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Tiro no Pé

A deputada Érika Hilton (PSOL-SP) propôs uma emenda ao PL da Misoginia determinando que “O exercício da liberdade de expressão, de manifestação do pensamento, de convicção religiosa, filosófica, científica, acadêmica ou política NÃO constitui causa de exclusão da ilicitude”Ou seja: mesmo que você traga uma perspectiva filosófica, científica ou religiosa, se for caracterizada como “misoginia” (por quem?) isso não constituirá exclusão de ilicitude. Não adianta estar embasado, ter conteúdo de fé ou ser um ensaio filosófico: se falar “mal” das mulheres será considerado crime. Imagine a situação de um pesquisador que analisa a orientação espacial de homens e mulheres e descobre que mulheres têm dificuldades em grandes espaços, e isso explicaria a dificuldade com mapas ou para fazer baliza. Basta escrever um artigo científico que mostre essa deficiência nas mulheres e pronto: você é um criminoso misógino. E, sim, pode escrever o que quiser sobre os homens; críticas ao patriarcado são até mesmo estimuladas

Vemos entáo que, através dessa aberração jurídica, a super poderosa defensora das mulheres não esconde que seu objetivo é violar frontalmente a Constituição, criando uma quimera que abre as portas para o mais abjeto supremacismo. Assim como faz a Alemanha, ameaçando colocar na cadeia por até 14 anos qualquer cidadão que ousar questionar a existência do Estado terrorista de Israel, essa parlamentar quer criminalizar críticas a um gênero específico – as mulheres – mantendo os homens livres para serem esculachados e criticados. O nome disso é supremacismo e, assim como o sionismo, que se baseia no hocausto para se blindar de ataques, faz crer que o patriarcado pode justificar a proibição de críticas. Entretanto, criar leis e excepcionalidades jamais vai atuar em favor das mulheres e, pior, vai manter a ideia de que mulheres previsam ser eternamente tuteladas.

“Sim, mas qual a diferença das leis existentes que criminalizam o racismo?” Ora, talvez nenhuma, e por isso mesmo deveriam ser ambas combatidas. Censura é censura, para comunistas, cristãos, negros, sionistas, brancos, gays e mulheres. Ou a sociedade aceita que pessoas pensem diferente de nós ou então teremos estabelecida uma franca ditadura do pensamento. O Estado vai determinar o que você pode pensar ou dizer. Liberdade de expressão implica o direito de idiotas falarem abertamente sobre sua idiotice, mas acima de tudo, determina que as pessoas com quem não concordamos possam se expressar livremente. Não existe censura do bem!! Mais cedo ou mais tarde a censura se volta contra os oprimidos. Censurar críticas às mulheres é um tiro no próprio pé, e não ajuda as mulheres. Censura, por melhor que sejam as intenções, nunca funciona!!

Todavia, no atual contexto, duvido muito que a esquerda compreenda o valor do combate à censura. A esquerda se tornou autoritária, cega e surda aos desejos do povo. Por isso sceitou em suas fileiras esse discurso e essa postura identitárias, que criam divisões e isolam cidadãos em nichos, criadas em torno de suas identidades, fragmentado a classe operária e enfraquecendo as lutas sociais. Criar uma blindagem de censura para qualquer discurso que possa criticar as mulheres não vai diminuir nenhuma morte, mas vai tornar ainda piores as relações de gênero. Aviso: o resultado do proibicionismo e do punitivismo é sempre paradoxal. Ao contrário de proteger as mulheres estas medidas tendem a criar ressentimento e desconfiança. Ou seja, será um desastre para as próprias mulheres, e vai prejudicá-las ao invés de protegê-las.

PS: será essa crítica usada para me acusar de misoginia? Como saber?

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Minimalismo

Minimalismo, no meu conceito, é um estado de espírito, uma forma de encarar a vida e o consumo, não um conjunto de regras para serem cumpridas ou levadas ao cabo, como se fosse a “religião da escassez”. Baseia-se na regra dourada de Sêneca, que afirmava que “a pobreza não surge da falta de recursos, mas da multiplicidade dos desejos”. Para haver a dor da falta há que primeiro existir o desejo de possuir.

Somos seres constituídos de forma distinta e complexa, e em nossa arquitetura psíquica dormitam falhas e vazios que, muitas vezes, preenchemos com “cargo”, coisas, badulaques, matéria, comida e emoções. Entretanto, o que te faz falta pode ser irrelevante ao outro. Sempre vai haver alguém que sente mais a falta de algum conforto moderno, algum bem material e mesmo um afeto banal, e não há dúvidas que muitos vão desapegar de quase tudo – até dos amores, enquanto outros ficarão eternamente encarcerados pela penúria.

Mesmo que eu entenda a dificuldade de largar algo, como uma roupa, um carro, um livro, um eletrônico, acredito ser ainda mais necessário – e muito mais desafiador – o desapego das vaidades e das disputas de ego, pois este é o mais complexo de todos os minimalismos. Livrar-se da falsa imagem de si mesmo, desapegar-se do seu orgulho rastejante, abrir mão das vaidades oportunistas são formas fundamentais de retirar matéria acumulada das próprias costas, cujo peso faz atrasar nossa verdadeira missão.

O verdadeiro minimalista não se interessa pelos bens alheios e não faz julgamentos sobre o que é necessário, útil ou adequado aos outros. Espera-se dele que seja minimamente responsável pelas escolhas que faz, para si mesmo e para o planeta.

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Maturidade

Baruch (Benedictus, depois da excomunhão judaica) Espinosa foi um pensador holandês do século XVII de extrema relevância, fazendo parte do grupo dos grandes racionalistas, onde constam Leibniz e René Descartes. Ocupou-se da teologia e da política, tendo abordado ambos os temas em seu grande livro “Ética”.

Espinosa, entretanto, morreu aos 44 anos de idade, vítima de tuberculose. Homem simples, sobrevivia como relojoeiro e polidor de vidros. Renunciou aos prazeres da vida em nome das virtudes do conhecimento, em especial depois de sua trágica e injusta excomunhão da vida judaica.

Eu ainda me lembro muito bem dos meus 44 anos, e nem faz tanto tempo. Entretanto, não recordo dessa idade com saudade, pois percebo o quanto minha mente amadureceu nos últimos 15 anos. Quando penso em sua partida prematura, às vezes me pergunto o que Espinosa teria escrito aos 60 ou 70 anos. Se aos 44 conseguiu deixar sua marca de excelência no mundo do pensamento, o que mais poderia ter feito se mais tempo estivesse entre nós?

Normalmente a obra “Interpretação de Sonhos”, de Sigmund Freud, escrita em 1900, é reconhecida e apontada como o divisor de águas de um período pré-psicanalítico anterior à sua obra centrada na psicanálise. Quando a escreveu Freud tinha…. 44 anos.

Assim, toda a construção da teoria psicanalítica, feita por um dos maiores gênios da humanidade, surgiu após sua maturidade, alcançada depois dos 44 anos, idade com a qual outro gênio, algumas centenas de anos antes, nos abandonava.

O que teria escrito um velho Espinosa? Nunca saberemos, mas certamente seria ainda mais profundo e maduro.

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Sobre botes em oceanos revoltos

Vez por outra aparecem matérias – em geral sensacionalistas e com relatos anedóticos – a respeito de partos domiciliares planejados e até episiotomia, com a clara intenção de criticar os primeiros e exaltar a necessidade da segunda.

Não há dúvida de que, procurando bem, você pode encontrar artigos pequenos e sem relevância autoritativa para questionar, criticar ou exaltar qualquer coisa, em especial procedimentos médicos. Pode-se criar e desfazer gráficos de morbidade com relativa facilidade, bastando para isso torturar as estatísticas para que falem o que desejamos ler. O estado da arte, entretanto, é da qualidade e segurança do atendimento domiciliar e da inutilidade – e mais ainda, o efeito deletério – das episiotomias quando aplicadas como procedimento de rotina durante a assistência ao parto. Isso é o que – neste momento da história – nos fala a “Saúde Baseada em Evidências”.

Entretanto, esse debate só faz sentido se tivermos noção de que a ciência não se comporta como um bote que se move em um lago plácido e imóvel usando as evidências e provas como remos. Muito pelo contrário: o bote está em alto mar, sendo jogado para todos os lados pelo vento das energias culturais, equilibrando-se sobre gigantescas correntes oceânicas, as quais são comandadas pelo capitalismo e pelo patriarcado, as duas principais forças a movimentar as águas dos comportamentos, mas também de dados, pesquisas e estudos.

Desta forma, é lícito entender que episiotomia e parto domiciliar NÃO são debates exclusivamente médicos, mesmo que a medicina e a obstetrícia possam fazer ciência com estes eventos. Em verdade, eles são enfrentamentos de ordem FILOSÓFICA, com algum embasamento científico e consequências médicas.

A origem da disputa entre estas vertentes não está nos gráficos de morbimortalidade materna e perinatal, mas na forma como a sociedade enxerga a função social e a autonomia das mulheres sobre seus corpos. Todo o arcabouço científico é produzido A PARTIR das visões filosóficas primordiais que estabelecemos sobre esse tema central, e só depois disso as pesquisas se moldam para atacar ou refutar estas premissas.

A simples pesquisa sobre episiotomia e parto domiciliar já denuncia um preconceito que nos obriga a perguntar: por que é necessário debater sobre a integridade física de uma mulher ou sobre seu direito de ser assistida onde desejar? Por que é claro e nítido que nenhuma pesquisa assim seria feita com homens? Por que achamos justo questionar direitos humanos reprodutivos e sexuais básicos das mulheres, e jamais dos homens?

A medicina jamais será a linha de frente das modificações na atenção, pois que apenas reflete, dissemina e amplifica valores profundamente relacionados à nossa estrutura social.

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