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Elogio, ainda

Quando passei no vestibular, aos 18 anos, marquei de encontrar com os amigos no local onde as listas com os nomes dos aprovados seriam afixadas nas paredes. Fomos então aguardar no Estádio do Inter, onde funcionava um dos cursinhos pré-vestibular da época. Estas cenas, por certo, seriam impossíveis em um mundo como o de hoje, onde a aprovação seria enviada para seu celular em casa. Pois nos anos 70 as listagens de aprovação vinham impressas em papel e os estudantes corriam desesperados para encontrar – ou não – seu nome nas listas produzidas pelo CPD da Universidade.

Na hora em que as listas apareceram corri para a parede da sala e fui um dos primeiros a ver meu nome impresso. Estava ao lado do meu irmão e da minha namorada – também aprovados – e meus amigos, que estavam lá pela farra. Fizemos festa ali mesmo, na hora, com tinta, água e tesoura; não sobrou um fio sequer na minha cabeça. Depois de comemorar brevemente com a turma, voltei para casa, esgotado pelas emoções daquele dia. Ao chegar, foi meu pai quem abriu a porta. Olhou minha cara suja de tinta e minha cabeça raspada e deu um “meio sorriso”, bem característico para quem o conhecia. No disse uma única palavra. Não me deu parabéns e nem sequer tapinhas nas costas. Ficou em silêncio enquanto eu percorria o corredor de casa para tomar banho. Depois jantamos e, mais uma vez, nenhuma palavra foi dita.

Assim como os sonhos são organizados enquanto os descrevemos, as palavras só fazem sentido quando são escutadas. Também os silêncios encontram sua maior eloquência no momento em que deixam imóveis as membranas timpânicas. De todos os elogios que recebi na minha vida, a mudez do meu pai no momento em que eu adentrava a vida adulta foi o mais intenso e significativo. Do vão misterioso que emoldurava sua fala sem palavras brotava a confiança de que esta vitória nada mais era do que algo esperado para quem ele tanto confiava.

Muitas vezes o elogio verdadeiro está em não elogiar…

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Latinha

No aeroporto de Sófia, na Bulgária, pedimos um café para aguardar nosso voo de volta ao Brasil. Enquanto conversávamos sobre o interessante seminário de Humanização do Nascimento com ativistas búlgaras eu lembrei que o filho de uma amiga no Brasil colecionava latas de Coca Cola de outros países. “Certamente uma latinha da Bulgária seria uma excelente aquisição“, pensei. Tive a ideia de comprar uma latinha, mas lembrei que não poderia levá-la cheia, pois a segurança não permitiria a entrada; precisava ser mesmo vazia.

Olhei na lixeira próxima e não encontrei nada e estava quase desistindo quando vi um cidadão levantar de sua mesa e sair do espaço da cafeteira, deixando uma reluzente latinha de Coca Cola sobre a mesa. Esperei ele desaparecer de vista e peguei a lata antes que fosse confiscada pelas atendentes. Vi que ainda tinha um pouquinho do refrigerante no fundo, então esvaziei o resto no vaso da planta decorativa o lado da mesa. Voltei para minha mesa feliz, balançando no ar minha latinha. “Consegui!!”, disse eu, contente pela minha conquista.

Dois minutos depois de retornar à conversa com meus amigos vejo o cidadão voltar à mesa, ainda secando as mãos nos lados da roupa. Sim, ele somente havia saído para ir ao toilette. Olhou demoradamente para sua mesa e se deu conta da falta do seu refrigerante, que a estas alturas já estava guardado na bolsa que Zeza levava. Olhou para as atendentes, que apenas deram de ombros. Enquanto isso escutamos o chamado para o nosso voo, o que foi providencial, pois mais alguns minutos daquele constrangimento e haveria um grave entrave diplomático.

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Homens

Nunca vou esquecer o dia que fui assistir um filme e a pessoa que estava comigo começou a elogiar o ator principal da trama – um famoso galã de Hollywood – de uma maneira completamente diferente daquela que eu me acostumei a ouvir por anos a fio. Exaltava as suas qualidades masculinas, sua força, seus traços másculos, elogiava seus braços e pernas, seu sorriso dolorido, sua ternura positiva, sua imposição, seu destemor, sua coragem, sua nobreza e sua especial devoção à mulher que amava. “Queria eu ser esta mulher, para ter um homem desses ao meu lado”, me disse.

Nunca havia escutado tantos elogios a um homem e tanto encantamento com suas qualidades, sem retirar dele o fato de ser homem, sem dizer que ele era “feminino” por expressar seu afeto, sem querer transformá-lo em uma versão masculina domesticada. Pelo contrário: o admirava exatamente por ser homem e deixar claro o quanto isso pode ser verdadeiramente bonito e fascinante.

Passei muitos anos da minha vida envolvido em um universo de ataques aos homens e ao masculino, a ponto de que aquelas palavras produziram um choque estético, uma surpresa, um espanto pela devoção tamanha ao que os homens representam na cultura e na vida de todos. A descrição que ouvi dos valores de um homem naquela noite eu nunca esquecerei. Depois de décadas de críticas – muitas delas justas – descrevendo-os como estúpidos, grosseiros, malévolos e ignorantes, as palavras que escutei abriram uma porta de admiração há muito trancada.

O filme era “Nasce uma Estrela”, o ano 2019 e o ator Bradley Cooper. Ao meu amigo gay que assistiu este filme ao meu lado agradeço a oportunidade de escutar sua particular perspectiva sobre os homens, e o quanto ela significou para mim. 

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Ossos de farinha…

Há alguns anos atendi uma dentista, professora da UFRGS, que estudava a degeneração óssea em mandíbulas causada por medicamentos para “reposição de cálcio”, uma das modas médicas surgidas nos primeiros anos desse século e que, assim como a “terapia de reposição hormonal”, teve seu ciclo completo, da ascensão à queda. “Medical fads”, como devem ser chamadas. Foi a primeira vez que ouvi alguém criticando de forma contundente estas terapias, o que me ajudou a me afastar delas de forma definitiva.

Por outro lado era claro seu sofrimento com a pressão sofrida pela BigPharma e pelos seus pares, que apostavam suas fichas nessa perspectiva aditiva. Para quem cultiva olhos de ver e ouvidos de ouvir não era muito difícil perceber o quanto havia de interesses da indústria em transformar mulheres normais em “osteopênicas“, bombas ambulantes que a qualquer momento poderiam ter seus ossos transformados em farinha, caso não usassem a droga salvadora, o elixir mágico produzido pela tecnologia redentora. E ai de quem questionasse sua efetividade!!! Herege, traidor, arcaico, anti-ciência… 

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Tempo…

Quando eu tinha a idade do meu neto – 10 anos – eu sonhava em ter 14 anos, poder fazer coisas que os garotos maiores podiam fazer, como ir até o centro sozinho, ir nas festas, jogar futebol com os mais velhos, ir para o ginásio. Depois que o Brasil venceu a Copa de 70 eu pensei que a próxima levaria uma eternidade; dos 10 aos 14 o tempo passa muito devagar.

Hoje eu vejo meus netos crescendo a uma velocidade estonteante. Basta uma semana para notar as diferenças marcantes no rosto, na estatura, na linguagem, nas manhas e malandragens. E tudo que eu peço é que, mais uma vez, essa mudança e esse tempo sejam lentos, para que ainda possa aproveitar cada minuto dessa passagem

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Nome

A moça das entregas me chama no portão da Comuna com um pacote na mão. Pergunta por “Richard”. Eu respondo que não há ninguém aqui com esse nome. Ela aperta os olhos, aproxima o pacote do rosto e diz:

– Richard Herbert Jones?

– O nome é “Ricardo”, respondo.

Ela aperta os olhos mais uma vez e confirma o nome na etiqueta do pacote.

– Ah, “Ricardo”. Hummmm, mas não fica bem…

Entrega o pacote e sai sem dizer mais nada. 

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Livro

Pode ser uma ilustração de 2 pessoas e área interna

Minha irmã ficou usando o computador do meu pai no tempo em que ele esteve doente no hospital, em especial porque nele estavam os programas do banco para gerenciar seu dinheiro. Depois da morte dele o computador acabou ficando para mim, e é nele que eu passo os dias escrevendo. Não troquei nada na sua aparência ou configuração, apesar de adorar formatar computadores. Quem já trabalhou num computador recém formatado conhece a maravilhosa sensação, como de um banho recém tomado depois de jogar bola na chuva. Tudo fica mais rápido, mais simples, mais otimizado; tudo é limpo e claro.

Mas não fiz isso com o PC do meu pai. Nesse caso decidi manter as coisas dele intactas, em especial o “wallpaper”, uma obra sua baseada em um famoso quadro de Norman Rockwell – desenhista do “American way of life” que ele adorava, em especial pelas expressões dos personagens. Ontem, ao procurar fotos antigas no computador, esbarrei numa pasta “artigos”, que julgava serem coisas que eu mesmo havia escrito. Cliquei e para minha surpresa estava ali escondido o que, para mim, é um raro tesouro.

O livro jamais publicado que ele escreveu.

O título é chamativo: “Reflexões de um Espírita Laico”, o que tem muito a ver com as “Memórias de um Homem de Vidro”, livro que humildemente escrevi há quase 20 anos, provavelmente porque, como ele, queria deixar reflexões sobre minha breve passagem pela Terra. Neste livro meu pai busca as origens do pensamento espírita e estabelece o corte epistemológico do espiritismo laico, modelo filosófico e científico dedicado ao estudo da sobrevivência do princípio espiritual desvinculado das amarras moralistas da religião, em especial o sincretismo espírita-cristão como se observa no Brasil. Muitas das crônicas foram publicadas em periódicos e livros, a pedido dos editores, mas ele se negou a formatá-lo em forma de livro. Por certo que tinha medo da sensação de não gostar de algo que não poderia fazer retoques e modificar.

Apesar de ter se negado a transformar suas ideias em livro, creio que esta decisão não mais lhe pertence. Digo isso porque acredito que as ideias dos homens pertencem ao mundo – aliás, uma frase que ele cansava de me repetir. Caso fossem descobertas agora obras de Heráclito, de Heródoto de Aristóteles e de Parmênides nos escombros da Biblioteca de Alexandria com uma nota na capa escrito em grego “Não Publicar” (“δεν δημοσιεύεται” ou “den dimosiévetai”) e com a assinatura do autor, seria lícito aceitar suas exigências? Seria justo privar os leitores das ideias destes homens por um capricho humano seu? Ou, como meu pai sempre dizia, seus pensamentos pertencem ao mundo? O livro que ele escreveu é uma coletânea de reflexões sobre o espiritismo para o século XXI, muitas delas já publicadas no jornal do CEPA. Portanto, não faz sentido impedir que sejam agrupadas em formato de livro.

Minha reclamação para ele durante anos foi de que suas ideias – inovadoras e desafiantes – no campo do espiritismo jamais foram devidamente publicadas. “Não gosto de escrever, prefiro falar”, dizia ele. A verdade é que as palavras ficam registradas e são, por definição, incompletas na tarefa de cobrir a infinitude das descrições do mundo. Era para ele torturante a simples criação de uma frase, pois seria sempre possível ajustá-la, torná-la melhor, mais abrangente, mais enxuta, mais clara. Mas, inobstante o incômodo pelo perfeccionismo virginiano que sempre o caracterizou, ele escreveu. Ler estes artigos agora, alguns anos após sua morte, é como escutar suas palavras na sala de casa, com sua voz suave e seu jeito meigo de conversar.

Espero conseguir publicar este livro em breve. Acho que devo isso ao velho.

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Voltar pra casa…

Subitamente “Manhã de Carnaval” é interrompida com dois (talvez três) estampidos secos, que cortaram a harmonia do nosso canto, cruzando o vazio escuro da noite, interrompendo nossos glissandos e deixando o silêncio como rastro. Por alguns segundos o acompanhamento ficou sem a melodia a lhe guiar.

– Um escapamento de moto, disse Claiton, que acabara de afirmar a “beleza da manhã” nas palavras de Luiz Bonfá.

Mantivemos o silêncio por mais alguns instantes, para ver se haveria mais surpresas, mas por ora a noite não tinha mais nada a nos declarar. Mudamos de assunto, cantamos “Canto em qualquer canto”, sorvemos o último gole de cerveja e raspamos o prato de bolo que Lúcio nos trouxe. O ensaio do “DaBocaPraFora” se encerrava, e combinamos nos encontrar em dois dias para cantar no Instituto de Artes.

Depois das despedidas na casa de Luciane coube a mim, mais uma vez, a agradável tarefa de levar Gica e Elba para suas casas. Entramos no carro e imediatamente selecionamos a trilha sonora de nossa curta trajetória. “Almondegas” seria o prato da noite, em preparativos para o show de reencontro do grupo que ocorreria em duas semanas.

Foram necessários apenas 50 metros em nosso caminho para que as coisas, por fim, fizessem sentido. Uma viatura da polícia bloqueava nossa passagem. Alguns metros adiante um corpo jazia no asfalto duro da noite quente.

– Eram tiros, dissemos, quase ao mesmo tempo, como se a ficha caísse em uníssono.

– Vou ter que dar a volta, disse, enquanto a crueza da cena era digerida por todos e o carro desviava da tragédia.

Depois de alguns momentos Gica nos disse, com uma voz pesada e séria:

– Alguém não vai voltar para casa esta noite.

Ficamos em silêncio por alguns momentos. Ela continuou,

– Sabe, não importa o que houve, se era uma boa pessoa ou se era um criminoso. Não sabemos se a vítima era jovem ou idosa. Por pior que fosse, esta pessoa tinha família, irmãos, pais talvez. Foi pequeno, criança, brincou na chuva como todos nós; teve sonhos e alegrias. Mas hoje não vai voltar para casa.

Mantivemos nosso silêncio de reverência. No carro havia um pai, duas mães e três avós. Todos nós temos ideia do que seja o vazio de um filho que não volta, de uma espera angustiante e o som metálico e tenebroso de um telefonema trazendo a pior das notícias. Todos entendemos a tristeza de perder, pois por certo já amamos o suficiente para entender o quanto pode doer a falta de alguém.

Seguimos nosso caminho de volta para casa, para os nossos amores, escutando nossa música, lembrando dos filhos e netos e com nossa mente conectada a alguém que, esta noite, não vai voltar para casa.

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Aos (colegas) velhos

Garotos e garotas, eu entendo o humor e creio mesmo que ele é sempre sagrado. Entendo a necessidade de fazer troça com tudo que ocorre ao redor: a pouca idade demanda. Peço apenas que contenham o “furor postandis” que as leva a expor compulsivamente nas redes sociais todas as gracinhas e piadas que porventura passem por suas cabeças. Entendam: elas não tem graça para quem escuta fora do contexto e, pior ainda, podem gerar muita dor de cabeça e constrangimento. Antes de publicar qualquer coisa usem a mesma lógica de segurança das estradas, “Na dúvida, não publique”.

E sobre os velhos na escola, eu mesmo tive um colega de faculdade, o saudoso Ernestino, que se formou em Medicina com 63 anos de idade. Nós, seus colegas de escola, tínhamos menos idade do que os seus próprios filhos. Pode parecer bem estranho, e certamente será mais difícil se “enturmar” com os coroas, quando mais de uma geração se interpõem entre nós. Entretanto, ter um colega (bem) mais velho tem inúmeras vantagens, entre elas a possibilidade de receber conselhos de vida de alguém que já casou, teve filhos, ganhou e perdeu na vida, sofreu e se divertiu. E também é valioso para adquirir um pouco de cultura geral.

Certa vez, no bandejão do Hospital de Clínicas, eu conversava durante o almoço com Ernestino, que era meu colega no estágio. No meio da conversa surgiu o assunto de um trabalho que nosso grupo faria em conjunto. Combinei de entregar minha parte, já feita, na sua casa, e por isso perguntei o endereço.

– Moro aqui do outro lado da Avenida Protásio Alves, na Rua Giordano Bruno, conhece?

Respondi que não conhecia… a rua, ao que ele respondeu:

– Cara, como não conhecer Giordano Bruno? Giordano Bruno nasceu no século XVI, na Itália. Foi um dos pioneiros do heliocentrismo e suas ideias estavam em sintonia com os postulados de Copérnico. Como frade dominicano foi perseguido por questionar dogmas da Igreja e até mesmo propor a existência de vida em outros planetas. Por suas crenças foi julgado e condenado. Uma semana antes de sua execução foi oferecido a ele renegar suas crenças e ser perdoado. Rejeitou a oferta e foi por isso queimado vivo na fogueira pela inquisição.

– Ahhh, claro. Giordano Bruno, sem dúvida. Mas onde fica mesmo?

Agradeço aos colegas mais velhos e experientes que nos ajudam na árdua tarefa de crescer e de diminuir o imenso fardo de ignorância que teimamos em carregar. 

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Verdades escondidas

Certa feita eu caminhava pelos corredores do hospital quando fui interrompido por uma funcionária do setor de contas, a quem eu já conhecia faz tempo. Ela me disse:

– Dr. seria pedir muito o senhor olhar esse exame para mim?

Como estava “de boas” apenas esperando para tomar meu cafezinho pós almoço, aceitei. Segurei com as mãos as duas folhas que ela me passou.

Eram exames de urina clássicos. Um exame comum de urina (que muitos chamam de “EQU” e outros “urina 1”) e uma urocultura. O primeiro faz uma análise química e celular da amostra e o segundo uma análise do crescimento de bactérias, onde normalmente se acrescenta um teste de sensibilidade aos antibióticos. Olhei rapidamente os exames e vi que demonstravam de forma inequívoca uma infecção urinária. Leucócitos em profusão, bactérias, etc. A cultura de urina mostrava scherichia coli (a top de linha das infecções urinárias) e a sensibilidade de alguns antibióticos comuns.

– Doutor, eu já sei. Estou com infecção. Desses aqui assinalados, qual o senhor acha melhor?

Havia círculos ao redor dos antibióticos sensíveis. Olhei para todos eles e disse:

– Esse aqui é o mais barato, é tão efetivo quanto os outros, mas seu médico deve conversar com você sobre a melhor escolha.

Ela me dirigiu um sorriso um pouco envergonhado e disse:

– Doutor, eu já tive cistite mais de dez vezes. Sei o que acontece. Sei também o que o médico vai fazer quando segurar os exames. Ele vai olhar para o resultado do antibiograma e receitar o mesmo remédio que está escrito na caneta dele. Vai pedir que eu tome uma semana e repita os exames em 15 dias. Eu decorei passo a passo o que ocorre na consulta. Não há como ser diferente.

Tentei argumentar que sempre é bom conversar sobre alternativas de tratamento e as possíveis causas. Insisti que ela fosse ao seu médico.

– Não vou doutor, muito trabalho. Não tenho convênio, só seria possível ir no posto de saúde. Esses exames fiz aqui no hospital porque conheço as gurias do laboratório. Nunca alguém me disse qualquer coisa diferente do que eu lhe relatei.

Não há como negar que a biomedicina tecnocrática pouco tem a oferecer além do que ela sempre recebeu. Reconhecer as alterações químicas da urina, a bactéria envolvida no processo e propor sua posterior eliminação com recursos farmacológicos. “Tchau, até a próxima”.

Nenhuma pergunta sobre as razões últimas que a levam a insistir em um sintoma da sua genitalidade. Sequer a curiosidade para saber o que existe por trás do véu dos sintomas, ou como essa ocorrência repetitiva se encaixa na narrativa afetiva de sua vida. Nenhuma tentativa de contextualizar suas dores e seu sofrimento renitente. Nenhum questionamento sobre sua história, onde alguém, de forma insistente e reiterada, bate à sua porta para lhe dizer uma verdade escondida e inconveniente. “O que a boca cala, o corpo fala”, mas quem aceita escutar as palavras do corpo se as drogas são muito mais efetivas para lhes silenciar? Talvez seja verdade que a Tecnologia diagnóstica e indústria farmacêutica são o ChatGPT da Medicina.

Mesmo sem confessar, não havia como negar que, diante do cenário dos seus atendimentos até então, ela havia feito a melhor escolha. Insisti mais uma vez para ela procurar seu médico “nem que seja para conversar”, e ela agradeceu.

Retomei meu rumo em direção à cafeteria e ouvi, pela última vez, sua voz me chamando enquanto me afastava.

– Ei doutor, sem querer abusar, mas… por acaso está com seu receituário aí?

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