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Ressentimentos antigos

Há uns 25 anos organizei um seminário em Porto Alegre para homenagear uma instituição na qual eu era diretor e que estava completando 55 anos. A homenagem se estendia também ao seu fundador, falecido há algumas décadas. Fizemos vários painéis e convidamos alguns palestrantes da área de atuação do ambulatório para falar das múltiplas características do nosso atendimento.

Resolvemos convidar também um colega do fundador que ainda estava vivo, um velho farmacêutico que trabalhou com ele nos anos 50-60. Eu, particularmente, achei que seria uma ótima oportunidade de escutar alguém falando de uma personalidade que havia morrido antes mesmo de termos nascido, mas que havia criado com imenso sacrifício a instituição que nos abrigava.

Dizem as más línguas que o terreno onde a instituição ficava havia sido comprado com dinheiro ganho por este personagem em uma mesa de cartas, mas aí a lenda se confunde com a história.

Deixamos a palestra do velhinho para o encerramento do seminário. Não consegui esquecer suas palavras, mesmo com tantas décadas já passadas. Convidamos ele para compor a mesa e apresentamos sua história de vida. Depois solicitamos que nos falasse da sua relação com o nosso homenageado, o fundador da instituição, e do convívio que tiveram. Ele olhou a plateia, estalou os lábios e disse.

– Muitos anos já se passaram desde que convivemos nesta casa. Entretanto não poderei jamais esquecer seu temperamento irascível, seu caráter rabugento, sua falta de escrúpulos e sua má índole. Eu não tenho nenhuma boa palavra para dizer sobre ele. Em verdade preferia tê-lo esquecido por completo, pois nenhuma lembrança boa parece surgir em minha memória.

A coordenadora da mesa tentou tergiversar, mudar de assunto, mas o constrangimento foi inevitável. Agradeci sua presença e ainda lhe entreguei uma placa comemorativa.

O fato de serem contemporâneos e terem atuado na mesma área não deveria nos fazer supor que eram amigos. No caso, eram desafetos de muitos anos mas não nos ocorreu que isso fosse possível.

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Honorários

Minha singela opinião sobre honorários, espero que entendam…

Durante mais de 20 anos a minha rotina era dar cursos, palestras, entrevistas e participar de congressos em várias partes do Brasil e do exterior. Meus fins de semana eram cheios de convites de várias localidades que desejavam debater o “Evangelho da Humanização do Nascimento”. No início estas atividades eram por puro diletantismo; fazia porque me dava prazer e porque me ajudavam a levar adiante meu ideário. Quase nunca cobrava pelas palestras, entrevistas e seminários.

Houve evento em que, durante uma palestra (para a qual não ganharia honorários) em uma cidade do interior do meu estado, uma jovem na plateia veio me informar que um famoso mestre estava na cidade realizando um workshop de um tema que guardava semelhanças com o meu, e ele desejava me convidar para inserir uma palestra minha no seu curso. Aceitei, por certo, e lá fui eu dar uma aula no curso dele. O sujeito era o Leonard Orr, recentemente falecido, criador da técnica de “Renascimento”.

Depois da minha palestra – para um grupo de 50 pessoas que estavam fazendo seu curso de imersão – o mestre me convidou para almoçar, quando então pudemos trocar umas ideias e jogar conversa fora. Logo depois de nos despedirmos sua secretária se aproximou de mim e me perguntou sobre os meus honorários.

Pego de surpresa, disse que não cobraria nada, afinal estava na cidade para outra atividade, que era um prazer ajudar, que esta tinha sido uma semente plantada para as ideias de humanização, etc. Ela sorriu e agradeceu. Poucas horas depois, conversando com uma aluna do curso do Leonard fiquei sabendo que aquela imersão de 4 dias havia custado 5 mil reais de cada aluno. Fiquei com cara de tolo pensando que não seria errado cobrar alguma coisa pelo meu trabalho. Mas percebi que o erro havia sido meu…

Entretanto, acho que é importante se fazer uma distinção e “desmoralizar” a questão. Isto é: o pagamento – ou não – do trabalho do palestrante não é uma questão moral, mas uma questão de “costume”, portanto, algo inserido na cultura. A partir de um determinado momento (acho que esse evento foi determinante) eu passei a cobrar pelas palestras e cursos, e avisava desde o primeiro telefonema na hora em que era feito o convite. Sequer perguntava se havia “previsão de honorários”; eu apenas avisava do quanto custava a minha palestra. Se eu sentisse qualquer titubeio eu explicava que para me deslocar para outra parte do país eu precisava ser ressarcido. Mostrava o quanto essa é uma tarefa custosa, difícil e que demanda uma boa parcela de sacrifício.

No pequeno mundo de partos e nascimentos por onde eu circulava as pessoas até já sabiam de antemão os meus honorários, porque isso é uma informação que corria fácil entre os ativistas. Nunca recebi qualquer reclamação por cobrar, mas reconheço até que posso ter deixado de receber convites porque sabiam do pagamento. Por outro lado, jamais cobrei para dar uma entrevista, para ir à TV ou para ir num programa de rádio. Mas por quê? Ora… porque é o costume. Quase ninguém que eu conheço – nem reais artistas de cinema – fazem isso, apesar de ser algo tão custoso quanto dar uma palestra.

As pessoas convidam sem ter noção do valor do profissional. Não oferecer pagamento não me parece desprezo pelo trabalho, mas NÃO COBRAR pelo que se faz com denodo e paixão, sim. Se você reconhece o quinhão de esforço pessoal na preparação e na execução do seu trabalho você estará falhando ao não precificá-lo. Portanto, aqueles que solicitam seu trabalho só vão saber do valor que ele tem se você demonstrar, deixar explícito, se disser o quanto custa e puder cobrar aquilo que é ganho com honra (honorário) de cabeça erguida.

Portanto, quando aquele que convida não aborda a questão do pagamento pode não se tratar de uma “falta de educação”, vindo de pessoas que “abusam” do nosso ofício, mas pode ser apenas uma questão de cultura local. Entretanto, cabe sempre ao palestrante estabelecer regras e limites sobre o seu próprio trabalho. Minha experiência diz que as pessoas normais (excluo os perversos) não se ofendem com o preço que você determina, mas passam a lhe tratar de uma maneira diferente, talvez até mais respeitosa. Assim, acredito que o valor que nos pagam está na exata proporção do quanto demonstramos respeitar o nosso ofício.

Espero ter ajudado…

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As Fases da Lua

Certa feita estava em um evento social (isso soa quase como uma piada para um ermitão como eu) quando escutei uma voz conhecida me chamando alguns metros atrás de mim. Eu de imediato reconheci o timbre da voz, mas logo percebi que se tratava de alguém de um passado muito distante:

– Então Ric, as fases da lua realmente influenciam no parto?

Olhei para o lado e encontrei um colega de residência. Por alguns segundo fiquei tentando imaginar a razão de me fazer esta pergunta após algumas décadas sem nos vermos. Por que me perguntar da lua? Durante algumas frações de segundos eu busquei nos arquivos empoeirados da minha memória até conectar os pontos. A explicação para esta bizarra conexão me oportunizou refletir sobre padrões que utilizamos para valorar circunstâncias e personagens.

Durante a residência por diversas vezes eu fui confrontado com algumas informações a respeito do “gatilho do parto”, ou seja, quais os elementos internos e externos envolvidos na início do trabalho de parto. Hoje sabemos que o processo está relacionado à maturidade fetal, que é quem inicia este processo. Todavia, há mais de 3 décadas atrás, muito se discutia sobre fatores ambientais e circunstanciais – inclusive por aqueles que trabalhavam em maternidades – e era comum escutar que as fases da lua tinham um papel no desencadeamento de eventos que culminariam no nascimento de um bebê. Alguns colegas de outras especialidades me falavam que a lua, por sua gravidade, era capaz de mover extensas massas de água, no fenômeno conhecido como “marés”. Ora, se o ser humano é composto de 70% de água é natural imaginar que esta mesma água seria, de alguma forma, modulada pela força atrativa da lua. Lógico, não?

Essa pode ser até uma boa ideia, ou apenas mais uma fantasia colocada no catálogo interminável de crenças aplicadas sobre o evento do nascimento humano. Quando as pessoas me diziam sobre a experiência que tiveram com o plantão lotado em um dia de lua cheia eu perguntava se elas lembravam da luz cheia anterior, se também havia sido movimentado. A resposta era negativa, e eu argumentava que deveria se tratar apenas de “viés de confirmação” – a tendência de recordar, interpretar ou pesquisar por informações de maneira a confirmar crenças ou hipóteses iniciais – e não de uma correlação verdadeira entre eventos. Eu, particularmente, não acreditava nessa coincidência, mas também sabia que só poderia haver uma forma de comprovar seu acerto ou erro.

Sim, a aplicação de um método.

Desta forma resolvi analisar todos os partos do hospital escola ocorridos no ano anterior. Capturei as folhas da enfermagem do centro obstétrico e comecei a analisar os dados. O que primeiro me chamou a atenção foi o número enorme de internações fora do trabalho de parto, por indicações médicas variadas, além do uso de oxitocina, que poderia fazer um parto ocorrer antes do que estava programado para acontecer. Enquanto eu me ocupava com a elaboração de uma hipótese houve um encontro de residentes no hospital, e na oportunidade fui convidado a mostrar minha proposta de pesquisa. Afinal, muitos colegas ficaram vivamente entusiasmados em saber se, afinal, é verdade ou não esta suposta influência da lua sobre os nascimentos.

No dia da minha fala mostrei apenas alguns dados preliminares e expliquei que seria necessária uma depuração para que fosse possível ver a ação natural da lua sobre os eventos do parto. Porém, foi durante a breve apresentação que me dei conta da inutilidade da minha pesquisa solitária. Já naquela época eu estava me divorciando definitivamente da ideia do “parto natural”, um termo que desde então passei a combater. Não existe nada de “natural” no parto, se esta palavra for usada como contraposição às perspectivas culturais, portanto artificiais, e que não dizem respeito à pura ação biológica sobre o processo de expulsão fetal do claustro materno.

Para avaliar a influência da lua sobre os partos seria necessário realizar o isolamento das milhares de outras condicionantes socio-culturais-contextuais que agem sobre o parto, uma tarefa que eu percebi ser completamente impossível e inviável. Talvez há alguns séculos, em uma tribo de indígenas autóctones da Amazônia, seria possível retirar muitos destes condicionantes, mas nem assim seria o suficiente para retirar deles a linguagem – e como diria Lacan “a palavra matou o real”. O parto natural está restrito aos outros mamíferos, e mesmo para eles apenas quando estiverem em segurança, distantes do nosso olhar. A par deste meu desencanto, a influência da lua sobre partos acabou sendo desmentida por diversos estudos, e hoje resta pouca dúvida sobre a questão.

Eu me dei conta muito cedo que o real do corpo é inacessível para um universo simbólico, onde variáveis infinitas agem sobre o pensamento, e este sobre o corpo e suas funções. O desencadeamento de um parto pode até ocorrer pela lua mas é muito mais provável que hoje em dia seja mais condicionado pelo humor e pelas crenças do médico do que por qualquer alteração hormonal. Por esta razão a pesquisa logo se tornou absolutamente desinteressante, até porque a minha visão a partir de então estaria totalmente direcionada para as questões relacionadas ao protagonismo feminino no evento, o que consumiu praticamente toda a minha vida profissional. As influências da lua ficaram como uma curiosidade passageira da época do final da residência.

Entretanto, e aqui o ponto que eu achei interessante, a imagem do “jovem médico místico” preocupado com a influência das fases da lua ficou gravado na memória do meu colega, como se aquela imagem pudesse traduzir minha personalidade e os meus interesses. Nada poderia estar mais longe da verdade, como o resto da minha vida pode comprovar. Todavia, fiquei igualmente impactado ao me dar conta de que este tipo de comportamento é extremamente utilizado por todo mundo – inclusive por mim.

Comecei a lembrar de pessoas pelas quais tenho uma profunda antipatia por coisas feitas ou ditas em um passado distante e percebi que muitas vezes (quase todas) essa má impressão está ligada a pequenas coisas, posições que o sujeito teve no passado, e que podem estar completamente distantes de sua realidade atual. É possível que tenham abandonado por completo suas posturas, suas ideias, suas perspectivas de mundo e tenham se tornado bastante diferentes. Como a menina na praia de Copacabana que deu uma declaração preconceituosa e até racista para a extinta TV Manchete, mas que refez sua vida, estudou filosofia e hoje diz ter “horror de gente que pensa como ela pensava”.

Pessoas mudam, pessoas crescem, se modificam. Pessoas evoluem… o que era algo valioso no passado pode se tornar desinteressante em muito pouco tempo. Paixões se dissipam no ar sob a ação do sol, novos amores surgem, assim como novos interesses brotam da experiência cotidiana. É possível que, dentro de um tempo variável, todos sejamos compelidos a mudar o nosso foco, nossa visão da realidade, fazendo o interessante virar frugal, e o banal essencial.

Minha maior fantasia é ter um encontro com Jesus depois de morrer. Imagino encontrá-lo no plano espiritual, e, passado o susto por vê-lo, nossa conversa seria assim:

– Fala Nazareno!!! Feliz de te encontrar!! Meu, que honra…

– Obrigado, mas ninguém me chama mais de Nazareno há alguns séculos. Aqui acabei me dedicando a outras coisas, meu foco de atenção está em outros projetos. Nada contra aquela minha fase, que foi até bem legal. Fiz vários amigos e curti muito. Converso muito com os apóstolos ainda. Pedro, por exemplo, quando vem para cá sempre fica na minha casa, né Madalena?

Olho para o lado e Madalena concorda com um sorriso e um meneio de cabeça, enquanto passa um pano nos móveis da sala. Volto o olhar para o Messias e o vejo carregando com certa dificuldade uma sacola marrom.

– O que tem na sacola, Mestre? Precisa de ajuda?

– Ahh, tudo bem. Faz parte do treinamento. São meus halteres.

– Halteres?

– Sim, nos dois últimos séculos tenho me dedicado ao fisiculturismo. Percebi que este é um caminho muito mais interessante. Se eu estivesse bem fisicamente teria sido muito mais difícil para os romanos me pegarem. Essa é a minha paixão por ora…

Ok, uma fantasia, mas creio que manter-se com a fotografia estática de qualquer um – para o bem e para o mal – diminui a imensa adaptabilidade humana para encontrar novos caminhos, novas paixões e projetos.

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Mães

Certa vez uma senhora, paciente de muitos anos, trouxe a sua filha adolescente para consultar comigo, mas pediu para entrar primeiro e dizer “umas palavrinhas” antes da consulta da garota. Ela então disse que achava que o namoro da filha com um rapaz da escola estava ficando muito “quente” e que seria bom ela tomar anticoncepcionais antes de ter relações, para evitar alguma “tragédia”.

O senhor sabe como é na idade dela…. eles são tão novinhos.

Perguntei se a filha já estava tendo relações ao que a mãe falou: “Não, ainda não. Se ela estivesse tendo eu saberia. Confio na minha filha; ela conta tudo para mim. Somos grandes amigas”.

Fiquei em silêncio e avisei a secretária para deixar a menina entrar e solicitei que a mãe aguardasse na recepção. A mãe saiu e quando cruzou com a filha no hall que leva à recepção porta elas se abraçaram afetuosamente.

A menina entrou e sorriu. Perguntei a ela se achava que deveria se preocupar com anticoncepção e ela respondeu afirmativamente. Questionei se ela já estava tendo relações sexuais ou era um plano para o futuro. Ela respondeu sem titubear:

– Ahh, não doutor. Tenho relações há dois anos, mas agora estou namorando firme. Mas, é claro, a minha mãe não sabe dessa história toda.

Deixou cair sobre o rosto um sorriso maroto. Eu, cá com meus botões, pensei “Jesus seja louvado”.

Quer saber o que me deixava em pânico no consultório? Quando uma mulher madura, mãe de adolescente, me dizia: “Não tenho segredos com a minha filha. Ela me conta tudo; sou sua melhor amiga. Nunca houve mentiras entre nós”.

Eu, silenciosamente, pensava: “Como você permitiu que sua filha perdesse a preciosidade de uma mãe para ganhar a banalidade de uma amiga??” Como diria o sujeito aquele que foi buscar duas garrafas de Coca Cola na geladeira, “mãe só tem uma”, já os amigos a gente cria, se desfaz, reconquista, troca, esquece ou mantém com fervor. São instâncias de afeto completamente distintas, com pesos diferentes na constituição sujeito.

Assisti faz tempo a uma famosa entrevista onde uma repórter pergunta para Madonna, no auge de sua fama, se haveria alguma coisa pela qual ela trocaria todo o dinheiro e reconhecimento que havia alcançado nos últimos anos. Sem trocar o sorriso do rosto a cantora exclamou, sem titubear: “Uma mãe”. Madonna perdeu sua mãe muito cedo vítima de um câncer.

Mas, para além disso, como exigir que uma adolescente tenha seus segredos, paixões, desejos e fantasias expostos ao julgamento da mãe? E, pior ainda, como expor os jovens aos dramas e às dificuldades da vida adulta, em especial os dilemas da vida sexual e amorosa dos pais? Poucas coisas são mais cruéis do que essa promiscuidade afetiva. A “amizade” entre mãe e filha me parece sempre um sintoma materno produzido pelas dificuldades de ver os filhos indo embora. A amizade lhes ofereceria uma ilusória proteção diante dos seus dramas pessoais; agarram-se aos filhos abrindo mão até da maternidade, pelo amparo de que tanto necessitam.

Lembro bem do orgulho que senti quando, caminhando pela rua com meus filhos pré-adolescentes, eu lhes disse: “Sentiram esse cheiro? Isso é maconha”. Eles se entreolharam e deram gargalhadas, deixando-me com cara de bobo, por imaginar que estivesse lhes contando uma novidade. Ali percebi que havia para eles um universo que era para mim interditado, próprio, privado e que eles jamais haviam me contado. Ao lado da tristeza de perdê-los tive o vislumbre de que a vida madura se expressa por esses “fracassos”, distanciamentos que se impõem, permitindo assim que as subjetividades prevaleçam.

Há muitos anos eu estava de plantão no hospital quando chegou uma senhora carregando um bebê e gritando desesperadamente pelos corredores. Ajudei a colocar a criança sobre uma cama e me surpreendi com o fato de que não era um bebê, mas um jovem de 19 anos (soube depois) com o tamanho de um bebê e com o corpo totalmente atrofiado por uma doença congênita. O jovem sucumbiu por uma pneumonia devastadora em minutos e tivemos apenas tempo de vê-lo expirar diante de nós; nenhuma ação teve efeito diante do quadro gravíssimo no qual chegou. Depois de comunicado o óbito, a mãe entrou em desespero e passou a atacar a equipe do hospital, sendo contida pelo marido que pedia que se acalmasse.

Passados alguns minutos, e mais tranquila, ela se desculpou e veio me dizer que aquele filho significava tudo na sua vida, toda sua atenção e devoção desde que nasceu. Ele demandava cuidados diários intensivos e até estafantes para ela. “Ele inclusive dormia comigo na cama, ao meu lado”, disse ela.

Naquele exato momento me dei conta das razões recônditas do desespero, que extrapolavam em muito a perda de um filho querido. Sem seu filho amado a lhe servir de escudo, como enfrentar agora os dilemas de sua vida afetiva e seu envelhecimento inexorável? Como encarar a vida a dois sem seu “bebê” a lhe garantir o amparo afetivo? Sem sua presença, como enfrentar as demandas que, por certo, haveriam de ocorrer?

A maternidade, pelo seu poder e seu significado na perspectiva da espécie humana, tem o poder mítico de produzir tanto as luzes mais fulgurantes quanto as trevas mais obscuras.

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Medicina e arte

Hoje ouvi um relato que se repetiu durante 40 anos de escuta de histórias de pacientes e seus médicos. A história de hoje também é triste e envolve diagnósticos desagradáveis. Uma moça vai ao médico do convênio com um sangramento no inicio da gravidez conjugado com um pouco de cólica. O médico faz um exame, constata um colo uterino fechado e pede uma ecografia. Algumas horas depois ela volta e traz o exame que mostra um hematoma atrás da placenta e um cisto no ovário. Por ser uma gestação muito inicial o bebê não foi visto.

O médico então explica que o esse sangramento pode ser um início de aborto espontâneo, que o hematoma pode crescer ou estacionar e que o cisto não é nada, pois é normal na gravidez. Diz isso em uma única frase. Olha para o papel à sua frente e pede para ela voltar em duas semanas para ver se a gestação “vingou ou não”. Levanta-se e lhe indica a porta de saída. Ela sai da consulta furiosa. “Como assim, vingar a gestação? Isso é forma de se referir a uma gravidez, um bebê… o meu filho? Ele poderia ter sido delicado, explicado com gentileza e cuidado. Esse médico é um carniceiro, desumano, animal,…”

É importante lembrar que ela teve uma perda há poucos meses e temia que fosse a mesma história se repetindo. Estava angustiada, sensível, amedrontada. As palavras do médico caíram como uma bigorna em seus ouvidos. Chegou em cada chorando, amaldiçoou o médico e suas próximas três gerações. Só então me ligou. Ela contou toda a história mais uma vez. Mandou os exames por WhatsApp e pediu minha opinião. Escutei tudo com atenção e percebi – porque a conheço bem – que a questão principal era como lidar com suas emoções afloradas. E é exatamente aqui que entra o nó da história. Tudo que eu poderia dizer objetivamente era repetir o que já havia sido dito. Não havia muito mistério neste caso do ponto de vista diagnóstico e prognóstico. Eu concordei com as palavras e as condutas propostas pelo médico do convênio. Agora eu estava na posição de repetir o que o médico anterior havia dito diante de um caso claro, mas o que poderia eu dizer?

Respirei fundo e resolvi explicar pausadamente cada detalhe do exame e o que pode ser feito. Procurei ser claro, didático, sem ser paternalista, sem dar falsas esperanças, sem mentir, sem dourar a pílula, mas sendo atencioso e realista. Ela sentiu-se aliviada e ficou de ligar para outras orientações caso achasse necessário. Percebi que ela estava mais confiante, menos angustiada e mais tranquila ao me ouvir dizer – de uma forma diferente – o mesmo que já lhe havia sido dito.

E aí fica provado que a Medicina não é uma ciência, mas uma arte. Como a pintura – uma arte que usa da química das cores para se expressar – a Medicina é uma forma de artesanato que usa as ciências biológicas para tomar corpo e aplicá-las na cura das enfermidades. Olhar para a Medicina como numa técnica é empobrecê-la, tirando-lhe o brilho e a transcendência. Porém, há que se considerar que essa conexão do médico com o paciente é uma via dupla. O paciente precisa encontrar no profissional essa conexão de transferência, o reconhecimento de um suposto saber, mas o médico precisa responder com empatia, sem a qual sua ação se torna estéril, como uma boa semente que jaz sobre a pedra fria.

Muitas vezes nossas palavras e ações são cuidadosas e delicadas, mas por mais que haja dedicação, a falta de confiança (em especial com profissionais desconhecidos, como os plantonistas) impedirá que uma conexão produtiva se estabeleça. Outras vezes, a falta de empatia do profissional poderá barrar qualquer possibilidade de cura – ou alívio – da angústia experimentada. É importante reconhecer que muitas vezes não há nada que o médico possa dizer para gerar uma resposta positiva, enquanto em outras qualquer coisa que venha a dizer – inclusive repetir o que já foi dito – será entendida como positiva.

A sabedoria para agir nestas situações é arte que se aprende em décadas, mas muitas vezes ela parece menor aos nossos olhos, tanto quanto ocorre com algumas pinturas cuja elaboração foi fruto de anos de amadurecimento artístico, mas que muitas vezes passam invisíveis à nossa percepção.

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Lembranças

A Igreja do Cebrero, no município de Pedrafita, província de Lugo na Galícia

As pacientes costumavam me contar do seu passado assim: “Bahhh, naquela época eu andava muito louca”, ou diziam “Só agora estou conseguindo sair de um período muito triste”. Entretanto, também falavam coisas do tipo “sim, aquele foi o período mais feliz da minha vida, mas eu não tinha consciência disso”.

A análise que faziam era sempre pretérita, como se a felicidade ou alegria só pudessem ser analisadas na distância garantida pelo tempo. Hoje eu penso que o futebol “das onze à meia noite” com meu filho e seus amigos eram momentos de esfuziante alegria, assim como os almoços de domingo quando meus pais eram vivos, com filhos e netos pequenos a colorir os espaço da casa deles.

Mas, quando essas coisas aconteciam, a vida real e concreta obliterava a precisa avaliação do esplendor de cada um desses momentos. O mundo que passa diante dos nossos olhos nos dificulta avaliar a real dimensão dos acontecimentos. É como postar-se diante de uma montanha que de tão alta nos impede avistar seu cume, e só quando nos afastamos é que podemos ver seu verdadeiro tamanho. Quando fiz o Caminho de Santiago com minha filha e minha sobrinha tive breves “flashes” em que eu conseguia sentir o êxtase daquela aventura, tentando apreender o gozo feliz do futuro antes que ele se tornasse memória.

Quisera guardar para sempre a emoção das crianças que tiram de cada momento a total emoção que lhe cabe. Queria voltar o tempo, sentar à mesa na casa da minha mãe e perguntar ao meu pai da vida e do mundo. Queria jogar bola com a garotada e sentir o prazer dos gols e das vitórias. Queria de novo caminhar livre pela Meseta contando os passos para chegar no Cebrero e depois em Santiago. Agora, só me resta viver cada um desses momentos na lembrança.

Mas sei que a vida é sopro e que os dias tristes e frios que se aproximam poderão se aquecer nas memórias felizes e assim afastar a inevitável tristeza destes tempos vindouros de sombra e despedida.

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Os biscoitos

Há uns 20 anos atrás eu estava tomando um espresso em uma cafeteria do segundo andar do shopping Total aqui em Happy Harbor num dia chuvoso como hoje. Subitamente vi bem à minha frente uma senhora tropeçar no degrau que dava acesso às mesas e cair de forma espalhafatosa ao chão. Eu me levantei reflexamente para ajudá-la, mas fui impedido pelo seus gritos.

– Não me toque, eu quebrei a perna. Tenho osteoporose, sei como é!!

Minha reação foi pensar: “Senhora, não foi pra tanto. Foi apenas um tombo. Não precisa fazer esse drama todo“, mas quando cheguei bem perto e pude ver a barra da calça levantada ficou fácil constatar a evidente fratura da tíbia esquerda. Senti vergonha de ter desconfiado, ainda que em pensamento, da sua percepção da seriedade da queda.

Quando me dei conta da gravidade da cena falei para as pessoas ao meu lado: “Não mexam nela, a perna está mesmo quebrada na altura da canela. Chamem o SAMU para removê-la com cuidado. Eu sou médico e ficarei aqui aguardando”.

A dona da cafeteria, esbaforida e nervosa, ligou para o SAMU imediatamente. Naquele momento me vieram à mente meus anos de pronto-socorro e lembrei dos atendimentos de mais de duas décadas passadas. Lembrei da dor produzida pelas bordas ósseas desalinhadas e resolvi ajudar fazendo uma manobra para aliviar a for.

– Senhora, me chamo Ric e sou médico. Eu posso ajudar tracionando seu pé. Vai aliviar a dor. A senhora me permite?

Ela respondeu dizendo “se passar essa dor, pode ser”. Ato contínuo, tracionei o calcanhar em direção oposta ao corpo e percebi que ela imediatamente sentiu a dor diminuir. “Obrigado moço, aliviou bastante”.

Acho que devo ter ficado mais de uma hora parado no meio da cafeteria puxando aquele calcanhar enquanto esperávamos o SAMU. Quando chegou a equipe de emergência, ela foi rapidamente transportada de maca para uma ambulância e posteriormente atendida no Pronto Socorro.

Semanas mais tarde recebi uma caixa no consultório onde havia um pote biscoitos e um bilhete. A desafortunada senhora descobrira meu endereço pelo nome completo que eu havia lhe dado. No bilhete que acompanhava os biscoitos ela escreveu que havia sido submetida a uma cirurgia e que o traumatologista do hospital elogiou minha iniciativa de tracionar o tornozelo. Em tom de brincadeira, o colega falou que, apesar do azar do tombo, foi muita sorte ter alguém com rudimentos de traumatologia por perto para dar a primeira assistência.

Os biscoitos eu lembro até hoje como os mais saborosos do universo. Eram tão bons que eu não comia mais do que um por dia e deixava o pote escondido, para durar mais tempo e não ter que dividir. Mas por certo a oportunidade fortuita de ser a pessoa certa no momento certo é a parte mais saborosa dessa memória.

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Nada

Meus avós morreram há 30 anos. Lembro ainda, mas meus filhos quase nada guardam deles. Em três décadas eles foram sendo lentamente apagados da lembrança direta de quase todos. Quando eu e meus irmãos – e alguns poucos primos – morrermos as últimas imagens de nossos avós descerão à tumba conosco. Ficarão em algum livro, numa foto em preto e branco, num registro fotográfico perdido em um sótao.

Minha avó paterna, um pouco antes de morrer com mais de 90 anos, me dizia “Eu tive oito filhos, mas queria ter doze. Sammy foi quem não quis mais”. Ela me ensinou que não se pode julgar os valores de alguém fora do contexto em que estavam inseridos. Hoje em dia suas escolhas seriam escândalo; em sua época, um reforço da sua feminidade e um sentido de propósito nobre e belo. Nunca esqueci aquela curta conversa à beira do seu leito enquanto ela me falava de suas vida e seus tesouros. Minhas avós ainda estão guardadas na minha mente, com carinho e saudade, mas sou da última geração que ainda vai carregá-las na lembrança.

Em pouco tempo eu também vou abandonar este plano terreno e bem o sei que em alguns poucos anos ninguém se lembrará de mim. Vejo meus netos pequenos e fico nutrindo a ilusão que eles se lembrarão de mim, contarão as minhas histórias, guardarão minhas piadas e caretas. Desejo avidamente que eles guardem algo de mim, mas sei que não é justo pedir isso a eles; não há como querer que eles me garantam a imortalidade. O meu destino – o nosso – é virar esse fragmento, esse pedaço ínfimo de alma que constitui cada um que segue nossos caminhos.

Falo ainda bastante dos meus pais para os meus filhos, como a dizer “guardem eles com vocês quando eu me for”, mas sei o quanto o tempo é cruel – e sábio – ao nos fazer esquecer um pouquinho dos antigos amores a cada dia que se passa. Daqui a pouco nada restará de mim. Ninguém saberá quem fui e o que fiz. Nenhuma pessoa terá a menor ideia de minha curta passagem por aqui. Serei um minúsculo ponto apagado, sem luz. Por esta razão, creio que o momento de agora é o único que temos para oferecer algum sentido à nossa vida. No fim nada ficará, nada restará por muito tempo.

Nada.

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O Tempo se contempla…

Na minha infância os relógios eram considerados acessórios chiques, objetos importantes do vestuário. Na escola havia uma aula especial para aprender a “ver as horas”. Ter um bom relógio era uma marca de distinção, talvez algo parecido com o “O Capote” de Nikolai Gógol. Ainda hoje eu tenho resquícios dessa época: guardo meus relógios velhos numa caixa, sem coragem de me desfazer deles, porém, há muitos anos não uso nenhum.

Na minha família havia uma tradição que foi inaugurada com meu irmão mais velho. Quando alguém passava no “exame de admissão” – saída do primário e entrada no ginásio – o meu pai dava para o vitorioso um relógio de presente. Esse fato acontecia na entrada da adolescência, por volta dos 11 para 12 anos. Ganhar um relógio significava ser adulto o suficiente para cuidar de um objeto delicado como este. Mais do que uma tradição este presente marcava um ritual de passagem, a saída da infância e a entrada em um tempo em que ele, o tempo, passaria a ter cada vez mais controle sobre a vida.

Quando meu pai chegou em casa e entregou a caixa onde estava o relógio era visível a emoção do meu irmão. Naquele tempo os relógios tinham marcas que as pessoas conheciam, da mesma forma como hoje as crianças sabem as marcas de smartphone. Os melhores eram os suíços, “de dar corda”, cuja importância desabou quando apareceram os relógios de tecnologia mais avançada. O Japão destruiu a indústria suíça em menos de uma década. Mas a gente conhecia Patek Phillippe, Rolex, Technos, Ômega, Seiko, etc, e alguns deles eram mesmo pérolas da tecnologia e da mecânica.

Plenamente extasiado, meu irmão olhou o relógio demoradamente e depois, com a ajuda do meu pai, ajustou-o na extremidade do braço esquerdo. Encantado, ficou durante vários minutos olhando para o próprio punho, com o cotovelo dobrado, os olhos arregalados e fixando-se em cada detalhe da jóia.

Passados alguns minutos ele se levanta da mesa de jantar e diz que vai para o seu quarto. Como ainda era muito cedo, perguntei o que ele ia fazer, ao que ele respondeu sem titubear:

– Vou me deitar e olhar o tempo passar… 

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Amigo do Rei

Sou do tempo dos privilégios explícitos. Na minha época as credenciais médicas para atendimento eram dadas a amigos e correligionários. Credenciais do IPE (estadual) e INAMPS (federal) eram oferecidas com caráter político e de amizade pessoal. Era o padrão da época, e quase ninguém achava estranho ou imoral.

Quando os governos de esquerda assumiram a prefeitura da minha cidade resolveram acabar com a “farra dos postos de saúde”. Até então, os médicos com carga horária de 20h semanais compareciam por menos de uma hora pela manhã, “atendiam” 10 pacientes e corriam para o seu outro emprego – ou para o consultório. Eram obviamente mal pagos e isso criava uma equação perversa: “eles fingem que nos pagam e nós fingimos que atendemos”. A conta? Os pacientes acabavam pagando, como sempre. Na briga do rochedo contra o mar quem apanha é o marisco.

Zeza era enfermeira chefe de um posto de saúde nessa época e, quando passaram a cobrar os horários dos médicos através do “livro ponto” ela chegou até a receber ameaças. Retirar privilégios sedimentados de uma classe poderosa é uma tarefa das mais difíceis e penosas.

Há uns 15 anos tive de realizar uma pequena cirurgia e resolvi procurar um colega de longa data. Boa praça, bon vivant, sério e um ótimo cirurgião. Fui até seu consultório, mostrei meus exames e ele confirmou a necessidade de realizar a operação. Conversamos longamente sobre os velhos tempos, o destino dos antigos colegas e os momentos engraçados que passamos juntos.

Restava decidir onde a cirurgia seria realizada. Poderia ser no hospital particular onde ambos operávamos, mas como eu não tinha convênio algum – por razões ideológicas – a hospitalização haveria de ser privada (e cara).

Foi então que o cirurgião deu uma ideia…

– Posso lhe operar no hospital público. A fila para cirurgia tem vários meses de espera, mas posso abrir um horário fora da escala, ao meio dia, e opero você na hora do meu almoço. Não tiramos o lugar de ninguém, não furamos a fila e eu abro uma sala extra. Que acha?

Não tive nem tempo de pensar e concordei. Afinal, à primeira vista parecia razoável. Ninguém seria prejudicado e o médico doaria seu horário de almoço para a minha cirurgia. Feito.

O passo seguinte foi o colega ligar para o hospital. Pediu para falar com o setor de marcação de cirurgias. Explicou o desejo de abrir um horário de cirurgia extra, ao meio dia, para operar um colega.

Depois dessa explicação escutei um demorado “hum-hum” ao telefone. Passados alguns minutos ele agradeceu e desligou.

– Nada feito, Ric. Gertrudes, a secretária do bloco cirúrgico, me disse que se eu abrir um horário novo para cirurgia ela vai chamar o próximo da fila. Disse ainda que as cirurgias em horário especial e a pedido do médico estão proibidas há 1 ano. Quem quiser trabalhar em horários extras o fará dentro das regras e obedecendo a fila dos pacientes do SUS.

Quanto escutei sua explicação foi como se um clarão aparecesse na minha frente. A normativa fazia todo o sentido!! Não haveria porque dar aos médicos o direito de burlar as filas de cirurgia ou de exames especiais, mesmo que fosse no seu horário de almoço, até porque não havia apenas a doação do seu tempo pessoal, pois o hospital inteiro estaria à sua disposição.

Depois de ouvir as razões da funcionária da marcação cirúrgica, e quando ela tomou corpo em minha compreensão, fiquei orgulhoso da negativa. Sim, fiquei feliz que um erro que eu estava cometendo tivesse sido impedido. Percebi que havia uma nova diretriz para coibir privilégios, fazendo com que o hospital público fosse usado de forma equânime e justa, respeitando a igualdade entre todos os usuários.

Falei para o colega que eu faria um esforço e pagaria a hospitalização, sem problemas, e marcamos a operação para o hospital privado. Na saída meu colega me cumprimentou e ainda arrematou…

– Desculpe o contratempo. Não deu para marcar a cirurgia no hospital do SUS. Hoje em dia essas funcionárias se acham mais importantes que os próprios médicos. Isso está assim desde que o PT entrou. Que raiva…

Ele nunca soube que essa demonstração de respeito às pessoas simples – as que não tem amigos cirurgiões – foi algo que me marcou profundamente e que me fez respeitar ainda mais os governos populares.

Percebi também que o que mais irrita as pessoas à direita no espectro político é a ousadia dos comunistas de acreditar que não existem privilégios sagrados, corretos ou justos. Também a eles incomoda a ideia de que, para o surgimento de um país mais igual e fraterno, todas as vantagens espúrias devem ser exterminadas.

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