Disponibilidades

A “disponibilidade médica” foi assumida pelos conselhos de medicina como sendo um procedimento ético com o objetivo de legalizar o que estava sendo feito há muitos anos pelo Brasil afora. O problema da obstetrícia é de que a atenção ao parto é constituída de dois trabalhos essenciais, ao invés de apenas um. O primeiro é a atenção ao parto propriamente dito: avaliação, internação, acompanhamento do trabalho de parto (de tempo imensamente variável), atenção ao parto, puerpério e alta hospitalar. O mesmo modelo pode ser feito com a cesariana, a amidalectomia e a retirada de uma vesícula. Entretanto, em minha opinião, essa parte da atenção ao parto é a menos sacrificial, sendo que a outra parte é a que mais energia e tempo consome: a disponibilidade para atender um evento que é – por natureza e em essência – imprevisível.

É razoavelmente fácil entender que a disponibilidade é importante e precisa ser remunerada, basta que a gente compare com um policial, um bombeiro ou um militar. Essas profissões lidam com a eventualidade imprevisível de um crime, um incêndio ou uma guerra. Mais ainda: quanto menos trabalham, mais ficamos felizes. Mas eles estão disponíveis 24h por dia para nós, para serem chamados assim que forem necessários. Estão lá, de prontidão nas delegacias, no corpo de bombeiros e na caserna. E recebem seus salários exatamente para isso: estarem à nossa disposição.

Mas como recebe um médico que está à disposição de sua paciente para que ela o chame a qualquer momento para a eventualidade de um parto? Como é ressarcido pelo tempo que esteve preparado e pronto para atendê-la? Eu já tive casos de pacientes que combinaram o atendimento de partos que deveriam ocorrer no meio de fevereiro, por exemplo. Isso significa que o mês inteiro não havia possibilidade de viajar para longe (Torres, por exemplo, é longe “demais” para atender um parto), não podia ir ao cinema, desligar o telefone celular, teatro nem pensar, viagens para fora do país ficavam impraticáveis e a atenção era constante e total para qualquer telefonema durante a noite. Por volta do final de fevereiro a paciente liga para você avisando que o bebê nasceu muito rápido e que ela foi a um hospital de sua cidade. É isso: você passou um mês inteiro “preso” ao compromisso com uma paciente que não teve o parto com você, fazendo que sua disponibilidade (a mesma do bombeiro, policial e militar, lembram?) não fosse ressarcida.

Ora, mas há uma maneira de fazer com que a “disponibilidade” seja inexistente ou muito rara: marcando cesarianas. Com “cirurgias de parto” – marcadas da mesma maneira que marcamos uma operação de vesícula ou se opera um cisto de ovário – retira-se do parto a sua imprevisibilidade, a sua essência errática e o incógnito de seu aparecimento. Dessa forma os médicos podem organizar suas horas de consultório, seus fins de semana, suas férias e sua vida familiar. As pacientes também podem deixar a sua vida sob controle, fazendo do nascimento um evento programável, sem ser importunada pela chegada inesperada de contrações e bolsas que se rompem no meio da madrugada.

Que maravilha, não lhes parece?

Sim, parece… mas não é. Todos os estudos contemporâneos demonstram de forma inequívoca que burlar o “jogo da vida”, atropelando a sequência de eventos que culminam nas contrações naturalmente surgidas, prejudicam o complexo e delicado processo de adaptação do bebê ao mundo extrauterino, além de acrescentar riscos elevados a ambos, mãe e bebê. Portanto, colocar o nascimento à serviço da comodidade ou de valores outros que não o bem estar da mãe e do bebê são atitudes claramente equivocadas e perigosas. O surgimento natural das contrações, no término do processo de gestação, e o delivramento suave, natural e fisiológico do bebê, é ainda a forma mais segura e saudável de chegar a esse mundo.

Porém, aqui se coloca o grande dilema: os convênios de saúde oferecem o pagamento de algo chamado “parto” e para tanto oferecem aos profissionais um pagamento muito baixo. Estes pensam: “Bem, atender um parto de 18 horas por X não há condições, mas uma cesariana de 40 minutos pelo mesmo valor ainda vale a pena”. Pronto, está formada a equação perversa dos planos de saúde e cesarianas. Os médicos recebem pelo procedimento hospitalar de um nascimento, mas não recebem pela disponibilidade, que os planos de saúde não reconhecem como trabalho. Ao mesmo tempo, oferecem um pagamento padrão para um “parto”, entendido como a saída de um bebê, não importando como ele seja feito. Um acompanhamento de 20 horas de trabalho de parto (e estrita vigilância médica) e uma cesariana de 30 minutos com hora marcada são ressarcidos quase que de forma idêntica pelas empresas de seguro saúde, mas a “hora-trabalho” de um parto normal vale no mínimo 20 vezes menos que a de uma cesariana (divida o valor recebido pelo número de horas que efetivamente esteve ao lado da paciente e terá o valor da “hora-trabalho”).

Sabemos do drama das cesarianas no Brasil, e suspeitamos do desastre que isso pode acarretar para uma geração de crianças e adolescentes que vieram ao mundo com falhas no processo de apego, falta de amamentação, colonização intestinal inadequada, obesidade, transtornos psíquicos de toda ordem e problemas imunológicos múltiplos decorrentes de cesarianas marcadas ou realizadas de forma equivocada, apressada ou atabalhoada. Todavia, sabemos que o pagamento dos profissionais também é importante. Temos conhecimento de que, em alguns lugares do Brasil, a equipe de filmagem do parto ganha muito mais do que os médicos que efetivamente atendem o parto. Temos conhecimento de tudo isso, mas o que podemos fazer?

Uma das maneiras é fazer com que a parte mais pesada e sacrificial da atenção ao parto seja efetivamente paga. Da mesma forma como pagamos os bombeiros, militares e policiais para que estejam à disposição para as eventualidades, poderemos também usar esse raciocínio para o pagamento dos profissionais médicos que atendem partos. Ao contrário das outras especialidades médicas, os parteiros vivem na incerteza de quando seu trabalho será necessário, e isso precisa ser reconhecido.

“Ora, argumentaremos, esse pagamento poderia ser feito pelas próprias administradoras de planos de saúde“. É verdade, mas aí teríamos um grave problema de controle financeiro. Como provar que você estava mesmo à disposição por muito tempo e atendeu a cesariana (necessária, é claro…) no dia 23 de dezembro às 8h da manhã? Como provar, pelo contrário, que você realizou uma cesariana numa sexta-feira à noite, mas esteve um mês inteiro de sobreaviso? É difícil, e talvez impossível para as administradoras trabalharem sem que materializem de forma muito clara o tipo de trabalho que estão pagando aos profissionais.

No trabalho privado é outra história. O médico pode cobrar o que bem entender em livre negociação com seus clientes. E pode explicar que sua cobrança cobre exatamente essa disponibilidade. Aceita quem quer, negocia-se livremente e o médico será responsável por honrar seu compromisso de cumprir o combinado. Já no sistema de “seguros saúde” é diferente; onde um terceiro intermedeia a relação médico-paciente a história torna-se muito mais complicada.

Entretanto eu sou pessimista em relação a esse modelo. Não acredito que a cobrança da disponibilidade atinge o cerne da questão e poderá diminuir o índice alarmante de cesarianas. O que vai ocorrer é que os cesaristas cobrarão uma “disponibilidade”, mas no final da gestação usarão a mesma retórica da “bomba relógio” e agirão como sempre agiram: operar intempestivamente por medo e insegurança. Infelizmente, os índices de cesariana não serão tocados por essa medida. Teremos médicos cobrando mais, mas não mudaremos de forma impactante as nossas vergonhosas taxas de interrupção cirúrgica da gestação.

Resumindo, eu entendo a cobrança e creio que ela é ética, pois oferece um pagamento ao tempo que os médicos ficarão ao dispor de seus pacientes. Por outro lado, creio que tal medida não cumprirá com seus objetivos de reduzir o intervencionismo no processo do parto. Temos ainda muito trabalho pela frente para oferecer um pagamento adequado aos profissionais ao mesmo tempo em que possamos garantir segurança e dignidade no nascimento humano.

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina

Ventre Fechado

Apesar do ativismo pela humanização do nascimento, e da luta para que as mulheres tenham autonomia e liberdade para fazer escolhas informadas sobre sua maternidade, eu ainda creio na existência de “distócias psi”, como diz o Max. Digo isso porque eu mesmo testemunhei vários casos em que os obstáculos para a concretização de um nascimento estavam profundamente alocados nos porões obscuros do inconsciente. Tais distócias podem ser entendidas por bloqueios psicológicos que dificultam – ou até mesmo impedem – o trabalho de parto e o parto.

“Ora – dirão os incrédulos – então como as mulheres davam conta dessas distócias no século XVI, já que tais transtornos devem acompanhá-las desde o início dos tempos humanos?“

Como seriam os transtornos que se imiscuem nas circunvoluções de afeto, escondidas entre as orelhas , no século XVI? Ou nas imemoriais épocas das cruzadas, entre as populações indígenas (algumas contemporâneas) ou na aurora das civilizações? Talvez se resolvessem da forma mais brutal possível: uma força de nascer sendo contraposta por um muro de músculos e medos a travar o processo. Por outro lado, é possível que tais transtornos fossem tão incomuns no passado que seria pouco comum deparar-se com eles. Eu acredito que o parto é uma expressão do tempo e da latitude, encravado na história e na geografia dos povos. Creio mesmo que tais distócias são produto da cultura, criadas e nutridas por um modelo bem determinado no tempo e no espaço, que funciona para sustentar os valores inconscientes que essas sociedades, por interesses variados, cultivam.

Tais variações culturais explicam porque na antiguidade as deusas eram onipresentes nas manifestações artísticas, incluindo extensa iconografia da amamentação, mas foram paulatinamente substituídas por outras imagens, mais afeitas aos valores e as nuances políticas preponderantes. Hoje em dia, no império da infotecnocracia, os valores humanos e a superação de nossas dificuldades só podem ocorrer pela via da tecnologia. Desvalorizam-se as conquistas femininas de gestar e parir, consideradas pelas sociedades modernas como um “masoquismo insensato e atrasado”. Entretanto, o parto, a amamentação e a maternagem são percorridos por um fio invisível que os conecta, naquilo que chamamos do “continuum da humanização“, onde intrincados processos psicológicos, afetivos, químicos, físicos e até bacteriológicos participam de uma orquestração milenar de adaptação.

Ao mudar de forma atabalhoada tal arquitetura podemos produzir traumas ainda não suficientemente estudados pelas ciências humanas, mas que já são percebidos pelos ficcionistas e poetas. Mesmo reconhecendo a possibilidade de que algo por demais violento ocorra “entre as orelhas” a ponto de impedir um nascimento, lutar para que os partos ocorram de forma espontânea e fisiológica é oferecer as melhores garantias para que um bebê chegue a esse mundo com segurança.

1 comentário

Arquivado em Parto

“Menas Main”

O debate acirrado e, por vezes áspero, sobre “cesariana x parto normal” nunca vai morrer enquanto nascimento for uma clara e evidente manifestação da sexualidade feminina. Expressão do erotismo feminino, o nascimento guarda com a prática sexual relações emocionais, psicológicas, afetivas, físicas, hormonais e até espirituais. Exatamente por não ser uma questão restrita às variantes médicas e de segurança é que as mulheres se digladiam – as vezes de forma deseducada – sobre a questão do parto e suas opções. Nunca se estabelece um debate racional; ele é sempre carregado de afeto – e raiva, remorso, tristeza também são afetos. Sabemos que não é admissível, numa perspectiva subjetiva, julgar as escolhas de cada mulher sobre a sua sexualidade. Nenhuma mulher é menos mulher por namorar outra mulher, ou por se casar com um russo ou japonês, e isso nos parece bastante claro. A liberdade de fazer escolhas se expressa tanto nas suas opções amorosas quanto no nascimento de seus filhos.

A piada em questão aborda uma crítica (sim, mas em forma de humor) contra um modelo, um paradigma, que dificulta e até mesmo impede a livre expressão da sexualidade no nascimento (o parto normal) e oferece a elas como única opção digna a cesariana “salvadora”. Não é uma crítica contra as mulheres que, por uma razão ou outra, fazem escolhas sobre seus partos. Negar à elas a possibilidade de escolher é que é o verdadeiro crime, mas poucas mulheres se aventuram a falar sobre isso, e preferem desfiar justificativas intermináveis. O problema para mim nunca foi mulheres escolherem cesarianas (ou escolherem outras mulheres para amar, ou estrangeiros…) mas quando essa é a única opção digna que se lhes oferece!!!

Da mesma forma, se a heterossexualidade fosse a única opção digna para o encontro amoroso (e há pouco tempo era visto assim…) eu estaria levantando bandeiras para que as mulheres pudessem amar quem realmente desejassem. Se o parto normal fosse imposto às mulheres eu também sairia às ruas como defensor das escolhas informadas. Infelizmente o que se lê nos debates sobre a cesariana ainda é a ladainha chata do “menas main” e as explicações enfadonhas para cesarianas realizadas, na sua maioria injustificáveis à luz da MBE (Medicina Baseada em Evidências).

E, de uma forma mais intensa e clara nos últimos anos, testemunhamos o fato de que as evidências científicas provando a superioridade inquestionável do parto normal sobre a cirurgia cesariana incomodam cada vez mais as consciências. Antes ainda era comum – e até aceitável – dizer: “Fiz, sim, essa escolha e não me arrependo“. Hoje em dia, com a avalanche de pesquisas provando os malefícios da cesariana (principalmente as com hora marcada) está quase impossível continuar sustentando essa afirmação.

E viva o humor, que nos oferece a oportunidade de falar dessas questões enquanto esboçamos um sorriso especial; aquele que damos ao rir de nós mesmos.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Responsabilidades

Mostrar a verdade não é a mesma coisa que empurrar a “sua” verdade goela abaixo para que as pessoas ao nosso redor sejam obrigadas a digeri-la. Como diria a minha mãe, a verdade pode ser “exposta”, mas jamais “imposta”. Assim sendo, concordo com a necessidade de respeitar as mulheres que realizaram cesarianas, principalmente naquelas cirurgias que aparentemente não possuem indicação clínica, levando em consideração a visão de mundo das mulheres que se submeteram a ela. Entretanto, acrescento que tais elementos – a liberdade e o tempo do outro – não podem nos impedir de falar e expandir a nossa visão sobre o abuso de cesarianas.

Eu prefiro dizer que todos nós, sem exceção, somos responsáveis pelas cesarianas desnecessárias que ocorrem no mundo, seja por uma postura pouco científica e/ou egoística, seja por inação diante das evidências que nos mostram as vantagens do parto normal. Portanto somos (nós, humanidade), sim, responsáveis pelas mazelas que ainda ocorrem no mundo, até pelos estupros e pelos genocídios. Isso não é o mesmo que ser “culpado” por isso. Se imaginarmos uma menina que sai à noite, de minissaia para uma festa na periferia, eu duvido que alguma mãe de adolescente em face dessa situação não diria: “Minha filha, você está oferecendo graciosamente uma oportunidade à manifestação da perversão de alguém“. Silenciar diante dessa evidência (de que existem perversos e que eles eventualmente cometem estupros) nos torna conectados ao crime, mesmo que de forma indireta e involuntária. Tais mães não são as culpadas do crime, mas pecaram pela falta de prevenção. Quando uma mulher nos diz “Estou consultando com meu médico e ele disse que se tudo der certo será parto vaginal” – e sabemos a fama cesarista do dito profissional – estaremos na mesma situação da mãe que resolveu silenciar.

Como diria Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos Estados Unidos (mas há controvérsias quanto à origem dessa expressão), “O preço da Liberdade é a eterna vigilância“. O preço da humanização do nascimento é estar eternamente vigilante com as pressões econômicas e corporativas que colocam o nascimento a serviço de outras forças. Enquanto houver seres humanos, constituídos na infinita diversidade de estruturas psicológicas, haverá a necessidade de nos protegermos da maldade e da perversão. Infelizmente, não há como abandonar a vigilância. Por sua vez, enquanto houver chauvinismo e o desejo de controlar as mulheres, bloqueando a natural criatividade de seus corpos, haverá a necessidade de protegê-las e vigiar as tentativas de subjugá-las. Parir naturalmente ainda é uma batalha árdua, mas já foi ainda mais complexa. Hoje temos ferramentas que no passado não possuíamos, como esta (a internet). Tenho a esperança que no futuro a naturalidade do parto e da amamentação serão incorporadas à atitude de todos os povos, e uma cesariana desnecessária será tão mal vista como jogar no chão um papel de bala numa cidade que todos tentam manter limpa.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Bactérias do Bem

Minha colega Ana Cristina Duarte escreveu:

 “Ao que parece, a ciência está apontando para o grande e maior problema das cesarianas: o fato de não haver colonização imediata do bebê pelas bactérias do canal de parto. A ausência dessas bactérias no momento do parto traz repercussões para o resto da vida, desde obesidade, doenças autoimunes, entre outros. A outra linha de pesquisa é para o parto como o evento que liga o sistema hormonal do bebê, no eixo hipotalâmico. Estamos, no Brasil, recebendo uma nação de bebês que virarão adultos com doenças crônicas. O sistema privado já pode começar a contabilizar os lucros”.

Eu adiciono:

Em Orlando, há muitos anos, tive a oportunidade de conversar com o professor Hanson da Universidade de Gotemburgo – Suécia, a respeito da importância fundamental das bactérias para a adequada proteção do recém-nascido no pós parto imediato(1). Ele ficou fascinado com os vídeos que mostrei de partos na posição de cócoras porque dizia que esta posição facilitava que os bebês fossem adequadamente “contaminados” pelas “entero-bactérias do bem” que vivem no ambiente intestinal materno. A presença dessas bactérias na pele estéril do bebê tão logo ele nasce confere uma especial proteção de microrganismos anaeróbicos que impedem a colonização por bactérias danosas que habitam o ambiente hospitalar (estreptococus, estafilococus, pseudomonas, etc.). Outra razão para não dar banho no bebê quando ele está no hospital aguardando a alta: manter o “manto protetor” de vérnix, líquido amniótico e bactérias maternas que o envolvem e protegem. Assim sendo, a presença de bactérias maternas é fundamental para proteger o bebê de infecções! Imaginem quanto tempo perdemos acreditando que a suprema esterilização (e os ridículos enemas que realizamos na admissão do hospital) era benéfica para o parto. A presença dessas bactérias na colonização intestinal dos recém-nascidos é importante para o seu desenvolvimento saudável.

Para além dessas descobertas, agora sabemos que o leite materno não é estéril, e que contém mais de 700 tipos de bactérias. Como dito acima, sabemos cada vez mais da importância de um equilíbrio adequado da flora intestinal para a saúde de crianças. A preservação do parto normal e da amamentação, para além das questões fisiológicas, emocionais, psicológicas e clínicas, precisa ser analisada também como a mais completa forma de prevenção de doenças. Negligenciar, como temos feito nas últimas décadas, a sua preponderância como elemento preventivo de enfermidades, apostando na suprema cafonice de endeusar a tecnologia sobre os eventos fisiológicos e naturais, pode ser um passo decisivo em direção à extinção do homo sapiens.

(1) Hanson, L.A. Immunobiology of human milk:  How breasfeeding protects babies. Göteborg: Pharma­soft Publishing, 2004. 

1 comentário

Arquivado em Medicina

Brilhar ou Refletir

Minha mãe sempre dizia que as “palavras carregam energia”, mas Freud já dizia isso antes dela. As palavras desnudam nossos conceitos, que por sua vez modulam nossas atitudes. Quando, mesmo há muitos anos durante a residência, um colega me dizia que havia “feito cinco partos no último plantão” aquilo me informava de forma muito clara como era o específico olhar desse profissional sobre seu trabalho. Uma das questões mais delicadas sobre o ofício das doulas (mas também funciona sobre o trabalho de parteiras e médicos) se relaciona com o protagonismo dos profissionais no cenário do parto. Eu conheço muitas doulas que falam exatamente isso que foi dito aqui em cima: “minhas mãezinhas”, “minhas barrigas”, etc., e isso me parece uma necessidade (absolutamente humana, por certo) de ser protagonista do evento, junto com a mãe. Mesmo entendendo essa necessidade eu acredito que tais questões devem ser educadas e controladas em todos aqueles que trabalham com nascimento humano.

Max sempre me disse que “parteiros não devem ser os que brilham, mas os que refletem a luz”. Portanto concordo plenamente com a ideia de que precisamos nos educar para uma essencial humildade sobre nosso papel como cuidadores do parto. E gosto de pensar que quando brilhamos demais sempre é à custa de um desaparecimento da luz que emana de quem está parindo. Claro que muitas vezes o protagonismo dos profissionais é necessário, como no caso de uma medicação adequada ou uma cesariana salvadora. Entretanto, tal expropriação pode ocorrer de forma abusiva, como a alienação que brota de uma cesariana desnecessária e as consequências funestas que ela pode trazer para uma mulher que realmente deseja parir, mas também pode ser através de uma palavra mal colocada que, mesmo sutilmente, desloca a gestante do centro de nossas atenções, retirando dela a liberdade e o poder de tomar decisões.

Por parte dos profissionais de saúde ocorre uma intromissão (sempre bem intencionada, por certo) numa relação que apenas se inicia: a família que se forma em frente aos nossos olhos. Para além das questões relacionadas com a mãe, a construção da paternidade é ainda mais delicada do que a da maternidade, porque nossa (masculina) participação (ao contrário da materna) é dispensável e (portanto) frágil. Dessa forma, por nos faltar a materialidade visceral dessa ligação, ela precisa ser construída pelas palavras. Entretanto, muitas vezes os profissionais de saúde – que deveriam ser elementos facilitadores dessa ligação – funcionam como os principais obstáculos para a elaboração da conexão pai-filho. Se essa intromissão é ruim para a mulher, deslocada do centro das decisões, para o pai pode ter um efeito decisivo e dramático, que poderá se tornar o capítulo final de um afastamento que talvez nunca mais possa ser consertado. Nós, os profissionais da saúde, nos encontramos exatamente no vértice dessa encruzilhada, e temos a possibilidade de levar nossos clientes a uma experiência positiva de ligação afetiva. Todavia, nossas atitudes e nossas palavras podem se tornar desastrosas e produzir marcas profundas de afastamento.

Deixe um comentário

Arquivado em Parto, Pensamentos

Momento Transformador

A civilização poderá usar esse momento triste e chocante como elemento transformador. Eu prefiro acreditar que a indignação gerada pela morte brutal e inaceitável de uma menina em Nova Delhi, na Índia, venha a se transformar no estopim de uma “revolução para o bem”. Para tanto, me parece importante deixar de lado os sentimentos de ódio e vingança, olhar para frente e tentar propor soluções em todos os níveis (educacional, jurídico, político, social, policial, etc.) para que ocorra uma verdadeira e profunda a mudança nos valores daquele povo. O linchamento dos criminosos pode até satisfazer algumas almas que se deliciam com o sentimento de revanche, aquelas que ainda acreditam na lei de Talião. Entretanto, o “olho-por-olho” não é capaz de construir a sociedade que desejamos. Mesmo que não pareça aceitável negligenciar a necessidade de uma justiça dura, severa e exemplar para este caso, por outro lado nossos olhos precisam se voltar para o amanhã, exatamente porque o caso dessa menina é apenas emblemático, e está longe de ser um “fato isolado”. Mais de 600 estupros já haviam sido denunciados naquela cidade só em 2012.

A morte desta estudante foi apenas mais uma na estatística de violências hediondas produzidas por uma sociedade anestesiada pela impunidade, e que acabou por banalizar tais crimes. Executar meia dúzia de perversos não será a cura para esta doença, a enfermidade do desrespeito com a mulher. Precisamos muito mais do que a simples vingança; é necessário entender as raízes da violência, do machismo, da impunidade e dos abusos de ordem sexual para poder combate-los e prevenir a ocorrência de novas tragédias como a que testemunhamos. Somente com um postura civilizatória e fraterna poderemos fazer desse triste episódio uma lição duradoura para a humanidade.

Sabem qual a sensação que me dá quando eu leio na internet as declarações anônimas de pessoas pedindo os mais diversificados e sofisticados tipos de linchamento contra os assassinos da menina de Nova Delhi? Eu fico com a sensação de que realmente Terêncio tinha razão: “O que é humano não me é estranho”. O sentimento de vingança e justiciamento cego que algumas pessoas colocam na Internet é tão feroz e insano quanto o próprio crime que testemunhamos. É claro, dirão; são apenas “desafogos”, desabafos indignados e não há a “passagem para o ato”. Entretanto, o que nos distancia dessa passagem? É possível que, ao avaliarmos a vida, a infância, as circunstâncias e o contexto desses criminosos poderemos perceber que o ato brutal e inaceitável que cometeram nada mais é do que um elo na cadeia de ações aviltantes de suas vidas. Poderemos perceber que o crime que cometeram é tão somente uma “vingança”, cometida contra uma vítima inocente. Entretanto a “vingança” está atrelada a um passado em que eles próprios também foram vitimizados por uma sociedade cruel e nefasta.

O crime cometido por eles não está tão distante como pensamos de nossa própria realidade. Talvez fôssemos nós a cometê-lo, se nos tivessem oferecido o contexto e as circunstâncias que a eles foram ofertados. Longe de desmerecer a necessária dureza nas sentenças, creio que uma humanidade mais justa precisa olhar para casos assim com uma compreensão que se afasta dos sentimentos mais rasteiros, olhando para o futuro e tentando prevenir outras ocorrências trágicas como essa.

1 comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

Ajuda?

Lembrei de uma história que eu acho muito emblemática dessa situação e que aconteceu no segundo parto de uma paciente minha que teve 3 filhos, sendo o último um parto em casa (que fez com que ela mudasse totalmente os planos para a sua vida, e decidisse ser doula e, agora, enfermeira obstétrica). Quando se encontrava nos momentos finais de seu segundo parto seu médico a colocou naquela conhecida posição de “litotomia” (também conhecida como posição de frango assado). Além disso, ele fazia coro com a sonorização mântrica habitual de “comandar” o parto, com gritos, frases feitas, etc…

– Força comprida, não para, não para. Prenda a respiração e empurre sem parar !!

O obstetra continuou assim por um bom tempo, enquanto a pequenina coroava lentamente, dentro do seu próprio tempo, apesar de prejudicada pela ambiência, os gritos e a posição desfavorável. Passados alguns poucos minutos ele resolveu escutar os batimentos cardíacos do bebê, o que é uma conduta adequada e baseada em evidências. Entretanto, provavelmente por causa da posição muito baixa de um bebê que já estava coroando, ele não conseguiu escutar os batimentos. Talvez – esta a hipótese mais provável – o coraçãozinho do bebê estivesse atrás do púbis e o meu colega, no afã de se acalmar com o som dos batimentos, não teve paciência para procurar com mais vagar. Diante da ausência de som tranquilizador brotando do sonar ele ficou apavorado, o que é muito comum entre os profissionais que, por formação, desconfiam das mulheres e dos mecanismos de parto, acreditando que toda a mulher é uma bomba relógio prestes a explodir. Com um bebê coroando e sem saber o que fazer, ele falou para a sua paciente, com a voz entrecortada de pânico:

– Bem, seu bebê tem que nascer, agora você vai precisar me ajudar…

Logo depois o bebê nasceu. É claro, um parto com “kit intervenção completo”: Kristeller, episiotomia, etc… O Apgar foi excelente, o bebê logo chorou e foi levado pelos pediatras. Tudo bem, como normalmente acontece, apesar das condutas equivocadas e/ou exageradas. Entretanto nunca esqueci o que minha paciente falou. A frase do seu obstetra é, para mim, emblemática da “couvade” da obstetrícia, a expropriação furiosa da medicina ocidental sobre o fenômeno do parto.

“Bem, seu bebê tem que nascer, agora você vai precisar me ajudar…”Como assim? Para parir uma mulher tem que “ajudar” o médico? Não seria o contrário, o médico ajudar a mulher, principalmente evitando gritos e procedimentos desnecessários e abusivos?  Mas, no mundo contemporâneo o parto não pertence mais às mulheres. O nascimento nos dias atuais é algo que médicos e hospitais fazem, e as mulheres são meras ajudantes. Pior ainda é o fato de elas serem consideradas como um “obstáculo” à boa condução de um procedimento médico, totalmente incapazes de favorecer um nascimento, de forma que ele ocorra com segurança e a “necessária” rapidez. Para transformar esse quadro, só se mudarmos a maneira como as mulheres enxergam a si mesmas.

3 Comentários

Arquivado em Histórias Pessoais, Pensamentos

Presentes

Uma pergunta, para estimular a reflexão: Quando a gente dá um presente, que tipo de mecanismo psicológico se produz, qual o processo mental que ocorre e quem verdadeiramente recebe o benefício? Digo isso porque vejo muitos avós dando presentes para os netos (mas não apenas avós; tias, mães, etc…), mas o verdadeiro presenteado me parece ser quem efetivamente DÁ, e não quem recebe. As descrições que elas me fazem deixam muito claro que o presente funciona (inconscientemente, é claro) como uma forma de pagamento para o verdadeiro produto: o agradecimento que o segue. Quando uma criança recebe um brinquedo (que ela joga fora logo depois) e agradece dizendo “Obrigado vovó, eu te amo!” eu me questiono quem realmente recebeu e quem ofereceu. O problema é que muitas pessoas usam presentes exatamente com o intuito de receber afeto de volta, criando nas crianças a noção de que existem mediadores nas demonstrações de afeição e carinho. Isso eu acredito ser profundamente deletério para o desenvolvimento dos pequeninos.  

Max sempre me disse: “As coisas verdadeiramente importantes na vida são absolutamente gratuitas“. Eu não compro presentes para os meus filhos desde que eles eram pequenos. E fazia de propósito. Natal na minha casa era com chazinho, bolo, avós, tias, e sem presentes. Eu me negava a entrar no círculo vicioso dos presentes. Não há como fugir dessa troca de favores regulado pelo dinheiro, a não ser com uma atitude drástica. Quando meus filhos eram pequenos a Zeza, reuniu os avós e algumas tias e disse: “Não quero presentes para os meus filhos. Natal não é para isso. Não quero criar uma mentalidade consumista em crianças pequenas.” E eu apoiei inteiramente.  

Eu creio que dar presentes para crianças pode ter um efeito deletério, inadequado e também pode produzir efeitos ruins em longo prazo. Mas é claro que não é o presente em si que é ruim, mas a carga afetiva que o acompanha. Criar uma mentalidade consumista em crianças, onde o dinheiro media carinho e amor, pode destruir a ideia central de que a afeição deve se bastar por si, e não ser comprada. É claro que comprei presentes para meus filhos durante vida deles, mas também me perguntei quem é que estava ganhando alguma coisa, e me questionei sobre o “preço” verdadeiro que estava sendo pago. Dar presentes mascara, muitas vezes, necessidades afetivas de quem presenteia. E não estou generalizando, mas (como disse na primeira linha) provocando uma reflexão sobre o verdadeiro valor dos presentes, dados e recebidos.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Sobre os Poderes

Pessoas poderosas (imagine aqui qualquer uma, dos políticos aos artistas) sofrem pela terrível pressão do poder. Eu não sei exatamente como é isso – sou um mísero parteiro da província – mas posso ter uma ideia do que seja este peso pelas experiências reveladoras pelas quais passei. Uma delas foi importante, e a ela sou muito grato.

Quando eu servi como militar nos primórdios da década de 90, fiquei de início – como qualquer calouro – muito intrigado e impactado com o modelo hierárquico rígido existente na unidade médica em que eu trabalhava como obstetra. É importante destacar que as hierarquias são absolutamente necessárias em um modelo que prepara homens para o combate. Não fosse assim, existiria um exemplo de “exército democrático” na história da civilização, mas isso obviamente nunca ocorreu. A rigidez desses níveis de poder e responsabilidade são fundamentais para certas ações que ocorrem nos cenários de guerra. Entretanto, para mim era estranho, e até constrangedor, que um sargento que tinha idade para ser meu pai precisasse me chamar de “senhor” (por eu ser um oficial médico) e eu fosse obrigado a chama-lo de “tu”, mesmo sendo ele muito mais experiente e maduro do que eu. Apesar de entender a lógica por trás dessa determinação, o costume de mais de 30 anos com a vida fora da caserna produzia em mim esse “choque de valores”. Quando por fim me acostumei com esse modelo (muito à contragosto e de maneira forçada) eu prometi a mim mesmo que, exatamente por ser um oficial temporário, jamais usaria esse tipo de prerrogativa – a patente militar – como um argumento válido em uma disputa qualquer.

Entretanto, certo dia, lá estava eu discutindo com um sargento sobre as famigeradas “escalas vermelhas”, que eram as escalas de oficiais em fins de semana e feriados. Lá pelas tantas da conversa eu percebi que meu nome havia sido colocado em uma data muito inadequada. Não havia como estar de plantão, pois me faltava o “dom da ubiquidade”. Imediatamente expliquei ao sargento responsável que nesse dia específico eu estaria fazendo um curso (provavelmente minhas aulas de pós-graduação em homeopatia) e que eu poderia fazer este plantão em outra data, bastando para isso que trocassem meu nome pelo de um colega. O sargento me interrompeu dizendo que a escala já havia sido enviada para o “boletim” e que nada mais havia a fazer.

Virei uma fera. Expliquei que não poderia deixar de ir à aula por causa de uma burocracia e disse que chamasse o soldado de volta trazendo a escala e que, depois disso, trocasse a data que iria para o boletim. Ele respondeu que não faria isso, pois isso seria burlar uma regra existente sobre as escalas de plantão. Nesse momento, irritado pela negativa peremptória da “praça”, eu disparei: “Ah, você vai fazer isso sim, …sargento“. A última palavra estava frisada propositadamente, destacada para mostrar que eu estava dando uma ordem baseada na minha hierarquia, e não na minha razão ou na correção do meu pedido. Era violência, pura arrogância. O poder explicitado; a determinação inquestionável.

Imediatamente eu me lembrei do compromisso que havia assumido alguns poucos anos antes. Meu olhar inexpressivo fixou-se na parede em frente e o filme da minha “promessa” passou diante dos meus olhos, tal qual o filme que Pedro assistiu depois de negar o Mestre por três vezes. Petrifiquei-me em silêncio e, envergonhado, nada falei. Vi o sargento buscar a folha de escalas e trocar as datas na minha frente. Nada disse, nada comentei. Silenciei diante da minha escandalosa prepotência.

Um pouco de mim eu conheci naquele dia, e a partir de então pude entender a pressão que existe pela prática do poder. Eu falhei vergonhosamente no meu teste, e tive plena certeza desse fato. Eu por muito tempo cultivara a ingênua ilusão de que, mesmo tendo a possibilidade de dar ordens inadequadas em função de uma posição artificialmente construída pela corporação, eu jamais usaria tal prerrogativa em benefício próprio. Engano. Falhei como falham muitos os que subestimam a força coercitiva de uma posição de destaque. Errei como tantos os que acusam os corruptos, os assassinos e os ladrões, como se estivessem infensos à sedução de usar o poder – todo ou em parte – que lhe foi concedido ou conquistado. Errei ao supor que minhas frágeis convicções poderiam suportar o peso das necessidades egoísticas emergentes.

Publius Terentius Afer (Terêncio) já dizia: “Eu sou um homem, e nada do que é humano me é estranho”, e com isso nos ensinava que a iniquidade, a falha, o egoísmo, a vaidade e o medo, que tão facilmente percebemos nos outros, habita igualmente em nós. Apenas depois dos testes que a vida nos oferece é que podemos acreditar em nossos valores. Sem a prova da realidade, ficamos apenas com as palavras vazias e as boas intenções. Mas A Virtude espera mais do que belas citações; elas nos chamam à pratica dessas posturas.

Nossos amigos que abusam do poder provavelmente acreditam estar fazendo o melhor que podem diante do peso que carregam. Mesmo parecendo lícito combater e criticar o suborno, a corrupção, a mentira e a falsidade, também é verdadeiro que tais ações, quando analisadas subjetivamente, não podem ser alcançadas pelo nosso juízo pessoal. Para criticá-las talvez seja mesmo necessário caminhar os tais mil quilômetros usando os mocassins de quem as praticou.

1 comentário

Arquivado em Histórias Pessoais