Arquivo do mês: janeiro 2017

Marcha de Austin

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Mais de 30 mil pessoas participaram da manifestação pelos direitos das mulheres aqui em Austin – Texas, mas segundo os observadores da polícia militar de São Paulo não havia mais de 340 pessoas. Estou esperando a versão verdadeira: a da Globo.

Milhares de mulheres, crianças e homens. Muitos casais de lésbicas, pouquíssimos gays masculinos e transgêneros. Muita alegria, humor, diversão e ordem. Tudo muito comportado, ordeiro e organizado. Poucas palavras de ordem. Nenhum slogan forte, poderoso e viral. Batucada, mas sem samba.

Outra coisa chamativa: não havia nenhuma manifestação anti-homem ou anti-masculina. Não parecia haver um clima de ressentimento. Claro, muitas mulheres estavam lá com seus homens, maridos, irmãos e filhos. Havia um sentimento de inclusão.  Parece que diziam: fiquem do nosso lado, nós precisamos de vocês nessas lutas. Durante todo o percurso  nada vi de agressivo contra os homens.

Foi uma linda demonstração  de inconformidade e resistência civil, mas apenas isso. Faltou ao protesto a força que eu desejaria. Tudo muito amigável e conforme a lei e o direito. Parecia um protesto coxinha; até os policiais eram gente boa. Vi até um policial pedindo desculpas por passar com a viatura no meio da multidão para atender uma emergência.

Minha pergunta é: aonde este tipo de manifestação pode nos levar? Que poder têm 30 mil pessoas aqui (500 mil em Washington) para fazer uma efetiva  mudança?

Havia um cartaz  no meio da multidão que, de uma certa forma, oferece a resposta.

Well behaved women never make history

(Mulheres bem comportadas nunca entram para a história). O “protesto” foi comportado demais, bonitinho, ajeitadinho, colorido, com mães e bebês em carrinhos, maridos parceiros, cartazes coloridos, diversidade e respeito. Entretanto, ao meu ver, faltou energia transformativa. Faltou enfrentamento ao poder instituído.

Como transformar um desejo social legítimo em poder autoritativo verdadeiro? Isto é: como fazer dessa manifestação ferramenta de mudança e pressão, e não apenas uma festa para a família?

Os “Black blocks” sabem dessa armadilha e por esta razão se negam a participar de movimentos bem comportados. Para eles só vale se cutucar a ferida do poder. Se essa radicalidade lhe parece inaceitável, que outra alternativa nos resta?

Essas manifestações ao meu ver não tem valor em si; elas são marcadores do poder popular. A partir delas é que se constroem propostas de mudanças através da representatividade. Por isso é que são enganosas, pois elas não são um fim, mas um meio de construir ações políticas de mudanças estruturais.

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Personagens

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Esses dias vi uma foto da família Obama se despedindo da Casa Branca e abaixo da imagem todos os comentários elogiavam o presidente, suas filhas e – em especial – sua mulher Michelle. “Linda”, “maravilhosa”, “discreta”, “feminina”, “nobre”, “educada”. Michele parece ser o escoadouro para onde fluem todas as virtudes, principalmente as que mais fazem falta no cenário político atual.

Entretanto, eu proporia uma reflexão. Há muitos anos escutei de uma colega estudante de medicina rasgados elogios a um médico, o qual eu conhecia vagamente dos plantões. Ele não me parecia grande pessoa, mas não duvidei da minha colega, apenas resolvi perguntar que tipo de critério ela havia usado para classificá-lo como “grande profissional”.

Ela, obviamente, se ofendeu com minha pergunta. Questionar a origem de um apreço parece um desmerecimento. Mas não era; tratava-se da legítima curiosidade em saber as razões dessa admiração. Insisti e acabei descobrindo algo muito interessante.

Ela não sabia explicar. Não tinha NENHUM dado objetivo. Não o conhecia pessoalmente, não havia feito plantões com ele, não sabia de detalhes de sua prática. Não tinha sequer assistido uma aula sua. Então por que esse conceito positivo?

Seu conceito positivo sobre o colega havia surgido apenas por tê-lo escutado falando de sua prática. A forma como descreveu o que fazia, como fazia e porque fazia. Não havia nenhuma experiência verdadeira, apenas o discurso. Claramente a imagem que ela fez dele se adaptou à sua fantasia de profissional de sucesso. Pode-se acrescer a isso as roupas, a gravata, o jaleco branco impecável, o estetoscópio Litman, as canetas coloridas no bolso, o crachá do hospital, a brilhantina no cabelo e o linguajar científico e firme

Em outras palavras: nada de objetivo, apenas uma imagem construída de qualidade e sofisticação. Eu entendi que ela admirava um produto que ELE nos vendia, com claro sucesso. Mas ficava para mim a pergunta: o que existia de verdadeiro por trás daquela gravata italiana e daqueles termos médicos empolados? O que existia de médico para além daquela propaganda bem construída?

Voltando à Michelle…  o que nos faz achar que ela é uma “grande mulher”? Por concordar com nossas ideias? Por ser negra? Por ser discreta? Por ser mãe? Por se adequar ao que imaginamos ser uma primeira dama? Por algo que efetivamente fez? Por ser “feminista”? Por falar bem em público? Por estar “do nosso lado”?.

A verdade é que nos apaixonamos por PERSONAGENS!!!! Quantas vezes as atrizes da Globo são adoradas pelos papéis que incorporam, mas não foram poucas as vezes em que o contrario ocorreu: serem atacadas quando atuam como pessoas más. Lembro de Beatriz Segall sendo agredida no Rio quando atuava como Odete Roitmann (os velhos vão lembrar). Porém, as luzes do personagens nos seduzem demais e podem ser enganosas. Essa é a minha preocupação com estas figuras publicas: pouco ou nada sabemos delas. A face pública pode ser uma máscara que esconde um interior pouco recomendável, mas o contrário também é verdadeiro: uma face feia com uma energia espetacular. Só a prática e a ação podem mostrar o que se esconde por detrás das fantasias. Mas eu pergunto: qual seria a opinião dos palestinos, sírios, afegãos e iraquianos sobre esta grande mulher, cujo marido de sorriso simpático mandou matar centenas de milhares de cidadãos do Oriente Médio? O que ela realmente fez para o mundo, para as mulheres e para o seu país?

O que existe de verdade por dentro dos vestidos bem cortados? O que há de grandiosidade e caráter por trás de um sorriso generoso? 

Propaganda? Ou uma mulher de valor?

Não se ofenda…  é uma pergunta honesta.

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Tubaroa solitária

“Preciso de um namorado senão vou fazer uma loucura!!!!”

Diante do debate surgido com descoberta de um tubarão fêmea que conseguiu se reproduzir sem sexo criou-se a ideia (ou a fantasia) de uma sociedade onde as mulheres clonassem a si mesmas, criando uma sociedade exclusivamente feminina. Explorei esse tema no meu primeiro livro, mas penso que é importante lembrar no outro lado da moeda, pois existe outra possibilidade: uma sociedade sem mulheres e com bebês meninos produzidos em chocadeiras, como em Matrix. Os tubarões não tem acesso a estes recursos, mas nós (já?) podemos um dia chegar a este ponto de controlar a natureza como desejamos.

A resposta que eu dei a esta pergunta no meu livro foi que isso produziria uma enorme perda de diversidade para a humanidade. Retornaríamos ao tempo da cissiparidade ou da partenogênese, que foi abandonada exatamente por carecer de diversidade. Um mundo só de mulheres seria muito chato e monótono; um planeta só de homens seria inabitável. A variabilidade psicológica e emocional é o que nos oferece aptidões e visões de mundo múltiplas e complexas.

Um mundo sem homens seria chato e atrasado. Um mundo sem mulheres seria feio, frio e triste. Não desejo nenhum desses lugares nem aos meus (minhas) piores inimigos(as).

Digo mais: se a cura da homossexualidade – ou sua prevenção – fosse um dia alcançada isso também seria uma perda de perspectivas ricas e desafiadoras para a cultura. Portanto…. não vejo muito sentido em cultuar uma tubaroa que agiu apenas por desespero. Prefiro o caos das disputas de gênero ao paraíso mórbido e invariável de uma sociedade feita de pessoas iguais.

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Radicais

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É verdade que os grupos de humanização do nascimento e amamentação abrigam pessoas radicais e, as vezes, até violentas, mas lembrem que TODOS os movimentos sociais funcionam assim. Olhem para o feminismo, o movimento negro, os grupos de gênero, proteção animal, meio ambiente etc. Não é possível ser diferente porque somos todos humanos. Os grupos de parto humanizado e amamentação obrigatoriamente terão pessoas à esquerda e à direita, como todos os outros. Inevitavelmente surgem radicalismos e revisionismos, e isso faz parte do crescimento de qualquer ideia. No conflito entre essas visões de mundo os movimentos balançam e seguem em frente. Não há como se afastar muito desse roteiro.

A maioria das queixas aos ativistas merecem atenção e algumas até estão corretas, entretanto os julgamentos não nos ajudam em nada. Analisar levando em consideração os contextos, exercitando a empatia são atitudes fundamentais. Por outro lado, sem objetivos claros (como os benefícios do parto e do aleitamento materno), e o respeito aos ritmos do bebê não construiríamos movimentos como o do parto e da amamentação. Nosso desafio agora é ajudar sem julgar. Não é fácil, mas vale a pena tentar.

Meu único conselho é tentar manter os ideais acima das vaidades pessoais e cultivar o perdão e o respeito pelos que sonham o seu mesmo sonho, mas com matizes levemente diferentes.

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Escolhas e Demandas

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Cesariana por demanda materna é um debate complexo, por certo. Não o considero simples, tampouco fácil. Eu entendo alguns argumentos de quem acha que o sistema público de saúde não deveria pagar por cirurgias desnecessárias e que, ainda por cima, arriscam o bem estar materno e fetal. Entretanto, assim como sou a favor da liberação do aborto e das drogas – apesar de não gostar de nenhum deles – eu prefiro que as mulheres tenham direito a fazer suas escolhas, mesmo as que julgo equivocadas, do que serem tuteladas e obrigadas a realizar o que outras pessoas julgam melhor para elas. Proibir nunca foi uma estratégia inteligente; infantilizar as mulheres, também.

Vou me manter firme em minha visão original: “Precisamos tornar  o parto normal tão prazeroso e gratificante que a opção por uma cesariana será a mais tola das escolhas. Mas, ainda assim, será uma escolha da mulher.

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Nudes

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Na boa…. será que ainda é preciso fazer tanto escândalo sobre nudes? Ok, vamos combinar que publicar coisas privadas de alguém é crime, principalmente coisas que podem causar constrangimento, como a intimidade. Quanto a isso não vejo dúvida: privacidade é sagrada.

Por outro lado… nudes? Sério?

Falei muito com minha amiga sueca-americana que é uma líder no universo da amamentação e ela me contou da mania de nudez que os suecos tem. Existe uma verdadeira democracia com o corpo que nós ainda não entendemos. Eles curtem sair da sauna no inverno e fazer passeios na neve durante o inverno, completamente nus. Pai, mãe, irmãos, avós e os vizinhos. Eu fico imaginando como seria ridículo vazar a foto do bombadão pelado nesse contexto. Tem curiosidade sobre o pinto do garotão ou os titis da sua vizinha? Olha no Facebook deles!!! (e ganhe de brinde a tia e a avó peladonas na foto da família).

O Brasil é visto aqui nos Estados Unidos como um país de mulheres livres, homens bonitos (eu explico a elas que sou uma exceção) e liberalidade sexual. Mas esta última parte é absolutamente mentira. Somos moralistas com o corpo. Gordofóbicos e julgadores. Ficamos eletrizados com esses vazamentos fake de “celebridades de uma semana”. Ainda somos crianças excitadas com a diferença sexual.

Eu acho que estes comentários exagerados sobre o corpo alheio deveriam ser vistos como resquícios de um moralismo cristão anacrônico e sem sentido, e deveríamos – enquanto cultura – cultivar uma relação mais madura com a nudez.

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Invisibilidade

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“A violência é tão mais destrutiva quanto mais invisível. A lenta e insidiosa corrosão se faz mais intensa quanto mais se entrelaça com a banalidade das ações cotidianas, tornando-se imperceptível na complexidade da tessitura social. Ali, na camuflagem do dia a dia, sua força se faz mais robusta.”

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Elogio

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Um elogio possível a alguém que carrega o peso da originalidade:

“Sabendo da rejeição violenta da cultura contra pessoas que escapam de um padrão (físico, intelectual, sexual ou estético) normativo e reconhecendo a alternativa sedutora de simplesmente se esconder ou se camuflar na paisagem, é bom saber que lhe sobra suficiente ousadia e coragem para ser você mesmo neste ambiente que sempre lhe empurra em direção à mediocridade”.

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O Amor

Reflexões de aeroporto,

Instigado por Camille Paglia eu resolvi assistir o filme “A Vingança dos Siths“, cuja batalha final entre Obi-wan Kenobi e Anakin é descrita por ela como uma grandiosa peça de arte visual contemporânea. Neste capítulo da saga ocorre a degeneração de um mestre Jedi e o surgimento do grande líder do lado escuro da força, Darth Vader. Este último não é nada mais que o mestre Anakin Skywalker, que abandonou seu amigo Obi-wan Kenobi e uma lealdade que os unia por muitos anos. A magnífica batalha final acaba por selar esta separação. Mas qual a razão por ter se tornado uma figura grotesca e maligna, capaz de trair uma amizade profunda e abandonar todos os seus ideais de autonomia, liberdade e democracia?

Sim, o amor.

Força descomunal, incontrolável e violenta, ela foi o ponto inicial para a criação do pior vilão do cinema do século XX. George Lucas deve ter se perguntado: se eu precisar transformar um herói destemido e leal em um assassino destruidor e vingativo, qual poderia ser sua motivação profunda? Sim, o amor seria a única força humana com essa potencialidade. Nada mobilizaria nossas emoções mais densas e primitivas com tamanho efeito destruidor quanto o amor. Ele é a grande mola da criatividade humana, para o bem e para o mal.

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Frankenstein

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O assassino era como o monstro de Frankenstein, composto por centenas de pequenos fragmentos de rancor e decepção. Uma estrutura de ódio, retalhos de misoginia, um pouco de raiva, umas pitadas de indignação seletiva e um punhado generoso de auto condescendência. E como pano de fundo o amor deteriorado e doentio.

Não há nada de novo na sua fala e nos seus sentimentos, assim como não há nenhuma novidade em salitre, carvão e enxofre. Entretanto a mistura desses elementos produz a força destruidora da pólvora, enquanto agora a combinação de indignação, culpa, frustração, banalização da violência, machismo e uma mente frágil e doente produzem tantas tragédias.

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