“Os homens livres são um perigo para os déspotas; as mulheres livres o são para os chauvinistas. O livre pensador é – pelo simples pensar – uma ameaça ao dogmatismo e à irracionalidade. O sincero ameaça de morte o falso e o dissimulado. Todavia, o maior perigo está naquele que perdoa; este será sempre o rochedo a impedir o avanço do oceano de ódios.”
Devaneios juvenis

Eu não passava de 14 anos e tinha uma vida inteira e incerta pela frente. Não sabia exatamente como era o mundo, como se construíam suas tensões e nem como se organizavam seus caminhos.
Sentado no banco do ônibus sentia os tapas estroboscópicos da luz que driblava os prédios e as árvores para encontrar meu rosto de menino. O ar frio matutino arejava meu pensamento colegial, e fazia minhas ideias volitarem por sobre o cabelo desgrenhado.
De súbito um corpo de aproxima do banco onde eu sentava. Não lhe pude ver pois que estava atrás da linha dos meus olhos, mas seu braço se projetou defronte meu rosto para se apoiar na guarda do assento em frente ao meu.
Uma moça. Só o que podia ver era seu braço coberto por uma fina lâmina de tecido branco que se ajustava às suas voltas e reentrâncias. O tecido terminava com uma delicada renda no punho, que cobria parcialmente sua mão pequena. Os dedos esquálidos terminavam em pequenas unhas vivamente coloridas com esmero e cuidado. A pele era morena, o que fazia contraste com a alvura do tecido da blusa, num contraponto instigante. A renda se movia com os solavancos do coletivo, fazendo uma estranha dança sobre a mão pequena e firme. No dedo anular um delicado anel, cuja luz refletida pintava de amarelo minha retina.
Fiquei olhando para aquele fragmento de pessoa, tentando imaginar o que se escondia para detrás do meu campo de visão. Como seria seu rosto, seu corpo, seus lábios e seios? Qual seria sua voz? Que pensamentos carregava em sua mente naquela manhã? Estaria, como eu, indo à escola? Seria mais velha do que eu?
Quanto mais eu brincava mentalmente com essas perguntas mais me fascinava ao olhar aquele braço à minha frente. Entretanto, percebi que este fascínio era muito mais pelo que eu não via do que pelo que se apresentava à minha frente. O que me excitava os sentidos era imaginar para onde corriam as veias que eu via plúmbeas na mão apertada contra respaldar do banco. O não sabido era o mais interessante; o que eu não via era o que mais me atraía.
Repentinamente a mão se desprega do banco e se recolhe, aproximando-se do corpo que eu não via. O chiado da porta se abrindo anunciou a parada. O corpo da moça é ultrapassado por outro vulto e seu braço escapa da minha visão. Quando crio coragem de voltar minha cabeça para trás e já não mais ela está ali. Envolta num emaranhado de corpos com pressa ela sai pela porta sem que eu tivesse a oportunidade de admirar o resto de si.
Com outro chiado e a porta do ônibus novamente se fechou. A moça da blusa de renda se foi sem deixar vestígios, e não ser a ferida viva em minha memória, a sensação inebriante de encantamento que me acompanha há quatro décadas.
Talvez ali, naqueles momentos de pura fantasia durante uma viagem matinal de ônibus, eu tenha me aproximado de forma definitiva do mistério e do encantamento que constituem o feminino. A esta moça a minha dívida por ter me oferecido uma amostra discreta do infinito que uma mulher representa.
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Os Estupros
Fiquei sabendo agora de um “estupro coletivo” no Rio de Janeiro que, não bastasse a violência absurda e desumana, ainda serviu como objeto de espetacularização pelas redes sociais. Não por acaso, numa sincronicidade diabólica, Alexandre Frota faz uma visita ao Ministro da Educação levando a ele propostas para o ensino no Brasil. Lembrem que o “muso do impeachment” é também responsável por uma performance num programa de TV (de Rafinha Bastos, o mesmo que “comeria ela e o bebê”) em que relata um estupro a uma mulher Mãe de Santo que o estava atendendo. Depois disse que se tratava de um número de Stand Up, mas isso é irrelevante diante da gravidade de tratar estupro como brincadeira, banalizando a violência.
Eu ouso pensar que o estupro cometido tem a ver com o profundo mal que o golpe produziu no imaginário do país. A sensação que tenho é que as pessoas perderam a confiança na justiça e no judiciário. A mesma justiça que perde meses (e milhões) investigando barquinhos de lata e negligencia investigar a fundo um helicóptero cheio de pasta de cocaína não pode exigir que confiemos nela. O STF foi acusado de participação EFETIVA e DIRETA no complô para a derrubada do governo. As gravações comprometendo Jucá, Renan e Sarney estavam em sua posse desde março; foram escondidas para permitir o golpe. O juiz Moro mostrou dureza e inexorabilidade seletiva, e apenas contra o PT, durante todo o curso da Lava Jato, e quando da queda de Dilma pediu o “desarmamento dos espíritos”.
Quando o povo se dá conta que os magistrados são indignos de confiança percebem que não há valor algum em se comportar dentro da lei. Por isso a sensação de impunidade de quem comete atos hediondos. “Se o Alexandre Frota pode contar isso na TV como brincadeira, por que não podemos também?”
As mulheres, foco do desejo masculino e signo de poder para quem as possui, sempre serão as primeiras sacrificadas em um mundo sem lei. No livro “Ensaio sobre a Cegueira” do escritor português José Saramago, a primeira coisa que ocorre quando se instala o caos de um mundo às escuras e sem controle foi o domínio sobre as mulheres, que leva naturalmente à violência e ao estupro.
Quando se destroça a força simbólica da lei os mais frágeis são os primeiros a sucumbir.
Não, eu me nego a ver como coincidências estes eventos. Quando a LEI se apaga e a justiça não parece se fazer, surge em todos o espírito da selva, onde a ordem é matar ou morrer.
Os estragos sociais de uma quebra jurídica abjeta e criminosa como a que testemunhamos vão se estabelecer em todos os níveis das relações pessoais, pois que os valores que foram desrespeitados são da ordem básica das relações sociais.
Triste dia em que apologistas do estupro tem voz na educação de um país. O resultado é a banalização do crime mais antigo, mas ainda presente na comunidade humana.
Dilma e a Alcateia
O jornalismo brasileiro chegou aos níveis mais baixos de credibilidade. Quem acredita em uma manchete hoje em dia? “Contas particulares da presidenta Dilma pagas por propina”. Quando você vai ver, não tem nenhuma fonte, nenhuma comprovação, nenhuma informação. Apenas um boato criado por um criminoso com uma caneta na mão e um rabo preso. A imprensa é o principal alicerce das democracias, ao lado de um judiciário isento e sério. Já que perdemos estes dois, o que nos restará?
Se não fosse uma tragédia para a imagem desse país seria digno de gargalhadas. Fico pensando nos pobres, classe média e aposentados fazendo um carnaval ridículo contra o governo, sem saber que Dilma, com todos os seus defeitos e equívocos, era um anteparo contra a alcateia que a cercava. Agora, com Dilma afastada, abriu-se a porta do galinheiro e NÓS, pobres e ingênuos galináceos, estamos a mercê dos lobos que pretendem assaltar os cofres públicos em benefício próprio, e para se blindarem contra a ameaça da justiça.
Parabéns paneleiros… vocês conseguiram.
Meu Candidato
Como escolherei meu candidato nas próximas eleições:
Minha escolha é negro, pobre, mulher e de esquerda (mas reconheço que seria bizarro achar um negra, pobre e feminista no DEM ou no PP…). Não aceito mais a pouca representatividade desses segmentos sociais nos nossos parlamentos. Somos governados pelas elites, mas essa culpa não podemos tirar de nossas costas; nós mesmos votamos nos nossos algozes. Nosso voto, via de regra, é egoísta ou irresponsável. Votamos em quem vai ganhar, votamos para contar uma piada, votamos para tirar vantagem e votamos porque queremos benefícios pessoais ao invés de votar em quem nos representa, quem é parecido conosco, quem tem nossas ideias e compartilha paixões.
Chega de votar em branco, empresário, rico, manipulador, que faz política toma-lá-dá-cá, que promete cargo de assessor, que está ligado ao poder econômico e que está se lixando para a população. Também não votarei em alguém que faça da religião – qualquer uma – seu palanque. Evangélicos com programa de TV, empresários da fé… NUNCA MAIS!! Não votarei em candidatos ligados às grandes corporações ou financiados por elas. Não darei meu voto para radialista de programa popular e também jamais apoiarei ex jogador de futebol que manipula eleitores, tratando-os como torcedores emburrecidos. Não votarei em alguém por ser jovem ou velho, mas votarei em velhos com jovialidade ou jovens com maturidade.
Darei o meu voto para alguém que seja parecido com a imagem que vejo no espelho todas as manhãs. Vou procurar alguém que tenha sonhos parecidos e que não acredite que o dinheiro possa lhe trazer felicidade ou vantagens. Vou encontrar alguém que coloque o bem comum como uma paixão acima das suas inevitáveis vaidades, e que lute por uma sociedade equilibrada e justa, e não apenas para favorecer seus amigos e parentes. Procurarei também um candidato que pense no nascimento humano como conexão sagrada do sujeito com a natureza, que valorize o trabalho de doulas e parteiras como guardiãs desse momento, e que reconheça a importância dos médicos e da tecnologia, que salvam vidas quando bem utilizados.
Usarei meu direito sagrado de votar para MUDAR a realidade triste e sombria que nos levou ao golpe absurdo e humilhante que estamos sofrendo agora, para que nunca mais o povo seja manipulado por um congresso desonesto, vil e corrupto como o que temos hoje.
Mais do golpe
Aqueles que ainda resistem e apoiam a legalidade do governo golpista de Temer serão reconhecidos, dentro de alguns poucos anos, como os mesmos que acreditaram nas boas intenções de Stálin, nas ideias liberais de Bush ou nos valores morais do golpe de 64. As palavras de desprezo pela democracia – duramente construída – serão varridas para o lixo da história, e isso virá mais cedo do que pensam. O fim da CGU, da LavaJato, a anistia para Aécio e o provável perdão negociado de Cunha mostrarão a tolice imensa de quem acreditou no “combate à corrupção”. Para os “libertários”, que para mim são as formigas que desejariam ser tigres e destruir a todos em nome do que chamam “liberdade”, restará apenas a raiva pela traição dos que agora usurpam o poder.
Mas quando a desilusão chegar, e os mesmos que agora festejam perceberem que a casa está caindo, a resposta que os golpistas darão eu já antecipo desde agora:
“O que? Está bravo? Mas não fiz promessa alguma, não fui votado, não tenho compromisso algum com vocês. O que esperavam? Fidelidade ao meu programa, às minhas “promessas de campanha”? Que campanha, que eleição? Eu não cheguei aqui pelo voto, seu tolo!! Eu me tornei presidente com 1% de intenção de votos. Sou provavelmente o presidente mais rejeitado do mundo!! Portanto, chega de mimimi e nos assistam fazer o governo que NOS interessa. Ah, e obrigado pelas paneladas, seus trouxas“.
O GOLPE contra a democracia foi político, jurídico e MIDIÁTICO. Teve a participação MACIÇA da MÍDIA fazendo uma fantástica propaganda contra Dilma e o PT exatamente porque eles se contrapunham aos LADRÕES famintos da política nacional. E vocês da DIREITA caíram como PATOS – aliás, o símbolo da FIESP era para vocês – porque o GOLPE recolocou os donos em seus devidos lugares. Agora não se investiga mais nada, PF está amordaçada, o juiz Moro pede a “comunhão nacional e o desarmamento dos espíritos”, Aécio está livre das acusações, Cunha será perdoado, e as raposas tem a chave do galinheiro.
Acabou tudo seu tolos. Uma burrice lesa pátria, liderada por vendilhões pagos por multinacionais, como Kim, um presidente informante dos Estados Unidos, e composta por personalidades doentes como Lobão, Janaína e o Alexandre Frota. Uns sujeitos idiotizados comandando ingênuos hipnotizados pelas campanhas da TV. Gente que acredita na Friboi, nos aviões do Lula, nos pedalinhos, no Triplex e em todas essas afirmações que NUNCA foram comprovadas. Tiraram Dilma – uma mulher reconhecidamente honesta – do poder para colocar sujeitos reconhecidamente desonestos e com contas a ajustar com a justiça. Temos um presidente inelegível!!!! Isso é inédito, e gravíssimo!!!
Cara … isso é uma vergonha. É triste ver como a PROPAGANDA manipula as mentes de pessoas que não conseguem enxergar 1cm à frente do seu nariz… Pior ainda: trabalhador pobre festejando por ser roubado e tratado como escória…
Conversa
– Como era o nome daquele negócio de investigar, tipo uma coisa da Polícia Federal que tinha, mas ninguém divulgava muito…
– LavaJato?
– Não, não… essa tinha todo dia na TV. Era uma outra coisa, de gente graúda, mas os caras não iam muito a frente, não investigavam muito.
– Helicoca? Aeroporto de Cláudio? Furnas?
– Não era isso, era outra coisa, mas era tão vergonhoso quanto isso.
– Era do Moro?
– Acho que não, mas tinha uns caras muito importantes envolvidos.
– Petrolão?
– Não… esse aí saía todos os dias no Jornal Nacional!! Era uma outra, carajo!! Não lembro o nome. A palavra tem alguma coisa a ver com correio.
– Entrega?
– Não…
– Correspondência?
– Nada disso. Cara, você já está me confundindo…
– Hummm, pacotes, malotes?
– Isso!!!! Zelotes !!!!
– Bahh, nem me lembro mais. O que é feito disso?
– Não sei, mas agora tenho esperança que o Temer vá investigar.
– Ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra
– Ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra ra
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Truman
Alguns filmes procuro pelo artista principal. Explico: se este artista aceitou fazer este filme é porque ele deve ser bom. Assisti hoje o último filme com Ricardo Darin, “Truman”, um bela obra e um belo filme sobre a amizade e as despedidas. Agora ao ver que as minhas estão cada vez mais próximas, este filme me ofereceu a oportunidade de refletir sobre as derradeiras escolhas. Peço apenas que meu último aceno só ocorra após ter cumprido algumas singelas determinações pessoais, pedidos de perdão e abraços há muito tempo devidos. Espero ter deixado um humilde legado de ideias e amores, e que eu possa seguir em paz levando como única vaidade a ilusão de que, por um breve instante e para algumas poucas pessoas, pude fazer a diferença entre a lágrima e o sorriso.
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Conceito de humanização
“Humanização do nascimento é uma atitude que emerge da mudança conceitual surgida nas últimas décadas sobre o verdadeiro papel da mulher na sociedade, considerando-se os seus direitos reprodutivos e sexuais e reconhecendo suas inatas capacidades de gestar e parir com segurança. Surge através do reconhecimento das inquestionáveis violências institucionais que as mulheres sofrem no período gravídico-puerperal e a responsabilidade que advém desse conhecimento para quem se ocupa da atenção a elas.
Humanizar o nascimento é garantir o protagonismo à mulher, tratá-la com dignidade, oferecendo uma visão integrativa – fugindo do modelo objetualizante e biologicista – e oferecendo um cuidado baseado em evidências atualizadas. É tarefa dessa geração de homens e mulheres que se interessam pela temática abrangente do nascimento mergulhar nesses conceitos e garantir às mulheres a atenção que elas merecem, para o bem de toda a humanidade.”
Crença e descrença
“O ateu que fica puto com um cumprimento ingênuo, sincero e natural como “fique com Deus” é porque faz do seu ateísmo a mais chata das religiões. Aliás, são estes os ateus que dão ao ateísmo uma má reputação.”
O ateísmo é apenas um sistema de crenças como qualquer outro. A crença na inexistência, assim como a confiança – irracional – no sentido do Universo, se equivalem em suas imponderabilidades. O teísmo é, ao meu juízo, uma orientação de caráter pessoal e inamovível. Eu não consigo deixar de crer em Deus mesmo que queira, até porque se trata de uma crença que está aquém (ou além, se preferirem) da racionalidade. Para um ateu convicto a fé não faz sentido; é como explicar o som para um sujeito que nasceu surdo, ou um parto para um que nasceu homem. É uma percepção tão profunda que não é atingida pela razão, seja para comprová-la seja para expor sua falsidade. Por esta razão eu não entro em debates racionais sobre algo que não se estabelece sobre a razão. Já as consequências da fé – a imposição de seus valores, as interpretações viciosas de textos sagrados, as proibições ligadas ao estrato que a sustenta na cultura (o patriarcado), etc – estes me dizem respeito como cidadão, pai, avô e até como médico. Todavia, a fé dos outros (ou sua falta) não me diz respeito.
Eu perdi a vergonha da minha fé; saí do armário sem pudor algum.
A ideia de que um sujeito seja burro, ignorante ou incompetente pelas suas crenças é totalmente contrária à minha ideia de que “a crença vem de um outro lugar, e não do seu universo racional“. Para mim sua queixa – que considero válida e justa – tem o mesmo valor de um preconceito que eu escutei por muito tempo sobre os homossexuais. Dizia-se deles serem mais “inteligentes“, “sensíveis“, “doces” ou “frágeis“. Basta olhar uma briga de travestis (entendidos também aqui como homossexuais) para desmontar esta visão essencialista. Os gays são tão idiotas quanto os heterossexuais, e tão amáveis, carinhosos, inteligente, sensíveis ou brutos, apenas porque a orientação sexual não tem NADA a ver com isso.
O mesmo com ateus e crentes. Conheço ateus tolos e cristãos geniais e vice versa (apesar de conhecer mais ateus geniais do que o oposto, mas esta é uma questão cultural). Misturar elementos cognitivos com a fé é um preconceito e uma burrice.
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