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Pra não dizer que não falei de flores

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Doula NÃO é uma profissão, e talvez nunca seja. Uma profissão envolve regras, modelos, controle externo, conselhos de classe, punições, etc… Não sei se a “fraternidade instrumentalizada”, no dizer de Max, se adaptaria a este tipo de regramento. Seria possível a profissão de “amigo”? Poderíamos fazer cursos para que a amizade fosse mais sólida, mais honesta, consistente? Podemos regrar a compaixão e o carinho? “Olha, recomendamos massagens na região lombar até cinco minutos, em séries de no máximo cinco insistências. As evidências nos dizem que…”. Não acho que a subjetividade de um parto possa se adaptar a este tipo de protocolo.

Bem, se a doula não é uma profissão, ela é o quê?

Ao meu ver a doula é uma FUNÇÃO, que pode ser exercida por muitas pessoas e por várias profissões. A mãe pode ser, a irmã, a cunhada e até o marido. Todos os grandes estudos internacionais que atestam a importância e a qualidade da assistência prestada por doulas foram feitos com pessoas que exerciam essa função sem nenhum preparo prévio além da sua ligação afetiva com a gestante.

Ok, mas o marido pode ser doula? Sim, até o marido. Entretanto, mesmo sabendo que ele “pode” exercer a função de doula eu sempre digo que não é justo com ELE pedir para que tome conta dessa tarefa. E isso ocorre porque os maridos também estão diante de um processo transformativo difícil e penoso que é tornar-se pai. Existe para eles uma tensão muito grande, junto com medo, apreensão e angústia. Pedir a eles que exerçam essa função pode ser desgastante e complexo. Em outras palavras, os maridos também precisam ser “doulados“, em muitas circunstâncias.

Se a doula é uma função ela pode ser exercida por qualquer pessoa que tenha o desejo de ajudar e que tenha consciência dos LIMITES de sua atuação. Mas é claro que os LIMITES são as questões mais tensas no debate sobre as doulas.

Entender limites é olhar através de uma descrição do que a doula não é, a partir do que ela NÃO faz.

Uma doula não é uma profissional de saúde. Ela NÃO realiza nenhuma ação de enfermagem ou médica.

NÃO verifica pressão,
NÃO avalia apresentação ou dilatação do colo uterino,

NÃO verifica batimentos do bebê,
NÃO mede a barriga da paciente,
NÃO avalia bem estar materno ou fetal,
NÃO atende parto; atende gestantes em suas necessidades emocionais e físicas.

É claro também que uma médica obstetra, uma obstetriz ou uma enfermeira podem exercer o papel de doulas. Entretanto, se elas estiverem nessa função OUTRA PESSOA deverá estar ocupada com a assistência ao parto, sob pena de sobrecarregar a(o) profissional que presta o atendimento. Uma das características mais importantes das doulas é a possibilidade de que os profissionais se ocupem exclusivamente da atenção técnica do parto, deixando as ações de relaxamento, tranquilização, alimentação, movimentação etc.. com as doulas.

Para além das doulas nós temos os profissionais que são regulamentados para a atenção ao parto: médicos obstetras, médicos de família, enfermeiras e obstetrizes. São os “skilled attendants” que tanto exaltamos. As funções deles são razoavelmente claras: somente os médicos podem atender desvios da normalidade, as patologias e as cirurgias, e aos enfermeiros e obstetrizes cabe a atenção ao parto “eutócico”, sem anormalidades perceptíveis.

Doulas exercem uma função para a qual existem muitas técnicas no sentido de facilitar o bom posicionamento fetal, assim como acupressura, hidroterapia, massagem, ritmicidade etc, mas a excelência do seu trabalho está na transferência afetiva que ela pode oferecer às gestantes com a sua presença. Mesmo sem qualquer técnica ou qualidade especial a doula, ainda assim, terá uma grande ação para facilitar o trabalho de parto e o parto. As trocas emocionais que são produzidas pela presença da figura amorosa e carinhosa da doula são a chave para entender os resultados positivos da sua utilização. As técnicas, todas elas, vem como um valioso acréscimo.

Desta forma, não há porque confundir as ações das doulas com a de qualquer profissional da saúde na atenção ao parto. Doulas não fazem trabalho redundante e não tiram o lugar de ninguém. Elas vem se somar às equipes médicas e de enfermagem para que a paciente se sinta acolhida em TODAS as suas necessidades.

“Doulas são como flores de cactus brotando da aridez desértica da tecnocracia” (Max)

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Até quando?

Impaciência

Estava lendo o texto de uma colega sobre uma cesariana e percebi que é, sim, possível escrever um texto ofensivo e rancoroso ao extremo embrulhando palavras ácidas e agressivas com celofanes coloridos de falsa candura.

É muito ódio nesse coraçãozinho…

Até quando as pessoas vão continuar com esse discurso de contrapor humanização do nascimento com cesariana? Quando é que vão se dar conta de que não criticamos a cirurgia, mas seu abuso? Quando é que perceberão que não se trata de questionar a boa prática cirúrgica – que começa com uma boa indicação – mas alertar para as consequências em curto, médio e longo prazo do exagero INQUESTIONÁVEL de um recurso que é reservado apenas para os casos de risco aumentado para mães e bebês? Quanto ainda teremos de suportar essa dicotomia FALSA entre recursos tecnológicos e humanização do nascimento?

Apenas para lembrar o conceito e acabar de uma vez com essa falsa incompatibilidade entre uso de tecnologia e assistência humanizada:

“A Humanização do Nascimento vem trazer a síntese entre as conquistas recentes da ciência, que nos oferecem segurança, com as forças evolutivas e adaptativas dos milênios que nos antecederam. Este releitura do nascimento humano se faz necessária para acomodar as necessidades afetivas, psicológicas e espirituais das mulheres e seus filhos com as conquistas que o conhecimento nos trouxe através da aquisição crescente de tecnologia.”

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A Reação Conservadora

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Sobre um texto que está rolando aí exaltando cesarianas e desmerecendo ativismo por partos dignos:

“Mais sobre o mesmo. Intervencionismo médico. Os médicos como salvadores das mulheres, donas de corpos perigosos e defectivos. Um texto óbvio do intervencionismo médico escrito com 10 a 15 anos de atraso. Os argumentos da Dra já foram contestados por inúmeras publicações no mundo inteiro. A sua fala é repleta de um vazio ruidoso: a incapacidade de enxergar o fenômeno pela perspectiva da mulher, e a brutal obliteração de ver a transcendência imanente de um nascimento.”

Se há algo que aprendi no falecido Orkut é não discutir com pessoas que fazem críticas “ad hominem“. No texto da Dra., fartamente distribuído (mas não por mim…), o que sobra como evidência é a descrição do parto por um viés biologicista, “desumanizante”, tecnicista, coisificante e objetualizante. Em nenhum momento ela se refere às pacientes como pessoas dignas e capazes de fazerem escolhas informadas sobre riscos e benefícios de uma grande cirurgia. É um texto agride as evidências científicas (SIM) e que, infelizmente, não oferece uma interface para debate, e isso ocorre por uma questão bem simples: ela NÃO enxerga no parto algo que eu e muitos ativistas dos direitos reprodutivos e sexuais enxergamos: um processo importante de empoderamento feminino e uma preservação da integridade física da mulher.

Entretanto, o texto dela reflete uma realidade cada vez mais evidente: os movimentos sociais, o governo, o Ministério Público, a pressão internacional e as evidências científicas expuseram a posição dos médicos cesaristas como amplamente questionável, demonstrando o viés mercantilista da prática de atender por “linha de montagem”. A defesa – cada vez mais frágil – é confundir “parto humanizado” com parto desassistido ou parto domiciliar, já que as bases da humanização do nascimento são mais do que provadas no campo da pesquisa (como a negativa de usar episiotomias, Kristeller, enemas, tricotomias e cesarianas rotineiramente e sem justificativa clínica).

Assim, a Dra se esforça em mostrar que um parto fora do CONTROLE da medicina é inseguro, mesmo quando as grandes potencias mundiais mostram-se cada vez mais voltadas aos tratamentos realizados por especialistas em parto normal (as enfermeiras e obstetrizes) e reservando aos médicos apenas os tratamentos que incluem patologias. Os argumentos que ela usa são os MESMOS que eu escuto há 30 anos, por isso eu disse que seus escritos tem 10 a 15 anos de atraso. Nós já debatíamos isso no início deste milênio, e a ideia de incentivar cesarianas se mostrou inadequada para mães e bebês, mas inquestionavelmente boa financeiramente para médicos e instituições. Continuar investindo no paradigma cirúrgico é colocar a vida dos pacientes em risco, mas incentivar partos normais com profissionais adequados, capacitados e aparelhados, oferecendo o PROTAGONISMO às mulheres, a visão interdisciplinar e a vinculação com a Medicina Baseada em Provas, é o caminho das grandes democracias.

Acho que não vamos a lugar algum xingando doulas, que tem sua função baseada em evidencias, e são reconhecidas como auxiliares importantes no processo de parto, exatamente por oferecer o calor do afeto à frieza da atenção médico-hospitalar.

O que o texto da doutora ressalta é a centralidade dos médicos e da medicina no cuidado de um processo fisiológico como o parto,  com uma visão de “progresso” oriunda do século XIX, onde este se confundia com o acúmulo de tecnologia. Ora, qualquer pensador contemporâneo reconhece que a adoção de um paradigma serve a interesses explícitos e implícitos.  O problema é que os interesses invisíveis se tornam cada vez mais claros e transparentes através da análise simples de dados, como a violência obstétrica e a taxa abusiva de cesarianas. O “mito da transcendência tecnológica”, como qualquer mitologia,  não se estabelece num vácuo conceitual; pelo contrário, ela expressa valores e interesses de grupos – como os médicos – e instituições – como a indústria farmacêutica e de equipamentos, hospitais etc. – que se servem de um modelo que inferioriza a mulher através de uma visão diminutiva de suas capacidades de gestão e parir com segurança e autonomia.  Enquanto tivermos mulheres “fracas” e partos “bomba relógio” teremos médicos e intervenções valorizados acima de sua real necessidade.  O texto da doutora explora explicitamente este viés característico do discurso, que serve aos propósitos da sua corporação. “Somos maravilhosos, salvamos mulheres, somos imprescindíveis, exatamente porque sem nós as mulheres são incapazes de dar conta dos desafios da parturição“.

Como eu disse acima, esse discurso “chapa branca” da medicina é antigo mas se choca com as evidências do mundo inteiro que se esforçam pela desmedicalização da vida e, em especial, do parto, em função dos resultados ruins do intervencionismo e da crescente insatisfação das mulheres com a atenção insensível e violenta que recebem.

Lendo o texto da doutora eu ficava pensando: “Meu Deus!!! Avisem os europeus, pois eles estão indo na direção oposta. Alguém precisa mostrar a eles como estão absolutamente errados,  e como nós estamos maravilhosamente certos“.

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A Holanda NÃO é aqui

Windmill

Um motorista ensandecido pilotando uma “Hilux” grita para uma ciclista na ciclovia paulistana: “Vagabunda!! Isso aqui não é a Holanda!!

Um cesarista ensandecido pilotando um reluzente bisturi grita para um profissional humanizado: “Idiota!! Isso aqui não é a Holanda!!

Discorram sobre esse paralelo…

PS: Quando eu era adolescente nos ano 70 ainda vivíamos na época da ditadura militar. A nós era vedado o ritual sagrado do voto. Governos se sucediam sem que o povo tivesse o direito de escolher seus mandatários; eram os anos de chumbo. Eu vivi nesse tempo e trago as marcas dessa dor em meu peito. Eu sei o quanto dói a falta de liberdade.

Nesse período sempre que um “esquerdista” resolvia falar da importância da democracia alguém levantava a voz e clamava em altos brados: “Cale a boca!! Aqui não é a Europa. Lá é possível votar, pois eles tem cultura. Nosso povo não sabe fazer isso“, num discurso que mesclava de forma curiosa Macunaíma com Newton Cruz. A desculpa era sempre centrada no fato de sermos uma gente preguiçosa, um povo malemolente, inculto, incapaz, incompetente e que – mais do que precisar – merecia que a ditadura governasse seu destino. Com as mulheres o mesmo: é preciso sempre alguém que as governe e controle, pois elas são essencialmente incapazes de tomar decisões por si mesmas.

“Isso” aqui não é a Holanda. Esse país não se presta para democracia. Esta nação não pode se auto gerir. Nossas mulheres são dóceis e submissas e precisam ser controladas para parir. Calem a boca.

A Holanda NÃO é aqui…

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Fluidez

Fluidez

A minha tese se mantém cada vez mais firme: seja qual for a apresentação ou a modalidade de parto os elementos determinantes para o controle do processo são aqueles que ocorrem “entre as orelhas” da gestante. Se ela estiver realmente empoderada e confiante – que é MUITO diferente de não ter medo – podemos ter resultados positivos e gratificantes. As últimas conversas no pré natal são decisivas para que ela possa estabelecer sua confiança e vinculação com a proposta. Ela também não pode encontrar receio ou dúvida entre os seus cuidadores, pois isso facilmente a conduz para uma espiral de negatividade e, por consequência, medo paralisante.

Quando se consegue este clima percebemos a fluidez do parto como deveria sempre ser. Uma mente carregada de pânico e angústia vai fazer o corpo se fechar e o parto obstruir. Todavia, quando a paciente inunda sua mente de positividade e confiança, temos um caminho iluminado em direção ao sucesso.

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Ressentimentos

Ressentimento

Eu creio que os ressentimentos direcionados a profissionais que atendem no espectro da humanização são naturais acomodações das placas tectônicas que sustentam a estrutura do parto. Ainda vemos muitas mulheres que depositam os resultados na mão de médicos, enfermeiras, parteiras e doulas. Tais profissionais são todos humanizados, e foram previamente mordidos pela vespa da humanização, mas totalmente impossibilitados de fazer algo que só à mulher compete: parir.

Empoderamento e Protagonismo são ações complexas, principalmente porque o “anjo da alienação” nos espreita a cada dobra de esquina. É sempre mais fácil colocar a culpa em quem está próximo de nós. Além disso, muitos profissionais aceitam essa posição de comando pois são vencidos pela própria vaidade. Quem aí já não se deixou envaidecer ao ser tratado como “herói” (ou heroína) do parto alheio?

Eu acho que esse tipo de atitude é compreensível, mesmo sem ser justificável. Ela ocorre em função da idealização dos profissionais. “Olha, estou sendo atendida por um médico maravilhoso, o “Papa” da humanização, e agora tenho certeza que tudo vai dar certo”. Pacientes exaltam e veneram seus(suas) cuidadores(as), alçando-os(as) para níveis irreais. Já vi muitas injustiças assim no universo da humanização. Quando você afirma que o paciente estava errado ao criar uma expectativa não realista lhe acusam de “penalizar a vitima”. Mas essa consciência é fundamental.

Por isso eu creio que uma das tarefas mais essenciais do(a) parteiro(a) é a desinstituição. Sim, é importante que o cuidador rejeite a posição subjetiva em que é colocado pelo paciente. “Não, eu não sou seu Salvador; sou apenas o guia de uma jornada que é sua“. Para fazer isso é preciso despir-se da vaidade e da sedução do controle, que inevitavelmente atinge a todos.

Porém, se nossa função é permitir que o nascimento cumpra sua função de empoderamento, é primordial a tarefa de vitrificar-se, tornar-se invisível e permitir ao outro a necessária expansão.

Como exemplo, eu recebi o email de uma mãe que disse estar muito ressentida comigo por não tê-la acolhido em suas dores em função do atendimento que recebeu de um colega da minha cidade. A crítica feita era ácida e acusatória. Quando li eu imediatamente saltei em defesa do meu colega, mas não no sentido de diminuir a dor de quem se sentiu agredida ou maltratada, mas por não aceitar “queimações” públicas contra quem não pode se defender. Ela não perdoou a minha “insensibilidade” diante da sua dor, mas ainda acho menos doloroso do que EU não conseguir me perdoar diante do linchamento público de um colega e amigo a quem muito admiro.

Enquanto os profissionais que assistem o parto ainda forem colocados na posição de controle absoluto do evento teremos o risco da idealização e do ressentimento.

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Parto à Esquerda

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As Esquerdas e a Humanização do Parto

Esta sempre me pareceu uma ótima discussão. Pelos relatos, artigos e filmes que tive conhecimento os modelos de parto nos países comunistas se baseavam em uma estrutura de autoridade, hierarquia rígida e cientificismo materialista muito fortes. Nesse contexto o afeto era algo pouco relevante, sendo considerado uma “fraqueza”. As rotinas obstétricas eram sustentadas com rigor e baseadas na otimização de pessoal e recursos, tal como em uma unidade militar. Os médicos eram os chefes supremos, com condutas e procedimentos inquestionáveis. Enfermeiras eram sargentões (muita piada se fez sobre as enfermeiras soviéticas no cinema). O modelo cubano tentou imitar ao máximo essas características.

Um parto domiciliar, que leva em consideração aspectos SUBJETIVOS da paciente, que deseja se livrar das rotinas despersonalizantes de uma maternidade, vai se posicionar na contramão do centralismo da medicina social comunista soviética. Qualquer coisa que lembre a valorização do subjetivo, do individual e de cunho pessoal será desmerecido nesse modelo.

Por isso é que o parto humanizado e domiciliar viceja nas democracias fortes e nos modelos mais liberais da Europa, como os países nórdicos e a Inglaterra. A Rússia e muitos países do leste convivem até hoje com modelos de parto muito violentos e grosseiros, onde ate a violência física contra as mulheres não é incomum. Ainda precisa haver um choque de humanização da assistência nesses locais.

No Brasil houve um movimento diferente e especial, pela conexão do parto humanizado com a contracultura hippie e – por sobre isso – uma luta dos setores mais progressistas da sociedade pela volta da democracia e o fim da ditadura. Esse caldo cultural propiciou a conexão dos humanistas (médicos, enfermeiras e outros) com as esquerdas.

Tal conexão provavelmente não ocorreu em muitos outros lugares, e nos Estados Unidos, por exemplo, tem um viés liberal e mais à direita. Em Cuba a atenção ao parto é hospitalocentrica e centrada no médico, e temas como parto domiciliar, casas de parto e parto por enfermeiras ainda estão longe de ser uma realidade.

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Merecimentos

Imitar-os-bons-exemplos-é-preciso

Temos os profissionais de saúde que merecemos.
Temos o aleitamento materno que queremos.
Temos o parto que desejamos.
Temos os médicos e as enfermeiras que escolhemos.
Temos o parto e a amamentação que nos cabem, neste latifúndio chamado Terra…

Acabo de colocar a cabeça para fora de casa. A brisa sacode meu supercílio esquerdo e enche minhas narinas de ar fresco e tímidos raios de sol. Olho para os lados para procurar a diferença. Uma mulher passa à minha frente, na calçada sombreada da rua onde de moro. Traz uma criança grudada em sua mão direita, e tem uma bolsa de couro pendurada no braço esquerdo. Olho para ela e pergunto-lhe silenciosamente se o parto de seu filho e a amamentação foram, mesmo que por alguns breves momentos, preocupações em sua vida. O silêncio dela deve ser verdadeiro, mesmo que a pergunta tenha sido apenas imaginada.

Não vejo cartazes na rua, muito menos manifestantes. Não consigo divisar no horizonte próximo das casas de minha rua qualquer indício de que o roubo do nascimento e o desmerecimento da amamentação tenham provocado qualquer tipo de insatisfação entre as pessoas. Ninguém parece reclamar. Não escuto um grito sequer de indignação com a espoliação de momentos tão significativos da constituição da essência humana. Estamos a um passo das chocadeiras, do nascimento virtual e do total desvirtuamento daquilo que em nós chamávamos de “humano”. Aqui aparece a face pós-moderna mais dolorosa da medicina: perdemos totalmente o contato com a realidade do nascimento. Perdemos seu odor, seu clima, sua temperatura e gosto. Hoje os médicos só conhecem a sua representação, seu simulacro, sua imagem refletida na parede da tecnocracia. Continuando o raciocínio do articulista Dino Felluga, acrescento que “fizemos um roteiro tão assemelhado com a verdade que este se justapôs àquela. Hoje em dia a realidade é que se desfaz por entre as linhas riscadas do mapa. As fórmulas e as cesarianas mantêm-se de pé enquanto assistimos ao desaparecimento de suas versões originais“.

Mentimos o parto e a amamentação, falseando a natureza.

Somente quando a sociedade perceber o quanto perdeu com a aventura tecnocrática é que poderemos mudar o paradigma dominante e exigir que os profissionais ligados ao parto e à amamentação sigam as diretrizes mais naturais e menos intervencionistas. Enquanto isso não ocorrer continuaremos a formar profissionais que atuem de acordo com os nossos mitos e nossas crenças.

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Amicus Plato

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“Amicus Plato, sed magis amica veritas”

(Sou amigo de Platão, mas amo ainda mais a verdade.) Aristóteles

É por vezes difícil e desafiador reconhecer os valores mais profundos embutidos em nossas atitudes e no nosso discurso. Por vezes nos deixamos ofuscar pelo brilho das teses que defendemos sem nos dar conta de que, por baixo da tela fúlgida que encobre o que ardorosamente defendemos, existe uma questão filosófica mais ampla e complexa. A liberdade de falarem o que não me agrada é um assunto que sempre tomei como “sagrado”, assim como o direito ao contraditório, a busca de pluralidade nas expressões, a liberdade garantida e a resiliência para suportar opiniões contrárias. Desta forma, também considero essencial a necessidade de devolver as agressões com argumentos e não com violência. Quando tratamos das teses humanistas do nascimento é importante ter em mente que para combater o excesso de cesarianas é essencial que fundamentemos nossa causa com ideias e argumentos, e não com agressões e xingamentos. Para a defesa das minorias nossa postura não pode se afastar desse mesmo ideário: devemos utilizar a argumentação embasada na fraternidade e nos ideais humanísticos, sem cair na tentação de usar as mesmas armas cerceadoras daqueles que nos atacam.

A violência cometida contra as nossas opiniões é mais grave por ferir o direito de livre expressão do que por atacar algo que a medicina baseada em evidências comprova como sendo lícito, adequado e até mesmo benéfico. A humanização do nascimento é passível de debate, com profusão de argumentos livremente expressos de ambos os lados. Aliás, essa é a solicitação veemente que fazem os defensores destas ideias: um debate plural, cientificamente embasado e livre sobre a assistência ao nascimento. Entretanto, é fundamental para isso que tenhamos as garantias que o estado de direito oferece aos cidadãos: a certeza de que suas opiniões possam ser expressas sem coerção ou constrangimento.

Posso não concordar com um colega que defenda “cesarianas para todos”, mas não ousaria impedi-lo de manifestar suas teses e seus argumentos. Sem isso teremos uma situação grave, exatamente por agredir um dos preceitos fundamentais das democracias modernas: a liberdade de falar o que os alguns não querem ouvir.

Numa sociedade livre tal preceito está acima de qualquer consideração.

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Desabafo

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Ontem eu li a emocionada declaração de uma médica obstetra na Internet descrevendo o bom trabalho que faz junto às suas pacientes e as dificuldades da profissão. Diante de cada dificuldade ela dizia se sentir “violentada”. Depois de descrever com minúcias sua atuação médica ela se alia aos críticos da atuação do deputado Jean Wyllys (que combate a violência obstétrica) e estampa a hashtag “calabocajeanwyllys”.

Eu tentei entender a motivação da colega e vi que ela se estendia para além das palavras escritas, e ficou nítido que ela se referia a uma herança da ação médica, que entende todo ato médico como “benevolência”. Em palavras – menos explícitas – o que ela diz é: “Depois de TUDO o que faço por vocês, com enorme sacrifício da minha vida, como ousam falar de violência obstétrica?”

Para mim fica clara a ideia de que os pacientes “devem” aos médicos pela ação devotada e superior que eles tem na sua labuta diária contra as doenças e o sofrimento. O salário que recebem é insuficiente para dar conta dessa dívida e, portanto, não faz sentido uma reclamação vinda de quem tanto deve para eles.

Este tipo de postura é essencialmente autoritária e desprovida de sentido amplo, servindo apenas como um desabafo pessoal, que qualquer um pode fazer diante da sensação de não receber o reconhecimento de que se acha credor. Ele, entretanto, falha quando insinua que uma profissão não pode ser questionada por estar “acima” das críticas, em função da essência superior de sua ação.

O desabafo soa como o de um policial que enfrenta bandidos, prende malfeitores, arrisca a vida em tiroteios e depois não aceita que se fale em “violência policial” já que ele coloca sua vida em risco por nós.

Ora, o fato de haver bons e dedicados policiais não inválida a existência de violência, tortura, ilegalidades, arbítrio e corrupção, assim como o fato de que estas falhas PRECISAM ser denunciadas. Da mesma forma, o fato de um obstetra (ou qualquer outro profissional da assistência ao parto) fazer bem o seu trabalho (SIC) não invalida a existência de um modelo violento de obstetrícia, que despreza a autonomia feminina, desreconhece práticas baseadas em evidências, burla a legislação do acompanhante, impede a livre expressão e objetualiza gestantes. E isso também PRECISA ser denunciado, para que seja eliminado da assistência ao parto.

O deputado Jean foi apenas o veículo de uma indignação crescente da população com a incapacidade do sistema médico de reconhecer as questões éticas essenciais da assistência ao parto, como a liberdade de fazer escolhas informadas. Reclamar dele é cegar-se à óbvia mudança que se aproxima em relação aos direitos reprodutivos e sexuais.

Espero que minha colega continue seu bom trabalho mas que possa, ao mesmo tempo, reconhecer que a violência ainda é um modo de relação entre profissionais e pacientes, e que ela precisa ser eliminada para sempre do nosso meio.

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