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Medicina Defensiva

A chamada “Medicina defensiva” não é necessariamente uma atitude antiética, mas, dependendo da situação (quando a autodefesa se sobrepõe ao cuidado) pode vir a ser. Fazer uma cesariana por ser mais segura para o médico, arriscando o bem estar de mães e bebês, é um exemplo clássico e fácil de entender. Medicina defensiva é apenas a doença da Medicina, uma forma de relação terapêutica em que cuidador e paciente não se conectam, não confiam um no outro, não se relacionam no nível pessoal – apenas técnico – e tem medo recíproco.

Essa relação é assentada sobre a desconfiança mútua, regida pelo signo do medo e fomentada pela indústria da judicialização. Diante da deterioração de uma relação tão antiga quanto a própria humanidade, e que deveria se fundar pela confiança e pelo afeto entre cuidadores e pacientes, não é de se admirar que ambos tentem se defender de possíveis agressões assumindo uma posição acuada, amedrontada e defensiva.

Ingrid Levine, “From Healer to Hell”, Ed Printemps, pág. 135

Ingrid Levine é um médico epidemiologista canadense, nascido em Ottawa em 1945. Escreve sobre relação médico-paciente, epidemiologia, saúde da mulher, medicina quaternária,

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Espetacularização da Justiça

Justiça

Sobre a espetacularização da justiça e a ação do juiz Moro na “Lava Jato”… (mas também poderia ser uma crítica aos médicos cesaristas e tecnocráticos fanatizados que julgam médicos que apoiam o parto normal)

“E o direito à defesa, corolário e condição fundamental do devido processo legal, é cada vez mais cerceado. (…) Com isso, tenta-se convencer as pessoas de que o processo penal é um estorvo, pois o que importa é prender e condenar antes mesmo de julgar. É o que o processualista italiano Franco Cordero denomina de quadro mental paranoico do juiz, que, ao conduzir o processo, o faz sob o “primado da hipótese sobre os fatos” e passa a agir como voraz acusador.” (Wadih Damous)

Esse é um recurso muito utilizado para atacar médicos que apoiam o parto normal. As provas, a realidade, as evidências e os testemunhos caem por terra diante de um desejo quase explícito de agredir uma ideia, uma tese e uma proposta. “Se a mensagem lhe parece inconveniente, atire no mensageiro”. Juízes se transformam em acusadores violentos, embriagados pelo “primado da hipótese sobre os fatos”, fazendo uma justiça baseada em sua própria visão de mundo, embasada em preconceitos e equívocos.

O mesmo sucedeu no caso da Escola de Base, apesar dos propósitos parecerem nobres. Para atacar o abuso e a pedofilia atropelou-se o bom senso, as provas, evidências e o juízo mais apurado. As vítimas, assim expostas, foram massacradas pela opinião pública, sem possibilidade de recuperação. Depois da tragédia descobriu-se que nada do afirmado era verdade, mas aí já era tarde demais: a honra, patrimônio maior do sujeito de bem, já havia sido destruída para sempre.

Podemos entender as razões para as atitudes de juízes vaidosos e prepotentes, que atropelam a lei e a constituição, mas podemos entender o estuprador, o ladrão de colarinho branco e o pivete que rouba galinhas. Isso não significa que essas ações sejam justificadas. Passar por cima da lei pode evitar uma injustiça, mas como ação é um crime contra a cidadania. Sem regras rígidas voltamos para a selva.

Os que apoiam a espetacularização da justiça deveriam se preocupar com as últimas consequências deste tipo de modelo para a sociedade como um todo. Os linchamentos – onde a destruição do “mal” está acima do direito à defesa e as garantias constitucionais – mostra sua face mais covarde e cruel. Um verdadeiro democrata e amante da verdade jamais se solidariza com um massacre, seja ele midiático ou real. Combater os abusos de poder é complexo, mas indispensável para a civilidade”.

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Fazer Partos

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A naturalização da expressão “fazer o parto” é tão intensa na nossa cultura (e não o é com igual intensidade em outras latitudes) que alguns sequer entendem nossa crítica a esta forma de descrever um nascimento. Quando dizemos que “só mulheres podem fazer um parto” confundem essa afirmação com a exclusão dos atores sociais relacionados com sua assistência e entendem tal ponto de vista favorece a desassistência. Nada poderia estar mais distante da verdade. Parto assistido por bons profissionais é uma conquista milenar das sociedades humanas. Ponto.

É por esse entorno cultural – a negação consciente e/ou inconsciente do protagonismo da mulher no parto – que os movimentos de humanização são necessários. É precisamente pela obliteração da função primordial das mulheres num evento que só ocorre na intimidade dos seus corpos que não há como se calar. Mesmo quando se repetem as acusações infantis e inconsistentes de que somos “contra os médicos” ainda assim, e com mais razão, é preciso colocar a mulher no seu verdadeiro posto. Achar que combater a violência obstétrica é ser contra médicos é tão tolo quanto acreditar que a luta contra a pesca das baleias é ser contra os marinheiros. Bons médicos e bons marinheiros serão sempre necessários.

Barbatanas de baleia e Kristeller , chega.

Entretanto, tenho SÉRIAS objeções quanto a criminalização da violência obstétrica na forma como está sendo debatida. Essa atitude terá uma reação imediata: o refúgio por parte dos profissionais no porto seguro das cesarianas e o medo crescente destes em oferecer assistência para partos. Tratar episiotomia com a mesma severidade com que analisamos espancamento doméstico é um exagero que pode ter consequências danosas para a atenção ao parto e,  mesmo sendo plena de boas intenções, pode ser um tiro no pé.

Educação e ativismo são o melhor caminho. A judicialização é sempre um caminho extremo. Produziremos muito mais efeitos positivos ao orientar mulheres, educar os novos profissionais, criar protocolos humanizados, conselhos hospitalares locais de revisão de práticas, aconselhamento de casais grávidos, comitês de direitos dos pacientes, doulas, acompanhantes, plantões multiprofissionais e muito mais. Colocar profissionais contra a parede, ameaçá-los e constrangê-los, de nada adiantará.

A única coisa certa a ocorrer é o aumento de cesarianas.

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