Arquivo da categoria: Citações

Tristes solilóquios

Muitos insistem em vociferar verdades nas mídias sociais, mesmo que elas não venham acompanhadas de uma prova sequer do que afirmam. São sujeitos carregados de certezas e ideias simples, repletas de embates do “bem contra o mal”. Acusam a todos, julgam e condenam sem piedade. São carrascos virtuais, prontos a colocar seus desafetos no pelotão de fuzilamento.

Porém, é fácil perceber que estas pessoas se comportam tal qual os fanáticos religiosos que gritam versículos bíblicos na praça. Seus discursos cheios de fervor não servem para que os outros se convertam; são ferramentas para que eles mesmos acreditem em suas palavras. Diante da incerteza do que afirmam insistem na veemência de suas convicções, mesmo quando tudo à sua volta lhes prova que estão no caminho errado. Não são discursos reais; são tristes solilóquios.

Seus gritos funcionam como uma proteção contra o medo de estarem errados. Com este discurso tentam bloquear a realidade, porém esta, mais cedo ou mais tarde, acaba mostrando sua face dura. Triste o momento em que percebem que suas convicções não eram mais do que seus desejos transformados em discurso. Mas não será esta a verdadeira iluminação?

André Capuani Riggo, “Mídia e psicanálise”, Ed. Lambert, pág 135

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Amarras

Havia a esperança que o destravamento das amarras sexuais femininas levaria ao fim das angústias que se associam à repressão das pulsões, como bem descreveu Freud em seus “Estudos sobre a Histeria”. Parece que a pergunta sobre a sexualidade feminina não pode ser respondida de forma tão simples.

Juliette de Saint Etienne, “Les Fleures du Mardi”, Ed. Gallimard, pág. 135

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Frida

O julgamento das escolhas emocionais e sexuais de uma mulher é um item que jamais sairá de moda. Os ataques vem de todos os lados: dos homens e até das próprias mulheres. Frida, mesmo depois de morta, é acusada e combatida por seu amor por “Gordo”, o pintor Diego Rivera, seu marido. Ainda hoje continua a ser condenada e jogada na fogueira por amar quem amou, e na intensidade que apenas ela seria capaz de entender e decifrar.

Maria Cândida Valcáceres, “Las Cejas de Frida”, Ed. Simón Cruz, pág. 135

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Iluminação

Há quem diga que a iluminação é um salto em direção à luz; eu a enxergo como um mergulho corajoso na própria sombra.

Kimberley McCaulin, “Leap into Darkness”, Ed. Bethesda, pág 135

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Responsabilidade e Autonomia

O problema da responsabilidade da mulher sobre a gestação é bastante complexo e sobre isso há um ponto nevrálgico de caráter ético e filosófico sobre o qual ainda não há solução definitiva: “Afinal, a quem pertence esse feto e, depois, esta criança?”

Há que se lembrar que o surgimento da paternidade reconhecida é recente na historia da humanidade. Até então o sexo era prazer e domínio e passou a ser preservação genética; de uma paternidade social a um vínculo mais pessoal. Entretanto, por razões óbvias, a maternidade sempre foi visceral e reconhecida socialmente. A guarda dessa criança sempre foi responsabilidade da mulher que a pariu. Somente as mudanças estruturais da sociedade advindas da monogamia e do amor romântico puderam determinar uma nova configuração da paternidade. De algo difuso ou quase inexistente a um vinculo social reconhecido e valorizado.

Hoje ainda vemos a mulher muito mais conectada com sua gestação e filhos do que os homens. Não imagino como poderia ser diferente, já que é sobre seu corpo que o processo ocorre. Entretanto, existe um limite invisível que separa os dois polos, que se move ao sopro dos valores sociais vigentes: de um lado a responsabilidade de outras instâncias, como o pai e a sociedade; do outro a liberdade e a autonomia da mulher sobre seu corpo e seu destino.

Quando se reconhece a mulher protagonista e autônoma o aborto legalizado passa a ser mais facilmente entendido. “Seu corpo, suas regras”, dizemos. Também seus cuidados e escolhas na gestação e no parto passam a ser mais valorizados e respeitados. Dieta, estilo de vida, cuidadores, local de parto, amamentação, etc. Tudo depende da mulher, sendo o homem um mero espectador do evento, restringindo-se a lhe dar suporte material e moral.

Por outro lado pode haver um envolvimento muito grande dos parceiros(as) na gestação e parto, mas com isso é natural que também os direitos sobre o bebê sofram uma espécie de partilha. Se antes dependiam apenas das escolhas da mãe, agora o parceiro também se sentirá no direito de opinar e decidir. Portanto, não deveria ser absurdo que ele opinassem sobre local de parto, amamentação, vacinas, parteiros mas também pela própria continuidade ou não da gravidez. Afinal, se ele é responsável (moral e financeiramente) deveria também poder exercer seu poder de decisão sobre algo que também é, reconhecidamente, seu.

As linhas divisórias entre as a suprema autonomia feminina e a “intromissão social” variam no tempo e nas latitudes, mas hoje vemos uma tendência crescente para proteger a mulher e suas escolhas. Entretanto, para que se exija responsabilidades dos parceiros(as) também é fundamental que lhes seja garantido um nível razoável (porem variável) de poder de decisão.

Nenhum parceiro é capaz de oferecer ajuda sem que haja a contrapartida do reconhecimento.

Manuel de Aquino Queiroz, “Poder e Limites do Corpo – uma arqueologia da gravidez”, Ed. Cascais, pág 135.

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Os rios de Brecht

No envelope amassado entregue pelo guarda, Zdenka consegue de imediato reconhecer a letra rude e a firmeza dos traços que ferem o papel produzidos pela caligrafia de Vladimir. Ao alto ele escreveu entre aspas:

“Dos rios dizemos violentos, mas não dizemos violentas as margens que o oprimem.” (Bertold Brecht)

Veja, minha amada Zdenka, esta é uma das mais belas frases e concepções que conheço, querida Zdenka. Vemos com facilidade a violência no assaltante frio, mas não enxergamos as amarras sociais invisíveis que o atam à bandidagem. Dizemos brutal o roubo da propriedade mas não dizemos desumana a privação de quem nunca a teve. Percebemos com clareza a brutalidade de um assalto, mas não saltam aos nossos olhos a injustiça de quem nada tem para perder. Por fim, acreditamos justa a punição de quem de nós algo subtrai, mas esquecemos de punir quem de todos expropria.

Theodor Luděk Novotný, “Řeky a jejich banky” (Os rios e suas margens), Ed Palmear, pag 135

Theodor Novotný é um escritor nascido em Praga, na República Tcheca em 1974, após a primavera de Praga e durante a dominação soviética. Toda a sua infância for marcada pela intromissão soviética no seu país e seus trabalhos iniciais – como “Flores para Vaklav” – se inseriam no retorno da autoestima do povo checo. A partir daí, e muito influenciado pela literatura de Milan Kundera, passou a se dedicar aos dramas psicológicos mais profundos, mas sempre com o pano de fundo das transformações produzidas pela Guerra Fria, pela queda do muro de Berlim e pela a implosão do “comunismo real”. Em “Os Rios e suas Margens” ele centra a ação em Zdenka, uma militante de esquerda acusada de conspirar contra os governos alinhados com o totalitarismo. Nos interrogatórios a que foi submetida ela encontra o prisioneiro Vladimir, um velho comunista ressentido que sofre pela desilusão e a derrocada de seus sonhos. Desse encontro surge uma amizade que perdura através de missivas, entregues pelos guardas de ambos os setores da prisão. No final, uma mistura de drama e comédia, ocorre o reencontro de ambos e brota uma mensagem de esperança surgida das cinzas de vidas esmagadas pela fidelidade aos ideais.

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Propina

Os médicos moralistas e conservadores acham um escândalo que um político receba presentes de empreiteiras mas passam a vida recebendo amostra grátis, canetinhas, jantares, viagens, tablets, passagens aéreas e convites para congressos pagos pela indústria farmacêutica, e tudo isso sem a menor cerimônia. A corrupção é sempre um problema dos outros.

Sheldon McGuinitty, “Corruption by prescription”, Ed Alteros, pág. 135

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DesAFio

O maior desafio do homem de ideias é livra-se da expectativa que o escraviza ao desejo dos outros. Fico triste ao ver homens e mulheres muito preparados e capazes que, ao alcançar sucesso em suas ideias ou projetos, rapidamente sucumbem diante da expectativa gerada pelos que sustentam sua notoriedade. Só os bravos sobrevivem, e apenas os verdadeiramente inovadores descartam o brilho fátuo da fama em nome da fidelidade aos princípios.

Ingeborg Wilkinson, “The Five Rocks of Power”, Ed. Paramount, pag. 135

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Fortes

Quando lemos sobre os 18 do forte e sua intentona revolucionária suicida é de estarrecer que, passados quase 100 anos, a macheza hoje se resume a ameaças e bravatas no Facebook. Não se faz mais homens de fibra como antigamente, e os ideais de justiça social são menos valiosos que um IPhone novo na caixa.

Constantino Arruda, “História das Revoluções Fracassadas”, Ed. Hystos, pág. 135

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Religião

Sou cada vez mais interessado pelo verdadeiro sentido sociológico da religião, que não é a prática do bem, da caridade, a crença na vida após a morte ou nas bem-aventuranças. Religião me parece cada vez mais um idioma; uma linguagem. Um código complexo e detalhado onde colocamos nossos valores contemporâneos e os inserimos entre as palavras escritas.

É por esta razão que os textos sagrados são tão longos, complexos e dúbio – por vezes contraditórios. Eles são assim com um propósito: permitir a entrada de inúmeras visões de mundo, mesma as que são antagônicas. É possível ter opiniões diametralmente opostas e usar a Bíblia ou o  Corão para embasá-las.

Religião não é um lugar de onde tiramos conceitos, mas onde os colocamos. Por isso ela muda no tempo e no espaço. A religião, portanto, é uma identidade compartilhada, que funciona para agregar as pessoas em nome de ideias, valores e histórias comuns.

Edward McDuffie,  “The gates to Nowhere”, Ed. Printemps, pág 135

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