Arquivo do mês: março 2017

Hipocrisia

Escuto todos os dias os radialistas populistas de direita com esse discurso de armar a “população de bem” para combater a onda de violência e acabar com os criminosos. Entretanto, eu lembro que essa indignação só emerge quando a vitima é branca, de classe média e o crime ocorreu em um bairro onde transitam as castas superiores. Só escuto silêncios quando morrem dezenas de negros e pobres nas ações da Polícia na periferia ou nas guerras entre as as facções que lutam pela primazia de abastecer a droga para estes mesmos cidadãos de bem. A morte só nos afeta quando próxima e as vidas ainda valem tanto quanto a cor de quem as carrega.

A hipocrisia agora é o idioma oficial da nação.

Esta hipocrisia contemporânea nos oferece a oportunidade de chorar pelo menino branco de tênis Nike morto na guerrilha urbana, mas nos anestesia para morte de uma legião de pretos e pobres que morrem todos os dias para nos garantir o direito de fumar aquele baseado em paz.

Edgar Alan Pontes, “Ruas de Fumaça” Ed, Bonett, pág 135.

Edgar Pontes é um colunista de jornais nascido em Curitiba em 1985. Escreveu no “Diário do Povo”, no “Correio Popular”, na “Folha de Maringá”, todos no Paraná. Dedicou-se ao jornalismo popular e policial, tanto para o jornal quanto para o rádio, e seu programa “A Hora do Crime” ficou famoso nos anos 70 por apresentar uma visão mais pessoal e intimista dos criminosos, apresentando-os como pessoas de verdade que se colocavam entre dilemas humanos e complexos. Recebeu críticas de ambos os lados: dos justiceiros sociais, punitivistas e apologistas da pena de morte e dos representantes dos direitos humanos. Depois do término do seu programa de rádio dedicou-se à literatura e escreveu “Ruas de Fumaça” onde mostra o lado mais perverso das delegacias, as torturas, o preconceito social, o racismo e a misoginia que permeiam o encontro dramático entre os sujeitos e as autoridades policiais. Seu livro foi celebrado como um “retorno” às suas origens humanistas e um rechaço à política de extermínio das polícias do país.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações, Política, Violência

Religião e Fé

Segundo Reza Aslam, professor de teologia e escritor (O Zelota), a religião é como um poço e a água que ele procura é a fé. A água é a mesma para todos, assim como a fé. Ela nos atinge – ou não – como um sentimento impossível de descrever, mas é percebida por quem por ela foi tocado. Os poços podem variar em grandeza, sofisticação e até profundidade, mas sua única função continua sendo dar forma e vazão à água que corre nos subterrâneos. Com a mesma intenção, as religiões buscam alcançar a fé e dar-lhe corpo, verbo e ação. Qualquer erro de uma religião não pode ser atribuído à fé, mas à forma como as religiões ousam mergulhar no escuro da alma humana para traçar sua conexão com o invisível.

Por outro lado as religiões contemporâneas funcionam muito mais como elementos identitários do que como ferramentas para organizar e dar sentido às crenças. Elas funcionam como veículos para oferecer a sensação de pertencimento à uma humanidade cada vez mais homogênea. Lutar contra o obscurantismo das religiões contemporâneas (todas) pode ser uma boa luta, decifrando e trazendo à luz as interferências políticas de suas interpretações. Porém, combater a fé com racionalismo e cientificismo é tão inútil quanto iluminar um ambiente para mostrar o perfume das rosas.

Anton Van der Arbuit, “Plastic bloemen niet sterven”, Ed, Plantak, pág 135

Anton Van der Arbuit é um escritor holandês nascido em Roterdã em 1935. Estudou teologia na Theological University in Kampen, que é o seminário teológico das Igrejas Reformadas na Holanda. Escreveu várias críticas, ensaios e contos baseados na fé e na teoria da Graça. Tem uma visão plural e progressista da religião, e é conselheiro do “Conselho Ecumênico Cristão da União Europeia”. Mora em Kampen, na Holanda.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações, Religião

Amor romântico

Não acho que amor romântico seja uma “ilusão”, acho apenas que ele ele é um fetiche que tem tanto valor quanto bunda grande, seios voluptuosos, carros esportivos ou peito cabeludo. Acreditar que ele é o “verdadeiro amor” é um erro; ele é tão somente uma forma de amar.

Para mim o amor se resume em três elementos básicos: desejo, cuidado e admiração. A forma como você vai organizar estes sentimentos pode variar infinitamente, mas se eles não estiverem presentes eu penso que uma outra palavra precisa ser usada.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Transformações

Se o parto em si é incapaz de imprimir transformações positivas na carne e no espírito de quem é ultrapassado por sua energia então, por coerência, NENHUMA ação humana é capaz de abrir QUALQUER porta de percepção. Não é justo esperar tal processo através da chegada de um filho, por amar alguém, por ser amado em resposta, por lutar, vencer, conquistar ou alcançar um sonho. Não existe luz ou transcendência própria em nenhuma coisa, nenhum evento, NENHUM acontecimento.

Pode ser, mas precisamos forçosamente reconhecer que, de outra parte, qualquer evento é capaz de oferecer essa elevação, esse defenestrar, esta transformação, este deslumbramento, desde que o sujeito que delas participe se permita tocar pela sua força transformativa.

Nenhum evento em si, por mais fulgurante e esplendoroso que seja, é capaz de produzir mudanças; só o sujeito podem se transformar diante dele, desde que esteja pronto para tanto.

Não é?

Deixe um comentário

Arquivado em Parto, Pensamentos

A conta

“Tanto Collor quanto Dilma foram eleitos sem ter a garantia de um parlamento capaz de sustentá-los. Nenhum deles jamais teve o carisma e a genialidade de Lula, que sempre teve o povo ao seu lado; nenhum presidente na história democrática moderna terminou seu governo com 92% de aprovação.

Collor e Dilma caíram por golpes parlamentares, apesar do caso Collor haver provas de crime eleitoral que ficaram claros no processo. No caso de Dilma se tornou impossível governar por causa das “pautas bomba” de Cunha e pelo impeachment, ações planejadas por Cunha-Temer para a desestabilização e o golpe. Mas não se iludam: o recorde de assassinatos em Pernambuco, que hoje testemunhamos horrorizados, está intimamente ligado ao golpe. Existe uma sensação clara de que não há porque obedecer às leis: manda o mais forte. Se é possível tirar uma presidente ao arrepio da lei, então você mesmo pode fazer sua lei.

Aos paneleiros, a conta”.

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Desapego

O pensador Sêneca, pintura de Rubens, Sec. XVII

“O Mestre Mahatma Gandhi nos ensinou que a vida na simplicidade era muito mais feliz e plena. Muito antes dele Sêneca, pensador romano, já nos mostrava que “a pobreza não está na falta de recursos, mas na multiplicidade dos desejos”. Não somos pobres por termos pouco, mas por desejarmos demais, nem ricos por termos tudo, mas por encontrar satisfação e alegria nas minúsculas aquisições.

Assim, a busca pela riqueza nos oferece dois caminhos distintos e opostos: a profusão ilimitada de bens, acumulados no limite possível do espaço para guardá-los, ou o desapego de todas a coisas materiais, no limite das necessidades básicas de sobrevivência. No matiz que se produz entre estes polos extremos estamos nós, entre a sedução ofuscante da matéria reluzente e a consciência cada vez mais vívida de que tudo o que possui real valor na vida nos é dado de forma gratuita.”

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Um Vinho com Moro

A postura de Leandro Karnal no papel de “Guru” acima do bem e do mal, sua atitude afetada e debochada contra elementos da cultura popular (como Luan Santana), suas tentativas infindáveis demonstrar sofisticação e erudição e suas ironias e frases de efeito clichê sempre me incomodaram. Porém, como ele está “do nosso lado” sempre relevamos. Talvez estejamos vendo o ocaso de um ícone da esquerda que em pouco tempo se transformará em “liberal”. Sairá reclamando da intolerância e dos xiitas. É provável que e as análises mais sombrias estejam corretas.

Leandro Karnal é um inegável sucesso recente da Internet através dos seus vídeos no YouTube. Eu não o conhecia antes disso, apesar de ele ser de São Leopoldo. Não há como negar que ele é inteligente, culto e sabe se expressar. Brinca com as palavras, os tempos do discurso e seus silêncios. Cativou multidões de fãs por oferecer pérolas de autoajuda ou por explicar alguns conceitos complexos com palavras simples.

Entretanto ele sempre me pareceu, em todas as suas manifestações, ser dominado por uma vaidade inegável. Sua fala é cheia de citações e referências que emolduram um discurso empolado e por vezes afetado. Por mais que sua erudição me pareça admirável creio que ele sucumbiu à soberba, engolido pela fantasia de se tornar um guru, ao invés de se contentar com o lugar de livre pensador.

Ora, um pensador mais cedo ou mais tarde terá suas ideias contestadas ou sua imagem arranhada por outro artista da palavra, mais brilhante e capacitado. Pode inclusive acabar produzindo um grupo muito grande de detratores e contestadores.

Já um guru atinge o desejo, e não a razão. Ele não quer que suas ideias sejam aprendidas ou que seus pensamentos tragam luz à escuridão que nos ameaça. Não, o guru quer ser amado.

Não acredito que o jantar com Moro tenha sido casual. Creio mesmo que o encontro e a foto são propaganda de um projeto pessoal. Eu lamento por um lado – ao ver um pensador à esquerda fazer média com uma pessoa nefasta para o país – mas por outro lado fico feliz ao ver a imagem de um “guru da esquerda” se esfacelar.

Triste do povo que precisa de heróis ou gurus.

PS: Uma piada que não consegui evitar “Foi só um vinho ou também rolou um encontro Karnal?”

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Aliado não alinhado

Escrevi um texto enorme já há uns dois anos sobre esta questão, mas resolvi tocar no assunto novamente pois ainda ontem o Justin Trudeau se manifestou como sendo “feminista”, apesar de que, na visão de algumas feministas, ele seria classificado como “feministo”. Quando me perguntam sobre isso eu preciso dar esta singela explicação:

Existem dois conceitos diferentes quando se fala de feminismo e que se confundem com frequência. Existe o feminismo como uma IDEOLOGIA e o feminismo como MOVIMENTO SOCIAL. Eu me associo ideologicamente ao feminismo pois não há nenhum preceito básico feminista (equidade, respeito, protagonismo, proteção à maternidade, amamentação, autonomia, direitos reprodutivos, ampla liberdade sexual, direito ao aborto, escolha do local de parto, etc) com o qual eu não concorde e defenda de forma entusiástica. Portanto sou inquestionavelmente aliado do feminismo.

Por outro lado existe um movimento feminista composto de pessoas. Estas são passíveis de falhas humanas, erros, equívocos de rota, divergências internas, dissidências, rancores e tantos outros problemas que ocorrem em todos os movimentos que pretendem mudar a cultura, e é absolutamente natural que assim ocorra. Feministas são pessoas com sonhos, defeitos e virtudes.

Entretanto, nesse movimento, por mais que eu esteja de acordo com suas premissas fundadoras acima descritas, eu jamais terei voz, jamais poderei solicitar uma troca de rumo, uma mudança de discurso ou uma nova estratégia que me pareça melhor do que aquela até então utilizada. Minha condição masculina me afasta de qualquer possibilidade de mudar o “feminismo movimento”. Desta forma, jamais poderei fazer parte de um movimento que não me considera um igual, mas também reconheço este “lugar” a mim determinado como justo, e jamais me ocorreria reclamar dele.

Portanto, minha posição continua sendo de “aliado não alinhado”.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos

Cerimônia de Casamento

Acabo de chegar da igreja onde assisti um casamento católico tradicional. Lindo, emocionante, charmoso. Todo mundo se apertando dentro da roupa. Mulheres segurando lencinhos e homens desengonçados com seus paletós e suas calças justinhas. Nenhuma mulher era mais baixa do que eu, mas a mágica se escondia por sob os vestidos longos. Os homens riem, as mulheres choram.

Um espetáculo de exaltação da sexualidade, a começar pela porta central da igreja, que só abre nas núpcias, como um colo uterino a receber as sementes em forma de nubentes. A encenação máxima do mais importante dos rituais humanos, que representa a promessa de continuação da espécie.

Cada passo, cada fala, cada personagem, toda a ordem, cada sorriso tem um papel importante na celebração do patriarcado.

PS: Eu coloquei esse texto exatamente como contraponto ao que eu imaginava que alguém escreveria. Isto é: a resposta a uma pergunta ainda não havia sido feita. O que eu vi nesse casamento foi um ritual de reforço do patriarcado e que é TOTALMENTE feito pelas mulheres – e para elas. TUDO é construído em torno da figura central: a mulher e sua importância fundamental na estrutura social humana.

A forma poderosa como ela é apresentada seduz mesmo as mais resistentes críticas. Por isso que, ao escutar tantas queixas das mulheres fico perplexo ao ver que esse ritual do patriarcado sobrevive essencialmente pela luta das mulheres em mantê-lo de pé. Em um mundo onde as mulheres conquistam espaço e criticam a opressão a que são submetidas pelo machismo é curioso – talvez paradoxal – que o ritual mais poderoso para a supremacia do patriarcado seja mantido vivo exatamente por aquelas que se sentem oprimidas por ele.

A tese é simples: os valores profundos de uma cultura de expressam através de seus rituais. Através dessa “regra” fica claro perceber que contextos (culturas) belicosas tem rituais violentos; culturas fraternas e justas tem rituais mais ligados ao congraçamento e à igualdade. Culturas machistas encenam rituais que valorizam o homem. Não há nenhum feminismo (entre todas as suas expressões) que não veja no patriarcado a origem da assimetria de poderes entre os gêneros. Esse sistema de 100 séculos ainda domina a estrutura social apesar dos sinais claros de sua decadência. De todos os rituais que servem como pontos de proteção e exaltação do patriarcado o casamento religioso é o mais forte e o mais importante por sua simbologia. Sendo assim, deveria ser preservado e protegido por quem retira alguma vantagem desse modelo decadente e opressor, mas o que se vê é EXATAMENTE o oposto: o casamento é totalmente edificado em função das mulheres sendo por elas controlado, gerenciado e conduzido.

Um um casamento é uma encenação. Ele REPRESENTA outras realidades que não são explicitadas no texto  por isso ele é um RITUAL. Um ritual precisa ser repetitivo, padronizado e simbólico. Portanto ele ESCONDE dos sentidos seus significados mais profundos. O casamento é um reforço do patriarcado em todos os ângulos que se olhe, basta olhar em profundidade e não apenas na superfície.  Além disso o casamento não tem NENHUMA ligação obrigatória com o amor. NENHUMA. Se quiser ver um exemplo disso assista o casamento do século entre o Príncipe de Gales e Diana. Não havia amor e mesmo assim o ritual se manteve de forma integral. O casamento por amor é uma invenção muito recente na história da humanidade, e tem menos de 200 anos. Os casamentos sempre tiveram função social e por isso tinham solidez. Esses contratos tinham uma clara função de produção e procriação, e não havia nenhum compromisso afetivo entre as partes. Ainda é assim em muitos lugares do mundo.

Pior; o acréscimo do amor nas relações maritais foi numa tragédia para esta instituição, e acredito que o casamento – por causa desse detalhe – nunca vai se recuperar desse golpe e voltar a ter o prestígio de outrora.

Aliás… Eu também sou contra o “casamento gay” enquanto RITUAL. Puxa… a sociedade inteira considerando o casamento uma instituição fora de moda e sem sentido e os gays querendo revitalizar a “união abençoada por Deus”? Que coisa mais cafooooona!!!! E diga-se de passagem que sou a favor de que as uniões gays tenham as MESMAS garantias legais das heterossexuais, mas acho que o “casamento” (enquanto ritual) é um retrocesso (mas um direito que não discuto). Sim o casamento gay (alguns que vi no Youtube) produz a mesma representação patriarcal que os heterossexuais tentam mudar ou abolir, por isso que eu considero algo ultrapassado.

O casamento não precisa ser “machista”, mas inegavelmente simboliza os mais importantes valores do patriarcado

O casamento com todos os seus símbolos ainda é o sonho de muitas mulheres, mas enganam-se os que pensam que isso tem a ver com informação, cultura ou estudo. O casamento ainda é um sucesso em todas as classes sociais.

A cerimônia só não é celebrada por elas no catolicismo. Ainda…

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Violência exposta

“Da mesma forma como o horror do holocausto judeu da II Guerra ou o genocídio planejado de Palestinos em Gaza precisam ser mostrados para que do choque se faça consciência, também precisamos mostrar a indignidade e a violência (real e simbólica) contra as mulheres que procuram maternidades para dar à luz. Só assim exposta e visível a violência obstétrica poderá ser reconhecida, nominada, assumida e por fim combatida e eliminada”

Deixe um comentário

Arquivado em Parto, Violência