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Pena Capital

O problema da argumentação daqueles que apoiam a pena de morte (e da turma que gosta de assassinatos legalizados) é que são fixados na figura do assassino (Freud explica) e não na população que é vítima da violência. Milhares de estudos sociológicos comprovam que não se modificam as taxas de criminalidade com medidas como esta, e mesmo assim insistem na ideia de matar quem comete crimes. Ora, por quê?

A resposta é óbvia. A razão para está fixação é que estes sujeitos também desejam matar, como os criminosos, mas não o podem fazer. É um sentimento brutal e primitivo, uma sensação pessoal de vingança contra os que invadem seu espaço ou lhe tiram algo de valor. Infelizmente estas propostas quando executadas nunca mudaram em nada a insegurança da população e mesmo as mortes violentas. São inúteis e apenas adicionam mais mortes àquelas que já lamentamos. Elas apenas oferecem o prazer sádico de acrescentar uma morte legal às estatísticas.

A Pena de Morte tem o mesmo efeito da desastrosa “guerra ao terror” implantada pelos governos americanos. A ideia é a mesma: vamos destruir todos os malfeitores e a sociedade será dominada apenas por “gente de bem”. Mataram milhares dos – assim chamados – “terroristas”. Limparam o terreno e espalharam sangue por todo lado. Eu pergunto: que efeito isso produziu no terrorismo global?

O OPOSTO do esperado. Nunca houve tanta tensão, atentados, insegurança e violência. A guerra ao terror é um SUPREMO FRACASSO, assim como também o são as medidas de extermínio de negros e pobres submetidos a situações sociais deploráveis e que entram no crime pelas razões que tanto conhecemos. Sem atacar diretamente as RAZÕES para o terrorismo e para o crime tais medidas apenas reciclam terroristas e bandidos. Abrimos vagas para os novos sem entender porque se formam tão rapidamente.

No fundo o que temos é um processo exonerativo de raivas e frustrações acumuladas na sociedade desaguando numa prática medieval de assassinar aqueles à sua margem, sem nenhuma indicação de que esta sociedade se torne, por estas medidas, mais pacífica.

Pelo contrário, a exemplo do que aconteceu à luta contra o “terror”, só recrudescemos a matança.

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Agressão às Enfermeiras

Nunca escreva movido pelo ódio ou pela paixão; você acaba revelando aos outros o que desconhecia de si mesmo. Quando uma pessoa dá a sua opinião de cabeça quente e depois ameaça chamar seu advogado-metralhadora para processar todo mundo que lhe respondeu é porque devia ter pensado melhor antes de escrever.

Claro que é positivo pedir desculpas pelas agressão absurdas e despropositadas desferidas. Não posso aceitar – em nenhuma situação – penas perpétuas e condenações infinitas. Pessoas podem amadurecer e aprender com seus erros. É sempre bom se retratar dos erros cometidos.

Entretanto, a violência das palavras fica marcada indefinidamente. Depois de proferida a ofensa não se apaga. O mais triste não é a agressão descabida e brutal, mas a certeza que o deboche contra as enfermeiras é uma postura extremamente disseminada dentro da medicina. Escutar velhos preconceitos e grosserias obtusas contra a enfermagem foi algo que suportei por quase 40 anos.

As manifestações de desprezo pela enfermagem reforçam minha certeza de que a maior parte do ódio direcionado contra mim nos meus últimos 10 anos de trabalho por parte da corporação vieram do fato de que eu trabalhei lado a lado com uma dessas “criaturas inferiores” a ponto de lhe oferecer o posto central na atenção ao parto.

Isso, sim, é imperdoável.

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Abusadores

Tivemos recentemente uma campanha contra os “tarados” urbanos que importunam as pessoas. Alguns posts apelaram para soluções simplistas como a brutalidade e até para “linchamentos”. Isto é: combater machismo com mais machismo e força bruta.  

E veja bem: masturbar-se em ônibus ou na rua é um incômodo, podemos considerar ofensivo e inadequado, até mesmo uma “violência” moral, mas em nada semelhante à agressão ou ao estupro. Atos como estes precisam ser coibidos dentro da lei e da justiça. Se as leis são brandas ou ineficientes que sejam mudadas, mas não se pode apelar para condenações oportunistas diante da emergência de um escândalo público. Ponto.  

Entretanto, é evidente que os sujeitos que fazem isso em público são doentes, compulsivos, incapazes de controlar adequadamente suas ações mesmo diante das ameaças de violência. Eu vejo uma injustiça ao tratar esses sujeitos como depravados do mesmo tipo que assistia o julgamento feroz e cruel contra os alcoolistas no meu tempo de Pronto Socorro. “Se você quiser se controlar é fácil, mas você bebe porque é um vagabundo“. Esse argumento aparecia para qualquer compulsão, das drogas pesadas ao cigarro, mas era usada até para a homossexualidade, lembram? Não faz tanto tempo assim…  

Se hoje podemos chamar os alcoolistas, as cleptomaníacas e as pacientes com psicoses puerperais de doentes, entendendo que estas pessoas precisam de ajuda psicológica e às vezes médica (e não de porrada), porque deveria ser diferente com os masturbadores públicos??? Por que é tão difícil entender a enfermidade a que são submetidos?   Infelizmente eu entendo que qualquer tentativa de analisar racionalmente esta questão significa que achamos que a masturbação pública é “tolerável“, que não merece punição ou que “não causa dano algum“. Maldito maniqueísmo.

Em verdade tudo que desejamos é que TODOS possam ser julgados com um pouco mais de humanidade e compreensão.

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Privilégio

“Nascer cheio privilégios não é uma vergonha, assim como não é nascer sem eles. Vergonha é não reconhecê-los e não lutar pelo seu fim, sendo você um privilegiado ou um despossuído.” Janice Olatunji, “Into the Jungle of Privilege” Ed. Yoruba, pag. 135

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Padrões identificatórios

Quando uma jovem negra diz na TV que sempre quis ser médica porque sua mãe era da enfermagem e a “medicina exige mais estudo” há uma questão que cabe analisar. Existe aí uma lição para os identitarismos, tanto o feminismo quanto o racialismo: quando um sujeito muda de classe essa mudança se torna superior e mais importante do que suas identificações anteriores de gênero ou raça. Uma negra quando se torna médica muda de status e sobe na estratificação social, e suas conexões anteriores com o feminino ou a negritude ficam “desbotadas”.

O fato de ela ser uma médica negra que tratou a enfermagem de forma diminutiva é o centro do meu argumento. Como médica ela passou a se identificar com seus pares, e sua condição de mulher, negra, pobre e filha de enfermeira ficou para o passado. Agora ela está em outro padrão de grupo, com quem se identifica. É claro que a enfermagem não estuda “menos”, apenas estuda diferente, mas o fato de ela fizer isso tão facilmente é porque ela sucumbiu à narrativa comum da Medicina, preponderantemente preconceituosa e arrogante em relação às outras profissões da saúde.

O mesmo fenômeno acontece com médicas que atendem mulheres: as obstetras. Com quem se identificam elas quando confrontadas com a questão tensa da violência obstétrica? Com as vítimas, mulheres como elas, ou com os opressores, doutores como também elas são?

A resposta já sabemos, e nossa natureza de autopreservação sempre nos coloca naturalmente ao lado dos mais fortes

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Comentários de Ódio

As pessoas que frequentam as mídias sociais ainda não entenderam o sentido amplo dos “comentários” das notícias e matérias jornalísticas. É preciso compreender estes fenômenos e enxergá-los como o são. Eles são pura catarse e funcionam como processos exonerativos do sujeito e, como sabemos, dizem muito mais do comentarista do que do objeto do seu comentário. Não esperem compreensão, parcimônia e justiça de pessoas que trazem apenas ódio e desprezo em suas almas. Por outro lado aqueles que cultivam uma atitude de justiça e respeito em suas vidas farão comentários que refletem seus valores éticos mais profundos.

Quando entendermos isso talvez seja possível parar de se escandalizar com a brutalidade dos comentários. Vejo as pessoas ainda chocadas com eles quando a melhor postura talvez seja saudar estes contraditórios pois, se nossas opiniões causaram tanta reação agressiva e controvérsia, então deve ter tocado um ponto sensível da cultura. Nada é mais destrutivo para a criatividade do que o desejo de ser amado e admirado por todos.

Qualquer inovador – e em qualquer campo do conhecimento – precisa aprender a devotar especial carinho para o canteiro dos seus inimigos e adversários com o mesmo amor que cuida do jardim dos seus amigos e apoiadores.

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Cotas

“As cotas nos Estados Unidos (affirmative action) revolucionaram a entrada de negros no ensino superior e criaram uma classe média negra volumosa que o Brasil ainda não tem. As cotas foram revolucionárias e positivas para a democracia racial que propuseram e o seu sucesso fez com que fossem aplicadas em outros países. No Brasil o ódio SEMPRE EXISTIU em especial por parte dos fascistas e racistas que infestam nossa política, mas os movimentos de valorização dos negros expuseram este ódio para a luz do dia.

Quando Portugal dominava Angola não havia conflito, só opressão. A calmaria era pelas armas e o silencio pela opressão colonialista brutal. Na aparência parecia haver paz, mas tão somente a “pax romana”, a paz dos dominados. Quando os negros reagiram à dominação e ao jugo colonialista eles se levantaram e exigiram seu país de volta. Só então vieram à tona a luta e o enfrentamento.

Não se pode ser tolo a ponto de não enxergar que o silêncio de antes não era mais que medo e opressão e os sons que hoje ouvimos são apenas os gritos por séculos de dor presos na garganta. Essa paz dos oprimidos não me serve; prefiro a luta pela liberdade e pela justiça, nem que para isso ainda seja necessário muito barulho.”

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Rádio

Eu me criei ouvindo rádio. Rádio de válvula, que a gente espiava por trás para ver as luzinhas. Nasci exatamente no ano em que foi fundada a primeira televisão na minha cidade e eu sempre soube que fazia parte da classe média porque na minha casa havia um aparelho Telefunken e mais tarde uma TV Philco em cores. Quem é “millenial” – e já cresceu conhecendo telefone celular e computador – não consegue imaginar o impacto que era para nós a chegada dessas tecnologias. Nem vou falar da chegada do telefone na minha casa, ou muito mais tarde, nas casas do litoral.

Mesmo assim, eu nunca deixei de gostar de rádio. Rádio para mim tem um sentido nostálgico e afetivo. Eu dormia ouvindo programas da madrugada na rádio Gaúcha. Eu lembro do programa do Jayme Kopstein e seu amigo “Pato”, que ouvia os comentários dos insones durante a noite toda. Meu irmão Roger Jones era fã da tia Eva, a “Cigana Hepagosina” da rádio Eldorado, isso quando tinha uns 10 anos de idade. “Vai dormir, guri!!”, dizia ela no ar, quando o Roger ligava. Rádio sempre foi maravilhoso para mim. “Olho na TV, ouvido no rádio”, já dizia o comentarista e jornalista Lauro Quadros, pedindo para a gente assistir ao vivo os jogos na TV, mas manter os ouvidos grudados no radinho. Era o que eu fazia.

O rádio de notícias acabou sucumbindo às determinações do mercado e como a rádio mais importante de Porto Alegre é uma afiliada da Globo todo o material que vai ao ar é filtrado pelas editorias. Foram apoiadores do golpe desde o primeiro momento, e agora são fãs ardorosos dos mocinhos da Lava Jato, do Juiz Moro e atacam frontalmente Lula e Ciro Gomes. Perdi completamente o interesse nos seus programas e hoje em dia só escuto a Rádio Cultura.

Escrevo isso apenas porque sempre que visito a cidade de Austin eu escuto a KUT, rádio da Universidade do Texas. Eles fazem um jornalismo apenas sensacional, como não conheço nenhum no Brasil. É jornalismo de matérias espetaculares, sempre com profundidade e inteligência. Se você ligar o rádio a qualquer hora estará escutando uma entrevista maravilhosa sobre um tema interessante e atual. Só hoje de manhã escutei Ricardo Semler (um brasileiro falando sobre a desconstrução do modelo tradicional de empresa), uma matéria sobre a relação entre gravidez na adolescência e pobreza e outra matéria sobre casamentos e número de filhos. Em outra oportunidade eu escutei a história maravilhosa de uma chinesa que queria ser enterrada junto ao seu marido na China, em uma época em que isso era proibido, pois o marido foi enterrado em outro estado. Tocante, emocionante e absolutamente engraçado. E

u sei que no Brasil as pessoas ligam o rádio para escutar previsão do tempo, trânsito e a desgraça do dia. Muitas acham engraçado quando os locutores fazem piada com as prisões arbitrárias da República de Curitiba e com as caça às bruxas por eles protagonizada, mas eu ainda sonho com uma rádio de conteúdo, com matérias interessantes, repórteres de qualidade e assuntos instigantes. Talvez seja apenas nostalgia, mas é um sonho bom de sonhar.

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Madame Secretária

Aqui nos Estados Unidos eu faço companhia à minha anfitriã acompanhando séries como “Madam Secretary”, a qual descreve o cotidiano de uma secretária de Estado (seria a chanceler, como Hillary) e suas peripécias como mãe de família enquanto trata de guerras e negociatas políticas no mundo inteiro. Nada pode ser mais ingênuo e falso. Em todos os episódios os americanos estão preocupados em salvar o mundo da selvageria que existe nas partes não brancas do planeta. Os árabes, em especial, e os políticos da Ásia Central são tratados com profundo desrespeito e desdém. Todos são corruptos, tolos, perversos, desonestos e pueris.

No episódio de hoje o presidente do Quirguistão propôs um acordo com a Secretária de Estado sobre bloquear o tráfico de mulheres naquela região desde que uma famosa atriz americana comparecesse ao seu aniversário. Esses países, aos olhos do americano médio, não passam de republiquetas cheias de bárbaros comandados por ditadores vaidosos e prepotentes.

Na série é evidente o choque entre civilização (nós) e barbárie (eles).

Em contrapartida os americanos são bravos, nobres, determinados e honestos. São ridiculamente certinhos. Em.um episódio, a filha da secretária se inscreveu para Harvard e negou-se a usar o cargo da mãe como trampolim para a vaga. As lições de moral ao estilo “Waltons” acontecem toda hora e da maneira mais piegas e artificial.  Os outros dois filhos são incrivelmente estereotipados e o marido um herói bonitão, maduro e íntegro.

A imagem que os americanos fazem de si mesmos e dos outros países é forjada nessas séries produzidas como pura propaganda. Pior ainda é a gente no Brasil acreditar nessas mentiras.

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A Banalidade do Mal

Uma jovem pesquisadora da Índia resolveu publicar um estudo sobre uma das maiores feridas da sociedade de seu país: o estupro. Para tanto entrevistou 100 estupradores condenados e chegou a uma conclusão importante: “São homens comuns, não monstros”.

Hanna Arend disse exatamente o mesmo; ao meu ver absurdo seria dizer o contrário. Qualquer viagem ao inferno humano nos leva a encarar o espelho. “O que é humano não me é estranho”, nos ensinava Terêncio, uma das lições mais difíceis de aceitar, por atingir frontalmente nossa arrogância essencial Desumanizar o estuprador evita que sejam entendidos, acolhidos, tratados e julgados como humanos movidos por desejos humanos. Demonizar estupradores e pedófilos impede que compreendamos o caldo cultural de onde brotam, e assim perdemos a possibilidade de prevenir sua aparição.

Hanna Arend também chocou ao falar da banalização do mal e encontrar seres humanos normais entre os nazistas que cometeram as maiores atrocidades durante a guerra. Eichman, seu personagem principal, era um burocrata comum, mediano, que passaria despercebido por quem o encontrasse na rua.

Uma das cenas no filme sobre Hanna Arend descreve a cena de fúria e indignação dos seus amigos judeus (Hanna também era) quando ela lhes evocava o conceito de “banalidade do mal” e sua surpresa ao ver diante de si, no julgamento de Eichman, homens comuns cumprindo ordens quando esperava ver aberrações de perversidade explícita nos algozes sendo julgados.

Os textos – da jovem hindu e de Hanna – mostram que essas pessoas são tão humanas quanto qualquer um de nós. Isso é ao mesmo tempo aterrador e revelador. Não há nada de monstruoso (no sentido de inumano) nestes atos; tudo de ruim que fazem estes homens existe dentro de cada um de nós como uma semente que os contextos e as circunstâncias se encarregam de nutrir e regar.

São apenas homens, meninos com medo“, disse o padre Heitor para Amélia.

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