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Capitulação à Tecnocracia

humanização do parto

A atenção anacrônica e tecnocrática de pré-natal faz, SIM, a cabeça das mulheres em direção a uma cesariana, ilusoriamente colocada como “salvadora”, e quanto a isso não resta dúvida alguma. Existem vários estudos comprovando tal evidência, entre eles o estudo de Potter, da universidade do Texas, realizado no Brasil no início dos anos 2000. Nessa investigação fica demonstrado que – tanto no serviço público quanto no privado – as mulheres optam pelos partos normais em sua grande maioria. Entretanto, ocorre uma transformação – pela ferramenta do medo – no pré-natal, fazendo com que os índices se invertam. As mulheres tem sua autoestima profundamente abalada, ou mesmo destruída, durante a preparação para o parto, e os mitos da barriga perigosa, e da “mulher bomba-relógio” acabam vingando. O resultado é o desastre das cesarianas desmedidas, que nos coloca na “barbárie” do intervencionismo.

Quanto aos riscos do parto normal, da cesariana e dos partos domiciliares eles todos existem. Não existe nada no mundo com “risco zero”. Lembre que um parto é um evento humano, e por ser humano é carregado do risco natural, assim como é andar de carro ou avião, ou mesmo sair de casa para comprar leite na mercearia. Toda nossa vida é cercada de probabilidades de algo ruim possa ocorrer. O que podemos fazer é cultivar atitudes que diminuam tais chances. Desta forma, parir no hospital é TAMBÉM igualmente arriscado, bastando para isso que você perceba que o simples passo para dentro de um centro obstétrico significa uma chance de 85% de sofrer uma grande cirurgia como é a cesariana, que na grande maioria das vezes (no caso brasileiro) é absolutamente desnecessária do ponto de vista clínico e obstétrico. Triste é constatar de forma inequívoca que esta cirurgia foi INDUZIDA pelo discurso dos profissionais, o qual deixa as mulheres apavoradas diante de um evento natural e fisiológico como parir, que foi ultrapassado com valentia e confiança por quase todas as suas ancestrais. Criou-se um medo bizarro e inusitado na cultura, fomentado pelas instituições que LUCRAM com a angústia das mulheres e com suas dúvidas artificiais sobre suas reais capacidades de gerar e parir com segurança, as quais foram implantadas em suas almas pelo sistema de saúde contemporâneo iatrocêntrico, etiocêntrico e hospitalocêntrico

Todavia, se uma mulher está carregada de medo e insegurança, jamais será melhor desistir e se entregar ao sistema. Não, pelo contrário. Aí está a demonstração de uma fragilidade, a qual nenhuma cesariana poderá consertar. Se a mulher está mergulhada em suas desconfianças sobre si mesma, este é o momento certo para enfrentá-las, e não para entregar-se de forma alienada a um profissional qualquer. Médicos servem para guiar e auxiliar, e não para tomar decisões sobre sua vida. “Liberdade é nossa meta última”, me dizia um querido colega na época da residência, ao me explicar que o medo nos aliena, aprisiona e acovarda. Enfiar a cabeça no chão, entregar suas escolhas a outrem, desconfiar de si mesmas e atirar-se à aventura intervencionista nunca fará com que as mulheres alcancem os altos fins de suas existências. Pelo contrário: vai mantê-las atreladas a um discurso que, se as liberta do jugo masculino, as mantém presas à tecnocracia e a ideia contemporânea da defectividade essencial de seus corpos.

A capitulação à tecnocracia no parto é o primeiro dominó a cair na maternagem. Depois acataremos o afastamento do bebê, a vacinação extemporânea, a fórmula, os alimentos com conservantes e assim por diante. A sedução da manipulação da vida por interesses de outra ordem será sempre presente, e cada vez com mais intensidade. Dar um basta a isso nunca é tarde. Porque não começar a reforçar uma adormecida cidadania logo ao abrir o teste de gravidez positivo à sua frente?

Somente a liberdade e a autonomia darão às mulheres o destino grandioso para o qual foram criadas.

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Sobre as críticas

Consulta médica

Há tantos anos debatendo diariamente a questão do parto inserido no universo da tecnocracia eu percebi que discutir casos particulares de partos ou indicações de cesarianas (a minha cesariana, a cesariana da minha mulher, a cesariana de uma conhecida ou da vizinha) é INÚTIL e desnecessário. Não se trata de acusar uma específica pessoa que foi vítima de uma assistência inadequada, mas fazer uma crítica forte ao modelo, o sistema e o paradigma de atendimento às gestantes.

É nisso que precisamos focar. Criticar cesarianas, ou mesmo partos, sem estar na pele de quem teve que tomar as decisões é INJUSTO e CRUEL. Esqueçam os médicos cesaristas; eles são prisioneiros deste sistema e frágeis demais para lutar contra ele. Precisamos focar nas mulheres e no seu empoderamento, para que ELAS mudem o parto na sociedade em que estamos inseridos. Com uma sociedade transformada os profissionais que atendem parto mudarão naturalmente.

Por certo que esta é uma questão dialética. Não seria justo desonerar os médicos de qualquer responsabilidade na mudança do modelo. O contato com a experiência única e transformadora do parto deveria moldar a visão destes profissionais a respeito da natureza especial deste evento. Entretanto, o parto medicamente absorvido, transforma-se em uma mera cirurgia de extirpação fetal. Desta forma, despido de simbolismos, o nascimento se esvazia dos seus conteúdos mais significativos. Eu percebi que a principal função do médico é a pedagogia. Cabe a ele mostrar os caminhos da saúde, ensinar o auto cuidado e fazer com que a paciente descubra dentro de si mesma o sentido subjetivo de gestar e parir. Quando o pré-natal se reduz às medições antropométricas e burocracias ele perdeu sua grandiosidade.

Diante de um momento épico e sem precedentes este encontro tão singular entre profissional e cliente nada mais faz do que resumir à mulher a um contêiner fetal, desprovida de transcendência que um nascimento impõe. Pois este empobrecimento típico da cultura tecnocrática ocidental contemporânea é responsabilidade dos profissionais, pois todas as gestantes que conheci perceberam claramente a importância do pré natal como período valioso de aprendizado e crescimento.

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Pais expulsos do parto

Pais e Filhos

Insistir nesse equívoco – “expulsar” os pais (homens) da sala de parto – atrapalha historicamente os projetos e objetivos da humanização do nascimento. E por “equívoco” eu considero qualquer determinação externa que não parta da mulher.

Inserir o pai ou expulsá-lo é a mesma coisa, se nos negamos a olhar cada mulher e cada parto como únicos e especiais. Sem o protagonismo poderemos apenas sofisticar tutelas. Expulsar o pai piora o parto, inseri-lo no ambiente de parto como regra fixa também. Quando é que vamos parar com estas regras ridículas as quais as mulheres devem se submeter, determinações apriorísticas que não levam em consideração o contexto, seu desejo, sua vontade e a sua subjetividade?

A ideia original do Michel (Odent) é de que, para que o parto possa ser levado em segurança é fundamental que a paciente não se sinta observada, resguardando assim a sua privacidade e intimidade. Com isso elevaremos os níveis de ocitocina e manteremos a adrenalina baixa, produzindo uma harmonização do ambiente psicológico e hormonal, regularizando as contrações e alcançando o progresso adequado do trabalho de parto. O entorno é fundamental, como diria Grantly Dick-Read; a “psicosfera” é determinante, como diria meu colega Max. Este parece ser um ponto pacífico, e quase ninguém parece discordar dele.

Entretanto, criar sobre este princípio geral uma “regra”, um “protocolo”, um determinante externo ao desejo da mulher é tratar as mulheres como bichos desprovidos de subjetividade e de linguagem. Estabelecer que todos os pais devem sair do ambiente de parto é um equívoco; determinar que todas as mães amamentem na primeira hora também. Obrigar a euforia e a felicidade após cada parto é uma imposição cruel e desumana. Não tem saída: o único caminho dentro da trilha da linguagem é olhar para este fenômeno como algo especial, irreproduzível e infinito em suas particularidades e detalhes.

Quantas vezes será necessário repetir que “intimidade” é um valor subjetivo, pessoal e determinado por circunstâncias de ordem cultural, circunstancial e contextual?

O que era intimidade há 200 anos hoje não é. Dormitórios para os pais diferente daquele dos filhos parece uma obviedade hoje em dia, mas há poucos anos o contrário era o padrão. A intimidade – de um casal ou de uma mulher parindo – é uma criação de caráter social, e não um valor biológico para os humanos. As análises etológicas, que estudam o comportamento animal, são excelentes fontes de ensino, mas não podemos expandir a compreensão de comportamentos – como no sexo e no parto – daquilo que observamos em animais para os seres humanos, dotados de linguagem e cultura. Portanto, o que é válido para uma vaca, uma cabra, um felino ou um equino não é necessariamente adequado para seres humanos!!

Uma mulher pode se sentir vigiada estando sozinha em uma sala, e pode se sentir plenamente segura e com intimidade estando rodeada de amigos, familiares e profissionais que a atendem. Criar proibições para este evento tão delicado não parece ter embasamento científico e lógico, e não parece ser adequado ou justo.

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O problema aqui dentro…

Drogas


A medicina ocidental contemporânea, desde os tempos de Pasteur, sofre de um mal crônico e limitador do pensamento. Trata-se da visão exógena da doença, colocando sobre o agente agressor – seja ele químico, físico, biológico ou psicológico – um peso determinante no surgimento e na manutenção dos eventos mórbidos de qualquer natureza. Assim é com a antibioticoterapia, e a crença resultante do malefício das bactérias, vistas há mais de um século como agentes agressores e maléficos para o equilíbrio orgânico. Somente agora, a partir das novas concepções do “biota” e a importância dos elementos probióticos, é que estamos percebendo o imenso significado dos elementos microscópicos que compartilham o espaço físico com o ser humano.

No terreno das drogas ocorre o mesmo. Por razões óbvias acreditamos que as “drogas” – aqui entendidas como aquelas ilegais – são ruins por natureza, por determinarem uma dependência orgânica natural e inexorável. “É da essência da droga viciar“, diz a velha escola dos teóricos do vício drogal. Com isso continuamos a acreditar que o elemento externo – a substância psicoativa – é a chave para o entendimento da drogadição, negligenciando, mais uma vez, as questões do “terreno predisponente”.

A mim não parece que a ligação sujeito-droga assim se estabeleça, da mesma forma – como disse Pasteur no fim de sua vida – que para que haja uma infecção qualquer é indispensável que exista uma “diátese”, um terreno propício para a sua ocorrência. A partir desta perspectiva, tão cara aos estudiosos da homeopatia, não é a droga que merece ser combatida, mas as condições nas quais está inserido o sujeito drogado, o seu entorno biopatográfico, físico, contextual e psicológico. Sem este entendimento, que eu chamaria de “capacidade mórbida reativa”, continuaremos a investir em uma guerra absolutamente fracassada e sem futuro, e que nunca deu resultado em qualquer lugar que tivesse sido implementada. Lutar contras “as drogas” é tão equivocado como a velha piada de tirar o sofá da sala; as drogas apenas ocupam um espaço deixado vago pelas fragilidades de um sujeito previamente doente.

Por outro lado, sabemos a quem esta guerra inútil e custosa interessa: aos policiais corruptos, agentes políticos e traficantes, que se beneficiam com o submundo das drogas, infestado de propinas, lutas fratricidas por pontos e mercados, subornos e assassinatos em profusão. O que é novidade é perceber que ela também serve aos cientistas que vivem de pesquisas nesta área, e que insistem em colocar como preponderantes os agentes externos – as drogas – sem perceber que até mesmo a drogadição é algo se que processa – primeiramente – entre as orelhas.

Para um sujeito feliz e livre qualquer droga não é mais do que uma enorme perda de tempo. O problema está dentro de nós, e não do lado de fora…

Pois os mesmos questionamentos que fazemos em relação ao uso de drogas podemos fazer em relação ao parto. Para o nascimento também temos as gaiolas que modificam o evento, transformando-o em uma caricatura daquilo que foi outrora.  Tudo o que sabemos sobre a obstetrícia contemporânea é observando mulheres “enjauladas” em hospitais. As pesquisas, os valores, os dados, as estatísticas, toda a informação é colhida de mulheres inseridas no modelo hospitalar. Por mais que o ambiente procure ser menos agressivo (o que ocorre apenas em alguns contextos mais modernos), o contato com pessoas desconhecidas, os ruídos estranhos, as máquinas frias e as substâncias exógenas (como anestésicos e ocitocina) injetadas na corrente sanguínea acabam por TRANSFORMAR o evento do nascimento, descaracterizando-o de sua expressão natural e original. Não é mais o PARTO que estamos observando, mas o parto hospitalar, o parto médico, o parto confinado e o parto artificial. Como diria Max, “não é mais no parto, mas seu simulacro“.

Assim como um rato não se comporta da mesma forma estando preso em uma gaiola, as mulheres não agem com a mesma naturalidade confinadas em um ambiente hospitalar.

O ambiente, por sua vez, produz inequívocas manifestações no sujeito nele inserido, e um ambiente hospitalar inspira medo, temor, apreensão e angústia. Estes sentimentos, por sua vez, acionam o sistema simpático, através da adrenalina, que atua na economia orgânica no sentido de produzir reações de “fuga ou luta”. Além disso, este hormônio inibe a ação da ocitocina na produção do apagamento neocortical e nas necessárias contrações rítmicas uterinas. A resultante é a ativação da adrenalina e a supressão da ocitocina, produzindo a disfuncionalidade típica dos partos que ocorre em nossos hospitais. Esta disfunção é frequentemente corrigida com a adição exógena de ocitocina e o uso da analgesia peridural (pois as contrações artificiais induzidas pela primeira são dificilmente suportáveis sem o recurso analgésico) e a consequência é a perda total da possibilidade de uma vivência fisiológica do parto.

O parto da forma como é realizado nos hospitais do ocidente é prejudicial à fisiologia do nascimento exatamente pela falha do sistema médico em trabalhar e reconhecer os aspectos emocionais, psicológicos, sociais, espirituais e contextuais relacionados com o nascimento de um bebê.

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Agendar o Inagendável

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Eu sou do tempo em que a cesariana era um recurso utilizado em circunstâncias especiais. Diante de uma impossibilidade de parto ela era usada, mas sempre com uma espécie de “pesar”. Para o obstetra a cesariana também era entendida como um  “fracasso”. Pensávamos: “O que poderíamos ter feito? Onde erramos? Fomos apressados? Insistimos demais? Foi a posição do bebê? Ou foi algo “entre as orelhas”?

Naquela época, em meados dos anos 80, operar um ventre estufado de vida era algo com muitos significados. Os professores de outrora ainda cultivavam a fama de “parteiros”. Haviam, muitos deles, aprendido com parteiras hospitalares, mulheres do povo que haviam ascendido à condição de “enfermeiras” (mesmo sem título) que atendiam partos em hospitais através do aprendizado direto. Eu mesmo, há 25 anos, conheci muitas parteiras que trabalhavam em hospitais da periferia da minha cidade e cujo aprendizado foi exatamente esse: olhando, auxiliando, comandando e depois fazendo.

Muita coisa aconteceu desde então, e o parto foi perdendo importância enquanto evento feminino. Mas uma transformação de tal monta nunca se processa sem que seja necessário alterar a forma como o entendemos. Era necessário retirar do parto sua importância na formação do ser feminino, passando a ser visto a partir de então como uma fragilidade, um erro, um equívoco natural e algo a ser modificado através do conhecimento científico. O mundo contemporâneo precisava arrasar os significados subjetivos de um parto, para que a modalidade cirúrgica de nascer pudesse ser vista primeiro como uma “alternativa”, e depois como “o padrão”.

Muito ainda se falará sobre a derrocada do nascimento feminino e a ascensão do nascimento tecnológico. Entretanto, nunca se dirá tudo o que é necessário para que se entenda a profundidade dos significados culturais desse movimento. Eu fui testemunha desta história, e estava presente quando esta mudança se procedeu. Da natureza em direção à tecnologia o nascimento foi reconstruído primeiramente pela palavra. Para quem tinha ouvidos de ouvir, ficava muito claro perceber que, para se mudar o nascimento de um evento feminino e natural para um evento médico e cirúrgico, era necessário transformar o olhar que tínhamos para o processo. Mudando o olhar tínhamos que transformar as palavras. Se ao princípio estas palavras tinham um som “duro” e causavam estranhamento, sua repetição acabava por dessensibilizar nossas concepções, agora entendidas como “ultrapassadas”.

Foi ainda no século passado que, pela primeira vez, escutei a expressão “parto cesáreo“. Não por acaso, “cesáreo” é uma palavra que não existe, mas que foi masculinizada pela palavra que o antecede. Os “partos” acabaram também se tornando uma extensão do universo masculino, apartados da lógica feminina. O tempo, as rotinas, os protocolos, a normatização e as intervenções “salvadoras” deslocaram a mulher do centro decisório dos nascimentos, colocando-as na periferia, alienado-as de si mesmas. Elas eram agora assistentes da arte médica, espectadoras de algo que ocorria em seus próprios corpos, expropriadas de si mesmas e nas mãos de profissionais altamente treinados na interferência cirúrgica dos processos biológicos.

Mas era necessário transformar a cesariana em uma “modalidade de parto“. Não mais o recurso último, a cirurgia que se explicava ao velho professor como quem confessa um pecado. Não, ela agora seria um tipo de nascimento, igual àquele criado há alguns milhões de anos a partir do surgimento da viviparidade. A cesariana é, na mente contemporânea, a sucedânea do parto vaginal, aquela que livra as mulheres das agruras de um procedimento cuja espera, tensão e dor não encontram nenhuma justificativa nas mentes positivistas atuais. Ela veio para livrar a mulher da crueldade imposta por uma natureza madrasta; algo pelo qual esperávamos há milênios, desde que as mulheres foram a ela condenadas pelo pecado da luxúria… e do saber.

Portanto, nada mais natural do que observar que os hospitais contemporâneos não tem mais nenhum pudor em “agendar partos”. Sim, nós sabemos que eles estão se referindo às cesarianas, e sabemos também por que elas são chamadas na “modernidade” de “Partos Cesáreos“. Mas a naturalidade com que estas coisas aconteceram nunca deixará de me espantar. Sou um velho, quanto a isso não há mais dúvida alguma. Mas, quando tudo puder ser agendado, previsto e conhecido por antecedência, o que mais restará para nos emocionar?

Ninguém se escandaliza com o fato de perdermos mais um pedaço da emoção que o bolo da vida nos oferece?

Como é possível agendar o imprevisível?

O que sobrará do nascimento quando retirarmos dele a circunstância inesperada, a surpresa, a alegria incontida de uma notícia e o telefonema cheio de lágrimas avisando, no frio da noite, a chegada de um bebê?

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As Cores da Humanização

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A humanização do nascimento é um movimento gestado a partir dos questionamentos sobre a sexualidade surgidos nos anos 60 e 70. Apesar dos trabalhos de Grantly Dick-Read terem sido produzidos nos anos 40 e Robert Bradley ter começado seu trabalho de “desmedicalização do parto” e a inserção do parceiro no ambiente do nascimento nos anos 50, foi após a publicação de “Birth Without Violence” de Fréderick Leboyer que a discussão de uma nova abordagem no parto tomou um forte impulso. Se o lema dos hippies era “Faça amor e não faça a guerra” – numa crítica aberta a participação americana na guerra do Vietnã – e a atitude era de franca liberação sexual, a abordagem não violenta do parto proposta por Leboyer estabelecia uma clara consonância com tais pressupostos.

Não por acaso a inquietação com a intervenção desmedida e a violência implícita nos atos médicos que ocorria em ambientes hospitalares disseminou-se pelo mundo inteiro com a força de uma “nova ordem”. Entretanto, a forma como estas ideias eram adaptadas a cada contexto cultural variava enormemente. Por exemplo: o termo “humanização do nascimento”, muito usado no Brasil, é quase desconhecido nos Estados Unidos. Lá a ideia se disseminou com os termos “amigáveis”: “Motherbaby Friendly Childbirth Initiative”, é como o movimento de humanização se chama por lá. Na Inglaterra, por seu turno, a associação que luta por partos mais suaves é “AIMS”, uma associação que luta pela melhoria dos serviços de maternidade, e a forma mais comum de se tratar do parto humanizado é chamando-o de “Parto Ativo”. Cada país imprime suas características específicas para estas ideias.

Por razões históricas a humanização entrou no Brasil junto com a contracultura hippie, que veio acoplada com o orientalismo que impregnou todo esse movimento, a começar pela aproximação dos próprios Beatles com Maharishi Mahesh Yogi. Aqui, o Yoga deixou o movimento com as cores do misticismo e das práticas orientais indianas. A introdutora desta discussão no Brasil foi uma professora de Yoga chamada Maria de Lurdes Teixeira, mas que atende pelo apelido de Fadynha. Em meados dos anos 80 ela criou um instituto de Yoga no Rio de Janeiro chamado “Instituto Aurora” que realizava encontros com casais grávidos de preparação para o parto natural. Desses encontros surgiu a necessidade de um encontro nacional de “parto natural e consciente”, que já está na sua 23ª edição. Estes encontros foram a porta de entrada para os debates sobre as humanização do nascimento, e foi dele que surgiu no ano de 1993, em Campinas, a ReHuNa – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento.

A partir destes encontros foram se agregando ao movimento de humanização profissionais de várias áreas – obstetras, pediatras, enfermeiras, parteiras, obstetrizes, doulas, etc. – em torno de uma série de reivindicações que estruturam o ideário do movimento. De início eram ideias centradas nos problemas do excesso de intervenções e a necessidade de “suavizar” a prática médica. Não havia ainda uma clara noção do que deveria ser feito, mas uma indignação compartilhada do que não deveria continuar ocorrendo.

No final do século passado surgiu um novo fenômeno na cultura mundial que acabou por modificar de maneira inquestionável todas as relações sociais, inclusive a forma como entendíamos a humanização do nascimento. A Internet diminuiu distâncias e aproximou pessoas com ideias semelhantes. Um pouco antes da virada do século surgiram os “list servers” que eram listas de discussão temática na internet e que abordavam infinitos assuntos. A primeira de lista de discussão de nascimentos chamava-se “Parto Natural”, e ainda está ativa. Seguiram-se a ela a “Amigas do Parto” (nome criado para criar semelhança com o grupo Amigas do Peito, que luta pela amamentação livre) que depois viria a se chamar  Parto Nosso”, ainda em atividade. Estas listas foram multiplicadoras de vozes sobre o tema da humanização, congregando, como por encanto, ativistas distantes milhares de quilômetros, em diversas partes do Brasil.

A entropia gerada pelas listas de discussão acabou por fomentar um amadurecimento sem precedentes da estrutura ideológica dos movimentos de humanização do parto. Aquilo que anteriormente era indignação e desassossego com a tecnocracia obstétrica passou a oferecer alternativas de atenção centradas em um modelo de nascimento mais moderno e mais em sintonia com os desejos das mulheres. O surgimento, ainda nos ano 90, da “Casa de Parto 9 Luas” no Rio de Janeiro foi um exemplo desta nova atitude propositiva. Apesar da ideia não ter vingado – por problemas na própria concepção da casa de parto, que em verdade era uma pequena clínica e não uma Casa de Parto – este foi um dos primeiros modelos alternativos de atenção apresentados à sociedade. Se não continuou a oferecer atendimentos, pelo menos serviu como um exemplo de que muitas coisas eram possíveis de fazer em se tratando de modelos de atenção centrados na família, no afeto e no parto fisiológico.

A internet mudou a cara da humanização. Médicos obstetras, enfermeiras, doulas, psicólogas, pediatras, epidemiologistas e – principalmente – mulheres gestantes e seus companheiros juntaram-se no país inteiro através do espaço cibernético. As listas de discussão criaram um espaço amplo e democrático de encontro de ideias, e dos choques e embates gerados pelo conflito natural de propostas diferentes – por vezes divergentes – surgiu uma estrutura muito mais sólida, mesmo sem se pretender monolítica, que embasa as propostas de humanização do nascimento.

Em função de suas raízes, e da personalidade quem introduziu de forma sistemática este movimento, o Yoga impregnou a humanização do parto com as cores do misticismo e das práticas orientais indianas. Para alguns colegas de outros países isso soa muito estranho, talvez tão estranho quanto a relação estreita entre homeopatia e espiritismo, que entraram no Brasil pela mesma via, o médico lionês Benoit Mure, e acabaram se confundindo por muito tempo, o que causa uma rara estranheza em colegas franceses e alemães.

O que se questiona por ora é se essa específica vinculação entre a humanização do nascimento com sua origem ligada ao Yoga é natural, necessária ou deletéria. Para algumas pessoas, a humanização do nascimento caminha na mesma direção das ações “desmedicalizantes” do Yoga e outras práticas alternativas, e não é à toa que muitas mulheres que procuram partos humanizados também criticam o modelo médico contemporâneo ocidental e procuram formas de tratamento mais “suaves” e menos drogais. O Yoga é uma destas formas de procurar saúde sem a inserção de drogas no organismo.

Entretanto, para muitas mulheres cosmopolitas, a vinculação com essas práticas NÃO É natural e sequer desejada. Se acreditarmos que os pressupostos básicos da humanização sejam o protagonismo restituído, a visão interdisciplinar e a vinculação com a medicina baseada em evidências então nenhuma vinculação necessária existe com práticas não ortodoxas para a assistência humanizada ao parto. Podemos ser absolutamente ligados a uma medicina tradicional, alopática e endorcista sem ferir qualquer dos pressupostos fundamentais da humanização.

Isto parece certo, e parece não haver dúvidas quanto a este fato. Por outro lado, não vejo porque rechaçar a visão plural que estas práticas podem acrescentar, desde que entendamos que partos humanizados não significam (da forma como pejorativamente falam seus opositores) partos “naturebas”, em que se estimula um rechaço sistemático e dogmático à ciência oficial e aos tratamentos drogais e invasivos.

Assim, creio que a humanização do nascimento é uma casa grande e cheia de portas, por onde podem entrar várias formas de expressão do nascimento. Se as paredes forem mantidas de pé, com os pilares do protagonismo, a visão interdisciplinar e a vinculação com a medicina baseada em evidências, então as cores locais da humanização, sejam da Yoga, do budismo, ou até de um agnosticismo crítico, serão bem vindas.

A pluralidade das visões e o respeito às perspectivas diferentes devem ser pressupostos centrais no debate sobre o nascimento. Se existem infinitas maneiras de parir, tantas quantas forem as mulheres no mundo, então a forma como entendemos este movimento e suas expressões também precisa ser de incontáveis maneiras, tantas quantas forem as cabeças e mãos a construi-lo.

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Agenda Positiva

Apontar dedos

Participei de um debate há alguns dias – e que terminou ontem – sobre uma placa colocada no portão da frente de uma clínica veterinária a qual considerei abusivamente agressiva para as pessoas. Tratava-se de um aviso sarcástico e ameaçante para aqueles que deixavam animais na porta (ou abandonavam) para serem atendidos pela profissional que lá trabalha. Não vou repetir os dizeres, mas eram agressivos, uma espécie de xingamento misturado com uma ameaça fictícia.

O debate seguiu com algumas pessoas legitimamente clamando que o abuso contra pobres e indefesos animais precisaria de um contraponto violento como aquele, e que seria um absurdo criminalizar a atitude de uma médica veterinária, a qual estava movida por uma genuína indignação com os maus tratos dados aos animais. Sua “fúria”, portanto, se justificava pelo somatório de frustraçôes e pelo excesso de abusos que se acumulavam no que diz respeito à forma como são tratados os animais domésticos.

Acabei, como de costume, escrevendo muito sobre o tema a ponto de me exceder um pouco, para o quê peço desculpas aos debatedores. Por outro lado, creio que a minha ideia – mesmo reconhecendo que a forma como a transmito seja excessiva por vezes – ainda tem valor. Minha tese é de que “os fins não justificam os meios”, e jamais construiremos uma sociedade mais digna e respeitosa com violências, agressões e respostas desmedidas. Acredito que a veterinária tinha razões para se indignar com a crueldade que testemunhava todos os dias, mas sua reação foi desrespeitosa, violenta e totalmente desproporcional.

Ok, mas qual a relação desta história com a questão do parto no Brasil? Creio que esta discussão me tocou porque é exatamente este o estado atual do debate sobre humanização do nascimento no Brasil, e sobre isso já tratei algumas vezes.

Passado o furor inicial deste movimento social, que se caracterizava pela profunda indignação com a forma como as mulheres são tratadas no momento de parir, e com acusações de violências aparecendo por todo o lado, é importante que criemos espaço para o que chamo de “agenda positiva”.

Por este termo, que não é novo e sequer me pertence, me refiro a um movimento que vi acontecer há alguns anos conversando com Robbie Davis-Floyd. Dizia ela estar um pouco cansada das acusações contra o modelo patriarcal, machista, agressivo e acusatório existente em seu país e que partiam dos membros e das instituições ligadas à humanização do nascimento nos Estados Unidos. Havia muita tristeza no ar, um sentimento de raiva surda, que se expressava nos textos, livros, crônicas e discursos das ativistas. Era tempo de fazer uma virada no foco, “mudar o lado do disco”, e mostrar uma “agenda de positividade” ao invés de apontar dedos para o que existia (e ainda existe) de negatividade no cenário do nascimento.

Dessa ideia surgiu seu último livro “Birth Models that Work” (Modelos de Parto que Funcionam) em que ela lista experiências positivas na atenção ao parto no mundo, falando das coisas que ela admira, que dão certo e que, em última análise, “funcionam” no terreno da assistência às mães e bebês. O livro foi um sucesso, e continua inspirando ativistas no mundo inteiro a construir algo de positivo para a assistência mais humanizada e centrada nas necessidades da mulher, da família, comunidade e sociedade como um todo.

É assim que eu vejo o futuro da assistência ao parto no Brasil. Reconheço a importância dos esforços pela erradicação da violência institucional que estão ocorrendo no Brasil, a força das ONGs de proteção à mulher gestante, a importância de levar adiante as queixas de maus tratos das mulheres em unidades de saúde e a premência de escutar as mulheres, para que as suas vozes sejam levadas em consideração e não caiam no vazio. Chega de indiferença contra o arbítrio e a violência. Chega de agressões inaceitáveis contra a mulher em seu momento de maior fragilidade.

Entretanto, essa é uma parte apenas deste movimento social, e não pode ser a cara da humanização. Não podemos nos tornar Torquemadas do parto humanizado, mandando para a fogueira aqueles que ainda não foram tocados pelas teses do nascimento com amor. Se nos posicionamos contrários à violência temos que dar o exemplo e tratar esta questão de forma compreensiva, amorosa e superior. Se existe espaço para a justiça, existe um ainda maior para a compreensão das dificuldades em se adaptar a um novo ordenamento social, que jamais se processa da noite para o dia.

Nosso discurso deve ser em torno do que amamos e nos apaixona, e não centrado na indignação e no rancor. Não podemos fazer do nascimento humanizado uma bandeira de vingança e ódio, mas de lenta sedução para os nossos pressupostos. Como dizia meu colega Max, “Precisamos fazer do parto um momento tão gratificante e belo que a escolha por uma cesariana será a mais tola das decisões”.

Precisamos falar mais da beleza do nascimento em paz, e menos do terror de parir de forma violenta, entendendo que “falar menos” não significa calar-se. Mostrar o erro também faz parte das nossas obrigações como ativistas, mas esta ação não pode ser mais evidente e clara do que apontar caminhos para uma atenção gratificante, respeitosa e digna para todas as mulheres.

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Robert Bradley e a desmedicalização do parto

Husband Coached Childbirth01

Uma questão pertinente:

Robert Bradley, que trabalhou nos Estados Unidos nos anos 50 e introduziu o conceito de “Husband Coached Childbirth“, e a prática do “parto desmedicalizado”, atendeu mais de 14 mil partos durante sua carreira obstétrica. Estes partos, quando avaliados, mostram números absolutamente impressionantes. Mais de 90% dos partos ocorreram sem uso de medicação alguma, apenas com suporte emocional e a ajuda do marido (que na época atuava como uma “doula”), e a taxa de cesarianas foi de apenas 3%. Sim, 90% de partos totalmente fisiológicos e apenas 3% de intervenções cirúrgicas, algo absolutamente impensável hoje em dia.

Minha pergunta é: se Robert Bradley vivesse em São Paulo, Rio ou Porto Alegre nos dias de hoje, ele conseguiria estes índices, carregando consigo apenas as suas convicções e atitudes? Ou o mundo em que ele viveu (os Estados Unidos dos anos 50) é substancialmente diferente do mundo de hoje, a ponto de pressioná-lo a ter condutas diferentes? Que tipo de pressões ele sofreria, dos colegas e dos clientes, para ter uma atitude mais intervencionista?

Minha mãe tem 1.49m e teve 4 filhos de parto normal, nascimentos fisiológicos e desmedicalizados, apesar de serem no hospital. Ganharia ela os filhos dessa maneira se os tivesse hoje? Ou teria sido apavorada desde o nascimento pela sua “bacia estreita”, pela “baixa estatura” ou pelos riscos imensos de ter um bebê “esmagado” pelo canal vaginal.

Melhorar os profissionais (e o modelo de atenção) é suficiente para esta revolução, ou só teremos melhoria REAL quando a cultura como um todo se transformar?

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Manifesto

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“Algumas pessoas dotadas de muito rancor e pouca informação acusam-nos de sermos refratários ao uso de tecnologia. Enganam-se, pois somos abertos a toda aplicação de recursos que possa auxiliar mães e bebês. Entretanto, nos posicionamos contra quaisquer abusos praticados em nome de uma lógica mercantilista e corporativista na atenção ao parto. Da mesma forma temos uma posição firme e bem fundamentada quanto ao direito de escolha sobre o local de parto como um DIREITO HUMANO fundamental. Para isso usamos medicina baseada em evidências para fortalecer nossas posições, e não mitologias urbanas ou ideias preconceituosas. Não somos movidos por fantasias ou crenças religiosas, mas acreditamos no potencial transformador da liberdade, da autonomia e do conhecimento. Sabemos que a escolha de um modelo de parto pertence à mulher e sua família, e que nossa posição é de suporte e auxílio, jamais de expropriação de um evento sagrado, cuja expressão é parte essencial daquilo que nos constitui como humanos.”

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Homens, “doulos” e barreiras

Homem Doulo

As mulheres adoram “desvirtuar” os papéis historicamente determinados aos gêneros pelo patriarcado. Hoje em dia pilotam aviões, jogam futebol, praticam box e luta livre, andam de asa delta e até namoram outras mulheres.

Pior ainda: ousam abster-se de gestar e parir, sua função biológica por excelência, clamando que “uma mulher não se resume à maternidade”.  E de nada adiantam as queixas dos homens, invadidos em suas pretensas (e ilusórias) especificidades testosterônicas.

A invasão feminina sobre os espaços historicamente destinados aos homens sequer aceita contraditórios: o direito de romper as barreiras impostas pelos gêneros está acima de qualquer consideração essencialista. Não cabe mais restringir a ação das mulheres a uma “cartilha” e muito menos falar dos limites da ação das mulheres na cultura. Elas invadiram as universidades, a Academia, os juizados, a política e o espaço público. Não enxergamos mais nenhuma fronteira inexpugnável à invasão feminina.

Lembro que durante a minha época de estudante as meninas da faculdade de medicina resolveram que também fariam plantões em um pronto socorro privado da cidade. Porém, foram orientadas a não solicitar o ingresso no grupo de internos porque não havia dormitório feminino, apenas um quarto para todos os médicos e estudantes. Seria “indecente” colocar homens e mulheres dormindo no mesmo recinto durante as noites de plantão. Elas responderam: “Pois dormiremos aqui também, qual o problema?”. A reação dos colegas – fácil imaginar – foi truculenta: durante a noite trafegavam pelo quarto sem camisa e de cuecas, apenas para agredir, reforçando a ideia de que aquele era um espaço masculino, invadido por “novatas” que careciam de brio e coragem para assumi-lo.

Inútil. As meninas simplesmente viravam para o lado quando as grosserias aconteciam. Mostraram sua força e determinação, sem retroceder na luta por espaço. Mantiveram-se firmes diante do ataque machista, e venceram a guerra. Passaram a fazer parte do corpo de internos do Pronto Socorro.

Digo isso por uma questão de justiça e reconhecendo que a questão de gênero, nos últimos 30 anos (a partir da “queda de Stone Wall” em 1982), tornou-se crescentemente complexa e produziu modificações importantes na estrutura social. O mundo muda; não compre mais roupinhas cor-de-rosa para a sua filha; talvez ela queira usar azul, e talvez seu filho ache mais interessante acarinhar as bonecas do que chutar uma bola.

Entretanto, mais uma vez, vejo que a contrapartida também é complicada. Bastou que os homens tentassem “invadir” um território historicamente restrito às mulheres – a ação das doulas no cuidado com as gestantes – para que as próprias mulheres tragam de volta a discussão essencialista de que “isso é coisa de mulher”. Ora, sejamos coerentes. Quando falávamos que pilotar um caça e jogar bombas em asiáticos só poderia ser coisa para a fração da sociedade provida de hormônios viris, as mulheres vociferaram contra este determinismo biológico, algo entendido como um “encarceramento social” que impedia a livre expressão de suas vontades. “Não existem limites biológicos, apenas cerceamento cultural machista”, diziam elas, com força e disposição.

Pois então faz-se necessária a mesma postura libertária quando a ideia de “doulos” – homens atuando no suporte ao parto – emergir na cultura. Se os limites não valem mais para aprisionar as mulheres em sua ação social, porque tais barreiras seriam justas se aplicadas aos homens?

Deixemos que as gestantes decidam sobre a questão. Se elas aceitam a presença masculina nessa atividade – que implica proximidade, toque e encorajamento – então que a elas seja dada a última palavra. A nós cabe apenas compreender, analisar, respeitar e…. aceitar.

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