Arquivo do mês: outubro 2017

Cotas

“As cotas nos Estados Unidos (affirmative action) revolucionaram a entrada de negros no ensino superior e criaram uma classe média negra volumosa que o Brasil ainda não tem. As cotas foram revolucionárias e positivas para a democracia racial que propuseram e o seu sucesso fez com que fossem aplicadas em outros países. No Brasil o ódio SEMPRE EXISTIU em especial por parte dos fascistas e racistas que infestam nossa política, mas os movimentos de valorização dos negros expuseram este ódio para a luz do dia.

Quando Portugal dominava Angola não havia conflito, só opressão. A calmaria era pelas armas e o silencio pela opressão colonialista brutal. Na aparência parecia haver paz, mas tão somente a “pax romana”, a paz dos dominados. Quando os negros reagiram à dominação e ao jugo colonialista eles se levantaram e exigiram seu país de volta. Só então vieram à tona a luta e o enfrentamento.

Não se pode ser tolo a ponto de não enxergar que o silêncio de antes não era mais que medo e opressão e os sons que hoje ouvimos são apenas os gritos por séculos de dor presos na garganta. Essa paz dos oprimidos não me serve; prefiro a luta pela liberdade e pela justiça, nem que para isso ainda seja necessário muito barulho.”

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Séries americanas

As séries americanas como NCIS (em qualquer versão) são grandes campeões de audiência nos Estados Unidos e no mundo inteiro. Mocinhos, bandidos, uso de tecnologia, mulheres de 50 kg dando golpes e derrubando homens de 90 kg, humor, sarcasmo e alguma pitada de sexo. Mas eles são na verdade fontes extremamente potentes de propaganda americana. As mensagens inseridas em cada capítulo seriam ridículas e infantis se não eu soubesse que são cientificamente elaboradas para passar uma mensagem, via de regra preconceituosa e ufanista.

A forma como são descritos os árabes – e os muçulmanos em geral – como jihadistas fanáticos e insensíveis é absurda, ofensiva e grotesca, mas serve de alimento para um povo acostumado a pensar em si mesmos como o centro do mundo. Isso explica como o massacre que foi a invasão do Iraque ainda seja tratado aqui como “uma luta para levar democracia a um país consumido por uma ditadura cruel”. Chamar isso de entretenimento só faz sentido em um lugar que chama Mc Donalds de “comida” e Trump de “presidente”.

Agora estou assistindo “Designated Survivor” para acompanhar minha amiga, que tem um gosto inacreditável para lixo televisivo. Trata-se de uma série americana sobre a morte do presidente seguida da reposição por um não político, já que todo o gabinete morreu no atentado. O ator que faz o novo presidente é o Kiefer Sutherland, o mesmo que fazia o Jack Bauer. O nível de ufanismo e bom-mocismo é tão ingênuo e cafona que é impossível não ser planejado. É como assistir “Independence Day” em capítulos.

É compreensível que os americanos vivam nessa bolha em que genuinamente se sentem a reserva moral do mundo. É um bombardeio diário de propaganda incessante.

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Rádio

Eu me criei ouvindo rádio. Rádio de válvula, que a gente espiava por trás para ver as luzinhas. Nasci exatamente no ano em que foi fundada a primeira televisão na minha cidade e eu sempre soube que fazia parte da classe média porque na minha casa havia um aparelho Telefunken e mais tarde uma TV Philco em cores. Quem é “millenial” – e já cresceu conhecendo telefone celular e computador – não consegue imaginar o impacto que era para nós a chegada dessas tecnologias. Nem vou falar da chegada do telefone na minha casa, ou muito mais tarde, nas casas do litoral.

Mesmo assim, eu nunca deixei de gostar de rádio. Rádio para mim tem um sentido nostálgico e afetivo. Eu dormia ouvindo programas da madrugada na rádio Gaúcha. Eu lembro do programa do Jayme Kopstein e seu amigo “Pato”, que ouvia os comentários dos insones durante a noite toda. Meu irmão Roger Jones era fã da tia Eva, a “Cigana Hepagosina” da rádio Eldorado, isso quando tinha uns 10 anos de idade. “Vai dormir, guri!!”, dizia ela no ar, quando o Roger ligava. Rádio sempre foi maravilhoso para mim. “Olho na TV, ouvido no rádio”, já dizia o comentarista e jornalista Lauro Quadros, pedindo para a gente assistir ao vivo os jogos na TV, mas manter os ouvidos grudados no radinho. Era o que eu fazia.

O rádio de notícias acabou sucumbindo às determinações do mercado e como a rádio mais importante de Porto Alegre é uma afiliada da Globo todo o material que vai ao ar é filtrado pelas editorias. Foram apoiadores do golpe desde o primeiro momento, e agora são fãs ardorosos dos mocinhos da Lava Jato, do Juiz Moro e atacam frontalmente Lula e Ciro Gomes. Perdi completamente o interesse nos seus programas e hoje em dia só escuto a Rádio Cultura.

Escrevo isso apenas porque sempre que visito a cidade de Austin eu escuto a KUT, rádio da Universidade do Texas. Eles fazem um jornalismo apenas sensacional, como não conheço nenhum no Brasil. É jornalismo de matérias espetaculares, sempre com profundidade e inteligência. Se você ligar o rádio a qualquer hora estará escutando uma entrevista maravilhosa sobre um tema interessante e atual. Só hoje de manhã escutei Ricardo Semler (um brasileiro falando sobre a desconstrução do modelo tradicional de empresa), uma matéria sobre a relação entre gravidez na adolescência e pobreza e outra matéria sobre casamentos e número de filhos. Em outra oportunidade eu escutei a história maravilhosa de uma chinesa que queria ser enterrada junto ao seu marido na China, em uma época em que isso era proibido, pois o marido foi enterrado em outro estado. Tocante, emocionante e absolutamente engraçado. E

u sei que no Brasil as pessoas ligam o rádio para escutar previsão do tempo, trânsito e a desgraça do dia. Muitas acham engraçado quando os locutores fazem piada com as prisões arbitrárias da República de Curitiba e com as caça às bruxas por eles protagonizada, mas eu ainda sonho com uma rádio de conteúdo, com matérias interessantes, repórteres de qualidade e assuntos instigantes. Talvez seja apenas nostalgia, mas é um sonho bom de sonhar.

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Assuntos Médicos

Eu não considero aborto um assunto médico, com exceção dos pequenos detalhes da intervenção como anestesia, antibióticos e posicionamento. Acho que a opinião do ginecologista sobre esse assunto – numa concepção abrangente – é igual a de qualquer outra pessoa da comunidade onde se insere. As questões médicas relacionadas ao procedimento são simples, técnicas e até desimportantes quando se analisam os grandes pontos de tensão.

Aborto é uma questão social e o médico é um dos participantes menos importantes nesse debate. Aliás, os médicos – via-de-regra – são fiéis representantes dos modelos sociais patriarcais. A medicina como instituição é um braço do patriarcado, responsável por sua manutenção e disseminação. Por isso a corporação médica está sempre ao lado das classes mais abastadas em qualquer debate, como os que temos na atualidade.

Eu não acredito numa visão “médica” sobre temas como anticoncepcão, parto humanizado e aborto. As opiniões médicas são as o reflexo de suas visões de CLASSE. Os médicos tem opiniões de classe média alta, que é a classe que (ainda) pertencem. Quando um médico dá sua opinião sobre aborto sua formação técnica não terá nenhuma relevância. O que vai contar é sua formação pessoal e a classe onde está inserido. Muito mais significativa será sua estrutura pessoal, social e emocional do que qualquer aprendizado técnico recebido na Universidade.

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Sem Lula é Fraude

A prisão do Lula numa perseguição escandalosa promovida pelos setores mais reacionários de uma sociedade escravocrata não passará em branco. Se Lula não concorrer NENHUM presidente terá legitimidade (como este usurpador de agora). A greves vão acontecer por todo lado, o “Fora XXX” vai aparecer em todos os muros, a pressão da comunidade internacional vai se fortalecer, o clima político no Brasil ficará ainda mais belicoso e tenso. O Brasil se tornará um péssimo lugar para viver. Talvez a solução apresentada pelas elites será o golpe militar ao estilo anos 60-70, mas aí teremos a suprema humilhação internacional.

Claro que os Estados Unidos imediatamente reconhecerão o novo governo militar (de novo), mas o mesmo não vai acontecer com os países civilizados e democráticos da Europa. Lula preso desta forma – sem provas, com lawfare, com desprezo pelas leis – fará o Brasil virar um caos. Uma das razões importantes para a situação conflituosa é que o juiz de Curitiba fez um cálculo errado. Achou – junto com a Globo e os golpistas – que o povo estaria junto com ele no “combate ao PT”, travestido de luta contra a corrupção. Acharam que todos íamos acreditar na narrativa criada para desmoralizar o PT, o único partido na história de República que ousou mudar a pirâmide de classes do Brasil. Também acreditaram que Moro seria colocado no patamar de “heroi nacional” e os promotores fanáticos gospel de Curitiba seriam vistos como “Os Intocáveis” tupiniquins, sendo o Dalanhol um Eliott Ness longilíneo e de bochechas rosadas. Hoje em dia a crítica à atuação dos promotores na Lava Jato varia de “concurseiros arrogantes” até “fascistas”, como cita constantemente o candidato Ciro Gomes.

As “dez medidas” propagandeadas por este grupo entrarão para a história como a peça mais agressiva e violenta contra as garantias individuais e a proteção do cidadão. Esta narrativa planejada não se concretizou. O juiz da República de Curitiba despenca na aprovação nacional, ao mesmo tempo em que Lula – apesar do massacre midiático – supera de longe todos os seus concorrentes à disputa presidencial – e continua crescendo. Por essas questões – a impossibilidade de fazer valer uma narrativa que inviabilize politicamente o ex-presidente Lula – a situação se deteriora para o governo a partir de 2018. Qualquer solução será dramática, mas se o judiciário continuar nessa espiral descendente de credibilidade (ainda estou escrevendo sob o impacto do suicídio do reitor da UFSC) ninguém sabe o que poderá ocorrer.

Por outro lado eu diagnostiquei uma atitude preponderante entre as pessoas de esquerda que é assim: “Enquanto Lula for covardemente perseguido votarei nele para que não se mantenha essa injustiça.” Não estão votando num projeto de Brasil, estão votando para proteger Lula como o grande símbolo da esquerda. Sabem que, se os poderosos podem fazer isso com Lula, podem facilmente destruir qualquer um que se coloque de peito aberto contra o avanço neoliberal. Porém, se Lula for inocentado e não correr mais risco de ser massacrado por um juiz corrupto, poderão votar de acordo com suas preferências, suas ideias e suas emoções. Esse é o meu sentimento: se o grande símbolo da resistência popular continuar sendo ameaçado por um judiciário que tem lado, então meu voto será de Lula

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Ensaio Futurista

Vejo os articulistas mais fanáticos à direita numa cruzada insana para condenar Lula. Boa parte dos paneleiros se intoxica com esses farsantes e não conseguem mais enxergar a diferença entre realidade e desejo. Todas as acusações contra Lula e todos os depoimentos falharam em mostrar a ÚNICA coisa indispensável: a materialidade da corrupção. O dinheiro, a conta, o benefício indevido, o carro, a mansão, o bilhete, o telefonema, o patrimônio sem lastro, os benefícios indiretos claros, a fortuna ou as barras de ouro embaixo do assoalho. Nada foi mostrado e Lula aumenta todos os dias a diferença dos seus adversários, infelizmente.

Seremos obrigados a cair em 5 alternativas possíveis, na minha modesta visão :

1 – Lula ganha fácil e teremos dificuldades, mesmo sendo Lula um gênio da política e um conciliador (provavelmente em demasia).

2 – Lula é preso e teremos golpe militar pois nenhum governo será legítimo quando 70% da população quer um presidente que está preso sem prova alguma.

3 – Um candidato de direita vence com menos votos que os brancos e nulos, como Bolso*, o que significa guerra civil, mortes, golpe militar. Enquanto Lula estiver prezo sem provas o Brasil e o mundo boicotarão o país.

4 – Ciro mais um candidato de esquerda (Haddad? Dino?) vencem e tentam apaziguar a nação, mas para isso terão que mexer com os milicos mentecaptos e lutar diretamente contra o judiciário e o próprio STF.

5 – Outra força de centro vence, alguma que não apareceu ainda no cenário nacional. Pouco provável.

O desejo de que Lula seja preso a qualquer custo significa morte e estagnação. O nojo dos pobres e negros que a direita cultiva é um sentimento primitivo, mas acima de tudo suicida. Fica aqui o meu aviso. A comunidade internacional sabe que o que existe é um golpe criado sobre mentiras. O objetivo é impedir governos populares. Continuar odiando pobres e negros é uma opção inconsequente, mas se ela persistir não sei para onde irá esta nação.

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Madame Secretária

Aqui nos Estados Unidos eu faço companhia à minha anfitriã acompanhando séries como “Madam Secretary”, a qual descreve o cotidiano de uma secretária de Estado (seria a chanceler, como Hillary) e suas peripécias como mãe de família enquanto trata de guerras e negociatas políticas no mundo inteiro. Nada pode ser mais ingênuo e falso. Em todos os episódios os americanos estão preocupados em salvar o mundo da selvageria que existe nas partes não brancas do planeta. Os árabes, em especial, e os políticos da Ásia Central são tratados com profundo desrespeito e desdém. Todos são corruptos, tolos, perversos, desonestos e pueris.

No episódio de hoje o presidente do Quirguistão propôs um acordo com a Secretária de Estado sobre bloquear o tráfico de mulheres naquela região desde que uma famosa atriz americana comparecesse ao seu aniversário. Esses países, aos olhos do americano médio, não passam de republiquetas cheias de bárbaros comandados por ditadores vaidosos e prepotentes.

Na série é evidente o choque entre civilização (nós) e barbárie (eles).

Em contrapartida os americanos são bravos, nobres, determinados e honestos. São ridiculamente certinhos. Em.um episódio, a filha da secretária se inscreveu para Harvard e negou-se a usar o cargo da mãe como trampolim para a vaga. As lições de moral ao estilo “Waltons” acontecem toda hora e da maneira mais piegas e artificial.  Os outros dois filhos são incrivelmente estereotipados e o marido um herói bonitão, maduro e íntegro.

A imagem que os americanos fazem de si mesmos e dos outros países é forjada nessas séries produzidas como pura propaganda. Pior ainda é a gente no Brasil acreditar nessas mentiras.

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Cheiros

No final da tarde fomos levar os cães para passear e logo que saímos do carro Violet e Mio decidiram se esfregar em um gambá morto. O cheiro era horrível e nauseante. Como íamos entrar na água do rio achei que seria suficiente para lavá-los e tirar o cheiro impregnado em seus pelos. Assim o fizemos, mas tão logo voltamos ao estacionamento eles voltaram a se esfregar no bicho, apesar dos meus gritos desesperados.

Percebi que o cheiro do gambá era prazeroso para eles, apesar de ser horrível para nós. Quando chegamos em casa tivemos que dar um banho duplo para tirar o cheiro e passar um shampoo, e mesmo assim o odor penetrante do “skunk” não saiu totalmente.

Isso me fez pensar na forma como adaptamos esses animais ao nosso mundo, absolutamente contra seus instintos e desejos. Para Violet e Mio o cheiro do gambá era muito melhor que o odor do shampoo que colocamos neles.

Num universo paralelo uma dupla de cães idosos levou seus humanos para passear na margem do rio. Quando lá chegaram os jovens humanos encontraram um campo com alecrim e lavanda, e se encantaram com as fragrâncias silvestres, pegando folhas e flores para passar nas mãos e no rosto. Ao verem essa atitude seus donos caninos se horrorizaram com a atitude dos porcalhões e os levaram para casa, onde os banharam com água quente e shampoo de carniça.

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A Banalidade do Mal

Uma jovem pesquisadora da Índia resolveu publicar um estudo sobre uma das maiores feridas da sociedade de seu país: o estupro. Para tanto entrevistou 100 estupradores condenados e chegou a uma conclusão importante: “São homens comuns, não monstros”.

Hanna Arend disse exatamente o mesmo; ao meu ver absurdo seria dizer o contrário. Qualquer viagem ao inferno humano nos leva a encarar o espelho. “O que é humano não me é estranho”, nos ensinava Terêncio, uma das lições mais difíceis de aceitar, por atingir frontalmente nossa arrogância essencial Desumanizar o estuprador evita que sejam entendidos, acolhidos, tratados e julgados como humanos movidos por desejos humanos. Demonizar estupradores e pedófilos impede que compreendamos o caldo cultural de onde brotam, e assim perdemos a possibilidade de prevenir sua aparição.

Hanna Arend também chocou ao falar da banalização do mal e encontrar seres humanos normais entre os nazistas que cometeram as maiores atrocidades durante a guerra. Eichman, seu personagem principal, era um burocrata comum, mediano, que passaria despercebido por quem o encontrasse na rua.

Uma das cenas no filme sobre Hanna Arend descreve a cena de fúria e indignação dos seus amigos judeus (Hanna também era) quando ela lhes evocava o conceito de “banalidade do mal” e sua surpresa ao ver diante de si, no julgamento de Eichman, homens comuns cumprindo ordens quando esperava ver aberrações de perversidade explícita nos algozes sendo julgados.

Os textos – da jovem hindu e de Hanna – mostram que essas pessoas são tão humanas quanto qualquer um de nós. Isso é ao mesmo tempo aterrador e revelador. Não há nada de monstruoso (no sentido de inumano) nestes atos; tudo de ruim que fazem estes homens existe dentro de cada um de nós como uma semente que os contextos e as circunstâncias se encarregam de nutrir e regar.

São apenas homens, meninos com medo“, disse o padre Heitor para Amélia.

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