Arquivo da categoria: Pensamentos

Sobre o escrever

“Meu pai dizia: leia qualquer coisa, tudo que puder e sem preconceitos; até rótulo de shampoo. Sempre será um exercício com as palavras e como elas se encaixam nas linhas, nas frases e nos conceitos. Eu digo hoje: escreva qualquer coisa e divirta-se com o “lego das letras”. Dê voz à sua angústia; não é o mesmo que falar dela, mas permitir que ela fale por si. Escreva sempre, transforme sua fala em um discurso escrito e verá um novo tipo de expressão brotar com os signos que se formam à sua frente. É como ter um sonho na lembrança e trazê-lo à superfície da palavra: ao contá-lo ele se transmuta, ganha um novo corpo e passa a adquirir significados que não possuía quando ainda dormitava na matéria bruta do pensamento.”

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Minimalismo

Dias atrás vi um belo documentário no Netflix, o qual recomendo com fervor: Os Minimalistas. Trata da história de uma dupla de jovens que resolveu se desfazer de quase tudo e viver uma vida o mais despojada possível, tateando os limites do desapego material. Ao assistir à narrativa fiquei envergonhado de perceber o imenso grau de fetichismo que ainda depositamos (depósito) em coisas, de roupas, objetos, utensílios a tamanho de casas.

Somos verdadeiramente governados por objetos que gravitam ao nosso redor, deixando de lado os verdadeiros valores da vida. Todos os conceitos do Minimalismo já existem na minha cabeça como elementos racionais há muitos anos, e a própria opção por viver no meio da natureza e em comunidade vai nesse sentido. Como próximo passo cabe a mim a difícil tarefa de que tais ideias baixem um pouco do alvo inicial e atinjam o coração.

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Crime e Castigo

“Como regra civilizatória um presídio JAMAIS poderia tratar um prisioneiro da mesma forma como o bandido trata a sociedade. Um está doente, o outro precisa ser saudável para oferecer a cura. Nenhuma sociedade civilizada apoiaria o absurdo de criar “centros de punição e vingança social”, imaginando que tal barbárie deixaria a cidade mais justa e segura. Pensar isso é regredir à idade das trevas, sem receber nenhuma segurança em troca.

Estados policiais, cheios de guardas e prisões, apenas iludem o espectador com sua fantasia totalitária e com a ideologia da “segurança para o cidadão de bem”. Onde foi aplicada o resultado foi catastrófico, em recursos, em vidas e em desumanidade.

A única saída para a criminalidade é a justiça social, mas no Brasil a Casa Grande não aceita abrir mão dos seus privilégios e por décadas ainda veremos a criminalidade ser tolamente tratada como um transtorno da alma, ao invés de ser entendida como uma construção social da qual todos – sem exceção – participamos.”

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A revolta domesticada

Acabei de assistir ao comercial controverso da Pepsi (pode ser visto aqui) e achei a maior juquice da história da publicidade mundial. Gente linda, elegante e sincera fazendo protesto num lugar que parece o Moinhos de Vento em Porto Alegre – ou Morumbi em SP – protestando talvez contra o aumento do preço da banda larga. Aí a bonitinha se interessa pelo protesto super civilizado nas ruas, junta-se à galere e acaba com as animosidades oferecendo uma pépis pro guardinha fofo. Pronto.

É assim, com amor e refrigerante, que se faz a mudança na estrutura social. Acabou a briga e todos podem voltar pra casa, tirar suas roupinhas féchon, deitar no sofá a assistir suas séries no Netflix.

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Terra primitiva

Sobre geração espontânea…

Abro um saco de farinha fechado e um inseto alado sai voando. Percebo que todo o saco, que devia conter apenas farinha, contém uma curiosa e inesperada diversidade de vida. Geração espontânea, nada mais natural.

Pegue uma bola de fogo girando em alta velocidade e inclua elementos simples como enxofre, carbono e hidrogênio. Esquente bem com vulcões e cataclismos de toda ordem, maremotos, tsunamis, continentes que se movem, meteoros e lava incandescente aos borbotões. Deixe esfriar e espere. Aguarde 4 bilhões e um pouco mais de anos, destape e recolha árvores, borboletas, flores, lagartos, morcegos, tubarões  crocodilos, mosquitos e seres humanos. Espere mais um segundos e estes últimos vão falar, escrever, brigar entre si e destruir os demais. Esperemos mais alguns instantes e tudo pode se evaporar num cogumelo de fumaça.

Do nada faz-se a vida, da vida consciência e da consciência o egoísmo. Desse ponto em que nos encontramos já podemos escolher entre a vida ou a fumaça.

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Silêncios

Desculpe a minha confusão, mas as vezes é difícil entender as razões pelas quais algumas mulheres mandam os homens calarem a boca quando o assunto é parto, nascimento e maternagem. Esse silenciamento ocorre porque, para estas pessoas, os homens não têm o direito de falar sobre estes assuntos (afinal mulheres nascem de partos, homens são colhidos em árvores). Sempre fico na dúvida sobre a motivação real para tais atitudes: seria o simples desejo de silenciar os homens ou uma legítima queixa contra a falta de voz das mulheres sobre um assunto do qual elas mesmas foram impedidas de falar nos últimos 300 anos?

Faço um convite apenas para que se lembrem de alguns homens como Gonzales, Marcus, Cláudio e Moyses, Jorge, Bráulio, Paulo, Frederick, Michel e tantos outros que defenderam o protagonismo feminino quando as próprias mulheres ainda estavam socialmente frágeis para lutar com suas próprias vozes. Aliás, foi o exemplo desses homens que auxiliou as mulheres a produzir seu próprio discurso construir seu protagonismo.

Então eu pergunto: será possível lutar por essa causa sem precisar o tempo todo silenciar os homens, em especial aqueles que pavimentaram a estrada quando as trilhas ainda eram escassas e pedregosas?

Eu desconfio que a estratégia das mulheres para buscar solidariedade nas causas femininas é apenas catastrófica.

Ninguém entre os homens contemporâneos deseja roubar o protagonismo das mulheres neste aspecto tão feminino da vida, mas porque a insistência em desautorizar as suas falas? Qual a vantagem disso?

Fico imaginando as opções que surgiram à minha frente nas ultimas três décadas. Eu poderia ter esperado 30 anos até surgir uma mulher para defender essas causas no meu meio, valorizando assim o “lugar de fala” delas. Talvez esses 30 anos de espera não custaram nada para quem está distante, mas muitas mulheres puderam se nutrir dessa prática ao longo desse tempo. Será que a voz dos homens é mesmo tão inútil e desnecessária ou apenas revela um outro silêncio?

Se a estrada era ruim por culpa dos homens (poderíamos ficar mais alguns meses conversando só sobre este tema) mais uma razão para permitir que eles falem e desfaçam os erros históricos do patriarcado aplicado ao parto, nascimento e maternagem.

O que eu não entendo é por que algumas mulheres acham que para que elas sejam ouvidas precisam calar os outros atores sociais que também tem algo a dizer. É como se o “espaço” das falas fosse tão escasso que para que elas falem é necessário que todos os outros se calem.

Lembram daquele tempo quando uma mulher falava de futebol e um ogro próximo dizia: “Amorzinho, cala a boca e vai fazer um café pra nós”. Lembram disso? Pois é, por mais que algumas vezes seja difícil notar, é justo dizer que melhoramos um pouco. Por que então a insistência em imitar o pior de nós?

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Deslumbramento

Exatamente por ser tão importante e criativa a função das doulas na construção de uma psicosfera positiva para o parto é que se torna tão fácil que elas caiam no deslumbramento de sua ação no parto. Por outro lado – e isso foi lembrado por muitos – essa constatação não é uma exclusividade das doulas; elas são apenas as últimas personagens a adentrar o cenário do parto e do nascimento. Os médicos há bem mais tempo, ao afirmarem que “fizeram” o parto de fulanas e sicranas, também se deslumbram com sua arte, ao ponto de despudoradamente expropriarem o evento da mulher.

Essa “couvade” contemporânea facilmente nos leva à inveja recôndita e ancestral que os homens carregam da parturição, apanágio do mistério feminino. Até mesmo as parteiras, profissionais ou tradicionais, com muita facilidade escorregam no próprio encantamento e se acreditam mais importantes do que verdadeiramente o são.   Todavia, não se trata de desmerecer a atuação de nenhum desses personagens que constroem o “circulo de apoio” que milenarmente ofereceu o suporte psicológico, físico, emocional, técnico, social e espiritual para o parto, desde que adentramos o universo da linguagem. Trata-se apenas de estabelecer limites à nossa atuação, para que nossa emoção diante do milagre da vida não carregue – escondida entre lágrimas e emoções – a semente da vaidade desenfreada, que colide frontalmente com o principal atributo de um cuidador: a humildade.

A luz que emana do parto, criada a partir da emissão de energia bruta de amor e superação, não pode ser eclipsada pela vaidade daqueles que o acompanham. Para isso é necessário que seja exercitada cotidianamente uma postura de respeito e veneração ao trabalho da mulher.

Doulas, parteiras, médicos que desejam resplandecer deveria se inscrever no “big brother“. Não é função desses personagens brilhar, mas tão somente refletir. O brilho só pode vir da mãe, caso contrário não passa da mesma velha expropriação, agora com novos atores.

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Anjo

“Sonho: um anjo chegou assustado do passado, vestia uma pantalona amarela com nesga, fita na cabeça e cabelo Black Power. Perguntou o que fazíamos nos domingos, entristeceu-se com o Facebook, lamentou pela TV e pela maconha ruim, xingou Bolsonaro e disse que o passado é uma roupa que não nos serve mais. Acordei”

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Playlist

Eu me aproximo do carro para ir com Zeza para uma pousada próxima a Porto de Galinhas e o motorista que nos levará parece um nordestino típico: jovem, forte, cor de cuia, pescoço virtual e simpático. Sento no banco do carona e coloco o cinto, Zeza também. O motorista ajeita o GPS e mexe no sistema de som. Vejo a palavra “playlist” no display do carro e coloco a mão no bolso à procura dos fones de ouvido para conectar no celular. O motorista liga o carro, pergunta se o ar condicionado está bom, aperta um botão e a playlist inicia.

Os primeiros acordes atingem meus tímpanos como uma flecha pontiaguda e no pequeno espaço que os separam do cérebro  conseguem que uma lágrima furtiva me percorra o rosto, salgando-o com emoção e surpresa. A voz familiar no auto falante fala que o meu amor tem um jeito manso que é só seu, e depois, ainda travestido, canta no feminino e explica que o primeiro lhe chamou como quem vai no florista, mostrou o seu relógio e lhe chamou de rainha.

Peço para aumentar o volume da música e ele sorri. “Ele tem uma músicas lindas, não?”. Concordo timidamente. Durante a viagem ele sussurra as músicas de Chico Buarque como se tivesse a minha idade e não os trinta e poucos que aparenta.

O pulso ainda pulsa. Na miséria cotidiana do deserto criativo em que sofregamente caminhamos ainda há espaço para lembrar da sensibilidade e da arte, que surge inesperadamente à nossa frente como um cálice de água cristalina a saciar nossa sede.

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Livre pensar

Não se passa um dia sequer sem que eu assista de forma clara e definitiva a derrocada espetacular de uma certeza, com a qual convivi durante boa parte da minha vida, e de onde muitas vezes tirei consolo e conforto.

Essa é, para mim, a melhor definição de um livre pensador.

Maurice Herbert Jones, comunicação pessoal.

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