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O parto de quem?

Médicos selfie

A foto é de inegável mau gosto, mas não acho que se pode ir muito além disso do ponto de vista médico. Não vejo risco para a criança. A foto é uma brincadeira, mas prefiro analisar o que existe por trás dela, que me parece muito mais revelador do que a simples imagem de médicos sorridentes e um bebê desconfortável.

Esta fotografia revela um conteúdo psicológico inconsciente bem claro: o parto foi “feito” por eles, os médicos. O bebê é um produto do seu trabalho, sua técnica e sua arte. A foto escancara a expropriação do nascimento, passando em poucas décadas das mãos das mulheres para as luvas estéreis dos cirurgiões. O nascimento humano deixou de ser um evento feminino para ser um processo controlado e dominado pela medicina, desconsiderando toda a construção histórica de sua adaptação.

A mulher, por certo, não cabe nessa foto. Ela é a inerme Bela Adormecida, dormindo o longo sono do patriarcado, objetualizada e imóvel. Para que ela possa existir é necessário que seja acordada (a cortada), mas não pela sua vontade e desejo, mas pelo beijo (bisturi) salvador de quem a resgata da crueldade de uma natureza madrasta.

A foto expõe de forma muito didática que o nascimento contemporâneo delegou a mulher a uma postura secundária e coadjuvante. O que outrora foi o maior e mais honrado desafio feminino hoje não passa de uma encenação na qual seu papel é cada vez menor.

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Doulas e sociedade

DOULA

Sempre que o assunto “doulas” vai para a grande imprensa aparece a questão da formação curta que elas fazem quando comparadas aos médicos e enfermeiras. O que eu peço aos meus interlocutores quando tratam deste tema da formação é atentar para o fato de que doulas NÃO fazem qualquer ato médico ou de enfermagem, portanto não precisam ter uma formação voltada à destreza técnica nestas áreas. Assim, o curto treinamento pelo qual elas passam é para oferecer conforto para as pacientes, assim como estimulá-las física e emocionalmente para uma atitude positiva e uma postura ativa diante do parto e seus desafios.

Todavia, sabemos que o que se esconde por trás desta pergunta é uma inquietação silenciosa. Ela na verdade que dizer: “Por que doulas podem cobrar sem ter passado pelo mesmo processo de treinamento que eu passei durante os anos de escola, graduação e pós graduação?“.

Este é o principal incômodo de alguns profissionais de área de atenção à saúde. Quando uma doula se sobressai pelo seu trabalho uma onda de negatividade se instala, como se fosse pecaminoso vender seu tempo e sua dedicação e ser reconhecida por isso.

Doulas oferecem seu tempo e sua dedicação, além das qualidades aprendidas de conforto e reasseguramento para as grávidas. E isso pode ser cobrado, a despeito de ter ou não um curso extenso como formação. Entretanto eu creio que esta é apenas uma etapa a ser vencida. Com a continuidade do trabalho e a excelência dos resultados com o acréscimo das doulas não haverá mais como bloquear o acesso das gestantes a este benefício. Precisamos apenas de paciência e persistência.

O futuro do parto passa pelo respeito aos desejos de cada mulher. As doulas entram nessa luta como guardiãs do sagrado feminino e protetoras da fisiologia do nascimento.

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Valente menina

baby holding his mothers finger, selective focus

Volto para casa depois de 20 horas – passadas no domingo e no início da segunda feira – trancado num hospital para atender um parto cheio de desafios, mas que nos rendeu um nascimento maravilhoso e empoderador. Cansado, faminto e ao mesmo tempo eletrizado, sento à frente do computador para ver se chegou algum e-mail e escuto “Cinema Paradiso”, na versão de Josh Groban.

O primeiro refrão diz:

“Se tu fossi nei miei occhi per un giorno
Vedresti la bellezza che piena d’allegria
Io trovo dentro gli occhi tuoi
E ignoro se è magia o realtà.”

(Se você visse através dos meus olhos apenas por um dia
Você veria a beleza que me inunda de alegria
Quando olho para dentro de teus olhos
É um misto de magia com realidade)

Quem já atendeu um parto e teve nas mãos o corpo quente, escorregadio e viscoso de um bebê, e pôde ver nos olhos de uma mulher a vitória emoldurada por suor e lágrimas, entende a sensação divina e transcendental de ter participado de um momento sagrado e enigmático, para além da compreensão.

Seja bem vinda, valente menina…

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Cesariana “humanizada”

cesariana

Sobre o uso do termo “Cesariana Humanizada”

Esta é uma discussão que já tem mais de 20 anos. No meu segundo livro há um capítulo inteiro sobre a inadequação desse termo. Eu sempre chamei de “cesariana digna” ou “cesariana respeitosa” pois creio que estes termos oferecem uma compreensão melhor do que propomos e não criam confusão com o movimento que apoiamos.

Qualquer contato da cirurgia cesariana com o conceito de “humanização” me parece espúrio e uma tentativa de aproximação com o fenômeno complexo e intenso do parto. O próprio termo utilizado por muitos profissionais de saúde, “parto cesariana”, é uma aberração, mas surgiu pelos mesmos motivos: uma espécie de “pinkwashing” da cirurgia de extração fetal. O “parto cesariana” recebe de nós o mesmo repúdio que a expressão “fazer o parto”, quando utilizada pelos assistentes do parto. Parteiro não faz, ele assiste algo que só as mulheres fazem.

A “cesariana humanizada” nos transmite a mesma mensagem subliminar deformada que, como toda criptografia, precisa ser decifrada para ser entendida. A mensagem é: “Ah, você percebeu a importância do ideário da humanização aplicado ao nascimento? Que bom!! Eu também reconheço a necessidade de humanizar o parto, por isso lhe ofereço esse produto, o “parto cesariana humanizado “. Ele é quase igual ao original, mas um pouco mais barato, e você ainda leva a vantagem de não sentir dor nenhuma. Que tal?” Uma maravilha de marketing, exatamente porque a manifestação acima não precisa passar pelo discurso, pois o conceito se aloja nos espaços entre as palavras, mistura-se com as frases ditas e ganha força exatamente pela sua invisibilidade.

Humanizar o nascimento é GARANTIR o protagonismo à mulher. Sem esse conceito nunca avançaremos em direção aos plenos direitos reprodutivos e sexuais. Em uma cesariana – mesmo quando digna, respeitosa e bem indicada – a mulher NÃO É protagonista do ato (mesmo quando o é da escolha por ele), o qual pertence ao cirurgião. Desta forma, a cesariana carece do eixo central da nossa definição de humanização: a autonomia e o protagonismo restituídos a mulher.

Não há porque ceder a este tipo de manipulação do nosso inconsciente. Cesariana não é parto; é cirurgia de grande porte e que existe para oferecer segurança para mães e bebês em situações limites e de risco elevado para o parto fisiológico. Sem essa consideração corremos o risco de banalizar uma cirurgia cujos abusos são uma grave ameaça à saúde humana, e das mulheres em especial.

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Lendas de Parto

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A paciente chegou no consultório muito sorridente e confiante para uma consulta de climatério. Beirando os 50 anos queria se preparar para a nova fase que se avizinhava. Depois de um bom tempo de conversa me conta de seu tesouro: suas filhas. Uma de 27 e outra de 24 anos. Dois partos normais.

– Naquela época era mais fácil parir, observa ela.

Concordo. Perguntei como foram os partos e ela, abrindo um largo sorriso de bochechas vermelhas, me relata:

– O primeiro foi mais demorado, mas muito tranquilo. Já o segundo eu internei muito cedo e meu marido começou a ficar preocupado. Ele não havia sido autorizado a entrar no centro obstétrico e também a mim a angústia pela separação parecia atrapalhar o andamento do parto. As contrações eram espaçadas e breves, pareciam não empurrar o bebê. Eu estava em uma enfermaria com várias outras parturientes, e senti que meu trabalho de parto havia parado. Meu útero estava tímido e constrangido.

– Sei como é. Os aspectos emocionais e psicológicos assumem uma total preponderância na hora do nascimento. Todo o processo é ilusoriamente mecânico e hormonal; em verdade ele é mental, afetivo e ocorre “entre as orelhas”, completei eu.

Ela continuou.

– Houve um momento em que meu marido ameaçou invadir o centro obstétrico caso não permitissem que ele entrasse. Gritou e esperneou, forçou a passagem, mesmo quando a enfermeira lhe explicou que havia “outras gestantes, portanto, seria indecente sua presença entre tantas outras mulheres seminuas“.

– Essa desculpa é usada até hoje, falei.

– Sim doutor, mas ele não aceitou a desculpa e exigiu me ver. Então a enfermeira chefe teve uma ideia conciliadora que ajudou a resolver o impasse.

– Posso imaginar qual foi, disse eu, sorrindo só de imaginar a solução encontrada.

– Exatamente doutor. Meu marido entrou no centro obstétrico conduzido por uma técnica de enfermagem e com uma… venda nos olhos, como um condenado!!! Quando eu o vi tomei um susto, mas fiquei feliz de finalmente encontrá-lo. Tirou a venda e pude ver seu rosto amarrotado de preocupação, mas tive a sabedoria de lhe devolver com um sorriso.

Depois de uma breve pausa continuou contando, até chegar na melhor parte da história.

– Pois o mais interessante aconteceu logo depois. Imediatamente após trocarmos um abraço eu tive uma contração muito forte, e depois outra e mais outra, e a enfermeira veio correndo dizer para fechar as pernas e ir para a sala de parto pois o bebê já ia nascer !!! Em poucos minutos tinha minha filha nos braços. Pode isso?

– Não parece ser uma coincidência, não é? perguntei.

– Não mesmo, Ric. Para mim ficou claro que, para minha filha chegar a este mundo, aquele encontro precisava ocorrer.

Sorri para aquela mãe orgulhosa e completei nossa breve conversa.

– Sim, você tem toda a razão… uma pena ainda não termos tão clara a importância do suporte afetivo para qualquer mulher que está atravessando esse desafio. Quem sabe um dia chegamos lá.

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Reflexões de Aeroporto

Aeroporto

Episódio XXIII

Ela nos procurou no segundo tempo da sua gestação. Já havia utilizado o banco de reservas, feito as adaptações necessárias e as estratégias possíveis, mas a prorrogação se aproximava atropelando os dias. Decidiu-se pela radicalidade de trocar a equipe de assistência ao seu primeiro parto. Assim chegou, entre o susto e a esperança

Na sua chegada uma velha e conhecida história: a médica não lhe passava nenhuma confiança no seu desejo por um parto normal. “Faremos seu parto se tudo estiver certo. Nunca corro riscos“, dizia. “Acima de duas horas começo a cobrar uma taxa“, completou, o que a fez imaginar estar falando com um enorme taxímetro. “Meu parto é de acordo com protocolos. Doula?… não.”

A partir desse desencanto, que conhecemos muito bem, passou a nos visitar. Suas consultas, a partir de então, sempre obedeciam uma rotina clara: conversas que duravam o tempo inteiro da consulta. Uma hora de trocas: expectativas, experiências, propostas, ideias e alternativas. As alterações determinadas pela gestação seguiram o curso mais fisiológico e, quando fomos avisados da ruptura da bolsa com 40 semanas, nada poderia ser mais previsível e natural.

As contrações se tornaram logo muito fortes, determinando como consequência a chegada da doula à sua casa. O espaçamento entre as ondas contráteis tornou-se rapidamente menor, fazendo o telefone vibrar no bolso da minha calça jeans.

“Muito fortes, Ric. Uma atrás da outra. Ela quer ir para o hospital”, disse a doula, e sua voz tinha o timbre da urgência.

“Ela apagou?”, perguntei. Aprendi que o apagamento neocortical é o melhor sinalizador de que a fase de transição está em curso ou já foi transposta.

“Sim. Está fora da casinha”, disse a doula, e de longe pude imaginar o sorriso que coloria seu rosto de menina.

Morar ao lado do hospital me oferece a vantagem de vencer todas as “corridas” com as pacientes, e isso nos dá a possibilidade de garantir um “continuum de cuidado”. Nunca há solução de continuidade entre o suporte oferecido pela doula e o acompanhamento médico que ela receberá no hospital. Sou sempre eu quem abre a porta do CO para a chegada da gestante e seu companheiro.

Quando eles chegaram pude logo ver, antes mesmo do abraço de boas vindas, que ela havia colocado firmemente os dois pés na superfície etérea da partolândia, o reino distante e onírico para onde vão as gestantes que conseguem vencer as barreiras – pessoais e institucionais – que precisam ser transpostas até o nascimento de seu bebê. Seu olhar era vago e seu rosto pouco lembrava a mulher sorridente e altiva que há poucos dias havíamos encontrado no consultório. Estava longe, distante, o que me assegurou a proximidade do desfecho.

Sorri baixinho para a doula, enquanto puxava sua mão para dentro do CO. “Ela viajou total; saiu da casinha. Parabéns pelo timing”, disse eu para a doula. Sabemos que a chegada precoce ao Centro Obstétrico é um dos piores indicadores para partos normais, pelo ambiente iatrogênico que o hospital impõe. Chegar no tempo certo é um caminho seguro para a normalidade de um nascimento.

Seguimos para a sala PP e procedemos com os prolegômenos. Dispam-se as vestes humanas e coloquem-se as vestais. Desumanize-se a mulher, transformando-a num ser angelical e assexuado. Retirem-se os anéis, os brincos, os brilhos, os sorrisos, as palavras. É o protocolo.

Alheio às regras ouso falar. Pior ainda, ensaio sorrisos e brinco com sua face lívida. Escuto 150 batidas na parede do ventre, e digo num portunhol forçado: “Mas bah!! Que espetáculo!!”.

Ela então desfaz sua face doída e sorri, mostrando o otimismo que deixara escondido sob o aluvião de temores e contrações. “Não faça força nos braços, relaxe. Respire fundo. Você está fazendo tudo certo”.

Seu marido, recém chegado da aventura no País da Burocracia, a segura por trás, tentando lhe dar um duplo suporte: físico e emocional. Sorri das minhas piadas, e ensaia uma gargalhada quando, no pico da contração ela grita: “Ricardoooooo“.

Quando me chamam assim é porque falta pouco“, expliquei sorrindo, mesmo que a visão dos cabelos negros de seu bebê brotando da vulva fosse uma evidência suficiente e muito mais clara.

Nesse momento ela interrompe suas vãs tentativas de se arrumar na mesa de parto, e a forma desajeitada de se acocorar, e me pede, quase envergonhada:

“Quero ir para o chão, posso?”

As faces dos três, marido, doula e paciente, me olham, e nesse momento ficou – mais uma vez – claro o inquestionável caráter invisível, e por isso mesmo potente, dos pressupostos do patriarcado a regular as tensões de poder na atenção ao parto.

Que poderia eu responder? Como poderia eu questionar a decisão de mudança de postura para uma outra, a qual a paciente intuía como mais adequada?

Minha resposta foi “Claro, desça daí”. Ajustamos os campos estéreis sob seus pés e pela primeira vez ela se sentiu absolutamente confortável. As plantas dos pés firmemente fixas no piso da sala lhe davam a força que lhe faltava, tanto quanto os braços do marido lhe amparavam e comunicavam confiança.

Subvertidas as leis, modificados os protocolos, trocadas as posições de poder e seu bebê despontou com mais vigor. Dois ou três esforços e ele chegava aos seus braços corado e triunfante.

Risos, gargalhadas, observações emocionadas e uma torrente de palavras, gesto e lágrimas a cobrir de significados o pequeno sujeito que chegava ao nosso convívio. “Um cidadão que testemunhará o século XXII“, pensei, se é que um dia chegaremos tão longe.

Ao sair, penso no pedido que ela me fez. “Posso?”, disse ela. O modelo autoritário e patriarcal do parto se mistura com o nitrogênio da atmosfera e compõe os gases que respiramos. Mulheres ainda pedem licença para livremente escolherem a melhor posição para jogar seu bebê em nosso colo, como se houvesse em qualquer um dos assistente um órgão sensor capaz de sentir o corpo viscoso de seu bebê melhor do que ela própria.

Sem reconhecer a sabedoria inata, visceral e celular que cada mulher tem para parir nunca conseguiremos progredir no entendimento do parto e da sua assistência. Cabe aos novos profissionais encarregados dessa atenção a dura tarefa de abandonar suas capas de autoritarismo, para assim, leves e livres, poderem sentir a poderosa energia que emana do nascimento.

Quem sabe até o século XXII chegar isso será uma realidade. Quem viver, verá._

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Narrativas

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A razão pela qual eu não acho adequado participar de “guerra de artigos”, é que eles se referem a valores crus, biológicos e matemáticos, sem jamais considerarem o valor subjetivo de um parto. Isto é: o desejo da mulher não conta. Por essa falha na compreensão mais ampla do que significa um parto eu considero inútil a luta fálica de quem tem o melhor artigo ou estudo sobre o local de parto, como se NÓS – os que controlam a ciência – tivéssemos o direito de decidir como uma mulher vai parir.

Analisem por este especifico ponto de vista. Vocês sabiam que quando uma mulher branca se casa com um negro ela tem 4x mais chance de se separar? Sabiam também que uma separação prejudica – e isso pode ser cientificamente mensurado – a saúde dos filhos? Baseados nestas avaliações puramente científicas não seria razoável proibir relacionamentos inter-raciais em benefício das crianças que correm risco de sofrer com a separação dos pais?

“Ah, mas esse é um problema social. Quando acabar o racismo os casamentos entre brancos e negros serão como os “normais” das outras pessoas”. Sim, é um problema social, tanto quanto é o parto domiciliar. Quando o sistema de saúde, em especial os médicos, pararem de agredir e pressionar as mulheres e parteiras pelas suas escolhas o resultado para todos será muito melhor. Imaginem se os médicos fizessem isso com as mulheres que escolhem cesarianas, se fossem tratadas como lixo ao internarem para esta cirurgia. Portanto, a corporação cria as más condições para um parto domiciliar, e quando maus resultados ocorrem culpam a natureza “perigosa e imprevisível” do parto.

Se você procurar bem é ÓBVIO que vai achar artigos que dizem que os relacionamentos homossexuais são mais arriscados e produzem mais adoecimento. Se você quiser achar vai encontrar artigos da Escandinávia dizendo que episiotomia se relaciona com problemas do assoalho pélvico, mas não vai contar como esses partos são conduzidos naquele país, muito menos a forma como as mulheres se posicionaram para parir. Assim, sempre encontramos na ciência aplicada à saúde aquilo que mais desejamos.

Quando há um especial desejo envolvido, e evidentes interesses corporativos, varremos a autonomia feminina para baixo do tapete. Podemos até falar em “liberdade de escolha” mas apenas quando ela se limita às cesarianas, obviamente sob cuidado médico. Se for uma escolha pelo parto em casa, aí a escolha livre e independente da mulher se torna inadequada e inaceitável.

O grande problema – na maioria das vezes não percebido – é o SEQUESTRO do parto pelo discurso médico. O parto é contado dentro de uma narrativa de submissão e alienação por parte das mulheres, enquanto nessa mesma visão os médicos são heróis e salvadores da natureza cruel e traiçoeira que habita o corpo das mulheres.

Nessa narrativa “oficial” a mulher é sempre passiva, como uma Princesa Bela Adormecida, inútil, inerte, imóvel e que necessita do beijo intrusivo (aliás, não consentido) para salvá-la de seu corpo fraco e insuficiente. Porém, para que o parto continue a ser um processo masculino e fálico – pois penetra, invade, muda e repara – é necessário que a princesa continue dormindo. E ainda vemos MILHÕES de mulheres que seguem a narrativa heroica do príncipe que salva a ingênua princesa que colocou o dedo onde não devia. Dormem solenemente aguardando que a medicina venha a reparar seus corpos mal feitos e degenerados.

É fácil fazer disputas de artigos. Só acho inútil. Para as parteiras é fácil fazer críticas à corporação médica porque elas estão protegidas pela sua própria corporação. Para os médicos obstetras humanistas se trata de uma luta de David contra Golias, e por isso não pode ser surpresa a existência de uma onda de ataques da corporação contra os profissionais que ousam questionar a narrativa médica em contraposição à narrativa das próprias mulheres em relação ao parto.

É inegável que nos encontramos no meio de um processo de transição, mas enganam-se os que pensam que as evidências científicas – para qualquer lado – serão o fiel da balança. Aprendi a duras penas que a “verdade” (sintam-se livre para interpretar esta palavra como quiserem) não é capaz de puxar o gatilho das mudanças. As evidências científicas surgem apenas DEPOIS de mudarmos a cultura, e esta se modifica sempre de baixo para cima, através de uma transformação na forma de vermos OS MESMOS fenômenos, mas agora sob uma nova ótica. O parto – por ter sido sequestrado pelo discurso médico – é visto como um procedimento da medicina aplicado sobre um “paciente”, isto é, um sujeito passivo sobre cujo corpo atuamos, independente de sua aquiescência. O mesmo modelo é utilizado sobre quem vai operar um tumor de mama, uma pedra no rim ou tratar com antibióticos uma infecção pulmonar; o desejo do paciente é desimportante. A expropriação do parto pela medicina, retirada das mãos das mulheres e colocada nas mãos dos médicos, está na gênese da violência obstétrica e do intervencionismo desmedido.

Podemos acrescentar à esta equação o fato de que o parto ocorre no corpo das mulheres em um contexto de patriarcado decadente, mas ainda atuante, o qual coordena as relações sociais como um “cimento” forte o suficiente para produzir coesão. Assim, tal contexto produz mulheres que oferecem seus corpos à medicina em troca de uma suposta (e ilusória) segurança.

Da mesma forma como os sionistas em Israel precisam criar uma fantasia de “ataque iminente” dos pobres palestinos para justificar seus massacres, os médicos precisam exaltar os perigos tremendos escondidos nos corpos grávidos de suas pacientes para justificar as intervenções pelas quais determinam e mantém seu domínio.

Não há dúvida que todos os profissionais que ameaçarem a narrativa hegemônica vão sofrer os ataques de uma corporação acuada, de uma forma ou de outra. Os relatórios de violência obstétrica, desde os da Fundação Perseu Abramo e os demais que se seguiram, denunciam apenas a ponta do Iceberg. Os obstetras, pela primeira vez na história, sentem-se pressionados pela opinião pública, e os profissionais sentem-se confusos porque nunca imaginaram que a forma como veem os partos pudesse ser apenas uma das maneiras de interpretá-lo, e não a “forma científica e correta”.

Os ataques aos médicos humanistas assemelham-se aos raids aéreos e as bombas sobre Gaza. É um aviso: “não ousem questionar nosso poder ou muitos mais sofrerão”.


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Cultura

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É muito triste ver como a insensatez impera na atenção ao parto em várias partes do mundo. Mais importante do que o acolhimento e a atenção técnica primorosa são o controle e os interesses corporativos. Entretanto, não é a tecnologia o fator fundamental que diferencia um parto no norte da Europa de um no leste europeu. O grande diferencial é a CULTURA e sua especial forma de enxergar – e tratar – as mulheres.

Assim, a principal revolução não será pela aquisição de equipamentos, materiais, drogas e leitos hospitalares, mesmo que saibamos de sua importância e papel na boa atenção ao parto. Não, a verdadeira mudanca será cultural, passando do atual paradigma de atenção para um que respeite as mulheres como sujeitos íntegros, capazes de tomar decisões por si mesmas e com plena autonomia.

Enquanto as mulheres forem consideradas de forma diminutiva e demeritória nenhuma aquisição tecnológica irá contemplar as reais necessidades que o nascimento seguro e empoderador demanda.

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Força Compriiiida…

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A manobra de Valsalva para apressar o período expulsivo é o padrão do parto conduzido e comandado pela obstetrícia contemporânea. “Força comprida”, “Força de cocô” junto com o indefectível “não para, não para, não para” fazem parte do que eu chamo de “mantra obstétrico”, que muito mais serve como um esforço exonerativo das angústias dos profissionais presentes do que como auxílio possível à mulher que esta parindo. Creio que este tipo de discurso existe por razões inconscientes, mas inquestionavelmente poderosas.

O esforço solicitado às mulheres que atravessam o segundo estágio do trabalho de parto é o mesmo que homens fazem para evacuar. Para a percepção masculina, a expulsão fetal precisaria ser feita com a musculatura e o tipo de esforço que – para a nossa experiência corporal – parece ser a mais racional. Por isso pedimos que mulheres, no momento apical de sua feminilidade, sejam “bravas”… como homens.

Como o parto é controlado por uma lógica masculina, e em função da necessidade de criar correspondências sensoriais possíveis aos homens, esse modelo se estabeleceu como o preponderante na obstetrícia ocidental iatrocêntrica.

Para mudar esse padrão talvez seja necessário “repaginar” o parto, transformando-o novamente em uma experiência feminina, controlado por um modelo igualmente feminino.

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Partos e Barbas

“Se o parto ocorresse nos homens ninguém ousaria questionar a decisão sobre onde ele ocorreria. Por outro lado, se a barba crescesse nas mulheres, ela seria tratada como um crescimento anômalo e perigoso de pelos faciais, que demandaria tratamento e intervenção médica.”

A análise do parto – e seus riscos – como um fenômeno meramente biológico, que ocorre sobre corpos reais, sem linguagem e sem alma, é o que mais me espanta nos debates sobre local de parto. A interface que se cria entre questões de gênero e poderes corporativos fazem desse tema um prato cheio para as discussões contemporâneas sobre liberdade e autonomia para as mulheres. O crescimento dessa modalidade, na Europa, nos Estados Unidos e mesmo no Brasil, vem na esteira de questionamentos cada vez mais intensos sobre a interferência do biopoder sobre as decisões soberanas de mulheres sobre seus corpos e seus destinos. Esta tendência crescerá de forma muito intensa nos próximos anos, pois que não há como retroceder quando se trata de liberdades conquistadas.

Cada vez que eu vejo colegas publicando trabalhos enviesados sobre local de parto, negando-se a olhar para trabalhos PROSPECTIVOS de partos PLANEJADOS, embasando POLÍTICAS de saúde – como na Holanda ou Inglaterra, que inserem o parto domiciliar como alternativa válida e recomendável – eu percebo que “risco” e “segurança” são palavras usadas por estes debatedores para encobrir os verdadeiros valores ameaçados: Poder e Controle.

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