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Híbridos

Partolandia

No link abaixo pode-se escutar uma entrevista de um médico em período de transição, o que é interessante de analisar do ponto de vista das modificações lentas e graduais nos paradigmas e no “campo simbólico” que governa o nascimento humano. O profissional é o que se poderia chamar de “híbrido”: de um lado mantém-se colocado ao lado do paradigma médico intervencionista, mas percebe-se o seu real interesse em estabelecer uma crítica a este modelo. Ao mesmo tempo em que apoia o protagonismo do nascimento e as posições verticalizadas (o que infelizmente é raro entre os profissionais médicos) ainda insiste no mito da “cesariana humanizada”, usa o termo “parto cesárea“, investe na tese dos “riscos possíveis do parto na água“, e outros ideias que julgo ultrapassadas. Diz que não gosta do termo “parto humanizado”, e que prefere o “parto natural”.

Minha posição clara e histórica a este respeito é pela impossibilidade absoluta de seres humanos terem “partos naturais”, exatamente porque seres humanos dotados de linguagem são incapazes de se inserir no mundo natural. Seres humanos não são objetos da natureza, mas agentes, sujeitos de seu destino. A entrevistada também insiste na ideia de que o parto humanizado “não precisa ser vaginal”, pois que a cesariana também pode ser feita sob este paradigma.

Os pontos positivos aparecem na ideia de não interferência no processo e na postura clara de “restituir o protagonismo”. Durante a sua fala cita até “partolândia”, um termo consagrado há muitos anos em nossas falas. Ao que parece está cada vez mais claro que a humanização do nascimento, como há muito tempo reclamamos, parte de uma visão de direitos humanos reprodutivos e sexuais, onde o DIREITO de escolha por parte da mulher ocupa a posição central. “Humanização do Nascimento é restituir o protagonismo a mulher, o resto é apenas sofisticação de tutela”, já me dizia o colega Max há mais de 30 anos.

A entrevista mostra que é impossível ficar alheio à humanização do nascimento e as transformações inerentes a este novo paradigma quando se trabalha no dia a dia com um novo padrão de “clientela”. As MULHERES – únicas e legítimas proprietárias desta revolução – estão mudando a cabeça dos médicos aos poucos. Não há como voltar atrás: esta revolução veio para ficar.

http://www.ebc.com.br/infantil/para-pais/2015/03/parto-humanizado-e-como-todo-o-parto-deveria-ser-diz-obstetra

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Cesarianas e Mamadeiras

Bisturi-Mamadeira

No Brasil, em especial na minha cidade, não eram apenas os obstetras a reclamar de posturas conservadoras em relação à utilização desmedida de cesarianas. Falar em “segurar a mão”, respeitar a fisiologia do parto e estimular o parto normal produzia um incômodo para os médicos de outras especialidades, em especial a pediatria. Em verdade existe mais do que o meramente manifesto no discurso sobre as cesarianas.

Para a medicina a cesariana representa a vitória da técnica e da razão sobre a selvageria dos corpos; a mente sobrepujando o destino. Se é verdade que a cesariana, em suas origens, nos oferecia esta promessa redentora, há muito deixou de ser esta peça fundamental na manutenção das vidas em jogo. Tamanho foi seu desvirtuamento que hoje seu uso abusivo representa uma real ameaça ao bem estar de mães e bebês.

Eu costumo analisar estes fatos de forma comparativa, pois essa visão nos ajuda a prever os passos seguintes. O movimento da amamentação também tinha a sua “cesariana”: a fórmula láctea, a mamadeira. Abolir seu uso, ou minimamente discipliná-lo, significava criticar um objeto icônico da revolução feminista. Para cada passo em direção a uma legislação mais constritiva para os leites artificiais grupos ligados à liberação feminina protestavam, pois as mamadeiras representam a liberdade conquistada pela mulher dos grilhões da sua biologia. Com as mamadeiras foi possível alimentar seu filho e manter seu emprego na fábrica, ganhando com isso a autonomia fundamental para uma vida livre e independente. As mamadeiras eram mais do que cilindros de vidro com leite artificial: eram armas poderosas contra a opressão.

A experiência humana nos deixa claro que não há como dar passos para trás. A humanização do nascimento entende a importância e relevância dos recursos tecnológicos para a melhor qualidade possível do parto, e para isso a cesariana continuará existindo. Da mesma forma a liberdade e autonomia das mulheres é uma conquista que não permite retrocesso. Em ambos os movimentos é imperioso que se encontre o bom senso e que a saúde dos pacientes se estabeleça acima de qualquer consideração. Quando recursos originalmente designados a auxiliar produzem entraves, é o momento de adotar uma postura crítica e rever posturas e conceitos.

Médicos estão convidados a fazer esta reflexão sobre os caminhos do cuidado com as gestantes. Se a tecnologia – apanágio da razão – é ferramenta essencial, mais ainda o bom senso e as evidências científicas devem ter papel preponderante nas escolhas.

La OMS pide que las cesáreas sólo se hagan cuando sea clínicamente necesario

http://www.lavanguardia.com

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Fabrício e Adelir

Fabrício-Adelir

Exatamente nos umbrais de abril, um ano depois de Adelir ser forçada a realizar uma cesariana sob ameaça e coerção, um jogador de futebol se rebela, joga a camisa do clube que o sustenta ao solo, sai de campo vaiado, recebe ofensas de todo tipo (raciais?) e termina seu ato dizendo que vai embora para não mais voltar.

Qual a relação entre estes dois fatos, ocorridos na mesma terra, no extremo mais conservador do Brasil?

Não creio em coincidências, e muito menos que a distância entre estes fatos não possa ser ultrapassada com um pouco de análise crítica. Penso que os valores que circulam no campo simbólico acabam se acumulando sobre as nossas cabeças como nuvens, as quais por fim se precipitam sob a forma de raios e tormentas aparentemente sem causa, diante de fatos cuja intensidade oportuniza uma fissura na casca protetora dos discursos.

Os elementos que ressaltam em ambos os casos são relativos à forma como a sociedade enxerga estes personagens. Se de um lado Adelir era uma “máquina de parir” à nossa disposição, cujo produto – o bebê – a nós pertence, também Fabrício é uma “máquina de jogar”, cujo passe pertence ao clube, e sua arte a todos nós. Um jornal local chegou a chamar Fabrício de “um ativo financeiro do clube” e que, por isso (seu valor como mercadoria), deveria ser preservado.

Em ambas as situações os sujeitos coisificados se rebelaram.

Adelir refugiou-se em sua casa com uma doula, aguardando o momento mais adequado – o mais tarde possível – para chegar ao hospital, esperando com isso conseguir seu parto normal. Foi ameaçada, trazida de casa por policiais armados e sem chance de defesa. Sucumbiu ao poder maior dos proprietários de corpos, os que manipulam nossa vida em nome de uma ordem imutável. O objeto de parir foi conduzido para o lugar que a cultura designa, sem qualquer autonomia sobre sua vida e seu destino. Calou seu corpo e submeteu-se à lâmina fria que cortou seu ventre e seu sonho.

Fabrício também deu seu grito de basta. Com as vaias e apupos trancados na garganta, misturados com uma história pessoal de perdas, dores, mágoas, tristezas e decepções, ele explode de raiva e indignação incontidas. O objeto de jogar chora e grita em campo, afasta-se dos companheiros, xinga a turba ensandecida, caminha de cabeça erguida para o vestiário e grita para todos “eu vou embora, aqui não jogo mais“.

Nós testemunhamos um sujeito se desmanchar emocionalmente em campo. Quase todos viram um jogador desesperado, mas alguns viram um ser humano despencar devido a uma pressão violenta e insana. Um gladiador que, ao ver a turba ensandecida clamando por sangue e glórias, se rebela. Tira seu escudo e suas armas, joga-as ao solo. Olha para os assistentes com indignação, os quais respondem com incredulidade, que logo dá lugar ao ódio.

Penso na crise existencial de Fabrício e não consigo tirar da mente a imagem de Spartacus…

Dois atos separados por um ciclo solar, mas unidos pela rebeldia. Em Fabrício e Adelir vemos a insistência em ser protagonistas de suas vidas, e de não entregar seus corpos ao gozo alheio. Adelir tornou-se um símbolo na luta contra a violência obstétrica institucional, e um ícone do protagonismo responsável que almejamos. Fabrício e seu ato tresloucado representam a insurgência contra um modelo que objetualiza pessoas para servirem como depositários de nossas frustrações, mágoas e fracassos.

Que ambos sirvam de reflexão para a posteridade. Que o protagonismo da mulher no parto seja sagrado e respeitado por todos, e que o respeito à pessoa humana do artista, ou de qualquer figura pública, seja uma constante.

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Frustração e negação

frustacao

“É comum acreditar que um parto será “lindo” na dependência do que desejarmos. A prática nos mostra que, mesmo acreditando na importância dos desejos e projeções maternas, eles não são suficientes para garantir o destino de um nascimento. Parto é algo que acontece entre as orelhas, de uma forma subjetiva e única. Sua manifestação se encontra alicerçada no inconsciente, como qualquer outra manifestação da sexualidade humana. Assim, não há como se valer dos desejos expressos sem levar em consideração o universo de sensações, memórias da pele, lembranças, frases, marcas, sentimentos, sons, ruídos, luzes e cores que constituem nossa arquitetura psíquica. Só o que podemos fazer diante das demandas por experiências criativas e enriquecedoras é não criar falsas expectativas ou garantias ilusórias de um parto maravilhoso. Nem todos podem passar pelo parto como desejam: ele é um projeto que se consolida durante toda uma vida.

Estar preparado para as frustrações é sinal de maturidade e uma condição essencial para quem deseja se aventurar no campo da maternidade. Auxiliar na construção de uma experiência positiva e realista é dever de todos que se dedicam a acompanhar esta jornada.

É preferível se permitir frustrar por um não-parto do que criar uma ilusão de felicidade, a máscara mentirosa do não entristecer. Eu entendo quando se diz “não permitir que a natural frustração por um projeto que não vingou supere a alegria de um nascimento“. Isso sim é colocar as coisas em perspectiva, e estou de pleno acordo. Por outro lado eu desconfio muito quando pessoas negam suas dores. Por exemplo, quando mulheres se separam e me dizem que estão “felizes” ou que não sentem “nenhuma frustração”. O nome disso é negação, e ela não ajuda a superar os traumas e quedas. Assumir (e curtir!!!) suas tristezas é fundamental para a cura.

Um caso de cesariana bem indicada nos deixa tranquilos quanto à indicação cirúrgica, mas não significa um antídoto mágico contra as frustrações (dos pacientes e nossas). Que possamos vivê-las com a intensidade necessária para cada caso e cada sujeito, para que a recuperação seja a mais completa possível.”

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Rótulos

rótulo

Muitas pessoas se incomodam quando alguns profissionais do Brasil que atendem sob a égide da humanização do nascimento são chamados de “humanizados”. Eu não me importo com esta rotulagem.

O rótulo é inevitável. Se nós não falarmos os pacientes o fazem sem a menor cerimônia. Obstetra humanizado, enquanto rótulo, existirá enquanto houver necessidade de contrapor nossas condutas ao modelo hegemônico contemporâneo. Houve um tempo em que havia astrônomos heliocentristas, para diferenciarem-se daqueles que seguiam o modelo ptolomáico. Hoje eles se chamam apenas “astrônomos” e o heliocentrismo foi incorporado aos conhecimentos básicos deste ramo do saber.

Dia haverá em que os valores da humanização – protagonismo restaurado e garantido, visão interdisciplinar e respeito à MBE – serão a base para qualquer ação obstétrica, e o nome “humanização” cairá em desuso por redundância, e não por decreto;  muito menos por ferir suscetibilidades.

Eu não vejo problema algum em ser referido como obstetra “humanizado”, desde que o significado desta expressão esteja claro para quem a diz.

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Amamentação e Inteligência

Inteligente

Sobre a pesquisa recentemente divulgada que demonstra inequívocas vantagens na amamentação, principalmente no que tange à inteligência e ao sucesso pessoal.

Nenhuma pesquisa pode ser analisada de forma definitiva ou completa. Os resultados deste estudo a respeito da amamentação se assemelham com aqueles que demonstram as virtudes do parto normal em relação à cesariana. Se não é possível estabelecer uma linha reta de causa e efeito positiva (parto normal ou amamentação levando à saúde e ao sucesso) ou negativa (cesarianas e desmame levando à malefícios ou fracasso), também é verdade que as atitudes mais fisiológicas relacionadas com os ciclos femininos nos apontam para uma TENDÊNCIA de saúde e adaptação que não pode ser negligenciada.

Saúde, como sabemos, não ocorre por ações isoladas, mas através de uma rede interconectada de atitudes positivas. Amamentação e parto normal são elementos que, comprovadamente, atuam de forma positiva na promoção da saúde, mas pouca ação têm quando analisados isoladamente.

Simplesmente amamentar ou parir naturalmente não é garantia para o sucesso, e nem as cesarianas – ou a falta de amamentação – uma passagem só de ida para a derrota. Para conseguir esses benefícios é importante uma postura coerente, sistemática e constante em direção à harmonia de seus corpos e mentes com a natureza ao redor.

Criar “linhas retas” simplórias de causa e efeito só pode gerar frustração e interpretações equivocadas, mas negar os efeitos positivos dessas atitudes é cegar-se às provas e evidências do seu valor.

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Ofensas virtuais

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Há alguns dias uma médica teria ofendido uma conhecida professora e obstetra humanista por causa da sua adesão à campanha para estimular os médicos a sentarem durante a assistência ao parto. Os adjetivos foram fortes, tendo nossa colega sido chamada de “sem noção“, “doentia” e “retardada“…

Eu creio que um pouco tem a ver com o ódio que assola a classe médi(c)a nos tempos atuais, misturada com o anonimato presumido nos comentários escritos no mundo das redes sociais. Entretanto, prefiro ir um pouco mais além e me aprofundar na análise da gênese de observações ofensivas e preconceituosas como estas.

Eu creio que estes comentários são análogos àqueles feitos pelos conservadores relativos ao beijos gays nas telenovelas. Trata-se de um choque estético, um modo diferente de olhar o amor (pelos outros e pelo parto) que abala mentes incapazes de pensar de forma criativa e abrangente. Muita gente ainda não compreendeu a razão da campanha para que os médicos sentem para auxiliar um parto, mas até que percebam que nos colocamos em posições estapafúrdias apenas para que a liberdade de posição da paciente seja assegurada, então jamais entenderão o sentido último do nosso malabarismo. Uma lástima que alguns escutem o grito, mas não sabem de onde vem. “Olha, psiu… vem daqui… aqui mais embaixo, onde habita o tal do protagonismo garantido“.

Escandalizar-se com médicos abaixo de uma mulher, adaptando-se às  posições dela (e não o contrário) ou com pessoas do mesmo sexo se amando, apenas demonstra a incapacidade de adequação a um mundo que gira e se transforma; muda e se transfigura. Para muitos dói saber que não existem verdades estanques ou modelos eternos. Tais xingamentos nada mais são que gritos de dor de sujeitos que perderam o chão, seus referenciais e seu norte, mas que são “velhos” demais para rever conceitos e posturas. Perdidos em sua angústia e medo só lhes resta xingar e ofender, iludindo-se que tais palavras agressivas possam fazer o tempo parar ou impedir a terra de girar.

Pobres e tristes, correm o risco de terminar seus dias corroídos pelo rancor.

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Conversa de Enfermeiras

Conversa de enfermeiras na troca de plantão do Centro Obstétrico de um hospital privado da cidade:

– E aí a sala de recuperação e o centro de material e blá, blá, blá, e a escala, e a rouparia e blá, blá, blá, e as salas de parto e blá, blá, blá, e também depois do aumento que houve, né?

Espichei o ouvido e perguntou:

– Aumento de quê? Salário?

Elas sorriram

– Quem dera doutor. Estávamos falando do aumento de partos normais no hospital. É impressionante.

– Sério?, perguntei eu.

– Sim, inquestionável. Vamos tabular e te mostrar.

Eu sabia que eu ainda estaria vivo para testemunhar a “virada”. A razão para a mudança? As mulheres, as mulheres.

Alguns dias depois e testemunhei três salas de PP no hospital cheias. Partos acontecendo a toda hora. Figuras desconhecidas transitando pelos corredores conduzindo trabalhos de parto. Em duas salas havia doulas acompanhando, enquanto maridos esperavam pacientemente lá fora o momento de trocar com elas de lugar.

Recém se completou um ano de “proibição branca” de doulas (as pacientes precisam escolher apenas um acompanhante, seja ele o companheiro ou a doula), mas nós não desistimos. Nossa tática foi aceitar a imposição e agir com suavidade. Com a quantidade de partos aumentando e o número de funcionários estacionado as doulas passaram a ser cada vez mais importantes e necessárias.

E isso fica cada dia mais fácil de constatar.

Parabéns meninas pela perseverança delicada e firme

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Defesa da própria cesariana

Cesariana

“A defesa da cesariana pelas mulheres que se submeteram a ela nada mais representa do que a proteção que estas fazem do sentido último da sua sexualidade. Por isso esta defesa frequentemente oscila entre a paranoia e a fúria.”

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Parto em Casa…

parto-expulsivo

Percebo que muitos profissionais que argumentam contra o direito de uma mulher parir em casa com auxílio qualificado (médicos e/ou enfermeiras e obstetrizes) precisam mais informações sobre a quantidade e a variedade de equipamentos usados no parto domiciliar planejado. Além disso, é importante que conheçam a realidade de países que, mais do que reconhecer a validade dessa assistência, ESTIMULAM que os partos sejam extra hospitalares e atendidos por midwives (enfermeiras obstetras e obstetrizes, no Brasil).

O discurso do “risco” serve como um fio lógico para justificar o controle sobre o corpo e a sexualidade femininas. Como diria Robbie Davis-Floyd, sempre que ouvimos a palavra “segurança” em relação à atenção ao parto a palavra correta deveria ser “controle“. O mesmo raciocínio de risco usado na assistência ao parto nos impediria andar de avião, ou obrigaria a presença de médicos em cada rua ou automóvel. Quando partos planejados em domicílio são comparados com os hospitalares em GRANDES avaliações e com RIGOR METODOLÓGICO o que se observa é um número muito pequeno de intercorrências relacionadas ao acompanhamento e uma baixa morbi-mortalidade em ambas as amostras, mostrando que o ambiente hospitalar não acrescenta segurança quando comparado ao ambiente extra-hospitalar.

Na minha formação médica também fui bombardeado pela “lógica do risco”, mas com o passar do tempo fui me dando conta que ela só fazia sentido num contexto patriarcal, de controle rigoroso sobre a sexualidade feminina. Assim, o parto hospitalar compulsório é um dos meios de propagação e manutenção de um discurso patriarcal e misógino, que deplora a autonomia das mulheres e que – acima de tudo – teme uma sociedade baseada na liberdade sexual e na relação igualitária entre os gêneros.

O que eu acho curioso é o fato de que se comparam partos domiciliares com a atenção hospitalar sem levar em consideração o que as mulheres desejam. Isto é: a vontade das mulheres nunca conta. É o mesmo que avaliar vantagens de um alimento sobre outro e desconsiderar o desejo ou apetite de quem come. Uma fantasia que corre no meio médico é que os profissionais humanizados determinam o local de parto para suas pacientes, quando é o oposto que ocorre: as pacientes é que solicitam ajuda para SUAS escolhas, baseadas em leituras, seminários, pesquisas, conversas, avaliações subjetivas e sua vontade. Portanto, não se trata de escolher o melhor local para parto, mas honrar – ou não – escolhas que as próprias mulheres fazem sobre o nascimento de seus filhos.

Alias… Parto domiciliar planejado no Brasil não passa de 2% da totalidade de nascimento, mesmo quando acrescentamos aos partos planejados aqueles ocorridos em zonas remotas do país, como o nordeste e a Amazônia. Trata-se, portanto, de uma realidade minúscula, mas sua vertente urbana é predominantemente um fenômeno de classe média. Uma questão burguesa, admito. Por esta razão, e pelo número pequeno de partos que acontecem desta maneira, quando me convidam para falar de humanização e parto domiciliar eu sempre digo: “Ok, desde que eu possa falar 98% do tempo em parto hospitalar e casas de parto e 2% em parto em casa, pois esta é REAL relevância da questão“.

Assim sendo, o nosso foco precisa ser na humanização da assistência hospitalar e o aprofundamento do debate sobre o DIREITO DE ESCOLHA por parte das mulheres, sem constrangimentos ou pressões de qualquer natureza.

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