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King Kong
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Liberdade, liberdade
Recordo que há alguns anos escrevi um artigo que falava criticamente do racismo que sobrevive no nosso meio e das suas conexões com a escravidão no Brasil. Para ilustrar o texto coloquei uma imagem da internet com um torso negro masculino envolto em uma grossa corrente. Recebi alguns elogios pela iniciativa (um obstetra falando de racismo institucional não é muito comum), mas no dia seguinte um famoso grupo identitário virtual me escreveu dizendo terem gostado do texto, mas que não aprovavam a imagem. Disseram que era hora de desvincular os negros da escravidão. Respondi explicando que o texto falava explicitamente da escravidão e suas repercussões, quase um século e meio após sua abolição, mas elas ficaram irredutíveis em sua proposta.
Eu troquei a imagem por outra (achei que não valia a pena a animosidade por um detalhe). Coloquei uma barriga grávida e negra, mas percebi o risco que havia nessa proposta de censura (que se limitou a um pedido). E se eu tivesse me negado? E se eu insistisse na imagem? Que tipo de represália eu poderia sofrer?
Quando escrevi meu capítulo no livro “Birth Models that Work“, da antropóloga Robbie Davis-Floyd, recebi um “sinal de luz” da revisora que achava que meu texto “essencializava” a mulher ao exaltar suas capacidades de gestar e parir, e isso podia incomodar algumas feministas. Desta vez bati pé e tive uma áspera discussão ao telefone que terminou com “então pode retirar o capítulo do livro“. Não foi necessário e minha contribuição nunca fui criticada por ter essa característica.
Liberdade de expressão é uma falta que eu vejo de maneira muito clara no discurso das esquerdas. As estúpidas expulsões de bolsominions de manifestações, ou mesmo negando-lhes o direito de falar, mostram a face autoritária que ainda sobrevive nesse meio. Cabe a nós, do campo progressista, eliminar qualquer forma de autoritarismo e censura, e para isso precisamos pagar o preço que se fizer necessário.
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Pós-verdades
Olhando pela imprensa nacional aqui na internet percebo que TODOS os veículos inicialmente compraram a história do sequestro; a Globo foi apenas a gota d’água. Mais ainda: aqueles que questionaram a veracidade de uma história absurda – em vários aspectos, totalmente inverossímil e impossível – eram automaticamente considerados como “racistas”.
Este é mais um exemplo de pós-verdade, uma construção contemporânea nietzschiana, em que a realidade desaparece sob o manto pesado das interpretações. As causas encampam os fatos, independente da realidade. O real passa a ser um detalhe, uma poeira minúscula tragada no tufão dos discursos contemporâneos. Não é sequer necessário investigar muito: a versão já está suficiente para os nossos propósitos. Os linchamento são imediatos e a destruição de pessoas, instituições e negócios também.
Esse caso, em especial, reunia gênero, raça e maternidade. Um prato cheio. A pressa e o desejo de construir uma narrativa heroica nos fez errar feio nos julgamentos. Agora que fique o ensinamento, para o nosso cambaleante jornalismo e para todos: nossos sentimentos são traiçoeiros. Eles nos fazem acreditar prontamente nas versões que tocam em nossas fragilidades e medos. Sem o controle frio e duro da razão sobre estes fatos sociais estamos condenados a criar injustiças por julgamentos apressados. A próxima vitima pode ser qualquer um de nós.Como eu disse anteriormente, no mundo cibernético desconfiem de TUDO. Desconfiem principalmente quando uma postagem produz uma identificação imediata com você. Desconfiem quando pessoas dizem que encontraram uma espancadora de crianças, um marido abusador, uma sequestradora, um homem pobre injustiçado, um ato de racismo ou uma misoginia porque estes casos mexem com nossas emoções, produzem imediata identificação e sintonizam com nossas próprias dores, o que nos impede de pensar racionalmente.
Cada vez que receber uma notícia dessas respire fundo e tente raciocinar, evitando pré-julgamentos, análises enviesadas ou pensamentos recheados de preconceitos de cor, gênero ou religião.
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Orgasmos
Será possível ainda acreditar que a abordagem sobre as dificuldades sexuais – tanto para homens quanto para mulheres – pode ser de ordem cognitiva? Vejo gente falando sobre “as mulheres não conhecem o próprio corpo,” dando a entender que a “ignorância” sobre ele acarretaria em dificuldades para obter prazer. Quando leio isso eu lembro das opiniões médicas sobre “homossexualismo” de alguns poucos anos que afirmavam que tal “desvio” poderia ser “curado” pela perspectiva racionalista.
Pessoalmente, não acredito nisso. Creio que sexo não mora nos genitais e sequer no neocórtex; para homens e mulheres ele dormita nas profundezas do inconsciente e só com uma abordagem que abra as cancelas que protegem as suas profundezas será possível mudar seu destino. Não há nada que possa ser “ensinado” às mulheres e aos homens que seja capaz de mudar a rota do seu próprio prazer. Buscar na razão esta resposta é como procurar a chave perdida debaixo do poste de luz, mesmo sabendo que ela foi deixada mais abaixo, num ponto escuro da rua.
Para mim afirmar que as agruras da sexualidade podem ser motivadas com cursos ou “informação” tem o mesmo valor que dizer que o vício de fumar pode ser vencido se ensinarmos aos fumantes os os malefícios do cigarro. Ou ainda – na mesma direção e em sentido oposto – se acharmos que um treinamento ou uma “formação” poderiam curar uma compulsão sexual (como uma parafilia, por exemplo). Acho que isso nada mais é do que procurar no lugar errado.
Cursos e vivências sobre a temática da sexualidade podem melhorá-la não pelo que se “aprende“, mas pelo que se “apreende“.
O problema sempre ocorre com abordagens prescritivas, ao estilo “Nunca faça isso“, “faça assim“, “dar prazer sem receber é errado“. Errado para quem? Como podemos julgar a subjetividade nesse nível? Uma compreensão rasa e limitada do que seja prazer pode nos fazer julgar o prazer do outro como “errado“.
A melhor e mais preciosa história que conheço a este respeito vem do filme Manhattan, de Woody Allen, pela voz da personagem de Tisa Farrow (irmã de Mia).
Ela chega na festa e diz para um grupo de convidados:
– Queridas, queria comunicar a vocês que, depois de 20 anos de análise, ontem eu tive pela primeira vez um orgasmo.
As amigas a abraçam eufóricas, mas ela diminui o entusiasmo delas com um olhar condoído.
– Calma, meninas. Infelizmente meu psiquiatra informou que eu tive um orgasmo do tipo errado.
“Ohhhh“, dizem e se apressam em consolá-la.
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Rituais mutilatórios
E quanto aos rituais…. eu sou DEFENSOR árduo dos rituais. Eles são fundamentais para a cultura. Natal, Páscoa, Pesach, ano novo (cristão, chinês, hebreu), bodas, aniversários, funerais, etc. A questão é que todos os rituais desnudam os valores culturais. Estudei por 30 anos os rituais de parto para me convencer que eles apontam para os valores do patriarcado e que se assentam sobre o mito da defectividade essencial da mulher. Esta é a questão central: os rituais nos mostram quem somos!! Fazem isso porque operam na sombra do inconsciente e não sob a luz da razão!
Por isso eles são poderosos e reveladores. Sob a luminosidade da razão eles murcham, secam e ….. se transmutam. Os rituais não são estanques e imóveis; eles caminham dois passos atrás do nosso conhecimento e dos valores sociais, e nos seguem de perto. Quando a razão impõe um novo entendimento da realidade, os rituais se modificam para se adaptar à novidade. Os rituais são eternos, mas não imóveis. Sua metamorfose adaptativa é o que lhes confere a imortalidade.
Acabar com as mutilações genitais tem o mesmo sentido de terminar com os sacrifícios sobre animais que fazíamos em um passado não muito distante. Pareciam ter sentido, mas aos poucos – calcinados pela luz da razão – foram desaparecendo. O mesmo precisa ocorrer com os rituais humilhantes ou violentos – como as mutilações.
Se as mutilações tinham alguma vantagem higiênica e identificatória há milhares de anos estas funções desapareceram. Ninguém pode admitir que sua proximidade com Deus se deve por ter a vulva deformada ou o prepúcio amputado. A ciência inclusive nos mostra o quanto perdemos de sensibilidade e prazer com estas perdas e cortes. A abolição destas mutilações em crianças é um marco civilizatório essencial.
Estabeleça-se que nenhuma criança pode ter seu corpo violado por práticas ritualísticas e mutilatórias e que qualquer adesão a estes grupos religiosos através dessas práticas só possa ocorra após a maioridade. Essa mudança nas práticas permitiria que as marcas, quaisquer que sejam, ocorram sob o controle de um sujeito livre para tomar decisões perenes sobre o seu próprio corpo.
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Vida em plenitude
Ninguém falou sobre isso, eu acho, mas para mim há uma brutal contradição no experimento dos vidros com arroz que receberam palavras “boas” ou “ruins”, realizados em uma escola do Paraná. (a piada óbvia é que para um vidro se gritava “Lula” e para o outro “Moro”)
O resultado para mim foi muito confuso. Não a constatação objetiva do experimento, mas como foi interpretado pela professora e por muita gente.
Vejam bem: No pote que recebeu palavras “positivas” nada cresceu, como pode ser constatado na foto. Tudo se manteve estático e estéril. Não houve crescimento de bactérias ou fungos. Tudo ficou como estava antes de ser fechado. Por outro lado, no vidro da “negatividade”, houve crescimento, abundância e uma multiplicidade biológica impressionante. Ocorreu intensa diversidade e estímulo à vida.
Em outras palavras, o pote da negatividade produziu energia e vida e o pote da positividade estagnação e esterilidade. Ou vocês acham que a vida em seu fulgor e energia incessantes deve acompanhar os nossos pueris preconceitos estéticos?Arquivado em Pensamentos
Generalização
“Uma generalização negativa e demeritória sobre grupos, etnias, gêneros, religiões etc. com a qual não concordo. Caso concorde, então é apenas a verdade dura que precisa ser dita”.
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Esperança
“Não esmoreça. Passe pela vida e deixe seu testemunho. A vida é curta demais para covardias e vaidades. Faça esse tempo curto de convívio conosco valer a pena. Deixe seu tijolo para a construção de um mundo melhor e permita que sua consciência e sua ética guiem seus passos em meio à artilharia pesada das forças do atraso. Siga em frente de peito aberto. Não se iluda: muitos acompanham teus passos em silêncio e seguem teu exemplo.”
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Latitudes e semelhanças
Uma das coisas que sempre me impressionou ao visitar lugares muito distante e culturas bastante afastadas da minha é a curiosa proximidade que sinto ao constatar o cotidiano de suas vidas. Por mais que aspectos culturais pareçam ser relevantes ainda sinto como válido um comentário do meu velho pai: “Se um viajante de um universo longínquo chegasse à terra lhe assombrariam muito mais as nossas gritantes semelhanças do que nossas minúsculas diferenças”.
Quando vejo línguas tão distintas quanto enigmáticas sendo faladas, como tcheco, búlgaro ou mandarín, me encanto com as tentativas de decifrá-las pelas entonações, ênfases, silêncios e paradas. Percebo que todas elas não me são estranhas; o riso, o espanto, a alegria, a preocupação, a timidez, a paixão e a raiva me são todos familiares. Isso deixa claro que somos de verdade uma grande família cujos muitos filhos se separaram há pouco tempo, e nossas tímidas diferenças surgiram nos poucos minutos em que nos distanciamos do olhar da terra mãe que nos abriga.
Nosso idioma não falado mais ancestral – com o qual convivemos 75% da nossa historia – continua comum a todos nós. Por esta razão, por sermos tão semelhantes, parece muito tolo que ainda exista racismo. Se há uma coisa que o convívio com as aparências díspares pode oferecer é a capacidade de reconhecer-se no outro, mesmo quando a cor da pele e a sonoridade da língua parecem tão diferentes.
No meio dos diferentes nunca me senti tão igual.
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Sexismo
E mais fácil estereotipar e ter preconceito com homem, né? Não dá nada, afinal eles são os opressores, certo?
Podemos rotular e pré julgar sem correr o risco de sermos chamados(as) de sexistas. Barbada. É só dizer que homem não pode ser doula ou não pode cuidar de criança e tudo bem; ninguém faz um escândalo por isso. Mas experimenta dizer que mulher não pode ser cientista nuclear, tomar conta de uma empresa, de um avião, de uma cirurgia delicada, que isso não é algo “feminino” pra ver o mundo cair na sua cabeça.
O teste preciso para o preconceito é quando combatemos um que nos beneficia.
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