeto como presente pela minha exposição do dia anterior para um grupo de médicos, enfermeiras, e doulas da cidade. O tema foi “Amamentação e o continuum da Humanização“.

Este colega havia passado recentemente por uma espécie de “epifania humanizadora”, a exemplo de tantas outras que eu testemunhei em minha vida. A partir de experiências traumáticas pessoais ele conseguiu desfazer a capa de insensibilidade que construiu por sobre a atenção ao parto e percebeu o quanto dos seus insucessos eram devidos à inadequação e ao anacronismo de sua prática profissional. Acreditem, esta é a autocrítica mais penosa e dolorida. Também ele havia descoberto esta e tantas outras verdades ao se aproximar da prática das enfermeiras obstetras, as quais lhe ensinaram o valor superior do cuidado e da delicadeza. Marsden, Michel e eu mesmo passamos pela mesma experiência.

Suas ideias eram grandiloquentes e entusiásticas. Com vívida alegria me levou por um “tour” no novo centro obstétrico do pequeno hospital onde, por iniciativa sua, uma banheira de parto estava sendo instalada, assim como vários aparelhos simples e funcionais para o auxílio ao parto humanizado. Ele era puro entusiasmo. Na condição de diretor havia conquistado poder para fazer as mudanças. Falava dos partos ocorridos após sua “conversão” e as lágrimas lhe escapavam dos olhos. Disse que aquela pequena cidade em breve seria um polo de boas práticas para toda a região, a começar pela abolição das episiotomias de rotina, o parto na água, o trabalho das parteiras profissionais, as doulas, os acompanhantes, etc. Seu entusiasmo e sua energia eram contagiantes.

Despedi-me de sua família com a sensação do dever cumprido e com a esperança de que aquela cidade simpática do interior do Brasil pudesse realmente se tornar um exemplo para todo o estado – quiçá o país – irrigando com humanização a aridez tecnocrática daquelas maternidades.

Passam alguns poucos anos e encontrei a doula que estabeleceu o contato inicial entre o colega entusiasmado e eu. Perguntei-lhe como estava meu amigo e como iam os planos de renovação da maternidade e do centro obstétrico.

Sua resposta não poderia ser mais esclarecedora. Disse em apenas algumas palavras, mas que foram um grande ensinamento e uma importante aula de humildade.

– Não sobrou pedra sobre pedra, Ric. Mudou a direção do hospital e ele foi retirado da chefia da maternidade. O novo diretor mandou destruir tudo o que havia sido feito. Desfez a banheira de parto, impediu o trabalho livre das doulas e acabou com a relação de cooperação com as enfermeiras obstetras. Ao ser indagado o novo diretor disse que havia sido pressionado pelos médicos, os quais há tempos estavam insatisfeitos com as mudanças. Sinto muito.

“Mudanças de cima para baixo”, pensei. Meu colega, em seu surto humanizante, estava à frente do seu tempo. Estava inclusive adiante das próprias gestantes a quem desejava ajudar. Bastou ele ser afastado e tudo se perdeu. “Atire no mensageiro”, deviam ter dito seus colegas obstetras ao diretor. Sem ele a liderar as mudanças não haveria massa crítica e muito menos lideranças femininas para dar continuidade às suas mudanças. O tiro foi certeiro; com o mensageiro derrubado a mensagem se apagou junto com a última chama de entusiasmo que carregava.

Ficou doente, teve um AVC e se aposentou,  completou ela com resignação. Agora teremos que começar do zero.

Suspirei fundo e respondi que não seria do “zero”, pois agora já sabiam que nenhuma revolução pode florescer confinada em uma única cabeça. Agora já é possível entender que a luta precisa surgir do coração de cada mulher oprimida por um sistema violento e arbitrário. Se lutadores como o meu colega são importantes e bem-vindos muito mais essencial é cultivar um movimento que não dependa de uma única alma liberta e esclarecida. É preciso formar uma consciência tal que a troca de um líder não afete a progressão das mudanças.

A verdadeira revolução do parto virá das mulheres, ou não virá.

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Com açúcar com afeto

Ele sentou-se na poltrona à minha frente enquanto escutávamos ao longe a melodia serena da vida, envoltos na bruma matinal e escutando os pássaros alvissareiros.

– Então Ric, quer saber como foi?

– Pode contar

– Diga aí uma droga que já ouviu falar. Qualquer uma.

Minha relação com as drogas sempre foi de aversão e uma certa repulsa. Quando nos anos 90 criei o PAOH – Protocolo de Assistência Obstétrica Humanizada – um simples protocolo de atendimento baseado em premissas simples de acompanhamento ao parto de baixo risco, um dos elementos fundamentais na lista de seis itens era “Uso judicioso e restrito de medicamentos durante o trabalho de parto”. Portanto, minha distância com as drogas incluía tanto as drogas ilegais quanto as legais, posto que ambas possuem efeitos perigosos para a economia orgânica. Entendia eu que a “legalidade” de uma droga não se referia à sua periculosidade ou dano possível, mas a questões contextuais e culturais ligadas ao seu controle e produção. Maconha é ilegal e cachaça é legalizada, mas o álcool tem uma mortalidade milhares de vezes superior à maconha. Portanto, eu sabia o quanto esse valor era volátil na sociedade. As descrições de Freud sobre seu uso de Cocaína no início do século passado são curiosas, enquanto as propagandas com médicos fumando e fazendo publicidade de Camel – aliado ao (agora) estranho patrocínio da indústria do tabaco às instituições médicas – também nos ajudam a entender um pouco mais a complexidade do tema.

Fiquei olhando para Bruno com atenção enquanto pensava em uma resposta para seu desafio. Não queria dizer uma droga muito simples para não ser considerado ingênuo, mas também nenhuma muito pesada para não ser ofensivo. Ele continuava parado à minha frente com um sorriso instigante. Era alto, levemente grisalho e ostentava uma barba bem cortada.

– Cocaína, disse eu finalmente.

Com um sorriso respondeu

– Muito, doutor. E por muitos anos. Diga outra.

– Maconha? Heroína? Metanfetamina? Crack?

A todas elas me respondia afirmativamente, e para cada uma acrescentava outras em sua longa lista de drogas experimentadas. Todas tinham sua história, as quais descrevia como quem relata as lembranças de uma amante do passado: um início fulgurante, a lua-de-mel, a convivência conturbada e o longo martírio de um final catastrófico.

Levantou-se do assento em que estava e foi até a estante logo atrás. Trouxe um grosso livro de capa dura em que se lia na capa “O Pão dos Deuses”, de Terence de McKeena, uma espécie de enciclopédia das drogas. Folheei algumas páginas lustrosas ricamente ilustradas com fotos de plantas, equipamentos, cigarros artesanais, cachimbos e seringas.

– Estou limpo há três anos, doutor. Nada mesmo. Fiz essa promessa a ela.

Olhamos ambos para o quarto onde a ação se desenrolava. Ali, sua mulher respirava profundamente enquanto aguardava que suas contrações voltassem. Seu semblante era sereno, no intermezzo melífluo entre duas ondas de contração. Atrás dela a doula massageava suas costas deixando o ambiente com um suave aroma de lavanda. Abraçada a ela a parteira dançava os passos de uma dança tão antiga quanto conhecida. São dois prá lá, dois prá cá. Respire fundo, deixe seu corpo se inundar de energia.

Ficamos escutando por alguns segundos os sons do quarto adjacente enquanto eu fechava o livro de capa dura à minha frente.

– Sabe qual foi a mais difícil de largar?, perguntou

– Nunca tive que largar nenhuma, disse eu, quase envergonhado da minha caretice. Eu diria que o cigarro, pelo menos é o que tantos pacientes me disseram ser tão complexo e difícil.

Ele abriu um sorriso.

– Negativo. Não digo que larguei o cigarro de forma fácil, mas nem se compara à droga mais difícil de todas elas. Abra de novo o livro, está nas primeiras páginas.

Folheei as páginas brilhantes desde o início até o momento em que ele me pediu para parar e apontou para um montinho de grãos brancos.

– Esse aí, doutor. Para mim o açúcar foi a droga mais difícil para me libertar.

Sorri com ele. Subitamente me senti um viciado e pensando comigo “Não, eu paro quando quiser”….

Nossa conversa se manteve entre risadas, comentários sarcásticos e sussurros até o momento que Zeza me chamou.

Completou”, disse ela, com aquele sorriso cheio de satisfação que eu bem conhecia.

– Você pode ir para a banheira agora, se quiser, disse ela para a bela menina que sentia suas últimas dores.

Zeza se posicionou à sua frente, enquanto a doula permanecia ao lado. O marido abraçou-a por trás firmemente, enquanto esperávamos pela chegada do bebê. Seu corpo semissubmerso se contorcia a cada onda contrátil, e depois relaxava no espaço silente entre elas. A tudo eu observava atentamente, mantendo a câmera a postos para gravar o momento da chegada.

Enquanto as velas ao redor da banheira iluminavam o espaço do banheiro minha atenção se concentrava no rosto sereno da mãe e me perdia pensando sobre os significados últimos dessa passagem. Quando vejo o momento inexplicável do apagamento neocortical, o mergulho na “partolândia” e o mistério eterno deste momento para o mundo masculino eu sempre lembro do sorriso de Elisabeth Davis no documentário “Orgasmic Birth” ao dizer “Se lhe dissessem que esta é a maior aventura possível da existência humana e que aqui está o mapa, você recusaria?

Os minutos se sucederam na velocidade dos gemidos enquanto mantivemos o nosso silêncio solene diante do que estava para acontecer. As chamas das velas tremulavam a cada suspiro mais longo, a cada palavra que saía dos lábios da bela menina. Zeza, a postos, finalmente aponta discretamente seu indicador para me mostrar a emergência dos cabelos do bebê. O momento da chegada se aproximava.

Se há um momento nessa cultura em que as máscaras caem, é este. As carapaças pétreas que seguram nossa experiência cotidiana se desfazem diante da explosão de emoções e significados que emergem durante o nascimento. Sei que nada será como antes, amanhã…

O momento tão esperado se aproximava e eu podia sentir na pele o silêncio de Bruno. Não havia um som, uma palavra, apenas os músculos retesados de seus braços e o olhar parado sobre o ventre de sua mulher. Abraçado a ela ele aguardava calado o momento decisivo.

Zeza virou seu olhar para mim e eu percebi o sinal. Na próxima contração ele viria. O silêncio se fez ainda mais ruidoso e só foi interrompido com o grito primal, seguido do som das mãos de Zeza retirando o bebê da água e colocando-o de frente para o sorriso de êxtase de sua mãe. Registrei o momento mágico com minhas mãos trêmulas, firmes o suficiente para não estragar a imagem. Em mais um momento e o bebê silenciosamente se aninhava no colo da mãe.

Foi então que o silêncio da cena foi novamente interrompido. Como a erupção de um vulcão, Bruno gritou com o máximo de seus pulmões. Gritou não como um grito de vitória, ou de consagração, mas como algo muito mais profundo e inquietante. E sobre seu grito sobreveio outro, e mais outro e depois outro.

Zeza olhou para mim com alguma preocupação. A conversa anterior sobre as drogas me deixou preocupado, confesso. E se ele estivesse entrando em uma espécie de surto? E se ele se descontrolasse? E se algo ocorresse que colocasse a todos – em especial ele mesmo – em risco?

Olhei para Zeza e a doula e nossos olhares mudos tinham o mesmo sentido: era melhor tirá-lo da cena até que se acalmasse. Foi então que eu lhe fiz um convite irrecusável:

– Bruno, quem sabe deixamos as mulheres com essa parte e vamos tomar um café na cozinha?

Apelei para o meu vício. Talvez assim, assumindo diante dele uma parceria no universo das adições, ele se sentisse compelido a me acompanhar.

– Claro, disse ele. Eu passo um café para nós.

Colocou-se de pé, e secou o corpo com a toalha pendurada. Foi até seu quarto e rapidamente trocou a bermuda que usava. Entrou comigo na cozinha, mas não conseguia controlar-se diante das emoções que havia presenciado.

– Ric, foi muito demais. Foi algo espetacular. Foi mágico.

Colocava as mãos à frente do rosto e caminhava inquieto de um lado para o outro da cozinha, e seus passos se deixavam acompanhar pelo chiado da chaleira. O aroma do café em pó invadiu o recinto enquanto ele continuava a falar.

– Tudo Ric, não apenas o momento da chegada do bebê. Não somente o êxtase, mas tudo que o precedeu. Não se trata de valorizar o prazer de receber sua filha nos braços, mas poder valorizar a completude da experiência humana. O medo, a angústia, a espera, a tensão, a ansiedade pelo momento de sentir na pele a maciez de um bebê. Todas essas emoções fazem parte do pacote, e seu valor é imenso exatamente por isso. Como podem escolher conscientemente trocar esta rica experiência por nascimentos mediados pela tecnologia, onde as emoções são engarrafadas, pasteurizadas, controladas por máquinas e onde recebemos apenas a parte final, sem que o ciclo todo tenha se completado?

Tomou um pouco de fôlego, respirou profundamente e fixou o olhar em algum ponto do infinito cósmico. Olhou mais uma vez para mim e disse:

– Ric, eu usei todas as drogas do mundo, tive todas as sensações que a vida pode oferecer. Participei das viagens lisérgicas mais doidas e mais bizarras. Andei pelo vale das sombras e consegui milagrosamente chegar até aqui. Por isso mesmo posso te afirmar que nenhuma sensação chega sequer perto desta que acabo de sentir. Nenhuma experiência supera esta e nenhum barato consegue ultrapassar esta emoção.

Nenhuma descrição de uma experiência sensorial poderia ser mais clara sobre a temática do gozo e do prazer, e só alguém que esteve por tantos anos envolvido no mundo da adição química poderia dar uma explicação tão rica quanto esta.

Verteu a água fumegante sobre o coador repleto e serviu uma xícara para mim. Ofereceu açúcar e eu menti que não queria. Ele sorriu da minha falsidade.

Enquanto ele se preparava para sentar na mesma poltrona em que estivera nas horas que antecederam, algo milagroso ocorreu.

O telefone tocou.

Bruno titubeou por instantes antes de atender. O bebê não tinha sequer 10 minutos de vida, e alguém ligava. O que seria?

– Alô, pois não?

Eu o acompanhava com o olhar, tentando adivinhar as palavras que só ele ouvia. Não era preciso mais do que metade das falas para saber do que se tratava.

– Sim, pai, está tudo bem. A bebê acabou de nascer. Não, estamos mesmo em casa, mas depois eu explico. Não se preocupe estamos muito bem. Não, não pesamos ainda, mas ela é linda e saudável. Assim que soubermos mais detalhes vamos informar. Ela está com a enfermeira e sua auxiliar aprendendo a mamar. Amanhã vocês podem vir aqui fazer uma visita. Claro pai, muito obrigado. Sim, eu sei…. claro que eu sempre soube.

Sua voz ficou mais pesada, mais grave. Ele estava visivelmente emocionado. Pensei em me levantar e deixa-lo a sós falando com o pai, mas não houve tempo para isso.

– Agora eu também sou pai, e talvez eu possa finalmente entendê-lo. Um beijo pai e obrigado.

Ao longe escutamos o choro forte da bebê. Tomei um gole de café amargo e me diverti com o vapor que pulava da xícara para embaçar meus óculos. Melhor assim; prefiro que não vejam um velho obstetra chorar.

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Poder e Evidências

O Poder vale mais do que as evidências.

Esta visão do processo fisiológico do parto vai perdurar enquanto o parto for classificado pelos homens, e a partir de suas perspectivas. Mas quando vejo este tipo de protocolo eu lembro que eu me insurgia contra esta imposição há 30 anos, e eu já fazia isso baseado nas evidências da época, e não em visões românticas ou pessoais.

O que mais me impressiona é que passadas três décadas de profundas revoluções, em especial no terreno da disseminação de informação, ainda temos uma visão OFICIAL de parto, disseminada em serviços universitários, que já era velha há 30 anos.

O que acontece com os donos do parto, que se negam a ver as mudanças na própria ciência e mantém uma visão depreciativa da mulher e suas capacidades? Trinta anos se passaram e o mesmo modelo se mantém.

Em verdade o que se expressa nesse papel são os últimos suspiros do patriarcado, uma forma de controlar a mulher cerceando sua liberdade e controlando um dos aspectos mais fundamentais da sua sexualidade.

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Transformações

Se o parto em si é incapaz de imprimir transformações positivas na carne e no espírito de quem é ultrapassado por sua energia então, por coerência, NENHUMA ação humana é capaz de abrir QUALQUER porta de percepção. Não é justo esperar tal processo através da chegada de um filho, por amar alguém, por ser amado em resposta, por lutar, vencer, conquistar ou alcançar um sonho. Não existe luz ou transcendência própria em nenhuma coisa, nenhum evento, NENHUM acontecimento.

Pode ser, mas precisamos forçosamente reconhecer que, de outra parte, qualquer evento é capaz de oferecer essa elevação, esse defenestrar, esta transformação, este deslumbramento, desde que o sujeito que delas participe se permita tocar pela sua força transformativa.

Nenhum evento em si, por mais fulgurante e esplendoroso que seja, é capaz de produzir mudanças; só o sujeito podem se transformar diante dele, desde que esteja pronto para tanto.

Não é?

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Darcy Ribeiro

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Esses dias vi alguém citando Darcy Ribeiro em sua fala. Fiquei pensando como faz falta um livre pensador como ele nos dias de hoje. Tomo como minhas as suas ideias e compartilho de sua “altiva depressão”. Fracassei no meu estado e na minha cidade na implantação de um modelo humanizado e transdisciplinar de atenção ao parto que coloca o protagonismo da mulher em primeiro plano. Fracassei na criação  de uma lei de doulas em minha cidade. Tive inúmeros fracassos em meus sonhos por um parto mais seguro e livre. Todavia, assim como ele, eu me envergonharia de estar no lugar de quem me venceu.

“Fracassei em tudo o que tentei na vida. 
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. 
Tentei salvar os índios, não consegui. 
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. 
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. 
Mas os fracassos são minhas vitórias. 
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”
(Darcy Ribeiro)

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Valente menina

baby holding his mothers finger, selective focus

Volto para casa depois de 20 horas – passadas no domingo e no início da segunda feira – trancado num hospital para atender um parto cheio de desafios, mas que nos rendeu um nascimento maravilhoso e empoderador. Cansado, faminto e ao mesmo tempo eletrizado, sento à frente do computador para ver se chegou algum e-mail e escuto “Cinema Paradiso”, na versão de Josh Groban.

O primeiro refrão diz:

“Se tu fossi nei miei occhi per un giorno
Vedresti la bellezza che piena d’allegria
Io trovo dentro gli occhi tuoi
E ignoro se è magia o realtà.”

(Se você visse através dos meus olhos apenas por um dia
Você veria a beleza que me inunda de alegria
Quando olho para dentro de teus olhos
É um misto de magia com realidade)

Quem já atendeu um parto e teve nas mãos o corpo quente, escorregadio e viscoso de um bebê, e pôde ver nos olhos de uma mulher a vitória emoldurada por suor e lágrimas, entende a sensação divina e transcendental de ter participado de um momento sagrado e enigmático, para além da compreensão.

Seja bem vinda, valente menina…

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Sem Noção

Filipe Juliana Lapis

“A intuição é um atalho que dribla as rotas da razão para chegar ao conhecimento. A intuição, todavia, é espontânea e clara, e não pode ser confundida com desejo ou medo.”

“Você não tem noção”, disse ela.

Sorri. Sua face transpirava ocitocina e endorfina. Duas horas de um período expulsivo que durou uma vida. Uma história que começou na dúvida, transitou pelas fronteiras do medo e terminou no êxtase de um nascimento em paz.

“É sério, você não tem noção. Eu senti ele saindo de mim. Foi a coisa mais incrível que eu já fiz na minha vida. É muito louco isso tudo.”

Seu sotaque fronteiriço deixava suas frases envoltas em uma sonoridade poética. Os véus haviam há pouco caído, um por um, depois de cada contração. Agora desnuda, exibia um olhar de mulher, cuja firmeza contrastava com a suavidade do sorriso maroto.

“Vocês não tem noção”, insistiu ela. “Eu posso sentir a transformação que ocorreu comigo, e mal consigo acreditar que consegui.”

“Você foi brava, muito brava. Perseverou onde muitas desistiram. Foi corajosa e seguiu seus instintos. Seu marido também foi um verdadeiro herói”, disse eu ainda com a voz embargada.

Ela olhou fixamente para mim com seus olhos negros e sobrancelhas grossas. Seu olhar se perdeu na parede atrás de mim enquanto apertava seu filho contra o peito. Olhou mais uma vez seu bebê envolto em vérnix e esperanças.

“Você não tem noção, você não tem noção.”

Não tenho mesmo.

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