Arquivo da categoria: Política

O Fim da Política

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Mais cedo ou mais tarde apareceria alguém pedindo o desaparecimento das ideologias e o surgimento de um “positivismo político cientificista”, algo para além dos partidos em que a “competência” administrativa “comprovada” por um currículo “acadêmico” pudesse depurar a política dos tolos, oportunistas, ignorantes e todos os sujeitos movidos por interesses espúrios. Uma espécie de aristocracia ao estilo “Nosso Lar”. Seria a negação do conflito e a superação do contraditório. Governantes seriam eleitos através de concurso público realizado em prova direta de múltipla escolha.

Quem pede isso esquece que a humanidade sempre foi governada assim e que a modernidade nos ofereceu a alternativa mais justa ao oferecer a escolha dos seus representantes a todos os cidadãos. Ao invés de provas acadêmicas para selecionar os mais aptos tínhamos o DNA dos governantes, herdado de sua família nobre, em cujo currículo constava um aprendizado de uma vida inteira na “arte de governar o povo”.

A verdade é que a falta de partidos daquela época e a supressão das ideologias já era, por si só, a ideologia dominante, que vagava invisível no campo simbólico, e determinava a cada componente da sociedade seu lugar eterno e imutável de servo ou senhor.

Aos que desejam um mundo sem partidos e sem ideologias, sem conflitos e sem disputas, sugiro que voltem no tempo e se abriguem mas brumas de Avalon, ou em qualquer lugar paradisíaco do século XIV. Aqui no século XXI o extermínio dos partidos e o aniquilamento das formas distintas de pensar o coletivo significaria um passo definitivo em direção à barbárie e à anulação do pensamento.

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Sensacionalista

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O site de humor Sensacionalista acaba de iniciar uma parceria com a Veja, o folhetim de extrema direita reacionária. Para alguém que acha que é possível fazer humor alinhado ao grande poder e ao lado da imprensa mais fascista eu apenas tenho a dizer: R.I.P. Sensacionalista.

Lembro o “Perdidos na Noite”, com a irreverência do Faustão, sendo cooptado pela Globo que oferecia a ele “total liberdade criativa”. Resultado: a dança dos famosos, babaca por um dia e entrevista chapa branca com artista que bebe e atropela.

Veja é muito mais esperta do que os caras do Sensacionalista. Compraram e colocam na folha de pagamento um menestrel adestrado, contratado para fazer pilhéria do Rei, mas que sabe muito bem até onde pode debochar do patrão.

Não se deixem enganar pelas aparentes críticas na primeira edição do Sensacionalista. O humor não pode jamais ser presa de um poder econômico. Com essa atitude perdeu o humor, perdeu o Sensacionalista e perdemos todos o prazer de ver a graça autêntica e livre.

Os que aderem ao poder sempre pensam: “Eles acham que podem me comprar, mas sou mais esperto. Nunca vou me vender”. Tolos… Isso acontece na medicina com os presentes, prêmios, vantagens e toda sorte de badulaques oferecidos pela indústria farmacêutica. Muitos médicos ingenuamente acreditam que as vantagens recebidas não vão condicionar seu julgamento sobre determinada droga ou tratamento.

Pura ilusão. Mas estas estratégias funcionam exatamente porque desprezamos a sua influência subconsciente de direcionar e moldar nossa vinculação com a realidade.

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Puteiro

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“Com a morte “acidental” de Teori e a nomeação de Alexandre de Moraes consolida-se o golpe na trincheira jurídica e cumpre-se a profecia de Jucá. O Brasil realmente tornou-se um puteiro.”

As putas sempre mereceram todo o meu respeito. Conheço muito bem a trajetória das prostitutas desde o surgimento da primeira associação de trabalhadoras do corpo, liderada pela socióloga Gabriela Leite, que lutava pela regulamentação e proteção das prostitutas em todo o país. Lembro de levar essa discussão – de claro cunho socialista – para a faculdade de medicina e receber o natural rechaço dos colegas e o desprezo dos professores. Naquela época me intrigava a expressão que Gabriela usava: “Por que o trabalhador se deixa explorar na parte de cima do seu corpo e nós não podemos usar a parte baixo?

Uma das frentes de luta das prostitutas era exatamente o que citei lá em cima: o “puteiro”. O prostíbulo era também chamado de “casa de tolerância”, porque lá se toleravam as explorações das mulheres em nome do desejo, por ser um lugar absolutamente selvagem dentro das sociedades, existindo como um enclave de barbárie nas cidades contemporâneas. Ali onde a civilização não ousava entrar, o poder era dos mais fortes e a Lei era a da selva.

Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não para.

Por isso Cazuza não fala das putas, e nem eu. Falamos da construção social ao redor delas, o entorno de exploração e escravidão a que elas se submetem ao ousarem vender seu corpo. Falamos da ausência de Lei e estado na organização de um comércio tão antigo quanto o próprio patriarcado e da história como a concebemos.

Putas somos todos nós. Somos estas entidades de carne que se desfazem lentamente em um estado leniente com a exploração, e que tanto nos afeta quanto nos desumaniza. Putas somos nós governados por cafetões que usam nosso corpo de trabalho cujo resultado fica na mão dos donos do bordel e não serve para nós oferecer um mínimo de dignidade.

Pelas putas, sim… mas contra os puteiros indignos e imorais que nos aprisionam.

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Aneurisma

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Se você puder entender a ruptura do aneurisma de Dona Marisa como o epílogo de um processo de violência psicológica, forte pressão emocional e o consequente sofrimento pessoal pela perseguição insana a ela, seu marido e seus filhos então poderá aceitar que Marisa Letícia sofreu tortura e morreu como consequência indireta dos ataques desonestos e cruéis que sofreu.

Curioso como é mais fácil entender o bullying psicológico que leva ao suicídio jovens homossexuais nos Estados Unidos mas relutamos em aceitar que a mesma pressão tenha ocasionado a ruptura de um aneurisma. Parece simples aceitar que uma mulher sofre por assédio moral de um marido violento ou de um patrão sem escrúpulos, mas não queremos aceitar que Marisa pode ter sucumbido a este mesmo tipo de agressão, insidiosa, contumaz e renitente.

Quando ocorre com nossos inimigos todos os indícios desaparecem. Quando ocorre conosco, mesmo a agressão mais diáfana e a mais impalpável fantasia torna-se fato e realidade inquestionável.

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O jaleco cabo eleitoral

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Lembro da história de uma paciente antes da eleição de 2014 que, acompanhada do marido, consultou na emergência da Santa Casa. Logo que entraram na sala a médica lhes perguntou: “Vocês já sabem em quem votar, não?” Eles disseram que tinham candidato mas que esse era um assunto privado e que não cabia conversar em uma consulta médica. Talvez por isso mesmo a médica começou a disparar impropérios contra Dilma e porque deveriam destruir o PT e votar no Aécio.

A tudo isso escutaram em silêncio. Aguardaram a chegada do resultado dos exames, ouviram as explicações sucintas e se despediram. Não se passaram mais de 30 segundos após saírem e ela volta, coloca a cabeça pela fresta da porta e fala, com a voz um pouco mais alta do que deveria: “Saiba que vamos votar no PT, principalmente por causa de pessoas como você!!!!

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Punitivismo

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A “doutrina da segurança”, que protege a vida e o patrimônio de pessoas brancas e bem nascidas, é um dos mais vívidos resquício da escravidão. Os seus defensores são a prova de que a luta contra a exclusão e o racismo precisa ser levada a sério e como uma política de estado. A emergência de fascistas no cenário político internacional e nacional deve nos alertar sobre os perigos que estas ideologias racistas e excludentes representam à própria sobrevivência do planeta.

Já o punitivismo do judiciário é sua máscara autoritária e tem suas raízes num entendimento ultrapassado sobre os perigos da impunidade. Os modelos punitivos aplicados no mundo real, como os “Three Strikes” usados na “Guerra contra o Crime” nos Estados Unidos foram uma tragédia sem precedentes no ocidente, que multiplicaram os custos do encarceramento, criaram 2,3 milhões de prisioneiros e não produziram nenhuma mudança substancial na segurança pública ou na obediência às leis.

É preciso avançar o debate e reconhecer que a obediência ao pacto social ocorre apenas na vigência de uma sensação de confiança na legitimidade do sistema, e não no temor de ser punido. Isso não significa a ausência de punição ou mesmo de reclusão – mesmo sabendo de sua ineficiência em recuperar delinquentes – mas o abandono da ideia ingênua de que esta é a solução do problema.

Quando o crime avança em todo o país como causa direta da ruptura das instituições democráticas, pela inquestionável falta de confiança de todos nós na polícia, nos políticos, nos empresários e na mídia, os governantes acenam com …. a construção de novos presídios!! Isso não significa que eles não sejam uma necessidade – assim como, na velha piada, o sofá também poderia necessitar reparos – mas acreditar que a solução é MAIS encarceramento é um retrocesso injustificável e que terá resultados pífios, como sempre ocorreu onde essa ideologia foi aplicada.

Sem criar confiança na legitimidade das leis e regras sociais, nenhuma punição poderá criar um estado de respeito e convivência pacífica em uma sociedade – ou mesmo no planeta.

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Bandidos

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“Qualquer texto que contenha a frase “nós que trabalhamos e pagamos impostos” (para se contrapor aos “pretos molengas e vagabundos que se sustentam do estado”) vem da mesma origem: a classe média ressentida que vestiu verde amarelo e agora vê o Brasil se destroçado por obra da MESMA elite escravocrata que defende a falácia da meritocracia e que falsamente combate a corrupção. A mesma classe que não enxerga um presídio com 80% de negros e continua acreditando que as oportunidades são iguais, “basta querer”. Esse é o mesmo grupo que, sem conseguir se recuperar adequadamente do golpe sofrido com a Lei Áurea, pretende que pobres e negros sejam eternamente cordiais, conformando-se com a desigualdade que sua condição social e racial lhes impõe por viverem no país mais desigual e cruel do mundo.

Bandidos são também – e principalmente – vítimas de uma sociedade cuja engenharia perversa produz a marginalidade e a exclusão como subprodutos inevitáveis.

A Casa Grande jamais aceitou, e jamais aceitará, um país para todos.”

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Marcha de Austin

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Mais de 30 mil pessoas participaram da manifestação pelos direitos das mulheres aqui em Austin – Texas, mas segundo os observadores da polícia militar de São Paulo não havia mais de 340 pessoas. Estou esperando a versão verdadeira: a da Globo.

Milhares de mulheres, crianças e homens. Muitos casais de lésbicas, pouquíssimos gays masculinos e transgêneros. Muita alegria, humor, diversão e ordem. Tudo muito comportado, ordeiro e organizado. Poucas palavras de ordem. Nenhum slogan forte, poderoso e viral. Batucada, mas sem samba.

Outra coisa chamativa: não havia nenhuma manifestação anti-homem ou anti-masculina. Não parecia haver um clima de ressentimento. Claro, muitas mulheres estavam lá com seus homens, maridos, irmãos e filhos. Havia um sentimento de inclusão.  Parece que diziam: fiquem do nosso lado, nós precisamos de vocês nessas lutas. Durante todo o percurso  nada vi de agressivo contra os homens.

Foi uma linda demonstração  de inconformidade e resistência civil, mas apenas isso. Faltou ao protesto a força que eu desejaria. Tudo muito amigável e conforme a lei e o direito. Parecia um protesto coxinha; até os policiais eram gente boa. Vi até um policial pedindo desculpas por passar com a viatura no meio da multidão para atender uma emergência.

Minha pergunta é: aonde este tipo de manifestação pode nos levar? Que poder têm 30 mil pessoas aqui (500 mil em Washington) para fazer uma efetiva  mudança?

Havia um cartaz  no meio da multidão que, de uma certa forma, oferece a resposta.

Well behaved women never make history

(Mulheres bem comportadas nunca entram para a história). O “protesto” foi comportado demais, bonitinho, ajeitadinho, colorido, com mães e bebês em carrinhos, maridos parceiros, cartazes coloridos, diversidade e respeito. Entretanto, ao meu ver, faltou energia transformativa. Faltou enfrentamento ao poder instituído.

Como transformar um desejo social legítimo em poder autoritativo verdadeiro? Isto é: como fazer dessa manifestação ferramenta de mudança e pressão, e não apenas uma festa para a família?

Os “Black blocks” sabem dessa armadilha e por esta razão se negam a participar de movimentos bem comportados. Para eles só vale se cutucar a ferida do poder. Se essa radicalidade lhe parece inaceitável, que outra alternativa nos resta?

Essas manifestações ao meu ver não tem valor em si; elas são marcadores do poder popular. A partir delas é que se constroem propostas de mudanças através da representatividade. Por isso é que são enganosas, pois elas não são um fim, mas um meio de construir ações políticas de mudanças estruturais.

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Personagens

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Esses dias vi uma foto da família Obama se despedindo da Casa Branca e abaixo da imagem todos os comentários elogiavam o presidente, suas filhas e – em especial – sua mulher Michelle. “Linda”, “maravilhosa”, “discreta”, “feminina”, “nobre”, “educada”. Michele parece ser o escoadouro para onde fluem todas as virtudes, principalmente as que mais fazem falta no cenário político atual.

Entretanto, eu proporia uma reflexão. Há muitos anos escutei de uma colega estudante de medicina rasgados elogios a um médico, o qual eu conhecia vagamente dos plantões. Ele não me parecia grande pessoa, mas não duvidei da minha colega, apenas resolvi perguntar que tipo de critério ela havia usado para classificá-lo como “grande profissional”.

Ela, obviamente, se ofendeu com minha pergunta. Questionar a origem de um apreço parece um desmerecimento. Mas não era; tratava-se da legítima curiosidade em saber as razões dessa admiração. Insisti e acabei descobrindo algo muito interessante.

Ela não sabia explicar. Não tinha NENHUM dado objetivo. Não o conhecia pessoalmente, não havia feito plantões com ele, não sabia de detalhes de sua prática. Não tinha sequer assistido uma aula sua. Então por que esse conceito positivo?

Seu conceito positivo sobre o colega havia surgido apenas por tê-lo escutado falando de sua prática. A forma como descreveu o que fazia, como fazia e porque fazia. Não havia nenhuma experiência verdadeira, apenas o discurso. Claramente a imagem que ela fez dele se adaptou à sua fantasia de profissional de sucesso. Pode-se acrescer a isso as roupas, a gravata, o jaleco branco impecável, o estetoscópio Litman, as canetas coloridas no bolso, o crachá do hospital, a brilhantina no cabelo e o linguajar científico e firme

Em outras palavras: nada de objetivo, apenas uma imagem construída de qualidade e sofisticação. Eu entendi que ela admirava um produto que ELE nos vendia, com claro sucesso. Mas ficava para mim a pergunta: o que existia de verdadeiro por trás daquela gravata italiana e daqueles termos médicos empolados? O que existia de médico para além daquela propaganda bem construída?

Voltando à Michelle…  o que nos faz achar que ela é uma “grande mulher”? Por concordar com nossas ideias? Por ser negra? Por ser discreta? Por ser mãe? Por se adequar ao que imaginamos ser uma primeira dama? Por algo que efetivamente fez? Por ser “feminista”? Por falar bem em público? Por estar “do nosso lado”?.

A verdade é que nos apaixonamos por PERSONAGENS!!!! Quantas vezes as atrizes da Globo são adoradas pelos papéis que incorporam, mas não foram poucas as vezes em que o contrario ocorreu: serem atacadas quando atuam como pessoas más. Lembro de Beatriz Segall sendo agredida no Rio quando atuava como Odete Roitmann (os velhos vão lembrar). Porém, as luzes do personagens nos seduzem demais e podem ser enganosas. Essa é a minha preocupação com estas figuras publicas: pouco ou nada sabemos delas. A face pública pode ser uma máscara que esconde um interior pouco recomendável, mas o contrário também é verdadeiro: uma face feia com uma energia espetacular. Só a prática e a ação podem mostrar o que se esconde por detrás das fantasias. Mas eu pergunto: qual seria a opinião dos palestinos, sírios, afegãos e iraquianos sobre esta grande mulher, cujo marido de sorriso simpático mandou matar centenas de milhares de cidadãos do Oriente Médio? O que ela realmente fez para o mundo, para as mulheres e para o seu país?

O que existe de verdade por dentro dos vestidos bem cortados? O que há de grandiosidade e caráter por trás de um sorriso generoso? 

Propaganda? Ou uma mulher de valor?

Não se ofenda…  é uma pergunta honesta.

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Causas

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“Morro de medo de ver os fatos sendo sequestrados pelas causas ao sacrifício da verdade. Nenhuma luta honesta pode ser sustentada por mentiras.”

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