Os Humanismos

Sobre a criação de uma nova comunidade de “Parto Humanizado” eu gostaria de tecer alguns comentários, que traduzem tão somente a minha visão pessoal, e não representam qualquer instituição ou grupo relacionado à humanização do nascimento.

Primeiramente, a humanização do nascimento não tem donos. Trata-se de um movimento internacional de resgate dos valores femininos do nascimento que foram eclipsados pela entrada do paradigma tecnocrático na cultura. O nascimento humano, por força das falhas que esse mesmo paradigma apresenta, acabou se tornando excessivamente artificial, frio, objetual, coisificante, incompleto e – por vezes – violento. Qualquer que seja a definição oferecida a esse conjunto de ideias e atitudes, isso não significa que qualquer grupo possa se apoderar de suas propostas, transformando um movimento de revolução social em um catecismo dogmático e rígido, que se nega a transformar-se pela constância do choque de propostas e discursos diversos.

Isto posto, creio ser importante aclarar a minha definição de parto humanizado. Apesar do uso confuso, e por vezes claramente equivocado desse termo, ainda acho útil a sua utilização. O termo “humanizado” se coloca ao lado da corrente de pensamento humanista, herdeiro do Iluminismo do século XVIII. O Humanismo é a filosofia moral que estabelece o HUMANO como elemento primordial na cultura. É uma perspectiva que se encontra em uma grande variedade de posturas éticas que atribuem a maior importância à dignidade, aspirações e capacidades humanas, particularmente a racionalidade. Esta corrente de pensamento vem se contrapor ao teocentrismo da idade média, que ignorava as capacidades humanas de adaptação e transcendência e colocava em Deus as diretrizes e o destino da humanidade.

Entre os humanistas se inclui Erasmus de Roterdã.Assim sendo, minha opinião é de que o movimento de humanização do nascimento se assenta sobre um tripé conceitual, que se constitui dos seguintes elementos:

1- O protagonismo restituído à mulher, sem o qual estaremos apenas “sofisticando a tutela” imposta durante milênios pelo patriarcado.
2- Uma visão integrativa e interdisciplinar do parto, retirando deste o caráter de “processo biológico”, e alçando-o ao patamar de “evento humano”, onde os aspectos emocionais, fisiológicos, sociais, culturais e espirituais são igualmente valorizados, e suas específicas necessidades atendidas.
3- Uma vinculação visceral com a Medicina Baseada em Evidências, deixando claro que o movimento de “Humanização do Nascimento”, que hoje em dia se espalha pelo mundo inteiro, funciona sob o “Império da Razão”, e não é movido por crenças religiosas, ideias místicas ou pressupostos fantasiosos.

Na minha visão esses são os constituintes fundamentais para entender as propostas de humanização. Em primeiro lugar está o protagonismo restituído à mulher, sem o que estaremos apenas mascarando as condutas e mantendo as mulheres atreladas a um modelo que não as reconhece como capazes de dar conta dos desafios da maternagem. Depois, a visão ampla e transdisciplinar do evento, retirando do parto a imagem de evento biológico ou médico, mas alçando-o ao patamar de “evento humano”, onde além da medicina outros saberes poderão dialogar e oferecer sua contribuição. Por fim, a vinculação “umbilical” com a MBE – Medicina Baseada em Evidências – para que todo e qualquer procedimento realizado sobre o corpo de uma gestante ou puérpera seja comprovadamente útil a ela e ao seu bebê, sem que outras considerações de ordem moral, religiosa, política ou econômica prevaleçam sobre a saúde de ambos.

Portanto, ainda creio que o termo “parto humanizado” possa ser usado, apesar das confusões. Todavia, se um dia perceber que esse termo está gasto e que já não auxilia mais na compreensão do que queremos transmitir, aceitarei de bom grado que ele seja trocado por outro melhor. Já debatemos “parto livre”, “parto em paz”. “parto digno” e muitos outros, mas nenhum ainda consegue mobilizar as pessoas como este, que até na propaganda governamental da Rede Cegonha já aparece.

Quanto à criação de grupos com esse nome, em especial um que foi criado alguns dias atrás e com milhares de participantes surgidos da noite para o dia eu acho que vale a pena fazer alguns comentários. O grupo se chama “parto humanizado”, mas as pessoas que o controlam não são explicitadas na comunidade. Sobre elas recai uma cortina de sombras e enigmas. Este grupo esconde-se por trás de um nome que as abrigaria de críticas. Entretanto, tal proteção acaba por desumanizá-las, colocando-as em uma posição pretensamente superior, acima das veleidades e falibilidades da carne. Pior: não se trata apenas do nome não aparecer; ele é mantido em segredo, com a desculpa de que “as pessoas que estão por trás não importam, apenas as ideias”.

Eu não vejo dessa maneira, muito pelo contrário. Quando alguém faz um comentário e a resposta vem de “parto humanizado” parece que é a IDEIA, o MOVIMENTO, o ENTE “parto humanizado” quem está respondendo, como se fosse um canal direto com as “formas perfeitas” platônicas, sem a intervenção da mente humana, por definição imperfeita e passível de erros. Quando se lê a resposta oferecida por “parto humanizado” imaginamos que ela será a perspectiva final, a resposta derradeira e com as palavras que não permitirão qualquer contestação. Pode-se encontrar publicidade de cremes e cafeteiras na página. A explicação é de que pertencia à página de uma das “donas” da comunidade, mas a verdade é que aparece nitidamente na página do Facebook, o que deixa a desejar do ponto de vista de debates livres e isentos de pressões de ordem comercial. Posts cortados, palavras cassadas, reclamações suprimidas e toda a sorte de censuras à livre expressão de ideias contraditórias e discordantes.

Não creio que seja essa uma boa maneira de levar adiante um debate livre e democrático sobre a forma como atendemos o nascimento através de uma perspectiva plural e aberta. Violência excessiva nas palavras das “moderadoras anônimas”, misturadas com escárnio e uma pretensa “postura superior”. As controladoras da comunidade parecem ter “contas a ajustar” com os movimentos outrora construídos sobre o tema. A ladainha de “proteção às mulheres que realizaram cesarianas” foi, obviamente, mais uma vez utilizada, como que a acusar as defensoras da humanização do nascimento de “cruéis” ou “insensíveis”. Essa história tem a mesma idade dos primeiros modelos de construção coletiva de suporte ao parto normal. Para cada linha escrita sobre a importância de preservar o modo mais natural possível de conduzir o parto, havia várias linhas de queixas contra a exclusão das cesariadas.

Ora, é muito fácil entender o que se passa. Muitas mulheres, identificadas com as mulheres que sofrem cesarianas, achavam que é inútil e doloroso demais tocar nessa ferida. Muitos de nós, os mais antigos nesse movimento, pensamos o contrário. É claro que crueldade e insensibilidade são nefastas e desnecessárias para a construção de um modelo centrado no protagonismo e na dignidade restituídas, mas também não faremos nada de produtivo calando-nos diante de tantas cirurgias mal indicadas no nosso país. O meio termo sempre foi defendido pelos grupos de apoio ao parto “natural”, mas a citação dessa falsa discordância já é uma acusação velada (e falsa) contra os defensores dessa ideia. Imediatamente depois de entrar na comunidade eu me despedi, desejando boa sorte e bom trabalho, mas expliquei que o modelo criado para os debates em nada sintonizava com minha particular visão sobre as formas cibernéticas de fomentar a discussão sobre a humanização do nascimento.

A revivescência de contendas – como a famosa “menos mãe” – fez com que muitos ativistas achassem que tal iniciativa provinha de históricos inimigos dos projetos de humanização do nascimento, tamanha era a falta de maturidade para o debate. Para finalizar, eu acredito que existem infinitos espaços para a discussão de um tema tão múltiplo e estimulante. O gestar, parir, maternar e amamentar são questões tão antigas quanto a própria humanidade e a nossa necessidade de debatê-las desnuda as falhas dos sistemas contemporâneos de assistência à mulher em reconhecer e trabalhar com as verdadeiras e profundas necessidades femininas de suporte e cuidado. Por outro lado, os debates para serem úteis e profícuos precisam ser abertos, democráticos e respeitosos. Mostrar a cara, dizer que é, receber críticas e absorvê-las, não revidar questionamentos com grosserias e não excluir os que não se alinham em um catecismo estático não são apenas normas de convivência; são determinantes para o sucesso de qualquer projeto que se pretenda longo e construtivo.

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As Benesses da Senectude

Quando meu pai passou dos 60 anos começou a usar uma expressão que apenas agora faz sentido para mim, na medida em que me aproximo celeremente desse desfiladeiro da terceira idade. Diante de uma atitude qualquer sua, que me parecesse estranha ou exagerada, ele explicava: “Tenho 60 anos. Tenho o direito de agir assim“.

Eu sempre achava que tal explicação era simplista demais. “Ora, pensava eu, a idade não pode justificar qualquer ação, como se a maturidade (ou a “melhoridade”) fosse um salvo-conduto para todas as condutas.” Entretanto, não se tratava disso. Suas palavras apenas refletiam um “direito adquirido” de ousar, de questionar, de criticar o que nos era imposto, de agir livremente, sem a imposição de regras que nos acostumamos a obedecer de forma acrítica. Ele continuou a usar essa expressão aos 70 e agora aos 80. “Posso reclamar, sim. Afinal tenho 80 anos e tenho esse direito“. Tal como a famosa velhinha que usa o chapéu roxo, ele pode reivindicar algumas concessões que são garantidas àqueles que ultrapassaram vários marcadores de sobrevivência. E foi ele quem me deu coragem para escrever sobre ela.

Elis Regina morreu quando ainda éramos crianças. Afastou-se desse mundo com 37 anos que, na minha perspectiva atual, é uma idade juvenil. Ela partiu exatos quatro dias depois do meu casamento. A alegria de casar com a mulher mais maravilhosa do mundo foi subitamente interrompida pelo anúncio do falecimento da maior diva da música brasileira. Gaúcha, porto-alegrense e gremista, Elis está no rol das maiores intérpretes da música brasileira de todos os tempos. Se soubesse da tragédia que se anunciava eu abandonaria a minha “lua-de-mel de pobre” e iria até São Paulo, entraria na sua casa, olharia em seus olhos e pediria: “Não nos abandone, por favor. Tu és a representante do que existe de melhor na música desse país. Nenhuma voz surgirá tão vibrante como a sua, e nenhuma música será tão intensa se não for cantada por ti. Não se vá, não se vá“. Inútil pensar no que eu faria, tantas foram as pessoas que se entristeceram com sua partida abrupta e extemporânea e manifestaram a mesma fantasia de resgatá-la do desvario daquele dia 19 de janeiro. Ela se foi, isso é um fato, mas sua música continua a embalar nossos sonhos.

Hoje ligo o som no carro e escuto Elis. Escapa do alto-falante, gira pelos bancos, rodopia e entra nos meus ouvidos. Sinto como se ela nunca tivesse partido, presente e vívida nas sonoridades inebriantes que me hipnotizam. Talvez agora, aos 50 anos, eu possa usar o mesmo argumento de meu pai e dizer: “Já passei de meio século de vida e agora tenho o direito de dizer: Poucas coisas são mais impressionantes do que o dueto Cauby Peixoto e Elis Regina cantando Bolero de Satã”. Escuto pela enésima vez a música e viajo no drama de uma paixão que se consome em um único dia; nasce fulgurante e morre dramaticamente na aurora de uma nova manhã. Enquanto desvio dos motoristas afoitos e desvairados imagino a gravação desse momento especial da música. Elis começa seu lamento dizendo:

Você penetrou como o sol da manhã
E em nós começou uma festa pagã
Você libertou em você a infernal cortesã
E em mim despertou esse amor
Atormentado e mal de Satã

Depois ela continua a nos envolver, dizendo da dor da separação inexorável, já na manhã seguinte, e nos fala da paixão como uma doença inoculada, aguda e incurável. Acusa sua amante de um feitiço destrutivo e doentio, pois que eterno em sua dor. “Você me plantou a paixão imortal e malsã, que me enraizou e será meu maldito final… amanhã.” E aí, quando a música repete os acordes e o som – por uma fração de segundo – parece desaparecer, eu posso ver diante dos meus olhos um enorme spot de luz se abrindo, varando a escuridão do palco e, saindo de trás das cortinas negras, aparece a figura bizarra, exótica e invulgar de Cauby Peixoto. Vestido com um indefectível smoking negro com abotoaduras douradas e balançando sua cabeleira negra e histriônica, ele abre sua inconfundível e poderosa voz de veludo e, sem dó, nos fuzila:

E agora me aperta a aflição
De chorar louco e só de manhã
É a seta do arco da noite
Sangrando-me agora
São lágrimas, sangue, veneno
Correndo no meu coração
Formando-me dentro esse pântano de solidão.

Eu sei que os jovens não vão entender, até porque nunca conheceram ao vivo estes luminares da música brasileira. Sei também que essa explicação soa para muitos como as palavras de minha mãe falando de Chico Alves ou Orlando Silva. Eu sei, eu sei… é um papo de velho, saudosista, cafona. Um texto com cheiro de mofo. Sei tudo isso. Mas tenho mais de meio século de vida. Posso dizer que, agora sim, já tenho esse direito.

A foto acima é a projeção de como estaria Elis se eu tivesse abandonado a minha lua de mel para resgatá-la… Mas, se querem entender o que estou falando, cliquem no link abaixo, escutem e me digam se não tenho razão…

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Futebol

Sim, sempre fui um apaixonado pelo futebol. Ontem fiquei sabendo de um colega que está abandonando os estádios, deixando de assistir partidas do seu time e devolvendo a carteira de sócio. Quando perguntado da razão para tal ele disse: “Não quero que meus filhos sejam influenciados pela violência, o “dinheirismo”, as maracutaias e a paixão irracional pelo futebol“. Uma bela atitude de um pai preocupado com o futuro de seus filhos. No meu caso, eu passei esse gen para a minha filha, que sofre como eu. Já meu filho, cartesiano, racional e agnóstico, a peste da paixão futebolística passou e não desenvolveu a doença. Seus anticorpos racionais foram efetivos para neutralizar o ataque do vírus pernicioso da paixão clubística.

Mas… há lugar, nos dias de hoje, para o futebol enquanto espetáculo de massa? Se entendemos o esporte de forma geral como um apaziguador testosterônico, um civilizador de batalhas e um amortecedor para a nossa natural propensão destrutiva, ele pode ser validado? Eu creio que sim… aliás, o futebol é o escoadouro de nossas frustrações, o lugar onde existe mais verdade e mais sinceridade na cultura ocidental. Ali, como no carnaval, abrimos uma porta para a expressão pura de nossos ódios, rancores, frustrações e traumas. Somos muito mais verdadeiros na arquibancada do que numa cerimônia de formatura ou entre os lençóis. No local sagrado dos embates do esporte bretão as pessoas se tornam naturalmente mais transparentes, porque se lhes oferece uma capa de proteção social. “Tudo bem, eu briguei no estádio. Bati num velhinho, mas tu vi a roubalheira do juiz para cima de nós?”

Quantas vezes eu e o meu irmão Roger vimos demonstrações claras e inequívocas de racismo na torcida que seriam inadmissíveis em outros contextos. Quantas vezes assistimos raivas, brigas, socos, voadoras e xingamentos que surgiam da explosão de emoções que confluíam para aquele momento. Nada mais livre e puro do que nossas mais profundas emoções encontrarem um canal de manifestação socialmente aceita. Mas, também é verdade que ali a paixão é mais cristalina, translúcida, quase infantil. Somos mais verdadeiros quando somos expostos às paixões primitivas. Ali aparece um pouco mais da verdade do sujeito. Todavia, brota dessa constatação uma dúvida: queremos de verdade que as pessoas sejam “sinceras”, “autênticas”, “verdadeiras” e “transparentes”? Eu creio que não… O processo civilizatório nos ensinou a mentir, respeitando o sentimento alheio. A civilidade, assim construída, nos oferece a hipocrisia como ferramenta fundamental de convívio. O brilhante filme “A Invenção da Mentira” – com Rick Gervais – deixou para mim essa realidade muito evidente…

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Juizes de Opala

Opalão

E se realizássemos, enfim, o velho plano do Roger Jones de que os juízes apitassem jogos de futebol a bordo de um Opalão rebaixado? Nada mais de testes físicos para a arbitragem, apenas teste de legislação, direção e baliza. Juízes apitariam com a buzina, claro. Os vidros do Opala seriam “fumê”, com película. Na lateral, vidros “bolha”. Bannerzinho de caminhoneiro na frente: “Dirigido por mim, apitado por Deus”. Imaginem um jogo em que o juiz vem “correndo” pela lateral e o zagueiro cabeceia a bola, devolvendo-a para o meio de campo, e o árbitro imediatamente dá um cavalinho de pau de 180 graus, e levanta 37 quadrados de leiva. Seria um espetáculo!!! Haveria torcida para as façanhas acrobáticas dos juízes aloprados na direção de “máquinas mortíferas”. Poderia ter “pit-stop” para o Opala, caminhonetes da Unimed para os atropelados (“se querem modernidade, teremos que pagar um preço”, diria Blatter, da FIFA) e as garotas estilo “fórmula 1”, de saiotes curtinhos e sorriso Kollynos. Cara, isso é a revolução tecnológica do futebol, o esporte do futuro !!!!

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Plata por un Corazón Eterno

*articulista especialmente convidado, Roger Jones*

Miguelita Hernandez Santa Cruz de la Santíssima Concepción é uma bem sucedida jornalista de Tegucigalpa, Honduras. E graças ao seu radiante talento e simpatia diante das câmeras, torna-se apresentadora do mais famoso programa de auditório da América Central: “Plata Por Un Corazón Eterno”. Todas as semanas, ela oferece um milhão de lempiras ao casal que demonstrar que o amor “vale a pena”.

Mas, curiosamente, nunca, durante anos, qualquer casal ganhou o prêmio.

Até que um candidato aparece no programa. Ele está sozinho e diz, com olhar desafiador: “Quero provar, Miguelita… que vale a pena.”A apresentadora gosta dele:

“Ok, ok ! vamos para mais um Plata Por Un Corazón Eterno ! uma salva de palmas para o candidato ! uhuuuuu ! mas… e quem é o seu par ?”

O candidato responde em tom macho e sedutor:

“Você, Miguelita.”

“Ahahah, eu? ah, que bonitinho… ei… tá falando sério? gente ! ele tá falando sérioooooooo! ai pára de me olhar assim! nah… não pode… eu estou aqui para me darem esperança, apenas… e… ai, gente! olha a ousadia do rapaz! uhuuuuu!”

A plateia adora a ideia do destemido candidato, e grita pra Miguelita:

“Aceita!! aceita!! aceita!! aceita!! aceita!!”

Aos poucos o semblante de Miguelita transforma-se. Diante de todos, deixa de ser a apresentadora descontraída e segura, expondo, com desconcertante veracidade, a face feminil do seu desamparo, da sua solidão e do seu desejo por amor. O sorriso televisivo dá lugar à expressão da mais profunda tristeza. E, com os olhos úmidos, silencia diante dos gritos da plateia e dos telespectadores de todos os recantos de Honduras.

O candidato, olhando para as câmeras, propõe as regras:

“Se eu provar à Miguelita que o amor vale a pena, abdico de receber um milhão de lempiras… pois me sentirei o homem mais rico do mundo… mas se não conseguir provar… eu… eu cometerei suicídio… aqui nesse palco, diante de vocês… pois a minha vida não terá mais nenhum sentido… eu quero apenas uma noite, Miguelita… a noite de hoje.”

A plateia volta a gritar:

“Aceita! aceita! aceita! aceita! aceita!”

Após longos minutos de gritaria e suspense, Miguelita, atordoada e com o olhar perdido, pede auxílio à produção:

“Por favor, tragam-me o pacote com um milhão de lempiras.”

Miguelita, séria e morrendo de medo, recebe o embrulho com as cédulas e oferece ao candidato. Mas ele recusa o prêmio:

“Eu quero você, Miguelita.”

“Não… leve o dinheiro… você me provou… são as regras.”

Desta vez a turba histérica grita para o candidato:

“Não aceita! não aceita! não aceita!”

Miguelita ignora o desejo de seu público:

“Tome o dinheiro… vale muito mais do que uma noite comigo.”

“Não, Miguelita… uma noite com você vale muito mais do que um milhão de lempiras… uma noite com você vale uma vida… vale a minha vida…”

Mais gritaria no ambiente. Miguelita está tão apavorada que volta a se defender em sua personagem. E fala ao povo:

“Ai, gente ! agora eu não sei!! Agora eu não sei se esse homem é perfeito ou se é um pateta!! ahahahahah!! Até quinta que vem para mais um… Plata Por Un Corazón Eterno!! uhuuuuu!! eeeeehhh!!”

A apresentadora se despede do público e abandona o palco. Apesar de ainda faltar mais de uma hora para terminar o programa.

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Violências Dissimuladas

O homem se distingue dos outros animais por ser o único em que a violência que pratica pode ser escondida, escamoteada e não percebida. Para um leão, um macaco, um rinoceronte, uma mordida é uma mordida, uma patada é uma patada. Já entre nós, ditos humanos, a violência pode ser praticada ao extremo sem que seja necessário levantar um dedo. As violências institucionais, principalmente no que diz respeito ao parto, se enquadram entre as “agressões invisíveis” nas sociedades contemporâneas. Pior: ao não marcarem o corpo elas se direcionam diretamente à alma, e lá, nos movimentos obscuros do inconsciente, elas crescem, se transmutam, se agrandam e ferem. Tal qual um cravo inserido na carne, as memórias tristes dos abusos, humilhações e maus tratos cometidos no nascimento permanecem por anos a gerar tristeza e ressentimento. “Violência no parto” é um dos piores tipos de agressão contra a mulher, pois as feridas que aí são geradas se mantêm até o fim da vida.

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Cyborg Fem

Minha tese, há muitos anos expressa, é de que a humanização do nascimento precisa “vazar” dos espaços conceituais que a contém. Necessitamos falar para outras plateias e públicos. Temos que expandir os horizontes do nosso discurso, oferecendo “molho de espaguete pedaçudo” para os consumidores que ainda não se deram conta da existência dessa iguaria.  

Tive uma experiência interessante em 2012: fui convidado a falar no CISQ – Congresso Internacional de Saúde Quântica, onde os palestrantes eram da área da física quântica (Dr. Amit Goswami – What the F* – estava lá), psicologia, fitoterapia, aromaterapia, homeopatia, entre outras áreas da saúde suplementar. Nesse congresso falei de partos num contexto mais abrangente, numa palestra chamada “Colapsos”, onde apresento uma visão ecológica do nascimento, mostrando a importância de tratarmos da questão em conjunto, com toda a sociedade, pois o extermínio da habilidade de atender o nascimento é seguida da natural extinção da forma humana de parir. Depois disso, o próprio gestar feminino se tornará uma exceção, fazendo com que o último laço que mantemos com a nossa espécie se perca. Será o surgimento do “Homo sapiens technologicus”, mas nada nos garante que ele será melhor do que a espécie que vem evoluindo nos últimos 5 milhões de anos.  

A resposta do público foi muito interessante. Pessoas que nunca haviam presenciado partos humanizados, ou escutado nossos pontos de vista, ficaram encantadas com essas ideias. Fui procurado por vários profissionais, de diferentes áreas, para conversar sobre o movimento de humanização do nascimento. Havia uma viva curiosidade sobre um tema ao mesmo tempo fascinante e desconhecido do público em geral. Percebi que existe um lapso, um espaço gigantesco de desinformação sobre o nascimento. Grande parte dessas pessoas avaliam o nascimento pela mídia televisiva, pelas imagens mundanas de gritarias, xingamentos, dor, isolamento e sofrimento. Sobre essa terra fértil em informações distorcidas é que se aplica a semente da cesariana dignificadora, limpa, esterilizada, pura e tecnológica.  

Costumo brincar que a sociedade (e não somente os médicos, que são apenas os porta-vozes de valores culturais) nos apresenta duas opções: A e C. A primeira é um parto violento, com elementos de objetualização e coisificação do corpo feminino, container inconfiável de um produto social – o bebê. Nessa opção usamos técnicas e artifícios há muito condenados pela boa prática médica, comprovadamente inúteis e até perigosos quando usados de rotina: episiotomias, kristelleres, enemas, tricotomias, jejum forçado e isolamento. Aí teremos os partos de “novela”, sempre violentos, sofridos, dramáticos e agressivos.  

A opção “C” é a cesariana, onde a data e a hora são escolhidas, assim como a conjunção astral, o local e a conveniência de todos, principalmente da equipe médica. Nessa opção não haverá gritos, impaciência, demoras, espera, angústia, medos e nem tampouco os rituais milenarmente conhecidos, como esperar as contrações ou a ruptura da bolsa, ligar para o profissional, ir para o hospital, aguardar a dilatação, etc. Não, nada disso se faz necessário. Ultrapassamos todos os rituais, todos os preparativos, toda a formatação psíquica milenarmente construída e retiramos um bebê que dormitava no claustro materno sem qualquer notificação de “aviso prévio”. A praticidade levada às últimas consequências. Um dos principais problemas é que a ritualização de nossas ações é uma das marcas mais importantes e essenciais da cultura. Aliás, não há cultura sem rituais, pois que eles desempenham um papel fundamental no desenvolvimento humano. Eles “mediam processos psicossociais reestabelecendo a coesão do grupo através da resolução de conflitos, mantendo a continuidade de grupo diante das perdas e adversidades e modificando o comportamento individual e grupal para criar coesão e harmonia” (Robbie Davis-Floyd & Charles Laughlin  – The Power of Ritual, a ser lançado em breve).  

Entretanto, continuamos a ver sonegada a opção “B”. Ela se esconde entre os gritos que nos vendem como inevitáveis no parto “normal” e as luzes ofuscantes que nos dizem serem imprescindíveis na cesariana. A opção “B” é aquela em que os valores da tecnologia não são desprezados, mas que se encontram sob o domínio do bom senso; cuja utilização só se faz quando os riscos inerentes de qualquer intervenção são menores do que as patologias encontradas no processo. Na opção “B”, temos os partos humanizados, que se sustentam numa tríade conceitual: o protagonismo restituído à mulher, a visão integrativa bio-psico-social-espiritual do evento e a vinculação visceral com a Medicina Baseada em Evidências. A opção “B”, síntese das teses digladiantes, continua a ser vista como um luxo, uma fantasia ou uma impossibilidade. Entretanto, essa opção é a única que nos oferece uma esperança de congregar o melhor de dois mundos: de um lado o respeito à nossa linhagem mamífera e aos processos psicológicos e sociais que construíram a humanidade como ela é, e do outro a tecnologia como ferramenta essencial para tratar dos casos que se afastam da trilha da fisiologia e se aproximam do caminho tortuoso da patologia.  

A supressão dos rituais em nossa sociedade pós-moderna tem como consequência possível – ou provável – a desestabilização dos valores sociais que a sustentavam. Destruir os rituais e processos psicológicos e sociais adaptativos criados para o nascimento de uma criança pode enfraquecer as estruturas de segurança elaboradas para o fortalecimento da relação amorosa entre a mãe e seu bebê altricial. Se nós sabemos que a estrutura psicológica de uma criança se assenta sobre o afeto recebido, na configuração edipiana primordial, como negligenciar estas questões no nascimento, onde tais elementos aparecem aos nossos olhos de forma crua, nítida e fulgurante? Colocar entraves nessa etapa da formação do psiquismo pode ter efeitos desastrosos, mesmo que eles se produzam de forma lenta, dissimulada e insidiosa.  

Que tipo de sociedade teremos quando nenhum bebê for trazido ao mundo pelo esforço de sua mãe? Que humanidade será esta em que nenhuma dor for sentida, onde anestesiaremos qualquer dissabor, onde nenhuma obra humana será regada pelo suor e pelas lágrimas de quem a produziu?   Humanizar o nascimento pode ser, para além das questões médicas e psicológicas, uma tentativa de salvar a humanidade de sua lenta desintegração…

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Nascer na Bulgária

Para quem quiser como é a assistência ao parto na Bulgária, o texto abaixo foi enviado a mim pela minha colega parteira Olga Ducat, de Sófia. Existem dados bastante interessantes, como a queixa sobre a rudeza na atenção às gestantes, o número crescente de partos desassistidos, a extrema medicalização dos nascimentos e a proibição de partos domiciliares (até agora, mas depois do julgamento da corte dos direitos humanos da Comunidade Europeia as coisas tendem a mudar). 

BULGÁRIA

General data

A small country by the black sea.
Democracy since 1994.
The population of Bulgaria is about 7.494.000 inhabitants
Babies born per year (2010): 76 000
There are about 130 maternity wards
There are no birth centers
The title “Baby-friendly hospital” is awarded to 12 hospitals.
Maternal mortality rates  – 13 per 100 000 (2008)
Infant mortality rates – 11.0 (2010)
Neonatal mortality rate – 7 (2010)

Pregnancy Care

The standard pregnancy care covered by national health insurance includes 9 free visits, some basic blood and other tests, and 2 ultrasounds – one during the first trimester and one between 16-20 weeks. Most women prefer to visit an ob-gyn during pregnancy but there is an option to visit a GP – some GPs implement the obligatory program “Maternity care”. However, many pregnant women choose to visit private consultancies despite the high expenses because of the special attention they are hoping to get. There is no practice for the obstetrician who takes care of you during pregnancy to attend your birth. Most obstetricians who work in hospitals also have private practice. So women who want a particular obstetrician to attend their birth are often forced to visit their private consultancies as well. Many women combine regular and private pregnancy care and visit two obstetricians in order to be sure that everything is all right. Every visit in a private consultancy includes ultrasound.

Preparation for birth

Some hospitals organize birth preparation courses or single lectures by a midwife or an obstetrician. The majority of hospitals have open door days once a month when future parents can see the delivery room, the neonatal ward, the rooms and ask questions. There are also privately run childbirth classes but most of them do not really inform women, they rather make them “fit into the system”. They describe the routine medical interventions but do not discuss their necessity or risks. There are also alternative childbirth classes – with focus on the normal physiology of birth, hormones during labour and delivery, alternative pain relief methods, routine hospital medical interventions and their risks, how to prepare your birth plan, how to communicate to the hospital personnel, etc. A lot of centers organize prenatal yoga or gymnastics.  More and more women inform themselves from books and the internet.

Birth place

With very little exceptions all women in Bulgaria give birth in hospitals. Homebirth is not regulated by Bulgarian law. There are no birth centers. There are only 3 hospitals in the country where water birth is available and there are very few doctors trained to attend water births.
The majority of hospitals charge for additional services such as birth in a private VIP delivery room, choosing a medical team, presence of the father. The cost of birth with the above extras exceeds the average monthly salary in Bulgaria.

There is a public and a private system. It is normal to pay in the public system too, under the table to doctors and midwives. By law you are entitled to have a person with you at birth, but many times you have to pay for that too.

The informed consent

The informed consent form includes description of the routine interventions that could be performed during birth, but the risks are not mentioned. Often there is no additional explanation by the personnel. Usually the woman signs this form while being admitted into the maternity ward when she has contractions and is unable to concentrate on the text. She can refuse signing the document, but it is very likely that this will affect negatively the personnel’s attitude. Birth plans are not commonly practiced yet. Parent attempts to make demands are usually not received well and they are often disregarded.

Interventions

Childbirth in Bulgaria is extremely medicalised. Most people only make a distinction between cesarean and “normal” birth and a lot of women don’t even realize they have another choice. On the basis of anectotal evidence from women birth stories there is practically no natural birth without interventions.

The cesarean rates are constantly growing in the last years. According to the WHO data base the cesarean rate in Bulgaria in 2002 is 17%. In 2006 the rate is 24% (from 73 978 births more than 18 000 of them are c-sections). The official cesarean rate in the 3 major hospitals in Sofia is 45%, in private hospitals it is even higher.

Midwives

Number of midwives – 3401 (2007)
Number of obstetricians/gynecologists -1356 (2007)

Midwifery has a longstanding tradition. The first midwives were taking their education in Saint Petersburg, at a school that was made after the Dutch model in the 18th century. Midwifery was given till the socialist regime was ending the home birth and every woman was giving birth in hospital setting. Midwives were no longer a freestanding professional but the assistant of the obstetrician. There was no midwifery organization till 2011.

Midwives were supposed to be member of the medical care givers organization. An organization, that only looks after the institutionalized caregivers interests.

Midwifes in Bulgaria are very dependent on the doctors, in fact they play the role of obstetric nurses. They are not allowed to work independently. Every birth in a hospital must be attended by an obstetrician. Compared with the obstetricians their salaries are extremely low.

Doula

The first Bulgarian doula started working in Sofia in the end of 2010. At the moment there are about 50 doulas in a process of a certification. 3 doula workshops were organized – one of them by DONA International, and two by European Perinatal School.

A lot of medical professionals have negative attitude to doulas. Another problem is that if you want to have a companion during birth, in the majority of hospitals you have to arrange an individual delivery room and to pay for all the VIP services. This is not accessible for most of the women. Besides that the attendance of more than one companion is not advisable/not allowed in most of the hospitals, so the woman has to choose between her partner and doula. Doulas usually charge about 100-150 EUR for their services.

Homebirth

Home birth was forbidden till Bulgaria became member if the EU and the directives can be mentioned. In fact it is not regulated by Bulgarian law and it is hard to find a doctor or a midwife who would attend homebirth. This stops mothers who would like to give birth at home. The idea of homebirth itself is revolutionary for Bulgaria; most people consider it terribly irresponsible, bordering on insanity.

The main arguments of doctors against homebirth are undeveloped infrastructure, heavy traffic and the impossibility to take the necessary equipment into the house. However there is an interesting tendency in the last few years – the number of planned unassisted homebirths has increased. The difficult situation in hospitals, the routine interventions and the rude attitude of the personnel force some parents to make this choice. Usually they inform themselves from the internet and order literature and home birthing sets from abroad. These births are usually assisted by the father. Sometimes doulas attend such births.

Women are very active for their rights in Bulgaria and are many times in the public eye with claims for change.

Postnatal care

After discharge from hospital the mother and the newborn are visited by a pediatrician (the baby’s GP). They do a routine check up of the baby and offer advice about breastfeeding and how to care about the baby. (Usually the recommendation is breastfeeding on a 3 hour schedule). Two weeks after birth they usually weigh up the baby in the pediatricians consulting room, after that the mother and baby attend monthly pediatric appointments. There is a postnatal gynecological appointment for the mother 6 weeks after delivery.

Breastfeeding and maternity leave

The situation with breastfeeding in Bulgaria is changing for the better during the last years. Some hospitals already have breastfeeding support consultants.

As of January 2009 mothers in Bulgaria receive 90% of their salary during the first year of their maternity leave. The law allows 2-hour paid leave within the working day to breastfeed the baby until 8 months old and 1 hour on prescription after that, but very few women are aware of this possibility.

Olga Ducat, Sófia – Bulgária

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Curso de Humanização do Nascimento

Este curso é aplicado em 10 módulos de 4 horas, totalizando 40 horas de aulas. Cobre desde os elementos iniciais da fecundação e início da gestação, até o pré-natal, a assistência ao parto, amamentação e cuidados iniciais com o recém-nascido. É oferecido para os profissionais que pretendem atuar em equipes interdisciplinares de atenção ao parto e nascimento, com ênfase na humanização, na visão integrativa e na Medicina Baseada em Evidências.

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Patético

Encontrei uma antiga namorada, com quem tive uma tórrida e fugaz relação num passado não muito distante, desfalecida sobre uma rodela de vômito ao lado de uma bagana de maconha em um bar frequentado por drogados, músicos e prostitutas na zona portuária. Seu cabelo desgrenhado parecia a erupção de um pequeno gêiser capilar e fedia a azedo. A roupa estava amassada como um pacote de supermercado, e seu corpo debruçado sobre a mesa quase não se movia, a não ser por espasmódicos soluços, o único movimento que lhe denunciava a vida.

Seus olhos (só os vi ao fazer a volta na mesa para confirmar que era ela mesma) estavam semicerrados, como que a tentar segurar nas retinas uma imagem do passado. O esforço só conseguia manter uma lágrima estática, vitrificada, como que congelada na comissura do olho. Sua boca rígida murmurava em silêncio palavras incompreensíveis de rancor e tristeza, que escapavam entre os dentes cobertos com o fel de um desamor. Sim, sua dor era silente, assim como mudo era seu pranto. Que imagens estariam passando por detrás daquelas pálpebras? Que lembranças dolorosas estariam prisioneiras em suas memórias?

Olhei-a mais uma vez com pena e compaixão. Tive ímpetos de abraçá-la e consolá-la, mas me contive. Não seria bom para ela que eu fosse, naquele momento, como a tábua de salvação de um afogado. Como explicar que sua antiga paixão, aquele sujeito em frangalhos, à beira do suicídio, neurastênico e infantil, pudesse estar a lhe ajudar? Voltei-me para a porta e dei dois passos, sem deixar de olhar mais uma vez para trás e testemunhar um derradeiro soluço a me garantir que a vida ainda habitava aquele frágil corpo. “Hic”, disse ela, e ultrapassei o batente da porta, para a rua e para a noite.

Caminhei uma quadra e percebi meu rosto corar. Ensaiei um sorriso triste enquanto chutava uma lata que teimava em ficar de pé na calçada úmida. Uma ideia estranha me atravessou, enquanto dobrava a rua e procurava nos bolsos a chave do carro. “O quanto de mim havia naquele pranto? E o pensamento mais cruel era não saber se eu preferia ser o culpado daquela dor ou se era melhor sequer ser lembrado.”

Patético, pensei eu.

Gustaf Weber, “Whisky, Kekse und Nudeln” (Whisky, bolacha e macarrão), Ed. Kaiser, pág 135.

Gustaf Weber é um escritor alemão nascido em Colônia em 1935. Ainda criança, mudou-se com a família para Königsberg, na Prússia Oriental, onde o pai lecionava na Universidade Albertina. Durante a guerra perdeu o pai na frente russa e, quando as forças soviéticas avançaram sobre a região em 1945, fugiu com a mãe e os seus 4 irmãos de volta para a Renânia, refugiando-se na casa de parentes até o fim da guerra. Estudou literatura na Universidade de Colônia e passou a ministrar aulas nas escolas secundárias. Escreveu seu primeiro livro sobre sua infância de refugiado na dualidade entre as cidadanias russa e alemã. Depois disso, publicou dois livros de contos e ensaios. O primeiro lhe valeu um prêmio nacional de contos e se chamava “Exilgeschichten” (Contos do Desterro) e o segundo foi “Whisky, bolacha e macarrão”, onde o fio condutor é a depressão e a miséria do pós-guerra. É casado com Nora Krushinsky e não tem filhos.

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