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A Real Necessidade

Estender mao

A visão objetual do paciente, a persistente consideração de cada pessoa com objeto da ação da medicina – e não como sujeitos competentes para realizar escolhas informadas – são a REAL necessidade de humanizar o nascimento.Não, isso seria incompleto; uma transformação da forma, mas mantendo intacta a essência. Sem considerar cada mulher como legítima condutora do processo teremos apenas uma parcial mudança, insuficiente para a verdadeira revolução que pretendemos. Humanizar o nascimento é garantir o protagonismo à mulher.

Ainda haverá muito tempo até que os profissionais da saúde entendam o que a “humanização do nascimento” tem a dizer. Ainda há confusão e ranger de dentes, porque alguns recusam-se a compreender os aspectos ÉTICOS relacionados com esta atitude, e se mantém fixados aos aspectos técnicos da atenção. Fazer uma cesariana com uma mulher com duas cesarianas prévias e um bebê pélvico (sentado) pode ser uma indicação compreensível. Todavia, o que é inadmissível é ameaçá-la, constrangê-la, amedrontá-la e considerá-la um objeto “inanimado”, sem vontade e sem autonomia. A humanização vem colocar a MULHER no centro dessas decisões, oferecendo aos profissionais que a auxiliam a honrosa posição de consultores e orientadores.

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Fazer Partos

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A naturalização da expressão “fazer o parto” é tão intensa na nossa cultura (e não o é com igual intensidade em outras latitudes) que alguns sequer entendem nossa crítica a esta forma de descrever um nascimento. Quando dizemos que “só mulheres podem fazer um parto” confundem essa afirmação com a exclusão dos atores sociais relacionados com sua assistência e entendem tal ponto de vista favorece a desassistência. Nada poderia estar mais distante da verdade. Parto assistido por bons profissionais é uma conquista milenar das sociedades humanas. Ponto.

É por esse entorno cultural – a negação consciente e/ou inconsciente do protagonismo da mulher no parto – que os movimentos de humanização são necessários. É precisamente pela obliteração da função primordial das mulheres num evento que só ocorre na intimidade dos seus corpos que não há como se calar. Mesmo quando se repetem as acusações infantis e inconsistentes de que somos “contra os médicos” ainda assim, e com mais razão, é preciso colocar a mulher no seu verdadeiro posto. Achar que combater a violência obstétrica é ser contra médicos é tão tolo quanto acreditar que a luta contra a pesca das baleias é ser contra os marinheiros. Bons médicos e bons marinheiros serão sempre necessários.

Barbatanas de baleia e Kristeller , chega.

Entretanto, tenho SÉRIAS objeções quanto a criminalização da violência obstétrica na forma como está sendo debatida. Essa atitude terá uma reação imediata: o refúgio por parte dos profissionais no porto seguro das cesarianas e o medo crescente destes em oferecer assistência para partos. Tratar episiotomia com a mesma severidade com que analisamos espancamento doméstico é um exagero que pode ter consequências danosas para a atenção ao parto e,  mesmo sendo plena de boas intenções, pode ser um tiro no pé.

Educação e ativismo são o melhor caminho. A judicialização é sempre um caminho extremo. Produziremos muito mais efeitos positivos ao orientar mulheres, educar os novos profissionais, criar protocolos humanizados, conselhos hospitalares locais de revisão de práticas, aconselhamento de casais grávidos, comitês de direitos dos pacientes, doulas, acompanhantes, plantões multiprofissionais e muito mais. Colocar profissionais contra a parede, ameaçá-los e constrangê-los, de nada adiantará.

A única coisa certa a ocorrer é o aumento de cesarianas.

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De Ponta Cabeça

1 – A queda

Trabalhava eu em um hospital militar de Porto Alegre há mais de 20 anos. Eu, e um pequeno grupo heterogêneo de obstetras, trabalhávamos no ambulatório e fazíamos cobertura para os partos que ocorriam no centro obstétrico. Esta pequena unidade hospitalar possuía um grupo maravilhoso de enfermeiras obstetras que atendiam o plantão obstétrico, muitas delas hoje são professoras de enfermagem na universidade federal. Minha opinião é que – grande novidade – o plantel de enfermeiras era muito mais qualificado do que os obstetras que lá atendiam; alguns francamente desinteressados, outros cesaristas tecnocráticos e apenas um criticava o modelo cesarista e tinha um vívido interesse em atender de forma humanizada e com base em evidências. Naquela época encontrei um destes médicos numa praia catarinense sentado em uma cadeira de praia olhando fixamente para o mar. Era um obstetra cinquentão e solteiro que morava com sua mãe. Imediatamente me veio à lembrança a imagem de um personagem riquíssimo da literatura mundial, o compositor austríaco Gustav von Aschenbach, imortalizado por Dirk Bogarde no filme “Morte em Veneza” de Luchino Visconti (baseado na obra homônima de Thomas Mann). Talvez seu olhar perdido no oceano fosse, em verdade, uma busca angustiosa pela estética perfeita nas formas andróginas de um Tadzio insular.

Pois neste hospital as enfermeiras obedeciam uma regra muito restritiva: só poderiam atender um parto, mesmo em emergência, se houvesse um médico ao seu lado para se responsabilizar. Certamente que o diretor do hospital – um cirurgião geral militar absolutamente arrogante – jamais aceitaria (ou compreenderia) a excelência do trabalho das enfermeiras obstetras para o atendimento ao parto eutócico. A regra era baseada na desconfiança essencial de uma corporação sobre o trabalho da outra, mas estamos falando de um fato ocorrido há mais de 20 anos. Sejamos um pouco condescendentes.

Pois o fato que ficou em minha lembrança até hoje ocorreu por causa de um parto de emergência. Na verdade ele me foi relatado pela enfermeira que o protagonizou, e tenho em minha memória apenas as cenas imaginadas, construídas por sobre o seu relato.

Durante o seu plantão noturno a enfermeira recebe uma paciente atendida no ambulatório do hospital em pleno trabalho de parto. Encaminha-a para a sala de exames e descobre dois fatos que seriam a base de todo o caso: a dilatação estava completa e o bebê estava sentado. Sendo ela uma boa enfermeira e parteira de vocação, apenas sorriu para a paciente enquanto explicava a situação, deixando clara a ela que o bebê nasceria em alguns minutos. Imediatamente correu para o telefone e ligou para o obstetra de sobreaviso. Este disse que estava saindo imediatamente de casa mas, como morava na zona norte, levaria 30 minutos – na melhor das hipóteses – para chegar ao hospital que ficava no outro extremo da cidade.

Não haveria tanto tempo, e a enfermeira bem o sabia. Ela mesma teria que atender o parto de um bebê na posição pélvica completa. Entretanto, lembrou da normativa do hospital de só atender partos na presença de um médico e lembrou que o único plantonista daquela noite era o Dr. Fagundes Mayo (nome fictício), pneumologista e intensivista, que estava no andar de cima de plantão na UTI. Imediatamente ligou para o setor e convocou o médico a assistir ao parto junto com ela.

– Preciso mesmo ir?, perguntou ele, visivelmente contrariado.

– Sim doutor, são as normas, desculpe.

Mais uma contração e a ponta branca da nádega apareceu no introito. A mãe estava de cócoras com as mãos atrás apoiadas no solo, por sobre um campo esterilizado azul que a separava do chão. Sua face estava coberta de gotículas de suor, que coalescendo, escorriam pelos sulcos de seu rosto jovem. A sala de parto possuía uma curiosa construção. No canto do acanhado aposento havia uma escada espiral que foi construída para produzir um acesso direto e rápido para o andar de cima, onde ficava a UTI. Era por ali que o Dr Fagundes desceria para acompanhar o parto que a enfermeira atendia. Cada contração que se finalizava e a enfermeira olhava para o alto da escada, aguardando a chegada do médico, não porque esperasse qualquer tipo de ajuda real, mas apenas para não quebrar as normas da instituição e receber uma reprimenda imerecida.

Outra contração forte e a nádega saltou para fora da vagina, pipocando como um cubo de gelo que se solta da forminha que colocamos no congelador. O tempo agora se contava em minutos apenas. A cabeça da enfermeira virou-se mais uma vez para o alto da escada espiral, mas nada do plantonista aparecer. Mais uma contração e o corpo todo do bebê surgiu, sendo contido apenas pelos braços que se mantinham ainda enclausurados. Foi nesse exato momento em que ela escutou os passos apressados do Dr Fagundes descendo os primeiros degraus da escada. Após o primeiro giro ele parou e ficou paralisado observando a cena. Talvez as poucas experiências do meu colega fossem com partos um pouco mais “normais”. A visão de um bebê “sem cabeça”, uma espécie de alien disforme brotando de uma vagina, rodeado por gritos e suores, foi demasiada para a curta experiência de um pneumologista de formação. Com o olhar fixo na imagem e ainda tentando entender que parte do corpo se apresentava diante dos seus olhos, seu cérebro escolheu a forma mais simples de lidar com a situação. Simplesmente apagou.

Do alto da escada o jovem médico caiu desmaiado, rolando abaixo em total apagamento sensorial, para o pavor da enfermeira e da paciente.

Talvez o assombro da queda tenha sido frutuoso, pois o susto ofereceu à paciente o influxo final de adrenalina necessário para a expulsão. “Ploct“. O bebê veio ao mundo de olhos arregalados e repousou imediatamente no colo da mãe. Nunca uma enfermeira ofereceu um bebê à sua mãe com tamanha rapidez, mas neste caso foi pela existência de um outro “paciente” a atender. De pronto acolheu o colega de plantão, que aos poucos se recuperava sem nenhum trauma importante ou evidente. Claro, um pouco da sua onipotência saiu arranhada, como evitar?

“Desculpe, desculpe… não sei o que me deu. Perdão, acho que foi alguma coisa que eu comi no refeitório do hospital”.

Sim, a comida, eterna culpada universal das nossas fragilidades. Das náuseas gravídicas aos nossos mais recônditos e inconfessos temores. Uma lástima que hoje em dia os médicos reconhecem os minúsculos tumores e cistos em imagens borradas de ultrassons e tomografias, mas a vida pura, viva, intensa, pulsante e misteriosa escapa-lhes à compreensão. Um bebê nascendo não poderia ser algo espantoso para um profissional que jurou dignificar a vida em todos os seus momentos. Mas o mundo da tecnocracia oferece o distanciamento e a objetualização de quem nos procura, e os corpos animados se transformam em figuras impressas em papel ou gráficos complexos, onde cada ponto é uma vida que se vai, ou uma que acaba de chegar.

2 – A Lição

Com 21 anos de idade, imberbe e extasiado com as lições que o mundo me oferecia, eu cumpria um ritual cansativo mas empolgante: todas as sextas feiras cumpria meu plantão de 24h no hospital de uma cidade vizinha, na função que na época era chamada de “interninho”.

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Um “interno” era um estudante de medicina, entre o segundo e o quinto ano, que cumpria funções braçais, simples e por vezes extenuantes no hospital. Cabia a nós fazer suturas nas cabeças de bêbados brigões, repetir prescrições de internações sem sentido, preencher guias de internação, avaliar pulso e temperatura de pacientes, liberar a dieta e até fazer constatação de morte quando algum velhinho partia para o mundo espiritual no meio da madrugada. É claro que a maioria dessas atividades seriam vistas com outros olhos hoje em dia, mas estou contando uma história do início dos anos 80, com várias décadas a nos separar.

Entre as atividades rotineiras dos internos estava o auxílio em cirurgias. Foi neste hospital que eu dei meus primeiros pontos, minhas desajeitadas suturas e minhas absurdas episiotomias. Não havia nenhum controle rígido sobre esta atividade. Estudantes com cara de criança, como eu, entravam despudoradamente para auxiliar cirurgias em hospitais, mas é importante lembrar que alguns poucos anos antes eram as auxiliares de enfermagem, com quase nenhum treinamento, quem realizavam estas funções.

Uma tarde durante meu plantão sou chamado ao bloco cirúrgico para auxiliar em uma cirurgia de “urgência”, assim me foi dito. “Uma cesariana, corra aqui!!”, disse pelo telefone a freira mal encarada, a chefona superior do bloco cirúrgico. Lá fui eu escada acima. Troquei de roupa em segundos e quando entrei na sala de cirurgia encontro a paciente deitada na cama, ostentando um barrigão reluzente por sobre a mesa de operações.

– Vai, menino. Escova essas mãos. O Dr. Wenceslau já vai chegar e precisamos operar agora, imediatamente!! disse quase gritando a enfermeira chefe.

Corri para a larga pia da sala contígua e me escovei o mais rápido que pude. Terminei exatamente quando o Dr. Wenceslau apareceu, com cara de cansado. Ainda tive a oportunidade de lhe perguntar a razão da cirurgia e da emergência, mas ele não teve tempo de responder. Enquanto eu me dirigia de volta à sala de cirurgia escutei um grito agudo e estridente. Mais dois passos, e já dentro da sala, percebi que o grito veio de uma menina da enfermagem, e não da paciente. A cena ficou embaralhada na minha cabeça, pois eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Aproximei-me da paciente e perguntei à enfermeira o que ocorria, e foi neste momento que a técnica de enfermagem levantou o lençol que cobria as pernas da paciente, escancarando a inesperada cena. Com os joelhos levantados e ainda deitada na mesa cirúrgica a paciente tinha metade de uma criança dentro de sua vagina, e a outra metade repousando sobre o lençol da mesa. Entretanto,  a metade que eu podia ver era a metade de baixo; era um bebê na posição pélvica que estava nascendo.

Já com as luvas calçadas, automaticamente segurei o corpo do bebê, mas sem saber o que fazer a seguir. Com 21 anos de idade eu jamais havia presenciado um parto assim, quanto menos dado assistência a um. No afã de fazer algo tracionei levemente o bebê em minha direção e percebi que algo trancava a progressão do restante do corpo. Logo em seguida ao meu gesto mais brusco ouvi um grito vindo de outra sala: “Não puxe!!!” Era o Dr. Wenceslau que ainda estava se escovando. Da porta, e ainda esfregando a escova nos braços pintados de iodo, ele continuou a me orientar:

– Seja gentil. Puxe o corpo do bebê para um lado e com a outra mão libere sem fazer força o braço do lado oposto. Muito bem. Agora, com a mesma delicadeza faça do outro lado. Certo. Continue, só falta a cabeça. Agora é a parte final, e você precisa ir com calma. Levante o bebê em direção à mãe… devagar, muito bem… Isso !!

Pronto, o bebê havia nascido. Assustado e extasiado eu havia atendido meu primeiro bebê pélvico, que foi salvo da cirurgia por uma coincidência e pela insistência inconsciente de uma mãe em parir seu bebê numa velocidade superior à pressa dos profissionais. Também foi minha primeira experiência com “tele conferência”, muito antes da invenção da internet. As orientações da sala de escovação me ajudaram a cumprir minha função simples, mas essencial, de ajudar um bebê a nascer. Não sei se ainda ensinam alunos de medicina a atender partos pélvicos. Hoje em dia o medo é tão grande que esta habilidade aos poucos se desfaz. Reconheço que nos últimos 30 anos as técnicas de atenção às apresentações pélvicas mudaram substancialmente, e percebo que o bebê daquela tarde foi assistido de um modo que hoje em dia não se justificaria. A nádega da mãe apoiada na mesa, o excesso de intervenções do “médico”, a manobra de levantar o bebê estão todas defasadas, mas na ocasião era o melhor que se sabia, e o melhor que pude fazer.

Espero que a nova geração de médicos tenha uma vivência mais próxima dos desafios que um parto nos apresenta, e que eles não sejam resolvidos da forma bruta e simplista da cirurgia. Preservar o nascimento de forma livre é um projeto ecológico e essencial para preservar o que de humano existe em nós.

3 – Função Paterna

Maria Clara me procurou já no início de sua gravidez buscando uma experiência mais natural para seu parto. Professora de história na universidade local, casada com um artista plástico “avant-garde”, ela queria que seu primeiro filho fosse trazido ao mundo de uma maneira suave e tranquila, para que o início desta vida pudesse ser o melhor possível. Dona de um temperamento enérgico e agitado ela parecia o centro estelar do casal, em volta do qual um marido carinhoso, mas apático e tímido, gravitava, com circunvoluções lentas e pacienciosas. As consultas eram sempre guiadas por ela; ele apenas sorria e mantinha-se silencioso. Com seus cabelos ora verdes, ora roxos, pintados como forma de trazer a arte ao seu semblante, ele se limitava a concordar com as determinações firmes de Maria Clara. Ela era a empoderada protagonista de uma história escrita por ela.

O pré-natal seguiu sem maiores sobressaltos até que na consulta da 36ª semana confirmou-se o que há algumas semanas estávamos suspeitando: a sua pequena filha teimava em permanecer sentada, pélvica, com o dorso à direita e a cabecinha, como um pequeno abacate, repousava logo abaixo das costelas. Como Maria Clara era de compleição magra foi fácil constatar a posição alterada, que a ecografia posterior apenas confirmou.

– Podemos tentar fazer uma versão externa, suave e tranquila, para tentar mover a pequena. Que achas?

Ela olhou para o marido que me observava ao seu lado, mas ele nada disse, apenas deu de ombros. Em seu olhar ele parecia dizer “se for para ajudar, porque não?”. Expliquei a ela que a versão só poderia ocorrer se fosse absolutamente suave, o bebê estivesse desencaixado e não causasse nenhuma pressão ou dor. Ela aquiesceu e deitou-se na mesa de exames. Algumas poucas e delicadas trações foram suficientes para perceber que ela não cooperaria. Estava por demais tensa e preocupada. Não entendia bem o que havia ocorrido e a ideia de fazer um bebê girar massageando sua barriga lhe pareceu invasiva. Assim que pressionei a cabeça do bebê em sentido anti-horário ela aumentou o tem da voz e disse:

– Não quero! Pode parar. Estou nervosa, não tenho condições de continuar. Deixe que ela fique na posição que escolheu. Desculpe.

Expliquei a ela que não deveria se desculpar e que aquela era apenas uma tentativa. Sem uma cooperação plena de confiança nenhuma tentativa prosperaria. O marido continuava em silêncio, observando nossa conversa. Disse, finalmente, que poderíamos continuar tentando com moxabustão, homeopatia, rebozo e exercícios. Pedi que voltasse na semana seguinte para conversarmos e me despedi. Uma posição alterada sempre suscita uma série de questões. O percentual é de 4 a 6% de bebês que permanecem pélvicos até o final do ciclo gestacional, mas a pergunta que sempre me fiz foi: eles têm alguma razão para escolher esta postura? Será coincidência ou haverá alguma causalidade recôndita a guiar seu posicionamento? Sentar-se, de braços cruzados sobre o colo uterino é uma determinação fetal, ou um ordenamento materno? Se pudermos “viajar” para mais além, haveria um conluio secreto entre ambos para que aquela posição imprimisse um destino especial, conhecido apenas por ambos? Porque um bebê insiste em colocar-se de costas para o mundo? Talvez eu jamais tenha a resposta para estas perguntas.

Nas semanas seguintes houve pouca modificação. Maria Clara voltava a cada consulta convencida de que nada havia se modificado. Dizia que, se houvesse uma mudança de posição, ela certamente acabaria sabendo. Entretanto, sua gestação mantinha-se plácida, tranquila, serena e imóvel. Nenhuma diferença visual, e os batimentos cardíacos continuavam a ser percebidos como um tropel de cavalos bem acima da cicatriz umbilical. Era teimosa a menina, mesmo diante dos nossos exercícios, tratamentos e súplicas. Com 39 semanas de gravidez Maria Clara, entre decepcionada e constrangida, veio me comunicar sua decisão.

– Ricardo, não tenho condições de passar por um parto deste tipo. Falta-me a coragem. Minha família, com exceção do meu marido, não me apoia sequer para um parto normal. Quando souberam que o bebê estava sentado queriam me internar na hora e operar. Foi uma dificuldade explicar que tudo estava bem e que eu ia manter o meu pré-natal como havia planejado. Entretanto, ter a minha filha nessas condições está para além das minhas forças e minhas capacidades.

Olhei para seu marido que permanecia em silêncio. Minha pergunta silenciosa e insistente era se a sua atitude era de respeito à autonomia que ela requisitava para si ou apenas um desinteresse. Havia um “respeito aos espaços” ou uma falta de aptidão para questionar e opinar sobre uma questão que parecia lhe fugir ao controle? Resolvi perguntar a ela sobre sua decisão.

– Maria Clara, existe alguma coisa que eu possa dizer para lhe demover da decisão de partir para uma cesariana?

Ela mais uma vez olhou para o marido, que por sua vez permaneceu imóvel.

– Não. Esta é a minha decisão.

Estimular o protagonismo tem este preço. Se você realmente quer promover a autonimia plena precisa estar preparado para as decisões que não lhe agradam. Entretanto, como negar à uma paciente que seja honesta com seus limites? Como assumir como meta o protagonismo restituído a elas sem pagar o preço – por vezes muito alto – da decepção? Como ousar subverter a ordenação centenária que coloca o médico em posição superior sem correr o disco de encontrar pelo caminho uma escolha que não lhe parece sensata? Não há como fazer uma omelete sem quebrar os ovos.

– Ok, se não há o que dizer, quem sabe ainda exista espaço para planejarmos a sua cesariana da melhor maneira possível. Um parto pélvico planejado apenas pode ocorrer com a plena aquiescência e colaboração da mãe. Não há, dentro da humanização, espaço para imposições deste tipo. Bem sabemos o quanto um corpo pode se fechar e combater a própria fisiologia, seja por uma contrariedade consciente ou por um medo que brota do território obscuro das emoções inconscientes. Entretanto, creio que uma cesariana seria menos danosa se o bebê pudesse ao menos dar seus sinais de nascer. Assim teríamos o nascimento de sua filha na data que ela determinou, e não no momento que seria melhor para os outros. Que acha da ideia de sua filha escolher a data do seu aniversário? Ela pela primeira vez sorriu durante aquela consulta. Olhou para o marido que, como de costume, concordou com a ideia.

– Como seria? perguntou-me.

– Quando começarem as contrações me chamem. Elas não precisam sequer ser fortes o suficiente para dilatar o colo, basta que sinalizem o início do trabalho de parto. Como é seu primeiro filho espera-se que este processo leve algumas horas, portanto teremos tempo de ir para o hospital, chamar a equipe e fazer a sua cirurgia. O que lhes parece?

Concordaram com a ideia sem questionar. Ficou combinado que tão logo as primeiras contrações chegassem o chamado seria feito e a equipe se encontraria no hospital para ajeitar os pormenores da chegada de sua filha. Não se passaram mais do que alguns dias até que recebi o telefonema de Maria Clara me avisando que havia percebido umas frágeis e esparsas contrações, além da perda de uma gota de sangue, percebida após urinar.

– É o momento, disse eu. Podemos ir para o hospital. Arrume suas coisas que eu chamarei a equipe. Nos encontramos lá.

Imediatamente liguei para meu colega anestesista, parceiro de décadas. Avisei que se tratava de uma cesariana por apresentação pélvica e que podíamos ir para o hospital agora, para evitar que ela tivesse contrações sem necessidade. Ele concordou de imediato e eu arrumei as coisas para ir ao hospital. Nessa ocasião houve uma coincidência curiosa. Quando estacionei meu carro no apertado estacionamento do hospital percebi que um carro fazia o mesmo ao meu lado. Pois era Marco, o anestesista. A piada óbvia não pôde ser evitada: “Se tivéssemos combinado isso nunca aconteceria”. Caminhamos lado a lado pelos corredores e pegamos o elevador até o terceiro andar, onde fica o centro obstétrico.

Quando a porta do elevador se abriu fomos surpreendidos por gemidos vindos do CO. Ao escutá-los ainda tive a oportunidade de brincar com meu colega e dizer “Pelo menos algum parto normal vai ocorrer neste hospital hoje”. Estávamos em um dos hospitais líderes de cesarianas na cidade, que já na época ultrapassava os 80%. Poucos médicos ainda ousavam atender partos normais por lá, e hoje em dia o número diminui de forma marcada, aproximando-se tristemente de zero. Apertei a campainha do centro obstétrico ainda conversando alegremente com Marco. A enfermeira abriu a porta rapidamente, e sorriu ao me ver.

– Graças a Deus o senhor chegou doutor. A sua paciente está muito ansiosa. Não para de gritar e disse que está com muita contração.

– Minha paciente quem?, perguntei eu

– Ora, a Maria Clara. O senhor não pediu a ela que viesse para cá? Ela está em franco trabalho de parto e disse que tem vontade de fazer força!!

Não é possível. Eram dela os gemidos que ouvimos do corredor! Eu havia falado com ela havia menos de uma hora, com leves contrações espaçadas e frágeis. Não poderia ter progredido de forma tão rápida e intensa em poucos minutos. Eu precisava avaliar para confirmar o que estava acontecendo. Ao lado esquerdo da porta de entrada ficava a sala de exames, para onde as pacientes iam para o exame inicial e a avaliação dos sinais vitais, e de lá se dirigiam para a sala de pré- parto e parto. Abri lentamente a porta e pude ver Maria Clara transtornada, segurando a mão de um silencioso marido de cabelos verdes. Quando me viu, gritou a todos os pulmões.

– Porque demorou? Estou com muita dor! Quero a minha cesariana agora! Nós combinamos a cirurgia, você concordou! Não me deixe esperar mais, por favor!

O marido parecia atônito e não ousava falar, talvez com medo da reação de sua histriônica esposa. Olhou para mim timidamente, e de forma educada perguntou se poderíamos dar seguimento ao nosso acordo inicial.

– Claro que sim, o anestesista está aqui comigo. Tudo foi rápido demais, você recém tem uma hora de trabalho de parto. As contrações surgiram de forma inesperada, intensas e frequentes. O anestesista já está pronto, do lado de fora desta porta. A nós basta apenas passar para a sala de cirurgia, chamar meu auxiliar e avisar a neonatologia. Isso não ultrapassa uns poucos minutos. Tente aguentar firme.

Ela ainda esboçou um “mas vai demorar?”, mas enquanto ela ensaiava esta queixa eu e seu marido a levantamos da maca onde estava e a levamos caminhando até a entrada da sala cirúrgica. Entretanto, antes que pudéssemos fazer isso, ela parou para mais uma contração, e pude ouvir o som inconfundível da guturalidade, a conexão sonora grave entre a glote e o colo uterino, o som das expulsões que antecipa os nascimentos.Surpreso pelo som que acabara de ouvir, segurei sua mão com firmeza e pedi que parasse.

– Espere, entre na sala de parto, disse eu. Preciso avaliar imediatamente onde está o seu bebê.

Colocamos Maria Clara na cama de lençol branco e acendemos a luz. Pedi à enfermeira uma mão de luva para realizar o toque vaginal. Esperei por menos de um minuto pela próxima contração e, quando a nova onda surgiu, pude avaliar o que acontecia no íntimo de suas contrações. Uma nádega pequena cobria inteiramente a cavidade vaginal. A dilatação tsunâmica havia se completado em minutos, e a descida do bebê foi espetacular. Afastando-se os lábios vaginais já era possível vislumbrar a bolsa protusa e a nádega pálida que se escondia por detrás, no aquário de bolsa, vérnix e água. Levantei os olhos para o casal e lhes disse, sem pestanejar:

– Não há como segurar. Este bebê vai nascer. Está dentro da vagina, e nada mais o segura. Não há tempo, e muito menos razão, para se fazer uma cesariana. Sua filha vai nascer dentro de instantes.

Maria Clara me olhou com olhos de pavor. Fitou os olhos do marido e depois os meus. Colocou-se de joelhos na cama e clamou aos céus:

– Por favor, Ric, faça alguma coisa. Uma criança não pode nascer assim!! Ela vai ficar presa, vai entalar, vai sofrer!! Eu não quero que ela venha ao mundo desta forma! Nós havíamos combinado que você ia me operar, e eu fiz tudo o que foi combinado. Eu não tenho culpa da velocidade, mas você pode resolver isso. Por favor, me opere, agora!!

Olhei para os olhos de Maria Clara e tentei, da forma mais calma do mundo explicar as características emergenciais do caso.

– Acho que você não entendeu. Não se trata de querer ou não operar. Não se trata muito menos de cumprir ou não o acordo anteriormente firmado. Sua filha vai nascer em instantes, basta que você solte o corpo e a ajude. Ela está praticamente saindo. O anestesista está ali, do lado de fora, mas até levar você para o bloco e operar ela já estaria nos seus braços.

Aponto para a porta da sala de parto onde o anestesista estava nos acompanhando pela fresta. De lá ainda pôde dizer “estou aqui se precisarem de mim”. Depois disso mais uma contração e pude constatar o “sinal do bochecho”, que é como chamo a apresentação que empurra o períneo fazendo duas “bochechas” ao lado do óstio vaginal. Não adiantou muito a minha fala, e antes que a próxima contração chegasse ela despejou seu derradeiro esforço de capitulação.

– Você me enganou! Disse que faria a cirurgia e está me enrolando. Eu não mereço ser tratada assim, quero minha filha!!

Finalmente, a cartada final. Virou seu rosto para a esquerda e olhando duramente para o marido disparou sua queixa mais grave, entre gritos, gemidos e choro.

– E você não faz nada? Está me deixando aqui sofrer e não diz coisa alguma, nenhuma palavra, nenhuma defesa? Estou lidando sozinha com toda essa contrariedade e de você não recebo nenhuma ajuda. Quando é que você vai…

– Cale-se. Fique em silêncio por um minuto apenas. Pare de falar e concentre-se no que você tem a fazer. Eu mesmo vi que nossa filha está saindo. Ela vai mesmo nascer agora. O doutor está certo, e isto é o melhor a fazer. Confie e pare de tagarelar sem parar! Chega de choramingos inúteis e vazios. Faça força e feche a boca!

Depois disso apenas o silêncio, que durou a eternidade de alguns poucos segundos. Sim, eu não poderia falar isso; jamais teria esse direito. Os gritos severos vieram do seu esposo, o mesmo que se mantivera quieto por todo o tempo, e cuja voz eu havia escutado não mais do que meia dúzia de vezes durante todo o pré-natal. Imediatamente, como se fosse banhada por uma cachoeira de sensatez, ela silenciou. Olhou para mim e depois para o marido. Fungando e secando o rosto umedecido pelas lágrimas, perguntou:

– Então vai nascer mesmo? Devo fazer força? Vai dar tudo certo?

– Claro, dissemos os dois. E vai ser agora.

Ela reconheceu a chegada da contração e pela primeira vez vi seu corpo relaxar e entregar-se à força de seu útero. Solta dos arreios da tensão de seu corpo, que se contrapunham às forças expulsivas, e seu bebê pôde finalmente escorregar pela vagina. Mais uma última força e o desprendimento da cabeça foi suave e tranquilo.

– Nasceu!! gritou ele, e de sua garganta veio um grito trancado há muito tempo. Sua cabeça voltou-se para cima e começou uma mistura incompreensível de lágrimas, choro e gargalhadas ruidosas. O homem do cabelo verde extravasava de alegria pela tensão concentrada de um parto cuja rapidez desafiou toda a nossa paciência e sangue frio.

Ela aconchegava seu bebê ainda com estranheza. Nem 15 minutos haviam se passado desde que chegamos, e ela já estava com sua menina no colo. Ria e chorava, olhava para os primeiros lamentos de sua filha, limpava-lhe o rosto e acariciava seus cabelos. O marido a abraçou e ambos choraram em uníssono uma grande vitória sobre o inesperado.

Por quase duas décadas este parto ocupou meus pensamentos, e acho que nele existem vários temas que podemos perseguir. O que mais me estimula é a atitude inesperada e firme do marido. Em verdade, creio que sua ação forte e impositiva, estabeleceu um limite para o descontrole de sua esposa. Ao meu ver, este foi o fator essencial que permitiu o nascimento na contração seguinte. Não fosse o tom, a voz e a sua autoridade e ela continuaria numa espiral de desconfiança, medo, angústia e tensão, exatamente os elementos que estavam impedindo a progressão do parto e o nascimento. Muito se diz da função paterna, o estabelecimento de limites, aquilo que constitui o pai em uma relação. Pois para mim, a ação súbita, inesperada e firme daquele pai, selou de forma intensa e duradoura a sua função na vida daquela criança. O grito primal fez um dueto com a voz forte e decisiva do pai, e juntos formaram a harmonia de sons que culminou em um nascimento vitorioso.

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Machismo

Soldadas

(*) post scriptum:

Este foi o texto que gerou a cisão dentro do antigo blog que eu escrevia,  que depois de dois anos de convivência fui convidado e me retirar. Existe um outro artigo em que eu deixo aclaradas algumas posições sobre este texto e que se chama “Algumas Explicações Necessárias”  que também contém alguns escritos que foram publicados no Facebook após o incidente.  No final deste artigo original eu transcrevi em itálico – para diferenciar do texto publicado no blog – minhas falas em uma conversa privada com uma amiga feminista que lamentava o ocorrido. Espero que este fato triste seja um degrau na construção de uma interlocução cada vez mais intensa entre a humanização do nascimento e o feminismo. Estou certo de que são aspectos diversos na cultura, mas suas interfaces são tão claras que a necessidade de um contato entre humanistas e feministas é mais do que necessário: é urgente.

MACHISMO

A segregação que o patriarcado determinou forçou a invasão que hoje testemunhamos nos espaços antigamente entendidos como “naturais”. Eu não creio que o patriarcado seja “machista”, pois penso se tratar de dois aspectos da organização social diferentes em essência. Minha tese é de que o machismo é a naturalização de um modelo social artificial baseado na posse e com o objetivo de garantir segurança. O patriarcado não é um sistema de valor; o machismo é.

A separação das atividades por gênero, por vezes absolutamente RÍGIDAS na sociedade, é milenar. Poderia me cansar citando, mas lembro que a atenção ao parto era proibida para os homens até o final do século XVI.

“Em 1522, um certo doutor Wortt de Hamburgo travestiu-se de mulher para assistir a um parto, mas seu disfarce foi descoberto e ele foi queimado na fogueira “por sua indecência e por degradar sua profissão” (Rich, 1986:140), o que ilustra que, pelo menos em certos contextos, aos varões era vedada a presença na sala de parto, delito que poderia ser punido com a morte. Por outro lado, foi no começo do século XVI que se iniciou a publicação de edições dos livros de ginecologia e obstetrícia dos antigos, por varões, em língua vernacular, como é o caso do Rosengarten, o Jardim das Rosas.”  (www.mulheres.org.br/mestrado_3.html)

Mulheres nas Igrejas são discriminadas até hoje (e não apenas na Igreja Católica), e não se vislumbra uma invasão neste terreno em curto prazo. Nenhum sinalizador na Santa Sé ou outras denominações para que o modelo misógino e androcêntrico seja modificado.

As invasões de território, na esfera de gênero, não ocorrem com facilidade e nem com plena aceitação. Por isso o termo invasão está correto, pois os espaços não “estão aí” para serem ocupados, pois já tinham “dono”. A posse é garantida pela cultura, mas como sabemos, as culturas são cambiantes, mutantes e plásticas. Mais uma vez, o termo “invasão” se refere exatamente a estes caminhos de lutas para desbravar espaços ocupados por OUTROS. Mulheres e homens assim constroem a sociedade. As mulheres o fazem de forma mais intensa na atualidade porque muitos espaços sociais foram ocupados pelo patriarcado (e não pelo “machismo”). Todavia, vemos – como acima – espaços sendo invadidos pelos homens de maneira corajosa e consistente, como na atenção ao parto nos últimos 3 séculos, ou nos cuidados com mães e bebês nos últimos anos.

O machismo é um sistema de poder como qualquer um dos outros sistemas existentes, como o racismo. Quem não se deixa cativar por eles? Quem não os incorpora e os naturaliza? Se você fosse da realeza no século XVII ou XVIII certamente acreditaria que sua essência é diversa daquela da plebe, e olharia seus braços todos os dias para confirmar que seu sangue é azul. Não se trata de justificar qualquer desses sistemas de exclusão, mas incorporá-los à natureza humana. É preciso coragem para abrir mão de suas prerrogativas culturais. Quando se sugeriu a presença de doulos no parto algumas corporativistas de gênero “subiram nas tamancas” e reclamaram dessa invasão de território. Elas estavam cativas em seu sexismo, não lhes parece?

O patriarcado ofereceu a posição política preponderante ao mais forte, para proteger a sociedade. Essa é sua essência. É ingenuidade acreditar que ele foi criado por “ódio às mulheres”. Este sentimento até pode existir em muitos homens, mas não é pelo ódio que se cria um modelo e uma estrutura social de absoluto sucesso como este, de abrangência universal. Em qualquer canto da terra ele foi utilizado como ferramenta de progresso, e qualquer sociedade que ousou desafiar o patriarcado no passado veio a fenecer.

Entretanto, hoje em dia – depois da pílula e da Magnum, diriam algumas – sua necessidade não se faz mais tão evidente. A força física dos homens não é mais tão fundamental em um mundo tecnológico, o que permite que grandes nações do mundo – Alemanha, Chile, Brasil, Argentina – sejam governadas por mulheres, de compleição física mais frágil, mas igualmente poderosas. Agora já é possível trocar a configuração política do mundo por um modelo mais justo e equilibrado, onde os gêneros sejam respeitados e tratados com equidade.

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Vou acrescentar algumas coisas que eu disse depois no texto original para que a minha posição possa ficar mais clara. Mas não se preocupem comigo… isso não me atinge tanto assim. Pois é, isso é ruim, mas na minha opinião faz parte do jogo. É natural que isso aconteça, e temos que nos preparar para isso. Com o tempo as melancias se ajeitam com o balançar da carroça.

Minha argumentação é bem simples: o patriarcado é uma estratégia de sobrevivência, estabelecida no fim do paleolítico superior e a partir das mudanças estruturais da sociedade, de um modelo nômade para um agrário. O surgimento da posse (terra, animais) nos obrigou a colocar em posição de poder os machos testosterônicos de nossa espécie, daí surgindo o patriarcado. Isto é: o patriarcado NÃO surgiu por um ódio às mulheres. Um sentimento estranho como esse não poderia ter criado um modelo de “sucesso” como este na manutenção da propriedade e na expansão territorial, com consequente bem estar para as populações sob seu domínio. Não só isso: o patriarcado permitia que um homem tivesse várias mulheres, o que apoia o incremento populacional, o que era fundamental para as novas tarefas incorporadas, na agricultura e pecuária..Isso nada tem a ver como machismo, que é a NATURALIZAÇÃO de um sistema ARTIFICIAL, como o patriarcado. Entretanto, algumas feministas se encheram de raiva por eu aparentemente ter uma visão “condescendente” do patriarcado. Não é verdade, mas eu acho que se você confundir patriarcado com “ódio às mulheres” será muito mais difícil combatê-lo.

O machismo é a tentativa de fazer uma simples estratégia (como uma ditadura, o racismo ou a escravidão) ser naturalizada, como se fosse “natural” o homem ser superior à mulher. Mas TODA a briga foi por eu ter dito exatamente isso o que muitas pessoas disseram antes de mim.
Mas é ÓBVIO (!!!!!) que o patriarcado é um estupendo sucesso !! Fosse ele um fracasso não haveria porque combatê-lo !!! Ele ainda é, mas é claro que percebemos a sua decadência dia a dia, e é para isso que lutamos. Quando falo no sucesso do patriarcado falo de sua abrangência planetária, sucesso em abrangência e em poder de transformação social. Somos todos herdeiros do patriarcado.

Mas isso de deu as custas de sufocar o feminino. E o patriarcado precisa ser substituído por um modelo mais justo e igualitário. Ele agora é insuportável. A origem das ofensas está nessas simples ideias. Podem ser combatidas e aceito argumentos em contrário, mas as ofensas foram pela minha pessoa, e não pelas minhas ideias. Eu tenho uma visão próxima da marxista sim, dialética e histórica, mas o problema é tocar na ferida do feminismo, e isso deixou as feministas em pé de guerra. Todavia meus argumentos são límpidos e translúcidos. Pode-se discordar deles, mas é absurdo pensar que “existe algo por trás”, desejos ocultos ou uma visão diminutiva da mulher. Pelo contrário; no próprio texto eu falo da importância capital de combater a ambos: o machismo por ser preconceituoso, e o patriarcado por ser um modelo anacrônico.

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Poderes

Humanis Corporis

Queria desenvolver mais o tema da fixação dos obstetras brasileiros de fazer seminários em que dedicam algumas horas para combater – das formas tradicionais – o parto domiciliar. Via de regra escolhem-se profissionais que apresentam os conhecidos trabalhos que confirmam o que se pretende acreditar. Falam exaustivamente dos riscos, dos problemas, dos transportes, das cidades grandes. Mostram a Inglaterra como um país completamente diferente, assim como a Holanda, e explicam que os partos domiciliares de lá podem ser estimulados pelos respectivos governos porque…. bem, eles são ingleses e holandeses, não é?

Mas o que mais chama a atenção é que os riscos, se existirem, são muito pequenos, o que os transformaria em riscos normais da vida humana. Jogar futebol na escola é muito mais arriscado do que jogar xadrez, mas nem por isso se proíbem jogos no colégio por existir uma alternativa mais segura. Há que se considerar riscos relativos e riscos absolutos, o que frequentemente não se faz, por interesse. Todavia, qualquer pessoa percebe a existência de VALOR nos jogos de futebol, o que faz com que os riscos sejam absorvidos como parte da vida, do preço que se paga por existir. O mesmo raciocínio se usa para viagens de avião e automóvel; o segundo não é proibido por ser o primeiro mais seguro. Porém, muitos se negam a perceber qualquer valor associado ao rito de passagem atravessado pelas mulheres chamado “parto”, e tentam de todas as formas desconsiderá-lo.

Partos extra-hospitalares no Brasil não chegam a 3% do total de nascimentos, mas os partos “urbanos” domiciliares e planejados, em mulheres de classe média, não chegam a 1%. A quantidade de mulheres que optam por um modelo domiciliar é desprezível diante do modelo hospitalar. Por isso cabe a pergunta: porque tanta preocupação? Porque se ocupar destas mulheres, normalmente MUITO informadas, e que optam por ter filhos em suas casas?

Minha tese é que o parto domiciliar, mais ainda do que o parto realizado em Casas de Parto, incomoda pelos seus significados invisíveis. Como dizia a professora Robbie Davis-Floyd no seu livro Birth as an American Rite of Passage a obstetrícia contemporânea se estabelece sobre a crença da defectividade essencial da mulher. Este é seu marco teórico mais importante, e menos percebido. No paradigma tecnocrático os sujeitos são máquinas, coisificados pelo modelo cartesiano, De Corporis Humani Machina. Já no que tange às mulheres, elas são dotadas pelo Criador de uma máquina defeituosa em essência, cuja fabricação é equivocada e sujeita a erros, que podem ser consertadas pela razão humana personificada na figura masculina do médico. Mulheres são seres passíveis de falhas, e cabe aos profissionais a tarefa de resgatá-las das garras cruéis de uma natureza madrasta.

O parto domiciliar é o avesso dessa crença. Muito mais além das teses da humanização do nascimento, o que sustenta o parto domiciliar planejado – com sua tecnologia simplificada (mas eficiente, como provam os estudos) – é a postura contrária (muito mais do que discordante) à visão corrente da defectividade feminina. Desconsiderando a visão médica tradicional da “bomba relógio” prestes a explodir, as parteiras modernas (enfermeiras e obstetrizes) que acompanham partos domiciliares enxergam a mulher na plenitude de suas capacidades, e na excelência de seus corpos. Mulheres parindo são exemplos de “perfeição” da natureza, expondo a delicadeza do processo adaptativo da espécie aos desafios da altricialidade e da encefalização.

Essa atitude ofende o modelo médico. Mais do que preocupar-se com possíveis problemas para mães e bebês – o que seria uma atitude nobre da corporação – o parto, sem os aparatos e os profissionais que configuram o modelo hegemônico, desafia os poderes constituídos sobre a visão catastrofista do nascimento. Fosse o bem estar de mães e bebês a questão preponderante e estaríamos combatendo um problema MUITO mais óbvio, e sobre o qual já não recai nenhuma dúvida: a epidemia de cesarianas. Nenhum médico sério questiona a mortalidade e a morbidade aumentadas com o avanço das cesarianas no mundo todo, mas as lideranças da corporação quase nada dizem ou fazem para estancar a hemorragia de cirurgias obstétricas. E por quê?

Ora, porque as cesarianas estão alinhadas com o modelo ideológico que coordena o nascimento. Elas se adaptam como uma luva à ideologia predominante de corpos mal feitos, gestações problemáticas, ciclos vitais fisiológicos tratados como patologia e o uso salvador das técnicas, hospitais e recursos de toda a ordem para “salvar” mulheres condenadas pela sua própria condição de “ser mulher”.

Os partos domiciliares ameaçam a estrutura de poderes; cesarianas em desvario não. Pelo contrário: quanto maior o número de nascimentos cirúrgicos maior será a artificialização do nascimento e mais importantes serão aqueles que o controlam. Por esta razão é que se dedica um tempo anormal para combater um modelo de assistência que está LONGE de colocar pessoas em risco, mas que ameaça poderes instituídos e hierarquias sociais estabelecidas.

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Saber Parir

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Tentem imaginar minhas tentativas de explicar as múltiplas vantagens das posições verticalizadas (cócoras, joelhos, em pé com apoio) em meu primeiro ano de residência, há 28 anos, para os meus colegas. Depois de ler “Aprenda a Parir com os Índios”, do obstetra Moysés Paciornik, um mundo enorme de possibilidades se abria à minha frente, e meu entusiasmo era grande, quase tão grande quanto a minha ingenuidade. Eu só conseguiria entender a razão para a rejeição a estas ideias muitos anos depois. Após me escutar discorrendo de forma emocionada sobre o parto de cócoras, um destes colegas, hoje um famoso mastologista, me fuzilou com os olhos e calmamente falou: “Ric, você só não cai no meu conceito porque de onde você está não há como cair“. E isso apenas porque eu achava que a posição de parir era inadequada, absurda, insensata e “ilegal” (pois ia contra a mais antiga das leis deste planeta: a “lei da gravidade”).

Porém, a posição em que o médico se coloca durante o segundo estágio do parto (da dilatação completa até a expulsão do bebê) tem muito mais a ver com questões semióticas e políticas do que com a biomecânica do parto. Médicos “acima” e pacientes “abaixo” transmite uma potente mensagem para a paciente: “Obedeça, seja dócil, estou aqui em cima, controlando tudo. Eu sou o médico e tudo está em minhas mãos, mesmo que você não as possa ver”.

Essa postura física implica, por sua vez, uma “postura” subserviente e subalterna das pacientes, e isso é tudo o que desejamos: docilidade e complacência. Por isso é que, mesmo que TODAS s evidências científicas do mundo demonstrem há décadas – e por várias maneiras e perspectivas – as posturas verticais como sendo melhores para mães e bebês, basta fazer uma visita por qualquer maternidade no Brasil para perceber que o parto deitado (posição de “frango assado”) ainda é preponderante. Conheço colegas que me confessam que “nuca fiz diferente, ademais não saberia como conduzir um parto que não fosse com a paciente deitada na cama e com as pernas amarradas“.

Mas porquê tanta resistência e dificuldade? Ora, a razão para isso é porque não se trata de uma questão racional, que possa ser combatida com evidências e estudos, mas ligada ao desejo. Assim, a posição da paciente em um parto cai na definição clara de um ritual, conforme a visão de Robbie Davis-Floyd: uma ação caracteristicamente repetitiva, padronizada e simbólica, carregada de valor cultural. O simbolismo expresso na posição de parto é a dominação sobre o corpo da mulher e a manipulação deste pelo saber racional, desconsiderando a sabedoria intrínseca que a mulher carrega (o “chip” de parto nativo) sobre os modos de parir e, em especial, o SEU modo específico de fazê-lo.

Mudar este padrão é tarefa difícil, pois há muito mais do que simplesmente uma posição. A própria visão que os profissionais tem da mulher e suas habilidades é que precisa mudar…

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Massa Crítica

Mulheres greve

Enquanto a “massa crítica” daquelas que percebem a violência obstétrica for assunto para poucas mulheres estas continuarão a ser apenas vítimas, passivas e submissas. Quando conseguirmos – através da conscientização e da educação (por isso mesmo é um processo lento) – elevar este número, os próprios perpetuadores da opressão do sistema vão se sentir desconfortáveis com as ações que cometem – conscientes ou inconscientes – que expropriam o protagonismo das mulheres. Se é complexo sair da zona de conforto e assumir uma postura ativa e protagonista diante do próprio corpo e da gestação, também é a ÚNICA forma de romper o modelo opressor.

Como eu disse anteriormente em diversas oportunidades, existem MILHARES de desculpas que qualquer mulher pode usar para se acomodar na posição de vítima, a imensa maioria delas válida e compreensível. Todos nós alguma vez já ouvimos isso: “Ah, sou pobre, fui educada assim, nunca me valorizaram, sempre fui depreciada, sempre fui desconsiderada, nunca fui elogiada, sou mulher, ninguém me escuta, não se valoriza nada do que faço, etc.” Quem poderia negar a importância dessas marcas na estruturação da personalidade feminina? Como não ser compassivo com este tipo de imposição cultural a que se submetem as mulheres e seus corpos?

Tudo isso é verdade. Entretanto, somente quando ROMPERMOS AS BARREIRAS impostas pela condição de vítima é que despertaremos para uma sociedade mais justa e igualitária. Apenas quando tivermos 3, 4 ou 10, quem sabe 30 ou 50 de cada 60 mulheres plenamente conscientes de seus direitos sobre seus corpos e suas gestações poderemos mudar verdadeiramente o panorama do parto neste país.

Todavia – podem ter certeza disso!! – elencar desculpas (mais uma vez, válidas e compreensíveis) não vai transformar vítimas em protagonistas!! Isso só se faz com trabalho e luta; coragem e determinação. Muita cara vai levar tapa, muita mulher ainda será mal tratada nos serviços de saúde, mas é preciso que elas se ergam, insistam, falem alto e proponham um novo modelo.

Não existem alternativas… Somente a postura combativa e consciente nos retira da submissão e da alienação.

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Amamentação, Ativismo e o Futuro

FRANCE BREAST FEEDING
Entrevista da escritora e feminista Elisabeth Badinter…

Primeiramente eu acreditei se tratar de um texto muito antigo, talvez dos primórdios do movimento feminista contemporâneo, lá pelos anos 60. Quando vi que era uma entrevista de 2010 eu fiquei surpreso, pois percebi que a autora está absolutamente defasada no seu discurso de crítica às medidas de incentivo à amamentação, contrária a tudo que se escreveu e publicou sobre os benefícios desta ação. Ok, ela fala que amamentar é bom, mas que este estímulo só deveria ser para os países pobres com problemas de saneamento.

Como? Europeias não tem vantagens em amamentar e ficar com seus filhos? Ora, Dra Elisabeth… De onde a senhora tirou elementos para criticar tais ações? Que estudos sustentam isso?

Eu gostava muito do seu trabalho, em especial um livro que li nos anos 80 chamado “O Um é o Outro“. , mas esta sua entrevista sobre amamentação, apesar de ter já 4 anos de idade, é extremamente superficial e equivocada. As perguntas, em verdade, são muito mais conscientes e elaboradas que as respostas. Se tivesse sido escrito por uma estudante de jornalismo, ou alguém totalmente distante do tema, eu entenderia. Mas um depoimento como esse vir de uma feminista é no mínimo estranho. Ela desqualifica TODAS as pesquisas que demonstram a qualidade da amamentação não apenas do ponto de vista biológico, mas igualmente psicológico. Trata a amamentação como algo bom para “pobres” e o contato com o bebê como uma espécie de “frescura burguesa”. Tenta colocar aqueles que lutam pela humanização do parto e da amamentação como retrógrados e machistas, mas aponta para um futuro obscuro. Sim, “mulheres não são chimpanzés”, mas afinal… o que são? Se não podemos aprender com a etologia – o estudo do comportamento animal – como poderemos definir o ser humano numa era pós Darwin? O contato desses animais com seus filhotes não nos aponta para uma importância fundamental dessas atitudes? Deveríamos nós, numa demonstração de arrogância típica do século XVIII, acreditar que nada temos que ver com os milênios que nos antecederam e que moldaram nossa essência animal e mamífera?

Pois eu responderia a ela que temos muito mais de chimpanzés do que ela imagina. Nosso comportamento é marcadamente “animal”, no sentido de buscarmos vias inconscientes para a satisfação de nossas necessidades, para além do que a nossa tênue racionalidade é capaz de abranger.

Quanto aos exageros dos ativistas…

Ora… quem não os comete? Aqui no Brasil, mas creio que também em Portugal, muitos ativistas por vezes erram o alvo ao culpabilizar mulheres por não obedecerem um ideário de parto normal, sem drogas, sem intervenções e com amamentação prolongada. É claro que este não é um roteiro único, mas um mapa para que se chegue a uma satisfação no processo de maternagem. Ele NÃO é constituído de um caminho único, mas de infinitas alternativas. Entretanto, ainda é comum vermos colegas indignados com os desvios de algumas mulheres, e isso é capaz de culpabilizá-las.

Entretanto, mesmo com esses contratempos, não há como esconder que o parto normal humanizado e a amamentação efetivas oferecem benefícios inequívocos para o binômio mãe bebê. Portanto, deve ser sim uma política de governo, da mesma forma que deve ser diminuir o consumo de açúcar (principalmente por crianças), publicidade infantil e consumismo, pois, mesmo sabendo que as famílias tem o DIREITO de criar seus filhos a partir dos seus valores, é DEVER do poder público oferecer as informações e o estímulo para uma educação mais saudável e segura.

Podemos concordar com Elisabeth Badinter quando ela reclama do cerceamento de opções e de uma espécie de “patrulha ideológica” sobre a amamentação. Não devemos criminalizar estas opções, pois nunca temos pleno conhecimento dos determinantes (conscientes e inconscientes) para a sua adoção. Por outro lado, a pensadora erra feio ao deixar de enxergar os benefícios inquestionáveis conseguidos com o ESTÍMULO à amamentação e ao parto normal. Fazer que as mulheres REGRIDAM às teses feministas dos anos 60 – onde o objetivo era uma igualdade irreal e ingênua com os homens – é um desserviço ao feminismo, que abandonou estas teses em nome de uma valorização das características femininas mais preciosas, como a gestação, parto e amamentação. Se estas características femininas NÃO SÃO determinantes do feminino (que em muito extrapola estes elementos) também não são algo que deve ser extirpado das mulheres, como defeitos, fraquezas ou equívocos da natureza.

A entrevista da Sra Elisabeth Badinter pode ser encontrada aqui:

Mulheres não são Chimpanzés – Elisabeth Badinter

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A necessidade das Doulas

RenataFrohlich044a

Creio que quando falamos de doulas e suas tarefas na assistência ao parto precisamos deixar papéis e funções bem claras. Muito já foi dito sobre o quanto uma doula pode ser importante no parto, pela vinculação emocional que ela produz com a mulher que está parindo, assim como muito já se disse sobre os limites desta atuação. Doulas NÃO fazem nenhuma ação médica ou de enfermagem. Doulas não substituem o pai, e não discutem determinações médicas. Doulas não receitam droga de espécie alguma e não assumem o protagonismo pela mulher. Doulas são ajudantes, amigas, parceiras compassivas e auxiliares experientes na tarefa de fazer nascer.

Mas são elas fundamentais?

Eu acho que nós precisamos contextualizar. O movimento de doulas no Brasil já tem mais de 10 anos, e muitas doulas no Brasil saem dos cursos de capacitação todos os dias com o real interesse de ajudar gestantes na tarefa de parir. Para muitas mulheres, com suas histórias, contextos e circunstâncias, uma doula será fundamental, mas para que isso aconteça deveremos respeitar o sentimento dela sobre o evento. Caso contrário criaremos apenas outra invasão sobre a autonomia das mulheres.

Quando eu fui pai – há mais de 30 anos – não havia doulas. Minha mulher não teve este tipo de ajuda e apenas pude estar presente porque era estudante de medicina. Ela deu a luz em um parto grosseiro, em uma sala cheia de profissionais pouco afeitos a trabalhar com a magia do nascimento. Entretanto, ela pariu. Posso dizer que, para ela uma doula não foi “fundamental”, o que não significa que, se uma doula estivesse presente, ela não poderia ter uma experiência muito mais gratificante e menos angustiante.

É possível que a grande dificuldade quando tratamos da presença de uma doula esteja na ideia de que isso seja “fundamental”. Essa expressão nos leva aos fundamentos, à essência, condições sine-qua-non. Por exemplo: uma bola é fundamental para o futebol; um juiz não. Assim, podemos dizer que para o nascimento de uma criança apenas a mãe e o seu bebê são “fundamentais”; todo o resto vem por acréscimo. Desta forma, para um parto é necessário que haja uma grávida, mas não uma doula. É importante, entretanto, que entendamos quando as ativistas dizem: “Toda mulher TEM que ter uma doula“. Nesse caso, trata-se de uma emoção, uma maneira muito mais simbólica do que real de tratar a importância que elas percebem na ação de uma doula. É apenas a expressão de uma alegria e de uma gratidão, e não um tratado sobre a ontologia do parto.

Ter uma doula em um parto PODE ser espetacular para o desenvolvimento do parto, por que tem a ver com as necessidades básicas humanas de carinho, suporte, apoio e afeto. Entretanto, para algumas mulheres a presença de qualquer pessoa pode produzir um efeito contrário, e nesse caso uma doula NÃO deveria estar presente. Essa é a tese que eu mais me dedico no momento: o “Parto na Perspectiva do Sujeito“. Nós, profissionais de saúde e gestores, temos o DEVER de oferecer uma doula para todas as gestantes, tanto quando oferecemos cesarianas para casos patológicos, analgesias para dores acima do limite ou antibióticos nas infecções. Eu até acredito que não disponibilizar uma doula um dia será considerado antiético, se forem proféticas as palavras do Dr John Kennell. Todavia, utilizar uma doula como ajudante na atenção ao parto só pode ocorrer quando estiver em sintonia com as características do SUJEITO que está parindo, e não pela imposição de protocolos coisificantes, objetualizantes e homogeinizantes. Uma doula é um DIREITO, e jamais uma rotina hospitalar ou uma peça de mobiliário, que estará junto à gravida quer ela queira ou não.

Somos muito mais do que mamíferos, e nossa conformação racional nos impõe características ímpares. Somos agentes da natureza, e não apenas submetidos à sua vontade. Somos seres de linguagem, vagamos no universo da palavra, volitamos sobre significados e significantes e não podemos ser analisados apartados da consciência que conquistamos. Assim, determinar uma doula como “essencial” é desreconhecer nossa característica única de “humanos”, tanto quanto impor analgesias ou decretar a privacidade como igualmente “fundamentais”.

Deixemos nas mãos das mulheres as escolhas, este é o caminho. Se é importante oferecer a elas o que o conhecimento nos mostra como válido, mais fundamental ainda é permitir que cada mulher faça suas escolhas como desejar, baseadas em sua vida, desejos e valores.

PS: Esse é um debate que aconteceu em 2012, reformatado…
Na foto, Zeza Jones, Doula Zezé e Renata Fröhlich no nascimento de Flora, em 29/12/2007

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Comedoras de Placenta

Mulher comendo

Trabalho com humanização do nascimento, mas tenho pouquíssima experiência em placentofagia. Na verdade apenas vi isso, em salas de parto, como uma espécie de brincadeira entre o casal, algo para servir de laço entre eles. Sei que existe este costume entre algumas pessoas, inclusive aqui no Brasil, especialmente algumas parteiras tradicionais do nordeste, mas não acredito que seja uma prática muito disseminada.

Veja bem, até mesmo entre os animais a placentofagia é relacionada muito mais às questões ecológicas e em, menor grau às determinações espécie-específicas. Isto é: não dá para se dizer que os leões, por exemplo, comem a placenta, ou os babuínos, gorilas ou chimpanzés como uma característica da espécie. Para estes mamíferos o uso alimentar da placenta, quando ocorre, é feito por duas razões específicas principais: obter reserva alimentar em contextos de falta de alimento ou para afastar predadores, que poderiam ser atraídos pelo odor de sangue. Assim, muitas espécies em cativeiro (onde não há risco nem fome) jamais comem a placenta. Por outro lado, na vida selvagem isso pode ocorrer mais do que se observa.

No ser humano nenhuma das justificativas acima se adaptaria à placentofagia. Não temos predadores que se atrairiam pelo cheiro de sangue  nem parece razoável usar 700 gramas de carne para suprir deficiências alimentares absolutas. Portanto, o uso é principalmente simbólico, mas pesquisas sobre seus efeitos medicinais poderiam nos oferecer informações importantes para tratamentos de transtornos do puerpério, entre outros.

Qualquer ato simbólico, incorporado em um ritual, pode parecer  “bizarro” para algumas pessoas, mas pode ser facilmente incorporado por outras culturas. Para alguns, os rituais de batismo ou casamento são igualmente estranhos e até mesmo degradantes. Se quisermos ter uma visão mais abrangente diante da enorme diversidade de rituais existentes no planeta,  não haverá nada de muito estranho em alimentar-se ritualisticamente do envoltório recentemente expelido de um bebê. Compare isso com o corte do perineal (episiotomias) ou a extirpação do prepúcio (circuncisão,  realizada pelos semitas e por grande parte da população dos Estados Unidos), que são cirurgias ritualísticas e mutilatórias da medicina ocidental, e perceberás que, subitamente, a placentofagia se torna muito mais inocente do que estas práticas.

Assim sendo, fica fácil perceber que as críticas à placentofagia são carregadas de preconceitos. Porém, a carga recente contra essa prática mira as placentas que são “devoradas”, mas na verdade tenta atingir as mulheres que procuram fazer do seu parto um processo de empoderamento pessoal. Reivindicar o protagonismo às mulheres no momento do parto passou a ser um “caso de polícia”.

Perceba com cuidado. Retire os véus que cobrem a questão das “mulheres comedoras de placenta” para enxergar o que se esconde por detrás do meramente expresso na placentofagia. Da mesma forma como algumas mulheres queimaram sutiãs e usavam minissaias nos anos 60 e 70, seria um erro grotesco acreditar que tais manifestações eram direcionadas à moda ou à “liberdade de movimentos”. É claro que não; as queimas e as pernas à mostra eram SÍMBOLOS de uma demanda muito mais séria. Tratava-se do grito contra a opressão de uma sociedade patriarcal, chauvinista e machista que sufocava a natural expressão do feminino. E, tais movimentos, mudaram a cultura ocidental, como podemos perceber.

Hoje em dia, as “devoradoras de placenta” estão apenas sinalizando que o protagonismo do parto lhes pertence; que o parto precisa ser regulado por um outro paradigma. Tratá-las como seres bizarros e mulheres “malucas” é perder a perspectiva e o momento histórico de “revolução” no parto.

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