Arquivo da categoria: Pensamentos

Nos Lençois

Lençois

No que concerne à performance feminina no sexo não acredito na existência de uma “técnica” ou segredo que vá dar conta dos desejos masculinos. Erram os que imaginam que a exuberância será inexoravelmente arrebatadora. Tudo o que temos é a imagem de um bêbado cambaleante tentando encontrar o buraco da fechadura na escuridão do desejo alheio.

O que existe é uma união trânsfuga desacompanhada, um mergulho solitário na própria fantasia. A encenação no teatro dos lençóis é apenas a tímida tentativa de acompanhar a filmografia fantasmática do parceiro. Isso é sempre um tiro no escuro. Nem sempre um decote terá um efeito fatal, muitas vezes o pudor e uma certa timidez podem ter efeitos arrasadores. Nada é exatamente como é quando expresso no universo do simbólico.

No sexo, como de resto na vida como um todo, é impossível não encenar. Não existe vida fora do simbólico, assim como não é possível, dentro da linguagem, estabelecer um encontro sexual que não seja movido pela fantasia. A vida sexual sem o mundo que se descortina tão logo fechamos os olhos é absolutamente inviável. Não há como acontecer uma relação sexual verdadeira pontuada pelo desejo “puro”, pelo objeto de adoração e desejo. Somos contaminados pelo simbólico e deles jamais podemos fugir. A “queda” e a expulsão do paraíso nos impedem de voltar. Somos encarcerados inexoravelmente a um mundo que mais esconde do que apresenta.

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Necessidades

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Sensações inesquecíveis e que não custam quase nada…

Comer quando se está com fome,

Beber quando se tem sede,

Dormir quando o sono chega e

Amar quando se é amado.

Todas as outras coisas que acontecem em nossa vida ficam em segundo plano, pois carecem da impregnação indelével que tais momentos provocam.

As três primeiras são necessidades. A última é da ordem do simbólico, inserida na linguagem. As necessidades nos chegam pela via do atavismo, mantidas pela evolução das espécies.

A última é feita do desejo e só ocorre pela fissura aberrante da ordem cósmica, a qual chamamos “amor”. Só pela arquitetura impensada da altricialidade – a dependência extremada do cuidado alheio – se fez possível o amor primordial de uma mãe por seu filho e, se este amor é real, tal é sua matriz, sendo todos os outros amores dela derivados.

Se amamos é porque alguém um dia nos ensinou, e deste aprendizado, tornado sentimento, nos tornamos cativos para sempre.  Assim fazemos dessa criação uma necessidade que, se não sacia o corpo por ser diáfana e etérea, alimenta a alma e nos torna perdidamente humanos.

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Conchinhas

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Para mim a melhor coisa de morar com alguém (de forma romântica) é dormir junto. Max sempre me dizia que “dormir de conchinha é o melhor dos sexos“, mas eu achava que era só terrorismo. Eu creio que dividir a cama com alguém é um ato profundamente íntimo, muito mais intenso do que o sexo. Você pode transar com um(a) desconhecido(a), mas para dormir com ele(a) é preciso muito mais coragem e confiança. Olhar o outro a dormir, escutar sua respiração, sentir seu copo reagir ao toque e ao contato são sensações que se ampliam quanto mais se aprofunda a intimidade.

Só quem sentiu o calor de um corpo acoplado ao seu sabe o significado profundo desse contato.

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Abertura das Olimpíadas Rio 2016

Delacroix

A abertura das Olimpíadas não foi feia, nem brega ou desonesta. Foi apenas perfeita e linda. Se usarmos este tipo de análise sombria e pessimista (“o povo com fome e nós festejando”, ou “nós sambando e eles tirando direitos”) nenhuma obra de arte poderia ser feita. Toda obra de arte mente; desavergonhadamente falseia a realidade, mostrando uma face e ocultando todas as outras – como uma foto de perfil de Facebook.

Fosse possível mostrar o “real” de um pais – uma pessoa, uma ideia, uma proposta – e a arte simplesmente desapareceria, pois que sua essência repousa exatamente nessa discrepância entre o que mostra e a completude da realidade circundante. A arte sempre nos arrebata pela sua limitada perspectiva, seu foco em um ponto determinado e sua mensagem particular sobre um específico olhar. A arte só pode ser analisada pelo que mostra, e não pelo que oculta. O que não há nela só pode ser analisado fora dela, pela sociologia, psicanálise e outras formas de conhecimento.

Se a abertura da Olimpíada mente sobre a realidade do Brasil também Guernica ou a Liberdade liderando o Povo, de Delacroix.

Não cabe à arte descrever o Real ou usar as tintas da Verdade. Minhas preferências pessoais não desmerecem ou exaltam nenhuma arte. Falam mais de mim do que da obra. A obra em si é um magneto de similitudes; busca avidamente encontra e um olhar que lhe ofereça sentido; uma sereia de canto estranho e singular em busca de um pirata solitário e saudoso. Respeito quem acha que a arte PRECISA ser politicamente engajada, mas discordo neste aspecto. Ela precisa provocar estranhamento e deslocamento, que pode – ou não – ser político. Se houver necessidade da arte servir a um objetivo político, então falamos de panfletarismo e não arte. A arte pode ser engajada, mas precisa acima de tudo ser livre para expressar a alma do sujeito que a cria.

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Fantasia

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De vez em quando sou assaltado por uma velha curiosidade que me foi pela primeira vez apresentada por Slavoj Zizec no brilhante documentário sobre cinema chamado “A Pervert’s Guide to Cinema“: qual a necessidade da fantasia? Por que investimos tanto – como sujeitos ou sociedade – em aplacar a dureza do mundo real criando um substituto irreal?

Por que nossa busca incessante por um mundo paralelo, fantasioso e épico, que nas crianças é tão somente mais evidente, mas que nos adultos é companhia infalível nos sonhos, devaneios e fantasias de toda ordem? Qual a incompletude do mundo real que necessita ser incessantemente coberta pela imaginação?

As crianças pequenas vivem em um mundo que tem apenas pequenos e breves contatos com o dos adultos. Quanto interagem com os adultos sempre pedem que que entremos em SEU universo, que parece ser bem mais divertido que o mundo dos mais velhos. Os pequenos carrinhos de lata são bólidos enormes e velozes, e neles viajamos na velocidade do sonho para distancias imensas; o espaço embaixo da mesa, onde minhas pernas mal conseguem se adaptar, se torna o esconderijo perfeito para, em silêncio, nos escondermos dos maldosos perseguidores. Será seu mundo de historias e aventuras o refúgio inexorável de uma realidade angustiante?

“Agora eu era o herói…” dizia a voz doce de Nara na musica de Chico. Heróis, fadas, princesas, monstros, cientistas malucos e aventureiros povoam iconicamente nosso pensamento, tapando os furos de vidas protocolares. O teatro e o cinema são apenas os veículos para abastecer de imagens e ideias a ânsia humana pela emoção e o desafio. Ao mesmo tempo que faço essas perguntas percebo que nenhum sentido teria a nossa existência sem o ópio da fantasia. Ela é o analgésico indispensável para a dor que sobrevém à série ininterrupta de frustrações, as quais chamamos … “vida”.

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Silêncio Benevolente

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Sempre agradeço a todas as pessoas que explicitamente gostam de mim, em especial aquelas que já expressaram isso. Não são muitas, bem sei, essencialmente por culpa minha. Como já disse anteriormente, nasci sem o dom da simpatia, uma das virtudes que mais admiro e invejo. A pessoa simpática é acima de tudo corajosa e segura, pois sabe que seu sorriso pode ser confundido com fragilidade ou fraqueza; mesmo assim sorri e expõe sua alegria e brilho interiores. Nunca tive essa segurança a essa força para poder ser simpático e doce.

Mas hoje lembrei das pessoas que NÃO gostam de mim, as que não me aceitam e que não me suportam. Sempre penso que, no lugar delas, teria infinitos argumentos para justificar tal antipatia e rechaço. Não é preciso muita imaginação ou criatividade; basta me conhecer por pouco que seja para ver uma plêiade multicolorida de defeitos aparecerem no meu rosto como o brotar instantâneo de uma acne adolescente. Entretanto, é para estas pessoas que vai meu agradecimento.

O Mestre nazareno já dizia que “os inimigos são teus verdadeiros amigos”. De fato, são eles que nos mostram os tantos defeitos que carregamos, mas como sabê-los sem que nossos desafetos os apontem a nós? Para isso nossos inimigos são essenciais e indispensáveis.

Porém, há um tipo de desafeto que, ao perceber seu momento de dor e angústia, refreia seu impulso de lhe criticar e …. se cala. Silencia por caridade e consideração, mesmo nutrindo verdadeiro desamor por você. Ele sabe que a crítica mordaz, mesmo que justa, neste momento seria um exagero de crueldade. Diante disso, aguarda um momento melhor para oferecer o beneplácito da ofensa pedagógica.

Aos que me desgostam e silenciam, meu agradecimento sincero e emocionado. Vocês são verdadeiros amigos, os melhores que se pode ter.

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Rochedo

Rochedo

“Os homens livres são um perigo para os déspotas; as mulheres livres o são para os chauvinistas. O livre pensador é – pelo simples pensar – uma ameaça ao dogmatismo e à irracionalidade. O sincero ameaça de morte o falso e o dissimulado. Todavia, o maior perigo está naquele que perdoa; este será sempre o rochedo a impedir o avanço do oceano de ódios.”

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Conversa

Caetano e Gil

– Como era o nome daquele negócio de investigar, tipo uma coisa da Polícia Federal que tinha, mas ninguém divulgava muito…
– LavaJato?
– Não, não… essa tinha todo dia na TV. Era uma outra coisa, de gente graúda, mas os caras não iam muito a frente, não investigavam muito.
– Helicoca? Aeroporto de Cláudio? Furnas?
– Não era isso, era outra coisa, mas era tão vergonhoso quanto isso.
– Era do Moro?
– Acho que não, mas tinha uns caras muito importantes envolvidos.
– Petrolão?
– Não… esse aí saía todos os dias no Jornal Nacional!! Era uma outra, carajo!! Não lembro o nome. A palavra tem alguma coisa a ver com correio.
– Entrega?
– Não…
– Correspondência?
– Nada disso. Cara, você já está me confundindo…
– Hummm, pacotes, malotes?
– Isso!!!! Zelotes !!!!
– Bahh, nem me lembro mais. O que é feito disso?
– Não sei, mas agora tenho esperança que o Temer vá investigar.
– Ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra
– Ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra

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Truman

Truman

Alguns filmes procuro pelo artista principal. Explico: se este artista aceitou fazer este filme é porque ele deve ser bom. Assisti hoje o último filme com Ricardo Darin, “Truman”, um bela obra e um belo filme sobre a amizade e as despedidas. Agora ao ver que as minhas estão cada vez mais próximas, este filme me ofereceu a oportunidade de refletir sobre as derradeiras escolhas. Peço apenas que meu último aceno só ocorra após ter cumprido algumas singelas determinações pessoais, pedidos de perdão e abraços há muito tempo devidos. Espero ter deixado um humilde legado de ideias e amores, e que eu possa seguir em paz levando como única vaidade a ilusão de que, por um breve instante e para algumas poucas pessoas, pude fazer a diferença entre a lágrima e o sorriso.

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Crença e descrença

Fé

“O ateu que fica puto com um cumprimento ingênuo, sincero e natural como “fique com Deus” é porque faz do seu ateísmo a mais chata das religiões. Aliás, são estes os ateus que dão ao ateísmo uma má reputação.”

O ateísmo é apenas um sistema de crenças como qualquer outro. A crença na inexistência, assim como a confiança – irracional – no sentido do Universo, se equivalem em suas imponderabilidades. O teísmo é, ao meu juízo, uma orientação de caráter pessoal e inamovível. Eu não consigo deixar de crer em Deus mesmo que queira, até porque se trata de uma crença que está aquém (ou além, se preferirem) da racionalidade. Para um ateu convicto a fé não faz sentido; é como explicar o som para um sujeito que nasceu surdo, ou um parto para um que nasceu homem. É uma percepção tão profunda que não é atingida pela razão, seja para comprová-la seja para expor sua falsidade. Por esta razão eu não entro em debates racionais sobre algo que não se estabelece sobre a razão. Já as consequências da fé – a imposição de seus valores, as interpretações viciosas de textos sagrados, as proibições ligadas ao estrato que a sustenta na cultura (o patriarcado), etc – estes me dizem respeito como cidadão, pai, avô e até como médico. Todavia, a fé dos outros (ou sua falta) não me diz respeito.

Eu perdi a vergonha da minha fé; saí do armário sem pudor algum.

A ideia de que um sujeito seja burro, ignorante ou incompetente pelas suas crenças é totalmente contrária à minha ideia de que “a crença vem de um outro lugar, e não do seu universo racional“. Para mim sua queixa – que considero válida e justa – tem o mesmo valor de um preconceito que eu escutei por muito tempo sobre os homossexuais. Dizia-se deles serem mais “inteligentes“, “sensíveis“, “doces” ou “frágeis“. Basta olhar uma briga de travestis (entendidos também aqui como homossexuais) para desmontar esta visão essencialista. Os gays são tão idiotas quanto os heterossexuais, e tão amáveis, carinhosos, inteligente, sensíveis ou brutos, apenas porque a orientação sexual não tem NADA a ver com isso.

O mesmo com ateus e crentes. Conheço ateus tolos e cristãos geniais e vice versa (apesar de conhecer mais ateus geniais do que o oposto, mas esta é uma questão cultural). Misturar elementos cognitivos com a fé é um preconceito e uma burrice.

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