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Sacrifícios

Quando eu tinha uns 10 anos de idade, e estava de férias com a minha família em uma cabana no interior do Rio Grande do Sul próximo à barragem do Salto, começamos a conversar logo após o jantar. Era o que tínhamos a fazer antes dos smartphones e quando as TVs simplesmente “não pegavam” em várias partes do estado. A conversa acabou se centrando no tema dos “sacrifícios”, ou seja, o quanto poderíamos sacrificar algumas coisas em nome de outros valores.

A questão prática era: se você quer ter aulas de violão não pode fazer judô, pois não há como pagar todas essas coisas. Meu pai tinha quatro filhos, não haveria dinheiro para financiar isso para todos. Ele era da “teoria do pirulito”: se você tem 4 filhos e 3 pirulitos ninguém ganha, porque não há como desfavorecer um diante dos outros. Todos são iguais e ninguém poderia ficar em desvantagem. Portanto, haveria que se sacrificar algo para que todos pudessem ter um benefício.

Um pouco contrariado eu perguntei ao meu pai:

– Ok, e você? Que sacrifícios faria pelos seus filhos? Seria capaz de, por e exemplo, arrancar um dedo da mão para nos salvar?

Meu pai riu da minha pergunta e respondeu:

– Um dedo? Ora, eu daria a minha própria vida pelos meus filhos. Eu morreria por eles.

Lembro bem dessa conversa, e penso que a resposta que eu dei para ele é engraçada até hoje.

– Rá, morrer pelos filhos é fácil. Quero ver ter coragem de arrancar um dedo!!

Para mim a morte era algo distante, um acontecimento meramente abstrato. Mas arrancar um dedo – multiplicando a dor de verdade que eu já havia experimentado – isso sim era sofrimento prá valer,

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Coreia

Quando eu era pequeno – tinha uns 10 anos de idade – e não tinha nada para fazer no domingo a tarde, ia até o estádio do Internacional (que ficava poucas quadras da minha casa) e comprava um ingresso no setor popular, a famosa “Coreia” (parte do campo na altura do gramado batizado em homenagem à “Vila Coreia”, favela próxima). Eu e meu amigo George Banana íamos para assistir o jogo (que nem era do nosso time; íamos lá para “secar”), curtir o clima da torcida e escutar o barulho ensurdecedor que se seguia aos gols (uma experiência singular na vida de um garoto).

Vejam bem… um menino de 10 anos ia à pé até o estádio com seu amigo da mesma idade, pagava o equivalente a 5 reais de hoje e assistia um espetáculo de futebol. Os campos de futebol naquela época eram lotados de gente pobre, até favelados. Na foto que ilustra este post pode-se ver o rosto das pessoas da Coreia, gente que hoje não pode mais entrar em um estádio de futebol.

O futebol moderno – e gente como Cristiano Ronaldo, Neymar, Messi – mataram a possibilidade do esporte voltar para o povo, mas não por culpa deles – meros artistas que vendem sua força de trabalho para fazer girar a roda da fortuna – mas por uma progressiva e insidiosa elitização do espetáculo. A ela veio se juntar a neurose coletiva do capitalismo combinada com a gentrificação dos estádios e arenas, construídos para serem símbolos de luxo e poder, acessíveis apenas a uma franja diminuta da sociedade.

Hoje em dia o pobre só pode satisfazer sua admiração pelo futebol através das transmissões entupidas de publicidade nas TVs abertas. Como o futebol-negócio é controlado por setores da burguesia – que estão se lixando para o povo – a chance de ocorrer alguma mudança em médio prazo é ínfima. Ódio eterno ao futebol moderno!!!

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Homo adaptabilis

Pode ser uma imagem de 1 pessoa e texto que diz "Segundo Séneca, nós sofremos mais na imaginação do que na realidade. FATOS"

Meu pai dizia que o que mais o assombrava na humanidade era sua capacidade de adaptação. Ele era um racionalista, um humanista que nutria uma enorme fé no ser humano, sua criatividade, sua incrível maleabilidade e – em especial – sua adaptabilidade. Ele me contou que, quando trabalhava nas centrais elétricas do Rio Grande do Sul – a CEEE – conheceu um engenheiro elétrico, imigrante húngaro, que chegou ao Brasil fugindo dos horrores da segunda guerra mundial. Meu pai o descrevia como um homem fechado, bruto, profundamente anticomunista, marcado por tristezas profundas, ressentimentos e dores da alma. Hoje seria, por certo, um bolsonarista ressentido, se ainda fosse vivo.

Todavia, apesar de se sentir muito distante de sua visão política, meu pai tinha por este sujeito uma profunda admiração, em especial por sua impressionante resiliência. Certa feita, durante um momento de maior descontração, o engenheiro sisudo e calado lhe contou alguns detalhes da sua dramática história na Europa, o que levou meu pai quase às lágrimas. Durante a 2a grande guerra ele havia perdido a mulher e os filhos pequenos, vítimas dos bombardeios alemães em sua cidade. Se isso não fosse o suficiente, viu sua casa ser destruída, e com ela tudo o que possuía. Não lhe sobrou nada, nem recursos ou afetos. A guerra lhe roubou tudo o que havia construído.

Na miséria e sem futuro, colocou seu diploma de engenharia elétrica numa pequena mala junto com as poucas peças de roupa que conseguiu salvar e entrou em um navio que o levasse a para longe. Seu destino era “outro lugar”, qualquer um que fosse distante o suficiente de suas tragédias e do vazio que lhe restou como lembrança.

Sim, Deus é um cara gozador e adora brincadeiras, e na barriga da miséria ele virou brasileiro. Chegou ao sul do Brasil ainda com juventude no corpo, e teve tempo de reconstruir sua história, sua profissão e sua vida. Casou de novo e teve filhos – que hoje devem ser velhos como eu a contar para os netos as histórias tristes do avô na guerra absurda e fratricida da qual participou.

Lembro dessa história sempre que penso nas pequenas e grandes tragédias que se abatem sobre mim – ou sobre todos nós. Creio que, se o velho húngaro foi capaz de refazer sua história movido apenas pela ânsia de viver, agarrado à pulsão de vida como tábua de sobrevivência, por que haveríamos de desistir diante de dores tão menores? Talvez, se lhe fosse perguntado na juventude se suportaria todas estas perdas, diria que “não”, que não haveria como superar a perda da mulher, dos filhos, de suas coisas e até do seu país. Ele, como muitos de nós, não acreditaria em sua capacidade de se reconstruir a partir dos escombros a que foi reduzido. Pois, a despeito de sua própria descrença, foi lá e teimosamente sobreviveu. Mais do que isso; ainda teve a ousadia de ser – ao seu jeito – pleno e feliz.

Meu pai sempre falava deste homem quando desejava apaziguar as dores lancinantes que a vida muitas vezes nos obriga a sofrer. E depois, com um sorriso afável, sempre dizia: “Por pior que pareça, vai passar”.

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Comunidades

Publiquei em outros lugares esta minha breve análise sobre vida em comunidade mas acredito que possa ser pertinente expandir o debate para mostrar o que realmente significa “viver em comunidade”. Minha motivação foi o fato de morar há 3 anos em uma comunidade, ter visitado comunidades como Osho Rashana e Findhorn (em Inverness na Escócia), e por ter lido esse post, que é uma bela provocação. Minha intenção é mostrar o quanto do que está escrito nele é profundamente fantasioso e idealista.

De uma forma geral as comunidades são empreendimentos de altíssimo risco. Quando me perguntam se é difícil uso o mesmo argumento para abordar o problema do “trissal“: se já é um terror com duas pessoas, imagine adicionar 50 pessoas no projeto.

Antes de abordar o sonho de criar uma vida comunitária é forçoso saber que existem 5 grandes fatores de dissolução de comunidades, a saber:

1. Comida. O tipo de alimentação é muito importante em especial nos grupos cuja motivação congregacional – também chamada “cola” – é religiosa. Mesmo em grupos pequenos o convívio de um churrasqueiro com grupos veganos pode se tornar insuportável. Também algumas restrições ligadas à religião, como carne de porco e crustáceos podem ser motivo de atrito. Na maioria das vezes a questão é vegetarianismo e carnivorismo, geralmente um “osso duro de roer”.

2. Religião. Não exatamente as crenças, normalmente bem toleradas, mas suas práticas. Isso até mesmo é importante em vertentes diversas dentro de uma mesma religião, como xiitas e sunitas, católicos e protestantes. Ateus e suas práticas niilistas em geral são mal tolerados. Satanistas são festeiros e em geral são gente boa, mas quem aguenta alguém dizendo “Deus é uma mera criação humana” todos os dias, ou “Onde está teu Deus agora?”.

3. Animais domésticos. Esses conflitos são terríveis em comunidades, e basta ver as brigas em condomínios de apartamentos para ver o quanto uma comunidade sem muros pode produzir atritos e até dissoluções por gatos, cães, galinhas, passarinhos, coelhos, etc. Os cachorros largam pelo, os gatos dão alergia, galos cantam ao alvorecer, galinhas cacarejam e, para piorar, as “mães e pais de pet” tem tolerância zero com atitudes é palavras grosseiras dirigidas aos seus filhos.

4. Drogas. Sim, mas qualquer droga, da caipirinha às metanfetaminas, passando por maconha e ópio. Até café, chá e Coca-Cola podem ser motivo para disputas, dependendo se houver mórmons na comunidade. Maconha é o uso mais frequente depois do álcool e cigarros, e todos são potencialmente conflituosos. Gente passada no álcool ou “muito loucos” destroem uma comunidade em minutos.

5. Conflitos pessoais. Nem precisa pressionar muito a imaginação para perceber o quanto a proximidade em uma vida comunitária estimula conflitos. Basta ver namorados que nunca brigam, mas bastou viverem juntos para que os enfrentamentos apareçam e tornem a vida de ambos insuportável. Coloque num caldeirão vários indivíduos com traumas, tristezas, vivências e valores diversos e a chance de sair uma sopa bem azeda é enorme. Além disso, ninguém conhece suficiente bem alguém antes de conviver com ele e suportar os choques inevitáveis do cotidiano.

Em suma, como diria León Tolstói em Anna Karenina, “Todas as famílias felizes são iguais; as infelizes o são cada uma à sua maneira“. Da mesma forma as comunidades que perduram são iguais em sua tolerância às diferenças e pela manutenção de uma cola unificadora firme e persistente. São caracterizadas por resiliência e respeito aos modos de cada família, estabelecendo regras e muros sólidos para evitar que conflitos perdurem mais do que o suportável. Já as comunidades que fracassam o fazem cada uma à sua maneira específica, que pode ser através de qualquer um dos elementos mais frequentes listados acima ou por fatores absolutamente únicos. As tragédias, como bem o sabemos, tem seu curso variado, insidioso, silente e muitas vezes imperceptível.

É claro que a pessoa que publicou este post o fez por puro humor. Criou uma situação idílica onde todos seriam felizes juntos, tão irreal quanto o “viveram felizes para sempre” que encerrava as histórias de príncipes e princesas nos contos de fadas. Entretanto é bom ter em mente que a salada de valores e projetos que consta no texto levaria muito facilmente o projeto a um retumbante fracasso – e num curto espaço de tempo. Em verdade, a estatística sobre o tema é bem clara: apenas uma de cada dez comunidades que se iniciam prospera. As outras todas sucumbem, muitas vezes deixando um rastro de ressentimento e decepção para trás.

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Leite e hospitalidade

A China é um lugar fascinante e com uma culinária especial, mas de difícil adaptação para o paladar ocidental. Vou explicar com um exemplo bem simples das nossas diferenças: imagine você morar num lugar onde não existe leite ou laticínios (leite, manteiga, creme de leite, leite Moça, queijos, etc), a carne de vaca é inexistente nos mercados e o pão é um produto raro, sem qualidade e escondido no fundo do supermercado.

Lembro de entrar num gigantesco supermercado com Zeza e procurar algum leite, só por curiosidade. Encontrei em um canto escondido sob a placa “produtos importados” e o preço era o mesmo com que se compra aqui uma garrafa de bom vinho chileno. Queijo nem procurei. Carne apenas de porco e galinha, em grande quantidade. Picanha, então….. nem pensar. O pão e os biscoitos eram muito simples e mal feitos; não existe uma cultura panificadora na China. Chocolates são pura gordura vegetal hidrogenada, sem leite. Entretanto, para quem gosta de frutos do mar, este é o paraíso. Peixes de todo tipo, cor e tamanho.

Durante uma das minhas inúmeras visitas a maternidades e centros obstétricos de várias cidades eu tomei um “porre” de um vinho chinês muito forte à noite, num jantar após o ciclo de palestras no hospital. Depois de ficar tonto desatei a falar das minhas experiências na China, sua gente, sua cultura, sua língua, seus costumes e das diferenças com o meu país. Eles tem uma enorme curiosidade sobre o Brasil e sempre pediam para que eu contasse como é a vida aqui. Para eles o Brasil é um paraíso de luzes, sol, praia, mulheres bonitas, futebol e florestas. A imagem que eles têm é que aqui tudo é bom e tudo dá certo, e que as pessoas são muito felizes. Falei, por certo, da comida, e em especial da falta de leite e derivados, que fazem parte do café da manhã de todo brasileiro. Eles ficaram muito surpresos ao saber o quanto era popular o hábito de tomar o leite de outros mamíferos, algo quase nojento para a cultura local.

Na manhã seguinte – minha despedida da cidade – anunciaram que haveria uma surpresa para mim no café da manhã. Cheia de pompa e circunstância, uma cozinheira do hospital entrou na sala de refeições com uma bandeja dourada na qual se via uma vasilha contendo… leite!!! Fiquei emocionado de pensar o esforço que fizeram para trazer uma especiaria da minha terra só para me deixar feliz. Gente muito boa esses chineses…

Detalhe: odeio leite cru, mas tomei com cara de felicidade, para não fazer desfeita, uma atitude que poderia causar um grave incidente diplomático.

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Atentado

Meu irmão Roger Jones caminhava hoje pelo centro de Happy Harbor voltando para o trabalho após o almoço quando notou que o cadarço do seu tênis estava solto. Próximo à Rua da Praia agachou-se para amarrá-lo quando escutou um tiro. Sentiu um baque surdo no seu braço direito e caiu ao solo.

Ainda assustado e desnorteado, viu uma pequena multidão aproximar-se, enquanto ele tentava entender o que havia acontecido. Passou a mão no braço e notou um pequeno ferimento, mas quase não havia sangue. O tiro havia passado de raspão. Imediatamente se deu conta que o cadarço solto havia salvado sua vida.

Os transeuntes apontavam para o carro tentando anotar a placa, mas ele disparou em alta velocidade. No volante dois terroristas ainda não identificados provavelmente lamentavam o erro. No mundo do terrorismo internacional não se admitem erros, e cabeças rolariam, por certo

Pela graça concedida ao meu irmão, que Deus seja louvado.

PS: na realidade um carro passou por cima de uma pedra e a lançou em direção ao Roger. O pedregulho raspou no seu braço enquanto estava agachado amarrando o cadarço. O som realmente foi semelhante a um tiro, e esta foi sua primeira impressão, que apenas foi desfeita quando ele, e os demais transeuntes, repararam a pequena rocha ao seu lado. Esta é a verdade; entretanto acredito que a minha versão da história acabou sendo muito mais interessante.

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Nordeste

Eu conheci o nordeste muito tarde em minha vida. Já tinha conhecido os Estados Unidos e a Europa antes de ser convidado para uma consultoria em Humanização do Nascimento em um hospital da periferia de Recife (divisa com Olinda) cuja diretora era uma médica filiada ao PCdoB e com ideias muito avançadas para a época. O ano era 2001, o primeiro ano do resto da minha vida.

Minha perspectiva do Nordeste era …. Tieta do Agreste. Sim, eu olhava o nordeste como um americano médio olha para um país chamado “África” sem saber que este continente abriga países, culturas e tipos físicos tão distintos quanto um khoikhoi, um hamer e um tuareg. O nordeste, em minha imagem mental, era negro como na Bahia e…. pobre e atrasado. E todos falavam como os atores globais nas novelas.

Minha primeira visita foi a convite da Universidade, e os meus contatos foram com os médicos do hospital. Foram, por certo, encontros muito ricos para a minha compreensão do significado político do movimento do Parto Humanizado, mas tenho certeza que minha presença como consultor teve um impacto pífio no desempenho do hospital. Revoluções não se fazem com forasteiros munidos de belas ideias; elas são construídas lentamente de baixo para cima através da lenta sedimentação de conceitos e pela consciência de classe. Talvez uma semente, não muito mais do que isso. A transformação do Parto não se fará com ideias, mas com ações e lutas.

No hospital militar onde trabalhei havia um colega que tinha servido no hospital da FAB em Natal – RN. Um dia ele me contou que a frase “Doutor, tenho dor!!” poderia ser dita de forma muito distinta por cada um dos habitantes dos estados nordestinos. Depois me disse a frase com o sotaque de cada um deles e, pela primeira vez na vida, eu pude perceber a imensa diferença entre a forma de falar de um pernambucano e um baiano, um alagoano e um cearense.

A partir desse primeiro contato, ocorrido há mais de 20 anos, se iniciou minha verdadeira imersão no nordeste. Passei a viajar com regularidade para cursos, aulas, palestras, seminários e congressos. Visitei diversas vezes Natal, Campina Grande, Fortaleza, Recife, Salvador e Maceió para encontrar ativistas e levar o evangelho da Humanização. A partir desses encontros passei a ter uma admiração mesclada com uma real paixão pelo povo, a cultura, a comida, o idioma e a alma nordestinas. Fiz amigos, conheci lugares incríveis e aprofundei minha visão de Brasil. Acima de tudo, abandonei uma perspectiva branca, europeia, sulista e preconceituosa em relação ao nordeste, trocando esse sentimento primitivo por uma verdadeira paixão por tudo que essa região representa para o país.

Meu pai pernambucano sempre dizia que “a primeira regra da vida é viver; a segunda é conviver”. Conviver com as pessoas que nos parecem estranhas – ou diferentes em seus jeitos e valores – é a maior e melhor forma de reconhecer nelas similitudes e parecências, encontrando nelas a mesma humanidade que habita em nós. Por esse contato constante, minha trajetória nas últimas duas décadas pelas terras nordestinas me ensinou muito sobre brasilidade, acolhimento, calor humano e diversidades múltiplas.

Por esta razão repudio todo e qualquer preconceito com os nordestinos, pois sei que o nordeste é a máquina propulsora das mudanças profundas que este país precisará passar em um futuro próximo. Deixo aqui expresso meu profundo amor pelo povo nordestino e o imenso orgulho de ser filho de um homem dessa terra.

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Astronautas

Eu era um garoto de 9 anos (a idade atual do meu neto Oliver) quando assisti pela TV a chegada do homem à lua. A missão Apolo 11 levava 3 astronautas: Armstrong, Aldrin e Collins. Os dois primeiros pisaram na lua, enquanto Collins ficou dando a volta na quadra esperando eles terminarem as compras.

Armstrong e Aldrin tinham 39 anos quando viajaram à lua; Collins era 2 anos mais jovem. Quando meu pai (que na data tinha exatamente essa idade) me contou esse detalhe, ainda com o olhar grudado na TV, eu imediatamente perguntei:

– Por que levaram gente tão velha para uma missão tão importante?

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Crimes cibernéticos

Navegando pela internet, mais especificamente pelo Facebook, encontrei o anúncio de uma mala de viagens que imediatamente me chamou a atenção. Sempre me interessei por malas porque durante a minha vida adulta passei anos a fio viajando para apresentar meu trabalho em lugares muito distantes no mapa. Muitas vezes imaginei como seria uma mala “perfeita” para o tipo de viagem que eu fazia: um fim de semana para viajar na sexta, dar aulas no sábado e domingo, e estar de volta na segunda feira pela manhã. Esta que vi me chamou a atenção (vide abaixo). Era pequena o suficiente para ser levada para a cabine, forte, multifuncional, bela, prática, resistente e totalmente adaptada às necessidades modernas, como espaço para celular, gaveta para notebook, bateria recarregável embutida, etc. Um show de produto, mas por certo que deveria sair muito cara.

Fui olhar o preço: 12 prestações de R$ 24,35, no total um pouco mais 280 reais. Pior ainda: este era o preço de duas malas, duas pelo preço de uma!! Claro, um preço absurdo e irreal, o que apenas me fez sorrir por imediatamente reconhecer um truque conhecido do Facebook. Um “bait“, uma isca para quem se acha muito esperto e quer comprar algo barato demais para ser verdade. Uma mala como aquela custaria bem mais de 300 dólares. Mais um produto com o rótulo “O golpe está aí, cai quem quer”.

De qualquer forma continuei na página de vendas para analisar melhor a qualidade do produto. Por certo que o anúncio era falso e fantasioso, mas o produto realmente existe. Quando procuramos em sites de venda sérios encontramos o valor real que ele custa. Entrei no site de vendas falso e fiquei olhando os detalhes da mala até que encontrei um lugar onde se lia: “quem usou aprovou”. Ali encontrei o depoimento curto de alguns consumidores do produto. O primeiro era um jovem bonito de 20 e poucos anos chamado André Luiz. Seu comentário simples dizia “Excelente material, uma das melhores que já tive”, nada inusitado para uma publicação de pós venda como se faz no Mercado Livre ou Ali Express. Como eu já sabia que se tratava do comércio falso e criminoso daquele produto usando uma “isca” (um preço irreal), e movido por meu indefectível espírito curioso, resolvi fazer uma busca reversa com a foto do rapaz na Internet, apenas para saber se este era seu verdadeiro nome.

Para minha surpresa (nem tanto) ele não se chama André e sim Vinícius Augusto de Souza, um engenheiro agrônomo que foi assassinado por uma dupla de criminosos há alguns anos (em 2019) numa cidade do interior do Mato Grosso. Aparentemente se tratou de uma execução, pois os dois criminosos encontraram o rapaz na lanchonete e imediatamente saíram atirando.

Na mesma página de comentários aparece outro jovem dando um belo depoimento. Diz ele: “Material top, custo benefício maravilhoso, só agradecer!!”. No site ele se chama Gabriel Barbosa. Realizei em sua fotografia a mesma pesquisa reversa de imagem e novamente encontrei um detalhe macabro. Em verdade ele se chamava Murilo Henrique dos Santos, tinha 25 anos, morava em Jaú e morreu em 2020 ao cair de uma cachoeira e bater a cabeça contra uma pedra, tendo sido retirado sem vida do local pelo corpo de bombeiros da cidade.

A terceira pessoa a dar depoimentos usa óculos escuros, um boné com uma estrela vermelha e recebeu o nome de Andressa Martins, mas não foi possível encontrar sua imagem na internet, por isso não descobri seu verdadeiro nome. Ou seja, não contentes em roubar pela internet, fraudar consumidores, realizar crime cibernético ludibriando a boa fé das pessoas – que desejam comprar um produto verdadeiro e existente – eles colocam imagens de pessoas mortas como testemunho da qualidade dos produtos à venda.

Não é apenas uma desonestidade; além de ser crime é um brutal desrespeito com a família dessas pessoas, que podem encontrar o rosto de seus entes queridos participando de golpes pela internet. Desta forma, comprar um produto anunciado pelo Facebook se torna uma profunda estupidez, mas também nos faz desacreditar um pouco mais no gênero humano.

Veja abaixo o endereço criminoso:

https://fb.watch/fqsUTn2LV5/

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Ayahuasca

Minha experiência com a ayahuasca ocorreu há exatos 20 anos, na Bahia. Estávamos com minha amiga Robbie fazendo um “tour” sobre humanização do nascimento quando recebemos o convite de uma querida amiga, Maria Helena, para uma sessão especial na “União do Vegetal”. Tanto eu quanto Robbie – antropóloga americana e ativista da humanização do nascimento – atravessávamos os vales sombrios de nossos profundos e dolorosos dramas pessoais e foi elaborada para nós uma sessão especial de “cura”, ou de “saúde” – não recordo o termo exato utilizado.

Fomos em uma turma de vários colegas até o templo, um lugar esplendoroso e cercado de natureza. No interior do amplo salão havia dezenas de cadeiras de praia espalhadas e uma música de viola que tocava ininterruptamente. Lembro do intérprete das canções: Elomar.

Ficamos escutando aquela música por muito tempo, talvez por mais de uma ou duas horas. O silêncio, a música e o local produziam uma sensação inebriante e cristalina de paz.

Num determinado momento entraram os mestres, com suas características camisas verdes e muita pompa. Depois disso começou uma pregação doutrinária. A União do Vegetal é um sincretismo curioso de lendas amazônicas com partes da Bíblia, em especial o velho testamento e o rei Salomão. É uma “religião cristã reencarnacionista” que reconhece Cristo como o Salvador da Humanidade e foi criada em 1961 em plena Floresta Amazônica pelo seringueiro José Gabriel da Costa – “Mestre Gabriel” – um baiano nascido no município de Coração de Maria, região de Feira de Santana. O conteúdo da pregação pareceu seguir o roteiro padrão das igrejas cristãs, com exaltação dos valores morais, conservadorismo, padrões de comportamento determinados pelo gênero, etc, mas com uma liturgia muito interessante.

Num dado momento, após a pregação inicial e a evocação dos objetivos daquela sessão, um visitante novato levantou a mão e tentou explicar a razão de sua presença na reunião, pedindo para fazer alguns questionamentos. Foi imediatamente interrompido, bem no meio da sua manifestação e de forma um tanto rude, e lhe foi explicado que essas questões exigem um protocolo especial. Primeiro levanta-se a mão e se pede ao Mestre a permissão para fazer a pergunta; caso o Mestre autorize o sujeito continua e a faz. Ele concordou e levantou a mão, dizendo logo após: “Mestre, posso fazer uma pergunta?”, ao que o Mestre prontamente respondeu… “Não”.

Eu ri, mas não devia.

Depois passou-se à sessão com a ayahuasca propriamente dita. Foi colocada à frente do público em uma jarra transparente que continha a substância, cuja cor me pareceu semelhante ao “suco verde” que me acostumei a tomar pela manhã.

Essa substância é preparada a partir de duas plantas amazônicas, o cipó Mariri (Banisteriopsis caapi), e as folhas da árvore Chacrona (Psicotria viridis). O Chá Ayahuasca (ou Hoasca) é também chamado de Vegetal e seus discípulos o bebem durante as sessões, para efeito de concentração mental.

Feito o convite nos levantamos e entramos na fila. Quando levei o copo à boca senti gosto de “grama amarga”. Tomei o equivalente a meio copo de Vegetal e voltei a me sentar. Em alguns minutos todos haviam tomado e estavam de volta aos seus lugares, aguardando em silêncio e escutando os cânticos.

Algum tempo se passou até que um mestre se acercou de mim e perguntou se eu havia sentido a “burracheira”, que se define como a alteração sensorial produzida pela mistura das plantas. Eu respondi (talvez para agradá-lo) dizendo “creio que sim”. Ele deu uma gargalhada que foi acompanhada por vários dos presentes. “Quem sente a burracheira não acha e muito menos tem dúvida”.

Alguns minutos mais tarde outro mestre avisou que se alguém quisesse tomar mais uma dose poderia fazê-lo pois ele iria encerrar a oferta do Vegetal. Minha amiga Maria Helena me cutucou e eu prontamente levantei. Só no dia seguinte ela me contou que a “cutucada” era uma pergunta (se eu desejava tomar mais) e não um convite para mais uma dose. De qualquer maneira foi esse estímulo que me fez tomar a segunda – e fatídica – dose. Levantei, dirigi-me ao pote de vidro transparente, servi meio copo de ayahuasca e voltei a sentar.

Nesse momento eu já havia percebido que muitas pessoas levantavam de seus assentos em direção ao banheiro para vomitar. O vômito é descrito como uma boa reação ao Vegetal, produzindo um efeito exonerativo, semelhante às terapêuticas vomitivas da idade média ou dos enemas necessários na Grécia antiga como preâmbulo ao encontro com os Oráculos.

Em poucos minutos ficou claro que eu não ia escapar de chamar o “hugo”. Senti que estava ficando tonto e nauseado, e com uma espécie de aceleração mental. Aos poucos, mas de forma crescente, imagens multicoloridas se multiplicavam à minha frente, como um filme visto numa velocidade tão absurda que suas formas e cores se tornavam misturadas e confusas. O estranhamento foi ficando paulatinamente mais forte, e a náusea mais intensa, até o momento em que achei prudente me levantar para não passar vexame à vista de todos.

Saí da sala cambaleando e caminhei poucos passou na grama aparada que circundava o templo. Veio então a primeira golfada de vômito, cuja cor se confundiu com o gramado aos meus pés. Caí desfalecido ao solo logo após.

Acordei com o rosto colado ao chão espetado pela fina grama. Tentei entender o que havia acontecido e me dei conta que havia desmaiado após ter vomitado o Vegetal. Apesar do pequeno alívio que se seguiu, a minha mente não freava sua alta rotação e a náusea se mantinha. De onde estava consegui ver os banheiros que ficavam em uma construção contígua ao templo. Achei que um pouco de água fria no rosto me ajudaria e me esforcei para caminhar até lá.

Sim, era a “burracheira” e, sim, não havia como confundir.

Venci a distância de uns 15 metros com enorme dificuldade. As cores, as luzes, as imagens, a velocidade, a náusea insuportável, a angústia dobravam de intensidade a cada passo dado. Quando eu estava a dois metros da porta do banheiro verguei os joelhos vencido pela fraqueza, senti meu corpo dobrar em dois e meu rosto tocar o solo, me deixando na vexatória posição na qual “Napoleão perdeu a guerra”.

Apaguei totalmente, pela segunda vez. Lembro de ver uma luz se esvaindo, minguando como nas velhas televisões à válvula, que apagavam sua imagem de fora para dentro até restar apenas um minúsculo ponto brilhante no centro da tela. O universo se fechava à minha volta.

Meu despertar foi igualmente especial. Senti uma pequena lâmpada se acender e, em seguida, a reinicialização do “sistema”. Lembro de me perguntar primeiro quem eu era, depois onde estava e o que fazia ali. Recordo também de pensar nos meus filhos, talvez o que de mais valioso nos prende a esse mundo. Durante alguns segundos (minutos?) fiquei nesse estado de semi consciência até que senti uma mão tocar o ombro e uma voz me perguntando: “Você está bem?”

Era um grupo de Mestres que havia me seguido até ali, suspeitando que minha reação havia sido demasiado forte.

Fui ajudado por eles a me levantar e entrei no banheiro, onde a água fria de uma torneira me ajudou a respirar melhor e desembaralhar um pouco os pensamentos. Passados alguns instantes eu já suportava abrir os olhos e responder aos mestres. Em poucos minutos eu já estava sentado no auditório com os demais participantes.

Da experiência não tive nenhum insight consciente, nenhuma “abertura sensorial”, e nenhuma “entrada em um portal de luz”, mas é verdade que ninguém havia me prometido tal resultado. Também não houve uma ideia especial que tenha me ocorrido e sequer senti o desatar de algum nó emocional ou espiritual. Foi uma viagem pelos sentidos, porém muito mais forte do que eu supunha.

Guardei da passagem um entendimento um pouco mais rebuscado da origem do fenômeno religioso assim como do significado ancestral dos rituais de beberagem ritualística. Percebi o quanto essas celebrações possuem um potente papel agregador nas comunidades, e também a semelhança dos seus conteúdos litúrgicos com as diversas religiões com as quais já tive contato.

Depois da experiência no templo ainda tive dois dias de alteração, em especial a vontade de falar muito e sobre diversos assuntos, mas depois voltei ao meu característico caráter reservado. Fiquei muito impactado com os efeitos físicos e mentais da ayahuasca, mas não ao ponto de me submeter à ideologia claramente conservadora que a envolve. Contínuo até hoje um “agnóstico espírita” com profundo respeito pelas religiões, mas sem nenhum interesse em seguir qualquer uma delas.

Guardo essa experiência principalmente pelos amigos que me acompanharam e pela sensação de suporte que tive quando do meu segundo desmaio. Muitas vezes – em especial quem é da área da saúde – somos quem ampara aqueles que estão diante de um grande e profundo drama, e o melhor que podemos oferecer é nossa companhia, nosso silêncio e uma firme, porém delicada, mão no ombro.

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