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Fabrício e Adelir

Fabrício-Adelir

Exatamente nos umbrais de abril, um ano depois de Adelir ser forçada a realizar uma cesariana sob ameaça e coerção, um jogador de futebol se rebela, joga a camisa do clube que o sustenta ao solo, sai de campo vaiado, recebe ofensas de todo tipo (raciais?) e termina seu ato dizendo que vai embora para não mais voltar.

Qual a relação entre estes dois fatos, ocorridos na mesma terra, no extremo mais conservador do Brasil?

Não creio em coincidências, e muito menos que a distância entre estes fatos não possa ser ultrapassada com um pouco de análise crítica. Penso que os valores que circulam no campo simbólico acabam se acumulando sobre as nossas cabeças como nuvens, as quais por fim se precipitam sob a forma de raios e tormentas aparentemente sem causa, diante de fatos cuja intensidade oportuniza uma fissura na casca protetora dos discursos.

Os elementos que ressaltam em ambos os casos são relativos à forma como a sociedade enxerga estes personagens. Se de um lado Adelir era uma “máquina de parir” à nossa disposição, cujo produto – o bebê – a nós pertence, também Fabrício é uma “máquina de jogar”, cujo passe pertence ao clube, e sua arte a todos nós. Um jornal local chegou a chamar Fabrício de “um ativo financeiro do clube” e que, por isso (seu valor como mercadoria), deveria ser preservado.

Em ambas as situações os sujeitos coisificados se rebelaram.

Adelir refugiou-se em sua casa com uma doula, aguardando o momento mais adequado – o mais tarde possível – para chegar ao hospital, esperando com isso conseguir seu parto normal. Foi ameaçada, trazida de casa por policiais armados e sem chance de defesa. Sucumbiu ao poder maior dos proprietários de corpos, os que manipulam nossa vida em nome de uma ordem imutável. O objeto de parir foi conduzido para o lugar que a cultura designa, sem qualquer autonomia sobre sua vida e seu destino. Calou seu corpo e submeteu-se à lâmina fria que cortou seu ventre e seu sonho.

Fabrício também deu seu grito de basta. Com as vaias e apupos trancados na garganta, misturados com uma história pessoal de perdas, dores, mágoas, tristezas e decepções, ele explode de raiva e indignação incontidas. O objeto de jogar chora e grita em campo, afasta-se dos companheiros, xinga a turba ensandecida, caminha de cabeça erguida para o vestiário e grita para todos “eu vou embora, aqui não jogo mais“.

Nós testemunhamos um sujeito se desmanchar emocionalmente em campo. Quase todos viram um jogador desesperado, mas alguns viram um ser humano despencar devido a uma pressão violenta e insana. Um gladiador que, ao ver a turba ensandecida clamando por sangue e glórias, se rebela. Tira seu escudo e suas armas, joga-as ao solo. Olha para os assistentes com indignação, os quais respondem com incredulidade, que logo dá lugar ao ódio.

Penso na crise existencial de Fabrício e não consigo tirar da mente a imagem de Spartacus…

Dois atos separados por um ciclo solar, mas unidos pela rebeldia. Em Fabrício e Adelir vemos a insistência em ser protagonistas de suas vidas, e de não entregar seus corpos ao gozo alheio. Adelir tornou-se um símbolo na luta contra a violência obstétrica institucional, e um ícone do protagonismo responsável que almejamos. Fabrício e seu ato tresloucado representam a insurgência contra um modelo que objetualiza pessoas para servirem como depositários de nossas frustrações, mágoas e fracassos.

Que ambos sirvam de reflexão para a posteridade. Que o protagonismo da mulher no parto seja sagrado e respeitado por todos, e que o respeito à pessoa humana do artista, ou de qualquer figura pública, seja uma constante.

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Frustração e negação

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“É comum acreditar que um parto será “lindo” na dependência do que desejarmos. A prática nos mostra que, mesmo acreditando na importância dos desejos e projeções maternas, eles não são suficientes para garantir o destino de um nascimento. Parto é algo que acontece entre as orelhas, de uma forma subjetiva e única. Sua manifestação se encontra alicerçada no inconsciente, como qualquer outra manifestação da sexualidade humana. Assim, não há como se valer dos desejos expressos sem levar em consideração o universo de sensações, memórias da pele, lembranças, frases, marcas, sentimentos, sons, ruídos, luzes e cores que constituem nossa arquitetura psíquica. Só o que podemos fazer diante das demandas por experiências criativas e enriquecedoras é não criar falsas expectativas ou garantias ilusórias de um parto maravilhoso. Nem todos podem passar pelo parto como desejam: ele é um projeto que se consolida durante toda uma vida.

Estar preparado para as frustrações é sinal de maturidade e uma condição essencial para quem deseja se aventurar no campo da maternidade. Auxiliar na construção de uma experiência positiva e realista é dever de todos que se dedicam a acompanhar esta jornada.

É preferível se permitir frustrar por um não-parto do que criar uma ilusão de felicidade, a máscara mentirosa do não entristecer. Eu entendo quando se diz “não permitir que a natural frustração por um projeto que não vingou supere a alegria de um nascimento“. Isso sim é colocar as coisas em perspectiva, e estou de pleno acordo. Por outro lado eu desconfio muito quando pessoas negam suas dores. Por exemplo, quando mulheres se separam e me dizem que estão “felizes” ou que não sentem “nenhuma frustração”. O nome disso é negação, e ela não ajuda a superar os traumas e quedas. Assumir (e curtir!!!) suas tristezas é fundamental para a cura.

Um caso de cesariana bem indicada nos deixa tranquilos quanto à indicação cirúrgica, mas não significa um antídoto mágico contra as frustrações (dos pacientes e nossas). Que possamos vivê-las com a intensidade necessária para cada caso e cada sujeito, para que a recuperação seja a mais completa possível.”

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Rótulos

rótulo

Muitas pessoas se incomodam quando alguns profissionais do Brasil que atendem sob a égide da humanização do nascimento são chamados de “humanizados”. Eu não me importo com esta rotulagem.

O rótulo é inevitável. Se nós não falarmos os pacientes o fazem sem a menor cerimônia. Obstetra humanizado, enquanto rótulo, existirá enquanto houver necessidade de contrapor nossas condutas ao modelo hegemônico contemporâneo. Houve um tempo em que havia astrônomos heliocentristas, para diferenciarem-se daqueles que seguiam o modelo ptolomáico. Hoje eles se chamam apenas “astrônomos” e o heliocentrismo foi incorporado aos conhecimentos básicos deste ramo do saber.

Dia haverá em que os valores da humanização – protagonismo restaurado e garantido, visão interdisciplinar e respeito à MBE – serão a base para qualquer ação obstétrica, e o nome “humanização” cairá em desuso por redundância, e não por decreto;  muito menos por ferir suscetibilidades.

Eu não vejo problema algum em ser referido como obstetra “humanizado”, desde que o significado desta expressão esteja claro para quem a diz.

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Amamentação e Inteligência

Inteligente

Sobre a pesquisa recentemente divulgada que demonstra inequívocas vantagens na amamentação, principalmente no que tange à inteligência e ao sucesso pessoal.

Nenhuma pesquisa pode ser analisada de forma definitiva ou completa. Os resultados deste estudo a respeito da amamentação se assemelham com aqueles que demonstram as virtudes do parto normal em relação à cesariana. Se não é possível estabelecer uma linha reta de causa e efeito positiva (parto normal ou amamentação levando à saúde e ao sucesso) ou negativa (cesarianas e desmame levando à malefícios ou fracasso), também é verdade que as atitudes mais fisiológicas relacionadas com os ciclos femininos nos apontam para uma TENDÊNCIA de saúde e adaptação que não pode ser negligenciada.

Saúde, como sabemos, não ocorre por ações isoladas, mas através de uma rede interconectada de atitudes positivas. Amamentação e parto normal são elementos que, comprovadamente, atuam de forma positiva na promoção da saúde, mas pouca ação têm quando analisados isoladamente.

Simplesmente amamentar ou parir naturalmente não é garantia para o sucesso, e nem as cesarianas – ou a falta de amamentação – uma passagem só de ida para a derrota. Para conseguir esses benefícios é importante uma postura coerente, sistemática e constante em direção à harmonia de seus corpos e mentes com a natureza ao redor.

Criar “linhas retas” simplórias de causa e efeito só pode gerar frustração e interpretações equivocadas, mas negar os efeitos positivos dessas atitudes é cegar-se às provas e evidências do seu valor.

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Ofensas virtuais

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Há alguns dias uma médica teria ofendido uma conhecida professora e obstetra humanista por causa da sua adesão à campanha para estimular os médicos a sentarem durante a assistência ao parto. Os adjetivos foram fortes, tendo nossa colega sido chamada de “sem noção“, “doentia” e “retardada“…

Eu creio que um pouco tem a ver com o ódio que assola a classe médi(c)a nos tempos atuais, misturada com o anonimato presumido nos comentários escritos no mundo das redes sociais. Entretanto, prefiro ir um pouco mais além e me aprofundar na análise da gênese de observações ofensivas e preconceituosas como estas.

Eu creio que estes comentários são análogos àqueles feitos pelos conservadores relativos ao beijos gays nas telenovelas. Trata-se de um choque estético, um modo diferente de olhar o amor (pelos outros e pelo parto) que abala mentes incapazes de pensar de forma criativa e abrangente. Muita gente ainda não compreendeu a razão da campanha para que os médicos sentem para auxiliar um parto, mas até que percebam que nos colocamos em posições estapafúrdias apenas para que a liberdade de posição da paciente seja assegurada, então jamais entenderão o sentido último do nosso malabarismo. Uma lástima que alguns escutem o grito, mas não sabem de onde vem. “Olha, psiu… vem daqui… aqui mais embaixo, onde habita o tal do protagonismo garantido“.

Escandalizar-se com médicos abaixo de uma mulher, adaptando-se às  posições dela (e não o contrário) ou com pessoas do mesmo sexo se amando, apenas demonstra a incapacidade de adequação a um mundo que gira e se transforma; muda e se transfigura. Para muitos dói saber que não existem verdades estanques ou modelos eternos. Tais xingamentos nada mais são que gritos de dor de sujeitos que perderam o chão, seus referenciais e seu norte, mas que são “velhos” demais para rever conceitos e posturas. Perdidos em sua angústia e medo só lhes resta xingar e ofender, iludindo-se que tais palavras agressivas possam fazer o tempo parar ou impedir a terra de girar.

Pobres e tristes, correm o risco de terminar seus dias corroídos pelo rancor.

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Conversa de Enfermeiras

Conversa de enfermeiras na troca de plantão do Centro Obstétrico de um hospital privado da cidade:

– E aí a sala de recuperação e o centro de material e blá, blá, blá, e a escala, e a rouparia e blá, blá, blá, e as salas de parto e blá, blá, blá, e também depois do aumento que houve, né?

Espichei o ouvido e perguntou:

– Aumento de quê? Salário?

Elas sorriram

– Quem dera doutor. Estávamos falando do aumento de partos normais no hospital. É impressionante.

– Sério?, perguntei eu.

– Sim, inquestionável. Vamos tabular e te mostrar.

Eu sabia que eu ainda estaria vivo para testemunhar a “virada”. A razão para a mudança? As mulheres, as mulheres.

Alguns dias depois e testemunhei três salas de PP no hospital cheias. Partos acontecendo a toda hora. Figuras desconhecidas transitando pelos corredores conduzindo trabalhos de parto. Em duas salas havia doulas acompanhando, enquanto maridos esperavam pacientemente lá fora o momento de trocar com elas de lugar.

Recém se completou um ano de “proibição branca” de doulas (as pacientes precisam escolher apenas um acompanhante, seja ele o companheiro ou a doula), mas nós não desistimos. Nossa tática foi aceitar a imposição e agir com suavidade. Com a quantidade de partos aumentando e o número de funcionários estacionado as doulas passaram a ser cada vez mais importantes e necessárias.

E isso fica cada dia mais fácil de constatar.

Parabéns meninas pela perseverança delicada e firme

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Defesa da própria cesariana

Cesariana

“A defesa da cesariana pelas mulheres que se submeteram a ela nada mais representa do que a proteção que estas fazem do sentido último da sua sexualidade. Por isso esta defesa frequentemente oscila entre a paranoia e a fúria.”

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Parto em Casa…

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Percebo que muitos profissionais que argumentam contra o direito de uma mulher parir em casa com auxílio qualificado (médicos e/ou enfermeiras e obstetrizes) precisam mais informações sobre a quantidade e a variedade de equipamentos usados no parto domiciliar planejado. Além disso, é importante que conheçam a realidade de países que, mais do que reconhecer a validade dessa assistência, ESTIMULAM que os partos sejam extra hospitalares e atendidos por midwives (enfermeiras obstetras e obstetrizes, no Brasil).

O discurso do “risco” serve como um fio lógico para justificar o controle sobre o corpo e a sexualidade femininas. Como diria Robbie Davis-Floyd, sempre que ouvimos a palavra “segurança” em relação à atenção ao parto a palavra correta deveria ser “controle“. O mesmo raciocínio de risco usado na assistência ao parto nos impediria andar de avião, ou obrigaria a presença de médicos em cada rua ou automóvel. Quando partos planejados em domicílio são comparados com os hospitalares em GRANDES avaliações e com RIGOR METODOLÓGICO o que se observa é um número muito pequeno de intercorrências relacionadas ao acompanhamento e uma baixa morbi-mortalidade em ambas as amostras, mostrando que o ambiente hospitalar não acrescenta segurança quando comparado ao ambiente extra-hospitalar.

Na minha formação médica também fui bombardeado pela “lógica do risco”, mas com o passar do tempo fui me dando conta que ela só fazia sentido num contexto patriarcal, de controle rigoroso sobre a sexualidade feminina. Assim, o parto hospitalar compulsório é um dos meios de propagação e manutenção de um discurso patriarcal e misógino, que deplora a autonomia das mulheres e que – acima de tudo – teme uma sociedade baseada na liberdade sexual e na relação igualitária entre os gêneros.

O que eu acho curioso é o fato de que se comparam partos domiciliares com a atenção hospitalar sem levar em consideração o que as mulheres desejam. Isto é: a vontade das mulheres nunca conta. É o mesmo que avaliar vantagens de um alimento sobre outro e desconsiderar o desejo ou apetite de quem come. Uma fantasia que corre no meio médico é que os profissionais humanizados determinam o local de parto para suas pacientes, quando é o oposto que ocorre: as pacientes é que solicitam ajuda para SUAS escolhas, baseadas em leituras, seminários, pesquisas, conversas, avaliações subjetivas e sua vontade. Portanto, não se trata de escolher o melhor local para parto, mas honrar – ou não – escolhas que as próprias mulheres fazem sobre o nascimento de seus filhos.

Alias… Parto domiciliar planejado no Brasil não passa de 2% da totalidade de nascimento, mesmo quando acrescentamos aos partos planejados aqueles ocorridos em zonas remotas do país, como o nordeste e a Amazônia. Trata-se, portanto, de uma realidade minúscula, mas sua vertente urbana é predominantemente um fenômeno de classe média. Uma questão burguesa, admito. Por esta razão, e pelo número pequeno de partos que acontecem desta maneira, quando me convidam para falar de humanização e parto domiciliar eu sempre digo: “Ok, desde que eu possa falar 98% do tempo em parto hospitalar e casas de parto e 2% em parto em casa, pois esta é REAL relevância da questão“.

Assim sendo, o nosso foco precisa ser na humanização da assistência hospitalar e o aprofundamento do debate sobre o DIREITO DE ESCOLHA por parte das mulheres, sem constrangimentos ou pressões de qualquer natureza.

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Humanizar o Nascimento

“Humanizar o nascimento é garantir o lugar de protagonista à mulher”

Leia o artigo do médico Ricardo Jones, referência em partos humanizados no Brasil

Por Ricardo Jones

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Fotos: Kalu Brum

Parto humanizado ganha força no Brasil

Para muitos as últimas medidas governamentais em relação ao controle mais rígido da utilização de cesarianas(1) foram ações bruscas, repentinas, e excessivamente severas. Afinal, a cesariana como método de nascimento está arraigada no imaginário de muitas mulheres – em especial no Brasil – como um método seguro, limpo, moderno e indolor, mesmo que a realidade seja bem diferente desta imagem. Ainda que muitos profissionais concordem que existe “algum exagero” na realização desse procedimento, a reação da categoria médica foi de desaprovação. Para os ativistas da Humanização do Nascimento, todavia, tais medidas são a culminância de mais de 20 anos de lutas para que as mulheres tivessem plenos direitos de escolha, uma assistência centrada na fisiologia e uma postura embasada em ciência por parte dos cuidadores. Para os humanistas do nascimento, as medidas não foram bruscas e muito menos severas: foram a culminância de propostas de mais de duas décadas.

Mas porque a crise na atenção ao parto?

Somos herdeiros de uma cultura que acredita estar a saúde “fora do corpo”, e magicamente acondicionada em drágeas, pílulas, comprimidos e injeções. Esta modificação na forma como compreendemos a busca pelo equilíbrio (de um modelo interno, para um modelo externo) produz repercussões em toda a sociedade contemporânea, onde a “saúde” e o “bem-estar” são vendidos como produtos, alienando o indivíduo da responsabilidade de encontrá-los por si mesmo.

Essa ideologia “exógena”, quando aplicada ao nascimento humano, gera a série de problemas que vemos hoje em dia relacionados com a extrema artificialização da vida. O aumento das cesarianas é um bom exemplo deste exagero. Esta que deveria ser uma cirurgia salvadora acabou sendo banalizada ao extremo, e um percentual muito grande de mulheres acaba optando pela sua realização sem uma noção exata dos riscos a ela associados. A Organização Mundial da Saúde (OMS) determina que não mais de 10 a 15% dos partos podem terminar em uma cesariana. Incrivelmente, num mundo em que os indicadores de saúde melhoram em função do incremento nas condições sociais, a mortalidade materna aumentou nos últimos anos nos Estados Unidos, principalmente às custas do aumento de cesarianas naquele país(2).

A sociedade está se dando conta de que o modelo tecnocrático existente não está mais oferecendo a qualidade de saúde que as mulheres exigem, e se une, através das múltiplas formas de representatividade, para discutir o destino do nascimento no nosso país. É desse caldo social e cultural que surgem as organizações de mulheres, de profissionais, governamentais e a própria mídia para impulsionar as mudanças que a sociedade exige no que tange à segurança para mães e bebês.

HUMANIZANDO O NASCIMENTO
“Humanizar o nascimento é restituir o lugar de protagonista à mulher”.

Humanizar a chegada de um novo ser ao mundo baseia-se na ideia de que ele deve ser tratado com carinho e ser bem recebido desde o início, além de oferecer à mulher o controle do processo. O parto humano foi forjado nesse grande laboratório de aprimoramento que é o processo evolutivo, e não pode ser melhorado através de equipamentos, drogas ou cirurgias. Nossa função como cuidadores da saúde é observar os casos em que existe uma “fuga da fisiologia” na direção perigosa da patologia. Nesse caso, poderemos com toda a confiança e confiança usar a nossa arte e nossa tecnologia para salvar tanto mães quanto bebês.

Entretanto, o que vemos todos os dias é um abuso das cirurgias. As razões para esse fato residem na desconsideração das capacidades da mulher, como se ela fosse incapaz, defectiva, frágil e incompetente para dar conta da tarefa milenar de gestar e parir. Usamos abusivamente a tecnologia, e nos baseamos numa crença preconceituosa em relação à mulher: “A tecnologia é mais segura do que as mulheres para dar conta do nascimento“. Isso é comprovadamente falso. Por estas questões marcadamente filosóficas, a Humanização do Nascimento é também uma questão de gênero, porque a matriz desta visão distorcida é uma postura de descrédito para com a mulher e sua fisiologia. O projeto global de Humanização do Nascimento é uma forma de colocar a mulher numa posição de destaque, valorizando seu corpo e sua função social e oferecendo-lhe o protagonismo de seus partos.

DOULAS
Elas dão suporte em várias dimensões às mulheres grávidas nos momentos do parto.

Doulas são profissionais que acompanham as grávidas durante o processo de nascimento. Elas se aperfeiçoam em oferecer suporte afetivo, emocional e físico para as grávidas durante o parto. Elas não realizam qualquer atividade de ordem médica ou de enfermagem. Seu foco de atenção é somente a mulher e seu conforto. Não verificam pressão arterial, não auscultam batimentos cardíacos fetais, não fazem exames para ver o progresso de dilatação e não oferecem medicações de qualquer ordem. Elas são referendadas pela OMS, através do livro “Assistência ao Parto Normal – Um Guia Prático”(3), assim como pelo Ministério da Saúde do Brasil desde a publicação do livro “Parto, Aborto e Puerpério – Assistência Humanizada à Mulher”(4), e sua atuação é baseada em evidências atualizadas e consistentes, como pode ser visto no livro “Guia para Atenção Efetiva na Gravidez e no Parto – Enkin e Cols”(5) da biblioteca Cochrane, e nos inúmeros trabalhos realizados (Klauss & Kennell(6) – Mothering the Mother). Ao lado de tantos achados positivos relacionados ao parto, também encontramos uma incidência aumentada de mulheres que continuam amamentando além de seis semanas após o nascimento de seu bebê(7). Doulas não produzem trabalho redundante, não competem com médicos ou enfermeiras pelo trabalho com as grávidas e, inclusive, deixam os profissionais mais à vontade para suas tarefas específicas. “Na ausência de qualquer risco associado, e com as evidências claras das melhorias associadas com sua atuação, para toda a mulher deveria ser oferecida a oportunidade de ter uma doula a lhe acompanhar durante o parto.(8)

 
UM PROFISSIONAL PARA A VIDA
O que é um “profissional humanizado” e como reconhecê-lo?

Profissional humanizado é todo aquele que entende as dimensões subjetivas do seu paciente como extremamente relevantes. É o profissional que encara toda a paciente como singular, irreprodutível e única e encara o nascimento como momento único e evento ápice da feminilidade. Trata seus pacientes com gentileza e respeito, oferecendo às mulheres a condução do processo. Posiciona-se como uma instância de orientação técnica, e não como “proprietário” do evento. Usa os protocolos mais atualizados, como a Medicina Baseada em Evidências, para o tratamento de suas pacientes, mas sempre leva em consideração a dimensão pessoal de cada uma, forjada na sua história pessoal, suas lembranças, seus medos, suas expectativas, seus sonhos, suas características físicas e seu desejo de que o nascimento de seus filhos seja vivido como um ritual de amadurecimento. É um profissional que alia as habilidades técnicas com uma postura compassiva em relação às mulheres grávidas, entendendo-as como possuidoras de um grande tesouro, que deve ser cuidado com carinho e respeito. Desta forma, tem como meta um parto em que o menor número possível de intervenções ocorra, ao mesmo tempo em que se preocupa com o máximo de segurança e bem-estar para todos.

HUMANIZAÇÃO DO NASCIMENTO E TECNOLOGIA
Elas não se opõem em hipótese alguma. A humanização do nascimento é a síntese que coloca estes dois paradigmas lado a lado.

Bem sabemos o quanto o uso de tecnologia poluiu o mundo a ponto de nos colocar em risco de sobrevivência. Sabemos da mortandade de peixes, da crise hídrica, do envenenamento de lagos e rios e do desaparecimento de espécies animais pela ação predatória irresponsável. Nesta lista também cabe elencar o paulatino desaparecimento da capacidade feminina de parir, assim como a crescente escassez de profissionais capacitados para o atendimento ao parto normal. A fantástica capacidade humana de mudar o mundo é ao mesmo tempo maravilhosa e perigosa.

A humanização do nascimento é a síntese que procura oferecer uma síntese para os paradigmas em conflito. De um lado temos o “naturalismo“, onde qualquer intervenção humana seria inadequada e ruim para um evento “natural” como o parto. No extremo oposto do espectro temos a “tecnocracia“, que é um sistema de poder que coloca em posição de destaque aqueles que controlam a tecnologia e a informação. Neste modo de ver o mundo as pessoas acabam se despersonalizando, perdendo seu rosto, tornando-se objetos da ação da tecnologia. O nascimento, que deveria ser um acontecimento social, familiar e afetivo, tornou-se, paulatinamente, um evento cheio de intervenções potencialmente perigosas quando dominado pelo olhar tecnocrático. Perdemos o contato com a natureza íntima, sexual, feminina e transformadora do parto. Domesticamos o nascimento, abafando a sua natural rebeldia. Entretanto, o que sobra de humano no parto? O que resta do evento que poderia ser aproveitado como elemento de projeção e de transformação para esta mulher?

A Humanização do Nascimento entra neste momento histórico como a síntese mais acabada das teses digladiantes. Procura entender o ser humano como um ser imerso na linguagem e que constrói a tecnologia como forma de expressão de sua própria natureza racional, mas que agora começa a se dar conta do perigo de “artificialização” excessiva da natureza, externa e interna. Assim, a ideia de “humanizar o nascimento” esforça-se para oferecer o “melhor de dois mundos(9), ao procurar o resgate do suporte social, emocional, afetivo e espiritual às mulheres em trabalho de parto, ao mesmo tempo em que oferece o melhor da tecnologia salvadora para aquelas mulheres que se afastam do rumo da fisiologia e se dirigem ao caminho perigoso da patologia.

Não há porque negar o recurso tecnológico para resgatar vidas que se apresentam em risco; por outro lado não há porque se artificializar um evento tão humano quanto o nascimento de uma criança. De tão artificializado, o nascimento de um indivíduo desfigurou-se a ponto de ser hoje um simulacro do que foi no passado.

CAMINHOS PARA A HUMANIZAÇÃO
A mobilização em torno de um parto mais humano e seguro é um evento político, porque tem a ver com a expressão social de valores!

Existem várias formas de trabalhar com essa necessária reformulação. Primeiro, é importante entender a necessidade desta reavaliação. A intromissão da tecnologia em todos os setores da nossa vida cotidiana nos cria a sensação incômoda de que estamos perdendo nossa essência.

A humanização do nascimento opera na contramão da aventura tecnológica, questionando a invasão de nossas mentes e corpos por elementos estranhos. Além do mais, essa mobilização em torno de um parto mais humano e seguro é um evento político, porque tem a ver com a expressão social dos valores mais profundos que nos sustentam. Somos seres sociais e a nossa ação política significa organizar e mobilizar pessoas em torno de ideais comuns.

UM PROCESSO LENTO E GRADUAL
A educação e conscientização para o parto humanizado têm importância vital no processo.

A tarefa de humanizar o nascimento só pode se dar através de um processo demorado e lento, porque tem a ver com a própria estrutura que sustenta a sociedade ocidental. Nossa ação, portanto, deve ser em várias frentes, sendo a educação para o parto humanizado uma das tarefas mais substanciais.

Outra ação importante é com os cuidadores de saúde. Estes devem receber orientação sobre as vantagens que a medicina baseada em evidências oferece para a humanização do nascimento. Médicos, parteiras, psicólogas, educadoras perinatais, enfermeiras e doulas devem receber treinamento numa abordagem mais integrativa, suave, social e afetiva do nascimento. A presença de companheiros e/ou familiares na hora do nascimento deve ser estimulada por estes profissionais. Esta atitude simples e de baixo custo, além de não aumentar riscos, diminui a angústia e oferece uma vivência mais harmoniosa do parto para o casal e/ou família. As escolas médicas e de enfermagem deverão incluir de forma obrigatória classes que abordem os direitos das pacientes, a humanização do nascimento e medicina baseada em evidências. É imperioso que a formação das escolas da área da saúde seja direcionada para o “novo paradigma”, onde a mulher será o centro de onde irão irradiar as decisões sobre sua vida sexual e reprodutiva.

PRINCÍPIO FUNDAMENTAL
Para construirmos um mundo menos violento, mais amoroso, mais digno, respeitável e justo temos que começar com o nascimento.

Acreditamos na capacidade de parir que cada mulher carrega. Acreditamos na perfeição da natureza e nos milhares de anos de preparo para os mecanismos intrincados do nascimento. Sabemos da importância da tecnologia para salvar a vida de pessoas que estão em risco. Por outro lado, entendemos que a intervenção num processo natural só pode se justificar diante de critérios muito claros. Intervir no nascimento para encurtar tempo ou por interesses econômicos quaisquer são erros graves que devem ser evitados. Atitudes como essas, que retiram da mulher o protagonismo do parto, não podem ser toleradas em uma sociedade que se deseja justa e fraterna.

O desempoderamento da mulher no nascimento de seus filhos tem repercussões na sociedade como um todo, pois será ela a principal guardiã dos seus valores, e quem vai lhes ensinar as primeiras ideias. O parto é um momento pleno de afeto e sexualidade e a intervenção desmedida pode ter efeitos devastadores – físicos e psicológicos – para a mãe e seu bebê. Além disso, “se quisermos verdadeiramente mudar a humanidade temos que mudar a forma como nascemos“, como já nos dizia Michel Odent.

Para construirmos um mundo menos violento, mais amoroso, mais digno, respeitável e justo temos que começar com o nascimento, para que todos possam chegar a esse mundo envoltos numa aura de carinho e amor.

Ricardo Herbert Jones é ginecologista, obstetra e homeopata.
REFERÊNCIAS NO TEXTO

  1. http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2015/janeiro/06/ApresentaPARTO-06-01-15.pdf
  2. http://tabnet.datasus.gov.br (2) P. Krugman, “Pride, Prejudice, Insurance”, International herald Tribune, november 8, 2005; http://www.cdc.gov/nchs.
  3. Organização Mundial de Saúde. Assistência ao Parto Normal: Um guia Prático. Relatório de um Grupo Técnico. Genebra, 1996. 53p.
  4. Ministério da Saúde Brasil. Parto, Aborto e Puerpério – Assistência Humanizada à Mulher – MS 200
  5. Enkin M. & Cols, Guia para Atenção Efetiva na Gravidez e no Parto. 3a Edição – Guanabara Koogan 2000
  6. Klauss, M.H., Kennell, J.H., The Doula: An Essential Ingredient of Childbirth Rediscovered. Acta Paediatric 86:1034-6, 1997
  7. Enkin M. & Cols, Guia para Atenção Efetiva na Gravidez e no Parto. 3a Edição – Guanabara Koogan 2000
  8. Sosa, R., Kennell, J., Klauss, M., Robertson, S., and Urrutia, J. (1980) The Effective of Supportive Companion on Perinatal Problems, length of labor, and mother-infant interaction. The New England Journal of Medicine 303:597-600
  9. Threvathan, W.R., Smith, E.O., McKenna, J.J. Evolutionary Medicine (1999) Oxford University Pres

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Dearest Robbie

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Rituais de passagem são fundamentais, e o parto é um exemplo da real necessidade de ritualizar as transições pelas quais passamos. Entretanto, no parto contemporâneo ocidental não há uma falta de rituais; pelo contrário, existe uma perversão daqueles que historicamente conduziram o nascimento nos milênios que nos antecederam. Um ritual nos permite enxergar os valores inconscientes da cultura que circulam de forma invisível no “campo simbólico”, e no parto não poderia ser diferente. Os rituais que usamos revelam a estrutura valorativa que sustenta nossa ação social. Se no passado serviam para fortalecer as funções primordialmente femininas de gestar e parir, hoje sustentam o modelo tecnocrático, empoderando instituições e profissionais às custas da subtração da mulher como condutora do processo.

Assim, não nos faltam “rituais” no parto. Eles existem em abundância, bastando para isso observar os movimentos que o constituem. As malas, as roupas, as consultas de pré-natal, a ida ao hospital, o corte dos pelos, as “lavagens”, o afastamento imediato, as intervenções e tantos outros eventos se estruturam pela repetição, padronização e simbolismo, os quais caracterizam e definem todos os rituais humanos.

A diferença nos rituais que hoje observamos na assistência ao nascimento é que eles afastam as mulheres do controle, enquanto exaltam as tecnologias e quem as controla. Mudar a forma de nascer implica em transformar estes rituais, adaptando-os a um novo paradigma, passando de um modelo que aliena e exclui as mulheres para outro que as inclui e, mais ainda, as coloca no comando do processo.

A grande deflagradora deste processo de resgate da ritualística no parto foi Robbie Elizabeth Davis-Floyd. Robbie é uma das maiores personalidades do feminismo no mundo contemporâneo. Seu livro “Birth as an American Rite of Passage” é um marco na antropologia do parto e nascimento, ramo da ciência que estuda os recortes transcultural da assistência ao parto. Se primeiro livro, baseado em sua tese de doutorado na Universidade do Texas, vendeu mais de 40 mil cópias, e isso é algo digno de nota. Ela recebeu algumas homenagens e honrarias que apenas feministas americanas realmente importantes receberam. Participou de várias edições de “Our bodies, ourselves”, e escreveu livros que transformaram a trajetória de parteiros no mundo inteiro. Robbie descortinou o imaginário do nascimento, sua profundidade simbólica e a relação dos rituais com as práticas da atenção ao parto ocidental contemporâneo. Muitos médicos, entre os quais me incluo, mudaram a forma de ver sua ação no parto a partir da perspectiva que ela inaugurou com relação aos rituais aplicados ao nascimento.

Este texto é a consequência direta de assistir – inadvertidamente – um colega atendendo um parto através da velha ritualística de atenção dos anos 50: paciente deitada de costas, pernas erguidas, obstetra mascarado, episiotomia, gritos, Kristeller, luzes ofuscantes e uma crença óbvia – apesar de inconsciente – na defectividade feminina para dar conta dos desafios do parto. Somente depois de conhecer o trabalho de Robbie o enigma da diferença – muitas vezes abissal – entre o que se sabe e o que se faz na prática pôde finalmente ser compreendido.

Os rituais foram desvelados por Robbie, e assim despidos, puderam ser por nós analisados naquilo que trazem de mais verdadeiro.

Por abrir estas “portas de percepção” teremos com Robbie uma dívida impagável.

Que Deus a abençoe…

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