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Obstetras de Cristal

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No filme Matrix o personagem Tank (Marcus Chong), diferentemente de vários outros personagens da trama, não foi resgatado dos tanques que mantinham vivos os organismos humanos na vida virtual do grande programa chamado Matrix. “Born and raised in Zion”, exclama um orgulhoso Tank, cuja parte posterior do pescoço não exibe – como Neo, Morpheus e os demais – a cicatriz de acoplamento com a máquina de conexão à Matrix.

Tank já havia nascido em liberdade. Sua conexão com o mundo é real, e não filtrada por um sistema de crenças que o leva a crer como reais as construções ilusórias de um mundo artificial. Não é necessário um “cabo de dados” para o mundo de fantasia; sua consciência o conecta com uma realidade mais pura e verdadeira.

Todos os profissionais da humanização do nascimento que conheci na minha trajetória de 30 anos precisaram ser resgatados da Matrix Obstétrica. Acostumados a ver como reais a defectividade feminina, a incompetência essencial da mulher e a ritualística que se extrai dessa mitologia, após muitos anos de hibernação foram despertos do sono tecnocrático pela ação de elementos catalisadores: o nascimento do próprio filho, a gravidez, o luto, o êxtase inesperado ou uma singela paciente acocorada no fundo de uma sala de exames. Para cada despertar eu consigo ver um sujeito que “doulou” esta metamorfose; no meu caso, Dr. Moyses Paciornik. Para outros um professor, um palestrante, um mestre ou um paciente.

Contrariamente ao que se poderia imaginar pela firme vinculação da humanização do nascimento com a medicina baseada em evidências, estas transformações nunca ocorrem no terreno da razão; elas são fruto de uma maturação lenta e silenciosa do universo afetivo do profissional. É deste caldo emocional que surge a transformação, que só depois será aperfeiçoada pelo conhecimento e pelo estudo.

Entretanto, depois de três décadas observando alguns poucos obstetras se rebelando e sendo resgatados da nossa Matrix pela primeira vez na história começam a surgir os “obstetras de cristal”. Acho interessante esta forma de perceber os colegas da obstetrícia que não precisam ser resgatados, pois que algo suficientemente intenso ocorreu durante a sua formação, na graduação ou na residência, que os impulsionou diretamente para os valores do humanismo antes de serem tragados pelo moedor de carne da tecnocracia médica.

Para alguns, um parto humanizado que assistiram. Para outros um vídeo de parto. Em algumas profissionais foi sua própria experiência de parto que lhe permitiu sentir na carne o nascimento, antes de usar sua arte em outras mulheres.

Com sentimento, emoção, apuro e preparo técnico, muito além de serem apenas operadoras robotizadas, os(as) “obstetras de cristal” (uma alusão às crianças de cristal, seres da “nova era”) podem assumir-se humanos completos, sem abrir mão de suas qualidades afetivas ao realizarem a nobre tarefa de estar ao lado. E o fazem de uma maneira que sua presença não danifique a delicada tessitura de que é feito um nascimento.

Muitas experiências já estão em andamento no Brasil, como os alunos que já saem da sua formação orgulhando-se de não fazerem episiotomias de rotina, e reconhecendo a importância de proteger o parto normal. Precisamos ampliar o espectro desse novo paradigma, para que seja possível criar um exército de novos profissionais que se orientem pelas luzes do protagonismo garantido às mulheres, a visão integrativa do parto e sua vinculação com a ciência.

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Partos e Barbas

“Se o parto ocorresse nos homens ninguém ousaria questionar a decisão sobre onde ele ocorreria. Por outro lado, se a barba crescesse nas mulheres, ela seria tratada como um crescimento anômalo e perigoso de pelos faciais, que demandaria tratamento e intervenção médica.”

A análise do parto – e seus riscos – como um fenômeno meramente biológico, que ocorre sobre corpos reais, sem linguagem e sem alma, é o que mais me espanta nos debates sobre local de parto. A interface que se cria entre questões de gênero e poderes corporativos fazem desse tema um prato cheio para as discussões contemporâneas sobre liberdade e autonomia para as mulheres. O crescimento dessa modalidade, na Europa, nos Estados Unidos e mesmo no Brasil, vem na esteira de questionamentos cada vez mais intensos sobre a interferência do biopoder sobre as decisões soberanas de mulheres sobre seus corpos e seus destinos. Esta tendência crescerá de forma muito intensa nos próximos anos, pois que não há como retroceder quando se trata de liberdades conquistadas.

Cada vez que eu vejo colegas publicando trabalhos enviesados sobre local de parto, negando-se a olhar para trabalhos PROSPECTIVOS de partos PLANEJADOS, embasando POLÍTICAS de saúde – como na Holanda ou Inglaterra, que inserem o parto domiciliar como alternativa válida e recomendável – eu percebo que “risco” e “segurança” são palavras usadas por estes debatedores para encobrir os verdadeiros valores ameaçados: Poder e Controle.

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Estímulo ao Parto Normal

parto normal

Se as últimas iniciativas da ANS – entre elas o pagamento triplo para o parto em comparação à cesariana – efetivamente produzirem um incentivo ao parto normal, eu tenho algumas preocupações sobre o que acontecerá com a atenção ao parto na classe média, que é a mais afetada pela epidemia operatória na obstetrícia.

Pelo que percebo ainda existe muita falta de vontade e talento para atender partos normais. Partos são processos complexos, demorados, in…esperados, com uma configuração absolutamente única e subjetiva, exatamente porque fazem parte da “vida sexual normal das mulheres”, como nos alertava o mestre Odent. Por esta razão não existirão jamais duas mulheres que vão amar, gozar, sorrir, chorar ou parir da mesma maneira.

Assim sendo, sem estabelecer uma leitura absolutamente SUBJETIVA de cada nascimento, como perceber seus ritmos e sua fluidez única? Como olhar para cada mulher como a primeira e última a parir naquele tempo, espaço e formato sem entender a singularidade do momento?

Parto é algo que acontece entre as orelhas“, como diziam as velhas parteiras. A atenção que damos a ele precisa de uma combinação complexa de elementos sutis como conhecimento técnico-científico, atenção, paciência, sensibilidade, disponibilidade e uma inabalável fé nas habilidades femininas de gestar e parir. Como diria Max, é fundamental “acreditar que elas podem“.

Por reconhecer as complexidades e dificuldades da atenção ao parto tenho receio das iniciativas que apenas oferecem incentivos econômicos aos profissionais. Não há como se contentar apenas com este aspecto financeiro.

Tenho medo de testemunhar a multiplicação de ocitocina sendo aplicada, o anacronismo da posição de litotomia, o uso inadequado de fórceps, de Kristeller e episiotomias gigantescas. Sem uma importante redefinição do que seja “parto normal”, e sua aproximação com nosso conceito de “Parto Humanizado”, poderemos ter muitos problemas com assistências equivocadas sendo realizadas.

Uma cesariana é como pintar uma parede; um parto é como pintar um quadro“, dizia Max. No primeiro precisamos pincéis, boa técnica e a repetição quase enfadonha de camadas de tinta sobrepostas, assim como na cesariana se repetem as camadas de tecido a recobrir o amnionauta na escuridão do claustro materno. No segundo, para além das tintas e pincéis, precisamos jogar nosso sentimento, nosso tempo, dedicação e alma, e estes elementos não são facilmente ensinados. O parto se configura como uma amálgama de inúmeros outros talentos, que transformam sua execução em algo que se aproxima da manifestação artística.

Espero que as medidas da ANS sejam acompanhadas de um questionamento mais profundo quanto à formação de profissionais e a multiplicação de atores – como obstetrizes e doulas – a compor o novo cenário da assistência ao parto.

Avanços precisam ser comemorados, sem deixar de reconhecer que muito mais há por fazer.

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Holocaustos

É inacreditável o que está acontecendo na Cisjordânia. Colonos sionistas celebrando um casamento com cartazes mostrando um bebê queimado vivo em um ataque a uma vila palestina. Mas não foi um vídeo secreto que “vazou” para a Internet; foram imagens divulgadas abertamente pelos sionistas, orgulhando-se de suas ações assassinas.

Sempre tive essa curiosidade quando via filmes sobre o holocausto judeu na Alemanha nazista. Lembro de perguntar ao meu pai que, mesmo sendo um adolescente na época da guerra, foi contemporâneo das atrocidades na Europa. Ele me dizia que aqui não se sabia o que estava acontecendo com os judeus. Tudo que estava acontecendo nos campos de batalha foi conhecido muito tempo depois.

“Mas lá eles sabiam. Por que nada fizeram? Por que não impediram Hitler quando estava clara a sua perseguição a um povo?” perguntava eu, ingenuamente.

Eu tive que viver meio século para saber a resposta. O mesmo ocorre agora em Israel com relação aos palestinos, onde a população palestina é massacrada por fanáticos sionistas, e o mundo inteiro cruza os braços diante da barbárie.

O que me deixa mais envergonhado é saber do apoio dos grandes grupos evangélicos, os sionistas cristãos, a esse crime contra a humanidade. Edir Macedo e seu exército de seguidores idiotizados também são responsáveis pelas mortes e torturas. Os governos americanos, grandes financiadores de Israel, são os maiores culpados, mas o silêncio de cada cidadão do mundo é responsável pela destruição sistemática e insidiosa da Palestina.

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Parto e Animalidade

Sobre o texto que andou rolando pela Internet a respeito de “partos animalizados”…

Primeiramente o nome já demonstra o preconceito tolo e infantil com a nossa condição animal. Talvez para o autor suas cesarianas sejam “partos angelicais”, feitas em uma espécie que transcendeu sua essência biológica e que não necessita mais passar pela “brutalidade” de contrações e dilatações. Acho apenas que tal ideia entraria em discordância com uma dupla de pesquisadores chamados Darwin e Wallace no que diz respeito à nossa hereditariedade animal. Aqui, no próprio título, faltou estudo e deixou-se de oferecer uma visão mais ampla do nascimento, além de desmerecer a importância de respeitar a nossa fisiologia, sim, “animal”.

Quanto ao texto eu consegui ler até a metade… parei quando li a defesa da episiotomia. Eu acho que existem muitos argumentos razoáveis para combater a humanização do nascimento, principalmente em relação ao ativismo. Não somos anjos e muito menos infensos a falhas e equívocos. Entretanto este texto tem erros lógicos muito grosseiros, por demais primários, que demonstram um desleixo importante com o estudo da matéria.

Este é mais um artigo escrito com 15 anos de atraso. Essa era a retórica de quando começamos a debater humanização do nascimento nos congressos do final do século XX. Falávamos do termo “humanização” e da sua conexão com o movimento chamado “humanismo”, que se inicia a partir do século XIV, que coloca o “homem no centro de todas as decisões“, além de reconhecer os valores greco-romanos de beleza e “perfeição” humanas, em oposição ao pessimismo das teocracias. Entretanto, o autor se mantém fixado na taxonomia, com mais de uma década e meia de atraso, ao acreditar que “humanização” é uma “obviedade” porque se refere ao gênero “humano”. Este é um erro que não se justifica mais. Talvez ele precise avisar o “HumanizaSus” para trocar de nome também.

As críticas à humanização existentes no artigo são primárias demais para receberem respostas. Como eu já disse, existem críticas pertinentes e debates em aberto, mas não cabe mais questionar o nome do movimento ou fazer apologia a cirurgias ritualísticas e mutilatórias como as episiotomias. Isso já foi deixado de lado, já viramos esta página, e os articulistas precisam estudar antes de se manifestarem. É preciso conhecer o assunto antes de produzir uma opinião, caso contrário teremos apenas leviandades e irresponsabilidades.

Tudo o que vejo é um franco atirador disparando de uma sacada com balas de festim. Não acerta nada, não fere os princípios norteadores de nossa causa, mas fica fazendo barulho. Os desavisados, ao escutarem os estopins, pensam se tratar de uma batalha. Todavia, com o tempo perceberão que para enfrentar um movimento baseado em provas e ciência precisarão ter muito mais “balas na agulha”.

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Sentenças

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Eu digo há mais de duas décadas que o movimento de humanização do nascimento precisa falar para quatro instâncias fundamentais:

1 – Mulheres
2 – Ativistas
3 – Profissionais de saúde
4 – Operadores do direito

Mesmo que nossos esforços tenham se intensificado muito no que diz respeito às mulheres, o campo do ativismo e muitos profissionais da saúde, até agora os operadores do direito – advogados, promotores e juízes – ainda se mantêm profundamente ignorantes sobre o tema do nascimento. Alguns recentes julgamentos e manifestações mostraram de uma forma muito clara a incapacidade do judiciário em tratar de assuntos médicos, em especial dessa área especial da medicina aplicada à mulher. Essa lacuna produz uma profunda insegurança nas mulheres e principalmente nos profissionais que querem sofisticar seu atendimento mas temem ser julgados por pessoas que desconhecem profundamente os elementos mais básicos da Medicina Baseada em Evidência e que se deixam conduzir por mitos contemporâneos, em especial a “mitologia da transcendência tecnológica”. Via de regra os advogados, promotores e juízes se deixam levar pelo “senso comum”, sem enxergar os sistemas de poder que estão em jogo quando ações médicas são julgadas.

É minha convicção que só teremos humanização do nascimento quando obstetras humanizados puderem ser protegidos, quando o judiciário entender elementos essenciais da medicina baseada em evidências, quando promotores puderem entender que “por que não operou antes?” não é uma justificativa válida e que cesarianas não são soluções limpas, nobres e seguras para qualquer desafio no parto.

Enquanto não tivermos essa segurança jurídica para o atendimento ao parto humanizado todos os nossos esforços serão limitados. Sem a incorporação do campo jurídico nesse esforço e a proteção garantida aos obstetras humanizados nunca teremos uma atenção plenamente digna.

Mas qual  seria a saída? Se os pareceres são sempre feitos por médicos, e reconhecendo o viés corporativista que os médicos terão na imensa maioria dos casos, como evitar que os profissionais de saúde continuem a ditar as regras nos litígios?

Como impedir que os lobos determinem as leis da selva?

Exemplo típico, que ocorre aqui e nos Estados Unidos: médicos não querem atender partos após cesarianas, partos pélvicos e partos de gêmeos. Eles conhecem nos riscos e os benefícios dessas abordagens mas…. por que haveriam de se arriscar? E “risco” aqui não se refere àquele que acomete os pacientes, mas o SEU risco profissional. Se um mau resultado for a juízo já terá um parecer condenatório da corporação, pois esta condena quem foge aos SEUS interesses (partos pélvicos, gemelares e domiciliares não interessam aos médicos) e o profissional estará completamente desprotegido. Com isso condenamos, de forma direta ou indireta, milhares de mulheres a realizar cesarianas contra sua vontade, assim como ocorre com os partos domiciliares. Constrangendo os médicos e amedrontando as mulheres conseguimos estabelecer um modelo de assistência que serve aos interesses das corporações e das instituições, mas que não propicia escolhas verdadeiras e nem contempla os desejos das mulheres.

No fim das contas, a forma de parir em uma cultura acaba sendo determinada de forma autoritária pela corporação profissional, e não pelas mulheres. Médicos humanizados são constrangidos pelos interesses corporativos a agir de uma maneira a não questionar ou desafiar o modelo hegemônico, mesmo que as evidências científicas lhes ofereçam respaldo.

Enquanto essa perseguição ocorre, médicos “cesaristas” – aqueles que recorrem às cesarianas sem uma real necessidade – sentem-se autorizados a empilhar quantas cesarianas desejarem, colocando suas pacientes em verdadeiras “linhas de montagem” para se submeterem a esta cirurgia, pois que a utilização de recursos tecnológicos abusivos em que nada vai lhes ameaçar. Profissionais que agem assim estarão sempre blindados contra qualquer acusação. Ninguém ousa criticar um profissional que se posiciona “do lado certo da força“; mesmo nos piores cenários, sempre sobra ao médico a possibilidade de dizer “fizemos tudo que era possível“.

Posicionar-se ao lado da tecnologia, até quando ela é mortal, é uma carta de alforria para qualquer ação médica.

Todavia, já podemos ver os sinais de mudança no horizonte. Aos poucos está se formando uma consciência nova sobre a questão do nascimento no país, inédita no nosso meio, e por isso incipiente. Não há como exigir que uma cultura se modifique com pressa; ela precisa ser sedimentada entre as próprias mulheres e depois para os outros atores sociais. Hoje já são visíveis inúmeras iniciativas que confluem para o estabelecimento de um novo paradigma. Um caso aqui, outro ali, uma manifestação, um artigo, um filme. Dois filmes. Uma marcha, três marchas, um parlamentar que se associa às nossas propostas. Um juiz que lê os autos com cuidado e responsabilidade; mais tarde um que seja sensível e estudioso. Depois 3 ou 4 se juntam a este. E assim caminham as mudanças.

Os operadores do direito aos poucos vão percebendo as repercussões sociais do parto humanizado e o sentido que estas mudanças vão implicar na cultura. Por isso mesmo precisam estar preparados para a defesa da liberdade, da autonomia e dos direitos reprodutivos e sexuais.

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Uma Parábola Política

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Dois jovens entram sem camisa em uma loja, um branco e um negro em um dia de muito calor. O gerente imediatamente chama a polícia que, sem muitas perguntas, estrangula o jovem negro, usa um teaser, coloca algemas em seus punhos e quebra seus dentes com socos.

Ao jovem branco apenas pedem os documentos e o liberam.

Ao ver a cena me pergunto: porque um erro simples é punido com algemas e espancamentos? “Ora, porque é errado.” Mas estava calor, retruco… “Nada justifica. Erro é erro, e isso é uma ilegalidade“.

Ok, respondo, mas porque o negro foi espancado se o branco cometeu o mesmo “crime” é nada foi feito? “Ora, vai querer agora justificar seu erro com o erro dos outros? Ficar sem camisa em um lugar em que isso é vedado passa a ser correto porque outros já o fizeram? Não venha com essas desculpas“.

Nesse momento entram na loja outros rapazes sem camisa e eu aponto: Veja, entraram 16 jovens sem camisa na loja. Vocês não vão prendê-los, espancá-los e algemá-los?

O policial, sob o olhar atento e firme do dono da loja, responde: “Isso não é assunto meu. Não recebi nenhuma reclamação. Não me atrapalhe. Estou fazendo meu trabalho e combatendo o crime.”

Continuo a questionar, enquanto o pobre negro perde a respiração sob o corpanzil do policial que o imobiliza. Pergunto: Será justo que uma infração como essa justifique a expulsão da loja e o espancamento brutal?, ao que sou silenciado pelo dono da loja, que apressando-se à resposta do policial esclarece: “Está na lei. É constitucional. Se o policial concorda e aceita, então está correto. E quem é você para questionar a lei e a polícia?”

Sou apenas um cidadão, respondo. Mas não acho que este outro cidadão esteja sendo preso e humilhado pelo crime de andar sem camisa. Seu crime é outro. Seu crime é ser negro em um lugar onde os negros são sub cidadãos.

O negro levanta a cabeça permitindo que se veja o sangue vermelho pintando o chão da loja. Quase sem força consegue dizer:

– Estou sofrendo pela ousadia de existir e deixar claro meu direito de compartilhar este espaço. E para isso não haverá jamais perdão.

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Sobre as Pressões

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Por que os médicos insistem em interromper gestações arbitrariamente com 41 semanas (às vezes falam até em 40 semanas)?

Não é por ignorância ou arrogância, é por medo. Se alguma coisa acontecer entre 40 e 42 semanas – período em que o bebê estava bem e pronto (maduro) para nascer – a família não pensará duas vezes e vai atacar impiedosamente o médico que “deixou passar da hora”. Quem já não ouviu uma história assim?

Hoje em dia até o tamanho de uma gestação normal foi contestado, questionando os valores históricos de Friedmann; mais ainda o tempo adequado de maturidade fetal. Entretanto, há alguns anos, houve trabalhos que demonstravam que induzir um parto com 41 semanas melhorava os resultados pós natais, mesmo que hoje eles sejam duramente combatidos. O resultado é pouco expressivo, mas o suficiente para o embasamento de condutas. Esse detalhe vai ao encontro das fantasias ancestrais que falam de um “útero malévolo e sufocante”, determinando aos médicos a nobre tarefa de liberar a inocente criança da angústia desse aprisionamento. Essas histórias nutrem o imaginário das culturas, que cobram dos profissionais uma ação salvadora para o novo membro que está para nascer, assim como culpabilizam o corpo defeituoso da mulher pelo risco em que colocam o bebê. Para as culturas patriarcais as mulheres são vistas como ameaçadoras e seus corpos cópias mal acabadas e defectivas do padrão de perfeição: o corpo masculino, fac simile da estrutura divina.

Como se pode ver com facilidade, de nada adianta mudar os médicos sem modificar os pacientes. Os médicos nada mais são do que o reflexo da sociedade onde vivem, e suas ações acabam reproduzindo os valores disseminados pela cultura em que estão inseridos. Não existe distância entre o padrão dos médicos e dos seus clientes; eles estão próximos e compartilham medos, angústias e modos de compreensão da realidade.

Outro exemplo: gestante da cidade vizinha chega ao hospital público ao anoitecer com dois cm de dilatação e em pródromos (poucas e esparsas contrações). O que é correto fazer? Mandar embora, já que não se configurou a fase ativa do trabalho de parto. Entretanto, o que fazem os médicos? Via de regra, internam e colocam ocitocina para “melhorar a dinâmica uterina”.

Mas por quê, já que sabemos que essa atitude não tem respaldo científico? Ora, porque ao agir de forma correta – pedir que volte mais tarde em fase ativa – o médico plantonista corre o risco de ser ameaçado pela família, que irá na rádio local acusá-lo de “não aceitar internar”.

O médico ainda não tem amparo algum da sociedade para fazer a melhor medicina. Diante das pressões ele interna a gestante, afasta-a da família “adrenalínica” e ansiosa, realiza os rituais de “purificação” (banho, enema, roupa branca, cabelo preso, tricotomia, etc.) e coloca soro (ocitocina) para apressar o parto, já que não pode ocupar um leito por 24 horas com uma única paciente. Por outro lado, o profissional sabe que estimulando agressivamente o útero com hormônios vai aumentar a chance de uma cesariana. No fim ela acaba operada e a família fica feliz e satisfeita. A desculpa já estava pronta mesmo antes de sair de casa: “não houve dilatação“.

Mas não se iludam; nessa história todos são culpados e quem paga a conta salgada das intervenções é a pobre mulher e seu o bebê. Precisa bem mais do que novas leis sobre cesariana e parto normal para que modifiquemos o cenário da assistência ao parto. É necessário mudar uma cultura, o rio de valores em que bebem médicos e pacientes, e isso se faz lentamente através da educação.

Outra história curiosa: Quando eu era plantonista numa cidade da periferia de Porto Alegre vivi muitas vezes esta cena. Revólver na cintura, carteiraço de funcionário da prefeitura e até carteira de doador de sangue (???!!!) eram usadas como elementos de intimidação. Muitas vezes as pacientes chegavam ao centro obstétrico acompanhadas ao plantão do vereador populista da cidade, com 38 semanas de gestação, para fazer a “cesariana com ligadura” que havia sido prometida na campanha eleitoral.

Naquela época, 25 anos passados, eu havia estabelecido o parto de cócoras como o padrão no meu dia de plantão. Não é de se espantar que um vereador da cidade convocou uma reunião na câmara para debater o estranho caso de um médico obstetra plantonista – e louco – que colocava as mulheres para “parir como galinhas” no hospital municipal.

Foi ao saber dessa notícia que eu me dei conta que o protagonismo da mulher, elemento que eu já percebia como central para uma revolução no parto, precisaria de mais um quarto de século para ser entendido. Errei nas contas…  vai precisar um pouco mais.

A solução para esta falta de sintonia entre o “saber e o fazer” não se esgota na velha tese da melhoria do pré-natal. Eu prefiro ir um pouco mais longe. Os valores do parto e nascimento são introjetados na mais tenra infância e fazem parte da nossa arquitetura emocional. Não se derrubam mitos e preconceitos fazendo encontros mensais de 30 minutos com um profissional de saúde, por melhor e mais capacitado que ele seja. Mesmo que eu concorde com a grande importância do pré natal para estimular a autoconfiança e o protagonismo das futuras mães, creio que precisamos agir muito antes disso. É na primeira infância – e depois na escola fundamental – que devemos iniciar a tratar de parto. Sou muito a favor de aulas de parto e nascimento nas escolas, longe dos conceitos biologicistas e próximo de uma visão afetiva, espiritual e social.

Só assim poderemos estreitar de forma certeira a distância que separa o que fazemos daquilo que sabemos ser o melhor para os nossos pacientes.

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Estímulo ao Parto Normal

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Se as últimas iniciativas da ANS – entre elas o pagamento triplicado para o parto em comparação à cesariana – efetivamente produzirem um incentivo ao parto normal, eu tenho algumas preocupações sobre o que acontecerá com a atenção ao parto na classe média, que é a mais afetada pela epidemia operatória na obstetrícia.

Pelo que percebo ainda existe muita falta de vontade e talento para atender partos normais. Partos são processos complexos, demorados, inesperados, com uma configuração absolutamente única e subjetiva, exatamente porque fazem parte da “vida sexual normal das mulheres”, como nos alertava o mestre Odent. Por esta razão não existirão jamais duas mulheres que vão amar, gozar, sorrir, chorar ou parir da mesma maneira.

Assim sendo, sem estabelecer uma leitura absolutamente SUBJETIVA de cada nascimento, como perceber seus ritmos e sua fluidez única? Como olhar para cada mulher como a primeira e última a parir naquele tempo, espaço e formato sem entender a singularidade do momento?

Parto é algo que acontece entre as orelhas“, como diziam as velhas parteiras. A atenção que damos a ele precisa de uma combinação complexa de elementos sutis como conhecimento técnico-científico, atenção, paciência, sensibilidade, disponibilidade e uma inabalável fé nas habilidades femininas de gestar parir. Como diria Max, é fundamental “acreditar que elas podem”.

Por reconhecer as complexidades e dificuldades da atenção ao parto tenho receio das iniciativas que apenas oferecem incentivos econômicos aos profissionais. Não há como se contentar apenas com este aspecto financeiro.

Tenho medo de testemunhar a multiplicação de ocitocina sendo aplicada, o anacronismo da posição de litotomia, o uso inadequado de fórceps, de Kristeller e episiotomias gigantescas. Sem uma importante redefinição do que seja “parto normal”, e sua aproximação com nosso conceito de “Parto Humanizado”, poderemos ter muitos problemas com assistências equivocadas sendo realizadas.

Uma cesariana é como pintar uma parede; um parto é como pintar um quadro“, dizia Max. No primeiro precisamos pincéis, boa técnica e a repetição quase enfadonha de camadas de tinta sobrepostas, assim como na cesariana se repetem as camadas de tecido a recobrir o amnionauta na escuridão do claustro materno. No segundo, para além das tintas e pincéis, precisamos jogar nosso sentimento, nosso tempo, dedicação e alma, e estes elementos não são facilmente ensinados. O parto se configura como uma amálgama de inúmeros outros talentos, que transformam sua execução em algo que se aproxima da manifestação artística.

Espero que as medidas da ANS sejam acompanhadas de um questionamento mais profundo quanto à formação de profissionais e a multiplicação de atores – como obstetrizes e doulas – a compor o novo cenário da assistência ao parto.

Avanços precisam ser comemorados, sem deixar de reconhecer que muito mais há por fazer. Vamos pagar para ver. Minha opinião é que a taxa de cesarianas vai cair na abrangência da ANS. Na verdade eu creio que ela já estava caindo de forma MUITO sutil, quase imperceptível. Entretanto, o resultado – 2 ou 3 pontos percentuais, quem sabe 5 – está longe de ser satisfatório; ainda será vantajoso fazer três cesarianas em duas horas, mesmo ganhando menos. Além do mais, o assunto não se esgota na questão financeira. Existe um elemento essencial, mas dificilmente mensurável: a paixão.

Sem o transcendental é impossível entender o nascimento em sua manifestação plena. Sem o transcendental é impossível entender o nascimento. Sem tesão pelo parto não há solução. Oferecer a atenção ao parto aos profissionais duramente treinados na intervenção é pedir para que a fisiologia sofra a metamorfose para a patologia e essa, por sua vez, se transforme em intervenção.

Por isso peço a mudança da “fotografia”. Precisamos inundar o atendimento ao parto com parteiras profissionais (enfermeiras obstetras), obstetrizes e doulas. Mudar a face da atenção, assegurando às parteiras (midwives) o papel CENTRAL na atenção ao parto fisiológico. Essa atitude, muito mais do que mexer no bolso dos médicos, será capaz de modificar o panorama. De qualquer maneira, a troca da forma de pagamento se configura uma boa medida. Limitada, mas positiva.

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Partos e Espelhos

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A forma como atendemos o parto nada mais é do que um espelho das próprias estruturas sociais. Em sociedades que prezam a dignidade humana, a justiça e a equidade o parto refletirá esses valores, através de condutas e atitudes respeitosas com as mulheres, com seus bebês e fortalecendo o vínculo que se estabelece entre eles no momento do nascimento.

Em contrapartida, em sociedades onde a violência – de todas as formas, em especial contra a mulher – impera, o parto reproduzirá estes elementos em seus rituais, para que ele se alinhe aos valores mais profundos desta cultura.

O parto é, desta forma, uma imagem vívida das características profundas da estrutura social. “Diga-me como atendes os frágeis e te direi como és“. Desta maneira, as sociedades podem ser facilmente traduzidas através da análise de como seus partos são conduzidos. Sociedades justas e igualitárias produzem partos dignos; sociedades autoritárias e machistas propiciam partos marcados pelo signo da violência.

Para mudar a sociedade é necessário mudar a forma de nascer, mas para exterminar todos os traços de violência na maneira como conduzimos o nascimento é preciso lutar pela erradicação de todo e qualquer tipo de desrespeito e indignidade impostos à mulher no seu momento mais sublime.

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