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Intactos

Ao participar de congressos nos Estados Unidos sobre humanização do nascimento nas primeiras duas décadas deste século eu conheci um lado da cultura americana que muito me impressionou. No intervalo das palestras era possível passear pelos estandes coloridos dos patrocinadores. Espremidos entre as cabines que vendiam produtos como sonares, bonecas de ensino, livros e seus autores, bijuterias e aromas de ambientação, notei a presença de ativistas que divulgavam temas variados, mas sempre relacionados com o público que participava do movimento de humanização. No meio do burburinho de participantes do evento, encontrei o movimento contra a prática disseminada da circuncisão, o “Intact America“, e sua presença logo captou minha atenção. Depois de ficar alguns instantes tentando entender do que se tratava, fui prontamente abordado por uma simpática senhora com panfletos nas mãos e um sorriso no rosto. Foi desta vez que, pela primeira vez´, tomei contato com pessoas que lutavam pela preservação da integridade anatômica dos meninos, e posso dizer que foi uma experiência marcante.

Da minha conversa com as ativistas anticircuncisão aprendi muito sobre a importância de manter intacta esta parte do corpo em função dos inúmeros benefícios (para mim até então desconhecidos) de manter pele do prepúcio e assim garantir a sensibilidade e o prazer sexual masculino. A história desta cirurgia ritualística e mutilatória vem de tempos imemoriais. Foi Maimonides, judeu sefardita da idade média, filósofo e estudioso da Torá que viveu entre os muçulmanos da costa ocidental da África e do Egito, o mais conhecido proponente da circuncisão. É dele a frase: “A lesão corporal causada a esse órgão é exatamente a desejada”, deixando claro que acreditava haver benefício nos traumas causados aos homens que se submetiam a este tipo de procedimento. Para ele, “Não há dúvida de que a circuncisão enfraquece o poder da excitação sexual e, às vezes, diminui o prazer natural.” Desta forma fica fácil entender que esta prática tem como finalidade última a obstrução da potencialidade prazerosa sexual dos homens. Segundo Maimonides, os homens assim “domesticados” teriam menos interesse no sexo e liberariam mais tempo para as coisas mais nobres, como o estudo da Torá. Em uma perspectiva histórica é notável o fato de que esta cirurgia sempre foi realizada exatamente para atingir a sexualidade, colocando sobre ela a marca indelével da cultura, como que a afirmar que tudo que se passa ali está sob o olhar cuidadoso do Grande Outro que, em última instância, determina nossa posição no mundo.

É interessante notar como a circuncisão é um não-assunto no Brasil. Se você pensar que ela está restrita aos judeus no Brasil, e a população de origem judaica no nosso país não tem mais do que 150 mil pessoas (0.06% da população brasileira), é possível perceber que não se trata de um tema de alto impacto. Já os Estados Unidos são o país que congrega a segunda maior população judaica do mundo, atrás apenas de Israel, e lá vivem mais de 5 milhões de judeus, algo próximo de 1.5% da população. Entretanto, nos Estados Unidos a prática da circuncisão se alastrou para os não judeus, tornando-se uma das cirurgias mais prevalentes no país. O Centro Nacional de Estatísticas de Saúde estima que cerca de 64% dos recém-nascidos do sexo masculino americanos são submetidos à circuncisão. No entanto, esse número varia entre grupos socioeconômicos, étnicos e geográficos. Apesar da taxa de circuncisão estar em lenta queda, estima-se que 80,5% dos homens com idade entre 14 e 59 anos nos Estados Unidos sejam circuncidados. Apesar do número espantoso, existem números ainda mais impactantes: o Afeganistão tem uma taxa de 99.8%, e Gana 91.6% de crianças circuncidadas. Muitos argumentam a existência de benefícios na realização desta cirurgia, entre eles as questões higiênicas, a diminuição do risco de câncer, proteção potencial de infecções do trato urinário e até diminuição da transmissibilidade da AIDS. Estes dados são motivo de constante questionamento, porém mas mesmo que fossem válidos seria como dizer que câncer de mama desaparece depois de mastectomia, cáries igualmente são exterminadas ao se colocar próteses dentárias ou que fumar diminui a incidência de aftas na mucosa oral. Para além disso, existem questões éticas muito sérias, pois estas cirurgias podem ter consequências para toda a vida, É interessante notar como a circuncisão é um não-assunto no Brasil. Se você pensar que ela está restrita aos judeus no Brasil, e a população de origem judaica no nosso país não tem mais do que 150 mil pessoas (0.06% da população brasileira), é possível perceber que não se trata de um tema de alto impacto. Já os Estados Unidos são o país que congrega a segunda maior população judaica do mundo, atrás apenas de Israel, e lá vivem mais de 5 milhões de judeus, algo próximo de 1.5% da população. Entretanto, nos Estados Unidos a prática da circuncisão se alastrou para os não judeus, tornando-se uma das cirurgias mais prevalentes no país. O Centro Nacional de Estatísticas de Saúde estima que cerca de 64% dos recém-nascidos do sexo masculino americanos são submetidos à circuncisão. No entanto, esse número varia entre grupos socioeconômicos, étnicos e geográficos. Apesar da taxa de circuncisão estar em lenta queda, estima-se que 80,5% dos homens com idade entre 14 e 59 anos nos Estados Unidos sejam circuncidados. Apesar do número espantoso, existem números ainda mais impactantes: o Afeganistão tem uma taxa de 99.8%, e Gana 91.6% de crianças circuncidadas. Muitos argumentam a existência de benefícios na realização desta cirurgia, entre eles as questões higiênicas, a diminuição do risco de câncer, proteção potencial de infecções do trato urinário e até diminuição da transmissibilidade da AIDS. Estes dados são motivo de constante questionamento, porém mas mesmo que fossem válidos seria como dizer que câncer de mama desaparece depois de mastectomia, cáries igualmente são exterminadas ao se colocar próteses dentárias ou que fumar diminui a incidência de aftas na mucosa oral. Para além disso, existem questões éticas muito sérias, pois estas cirurgias podem ter consequências para toda a vida, com potencialidade danosa ou mesmo devastadora, realizadas em menores de idade, que são obviamente incapazes de fazer escolhas informadas sobre riscos e benefícios.

Outra aspecto da minha conversa que me impressionou foi o fato de que as ativistas com quem conversei eram todas mulheres. Elas lutavam pela integridade física de seus filhos, netos e tentavam alertar a todos os homens sobre os riscos inerentes a uma amputação, sem que lhes fosse garantido a oportunidade de escolha. Estas senhoras falaram comigo do pênis e suas funções com detalhadas explicações anatômicas e fisiológicas, como se fosse parte do corpo delas, ou como fossem diretamente afetadas. Não pude evitar lembrar de uma aula do saudoso Contardo quando ele, jocosamente, dizia: “O pênis é um órgão feminino colocado no corpo dos homens”. Intrigado e curioso, perguntei a elas se, em algum momento, um homem defensor da circuncisão havia jogado em suas faces uma “ameaça de cancelamento” ao estilo “não é seu lugar de fala” ou “deixe esse assunto para nós, homens”. Elas sorriram por saber onde eu queria chegar; afinal, estávamos em um imenso congresso sobre parto e eu era um dos poucos homens a ter espaço para trazer minhas propostas e ideias. Uma delas respondeu: “Os homens são nossos parceiros. São nossos filhos, maridos, amigos e netos. É com os homens que fazemos amor, e garantir seu prazer é um assunto que também nos pertence. Não, nenhum homem jamais disse para eu me calar usando este argumento”.

A luta pela integridade física dos sujeitos uniu aqueles que lutam contra a violência obstétrica – cuja intervenção paradigmática e exemplo mais clássico é o das episiotomias injustificadas – e os ativistas pela integridade peniana, que lutam pelo direito dos homens de manter seu corpo e sua sexualidade livre de invasões e amputações. Desta forma, lutar contra a violência obstétrica através das múltiplas intervenções danosas sobre o corpo das gestantes e a luta contra cirurgias mutilatórias ritualísticas sobre o corpo dos homens é um assunto que tem a ver com cada um de nós, inobstante a identidade sexual de que somos investidos.

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Consultas

Por que as pessoas evitam ao máximo consultas médicas?

O problema é o choque hierárquico, o saber que se faz autoritário de um sujeito sobre o corpo de outro. Também tem a ver com a insensibilidade com o sofrimento do paciente causada pelo afastamento afetivo característico da medicina. Esta distância, por fim acaba por obliterar a empatia que deveria fluir em todo encontro interpessoal.

A impotência que o paciente é levado a sentir, na medida em que suas perspectivas são frequentemente negligenciadas, é algo que dói no corpo, e portanto retarda a chegada ao profissional, o que obstrui muitos tratamentos. E não é por negligência com a própria saúde, mas por um mecanismo bem compreensível de defesa.

Nesse terreno os homens são muito mais afetados porque na cultura patriarcal abrir mão da autonomia sobre o próprio corpo é muito mais grave quando se trata do corpo masculino.

Não creio que a mudança deve partir dos pacientes através do aumento da confiança ou forçando docilidade diante dos médicos. Não, deve ser um movimento de pressão por parte dos clientes dos serviços de saúde, exigindo uma medicina menos tecnocrática e mais voltada às necessidades subjetivas de cada sujeito enfermo.

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Ciência

Como já dizia Albert Einstein, “nem tudo que conta se conta e nem tudo que se conta, conta”. Portanto, nem todas as coisas passam a ser valiosas apenas a partir do momento em que podem ser contabilizadas, mensuradas e aquilatadas. O amor, a saudade, os afetos, as tristezas são bons exemplos de emoções que não cabem nas perspectivas experimentais. Entretanto, sem surpresa recebi nos últimos dias a notícia de que uma pesquisadora (cuja fama foi catapultada durante a pandemia de Covid) escreveu um livro denunciando “pseudociências”, entre as quais estavam incluídas duas vertentes de saberes que conheço de perto: a psicanálise e a homeopatia.

Escuto esse tipo de visão positivista sobre o conhecimento científico há mais de 30 anos e acho cansativo contra-argumentar; na maioria das vezes os acusadores agem como cruzados furiosos, montados em seus conceitos rígidos sobre ciência experimental e não aceitam escutar o idioma confuso e sem respostas exatas da linguagem do simbólico e do subjetivo. É simples entender que a ninguém parece viável analisar uma neurose “in vitro”, ou entender uma fobia despregada da história de quem a produziu; também não há como entender as diáteses homeopáticas fora dos conceitos de unicidade e suscetibilidade. Portanto, os limites da pesquisa experimental não são complexos para entender, e a ideia de analisar a realidade apenas pela metodologia que existe – desprezando aquilo que ainda não entendemos – se mostra sempre como uma forma muito arrogante de decodificá-la. No fundo esta propensão a “achar feio o que não é espelho” esconde o medo do novo, do não sabido e o pânico de relativizar o conhecimento que julgam ter conquistado. É mais fácil limitar o universo ao nosso entorno próximo do que admitir que somos apenas poeira de algo infinitamente maior.

Sempre é bom ter a mente aberta para entender as questões da saúde e da doença de forma complexa e criativa. Para algumas práticas – como a psicanálise e a homeopatia, entre outras – imaginar que é possível analisar a efetividade de uma terapêutica sem levar em conta a subjetividade e a suscetibilidade individual é desmerecer o fato de que somos seres de linguagem e vivemos envoltos em um campo simbólico que diante dos mesmos “inputs” estabelece “outputs” muito mais sofisticados e diversos.

Para além desse debate não conheço nenhum analista que tenha o real interesse de chamar psicanálise de “ciência”; a castração envolvida no processo de análise bloqueia em parte o pedantismo de enxergar-se de forma superlativa. Todavia, fica muito claro que o cientificismo contemporâneo trata tudo que não considera ciência (pelos seus critérios) como conhecimento menor. Para alguns pensadores da homeopatia, ela ainda se reivindica como ciência (por suas históricas conexões com a medicina institucional), mas não vejo muito sentido em tratá-la assim. Para mim ela se aproxima muito mais da psicanálise e suas investigações de caráter pessoal e único, por sua vinculação inexorável com a subjetividade e pelas manifestações raras, estranhas e peculiares do processo mórbido no sujeito.

Para finalizar vamos esclarecer algo que me parece importante: a autora dessa publicação foi tratada como sumidade da área médica (apesar de ser bióloga) durante o período da pandemia. Essa notoriedade foi resultado dos ataques que fez às teses bolsonaristas relacionadas à emergência da pandemia da Covid. Dissipada a nuvem que nos obliterava a percepção mais clara dos personagens da crise de saúde, hoje já é possível perceber que se trata de uma fundamentalista que está surfando na fama para levar adiante seu ideário. É também importante ressaltar que ela é consultora de uma gigante multinacional de drogas, a Janssen-Cilag, conforme consta em seu currículo. Isso deixa claro o quanto existe de interesses econômicos muito fortes por trás dessa personagem. Para além disso, trata-se de um clichê muito conhecido na área médica: o “cientista soldado da Verdade que combate a pseudociência”. Na realidade são tão somente clérigos de uma religião positivista, carentes da mais essencial virtude de um cientista: a imaginação criativa. No fundo temem descobrir a imensidão do que desconhecem, e como todos os religiosos, mais do que exaltar sua crença, sentem que é preciso destruir tudo que a questiona e desafia.

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Sintoma

A função do sintoma não se esgota na ação sinalizadora – como no pranto infantil – mas vai muito além do que simplesmente nos avisar que alguma função está em desequilíbrio com o resto do organismo. O sintoma – do mais material ao mais etéreo – opera no sentido da homeostase, na busca dinâmica pelo equilíbrio, tentando alcançá-lo através das transformações metabólicas que produz na economia orgânica. Portanto, mais do que um aviso à nossa consciência, os sintomas operam ativamente na resolução da doença, seja ela qual for. A compreensão do sentido último da sintomatologia é a chave para o entendimento holístico do sujeito que sofre.

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Escuta

Uma consulta médica é, em essência, um encontro entre pessoas. Uma delas vai relatar seu sofrimento, falando o dialeto de suas dores, da forma mais precisa que puder, enquanto a outra, através do saber formal ou informal adquirido, vai procurar traduzir o que escutou para o seu conceito de saúde e doença. Assim, os médicos filtram o que os pacientes relatam, capturando tão somente o que faz sentido para sua compreensão das doenças. Ou seja, ele escolhe apenas o que pode entender, aquilo que se ajusta na concepção de enfermidade que faz uso.

Se alguém disser ao médico que tem tristeza ao anoitecer isso será provavelmente inútil; esta junção pouco auxilia na maneira como um profissional vai entender sua doença. Caso venha a lhe contar que sua náusea melhora pela manhã ou quando faz frio, também esse relato não será de utilidade para a imensa maioria dos profissionais. Se disser que sua ansiedade piora em espaços abertos, poucos verão nesse sintoma um indicador importante. Os médicos apenas compreendem o seu idioma, e forçam seus pacientes para que se comuniquem com a língua que entendem.

Por outro lado, a história do paciente é sempre rica de elementos raros, estranhos, peculiares – e essencialmente subjetivos. Somos um manancial infinito de histórias, sentimentos, memórias e significados e todos estes elementos são estruturantes de nossa vida, assim como dos sintomas que usamos na busca por equilíbrio. A propensão da medicina ocidental, por seu turno, é sempre produzir generalizações, tentando entender aquilo que nos configura enquanto humanos, o que nos une e produz similitudes. Desta forma, as histórias que falam da nossa individuação, o que nos torna únicos e irreprodutíveis, são pouco úteis aos ouvidos de quem não deseja escutar a linguagem pessoal da dor, além de atrapalharem a perspectiva homogeneizante da biomedicina tecnocrática.

Em verdade, o conjunto de sintomas que o paciente traz ao seu médico é sua verdadeira riqueza. Como jóias despejadas na frente do terapeuta, elas revelam aquilo que nem mesmo o paciente mais atento é capaz de perceber. São suas melhores ferramentas, construídas ao longo da vida pela herança, as quais serão usadas para produzir a homeostase que todos buscam. Todo sintoma, por mais danoso e sofrido que seja, carrega essa finalidade última, e por isso são sinalizadores criptografados da estrutura mais profunda e íntima do sujeito.

Saber decodificar estes sinais, através da escuta livre e isenta de preconceitos, é a tarefa primordial de qualquer terapeuta.

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Sono

No meu tempo de residência existia uma expressão muito utilizada por nós chamada “pós plantão”. Ela servia para exemplificar qualquer incapacidade cognitiva temporária que afetava as nossas atitudes. Tipo “esqueci onde deixei a chave do carro”, e todo mundo dizia “ehhh, seu pós plantão”. Outra era esquecer uma prescrição, ou nao lembrar de avaliar uma paciente e depois dizer “Bahh, esqueci… total pós plantão mesmo”.

Havia até um residente que, de tão avoado, era chamado “Juninho Pós Plantão“.

Também servia para gracejos sexuais. Garotos e garotas avaliavam os atrativos dos colegas usando essa expressão. Para os meio-feios (como eu) elas diziam “Ahh, quem sabe, num pós plantão, né?”. Ou seja, para achar interessante tinha que estar com o sensório e a capacidade de julgamento levemente abalados.

Isso apenas mostra o que muitas pesquisas esclarecem sobre a baixa a qualidade das atitudes tomadas após noites mal dormidas. Um exemplo típico é esse estudo com alunos de escolas médicas do Paquistão que demonstra a baixa qualidade de aprendizado por um regime de noites mal dormidas. Diz a conclusão: “Estudantes de medicina do Paquistão têm má qualidade de sono, o que tem um impacto negativo em seu desempenho acadêmico. O sono adequado é essencial para refrescar os alunos todos os dias e ajudá-los no aprendizado e no processamento da memória.”

Desta forma parece razoável aceitar o quanto é essencial para o aprendizado de Medicina que estudantes e seus tutores compreendam os efeitos negativos da privação de sono para os acadêmicos. É fundamental que o ensino de medicina (e enfermagem, assim como obstetrícia) seja desta forma humanizado, otimizando o aprendizado ao levar em consideração o que a ciência já conhece sobre os efeitos do sono adequado sobre nossa mente.

Quantos erros diagnósticos não ocorreram em decorrência de um regime desumano e cruel sobre alunos e residentes? Não seria possível transformar o “rito de passagem” da residência médica (segundo a perspectiva de Robbie Davis-Floyd) fosse menos violento para os médicos em formação?

Creio que sim…

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Medicina Suave

Profissionais médicos são ensinados (e levados) a servir aos gigantes da Indústria Farmacêutica durante toda a sua formação acadêmica – algo que continua durante sua vida profissional. Estas empresas os manipulam através de uma gigantesca máquina de propaganda, que também atinge os pacientes. Até mesmo subornos e falsificações são recorrentes nessa indústria. Não há dúvida que 99% dos médicos jamais terão consciência dos cordéis que os controlam, e mesmo aqueles que se dão conta ainda assim continuarão sendo manipulados, porque esta associação lhes garante poder e significado social.

Entretanto, esse controle das corporações sobre a consciência dos profissionais tem seu custo. Hoje, nos estados Unidos e no Canadá, 20% dos adultos entre 40 e 79 anos tomam 5 ou mais medicamentos prescritos a cada dia. Pesquisas informam que em 2020 mais de 150.000 pacientes tiveram mortes prematuras causadas por drogas legalmente prescritas, e cerca 4-5 milhões de internações hospitalares foram realizadas, um custo astronômico para qualquer sistema de saúde. .

“Ser médico é algo muito mais importante do que ser um mero despachante de drogas”, já me dizia Max nos tempos da Escola Médica. Há muito mais no encontro do médico com seu paciente do que aplicar drogas, muitas delas perigosas, outras tantas inúteis e uma boa parte causadoras de mortes prematuras. O médico é, antes de tudo, um pedagogo, cuja tarefa precípua deveria ser mostrar os caminhos de cura ao seu paciente. Sempre que a medicina é impositiva e prescritiva ela aliena o paciente do controle de sua própria saúde e, em última análise, de seu próprio destino. Se a doença é uma construção do sujeito diante das rotas por ele mesmo traçadas, a ação invasiva da medicina – ao olhar a enfermidade e desconsiderar o enfermo e suas alternativas – desloca o poder para fora do doente, alienando o sujeito de si mesmo.

Questionar e criticar o abuso de drogas está na contramão da sociedade capitalista, que criou impérios gigantescos baseados na indústria farmacêutica. Da mesma forma, lutar pela fisiologia do parto, aguardar os tempos corretos, oferecer suporte contínuo e afeto incondicional também agridem a mentalidade moderna tecnocrática, que exige o uso da tecnologia sempre que possível. Todavia, em ambos os casos – no uso abusivo de drogas e na tecnogia exagerada no parto – não se trata de uma maldição, algo sobre o que não temos qualquer ingerência. Não, por serem construções humanas podem ser, por nós, revistas. Assim, a cura para essas doenças sociais depende tão somente de nós mesmos.

Entretanto, é fundamental entender que a humanização do nascimento e o fim do abuso de drogas prescritas jamais vão ocorrer dentro do modelo capitalista. Para alcançar estes objetivos na saúde será necessário mudar a estrutura econômica da nossa sociedade, fazendo com que os avanços médicos sirvam às pessoas, e não ao capital.

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Drogas

A paixão das pessoas por drogas – ilegais ou prescritas – é algo que me assombra. Não se trata apenas dos efeitos da “propaganda” e a pressão capitalista da indústria; para além disso se trata de uma vinculação muito mais profunda, inconsciente e, por isso mesmo, muito mais violenta. As pesquisas apontam que nos Estados Unidos a geração “Y” – os “millenials”, nascidos dos anos 80 até o início dos anos 90 – usa em média uma droga prescrita por dia. Isso é um contingente gigantesco de pessoas literalmente drogadas, que financiam uma indústria cada vez mais poderosa. Sem falar da epidemia de metanfetamina, onde ocorreu um aumento de 170% de 2015 para 2019. No ano de 2001 o número de mortes associadas ao uso de Metanfetamina e Fentanyl ultrapassaram a faixa de 110 mil por ano. A maioria dessas mortes está entre os jovens.

Hoje em dia, no que diz respeito à saúde, a atitude mais desafiadora e poderosa que as pessoas podem ter é fugir do modelo drogal e aditivo da medicina contemporânea. Isso não significa desprezar médicos e medicamentos, mas estabelecer limites bem restritivos para seu uso. Para mudar essa tendência será necessário fazermos uma reeducação das pessoas, uma reformatação das nossas atitudes diárias e uma mudança radical em nossos valores. Para isso sugiro algumas atitudes simples iniciais:

Não use nenhuma droga, a não ser que seu uso seja a única solução possível para sua cura ou para a melhora de um sintoma considerado insuportável. Não cite nome de drogas em casa. Não comente sobre remédios, em especial na frente dos seus filhos pequenos. Combata diariamente a normalização do uso de remédios. Diga não à banalização dos medicamentos, consumidos como se fossem balas ou biscoitos. Dissemine a ideia de que não existem drogas 100% seguras (mais de 3 mil pessoas morrem por ano nos Estados Unidos pelo uso contínuo de…. aspirina). Não crie a expectativa de que a solução dos seus problemas se encontra no uso de substâncias químicas; na maioria das vezes o enfrentamento dos problemas de forma adulta e madura é muito mais consistente. Questione a origem dos seus males: da sua pressão alta, da sua dor de cabeça, de suas dores lombares, dos seus transtornos digestivos, da sua falta de ar. Muitas vezes existem hábitos inadequados que precisam ser modificados, e quase sempre há um desarranjo emocional e afetivo atrás do sofrimento físico que experimentamos “Doença se forma a partir de algo que não foi dito”, já diziam os analistas.

Romper o vício da drogadição não é tão somente uma tarefa pessoal, mas igualmente social. É preciso romper o estímulo à alienação que as drogas (legais e ilegais) produzem no sujeito. É necessário igualmente combater os desencadeantes que existem no capitalismo que induzem ao uso abusivo de medicamentos. Por fim, é urgente a criação de uma sociedade nova, regenerada, que não acredite em solução embaladas e prescritas, mas que lute por solução pessoais e coletivas para os nossos sofrimentos.

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Ossos de farinha…

Há alguns anos atendi uma dentista, professora da UFRGS, que estudava a degeneração óssea em mandíbulas causada por medicamentos para “reposição de cálcio”, uma das modas médicas surgidas nos primeiros anos desse século e que, assim como a “terapia de reposição hormonal”, teve seu ciclo completo, da ascensão à queda. “Medical fads”, como devem ser chamadas. Foi a primeira vez que ouvi alguém criticando de forma contundente estas terapias, o que me ajudou a me afastar delas de forma definitiva.

Por outro lado era claro seu sofrimento com a pressão sofrida pela BigPharma e pelos seus pares, que apostavam suas fichas nessa perspectiva aditiva. Para quem cultiva olhos de ver e ouvidos de ouvir não era muito difícil perceber o quanto havia de interesses da indústria em transformar mulheres normais em “osteopênicas“, bombas ambulantes que a qualquer momento poderiam ter seus ossos transformados em farinha, caso não usassem a droga salvadora, o elixir mágico produzido pela tecnologia redentora. E ai de quem questionasse sua efetividade!!! Herege, traidor, arcaico, anti-ciência… 

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Publicidade e Medicina

É surpreendente a confusão que as pessoas (inclusive, e principalmente, os médicos) fazem entre “ciência”, “progresso”, e uso irrestrito de tecnologia para o tratamento de doenças – ou sua prevenção. Parece que perdemos a capacidade de raciocinar de forma isenta. Muitos ainda analisam a ciência como um ente objetivo, infensa às flutuações culturais do seu tempo, sem sofrer as pressões brutais do capitalismo que, em última análise, a mantém, financia e controla. Um exemplo disso é a reação pífia de médicos e da população em geral diante da recente retirada de circulação da vacina da AstraZeneca. “De um total de 40 casos prováveis e confirmados de Síndrome de Trombose com Trombocitopenia distribuídos por dose de vacina para covid-19, notificados no e-SUS Notifica Brasil (excluindo-se São Paulo), 34 foram atribuídos à vacina da AstraZeneca”. Aliás, essa foi a vacina que eu tomei, de cujo risco jamais fui alertado.

Já pararam para pensar o que aconteceria com o pobre mortal que resolvesse questionar a segurança dessas medicações há….. apenas 2 anos? O que aconteceu com quem teve a coragem de perguntar: “Essa medicação foi adequadamente testada?”. Não precisa imaginar; existem milhares de exemplos de “bruxos” queimados nas fogueiras por ousarem desafiar as verdades inquestionáveis da BigPharma – transformadas em “ciência isenta”. Os que ousaram fazer perguntas inconvenientes foram aqui chamados de “Negacionistas!!!!“, ou rechaçados aos gritos de “Bolsonarista, vá tomar Cloroquina seu idiota!!” Criamos uma tal polarização no debate sobre medicamentos que a análise racional foi impiedosamente sepultada, completamente consumida pela dualidade irracional que se formou. Pessoas como eu – de esquerda mas também radicalmente céticas em relação ao compromisso ético das corporações farmacêuticas – eram impedidas de comentar, pois corriam o risco de serem espancadas – e por ambos os polos digladiantes.

“As empresas farmacêuticas gastam US$ 480 bilhões todos os anos” (quase meio trilhão de dólares). “Desse valor, 5% vão para pesquisa e desenvolvimento; os outros 95% são gastos em marketing. Há muito interesse próprio trabalhando nos bastidores para criar novos distúrbios e disfunções, medicalizando a vida cotidiana, retratando problemas leves como sérios, ampliando os limites do diagnóstico, criando ferramentas de avaliação extensas e corrompendo a pesquisa médica”. (veja o artigo completo Med Men aqui)

… e destruindo a reputação de pesquisadores do mundo inteiro que ousam perguntar sobre a segurança e a efetividade das drogas que somos forçados a usar.

Impossível olhar para a ação predatória dessas gigantes multinacionais da BigPharma e não imaginar a cena da chegada dos navegadores europeus em terras do Novo Mundo, no final do século XV. Era de se imaginar que a reação mais natural por parte de quem os recebia seria a desconfiança. Afinal, por que haveriam eles de oferecer presentes sem exigir algo (valioso) dos nativos? E por que deveria esta troca ser justa, se os forasteiros aqui chegavam com suar armas, seus germes e seu aço enquanto os indígenas estavam vestidos apenas com sua ingenuidade, seu assombro e sua nudez? Por certo que entre os nativos algum deles questionou: “Será mesmo seguro receber por aqui gente tão estranha? Será que o que trazem é verdadeiramente algo de bom para nós?”

Entretanto, por certo que estes últimos não foram ouvidos. Enquanto eles falavam os outros se embeveciam com os badulaques, espelhos e contas presenteadas pelos viajantes, hipnotizados e embriagados pelo brilho fulgurante das novidades, as quais obliteravam a percepção completa da realidade. É provável que aqueles que alertaram para os perigos do contato com os europeus foram imediatamente tratados com rudeza, e até mesmo violência. Hoje, o modelo de publicidade das farmacêuticas americanas leva o consumidor de lá a ver as drogas como mais um artefato de consumo, como sapatos, armas, carros e bijuterias, mas poucos são os que se dão conta da armadilha na aventura das drogas. E o pior: trazem para cá como se fossem a “última moda em Nova York”. E nós, ingenuamente, compramos…

“Os fabricantes de dispositivos organizam ou alugam estandes em conferências, onde envolvem os principais líderes de opinião (pagando) médicos famosos em suas áreas para falar e recomendar seus produtos; os fabricantes também tratam compradores em potencial com jantares luxuosos, sacolas de brindes e preços promocionais que tornam os procedimentos mais lucrativos ao longo do tempo.”

Oferecer o status de ciência à empresas capitalistas multinacionais que lucram com diagnósticos cada vez mais forçados (muitos deles criados apenas para favorecer a venda dos remédios) e com o consumo das drogas que elas próprias vendem é um erro que pode ter efeitos devastadores para a humanidade. Segundo a professora da Universidade Georgetown Professor Adriane Fugh-Berman sobre o tema da criação de enfermidades, “O marketing de medicamentos pode começar de sete a dez anos antes de chegarem ao mercado. Como é ilegal promover um medicamento antes de ele ir para o mercado, o que eles estão promovendo é a doença. Isso não é ilegal porque não há regulamentação sobre a criação de enfermidades.” Em 12 anos os Estados Unidos pularam de 3.6 bilhões em publicidade de drogas para 32.7 bilhões, um acréscimo de quase 1000% no montante dispendido, uma estratégia cada vez mais agressiva para que essa “pílula” seja mais fácil de engolir. Mais interessante é ver que a maioria das drogas prescritas – quase 70% delas – 92 das 135 drogas mais populares – são aquelas consideradas como pouco efetivas. Ou seja: a propaganda de medicamentos nos faz comprar lixo, ou pílulas de baixo efeito para a melhoria da saúde, mas que oferecem alta lucratividade para os mercadores de drogas.

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