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Padrões identificatórios

Quando uma jovem negra diz na TV que sempre quis ser médica porque sua mãe era da enfermagem e a “medicina exige mais estudo” há uma questão que cabe analisar. Existe aí uma lição para os identitarismos, tanto o feminismo quanto o racialismo: quando um sujeito muda de classe essa mudança se torna superior e mais importante do que suas identificações anteriores de gênero ou raça. Uma negra quando se torna médica muda de status e sobe na estratificação social, e suas conexões anteriores com o feminino ou a negritude ficam “desbotadas”.

O fato de ela ser uma médica negra que tratou a enfermagem de forma diminutiva é o centro do meu argumento. Como médica ela passou a se identificar com seus pares, e sua condição de mulher, negra, pobre e filha de enfermeira ficou para o passado. Agora ela está em outro padrão de grupo, com quem se identifica. É claro que a enfermagem não estuda “menos”, apenas estuda diferente, mas o fato de ela fizer isso tão facilmente é porque ela sucumbiu à narrativa comum da Medicina, preponderantemente preconceituosa e arrogante em relação às outras profissões da saúde.

O mesmo fenômeno acontece com médicas que atendem mulheres: as obstetras. Com quem se identificam elas quando confrontadas com a questão tensa da violência obstétrica? Com as vítimas, mulheres como elas, ou com os opressores, doutores como também elas são?

A resposta já sabemos, e nossa natureza de autopreservação sempre nos coloca naturalmente ao lado dos mais fortes

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Comentários de Ódio

As pessoas que frequentam as mídias sociais ainda não entenderam o sentido amplo dos “comentários” das notícias e matérias jornalísticas. É preciso compreender estes fenômenos e enxergá-los como o são. Eles são pura catarse e funcionam como processos exonerativos do sujeito e, como sabemos, dizem muito mais do comentarista do que do objeto do seu comentário. Não esperem compreensão, parcimônia e justiça de pessoas que trazem apenas ódio e desprezo em suas almas. Por outro lado aqueles que cultivam uma atitude de justiça e respeito em suas vidas farão comentários que refletem seus valores éticos mais profundos.

Quando entendermos isso talvez seja possível parar de se escandalizar com a brutalidade dos comentários. Vejo as pessoas ainda chocadas com eles quando a melhor postura talvez seja saudar estes contraditórios pois, se nossas opiniões causaram tanta reação agressiva e controvérsia, então deve ter tocado um ponto sensível da cultura. Nada é mais destrutivo para a criatividade do que o desejo de ser amado e admirado por todos.

Qualquer inovador – e em qualquer campo do conhecimento – precisa aprender a devotar especial carinho para o canteiro dos seus inimigos e adversários com o mesmo amor que cuida do jardim dos seus amigos e apoiadores.

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Cotas

“As cotas nos Estados Unidos (affirmative action) revolucionaram a entrada de negros no ensino superior e criaram uma classe média negra volumosa que o Brasil ainda não tem. As cotas foram revolucionárias e positivas para a democracia racial que propuseram e o seu sucesso fez com que fossem aplicadas em outros países. No Brasil o ódio SEMPRE EXISTIU em especial por parte dos fascistas e racistas que infestam nossa política, mas os movimentos de valorização dos negros expuseram este ódio para a luz do dia.

Quando Portugal dominava Angola não havia conflito, só opressão. A calmaria era pelas armas e o silencio pela opressão colonialista brutal. Na aparência parecia haver paz, mas tão somente a “pax romana”, a paz dos dominados. Quando os negros reagiram à dominação e ao jugo colonialista eles se levantaram e exigiram seu país de volta. Só então vieram à tona a luta e o enfrentamento.

Não se pode ser tolo a ponto de não enxergar que o silêncio de antes não era mais que medo e opressão e os sons que hoje ouvimos são apenas os gritos por séculos de dor presos na garganta. Essa paz dos oprimidos não me serve; prefiro a luta pela liberdade e pela justiça, nem que para isso ainda seja necessário muito barulho.”

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Rádio

Eu me criei ouvindo rádio. Rádio de válvula, que a gente espiava por trás para ver as luzinhas. Nasci exatamente no ano em que foi fundada a primeira televisão na minha cidade e eu sempre soube que fazia parte da classe média porque na minha casa havia um aparelho Telefunken e mais tarde uma TV Philco em cores. Quem é “millenial” – e já cresceu conhecendo telefone celular e computador – não consegue imaginar o impacto que era para nós a chegada dessas tecnologias. Nem vou falar da chegada do telefone na minha casa, ou muito mais tarde, nas casas do litoral.

Mesmo assim, eu nunca deixei de gostar de rádio. Rádio para mim tem um sentido nostálgico e afetivo. Eu dormia ouvindo programas da madrugada na rádio Gaúcha. Eu lembro do programa do Jayme Kopstein e seu amigo “Pato”, que ouvia os comentários dos insones durante a noite toda. Meu irmão Roger Jones era fã da tia Eva, a “Cigana Hepagosina” da rádio Eldorado, isso quando tinha uns 10 anos de idade. “Vai dormir, guri!!”, dizia ela no ar, quando o Roger ligava. Rádio sempre foi maravilhoso para mim. “Olho na TV, ouvido no rádio”, já dizia o comentarista e jornalista Lauro Quadros, pedindo para a gente assistir ao vivo os jogos na TV, mas manter os ouvidos grudados no radinho. Era o que eu fazia.

O rádio de notícias acabou sucumbindo às determinações do mercado e como a rádio mais importante de Porto Alegre é uma afiliada da Globo todo o material que vai ao ar é filtrado pelas editorias. Foram apoiadores do golpe desde o primeiro momento, e agora são fãs ardorosos dos mocinhos da Lava Jato, do Juiz Moro e atacam frontalmente Lula e Ciro Gomes. Perdi completamente o interesse nos seus programas e hoje em dia só escuto a Rádio Cultura.

Escrevo isso apenas porque sempre que visito a cidade de Austin eu escuto a KUT, rádio da Universidade do Texas. Eles fazem um jornalismo apenas sensacional, como não conheço nenhum no Brasil. É jornalismo de matérias espetaculares, sempre com profundidade e inteligência. Se você ligar o rádio a qualquer hora estará escutando uma entrevista maravilhosa sobre um tema interessante e atual. Só hoje de manhã escutei Ricardo Semler (um brasileiro falando sobre a desconstrução do modelo tradicional de empresa), uma matéria sobre a relação entre gravidez na adolescência e pobreza e outra matéria sobre casamentos e número de filhos. Em outra oportunidade eu escutei a história maravilhosa de uma chinesa que queria ser enterrada junto ao seu marido na China, em uma época em que isso era proibido, pois o marido foi enterrado em outro estado. Tocante, emocionante e absolutamente engraçado. E

u sei que no Brasil as pessoas ligam o rádio para escutar previsão do tempo, trânsito e a desgraça do dia. Muitas acham engraçado quando os locutores fazem piada com as prisões arbitrárias da República de Curitiba e com as caça às bruxas por eles protagonizada, mas eu ainda sonho com uma rádio de conteúdo, com matérias interessantes, repórteres de qualidade e assuntos instigantes. Talvez seja apenas nostalgia, mas é um sonho bom de sonhar.

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Madame Secretária

Aqui nos Estados Unidos eu faço companhia à minha anfitriã acompanhando séries como “Madam Secretary”, a qual descreve o cotidiano de uma secretária de Estado (seria a chanceler, como Hillary) e suas peripécias como mãe de família enquanto trata de guerras e negociatas políticas no mundo inteiro. Nada pode ser mais ingênuo e falso. Em todos os episódios os americanos estão preocupados em salvar o mundo da selvageria que existe nas partes não brancas do planeta. Os árabes, em especial, e os políticos da Ásia Central são tratados com profundo desrespeito e desdém. Todos são corruptos, tolos, perversos, desonestos e pueris.

No episódio de hoje o presidente do Quirguistão propôs um acordo com a Secretária de Estado sobre bloquear o tráfico de mulheres naquela região desde que uma famosa atriz americana comparecesse ao seu aniversário. Esses países, aos olhos do americano médio, não passam de republiquetas cheias de bárbaros comandados por ditadores vaidosos e prepotentes.

Na série é evidente o choque entre civilização (nós) e barbárie (eles).

Em contrapartida os americanos são bravos, nobres, determinados e honestos. São ridiculamente certinhos. Em.um episódio, a filha da secretária se inscreveu para Harvard e negou-se a usar o cargo da mãe como trampolim para a vaga. As lições de moral ao estilo “Waltons” acontecem toda hora e da maneira mais piegas e artificial.  Os outros dois filhos são incrivelmente estereotipados e o marido um herói bonitão, maduro e íntegro.

A imagem que os americanos fazem de si mesmos e dos outros países é forjada nessas séries produzidas como pura propaganda. Pior ainda é a gente no Brasil acreditar nessas mentiras.

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A Banalidade do Mal

Uma jovem pesquisadora da Índia resolveu publicar um estudo sobre uma das maiores feridas da sociedade de seu país: o estupro. Para tanto entrevistou 100 estupradores condenados e chegou a uma conclusão importante: “São homens comuns, não monstros”.

Hanna Arend disse exatamente o mesmo; ao meu ver absurdo seria dizer o contrário. Qualquer viagem ao inferno humano nos leva a encarar o espelho. “O que é humano não me é estranho”, nos ensinava Terêncio, uma das lições mais difíceis de aceitar, por atingir frontalmente nossa arrogância essencial Desumanizar o estuprador evita que sejam entendidos, acolhidos, tratados e julgados como humanos movidos por desejos humanos. Demonizar estupradores e pedófilos impede que compreendamos o caldo cultural de onde brotam, e assim perdemos a possibilidade de prevenir sua aparição.

Hanna Arend também chocou ao falar da banalização do mal e encontrar seres humanos normais entre os nazistas que cometeram as maiores atrocidades durante a guerra. Eichman, seu personagem principal, era um burocrata comum, mediano, que passaria despercebido por quem o encontrasse na rua.

Uma das cenas no filme sobre Hanna Arend descreve a cena de fúria e indignação dos seus amigos judeus (Hanna também era) quando ela lhes evocava o conceito de “banalidade do mal” e sua surpresa ao ver diante de si, no julgamento de Eichman, homens comuns cumprindo ordens quando esperava ver aberrações de perversidade explícita nos algozes sendo julgados.

Os textos – da jovem hindu e de Hanna – mostram que essas pessoas são tão humanas quanto qualquer um de nós. Isso é ao mesmo tempo aterrador e revelador. Não há nada de monstruoso (no sentido de inumano) nestes atos; tudo de ruim que fazem estes homens existe dentro de cada um de nós como uma semente que os contextos e as circunstâncias se encarregam de nutrir e regar.

São apenas homens, meninos com medo“, disse o padre Heitor para Amélia.

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Justiça

“Temos hoje, acima de tudo, a falência do direito como elemento regulador da sociedade. Quem aceita uma justiça parcial quando lhe convém está alimentando os corvos que, no futuro, comerão seus olhos.”

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Ciência x Religião

Tenho vários amigos que me falam, sem esconder o entusiasmo, de uma ou outra descoberta científica que confirma a palavra de Deus, seja na Bíblia ou em alguma outra tradição qualquer. A frase que termina este ímpeto de esperança é fé pode ser resumida em “não há real conflito entre ciência e religião“.

Minha percepção é que há mais do que conflito; estas são duas visões de mundo incompatíveis. Por outro lado ainda considero que elas podem existir dentro do mesmo indivíduo em relativa paz, com a exceção da tênue zona de fronteira que delimita seus espaços.

Ciência e religião são duas formas de compreensão do mundo e as duas são perenes e eternas. A tese de que o crescimento do conhecimento científico traria o desaparecimento das religiões me parece ingênua e normalmente é dita por religiosos, como os “neoateístas”. Basta olhar o risco do fundamentalismo religioso na política mundial (em especial no Brasil) para ver que a vinculação do povo com as religiões e suas cartilhas está longe de desaparecer. Mas engana-se quem acredita que isso pode ser combatido com ateísmo e mesmo evolucionismo.

A ciência trabalha na fronteira do conhecimento e usa a razão e a experiência como ferramentas. Ela é progressista e dinâmica; não respeita limites e avança célere para novas descobertas. É uma medida da ética e da política de seu tempo, e se move pelos ventos do poder econômico e dos interesses. Não é isenta e nem neutra, e fala a língua dos homens do seu tempo.

A religião (melhor seria a religiosidade), por seu turno, ultrapassa a fronteira do que é conhecível e tenta explicar o universo através de visões teleológicas e inteligentes, enxergando no universo uma força de coesão para além do que é possível comprovar com nossas ferramentas rudimentares. A religiosidade trabalha com a gigantesca porção de desconhecido que nos circunda. Sua plasticidade a faz se adaptar a cada nova investida da conhecimento científico e da razão, produzindo uma nova face a cada avanço do conhecimento sobre seu território.

Assim, ciência e religião trabalham com objetos distintos mesmo quando parecem se confundir, como no criacionismo. A força da ciência nesse ponto e o desaparecimento paulatino de resistência às teorias darwinianas deixará a visão do Gênese como mais uma alegoria passível de belas histórias, mas apartada de realidade dos fatos. Quando a razão chega as crenças procuram outro lugar para ocupar e tentar organizar o desconhecido.

Por fim a religião, ao se afastar dos elementos nos quais a ciência já jogou sua luz ficará livre para questionar a imensidão de perguntas sem respostas possíveis até então, como a nossa origem e os sentidos do universo.

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Psicólogo

“Psicólogo é o sujeito que ousa chegar na beirinha para olhar o abismo de todos nós.”

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Ricos

“Não creio que os ricos tenham um comportamento social diferente por um defeito de caráter ou uma perversidade inata da alma. Esta é uma questão cultural. Vejam que eu aqui uso “rico” para me referir ao sujeito que anda com seu próprio avião e coleciona Porsche, e não o que popularmente chamamos assim, apenas porque tem uma casa bonita e um carro novo. Seu comportamento diferente de nós não se dá por  uma questão essencial, mas a compreensão de que o acúmulo de poder em forma de capital – em especial desde a mais tenra idade –  faz com que os absurdamente abastados vivam em um mundo à parte, com seus valores próprios, onde os outros não possuem o mesmo valor que eles se atribuem, por isso mesmo se escondem no Olimpo gradeado onde vivem. Sequer as coisas que seu muito dinheiro compra valem o quanto sentimos que valem, em nosso mundo de valores poucos.

Por isso acredito que a riqueza, assim como a pobreza, a beleza extremada e até a delicadeza são fardos que o sujeito carrega, por mais estranho e paradoxal que isso possa parecer. Se possível fosse, pediria antes de chegar a este mundo que não recebesse o fardo da beleza, para não sucumbir à vaidade e à puerilidade. Também não gostaria de ser rico para não tratar meus iguais como coisas etiquetadas, retirando deles todos sua condição humana. Pediria que a delicadeza fosse temperada com pitadas generosas de força para não correr o risco de sucumbir aos baques do mundo por faltar-me a força e a energia. Em suma, pediria que estes fardos fossem aliviados para que nenhum deles fosse capaz de obstruir a tarefa de conquistar a humildade.

Nunca esquecerei da frase enigmática que o meu pai disse quando eu estava em plena adolescência e na angústia natural de conseguir dinheiro e independência: “Se quiseres me destruir basta me dar 1 milhão e estarei arruinado“. Para mim sua frase parecia totalmente incompreensível, mas hoje, ao ver diminuir paulatinamente o valor monetário de qualquer coisa ao meu redor, sua frase pode, finalmente, fazer sentido.”

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