No congresso de professores em São Paulo – XXVII Congresso da APEOESP , Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo – ocorrido há poucos dias o representante do PCO, criticou de forma veemente os participantes de outras vertentes políticas adversárias, acusando-os de outrora terem atacado Dilma e garantido apoio à Lava Jato. Ao final de sua fala, e ao ser acusado de direitista, fez um sinal com o braço dobrado e a mão na dobra gritando “Aqui ó, lavajatistas são vocês”. Sua fala foi a que se segue:
“… eu queria aproveitar meu minuto final, para dizer, o seguinte: não vamos vir aqui falar qualquer coisa, a gente aceitar que companheiro que estão numa chapa encabeçada pelo PSTU, que defendeu o golpe, que tem o PSOL, que defendia a Lava-Jato, vir aqui falar que nos somos lavajatistas! Aqui para vocês oh! (o companheiro levanta o braço e aponta para a chapa 2). Lavajatistas são vocês!”
Iniciou-se uma alteração verbal seguida de uma garrafa d’água arremessada na direção do ativista – a qual acabou acertando uma professora na mesa diretiva. Logo em seguida houve a tentativa de invasão da mesa, mas a turma do “deixa disso” conteve os mais exaltados e a briga se acalmou.
Até aqui esta história não deveria causar muita surpresa. Ora, os embates políticos são feitos de paixão, e esta emoção normalmente cobre com sobra e sem muitas dificuldades a tênue camada acinzentada que envolve nosso cérebro. Exigir racionalidade e ponderação para quem participa dos confrontos político-partidários é um exagero, pois essa chama de desejo e determinação é o que nos inflama e nos faz participar das lutas.
Entretanto, foi o que ocorreu depois que demonstra de forma muito clara o desvirtuamento do debate político no campo progressista, principalmente num setor bem específico: a, assim chamada, esquerda. No final do congresso uma militante negra da esquerda identitária pediu uma moção contra o companheiro que fez o gesto ofensivo aos adversários porque, segundo ela, se tratava de um …. gesto racista. Mais do que isso; ela ameaçou chamar a polícia.
Quem é da esquerda radical e já participou de movimentos estudantis, passeatas, greves, manifestações, etc. sabe muito bem de que lado a polícia burguesa sempre se situa. A força policial é estimulada a bater sem dó em professores, estudantes, trabalhadores de fábrica, pobres, favelados, etc., sempre que chamada a defender o patrimônio e os valores da burguesia; está no seu DNA. Ameaçar um parceiro do campo da esquerda de “chamar os homi” por uma disputa ideológica durante um congresso é um ato de profunda traição à todas as lutas do movimento operário. Quem age desta maneira ainda não entendeu qual o lado que devemos nos postar diante da trincheira.
Mas isto ainda não é o mais grave. Essa menina negra acusou o ativista da corrente adversária de ter feito um “gesto racista”. Sim, o gesto de dar “uma banana” para os seus adversários foi interpretado por ela como racista pela equação abaixo:
Banana ======》 Macaco ======》Homem negro
Sim, foi essa a interpretação que ela fez, a despeito do gesto ser realizado há milênios por qualquer pessoa, em várias partes do mundo e muito antes da escravidão, sempre que alguém estivesse mandando seu oponente enfiar uma banana, como a dizer “vá se phoder”. Detalhe importante: o militante de esquerda acusado de racismo… também é negro.
Esse é o risco de permitir às pessoas que interpretem gestos e palavras em absoluto “freestyle”, sem qualquer materialidade, baseado na mais abstrata imaginação e na interpretação subjetiva de quaisquer intenções veladas. Chamar a polícia burguesa em meio a um congresso de professores, acreditando na mediação dos poderes burgueses, já é por si só um escândalo; porém, interpretar um gesto de “banana” como “racismo” demonstra o desastre que significa o identitarismo, que há muito vem destruindo por dentro as instituições do campo socialista.
Repito: ou combatemos o identitarismo ou ele vai corroer a esquerda até não sobrar mais nada.
A polêmica a partir das manifestações do humorista do Porta dos Fundos expõe de forma clara e didática a decisão essencial que caberá às esquerdas no futuro próximo, um embate que representa a própria sobrevivência de suas ideias. Não restará alternativa que não passe por uma decisão fundamental: ou mantemos nossas mãos atadas pelo identitarismo, fazendo o jogo das elites, dividindo a classe trabalhadora e debatendo costumes em posição prioritária ou partimos para a unificação das pautas da classe operária, aquelas que historicamente nos constituíram e que fazem – ao contrário do que a esquerda liberal que Gregório representa e apregoa – da luta de classes sua tarefa precípua e fundamental.
Para alguns, a defesa do humorista deveria ocorrer para não municiar a direita com um debate que nos desgasta. Penso diferente; esta questão não é, conforme alguns articulistas, um “tiro no pé” ou um fratricídio pois não se trata de “dividir a esquerda” com pautas secundárias, até porque é mais do que evidente que a esquerda já foi dividida de forma arbitrária para que, amansada e domesticada, tratasse de questões marginais, como os costumes, os gays, a visibilidade, a diversidade, os trans, os direitos de minorias, o racismo etc. Por certo que estes temas não são desimportantes mas, quando olhamos as origens dos dramas contemporâneos, percebemos que estão atrelados ao sistema de poderes burgueses que comanda o agir social. Desta forma, deslocar o discurso da esquerda para a marginalidade dos temas sociais tem a clara intenção de forçar o abandono da sua pauta mais radical: a luta de classes e o fim do capitalismo.
A manobra foi sendo silenciosamente construída pelo Partido Democrata americano como forma de criar uma esquerda mansa, a chamada esquerda “moderna”, uma esquerda “anticomunista”, que superou os embates contra a burguesia e procura a “conciliação” com o capital, envolvida pelo clima de “fim da história”. Todos sabemos que essa conciliação é impossível, e já temos décadas de evidências de que nesse embate a classe trabalhadora será sempre sacrificada. Mas, na sede do Império, era preciso criar a ilusão de um “atalho”, para que um único partido governasse, ilusoriamente dividido em duas facções – idênticas na essência e diferentes na aparência.
Não só fizeram isso com seu país, como também exportaram esta estratégia para sua região de domínio – o seu quintal. Não é à toa que os grandes think tanks imperialistas – George Soros, irmãos Koch, Fundação Ford, Fundação Gates, etc. – apostam e investem pesado em instituições do mundo inteiro cujas pautas são identitárias, porque isso força a criação de uma esquerda confiável, não combativa, não operária, sem o fervor anticapitalista e também porque sabem o quanto estes temas têm a potencialidade de dividir e enfraquecer a luta operária. Oferecem a coleira à própria esquerda para, por fim, controlá-la.
A ideia de que precisamos de defensores de pautas no Supremo Tribunal Federal é algo que deveria causar arrepios em qualquer um que admira o direito e que já teve a curiosidade de entender porque aquela senhora que segura as balanças está vendada. Para entender isso não é necessário muito esforço; bastaria lembrar o estrago irreparável que um juiz, representante da burguesia e defensor de uma pauta – a destruição do PT e da esquerda – fez na Lava Jato. E não esqueçam, que a extrema direita até hoje o defende exatamente pela sua parcialidade (e não apesar dela), como se fosse justo à um magistrado assumir a defesa aberta de um dos lados.
Não acredito na possibilidade da esquerda se manter relevante no século XXI sem que as pautas identitárias sejam expurgadas da linha de frente de suas demandas. Ou somos a resistência ao capitalismo decadente através da luta de classes ou é melhor desistir do sonho por uma sociedade mais fraterna e mais justa, onde as pessoas não sejam mais divididas por castas. Se não for pela radicalidade da luta anticapitalista então teremos que aceitar que um negro, gay, indígena, mulher ou trans apresentando o Fantástico – ou sentando numa cadeira do STF – já estará de bom tamanho.
No musical de 1956 “O Rei e Eu” (baseado numa peça homônima da Broadway), com Yul Brynner e Deborah Kerr, uma professora inglesa é chamada ao reino do Sião (atual Tailândia) para ser a professora escolhida dos 82 filhos do Rei, oferecendo a eles uma educação europeia e refinada. Por certo que o filme inteiro explora a tensão sexual entre a figura máscula de Yul Brynner (o cara que provou ao mundo que é dos carecas que elas gostam mais) e a delicada e sofisticada professora britânica Deborah Kerr (… que o Gregory Peck). Por certo que o filme estava anunciando a revolução que aconteceria nas décadas vindouras, com a progressiva emancipação das mulheres e o choque inevitável destas com os arraigados valores patriarcais. Por outro lado também inclui, como um “cameo” ideológico, um debate político deveras interessante.
Em uma das partes mais dramáticas do filme a professora faz uma manifestação pública em defesa de um casal que, ao se apaixonar, resolveu fugir do palácio. Ambos foram pegos pela guarda do castelo assim que se preparavam para fugir; ele morreu na fuga e ela foi detida. Acontece que a moça era uma das esposas do Rei e esta fuga determinaria que ela deveria ser chicoteada por alta traição. A cena é explorada pelo viés imperialista, onde a “barbárie” dos asiáticos do Sião era contraposta pelos valores humanistas da professora inglesa que, em um emocionado discurso diante de membros da corte e de serviçais ela demandava que a menina fosse libertada.
O Rei teve um acesso de fúria diante das exigências da professora, em especial quando esta o chamou de “bárbaro”. Ela acreditava que seus argumentos seriam fortes e convincentes o suficiente para mudar a decisão inicial do Rei. Entretanto, ele respondeu rispidamente a ela:
– Sou ou não sou o Rei? Serei traído em meu próprio palácio aceitando ordens de uma professora? Sou Rei, como nasci para ser, e o Sião será governado como eu quiser!!
Na versão de “Anna and the King”, de 1999, com Jodie Foster, o debate entre Anna e o Rei do Sião é ainda mais esclarecedor sobre as amarras a que um mandatário está preso.
– O que pensa… o que faz e como… e quando o faz, não são a mesma coisa. Se acredita que desejo executar esta garota… Mas agora, porque diz a corte que pode dizer ao rei o que fazer, eu não posso intervir como planejava. – lntervir? Depois de torturados? – Sim! Mas você, uma mulher e estrangeira, fez parecer que o rei está sob seu comando. Você me fez parecer fraco. É impossível pedir para que eu intervenha sem me comprometer! – Mas você é o rei… – E para permanecer assim, não posso enfraquecer a habilidade de manter lealdade…
Neste momento, mais do que a razoabilidade do pedido da professora estava em questão a delicada rede de poderes que sustentam uma nação. Na perspectiva do Rei, mais importante do que a justiça era manter a autoridade sobre seu povo. Se ela fosse perdida, talvez haveria muito mais mortes. A atitude da professora, por mais justa que fosse, colocaria em risco a autoridade suprema do líder do país. Assim, sua demonstração pública deixava o soberano sem saída: se revogasse a pena seria visto por seus súditos como um monarca frágil e manipulável.
O mesmo sentimento eu tive quando vi a defesa daquele famoso humorista para que o presidente escolha uma mulher negra como próxima ministra para o supremo. Por mais razoável que seja esta demanda por parte das mulheres e dos negros, um presidente não pode se submeter a esse tipo de pressão, em especial através do deboche e do escárnio. Fosse eu o mandatário do país subiria numa mesa e gritaria:
– Sou ou não sou o presidente? Serei traído em meu próprio palácio aceitando ordens de um humorista? Sou presidente, recebi 60 milhões de votos, e a indicação ao Supremo será como eu quiser, e não pela pressão de um comediante identitário na caça por “likes”!!
Gregório Duvivier é a mais perfeita explicação – existem outras – para o fracasso retumbante das esquerdas no Rio de Janeiro, fracasso esse que permitiu a ascensão da direita miliciana e dos candidatos de extrema direita evangélica. Sim, eu sei que há outros fatores relevantes, mas quando nomes como o de Márcia Tiburi assumem protagonismo político no PT da cidade isso é uma sinalização clara do drama que se abateu sobre a esquerda carioca, incapacitada de apresentar candidatos que representem a classe operária e suas demandas.
Gregório é o Luciano Huck da esquerda: rico, midiático, com sucesso profissional e oriundo de família burguesa, ele é um personagem facilmente identificado com a esquerda identitária do Brasil, e mais especificamente a esquerda do Rio de Janeiro. Enquanto Luciano faz assistencialismo barato e oportunista, arrancando lágrimas do público ao arrumar casas e carros de “eleitos”, Duvivier usa o identitarismo como forma de engajamento social, e isso explica sua atual defesa rasgada da nomeação de uma mulher negra ao Supremo Tribunal Federal. Ao lado disso, faz ataques explícitos ao Ministro Zanin por votos que não contemplam (no seu ver) sujeitos que, como ele, circulam no jet-set do Leblon e defendem pautas importadas do Partido Democrata americano.
“Maconheiro” assumido, fez dessa prática uma plataforma política, usando-a como emblema pessoal através das piadas que sempre faz sobre o tema. Entretanto, a despeito de serem questões respeitáveis, quando a cor e o gênero de uma ministra do STF, assim como a liberação do uso de drogas, se tornam plataformas mais importantes que as lutas da classe trabalhadora por moradia, alimentação, escola, e justiça social estamos diante de um problema grave, porque uma pauta periférica assume uma preponderância imerecida.
E veja; nada a reclamar de quem faz apologia da liberação da maconha – uma luta da qual eu me engajaria sem pestanejar – mas quando um humorista como Gregório Duvivier assume a condição de porta-voz e representante das demandas da esquerda usando essa bandeira isso se torna uma grave perversão do ideário da classe trabalhadora e os caminhos que ela pretende trilhar. Os recentes ataques ao portal 247, por meio do humor e do deboche – e aqui deixo minha defesa do deboche como ferramenta de crítica política – são movimentos claros em defesa do identitarismo como via de combate social. A insistência na estratégia de representatividade e visibilidade de grupos oprimidos persiste mesmo quando sabemos dos péssimos exemplos obtidos com esse tipo de política, em especial no quer diz respeito às indicações ao STF.
Joaquim Barbosa é o caso mais emblemático: negro e oriundo das camadas populares ele foi exaltado pela imprensa burguesa pela sua ação moralizante, devastadora e antipetista no Mensalão, o qual foi o grande tubo de ensaio para as jornadas de junho, a Lava Jato e os golpes contra Dilma e Lula. Hoje recolheu-se ao silêncio. Para além dele, as mulheres indicadas ao STF tiveram um comportamento tão ruim quanto o “representante negro”, basta lembrar os votos de Rosa Weber (“não tenho provas, mas a jurisprudência me permite”, ou “não concordo, mas voto pela colegialidade”) e o comportamento francamente golpista de Carmem Lúcia na prisão de Lula, agredindo despudoradamente a Constituição. O pior erro, nestes casos, é se surpreender com as ações desses ministros; basta lembrar o papel do STF no golpe de 1964 e na consolidação do golpe contra Dilma em 2016. É importante entender que tais personagens fazem parte da cúpula do poder burguês no Brasil, sem qualquer compromisso com as demandas de defesa do Estado democrático de direito e da constituição de 1988. Portanto, sabendo de qual classe eles são oriundos, é uma ingenuidade inaceitável acreditar que algo progressista possa brotar do Supremo Tribunal Federal. Ou seja, sua origem, cor e gênero não os impediram de sucumbir espalhafatosamente às pressões da burguesia que os domina, mastiga e engole.
Resta lembrar que o STF é um órgão que só se justificaria pela defesa da Constituição, nada além disso. Seus ministros não têm cargos representativos, como ocorre no legislativo e executivo. Assim sendo, a indicação a este cargo deveria levar em consideração tão somente a história pessoal do candidato nos debates jurídicos e constitucionais, e não por “advogar” para grupos e minorias, em especial quando ele próprio se beneficia das decisões. Por estas razões, acredito que a defesa de Duvivier de uma mulher negra para o STF terá como resultado o oposto do que deseja: exatamente por seu ativismo a indicação será vista com reserva, porque vai escancarar o fato de que não há real preocupação com o garantismo constitucional, mas com a mais pura e aberta defesa do identitarismo dentro do STF.
Certa vez reclamei com uma amiga americana dizendo que, apesar dos Estados Unidos serem os maiores consumidores mundiais de café, este produto era servido muito aguado, fraco. Sua resposta foi curiosa: “Nosso café não é fraco, o de vocês é que é excessivamente concentrado”.
Sim, era uma forma interessante de contrapor minha perspectiva. Quem determina a concentração “correta” do café? Por que alguém teria o monopólio sobre o gosto adequado do café, considerando as outras formas como inferiores? Por que insistimos em estabelecer universalidades – valores corretos e certos – em um mundo que cada dia mais nos fala de formas subjetivas de classificar beleza, relevância, significado, valor e até mesmo os sabores de café?
Minha tese é que a raiz da proteção que se dá às comunidades negras se baseia em culpa e preconceito. Ou seja: enfatizamos a proteção porque acreditamos na sua fragilidade, o mesmo que fazemos com as crianças. Camille Paglia ressalta a importância do conceito de “street feminism”, onde as mulheres são criadas para serem fortes, altivas, poderosas, e não protegidas por leis de excessão ou através de punições pífias contra quem as desmerece.
Posso entender a tendência a proteger quem nos parece fraco e débil, mas acredito que acima de proteger é preciso criar um olhar diferente sobre esses grupos, estimulando-os a valorar suas especificidades. Antes de criar uma redoma de proteção é preciso estimular um olhar sobre si mesmos que demonstre sua força, beleza e poder. Sem essencialismos…
Zanin fez votos técnicos e votos conservadores. Não há dúvida que os votos podem ser criticados sem pudor, pois desgostar das suas decisões não é absurdo. Absurdo mesmo é achar que Lula escolheria um Ministro do STF apenas por vaidade ou para marcar uma vitória simbólica contra Moro. Todavia, creio que julgar Zanin pelos votos dados até agora é excesso, ou vontade de atacar as escolhas de Lula.
É claro que Lula pode errar, e por certo que já cometeu erros nas suas indicações para o STF. Toffoli é o melhor exemplo. Apenas lembrem que os ministros mais progressistas são também lavajatistas, como Facchin e Barroso. Vale a pena ter um ministro “woke” que não respeita a constituição e promove golpes por ação ou inação?
Talvez o objetivo de Lula seja colocar um ministro no qual tenha profunda confiança, e que jamais participaria de uma farsa como o impeachment de Dilma e a prisão ilegal de Lula, mesmo ao preço de ter uma postura por vezes conservadora.
Minha dúvida é a seguinte: o que teria ocorrido com o espiritismo se houvesse optado por uma vertente científica – a vertente derrotada no final do século XIX, liderada por Angeli Torteroli, no enfrentamento com os místicos? O que teria acontecido com a “Doutrina dos Espíritos” caso tivesse aderido às concepções científicas da época, mantendo-se longe das percepções místicas e religiosas e tornando-se um ramo científico, positivista e experimental de investigação da vida e da comunicabilidade após a morte? Na minha humilde opinião esta escolha poderia ter produzido pesquisadores como os “Ghost Busters”, que se divertiriam fazendo experimentos em laboratórios para investigar fantasmas e mensagens do além, tendo quase nenhuma pervasividade entre a população.
O espiritismo assim desenvolvido seria um ramo quase desconhecido do conhecimento, como o são as ciências parapsicológicas. Ou seja: a vertente mística, cristã/católica e mediúnica do espiritismo, através do processo sincrético de adaptação à cultura brasileira, foi o responsável pela fantástica disseminação dessa mensagem. Todo mundo no Brasil conhece o espiritismo, conhece Kardec, conhece mediunidade e sabe o que é reencarnação. Pela mesma razão, a ligação da homeopatia com o espiritismo foi a responsável por manter a ideia do tratamento homeopático vivo na cultura – apenas porque na sua chegada ao Brasil esteve ligado ao espiritismo, mesmo que nada exista de necessário na conexão entre esses dois conhecimentos.
Desta forma, mesmo que seja justo discordar da forma como o Espiritismo se desenvolveu na cultura, sendo uma espécie de seita católica reencarnacionista e mediúnica, repetindo inúmeros defeitos e problemas das grandes religiões tradicionais (crendices, conservadorismo político, moralismo, conservadorismo de costumes, hierarquias, gurus, burocracia, culto às personalidades, etc.) ainda assim é correto dizer que estas foram as circunstâncias essenciais para a disseminação da mensagem espírita. Sua conexão com o cristianismo foi fundamental para garantir sua popularidade, mesmo que a visão kardequiana seja muito mais universalista – o que permitiria o espiritismo na China ou no Oriente Médio, já que não competem com visões religiosas tradicionais. Não fosse sua ligação com as vertentes mais místicas e a doutrina de Kardec jamais teria o sucesso que teve entre os brasileiros. Essa é uma das contradições mais interessantes para a abordagem espírita.
Muitos espíritas laicos, que combatem a vertente mística do espiritismo, negam a imensa maioria dos livros psicografados como embustes, incluindo toda a obra de Chico Xavier, “e não colocam nada no lugar”. Entretanto, cabe a pergunta: por que deveriam colocar “algo” no lugar? Se acham que é um embuste, por que razão deveriam colocar alguma coisa no lugar de erros, fantasias e até fraudes? Como provocação: “eles criticam ferozmente a TerraPlana mas não colocam nada no lugar”. Ora, colocam sim: o Globo terrestre, assim como as pessoas que combatem a mediunidade de Chico Xavier dizem que os seus livros são obra dele mesmo, e que os espíritos que assinam suas obras são seus tímidos alteregos.
Para outros “A ciência dentro do espiritismo tem um propósito final claro, que é a transformação moral das pessoas”. Sério? Por que deveria ser assim? Desde quando a ciência tem um “objetivo”? Por que deveríamos colocar na pesquisa da sobrevivência da alma um objetivo último de caráter moral? Imagine alguém afirmar que: “a lei de gravitação de Newton tem como finalidade última o aprimoramento moral dos indivíduos e uma vida centrada na caridade”. Não soaria ridículo? Pois assim é… e na minha perspectiva a vida após a morte não é uma pesquisa que objetiva mudar a moral de qualquer um!!!
Para mim, por exemplo, a pesquisa no espiritismo serviria tão somente para mudar a nossa percepção de realidade, acrescentando uma nova dimensão para entender o significado último da vida – caso ele exista – e que não precisa ser utilizada de forma moralizante. Por acaso as descobertas de Darwin serviriam a algum propósito nobre, como “melhorar o mundo”, ou “transformar moralmente” a humanidade? E Freud? E Oppenheimer? Estavam em busca da “bondade” ou da suprema “fraternidade”? Por que achamos que o objetivo precisa ser melhorar ou fazer evoluir a humanidade? Por que não poderia o espiritismo ser um ramo da ciência que procura desvendar este mistério, sem compromissos de caráter religioso, moral, ético, etc.?
Comparo o desbravamento da vida após a morte com a conquista espacial, ou a travessia do Atlântico pelas naus no fim da idade média. Por esta razão, “o conhecimento do outro mundo só se justifica pela utilidade em tornar alguém melhor” não faz sentido algum para mim. No meu entender a descoberta da América, da rota das Índias, ou da vida em Marte não é para trazer a transformação moral da humanidade, sequer para transformar o caráter dos sujeitos humanos, mas tão somente para alastrar o conhecimento humano sobre um campo até então obscuro e misterioso.
Para finalizar, combater os aspectos religiosos do espiritismo é um objetivo nobre. Alguns podem não concordar, mas isso não retira desse específico viés a sua importância. Nada há de necessariamente raivoso nisso. Essa visão teria a mesma função que o combate à politicagem contida nas decisões de juízes, ou à contaminação de ideologias sectárias em organizações que se propõem universalistas. Não se trata, portanto, de “combater por combater”, mas por entender que os aspectos religiosos e místicos contidos no espiritismo são elementos artificiais, enxertados na prática espírita, não contidos na proposta original da doutrina e que não estão em sintonia com a perspectiva laica que Kardec sempre tentou oferecer à doutrina dos espíritos. Claro que pode existir raiva e outros sentimentos menores na iconoclastia de figuras espíritas, mas esta busca, por si só, não pode ser penalizada.
O poema “Ithaka” de Constantine Cavafy, foi escrito no início do século passado, em 1911, e oferece a perspectiva de que deve haver, em nossas ações cotidianas, a supremacia da viagem sobre o destino. Ithaka simboliza o objetivo supremo que todo sujeito procura durante sua existência. Cavafy faz uma alusão à lendária viagem de retorno de Ulisses, rei da ilha de Ithaka, onde sua esposa Penélope e seu cão Argos o esperavam após a vitória dos gregos sobre os troianos – que Homero retratou em “A Odisseia”. O poema se refere ao percurso pessoal e subjetivo que cada um de nós empreende durante sua vida e sugere que procuremos encontrar durante a permanência na Terra nossa própria Ithaka, o objetivo supremo, que é uma forma de garantir sentido à nossa trajetória pelo planeta. O poema de Constantine, um grego radicado na Inglaterra, ficou tão conhecido que foi recitado no funeral da ex-primeira dama americana Jacqueline Kennedy Onassis.
Ithaka (e mantenho aqui a grafia original) é também o nome do documentário recentemente lançado que trata da relação de John Shipton com seu filho famoso, Julian Assange, preso da penitenciária londrina de Belmarsh, onde aguarda sentença de deportação para os Estados Unidos. O filme teve sua apresentação pública ontem na minha cidade e contou com a presença de John Shipton, personagem central do filme, e aborda as peripécias deste australiano de 76 anos que lidera no mundo inteiro uma campanha para a libertação do seu filho, editor chefe do Wikileaks, que denunciou os crimes de guerra dos Estados Unidos no Afeganistão, Iraque e na prisão de Guantánamo no Caribe. Mostra os detalhes da sua vida comum, seu temperamento taciturno e reservado, a relação com os filhos e as conversas com a nora Stella Morris, mãe dos dois filhos de Julian.
Evidentemente existem várias formas de ver este documentário, dependendo da ótica que você escolhe para captar as imagens na tela à sua frente. A mais evidente maneira é olhar para a luta empreendida pelos ativistas do mundo todo pela liberdade de imprensa, pelo direito de expor os crimes contra a humanidade cometidos pelos poderosos, em especial aqueles que controlam as leis, a mídia, a propaganda, as reservas de recursos naturais, os territórios e o comércio. O filme aborda isso de uma maneira bem clara, mostrando que nenhuma acusação contra Julian sobrevive a uma análise baseada nas leis de proteção das fontes e da liberdade de imprensa – em especial as leis americanas. Fica evidente que a prisão de Julian Assange cumpre um objetivo claro: humilhar publicamente alguém que denunciou a barbárie do imperialismo, castigando ao extremo aquele que ousou enfrentar os poderes imperiais e dando um recado a toda a imprensa mundial: não há espaço para criticar os poderes da polícia do planeta; quem assim o fizer será submetido à todas as sanções possíveis, perseguições, ataques, destruição da honra, mentiras e – se for possível – a própria morte. Em verdade, a tortura realizada contra Julian Assange pretende condená-lo à pior morte: a loucura e/ou a depressão pelo isolamento e pelo absurdo das acusações às quais é submetido. Como o personagem Josef K., de Kafka, os supostos crimes cometidos são o que menos importa; o que vale é punir por razões aleatórias e fabricadas qualquer sujeito que ameace os interesses americanos. O “lawfare” contra Lula mostrou em nível local o quanto os interesses geopolíticos de dominação conjugados com a corrupção do judiciário são capazes de servir aos mais espúrios interesses do imperialismo.
Outra forma de ver o documentário é pela exposição da fragilidade crescente dos governos europeus, absolutamente controlados pela política externa americana, não apenas nos aspectos políticos e bélicos (a guerra contra a Ucrânia é um claro exemplo) mas também o poder que a máquina publicitária americana exerce sobre a opinião pública e o próprio judiciário. Fica evidente o quanto os juízes britânicos são meros marionetes comandados pela mão pesada dos americanos, que são quem está de fato julgando este caso, a partir da sua visão persecutória e imperialista. Não há qualquer autonomia para julgar Assange – tanto quanto não havia para os juízes do Iraque ocupado para julgar Sadam Hussein – o que nos demonstra que a tão propalada “liberdade” dos países do “primeiro mundo” nada mais é que uma peça de propaganda, uma mentira mil vezes contada, que apenas serviu para criar a fantasia do ocidente como um espaço de liberdade de expressão e de abertura política. Estas farsas, esses simulacros de democracia, estão sendo aos pouco desvelados e Julian Assange está recebendo esta cruel punição exatamente por se postar na linha de frente nas denúncias, apontando seus dedos para os crimes hediondos cometidos pelos Estados Unidos nas guerras em que se envolveram.
Porém, há uma outra forma de ver o filme, provavelmente a mesma que inspirou John e seu filho Gabriel (meio irmão de Julian) para colocar no documentário o nome de “Ithaka”. O personagem central da película é John Shipton e bem no princípio do filme ele se irrita quando questionado sobre o que o levou a ficar separado do seu filho dos 3 aos 20 anos. Certamente tem a ver com a separação da mãe de Julian, mas isso não fica claro. Ficou incomodado quando foi perguntado sobre o diagnóstico de Asperger que seu filho Julian tem, dizendo “ele é o que ele é”. John Shipton demonstra durante todo o documentário que é um sujeito pacato, nascido na Austrália, sem vinculações políticas explícitas, com um caráter evidente de misantropia bem humorada, reservado, quieto, pouco afeito a conversas e arredio à publicidade e aos jornalistas. Ele é um dos mais perfeitos exemplos de um sujeito jogado involuntariamente – e totalmente despreparado – no olho de um furacão que está envolvendo os próprios princípios democráticos mais basilares da cultura ocidental: a liberdade de imprensa e o direito de denunciar os crimes cometidos pelo Estado – e pelo Império.
John é a verdadeira personificação do sujeito anônimo que subitamente ganhou notoriedade internacional. No seu caso isto ocorreu pela prisão criminosa de seu filho, o que fez um pacato “Zé Ninguém” de mais de 70 anos ser alçado ao posto de herói por multidões. No meio do filme ele diz a frase que mais me tocou, e tenho certeza que muitos que viram o filme também sentiram a mesma emoção que eu naquela simples resposta a um jornalista, a qual continha o cerne de sua jornada em direção à sua Ithaka pessoal. Quando instado a falar o que o movia nessa aventura ele respondeu “Porque sou pai, e isso é o que qualquer pai faria por seu filho”. Ou seja, John provavelmente continuaria indefinidamente em sua vida pacata na Austrália, construindo casas e se alegrando quando as pessoas se mudam para elas. Jamais pensaria na tarefa nobre de defender a causa da liberdade de imprensa ou de combater os poderes abusivos do imperialismo em tantas partes do mundo. Continuaria a ser o sujeito ranzinza e pacato que sempre foi, cultivando seu jardim e cuidando de sua filha pequena. Porém, tudo indica que foi convocado pela deusa “Álea” – a divindade dos fatos aleatórios – para ser o divulgador da causa do seu filho, o mais famoso preso político do mundo. Talvez ele fosse o mais despreparado de todos os humanos para empreender esta viagem tão árdua, difícil e cheia de armadilhas. É possível, entretanto, que esta seja a verdadeira razão oculta da odisseia que transformou sua vida, fazendo do trajeto inusitado que surgiu algo capaz de dar verdadeiro sentido à sua existência. Por muitas vezes eu me coloquei no lugar de John Shipton, pensando o que eu faria em seu lugar, convocado a combater os gigantes macabros que tentam destruir seu filho e – acima de tudo – exterminar o que resta de liberdade de expressão no mundo. Muitas vezes pensei se teria a mesma coragem para denunciar a barbárie que testemunhei. Uma pergunta de difícil resposta; ou talvez a resposta mais fácil.
John Shipton em P. Alegre
Ao final da apresentação do filme pensei em perguntar para John como um pai se sentia vendo seu filho preso, doente, torturado e injustiçado. Quais são as emoções diante da impotência de testemunhar a violência do Estado contra alguém cujo crime foi revelar a verdade. Preferi me calar porque sabia que essa pergunta pouco poderia revelar objetivamente, porque só calçando os seus sapatos e caminhando o percurso tortuoso que ele trilhou para saber a dor de esperar a volta de um filho injustamente acusado, inocente e preso por ser bravo e combativo. Coube ao meu filho Lucas, que me acompanhou ao evento, pedir que ele recitasse a poesia Ithaka, que deu nome ao documentário, e pedisse para que ele nos dissesse “quanto tempo temos e quanto de esperança podemos carregar ao peito”.
Sua resposta foi até óbvia: ele se mantém esperançoso e seu filho “sofre, mas resiste”, e que o imenso apoio internacional que está recebendo de tantos povos, nações e instituições é uma luz de fulgurante esperança de que Julian um dia poderá voltar para casa – ou para o Brasil, conforme o convite do próprio presidente Lula. A seguir recitou em inglês o poema Ithaka, cuja tradução transcrevo abaixo:
Se partires um dia rumo a Ítaca, faz votos de que o caminho seja longo, repleto de aventuras, repleto de saber. Nem Lestrigões nem os Ciclopes nem o colérico Poseidon te intimidem; eles no teu caminho jamais encontrará se altivo for teu pensamento, se sutil emoção teu corpo e teu espírito tocar. Nem Lestrigões nem os Ciclopes nem o bravio Poseidon hás de ver, se tu mesmo não os levares dentro da alma, se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo. Numerosas serão as manhãs de verão nas quais, com que prazer, com que alegria, tu hás de entrar pela primeira vez um porto para correr as lojas dos fenícios e belas mercancias adquirir: madrepérolas, corais, âmbares, ébanos, e perfumes sensuais de toda a espécie, quanto houver de aromas deleitosos. A muitas cidades do Egito peregrina para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente. Estás predestinado a ali chegar. Mas não apresses a viagem nunca. Melhor muitos anos levares de jornada e fundeares na ilha velho enfim, rico de quanto ganhaste no caminho, sem esperar riquezas que Ítaca te desse. Uma bela viagem deu-te Ítaca. Sem ela não te ponhas a caminho. Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre. Tu te tornaste sábio, um homem de experiência, e agora sabes o que significam Ítacas.
Há muitos anos fui convidado para participar de um programa de rádio na condição de obstetra, para debater com outros profissionais um tema muito importante: gestação na adolescência. Havia na mesa sociólogas, feministas, jornalistas e eu, no papel do médico. Lembrei disso a propósito de uma crônica de Juremir Machado da Silva sobre gravidez na menopausa e a perversidade capitalista implícita nas propostas de retardar o projeto das mulheres de terem filhos em nome de uma maior produtividade nas empresas. Voltando ao programa de rádio, depois de longos prolegômenos, entremeados com propagandas do “Chá Jamaiquinha” e do “Coscarque”, fui instado a responder a primeira pergunta do debate que, por óbvio, não podia ser outra:
– Doutor, qual a idade ideal para a mulher ter seu primeiro filho?
Lembrei imediatamente da piada de Woody Allen em um conto seu no qual um homem simples da roça, que precisava encontrar Abraham Lincoln para livrar seu filho da forca, ao se aproximar do presidente nervosamente pergunta: “Qual o tamanho ideal das pernas de um homem”, ao que Lincoln responde “Ora, o ideal para que alcancem o chão”.
Diante da pergunta da jornalista minha resposta foi igualmente incontinenti: “A idade ideal para ter o primeiro filho é por volta dos 15 anos”. Todos na sala ficaram parados, em silêncio constrangido; já eu me mantive com a mesma cara de tolo que me caracteriza. A jornalista gaguejou, segurou nervosamente o papel do roteiro com as duas mãos e repetiu a inquirição:
– Mas, mas… doutor, com 15 anos ela é apenas uma adolescente. Esse programa foi criado especificamente para debater isto, que consideramos um mal social. O senhor não acha?
Ofereci um sorriso tímido e tentei responder de forma o mais didática e simples possível.
– Ora, eu fui convidado para debater na perspectiva da mulher enquanto ente biológico. As questões sociais devem ser debatidas por sociólogos, feministas, antropólogos, políticos, etc. Minha perspectiva social sobre o tema é igual a de qualquer outra pessoa, e só estou aqui por ser obstetra. Do ponto de vista obstétrico – portanto, nos aspectos orgânicos e psíquicos – posso dizer que 15 anos é uma boa idade porque foi o tempo escolhido para a primeira gestação em 95% do tempo em que habitamos o planeta. Não à toa ainda hoje celebramos a “festa de debutantes”, um ritual de origem pagã elaborado para apresentar à sociedade as meninas que já haviam menstruado, estando, portanto, aptas para o casamento e sua óbvia consequência: filhos. Assim sendo, a época biologicamente mais bem estudada e avaliada durante muitos milênios foi essa. Ela, aliás, tem várias vantagens: força, juventude, criatividade, energia, etc. Além disso, na ocorrência de um aborto ou uma perda neonatal, a pouca idade oportuniza décadas de novas possíveis tentativas. E por fim, quem procria cedo tem muito mais novas chances para se tornar avó – e até bisavó – que nos tempos primevos da nossa espécie, o que oferecia uma garantia acessória fundamental para a sobrevivência de crianças. Isso tanto é verdade que sua existência no núcleo familiar foi chamada de “efeito avó”, que pode estar na raiz do fenômeno da menopausa – que oferece a chance de não poder mais ter filhos e com isso ter tempo para cuidar de netos. E antes que me perguntem, eu disse para minha filha tomar precauções e só engravidar quando fosse conveniente, porque eu também vivo em uma sociedade capitalista onde o sucesso profissional tem uma enorme relevância. Porém, ela também foi bem orientada sobre todas as alternativas e o preço alto de adiar indefinidamente o projeto de ter filhos. Mas lembrem: minha filha recebeu essas orientações do pai, não do médico.
Sei que as pessoas naquela mesa desejavam penalizar o desejo juvenil de ter filhos. Queriam combater a “gestação extemporânea” e abrir guerra contra a “gravidez indesejada”, mas achei que valia a pena mostrar que a estrutura social, em nome da produção e do progresso individual, penaliza as gestações que ocorrem cedo na vida, criminalizado este desejo, apenas porque não se adapta a um modelo de sociedade voltada à produção e ao sucesso pessoal. As feministas e jornalistas que estavam na sala se escandalizaram e não me perdoaram por expressar esta visão contra hegemônica. Nada que eu já não estivesse acostumado.
Meu pai visitou a França pela primeira vez em 1964, exatamente na época em que um golpe militar acontecia no Brasil. Foi enviado pelas centrais elétricas do Rio Grande do Sul – a CEEE – para estudar na escola de Gurcy-le-Châtel, a convite da Eletricité de France. Para um funcionário de nível médio, e pertencente à classe média de uma cidade provinciana como Porto Alegre, isso era um acontecimento espetacular, fora do esperado. Nos anos 60 uma viagem à Europa era considerada algo reservado aos ricos, aos milionários, e jamais ao acesso de um mero professor de eletrotécnica.
Esse fato, a viagem de 6 meses do meu pai à França, foi o grande acontecimento da minha infância. Enquanto ele esteve fora, nossa família – minha mãe e meus dois irmãos – esteve na casa da minha avó, que há pouco havia ficado viúva. Lembro de perguntar todos os dias “Vovó, é hoje que meu pai volta?” e via ela mostrando nos dedos o quanto faltava para sua chegada. Quando o vi retornando de viagem, chegando em um fusca-taxi no portão da velha casa no bairro Moinhos de Vento, lembro bem de tentar segurar sua mala – estilo Mazzaroppi – e escutar suas palavras: “ela é pesada demais para você”. Fiquei com a imagem do meu pai forte o bastante para carregar aquela mala, e também a sua família inteira. O resultado prático mais evidente deste retorno foi o nascimento do meu irmão caçula, que veio na esteira da recuperação do tempo perdido.
Minha mãe já era uma francofílica – era assim que eu a chamava – há muitos anos e tinha uma fantasia vibrante sobre a cidade de Paris. Era uma dona de casa que tinha livros em francês na estante de casa e um “Petit Robert” todo rabiscado, onde aprendia a língua de Victor Hugo por conta própria. Era capaz de descrever as ruas de Paris pela memória das fotos que meu pai trouxera na bagagem pesada. Já havia visitado centenas de vezes a Avenida dos Campos Elísios, a Torre Eiffel, o Père Lachaise, o túmulo de Kardec, a Ilha da Cidade e a Notre Dame de Paris apenas pelas palavras doces e requintadas do meu pai. Era seu sonho juvenil que se manteve vivo durante a vida inteira
Em meados dos anos 70 meu pai foi chamado para um novo curso, na mesma escola em Gurcy-le-Châtel. Desta vez economizou suas poucas economias para levar minha mãe assim que o curso tivesse findado, para passar com ela duas semanas na “cidade luz”. Hoje eu posso apenas imaginar o que minha mãe sentiu ao fazer esta viagem. O sonho de uma vida inteira, todas as suas fantasias, os lugares, os bares, as alamedas e ao lado do grande amor da sua vida. Lembro de dizer ao meu pai do valor desta viagem para uma pessoa simples como ele, ao que ele me respondeu: “Quando vocês tiverem a minha idade uma viagem como essa será tão simples quanto ir até o Rio de Janeiro”. Ele anteviu a “aldeia global” de MacLuhan, e o encurtamento das distâncias que aconteceria.
Minha mãe voltou exuberante de Paris. Adorava me contar os passeios, os lugares, as esquinas (Saint Michel – Saint Germain), os cafés, a ponte Alexandre III, o Sena. Continuou durante toda a sua vida apaixonada por aquela cidade e pela cultura francesa. Quando tive aulas de francês na escola ela corrigia meus cadernos e me ensinava a pronúncia das palavras. Certa vez, eu mostrei a ela as minhas aulas sobre colóquios simples e cotidianos em francês e ela resolveu “ajudar”, desenhando personagens de palitinhos que conversavam entre si. Quando, ao final do mês, a professora pediu os cadernos de todos os alunos para avaliar ela falou:
– Eu ia elogiar os cadernos de vocês todos, mas quando vi o caderno do Ricardo eu percebi que nunca havia visto algo mais bonito em toda minha vida.
Fiquei vermelho e constrangido. Por minutos fiquei brabo com a minha mãe por me deixar tão encabulado, mas não tive coragem de confessar que a ideia – e os desenhos – eram dela. Afinal, minha mãe merecia que seu amor pela França e seu idioma recebesse ao menos essa singela homenagem da minha professora.