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Estratégias

Tenho visto nos últimos 30 anos algumas iniciativas que objetivavam “humanizar” a atenção e aumentar o índice de partos normais (vaginais) em serviços públicos e privados. A quase totalidade dessas propostas foram fracassos retumbantes, o que se pode perceber facilmente ao se analisar a curva ascendente de cesarianas nos ambientes hospitalares de ambos os modelos.

A maioria das estratégias se fixava no “treinamento” e capacitação de profissionais ou nas modificações ambientais dos centros obstétricos. Lembro do hospital escola da minha cidade onde, durante minha passagem pela residência médica, construiu-se uma cadeira de parto de cócoras para incrementar a prática de partos verticais. Quando fui visitar o hospital dois anos após minha saída a cadeira era um ferro velho jogada em um almoxarifado; ninguém se interessou em realizar partos verticais e o aparelho acabou esquecido. Hoje em dia o mesmo ainda ocorre: passados mais de 25 anos e os partos neste hospital universitário continuam sendo no modelo antigo, com a paciente deitada imóvel de costas em uma maca. A liberdade para escolher a melhor posição de parir não é uma escolha da mulher: é do sistema.

Os treinamentos de profissionais também se mostraram totalmente inefetivos para modificar condutas. Evidências científicas são sementes que germinam apenas se o “terreno” onde foram plantadas tenha sido previamente fertilizado por uma abordagem que inclua elementos mais etéreos como o sentimento, a ética e o afeto.

Carl Rogers dizia que perdemos tempo demais em “treinamento”, que seria mais bem utilizado em “seleção”. Pedir para profissionais educados na lógica da intervenção que atuem de forma suave e humanizada nunca surtiu efeito, e não creio que a insistência nessa visão possa nos levar a uma modificação no resultado. “Se quer chegar a lugares diferentes, não trilhe os mesmos caminhos“.

A diferença, ao meu ver, não virá com as mesmas pessoas e nem com aparelhos e apetrechos. Estes últimos, desprovidos de alma, são facilmente esquecidos e desprezados se não houver material humano que os ilumine e lhes dê vida. A diferença, como é fácil de confirmar, está nas pessoas.

A presença das Doulas no cenário do Parto é o grande diferencial surgido a partir dos anos 80. O acréscimo do componente emocional, afetivo e psicológico que elas oferecem é capaz de suprir a falha – apontada pela antropóloga Wenda Trevathan – do sistema médico em “reconhecer e trabalhar com as necessidades emocionais relacionadas com esse evento“. Assim, a incorporação dessas personagens criou o terreno adequado para recriar o “Círculo de Apoio”, marca ancestral na atenção aos momentos de passagem como o nascimento, a morte e o parto.

Reconhecer a importância do suporte oferecido pelas doulas é essencial para valorizar o parto normal humanizado. Muito mais do que treinar profissionais, comprar aparelhos ou mudar a ambiência (que também tem importância, porém menor) é fundamental mudar a face da atenção ao parto. Isso precisa ser feito acrescentando os elementos que constituem a essência do suporte ao nascimento desde as eras mais primitivas, as quais se perdem na bruma dos tempos: o auxílio amoroso, cálido e contínuo que as doulas oferecem às gestantes durante o mais sagrado dos rituais.

Os resultados estão aparecendo, basta ter olhos de ver e ouvidos de ouvir…

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Bom Começo

Bom Começo

Oferecer um “bom começo” a uma criança, assim como uma experiência marcante para uma mãe, é o melhor que nós, como cuidadores, podemos proporcionar. Entretanto, do ponto de vista subjetivo, aquilo que esta mulher fará com sua experiência não nos cabe julgar ou aquilatar. Essa experiência inicial pode ser fundamental para a estruturação do novo ser que surge, assim como o estímulo essencial para a mãe que nasce…. ou não. Existem muito mais nesse processo do que a simplificação de uma via de parto.  Por outro lado, reconhecer que a via de parto não é “tudo” não implica em dizer que o esforço por um parto normal não tem significado. Da mesma forma, um homem não é menos humano por não ter as pernas ou ser surdo; todavia ninguém sugere cortar pernas ou ensurdecer sujeitos partindo da ideia de que “ninguém é menos homem por isso“.

Valorizar o parto normal significa apenas esforçar-se para que o nascimento seja o mais seguro e mais pleno de significados, mesmo reconhecendo que estes valores são apenas alicerces iniciais – fortes e firmes – para a construção que virá a seguir: a moldagem de um sujeito e de uma mãe. Desmerecer uma mulher por ter feito – ou escolhido – uma cesariana não é atitude de um verdadeiro humanista. Entretanto, questionar estas escolhas, e em especial o abuso de cirurgias realizadas por causas menos nobres, é dever de quem procura uma atenção ao parto mais segura e feliz, assim como uma humanidade mais justa, digna e fraterna.

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Partos extra-hospitalares

Grito primal

Sobre os debates em relação aos partos extra-hospitalares…

Debato estas questões há 30 anos, e virtualmente há 16 anos. Já participei de “pegas” muito mais violentos na minha comunidade “Parto Humanizado” no falecido Orkut. Aquilo sim era baixaria. Todavia hoje em dia – graças à muita idade – eu não participo de nenhum debate em que o nível esteja abaixo do padrão mínimo de civilidade. Descobri que “caps lock” e gritaria é proporcional à falta de argumentos. Quando o volume da voz ou, no caso virtual, agressões “ad hominem” ocupam o lugar de argumentos bem construídos, é hora de abandonar o debate. Faço isso sistematicamente. Já fui atacado por todos os lados por ter ideias que muitas vezes agridem o “senso comum”, mas prefiro a impopularidade à falsa luz dos aplausos fáceis.

Se querem saber minha opinião franca a respeito do parto domiciliar, eu até posso expressar. Existem temas muito interessantes escondidos nos argumentos de todos os lados, e eles são uma amostragem bem interessante do nosso código social valorativo.

Primeiramente, esse NÃO É um assunto médico, da mesma forma que “aborto” também não é. Essa é uma questão HUMANA, em que a medicina tem uma visão a oferecer, mas que está pareada com muitas outras tantas visões, como a sociologia, a antropologia, o direito, a psicologia, a psicanálise e tantas outras quantas forem as abordagens possíveis de um fenômeno de múltiplas interpretações. O erro é chamar médicos para mostrar sua visão sobre o tema e lhes oferecer a “opinião definitiva”, como se eles tivessem um conhecimento superior sobre a totalidade do fenômeno, quando em verdade dominam apenas uma parcela desse conhecimento.

O que você diria, por exemplo, se um médico fosse chamado a opinar sobre “açúcar” e, a partir de um posicionamento da corporação, lhe proibisse (e todos os demais) de comer qualquer doce, baseado em pesquisas relacionando açúcar com obesidade, diabete e infarto? Acharia um abuso? Pois é assim que muitas mulheres se sentem a respeito dos médicos proibirem (direta ou indiretamente) mulheres de terem seus filhos no lugar onde desejam.

Os riscos relativos (pois que os absolutos são baixos até para cesarianas) de qualquer ação humana não podem regular isoladamente os procedimentos, sejam eles quais forem. Quer um exemplo?

Se você viajar de ônibus para São Paulo (não importa onde esteja) o risco relativo é MAIOR se compararmos a mesma viagem feita de avião. Pergunto: é justo proibir que as mulheres viajem com seus filhos de ônibus para São Paulo porque existe uma opção mais segura? Se você responder NÃO, então concorda com todas as pessoas que defendem o parto domiciliar, mesmo que conseguisse (o que é improvável) provar que ele é mais arriscado do que a modalidade hospitalar. Se você responder SIM, entre na justiça agora mesmo e quebre todas as empresas de ônibus interestaduais.

Assim sendo, avaliar riscos relativos é uma forma fácil de entrarmos em erro. A outra questão é própria do debate: não há sentido algum em considerar o parto como sendo um ato médico, pela mesma razão que a alimentação, a evacuação e a atividade sexual não o são. Portanto, oferecer a última palavra sobre sua alimentação, trabalho intestinal ou vida sexual aos médicos é um equívoco, pois muito mais existe nestas ações que possam caber na explicação fisiológica que os médicos possuem. O desejo sexual, o gosto pelos alimentos e a excreção obedecem ordenamentos do simbólico que estão muito além do entendimento orgânico que um médico pode oferecer.

A partir dessas considerações fica mais fácil entender que parto domiciliar, ou “parto no local de escolha da mulher“, tem a ver com direitos humanos reprodutivos e sexuais, mais do que qualquer outra coisa. Não é por acaso que as pesquisas prospectivas na Inglaterra demonstraram que se trata de uma opção segura, que pode ser estimulada entre as pacientes do sistema público de lá. Os ingleses não são tolos ou idiotas e, como diria Sting, “The brits love their children too“. Local de parto é um DIREITO de escolha da MULHER, e não do médico (que serve para aconselhar e orientar). Portanto, o médico deve acompanhar estas decisões soberanas de suas pacientes, como expresso nos códigos de ética médica de qualquer lugar do mundo.

Obstaculizar o acesso de médicos aos seus pacientes através de coerção, ameaças ou violências (explícitas ou implícitas) é um crime contra a liberdade de escolha e uma violência contra a autonomia. Qualquer ação nesse sentido deve ser repudiada em nome da democracia e da autodeterminação. Mais do que uma ação “feminista” (por proteger as mulheres e garantir a elas o direito de escolha) ela é uma agressão aos seres humanos, tolhidos da possibilidade de escolher seus valores e assim construir seu destino.

Para finalizar, melhor faria a corporação médica em se espelhar nas ações de grandes democracias europeias e regulamentar o parto extra-hospitalar, para que, assim debatido, ele pudesse ter os melhores resultados. Quantos resultados negativos nesta modalidade de atenção ocorreram pelo preconceito dos colegas ao receber uma transferência no hospital? Quantas vezes parteiras aguardaram mais do que deviam pelo medo da humilhação a que seriam submetidas por um sistema preconceituoso, fechado e que criminaliza as decisões soberanas tomadas pelos pacientes?

Para que as mulheres possam ter a máxima excelência na atenção precisamos nos desfazer de todos os resquícios de autoritarismo na atenção à saúde, ao mesmo tempo em que reforçamos a cidadania e a autonomia como valores fundamentais na assistência ao parto.

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Parto Seguro

SIMERS

Hoje o Sindicato Médico do meu estado estará se reunindo para debater a seguinte pauta: Parto Seguro X Parto “dito” Humanizado. Além disso discutirão as responsabilidades de médicos que trabalham em lugares onde partos são atendidos por enfermeiras.

Evidentemente que a convocatória, contrapondo os partos “dito” humanizados com os “partos seguros” já demonstra um preconceito inquestionável. Mais do que isso: é uma provocação contra um movimento que vai se enraizando na cultura brasileira a partir de iniciativas bem evidentes e consistentes. Negar a importância desse movimento social é o grande risco que os médicos podem incorrer se negligenciarem os fatos que se acumulam há mais de 20 anos nessa direção. Cronologicamente podemos citar:

  1. A criação da ReHuNa (1993) – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento – que já tem 22 anos de existência, de luta e de desafios em nome da humanização, com grande influência na elaboração de políticas para o parto no Brasil, além de conexões com instituições do mundo inteiro.
  2. Congressos Internacionais cada 5 anos no Rio e em Brasília, patrocinados pela OMS, OPAS, Ministério da Saúde, JICA e a própria ReHuNa, com milhares de participantes.
  3. Congressos anuais de humanização no Rio de Janeiro (Parto Consciente, Ecologia do Parto) e em São Paulo (Enapartu e Siaparto)
  4. Criação do curso de Obstetrícia na EACH da USP
  5. Lei do Acompanhante, com a garantia em lei para acompanhantes em hospitais públicos e privados em todo o território nacional
  6. Casas de Parto em várias localidades brasileiras, depois de lutas intensas pela garantia desse atendimento
  7. Capacitações de Doulas se multiplicando pelo país, levando às pacientes informações atualizadas sobre protagonismo e boas práticas nos cuidados com as gestantes durante o parto
  8. Um avanço da Medicina Baseada em Evidências como prática e discurso, deixando muitas “mitologias médicas” (Kristeller e episiotomia rotineiras, excesso de cesarianas, tricotomias e enemas, etc.) defasadas e com uma visível diminuição de sua utilização.
  9. Filmes e documentários (Orgasmic Birth, The Business of Being Born, O Renascimento do Parto, Le Premier Cri, Microbirth, etc) para o grande público mostrando a realidade do nascimento no Brasil e no resto do mundo.
  10. Participação inédita das mulheres nos movimentos sociais pelo parto normal no Brasil a partir de meados de 2012 com a “Marcha do Parto em Casa”, com mais de 5 mil participantes e 31 cidades, no Brasil e no exterior. Participação imensa dos debates sobre parto normal e cesariana nas redes sociais, com grupos de discussão, comunidades no Facebook e demais formas de participação. Criação de grupos como Amigas do Parto, Parto do Princípio, Nascer Sorrindo, Parto Alegre, Rodas de Gestantes, e tantos outros por todo o país
  11. Livros (nacionais e estrangeiros), congressos, seminários, cursos e simpósios. Por todo o lado, no Brasil e em todo o mundo.
  12. Participação do governo federal na luta contra as cesarianas desnecessárias, assim como a entrada da ANS no debate para limitar a taxa na saúde suplementar. Criação da Rede Cegonha como projeto de humanização da assistência ao parto.

Assim sendo o que vemos hoje é a culminância de uma trajetória de pelo menos 20 anos de questionamentos e críticas ao modelo assistencial ao parto, e não uma ação oportunista de grupos radicais. Não se trata de uma visão romântica ou superficial, mas uma postura engajada na autonomia feminina. Baseia-se na garantia do protagonismo à mulher no parto, na visão integrativa e interdisciplinar do evento e na ligação inexorável com a Saúde Baseada em Evidências. Portanto, o que se debate e se observa hoje em dia está sendo gestado há mais de duas décadas, e não se trata de uma aventura inconsequente sobre a assistência ao parto. Pelo contrário: trata-se de um lento amadurecimento de propostas, visões, experiências de sucesso e propostas.

Evidente que não é do nosso interesse pautar as discussões médicas, mas apenas solicitar que uma questão séria como são os projetos de humanização não seja tratada de forma desrespeitosa, irônica ou debochada. O risco que a categoria médica corre nestas situações é – mais uma vez – ficar à reboque da história, vendo os movimentos sociais promoverem mudanças sem perceber que o mundo mudou, alheios ao fato de que as mulheres estão diferentes e que as demandas por partos mais dignos e participativos estão na ordem do dia em diversos lugares do mundo.

Não faz sentido que o mundo se esforce por mudança enquanto os obstetras ficam cegos às demandas das gestantes. É preciso respeitar a voz que emerge de forma espontânea de pacientes que exigem respeito e segurança no momento central da feminilidade. Não há motivo – ou vantagem – em desmerecer esse movimento como se fosse desprezível ou fantasioso. Ele não é, e os governos do mundo inteiro se preocupam com esta questão de forma prioritária, pois se refere aos direitos humanos, reprodutivos e sexuais, para além das questões técnicas, corporativas e médicas.

Quando leio esta nota eu sempre me lembro de um fato ocorrido durante a última campanha eleitoral aqui mesmo no Rio Grande do Sul. Para um determinado setor (as elites) qualquer contraponto ao poder hegemônico “não presta“. Segundo o deputado Heiz (representante dos ruralistas): “É ali que estão aninhados quilombolas, índios, gays, lésbicas; tudo que não presta ali está alinhado.

Talvez o sindicato esteja dizendo algo parecido. “É ali que estão aninhados médicos que atendem partos normais, doulas, ANS, governo federal, enfermeiras obstetras; tudo que não presta ali está alinhado.

Quando é que nós médicos vamos perceber que esses atores na atenção ao parto tem o direito (como em qualquer democracia europeia) de participar dos debates e da assistência às gestantes e ao parto? O discurso retrógrado só poderá aprofundar o fosso que separa as demandas das mulheres do pensamento obstétrico hegemônico. E isso é ruim para TODOS, em especial o objeto de nossa atenção: mães e bebês.

Nesse rico momento de agitação é importante que os profissionais se unam às gestantes para que juntos possamos encontrar soluções para os dilemas da assistência. Se de um lado precisamos oferecer segurança às grávidas e seus bebês, por outro lado a autonomia e a liberdade são valores inquestionáveis que devem permear qualquer relação de assistência. Além disso, se as pacientes precisam ter seus direitos resguardados em nome da autonomia e da garantia do protagonismo sobre seus corpos, também os profissionais que prezam o bem-estar de suas clientes necessitam ser protegidos profissionalmente, para que possam usar sua arte e sabedoria com liberdade.

Espero que os colegas que participarem dessa reunião tenham como foco, acima de tudo, a descoberta de caminhos para garantir as conquistas da modernidade com os direitos humanos que devem ser garantidos às gestantes. Como dizia Willhelm Reich, “A civilização vai começar no dia em que o bem-estar dos recém-nascidos prevalecer sobre qualquer outra consideração“.

Hoje eu li que o Papa Francisco disse que o “inferno não é quente e que Adão e Eva não são figuras reais“. Se até a Santa Sé se moderniza e se adapta à ciência e aos costumes, porque a medicina insiste em se ensurdecer aos clamores por mais liberdade, autonomia, segurança, dignidade e protagonismo?

Espero que na reunião impere o bom senso e a visão sensata sobre o futuro da assistência ao parto.

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A forma de nascer conta

Parto orgásmico

É importante que alguns termos normalmente usados sejam esclarecidos para que qualquer debate seja mais produtivo e claro:

  • Parto normal: parto pela “norma” fisiológica, isto é, via vaginal.
  • Parto natural: parto em que a natureza comanda o processo, sem intervenção técnica ou de linguagem.
  • Parto humanizado: partos que ocorrem em uma espécie de mamíferos dotados de razão e linguagem: homo sapiens sapiens. É composto de 3 elementos constitutivos:
  • Protagonismo garantido à mulher, sem o qual teremos apenas sofisticação da tutela patriarcal
  • Uma visão interdisciplinar, portanto, aberta e abrangente, para analisar e assistir um evento humano e fisiológico, e…
  • Vinculação visceral e inquestionável com a Saúde Baseada em Evidências

Portanto a VIA DE PARTO é fundamental, pois é um caminho constitutivo da mãe e do bebê. No dizer de Bárbara Katz Rothman, “Partos não servem apenas para fazer bebês, mas para construir mães fortes e capazes de lidar com os desafios da maternagem.” O parto humanizado é, portanto, um grande capacitador materno, oferecendo à mulher as melhores ferramentas para seu posterior desempenho como mãe.

É importante não confundir esses termos, assim como é fundamental perceber que o fato de mães e bebês terem sobrevivido NÃO É o único valor significativo. Existem muitos elementos importantes no nascimento de um bebê além da simples sobrevivência dele e de sua mãe.

Se é certo que o mais importante é sobreviver – e bem – também é correto dizer que parto NÃO é tão somente “meio”. O que se percebe é que o parto é fundamental para a construção de ambos os sujeitos: o bebê que nasce e a mãe que ressurge. Como um filho adolescente que vai a um show de Rock. Claro que voltar vivo é o mais importante, mas eu certamente perguntaria se o show foi bom, porque existe mais em um show de música do que simplesmente sobreviver a ele.

Experiências humanas podem ser comparadas a um “show”, claro. Um show tem desejo, alegria, gozo, tristeza, começo e fim. E tem morbidade e mortalidade. Uma excelente metáfora. Aliás, o “Show da Vida” não nos lembra algo? Pois é… a abertura era um nascimento. Parto é SIM espetáculo…

Partos recheados de violência são eventos que TODOS deploramos. Dizer que uma cesariana é melhor que “isso” pode ser até verdade (mas ela é sempre subjetiva nos pacientes), mas não pode nos levar a ter um olhar mais condescendente com a abordagem cirúrgica (que tem sabidamente uma morbimortalidade muito maior). Partos violentos devem, pelo contrário, nos fazer combater práticas defasadas e violências institucionalizadas que ainda são a regra na atenção ao parto. “Terceira via” é a solução !!!! Nem cesariana, nem parto violento. Queremos parto de princesa!!!

Quanto à atenção é bom estar atento para o fato de que o médico NÃO faz NADA, preferencialmente, no espetáculo do parto. O parteiro (médico ou obstetriz) PERMITE que o SHOW aconteça no corpo alheio, conforme as determinações fisiológicas escritas há milênios no nosso código genético, agindo APENAS quando a rota do parto se afasta da fisiologia e entra no terreno espinhoso da patologia. Nesse momento, altera-se o protagonismo, e o médico pode fazer seu show (sua arte, suas aptidões) e garantir o bem-estar de mães e bebês. Não se trata, portanto, de excluir as habilidades e capacidades médicas, mas colocá-las apenas a serviço do binômio mãe-bebê, sem uma interferência exagerada e danosa ocasionada pelo exagero de aporte tecnológico.

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Proselitismo

Proselitismo

A humanização do nascimento tem se tornado fonte de grandes debates no cenário da atenção ao parto exatamente porque ela estabelece uma crítica aos pressupostos que historicamente governavam o cuidado com este momento tão delicado da vida de uma mulher e o início da existência de todos nós. Muitas são as formas de entender o que esta corrente do pensamento significa para a cultura, e mesmo quais são os limites de atuação dos profissionais que atuam nesta esfera conceitual. Para evitar confusões, consideramos que a atenção humanizada se apoia sobre um tripé conceitual, a saber:

  1. O protagonismo restituído à mulher, fazendo dela a condutora do processo, que só poderá ocorrer de acordo com seus desejos, aspirações e vontades. Cabe aos cuidadores serem instâncias consultivas, de suporte e aconselhamento, agindo apenas quando o processo se distancia da fisiologia e estabelece riscos para o binômio mãe-bebê.
  2. A visão interdisciplinar, colaborativa e integrativa do processo de nascimento, alargando o seu entendimento para além da visão biologizante e mecanicista, observando-o como um evento humano e subjetivo
  3.  Uma vinculação visceral com a medicina baseada em evidências, demonstrando que as propostas desta visão sobre o parto estão assentadas sobre a rocha firme da razão e da ciência, e não se constituem em uma visão romântica sobre um processo vital e significativo na cultura.

Assim, os chamados “humanistas do nascimento” são profissionais que se esmeram em produzir uma prática alicerçada na autonomia das mulheres sobre seu corpos e destinos, ao mesmo tempo que procuram oferecer o cuidado mais abrangente e mais cientificamente embasado para elas. Também é tarefa destes a educação para o nascimento fisiológico, procurando desfazer mitos e ideias errôneas historicamente disseminadas pelos milênios de visão patriarcal a embaçar a real habilidade feminina de gestar e parir com confiança e segurança. É tarefa de todos que buscam um parto mais seguro orientar as mulheres no caminho mais seguro e empoderador sobre este evento.

Por outro lado, tentar convencer mulheres a parir de parto normal não passa de um colonialismo intelectual e afetivo, um proselitismo inútil e anacrônico, que desconsidera a capacidade das mulheres de fazerem escolhas corretas diante de informações corretas e precisas. Humanização do nascimento é uma ideia a ser exposta, jamais imposta. Não nos cabe agir autoritariamente, desrespeitando sua subjetividade e o direito de escolher seus próprios caminhos. Em longo prazo torna-se muito mais efetivo direcionar nossos esforços para as mulheres que realmente desejam parir, lembrando que “desejar” é diferente de “querer”. O “desejar” se relaciona com as emoções mais densas, que brotam dos estratos mais profundos do inconsciente, regulados pelas experiências mais remotas. O “querer“, por seu turno, é consciente e superficial, racional e objetivo, portanto, enganoso, pois nossa mente frequentemente burla nossas vontades mais profundas.

Para estas que demonstram sua vinculação afetiva, psicológica e espiritual com o nascimento fisiológico devemos devotar nosso tempo e nossa arte. Para as que estão em dúvida e demonstram vontade de aprender e se informar, todo o esforço de conscientização dos benefícios do parto normal é válido. Todavia, para aquelas cuja decisão pela cesariana já fez casa em seus corações só nos resta desejar o melhor resultado possível para os desafios de uma cirurgia.

Fazer pressão em nome de NOSSAS convicções é um desrespeito à liberdade alheia.

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Cheiro Ruim

Perfume ruim

Hoje vi a última propaganda dos perfumes do Boticário. O filme começa com o anúncio da gravidez, as ecografias, a megalópole fria e feia onde a criança vai morar, os preparativos, as fotos da barriga crescendo, o último sorvete e termina…. tchan, tchan, tchan…. numa CESARIANA.

Lastimável que o exemplo de parto no Brasil é mediado por recursos tecnológicos usados de forma exagerada (ecografias) e por cesarianas. No vídeo fica claro a imagem da mãe impedida de tocar seu filho na hora em que isso é mais importante: a “hora dourada”. As imagens, para quem transita pelos caminhos da humanização do nascimento, são tristes de ver.

Todo o nascimento carrega a beleza da renovação e a esperança do futuro, seja ele de que maneira for, uma cesariana ou um parto normal. Não se trata, portanto, de desmerecer a beleza inerente da vida brotando em um nascimento. Entretanto, usar como EXEMPLO de nascimento uma cesariana apenas deixa mais evidente o atraso do Brasil em relação às grandes democracias no combate à banalização da cesariana. Propagandas como esta, vistas no exterior, dão a clara ideia de que no Brasil o normal da classe média (os usuários de perfumes do Boticário) é o nascimento pela via cirúrgica. A cesariana é limpa, moderna, chique e superior. Tudo errado, tudo falso. Cesarianas arriscam de forma clara e inquestionável o bem estar de mães e bebês. Este tipo de publicidade é lamentável e apenas reafirma nossa necessidade de mudar a atenção obstétrica cafona que este país tem.

Uma lástima Boticário…. Suas usuárias são “Too posh to push“, right?

Com tanto parto bonito e empoderador para apresentar preferiram se manter fiéis à classe média – a mais sofrida e castigada pelos abusos de cesariana – como estratégia de marketing. Para estas empresas, mais importante do que enfatizar um novo conceito – o parto humanizado, com óbvias consequências na saúde pública – é manter em alta a venda de seus produtos.

Publicitários precisam entender que uma propaganda não é boa apenas quando aumenta os lucros, mas quando imprime uma marca positiva na cultura. Propagandas assim tem cheiro ruim…

Nossa queixa é que a propaganda auxilia de forma marcante a banalização da cesariana. Se por exemplo, a propaganda mostrasse esta mãe fumando durante a gravidez poderíamos dizer que foi uma “escolha” dela, e que isso reflete a liberdade de determinar o que deseja. Verdade, mas o quanto esta conduta influenciaria outras mulheres? Como combateríamos o fumo na gravidez se uma propaganda associa felicidade, nascimento e vida com cigarro? Cesarianas desmedidas tem impacto na saúde das mulheres e precisam ser combatidas da mesma forma como tentamos diminuir cigarros e álcool na gestação. Concordo que “não podemos colocar a CAUSA em tudo“, mas eu acho que colocar cesarianas como o paradigma da gestação feliz é demais. Se esta moça filmou toda a sua gestação e ela terminou em uma cesariana, sinto muito, mas essa mensagem não pode ser veiculada. Se ela fuma, sinto muito. Não dá mais para tratar dessas questões sem – pelo menos – oferecer uma crítica severa e um contraditório.

Banalização de uma conduta se faz nos detalhes, e não com discursos grandiloquentes. Banalização das drogas é colocar um cara fumando maconha durante 15 segundos de um filme, e não fazendo um longa metragem sobre “as maravilhas da Cannabis”. Fica muito complicado o debate sobre o abuso dessa cirurgia quando a publicidade brasileira continua tratando como uma coisa bonitinha, uma opção como qualquer outra, tipo a cor do esmalte ou o corte de cabelo. Não, eu acho demais. Não tem mais como continuar estimulando essas práticas no Brasil. Não é por outra razão que somos os campeões mundiais de cesariana: ela é tratada com requinte e glamour em todos os espaços.

A queixa, entretanto, nem é exatamente contra a publicidade ou os publicitários, que talvez tenham feito um trabalho sob encomenda ou aquilo que lhes foi solicitado por uma empresa que avalia a preferência dos consumidores desta marca. Nosso incômodo é ver a cesariana – mais uma vez – banalizada e tratada como “perfumaria”. Escolhe-se por fazer uma cesariana como quem escolhe um dos perfumes da empresa. “Liberdade de escolha”, não? Pois é…. mas quando analisamos a barbárie das cesarianas desmedidas e abusivas no Brasil entendemos que este descontrole só pode acontecer exatamente porque a cesariana é tratada assim no imaginário popular. Talvez a deformidade nos pés das chinesas que usavam sapatos pequenos só foi possível porque era tratada como uma coisa corriqueira. A clitoridectomia talvez seja descrita em África como um “cortezinho” que cicatriza rápido e “ajeita” a deformidade natural da vagina. A circuncisão, prática medieval e amputativa da sexualidade masculina, é tratada pela cultura como uma cirurgia que retira a pela “que sobra” no pênis de crianças indefesas.

É assim que se constrói uma cultura: nos detalhes, na forma de descrever, na maneira de contar, no jeito que escolhemos relatar um fato, um evento ou uma cirurgia. O que é uma propaganda de TV senão uma história que se conta? O que é a publicidade senão uma janela da cultura, uma forma de absorver e observar os nossos valores e nossas características. Um comercial que trata a cesariana de forma tão “natural” e “banal” contribui para a construção de uma ideia positiva, afetiva e moderna de uma cirurgia que – como bem sabemos – só deveria ser usada em casos excepcionais. Não é à toa que propagandas de cigarro são proibidas: elas sempre tentaram vincular o cigarro ao sucesso profissional e erótico. Essa propaganda do Boticário faz o mesmo: vincula a cesariana ao sucesso de uma história de amor, e por isso ela deve ser repudiada.

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Coincidências ou Plágio?

Birth woods

Um fato curioso ocorreu há alguns dias concernente à discussão da humanização do nascimento no nosso meio. Diante de um questionamento sobre “parto humanizado” e “parto domiciliar” eu escrevi um pequeno texto de dois parágrafos na minha timeline do Facebook que reafirmava um antigo posicionamento meu sobre os elementos que compõem o conceito de “Humanização do Nascimento”. Esta definição foi expressa no meu segundo livro “Entre as Orelhas – Histórias de Parto”, no capítulo “Parir Sozinha”, na página 223. O texto que eu publiquei tinha como objetivo desfazer a confusão que ainda existe sobre “humanização do parto” e “parto domiciliar”. Aqui está o que foi escrito no Facebook:

O parto humanizado se sustenta sobre um tripé conceitual:

1 – Protagonismo da mulher
2 – Visão interdisciplinar e integrativa
3 – Respeito à MBE (Medicina Baseada em Evidências).

Portanto, LOCAL DE PARTO, não qualifica ou desqualifica parto humanizado. Pela conceituação acima pode-se perceber que é possível encontrar partos humanizados em qualquer ambiente. E os “desumanizados” também. Precisamos educar as pessoas para que não confundam mais partos humanizados com partos em casa.

De forma surpreendente recebemos, uma semana depois, um texto OFICIAL da Febrasgo (Federação das Associações de Ginecologia e Obstetrícia do Brasil) em que vários pontos foram chamativos (o texto na íntegra pode ser lido abaixo, assim como sua referência no site da Febrasgo). Entre os pontos interessantes do documento podemos citar:

“O reconhecimento do parto domiciliar como uma das opções válidas das mulheres que procuram um parto humanizado, o que é uma virada histórica na postura desta associação. Antes de criar “terrorismo”, induzir a medos infundados, basear-se nas conhecidas pesquisas repletas de análises equivocadas, preferiu colocar-se a uma posição equidistante e respeitando a soberania da mulher em fazer escolhas informadas.

Estimula a criação de um “Plano de Parto”, antiga reivindicação dos ativistas da humanização do nascimento, mas que sempre foi visto com muita reserva por parte dos profissionais obstetras.”

O mais interessante: o texto se utiliza da MESMA classificação criada por mim há mais de dez anos para definir e conceituar o que seria um parto humanizado, como pode ser visto aqui em um dos capítulos do livro de 2004 “Entre as Orelhas – Histórias de Parto”:

Durante os últimos 15 anos eu me debrucei sobre a aplicabilidade de um su­porte humanístico a um evento complexo como o nascimento humano que, ao mesmo tempo em que se distanciava do “naturalismo”, também guardava uma distância considerável do modelo contemporâneo da “tecnocracia”. Diante desse questionamento, eu estabeleci um modelo de assistência huma­nizada ao nascimento que se assentava sobre um tripé conceitual: O protagonismo restituído à mulher, sem o qual estaremos apenas “sofisti­cando a tu­tela” imposta nos últimos milênios pelo patriarcado. Uma visão integrativa e interdisciplinar do parto, retirando deste o cará­ter de “processo bi­oló­gico”, e alçando-o ao patamar de “evento hu­mano”, onde os aspectos emocionais, fisiológicos, sociais, culturais e espirituais são igualmente valorizados, e suas específicas necessi­dades atendidas. Uma vinculação visceral com a Medicina Baseada em Evidências, dei­xando claro que o mo­vimento de “Humanização do Nascimento”, que hoje em dia se espalha pelo mundo in­teiro, funciona sob o “Império da Razão”, e não é movido por crenças religio­sas, ideias místicas ou pres­supostos fantasiosos.

O texto deixa claro – e de forma inquestionável – a mesma opinião que eu já havia expressado anteriormente sobre a inexistência de relação entre o conceito de “parto humanizado” e o local onde ele será realizado. Isto é, o parto pode ser humanizado ou não, independente se for no hospital, numa casa de parto ou no domicílio. Como afirmamos há mais de 20 anos, a humanização do nascimento é uma ATITUDE de respeito ao protagonismo da mulher, à visão integrativa e interdisciplinar e à medicina baseada em evidências. O local do parto, apesar de ser uma escolha importante para o conforto e a segurança de toda a mulher, não qualifica (ou desqualifica) um parto humanizado.

Coincidência? Eu não creio.  Sincronicidade? Talvez… Acredito que de forma cada vez mais clara as associações médicas estão modernizando seu discurso e sua postura em direção a uma visão mais respeitosa com a autonomia das mulheres e o protagonismo sobre seus partos.  Tal fato ocorre especialmente pelo crescimento do ativismo do parto normal e da pressão que as mulheres estão exercendo sobre a mídia (em especial as Redes Sociais) e os cuidadores sobre a temática do parto normal e a necessária reforma na atenção às mulheres neste período tão significativo. A Febrasgo através de seus líderes reconhece a necessidade de mudança, percebe a importância de incluir o parto domiciliar como um desejo LEGÍTIMO das mulheres e assume como suas as reivindicações históricas da ReHuNa (Rede pela Humanização do Parto e Nascimento) e de todos os grupos favoráveis ao parto humanizado neste país. Só nos resta saudar a postura renovadora e consciente de seus líderes, que perceberam a urgência de promover mudanças em direção ao pleno protagonismo feminino no nascimento, e no reconhecimento da VALIDADE destas escolhas.

Veja abaixo o texto da Febrasgo, e compare com os textos que publicamos uma semana antes no Facebook e dez anos atrás, no livro “Entre as Orelhas”:

Parto pode ser humanizado independente do local ou das intervenções Cada vez mais, aparece o termo “Parto Humanizado” nos grupos de discussão de parto nas redes sociais, nos sites dos profissionais que prestam atendimento obstétrico e na mídia. Mas, na verdade, pouquíssima gente sabe realmente o que  significa humanizar a assistência ao parto. O parto humanizado não é uma técnica de parto. Não é o mesmo que parto domiciliar, e também não é o mesmo que parto natural. Independente do local ou das intervenções, o parto pode ser humanizado. Assim como pode haver parto em casa ou parto natural que não é humanizado. “O parto humanizado é um conceito, onde o tempo do bebê e os desejos da mulher são ouvidos e respeitados.” E no caso de algum desejo da mulher não poder ser atendido, os profissionais que estão assistindo-a irão explicar o porquê, qual intervenção é necessária e ela dará seu consentimento.

Portanto, incentivar que a gestante/casal elaborem um plano de parto e compartilhem com as pessoas e/ou instituições que irão prestar assistência ao parto e nascimento desse casal deveria ser indiscutível e imprescindível para instituições/profissionais que dizem prestar assistência humanizada. O parto humanizado pode acontecer em um hospital, casa de parto ou na casa da parturiente, com equipe que assista a mulher com base em evidências científicas, sem terrorismos desnecessários. (o grifo é meu) O parto humanizado pode ser natural ou pode precisar de intervenções, a pedido da mulher (como a analgesia por exemplo) ou por indicação do profissional que está assistindo ao parto.

Sendo assim, podemos dizer que a humanização do parto e nascimento tem como base três pilares:

1- respeito à autonomia e protagonismo da mulher durante o processo da gestação, parto e pós-parto, com foco na fisiologia destes processos individualizando o olhar para cada binômio.
2- respaldo das condutas obstétricas e neonatais em evidências científicas recentes e de qualidade.
3- assistência multiprofissional e integral à gestante, parturiente, puérpera e bebê. Não há como humanizar realmente uma assistência quando o cuidado é prestado por apenas um profissional. Portanto a inserção de profissionais com olhares diferentes no cenário da assistência obstétrica e neonatal é imprescindível quando se deseja prestar um modelo humanista de atendimento.”


Veja aqui no site da Febrasgo: http://www.febrasgo.org.br/site/?p=10807&hc_location=ufi

(PS: o artigo foi retirado do ar…. outra coincidência?)

2 Comentários

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Híbridos

Partolandia

No link abaixo pode-se escutar uma entrevista de um médico em período de transição, o que é interessante de analisar do ponto de vista das modificações lentas e graduais nos paradigmas e no “campo simbólico” que governa o nascimento humano. O profissional é o que se poderia chamar de “híbrido”: de um lado mantém-se colocado ao lado do paradigma médico intervencionista, mas percebe-se o seu real interesse em estabelecer uma crítica a este modelo. Ao mesmo tempo em que apoia o protagonismo do nascimento e as posições verticalizadas (o que infelizmente é raro entre os profissionais médicos) ainda insiste no mito da “cesariana humanizada”, usa o termo “parto cesárea“, investe na tese dos “riscos possíveis do parto na água“, e outros ideias que julgo ultrapassadas. Diz que não gosta do termo “parto humanizado”, e que prefere o “parto natural”.

Minha posição clara e histórica a este respeito é pela impossibilidade absoluta de seres humanos terem “partos naturais”, exatamente porque seres humanos dotados de linguagem são incapazes de se inserir no mundo natural. Seres humanos não são objetos da natureza, mas agentes, sujeitos de seu destino. A entrevistada também insiste na ideia de que o parto humanizado “não precisa ser vaginal”, pois que a cesariana também pode ser feita sob este paradigma.

Os pontos positivos aparecem na ideia de não interferência no processo e na postura clara de “restituir o protagonismo”. Durante a sua fala cita até “partolândia”, um termo consagrado há muitos anos em nossas falas. Ao que parece está cada vez mais claro que a humanização do nascimento, como há muito tempo reclamamos, parte de uma visão de direitos humanos reprodutivos e sexuais, onde o DIREITO de escolha por parte da mulher ocupa a posição central. “Humanização do Nascimento é restituir o protagonismo a mulher, o resto é apenas sofisticação de tutela”, já me dizia o colega Max há mais de 30 anos.

A entrevista mostra que é impossível ficar alheio à humanização do nascimento e as transformações inerentes a este novo paradigma quando se trabalha no dia a dia com um novo padrão de “clientela”. As MULHERES – únicas e legítimas proprietárias desta revolução – estão mudando a cabeça dos médicos aos poucos. Não há como voltar atrás: esta revolução veio para ficar.

http://www.ebc.com.br/infantil/para-pais/2015/03/parto-humanizado-e-como-todo-o-parto-deveria-ser-diz-obstetra

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Cesarianas e Mamadeiras

Bisturi-Mamadeira

No Brasil, em especial na minha cidade, não eram apenas os obstetras a reclamar de posturas conservadoras em relação à utilização desmedida de cesarianas. Falar em “segurar a mão”, respeitar a fisiologia do parto e estimular o parto normal produzia um incômodo para os médicos de outras especialidades, em especial a pediatria. Em verdade existe mais do que o meramente manifesto no discurso sobre as cesarianas.

Para a medicina a cesariana representa a vitória da técnica e da razão sobre a selvageria dos corpos; a mente sobrepujando o destino. Se é verdade que a cesariana, em suas origens, nos oferecia esta promessa redentora, há muito deixou de ser esta peça fundamental na manutenção das vidas em jogo. Tamanho foi seu desvirtuamento que hoje seu uso abusivo representa uma real ameaça ao bem estar de mães e bebês.

Eu costumo analisar estes fatos de forma comparativa, pois essa visão nos ajuda a prever os passos seguintes. O movimento da amamentação também tinha a sua “cesariana”: a fórmula láctea, a mamadeira. Abolir seu uso, ou minimamente discipliná-lo, significava criticar um objeto icônico da revolução feminista. Para cada passo em direção a uma legislação mais constritiva para os leites artificiais grupos ligados à liberação feminina protestavam, pois as mamadeiras representam a liberdade conquistada pela mulher dos grilhões da sua biologia. Com as mamadeiras foi possível alimentar seu filho e manter seu emprego na fábrica, ganhando com isso a autonomia fundamental para uma vida livre e independente. As mamadeiras eram mais do que cilindros de vidro com leite artificial: eram armas poderosas contra a opressão.

A experiência humana nos deixa claro que não há como dar passos para trás. A humanização do nascimento entende a importância e relevância dos recursos tecnológicos para a melhor qualidade possível do parto, e para isso a cesariana continuará existindo. Da mesma forma a liberdade e autonomia das mulheres é uma conquista que não permite retrocesso. Em ambos os movimentos é imperioso que se encontre o bom senso e que a saúde dos pacientes se estabeleça acima de qualquer consideração. Quando recursos originalmente designados a auxiliar produzem entraves, é o momento de adotar uma postura crítica e rever posturas e conceitos.

Médicos estão convidados a fazer esta reflexão sobre os caminhos do cuidado com as gestantes. Se a tecnologia – apanágio da razão – é ferramenta essencial, mais ainda o bom senso e as evidências científicas devem ter papel preponderante nas escolhas.

La OMS pide que las cesáreas sólo se hagan cuando sea clínicamente necesario

http://www.lavanguardia.com

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