Tecnocracia

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Muitos amigos – em especial os liberais de direita – apregoam que a administração pública seja entregue aos técnicos, pessoas que “conhecem profundamente seu trabalho”, seja ele a saúde, a administração, a defesa, a aviação, etc. Assim .. médicos para o Ministério da Saúde, banqueiros para a economia, administradores para a Fazenda, militares para a segurança, advogados para a justiça. Em outras palavras, “tecnocratas que não se deixam contaminar pelo cheiro do povo“. Viram que eu disse médicos? Porque não enfermeiros? Ora … porque na tecnocracia vale o poder e a visão que os poderosos desejam ver implementada.

Os que assim se posicionam pensam a coisa pública como sendo uma máquina que se pode ajustar, da mesma maneira com um mecânico arruma um automóvel. Esse é o erro típico da direita positivista e ingênua: a incapacidade de ver a sociedade como algo mais complexo do que uma máquina. Um estado, dos menores municípios aos conglomerados de países, é um organismo composto por seus inevitáveis choques e pressões, o que extrapola a simplicidade de um mecanismo sem vida. Um estado é um corpo animado, onde nós somos as células. O erro dos positivistas é imaginar haver uma forma “certa” de administrar e gerenciar estruturas complexas como os governos, como se fossem máquinas sem vida. Isso é impossível, em especial a tarefa de apaziguar seus infinitos conflitos.

Uma escolha política é apenas procurar alguém com a mesma visão política de quem chegou ao poder. Como, porque, onde e quanto investir em uma determinada pasta ou região. Isto é completamente diferente do conceito de CONCHAVO. Política nada mais é que a arte de gerir o bem comum. As escolhas precisam ser políticas nos altos escalões, podendo ser meramente técnicas nos baixos. Até um diretor de hospital precisa ser político, mas o chefe do bloco cirúrgico pode ser técnico. Afinal, ele apenas receberá as ordens e as cumprirá da melhor maneira possível.

Pobre do Brasil se for entregue aos “técnicos” e infeliz de qualquer país que despreze a política como comandante suprema das aspirações do seu povo.

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Religião, por quê?

bolsonaro

Ao ver ontem as imagens do batismo de Bolsonaro na Palestina – esse é o verdadeiro nome daquele local – eu fiquei me perguntando qual o real sentido das religiões tradicionais na vida atual. Pergunto isso porque no cenário contemporâneo não há ninguém mais afastado dos valores cristãos – que podem ser sumarizados no Sermão da Montanha – do que as figuras públicas que explicitamente abraçam a religião, como uma bandeira ou uma atividade lucrativa.

Sou cercado de ateus e agnósticos no meu cotidiano, e de algumas pessoas claramente crentes e devotadas a uma filosofia religiosa. Entre elas não consigo perceber nenhuma diferença de caráter ético ou moral. Meu filho é agnóstico e minha mulher é espírita, a entre eles só vejo posturas que valorizam a moralidade e a ética. Nenhuma atitude deles revelaria qual dos dois é o “crente”. Que diferença faz chamar um sujeito nascido há dois mil anos de “Mestre” ou acreditar mas forças da natureza e na importância da fraternidade na prática?

Poucas pessoas se distanciam mais das palavras de Jesus do que Bolsonaro, Malafaia, Feliciano, Everaldo, Edir Macedo e toda essa turma gigantesca de vendilhões do templo e mercadores de indulgências. Não é a toa que se postam junto às facções mais reacionárias da política, as do “boi” – os latifundiários donos de terra – e as da “bala” – os que desejam pena de morte (para pretos e pobres, como sempre) e diminuição da idade penal.

Qual o sentido de mantermos estruturas gigantescas e ineficientes como as grandes religiões se elas são totalmente incompetentes para estimular o pensamento crítico, o crescimento da consciência (social e de si mesmo) e a reforma íntima dos que dela se aproximam?

O batismo de Bolsonaro, teatro bufo retratando uma tragédia nacional, apenas demonstra que as religiões falham espetacularmente em sua tarefa essencial de modificar o homem em direção aos valores superiores da fraternidade e da justiça. Uma farsa, uma mentira e um engodo social, que atinge apenas desesperados; ou espertalhões em busca de holofotes.

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Telefonema

celular roubado

Minha filha foi novamente assaltada e teve o celular roubado. Estava na passeata contra o golpe porco e sórdido que nosso país sofreu quando foi abordada por um jovem com uma faca que lhe solicitou o celular. Como ela é uma pessoa inteligente, não reagiu e o entregou.

Por uma mistura de curiosidade mórbida e a ilusão de fazer uma negociação qualquer liguei para o número dela logo após saber do roubo, e quem me atendeu foi o próprio ladrão. Disse a ele que sabia que ele havia roubado o telefone da minha filha. Ele deu uma risada com um linguajar super “bagaceiro” e me disse: “Ah meu, a mina deu mole, azar né…” e desligou.

Para minha surpresa hoje pela manhã ele me devolveu a ligação. Titubeei antes de atender, mas resolvi pagar para ver. Ele iniciou a conversa com um papo muito bobo, em um lugar onde parecia estar rodeado por uma galera fuleira. Iniciou a conversa dizendo:

– O seu merda, por que me ligou ontem? Eu vou aí na tua casa e vou te encher de bala. Vai te f* seu idiota. Tu vai ver o que vou fazer contigo”.

Senti o clima de deboche ao redor dele mas resolvi não aceitar o jogo. Respondi com toda a calma.

– Só liguei ontem porque você roubou o telefone da minha filha. E você não vai me pegar coisa nenhuma. Você é um ladrão de celular que ataca meninas; não ia se arriscar comigo. E eu não tenho medo de você.

Eu vi que ele ficou brabo, e os amigos ao redor começaram a gritar. “Filho da p*, otário, vai tomar no c*…“

Expliquei a eles que me xingar não faria diferença alguma; isso não me atinge e sequer me irrita. Falei ainda que me agredir era inútil, mas fui duro com ele:

– Escuta cara, você roubou um celular velho. Na sua mão isso não vale nada. Vou bloquear em minutos e você vai ganhar talvez 100 reais por ele no mercado negro. Entretanto, se você continuar assim em 10 anos só existem 3 possibilidades: vai estar preso, morto ou ainda estará roubando celular para ganhar míseros 100 reais, correndo o risco de apanhar, ser linchado ou preso. Tem certeza que esse é o futuro que você pensou para si mesmo?

Ele interrompeu sua fala debochada e arrogante. Percebeu que os xingamentos não me irritaram e que não poderia se divertir me ameaçando. Tentou me dizer que eram mais de 100 reais que conseguia, e que fazia isso porque tinha que sustentar seu vício, o que é uma desculpa usada por todo tipo de adito: das drogas aos remédios, bebidas ou cigarro. Terminou seu curto discurso com um outro clichê previsível: “Essa sociedade não me dá outra possibilidade. Não tenho alternativa“.

Sabia que ele usaria essa desculpa fácil, mas também entendia que não poderia responder um clichê batido com outro pior.

– Você tem razão ao dizer que essa sociedade é injusta e não lhe dá oportunidades. Também parece claro para mim que a sociedade olha de maneira diferente para você e para a minha filha. Mas você pode sair desse jogo perverso. Existem, sim, alternativas para criar uma vida digna. Roubar pessoas dá essa sensação passageira de ser malandro, esperto e ter “vencido” os “manés” pela força. Mas basta você ser humilhado numa delegacia para ver que isso é uma ilusão, que o mané é você mesmo e que o seu destino é ser tratado como traste em uma cadeia abarrotada. É isso que você quer para você? É essa a sua resposta para uma sociedade injusta? Acha que o roubo desse telefone prejudica a minha filha mais do que você? Olha meu, você está enganando. Quem foi roubado foi você.

Ele insistiu nas desculpas manjadas, numa derradeira tentativa padronizada e estereotipada de justificar seu crime.

– Roubei o celular para pagar meu aluguel, disse ele.

– Nada justifica ameaçar uma menina para roubar um celular velho. Entenda… não tenho raiva de você. Em termos econômicos, isso não fará diferença alguma para a minha vida, e nem para a minha filha. O que a gente perde mesmo é a confiança nos outros, aumentando nossa sensação de insegurança. Minha tristeza é ver um jovem ser enganado pela ilusão de que roubar um celular pode lhe trazer alguma coisa boa na vida. Isso sim é triste.

– Bem, desculpe qualquer coisa. Eu realmente roubei, mas…

Ele não sabia o que dizer. Aliás, que poderia ele falar diante do que fez?

– Meu amigo, não se lamente. Pense apenas no que eu lhe disse. Como vê sua vida no futuro? Seja feliz, siga sua vida. Abraços e boa sorte.

Ele se despediu de forma sincera.

– Ok. Um abraço para sua família e desculpe o transtorno.

Dito isso, desligou.

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Golpe

golpe2016

O GOLPE contra a democracia foi político, jurídico e MIDIÁTICO. Teve a participação MACIÇA da MÍDIA fazendo uma fantástica propaganda contra Dilma e o PT exatamente porque eles se contrapunham aos LADRÕES famintos da política nacional. E vocês da DIREITA caíram como PATOS – aliás, o símbolo da FIESP era para vocês – porque o GOLPE recolocou os donos em seus devidos lugares. Agora não se investiga mais nada, PF está amordaçada, o juiz Moro pede a “comunhão nacional e o desarmamento dos espíritos”, Aécio está livre das acusações, Cunha será perdoado, e as raposas tem a chave do galinheiro.

Acabou tudo seu tolos. Uma burrice lesa pátria, liderada por vendilhões pagos por multinacionais, como Kim, um presidente informante dos Estados Unidos, e composta por personalidades doentes como Lobão, Janaína e o Alexandre Frota. Uns sujeitos idiotizados comandando ingênuos hipnotizados pelas campanhas da TV. Gente que acredita na Friboi, nos aviões do Lula, nos pedalinhos, no Triplex e em todas essas afirmações que NUNCA foram comprovadas. Tiraram Dilma – uma mulher reconhecidamente honesta – do poder para colocar sujeitos reconhecidamente desonestos e com contas a ajustar com a justiça. Temos um presidente inelegível!!!! Isso é inédito, e gravíssimo!!!

Cara, isso é uma vergonha. É triste ver como a PROPAGANDA manipula as mentes de pessoas que não conseguem enxergar 1cm a frente do seu nariz. Pior ainda: trabalhador pobre festejando por ser roubado e tratado como escória.

Aqueles que ainda resistem e apoiam a legalidade do governo golpista de Temer serão reconhecidos, dentro de alguns poucos anos, como os mesmos que acreditaram nas boas intenções de Stálin, nas ideias liberais de Bush ou nos valores morais do golpe de 64. As palavras de desprezo pela democracia – duramente construída – serão varridas para o lixo da história, e isso virá mais cedo do que pensam. O fim da CGU, da LavaJato, a anistia para Aécio e o provável perdão negociado de Cunha mostrarão a tolice imensa de quem acreditou no “combate à corrupção“. Para os “libertários“, que para mim são as formigas que desejariam ser tigres e destruir a todos em nome do que chamam “liberdade”, restará apenas a raiva pela traição dos que agora usurpam o poder.

Mas quando a desilusão chegar, e os mesmos que agora festejam perceberem que a casa está caindo, a resposta que os golpistas darão eu já antecipo desde agora:

“O que? Está bravo? Mas não fiz promessa alguma, não fui votado, não tenho compromisso algum com vocês. O que esperavam? Fidelidade ao meu programa, às minhas “promessas de campanha”? Que campanha, que eleição? Eu não cheguei aqui pelo voto, seu tolo!! Eu me tornei presidente com 1% de intenção de votos. Sou provavelmente o presidente mais rejeitado do mundo!! Portanto, chega de mimimi e nos assistam fazer o governo que NOS interessa. Ah, e obrigado pelas paneladas, seus trouxas“.

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Ofélia

Ofélia (2)

Conversa com Ofélia no MSN

Ofélia: Em que cidade você se encontra?

Ric: Que eu me lembre havíamos nos despedido, e você disse que me encontrar tinha sido um “equívoco”. Portanto, um equívoco em Lisboa, na Austrália ou no Rio, que diferença faz?

Ofélia: É que não estou conseguindo saber de onde podemos ter nos conhecido

Ric: … continua sendo um equívoco

Ofélia: Você disse que o adicionei, eu não me recordo do seu rosto

Ric: Você deve perguntar isso a você mesma, pois foi VOCÊ quem adicionou

Ofélia: Creio que fiz confusão, só pode ser

Ric: Ok. Mais uma vez…. te desejo boa sorte

Ofélia: Desculpe estar sendo incômoda

Ric: Não me incomodas…  tudo de bom e um ótimo fim de semana

Ofélia: Você acredita em acasos?

Ric: Não; acredito em causalidade, e não em “casualidade”

Ofélia: Estou procurando dar sentido ao ocorrido

Ric: Procure dentro de você, no universo complexo das suas motivações

Ofélia: Márcia é você? Só pode …

Ric: ???? Márcia? Credo. Boa sorte e bom trabalho, seja ele qual for

Ofélia: Sou arquiteta

Ric: Bons projetos para você.

Ofélia: Bom atendimento no PS para você

Ric: Obrigada querida. Puxa… levou tempo até você descobrir que era eu. Quase te peguei, né?

Ofélia: Que maneira estranha você tem de dialogar

Ric: É verdade; estranha, complicada, incisiva e, por vezes, dilacerante

Ofélia: Você está em uma fase negra, né?

Ric: Sim, problemas com marido, filhos… você sabe como é, e conhece bem a minha história

Ofélia: Gente, sem palavras.  És maçom?

Ric: Como poderia ser maçom sendo mulher? Você não sabe que esta ciência secreta é vedada a nós, mulheres?

Ofélia: Em que mundo você vive? Eu sou maçom. Existem lojas mistas

Ric: Eu e Platão vivemos no mundo das ideias. “Lojas mistas” é coisa sem aceitação. Modernismos de alguns poucos, sem representatividade

Ofélia: você demonstra muito conservadorismo

Ric:Eu não sou conservadora, a maçonaria é que é

Ofélia: Maçonaria não é assim

Ric: Meu marido é maçom, você sabe disso

Ofélia: Você frequenta apenas jantares?

Ric: E os encontros também…

Ofélia: Que chatice, né? É maçante

Ric: Maçom, maçante…. a palavra “maçom” deve ter surgido daí.

Ofélia: Você tem humor, maravilha, seria interessante tê-la em nossa loja.

Ric: Quem sabe; se o meu marido deixar

Ofélia: Você só faz o q seu marido permite?

Ric: Só… é da minha religião, você sabe

Ofélia: Qual sua religião?

Ric: Sapratista

Ofélia: De religião sou leiga

Ric: Na minha religião o marido manda em quase tudo, mas as mulheres podem determinar o tamanho das melancias e a qualidade das manteigas

Ofélia: Você só pode estar brincando comigo

Ric: … e podem comprar sapatos (sem cadarço) aos sábados, por isso a religião chama-se “sapratista“, que mistura as palavras “sábado” e “sapato”…

Ofélia: Sua mente é criativa

Ric: As religiões são criativas

Ofélia: Neste ponto concordo com você, muito criativas em criar ilusões. Você deveria pensar em escrever

Ric: Mas a nossa religião é um avanço da epistemologia e da metafísica. Acreditamos num Deus gay, portanto ele é soberbo e altivo

Ofélia: qual sua idade?

Ric: 49

Ofélia: Já era tempo de ter descoberto que somos livres para pensarmos e agirmos. Nenhuma religião ou pessoa (marido) tem direitos sobre você.

Ric: Por certo

Ofélia: Se você está nisso é porque gosta e permite

Ric: Mas fui eu que escolhi esta religião. Porque as escrituras apontam neste sentido, e a verdade está na palavra de Deus

Ofélia: Creio que já passou da hora de você acordar para o mundo real e você interpreta errado, com certeza

Ric: E você interpreta de forma certa, é isso? Quem te garante isso?

Ofélia: Nenhum Deus quer alguém escravo, amiga. Ou você é tapada ou quer se passar por tal

Ric: Eu não sou escrava… sou uma odalisca do Senhor dos Universos

Ofélia: Seu marido deve ter dindim e você está mal resolvida. Deveria se tornar voluntária. Com certeza faria bem ao seu espírito.

Ric: Mas eu SOU voluntária

Ofélia: Nem vou perguntar em quê.

Ric: Porque você resolveu me agredir? Eu te fiz algum mal?

Ofélia: Querida. Você não desenvolve diálogo. Você tem problemas de comunicação.

Ric: Você é que não consegue se comunicar comigo. Fica falando de maneira soberba, como se fosse a dona da verdade.

Ofélia: Senhora !!

Ric: Eu apenas falei da minha crença e da minha fé

Ofélia: Não existe dona da verdade

Ric: Então não se coloque neste lugar !!!!

Ofélia: Visto que a verdade pode ser compreendida por diversos ângulos.

Ric: Mas você parece só ver o seu.

Ofélia: Eu venho procurando desenvolver assuntos de maneira a compreender de onde possa ter surgido seu MSN…

Ric: Minha flor; você me adicionou !!!

Ofélia: Obrigada pela flor

Ric: Talvez estivesse querendo falar com uma amiga, desabafar

Ofélia: Isso você expôs no inicio

Ric: …ou um lado lésbico seu estivesse aflorando. Sem preconceitos. Tenho um irmão meu que é lésbico

Ofélia: Eu não preciso de amiga para desabafar, para isso existe profissional neste quisito

Ric: Meu irmão fez cirurgia de troca de sexo e agora só transa com mulher. Eu acho que ele é meio pirado até. Mas eu respeito Katielle (antes ele se chamava Afonso). Bem, eu não tenho esse quesito na minha vida

Ofélia: Definitivamente não sei quem você possa ser

Ric: Tive um tempo, mas agora ele é um ex-quisito

Ofélia: Não conheço seu marido, assim sendo, boa diversão no que esteja fazendo

Ric: Igualmente amor

Ofélia: Deletado está

Ric: Beijos nas crianças

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Aborto

feto

Tenho profundo respeito pela temática do aborto e o considero um dos temas mais importantes e emblemáticos no que diz respeito ao empoderamento das mulheres e para a conquista do protagonismo feminino.

Mas debater este tema me produz imenso desconforto…

Desconforto me descreve, por isso nunca debato abertamente este tema. Peço inclusive que as pessoas que são a favor da humanização do nascimento não tragam essa pauta para os debates. Ela é tão poderosa, e mexe tanto com as emoções, que muitas vezes o movimento pela humanização do nascimento fica eclipsado pelo debate da descriminalização do aborto.

É claro que sou contrário ao aborto, mas quem seria a favor?

Prefiro não debater abertamente a questão do aborto, e por isso que peço que as pessoas que são a favor da humanização do nascimento não tragam essa pauta para os debates. Ela é tão poderosa, e mexe tanto com as emoções, que muitas vezes o movimento pela humanização do nascimento fica eclipsado pelo debate da descriminalização. Eu acho que os congressos e os simpósios de humanização do nascimento deveriam evitar discutir uma temática tão arrebatadora como o aborto. Existem fóruns especiais para isso, e quando misturamos estes temas eles geram muita divisão. No movimento de humanização do nascimento existem defensores dos dois grupos: contra e a favor da legalização. Se nós incentivarmos que a humanização do nascimento se vincule a um deles perderemos pessoas que poderiam estar ao nosso lado mas que se afastarão pela questão do aborto.

Nos Estados Unidos, por exemplo, uma parte considerável das ativistas são cristãs. isto é: são pró-vida. Seria desnecessário e contraproducente estabelecer que os partidários da humanização do nascimento tivessem que se vincular a uma das correntes “pro life” ou “pro choice”. Como eu disse, tenho grande admiração por quem carrega esta bandeira, mas este tema é grande demais para nós, e pode produzir uma divisão desnecessária se ocupar tempo demasiado nos nossos questionamentos.

Entretanto, nada impede que cada um de nós carregue as bandeiras que quiser. Eu, por exemplo, defendo a Palestina Livre e o fim da ocupação, mas não aceitaria que esse tema fosse debatido em um simpósio de parto humanizado, mesmo sendo de imensa importância e estar vinculado com a saúde das mulheres que sofrem no cerco a Gaza.

O problema é que sou inexoravelmente a favor da vida e falar de sua terminação é desconfortável, por mais que eu apoie a descriminalização do aborto e tenha esperança de ver as mortes femininas evitáveis diminuírem com a sua implantação. Respeito quem faz do aborto livre uma bandeira feminina, mas não gosto de debater este tema, até porque a maioria dos argumentos de ambos os lados são inúteis e despropositados, em especial quando tentam produzir o convencimento de alguém que não aceita ser convencido. Por isso que insisto que “a luta pela descriminalização do aborto não pode ser religiosa ou ideológica, mas política. Esta é uma luta que se vence pelo convencimento da maioria e não pela conversão dos opositores”.

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Razão

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Nosso erro frequente ao debater temas difíceis como aborto ou humanização do nascimento é tentar usar a racionalidade contra argumentos surgidos da irracionalidade. É o caso de alguém tentar demover o outro de uma crença que se estrutura sobre o desejo, e não sobre a razão. É nesse ponto que os debates sobre o aborto emperram e não prosperam. A questão do aborto, para além dos conceitos, é uma questão POLÍTICA. De pouco ajudam as pesquisas e os estudos diante da negativa em reconhecer sua validade. O mesmo ocorre com as questões relativas à humanização do nascimento, em especial o tema do “local de parto”; aqui também o que vai valer é a maturidade da cultura em aceitar elementos da ética e dos direitos reprodutivos, acima de questões médicas

Acreditar que a razão e a ciência são forças capazes de iluminar mentes obscurecidas pela ignorância é colocá-las em uma posição para a qual não foram feitas. A verdade da ciência só pode frutificar quando existe um terreno cultural que a faça crescer. Sem terreno adequado a semente da verdade científica não germina; enfraquece, definha e morre. A ciência é incapaz, por si só, de modificar a nossa compreensão do mundo, mas é uma excelente ferramenta para consolidar as decisões e consolidar os caminhos definidos.

A descoberta científica de que o cigarro produz câncer não eliminou prontamente seu uso. Não foi suficiente expor os danos causados pelo seu uso; era preciso que estas verdades entrassem no coração das pessoas. Entretanto, tais estudos serviram de embasamento para as decisões políticas tomadas depois. A função da ciência é educativa; ela é uma juíza medíocre, mas uma ótima professora.

Não há debate com pessoas que desconhecem a perspectiva do outro. Não se debate, se educa. E do ponto de vista da política o que podemos fazer é mostrar e expor a nossa maneira de ver a realidade e esperar que mais pessoas sejam tocadas por nossa visão. Aprendi a duras penas que não adianta aumentar o volume para que um surdo escute.

O respeito pelas decisões soberanas das mulheres sobre seus corpos não virá a partir de descobertas da ciência médica, mas da mobilização política das mulheres em torno destes temas.

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Telas Mágicas

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Eu vejo a poesia, a literatura e a ficção em geral como as únicas máquinas do tempo que a mente humana foi capaz de criar até agora. Tais expressões da criatividade são pontes que criamos para o futuro, muitas vezes antecipando-o ou estimulando sua própria construção. Outras vezes a literatura, o cinema e a TV acessam o campo simbólico e traduzem o presente através de suas metáforas e simbologias, abrindo debates que muitas vezes sequer são explícitos, mas que a partir daí poderão se tornar.

Minha curiosidade com esta especial capacidade da literatura e do cinema surgiu quando eu analisava o seriado “Batman” da televisão dos anos 70 e fazia uma correlação entre os personagens da trama e a emergência do movimento gay americano.

Bruce Wayne é um homem maduro, rico e solitário que vive em uma mansão na cidade de Gotham, com seu criado Alfred e sua tia Harriet. Subitamente o coroa milionário convida para morar com ele um “pupilo” (que me faz pensar nos mecenatos gregos) muito mais jovem chamado Dick (um nome de duplo sentido em inglês). Os dois em verdade são Batman & Robin, que, quando a noite recobre Gotham City com seu manto de sombras, colocam “fantasias” e saem para insólitas aventuras.

Ninguém sabe da vida dupla de ambos. Por segurança eles a escondem de todos, menos do fiel ajudante Alfred, o mordomo. Alfred bem sabe o que se esconde por detrás do meramente manifesto. A “dupla dinâmica” tem muitos segredos inconfessos. Inúmeras cenas do seriado corajosamente insinuam a tensão erótica entre Batman e Robin, mas jamais de forma explícita.

Nesta análise da história a tia Harriet e sua ingenuidade representam a todos nós. Ela e incapaz de perceber o que verdadeiramente são os dois rapazes que moram em sua casa, da mesma forma como éramos cegos quanto à manifestação homossexual que muitas vezes estava ao nosso lado sem que a percebêssemos.

Batman & Robin (o da TV, o melhor e mais criativo de todos) é o mais fiel retrato de uma época especial da civilização: a abertura dos armários e o reconhecimento da infinita diversidade sexual humana. Os criadores da série perceberam, de forma consciente ou não, o movimento da cultura no sentido da aceitação de novas formas de relacionamento afetivo, e o aplicaram de forma magistral no vão que se estabelecia entre a “luta contra o crime” e a luta contra o “crime” – de não reconhecer a (nossa) sexualidade de maneira integral.

Pulando algumas décadas adiante me deparo com a fixação contemporânea na temática dos “zumbis”. Existem incontáveis filmes, variando do terror, drama e até comédia, em que os personagens principais são zumbis. Lembro até uma mega-série blockbuster de TV chamada “Walking Dead” que aborda exatamente o “apocalipse zumbi” e a invasão do planeta por estes seres disformes, famintos, frios, sujos e que se comunicam entre si com grunhidos. Eles são ameaças asquerosas à nossa vida, e o simples contato com eles pode nos contaminar e transformar no que eles são.

Ora, se acredito na ficção como antena de captação do campo simbólico da linguagem, o que teria para nos dizer esta metáfora da “invasão dos Zumbis”?

Não é preciso usar de muita imaginação, e aposto como não sou o primeiro a tratar do tema por este viés. Uma breve avaliação dos discursos de Donald Trump e uma olhada rápida nos noticiários europeus mata a charada em poucos minutos.

Quem são os “seres disformes, famintos, frios, sujos e que se comunicam com grunhidos” no mundo atual? Quem “infesta” as nossas cidades com a sujeira cultural e nos contamina com seus hábitos bizarros? Quem são os seres que nos ameaçam com sua presença e cuja mordida pode nos transmitir a mesma aberração que eles trazem em seus corpos maltrapilhos?

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A ameaça são os imigrantes e refugiados.

Seus grunhidos arábicos ou castelhanos invadem nossa cultura europeia e branca ameaçando a supremacia de nossos hábitos e valores. Sua pele é invariavelmente “suja”, escura, e contrasta com a alvura de nossa cútis “superior”. Seus costumes bárbaros nos causam estranheza ou nojo.  Quando na TV, em algum documentário, não parecem tão ameaçadores, mas quando andam em bandos, falando palavras desconexas perto de nossas casas, são invasores perigosos. Pior… podem transformar alguém da nossa própria família em um “deles”. Por isso é preciso proteger os seus, cuidar para que os zumbis não se aproximem e os convertam no que eles já são.

Os zumbis contemporâneos aparecem como ficção para que possamos olhar para estas emoções sem o constrangedor (para alguns) sentimento de xenofobia e preconceito. Se é desumano e cruel desprezar imigrantes famintos que fogem de guerras estúpidas que nós mesmos criamos em seus lares, podemos ao menos odiar a desprezar sua vertente ficcional que invade nossas cidades e ameaça nossos valores e conceitos.

Batman e Robin apaixonaram uma geração porque havia uma mensagem instigante criptografada em seu núcleo,  para quem tivesse olhos de ver. Os zumbis só fazem sucesso porque eles existem de verdade.

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Feminismo e Humanização

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Humanização do nascimento e feminismo são movimentos semelhantes e caminham em paralelo na trilha das ideias. Ambos são majoritariamente liderados por mulheres, contra culturais, contra hegemônicos, plurais e atacam o coração do sistema de poder patriarcal. É óbvio que encontraríamos exaltados(as) em ambos os movimentos, na medida em que os discursos de ambos ferem a estrutura máxima que sustenta a sociedade patriarcal. Portanto, é impossível imaginar que uma proposta de tal magnitude não produza radicalismos e visões extremistas. Porém, como em qualquer movimento social, os extremos não podem ser a voz mais ouvida, e nem a cara mais presente.

Para cada “feminazi” existe uma “diferentona” comedora de placenta, mas os conservadores – machistas e cesaristas – procuram encontrar a extrema esquerda de cada movimento e colocá-la como a sua representante oficial para assim desmerecer toda a proposta, classificando-a como radical.

Esse é o caminho natural de qualquer proposta social transformativa. Não há como fugir desse modelo, pois só com luta é possível quebrar as fortalezas que sustentam um paradigma. Cabe às feministas provarem que sua luta é pela equidade e não pela vingança, assim como cabe a nós do movimento de humanização a tarefa de mostrar a todos que não somos contrários a tecnologia e nem aos profissionais no topo da escala de poderes, mas que somos movidos por ciência e por uma observância fiel aos direitos humanos reprodutivos e sexuais das mulheres em benefício de mães e bebês.

Não há como criar uma mudança social de tal magnitude sem a energia – por vezes descontrolada – que brota naturalmente daqueles que lutam por ela.

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Polícia, para quê polícia…

policia porto alegre

“Sempre que a resposta das forças públicas se aproxima da selvageria que tenta combater é o momento de questionar se, para confrontar bandidos, não estamos ficando parecidos demais com eles.”

Com essa lógica do “bandido bom é bandido morto” não é possível debater. Mas o resultado óbvio desse das ações brutais de uma polícia que JULGA quem merece ou não viver é que um criminoso não terá nenhuma razão para se entregar daqui para diante. Se for oferecida a ele uma chance de desistência ele vai negar, e combaterá até a morte, pois sabe que os policiais não são dignos de confiança.

O mesmo aconteceu no ônibus 174 no Rio: uma execução de alguém desarmado e indefeso. “Ah, mas ele sequestrou pessoas”. Não importa, não cabe à policia julgar. Aqui em Porto Alegre houve o “Caso do Homem Errado”, também executado pela polícia, ou o menino que levou um tiro de um brigadiano em Novo Hamburgo. E o caso Amarildo no Rio?

Casos assim vai aos poucos deixando a polícia com cara de bandida. Mas tudo bem… são bandidos que estão do nosso lado, certo? Errado… quando esse poder não tem limites na lei o resultado é o autoritarismo e por eles todos pagam. Mais cedo ou mais tarde.

Hoje mesmo muitas associações saíram em defesa dos policiais envolvidos, e fiquei sabendo que foram inclusive homenageados (o que em outro país seria absurdo). Eu também defendo os policiais militares porque reconheço a bravura e a coragem que eles tem para defender a sociedade, mas acho extremamente perigoso quando pessoas acham uma execução a coisa mais normal do mundo. Ninguém quer morrer por bandidos, e ninguém defende que policiais não reajam, mas para isso existem regras e protocolos a serem seguidos. Atirar num sujeito desarmado, à queima roupa, com as mãos atrás da cabeça ultrapassa todos os limites de civilidade. Creio que a sociedade deveria se questionar sobre os limites da ação da polícia, sob pena de criar uma policia “acima da lei”.

“Cria cuervos y ellos te comen los ojos”

Por isso eu acho que as ações policiais, mesmo quando são praticadas para nos defender e tem sucesso, não podem extrapolar os limites legais. Não podemos nos associar à barbárie. Duvido que um comandante de qualquer polícia discorde do que eu disse. Pode até não agir assim, mas concorda. Discordar disso é oferecer às forças policiais a autoridade para julgar quem deve e quem não deve sobreviver aos confrontos. E isso é inaceitável em uma democracia.

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