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Lacre

Testemunhamos nos últimos tempos que a política virou guerra de lacração, e que a verdade não é mais medida pela comprovação dos fatos ou pela capacidade de previsão dos fenômenos, mas por qualquer manifestação que possa produzir inúmeros likes e visualizações – ou pelo menos maior do que aquelas do adversário. Acima de tudo, está cada vez mais claro que a verdade é insuficiente como ferramenta de combate. Quem pensa o contrário disso adota o que alguns pensadores chamam de “supremacismo da razão“: a ideia de que uma postura racional é superior e capaz de dar conta das mentiras que se ocupa em atacar. Reconhecer os limites da verdade não significa unir-se aos inimigos na produção de mentiras, farsas, ciladas ou versões adulteradas de fatos históricos, mas entender que apenas desmentir tais narrativas fraudulentas não basta para produzir convencimento.

Essa é a verdade; somos seres apenas superficialmente racionais. Nossa razão é uma fina e diáfana película a cobrir as ancestrais camadas de crenças e temores que nos constituem. A verdade, por si só, não consegue dar conta das emoções que sustentam nossas convicções mais profundas. Por isso, mesmo que hoje em dia seja fácil e rápido o acesso a verdades bem estabelecidas – como a esfericidade do globo onde vivemos – existem aqueles que acreditam em perspectivas mais fáceis para a tradução do mundo. A razão para isso é que estas perspectivas irracionais nos oferecem atalhos entre a realidade aparente e sua estrutura última, sem que seja necessário o entendimento dos intrincados caminhos que os unem. Entretanto, como diria Karl Marx: “se a aparência e a essência das coisas coincidissem, a ciência seria desnecessária”. É muito mais fácil acreditar que o político com o qual não simpatizamos é um ladrão do que tentar entender a intrincada rede de pressões e concessões às quais eles são submetidos.

Portanto, não basta atingir a racionalidade dos sujeitos sociais e contrapor a onda de mentiras com as versões lógicas e verdadeiras; também não basta desmascarar as falsidades e fake news com torrentes de acertos; é preciso tocar as emoções, a alma, os sentimentos, pois que estes são muito mais intensos e calorosos do que a frieza do real. Mais do que uma batalha por likes, “humilhações” e “atropelamentos” virtuais, é preciso falar a linguagem do povo, de suas necessidades, com a sua língua, com seus trejeitos e sotaques, direcionando nosso discurso para dar conta de suas específicas percepções. Por esta razão eu não assisto às mentiras que chegam de um lado, mas também não me entusiasmo com o contraponto oferecido pelo nosso campo, porque sei que estas manifestações apenas convertem os já convertidos. Essa guerra em nada nos ajuda: para avançar precisamos bem mais do que isso.

Não consigo imaginar um único fascista que tenha mudado de opinião após escutar os argumentos que apresentam a verdade dos fatos. Ninguém. Esse discurso converte quem já se converteu, mas é incapaz de mudar, através da razão, crenças adquiridas fora dela. Ou seja; não é possível mudar uma visão irracional usando argumentos racionais. A esquerda deveria parar de acreditar na ilusão de que “lacração de redes sociais” é capaz de produzir efeitos práticos na realidade.

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Partus mutandis

Eu creio que hoje estamos vivendo o “Império do Imediatismo”. Nas conversas diárias as mensagens que ocorrem no ambiente da Internet precisamos ser concisos ao extremo e, quando possível, acrescentar um recurso qualquer que cative a atenção. Antes do advento das redes sociais tudo o que tínhamos para a troca bidirecional de ideias eram os “list servers”, as listas de discussão através de e-mail. Naquela época, para debater os dilemas do parto e nascimento e a violência obstétrica, só tínhamos o texto e seu conteúdo, o que nos forçava a pensar e resolver estas questões através da nossa capacidade racional. Hoje o esforço é por convencer; queremos derrotar os adversários e não pensamos duas vezes para usar recursos extraordinários para derrotar quem nos desafia – as dancinhas do TikTok, a retórica, as imagens, as fake news, os memes. Recursos para impactar e sentir, e não para pensar

Lembro que quando apresentei o Power Point ao meu pai ele me disse “Muito legal, mas cuidado. Ao fazer uma palestra esses recursos roubam a atenção e colocam você em segundo plano. Não esqueça que as pessoas vieram para ver você, não estes artifícios”. Ele se preocupava que as “firulas” pudessem tomar o lugar do pensamento, da lógica e da razão. Temia que o meio dominasse a mensagem, e parece que ele tinha razão. Hoje parece que o Facebook, Instagram, Tiktok, etc. são grandes e sofisticadas molduras ao redor de telas vazias ou insignificantes. Isso também explica o sujeito que é famoso “por ser famoso”, alguém que foi colocado nessa posição pelo BBB ou por alguma tolice de redes sociais, mas sem qualquer habilidade ou conteúdo que o faça merecer qualquer destaque.

Por certo que hoje o parto enfrenta novos desafios. Em uma população cada vez mais drogada, mais controlada externamente pela química, os médicos se comportam como se os pacientes fossem constantes ameaças, ao mesmo tempo em que os pacientes são ressentidos com uma corporação vista como onipotente e arrogante. Mulheres estão decidindo pela gravidez cada vez mais tarde, acrescentando uma nova configuração populacional e familiar, com o desaparecimento de irmãos, cunhados, primos e bisavós. Um número imenso de gestações agora ocorre na 5a década, através de fertilizações e inseminações, cujos riscos sequer temos plena compreensão. Aos poucos o parto fisiológico está desaparece do horizonte; mulheres já não podem contar com a própria fisiologia e suas capacidades inatas para parir, e talvez essa seja uma tendência irreversível, já que o medo de parir é estimulado por aqueles que controlam o parto nas culturas ocidentais. Se somos uma espécie especial no planeta porque nascemos de uma forma inusitada e bizarra, temo que o afastamento do processo de adaptação dinâmica à natureza fará surgir uma nova espécie, e não tenho nenhuma confiança de que ela será melhor do que esta.

Nas listas por e-mail do passado havia um desejo muito grande de vários atores sociais – obstetras, parteiras, doulas, pediatras, etc. – de oferecer uma perspectiva para a grande inconformidade que sentíamos em relação ao nascimento humano. Havia disputas no terreno das ideias, mas não existia muito espaço para lacração. Éramos jovens, cheios de energia criativa; os sonhos ainda nos dominavam. Eu espero que uma nova geração de ativistas de perspectiva materialista (ou seja, menos idealistas e mais práticos) venham a nos substituir. Ativistas que entendam o parto humanizado como ele realmente é: uma luta por espaços sobre a topografia física e emocional da mulher, e não uma disputa de saberes e evidências científicas, posto que estas não são capazes de produzir transformações. Precisamos ultrapassar o idealismo ingênuo e reconhecer a necessidade do enfrentamento, com a coragem de enfrentar os desafios inevitáveis.

A partir de uma conversa com Ana Cris Duarte

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Lacração Futebolística

Não adianta tentar passar pano… não consigo aceitar esse tipo de preconceito. Passei anos escutando as jogadoras de futebol insinuando que receber menos para jogar futebol do que recebem os homens era algo errado, uma disparidade injusta. Afinal, elas estariam sendo mercenárias por quererem mais dinheiro para jogar? Desejar ser bem pago pelo seu trabalho é uma falha moral? Por acaso as mulheres são mais dedicadas, éticas, corretas do que os homens? Mulheres amam o esporte e homens só o dinheiro?

Os homens têm uma história muito mais antiga com os esportes profissionais, enquanto as mulheres somente há pouco foram se profissionalizando. Todavia, a forma como nos adaptamos à realidade do capitalismo tem a ver com o mercado, não as questões morais. Nada me faz crer que as garotas seriam diferente dos rapazes se fossem colocadas diante dos mesmos dilemas, negociando premiações, salários, “bichos”, etc. Por acaso Serena Williams não se dedica ao esporte de maneira profissional, sendo regiamente paga pelas raquetadas que dá? Por acaso jogaria de graça? É possível dizer que a grande tenista é uma mercenária, uma “vendida”?

Como seria chamado um homem que fizesse uma postagem semelhante a essa, desmerecendo as qualidades morais das mulheres e enaltecendo a dedicação e o caráter dos homens, criando entre os gêneros uma barreira de ordem ética? Tem um nome para isso, não?

Minha tese é que estas publicações sexistas, ao invés de exaltarem as mulheres, apenas validam o machismo.

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Blindagem

“No momento em que você declara que um conjunto de ideias será imune à crítica, sátira, escárnio ou desprezo, a liberdade de pensamento torna-se impossível”.

Eu sempre lamento quando vejo pessoas fazendo declarações públicas cujo principal objetivo é agradar sua plateia – grande ou pequena – ao invés de representar a manifestação clara e honesta de seu pensamento. Também me entristece a censura, em especial a mais dolorida de todas: a “autocensura”, aquela que sequer é regulamentada por lei, mas controlada pelas patrulhas ideológicas e pela crueldade dos cancelamentos. No passado este comportamento foi chamado de “cinismo”, uma atitude canina e covarde, mas hoje recebe o nome de “lacração”, algo que o mundo começa a entender como uma ação falsa, injustificável e deplorável.

Não existe nenhum assunto para o qual se possa estabelecer blindagem à crítica, ao deboche, ao desprezo, sob pena de transformar essa questão em um dogma inamovível, que cristaliza o progresso do pensamento. Quem acredita que este tipo de ação protege as minorias – tratando-as como crianças e deficientes – está profundamente equivocado, pois estará produzindo, em verdade, um poderoso elemento para a manutenção do arbítrio e do preconceito contra os grupos que aparentemente pretendia proteger.

O “politicamente correto”, uma tragédia para a liberdade do pensamento, deverá ser enterrado e lembrado para a posteridade como um erro compartilhado por ingênuos e oportunistas, mas que produziu um estrago imenso na cultura e nas relações humanas.

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Lacrolândia

Eu denuncio a lacrolândia de esquerda há muitos anos e fui cancelado impiedosamente, até entre as pessoas que militam na humanização do nascimento. Aliás, tenho muito orgulho desses cancelamentos; detestaria ser visto como o bispo de uma religião de aparências. Avisei dos discursos moralistas de esquerda, vazios e falsos, mas que eram usados como arma moral contra os inimigos da fé. Poucos acharam pertinente. Afinal, os fins justificam os meios, não?

Estamos vivendo um moralismo que em tudo se assemelha a uma seita, deixando muitas vezes em segundo plano a autonomia e a liberdade em nome de um catecismo politicamente correto, mas que engessa da mesma forma a livre expressão do desejo.

“…quantos de nós não temos atitudes parecidas no dia a dia sem ter uma câmera nos filmando? Não precisa fingir. Nem eu, nem vocês, escapamos do desejo pulsante de aceitação.”

Eu sei que se houvesse mais gravadores e câmeras na minha época eu – e toda a minha geração – estaríamos inexoravelmente condenados pelo tribunal da lacração ilimitada. O resultado é essa imolação pública e falsa pequeno burguesa, cristã e culposa, tão falsa quanto uma promessa do Bozo. “Perdão por ser opressor, perdão, perdão”.

Texto abaixo de Tiago da Silva Ferreira

“Muitas pessoas estão falando sobre o BBB e sobre como determinados participantes estão destruindo a imagem da esquerda. Acusam os jogadores do programa de repetirem discursos militantes decorados e que por trás das palavras não há nada mais do que uma tentativa desesperada de ganhar aceitação.

Algo sempre vem à minha mente quando penso sobre o campo progressista no Brasil contemporâneo. Uma das principais características da nossa nova esquerda é que ela se trata, antes de tudo, de uma posição moral mais do que política. A esquerda de hoje não critica sistemas políticos ou econômicos. Ela critica, na verdade, como esses sistemas e suas associações com uma moral conservadora afetam a vida de grupos excluídos.

Dessa forma, o foco dessa esquerda são os costumes e os valores morais da sociedade. Ela se compadece de um mendigo por empatia, por uma espécie de dever moral universal que um ser humano “naturalmente” tem por outro. Consequentemente, essa visão de mundo tenta ganhar adeptos através do apelo emocional. Os humanos, nessa perspectiva, precisam apoiar determinados grupos que sofrem perseguição ou discriminação, pois é moral se colocar no lugar do outro e lhe dar o devido espaço e respeito. Quem não o faz é porque não sabe se colocar no lugar do outro. Há lógica nessa equação e eu tendo a concordar que a compaixão é um bom norte político. Entretanto, esse tipo de enfoque trouxe para parte da esquerda um padrão de comportamento em grupo que é mais emocional do que racional e que tende a ser tão passional quanto o discurso religioso.

No final das contas, parte da esquerda tem caminhado para um moralismo recheado de militância emocionalista. Seu objetivo é descontrair a moral vigente, que é patriarcal, misógina, racista, homofóbica, etc. O que acho curioso é que pouco se fala em ética (que é algo mais pessoal) dentro da esquerda. Pelo contrário, as práticas apontam mais para a configuração de uma nova moral social, onde o conservadorismo é superado e novos modelos sociais o substituem. Dessa forma, está subentendido que a moral conservadora cristã será substituída pela moral esquerdista progressista. Alguém pode perguntar qual o mal nisso, afinal, não seria ótimo ver o fim do patriarcado ou do racismo? Claro que eu acho que esse tipo de dispositivo social retrógrado precisa acabar, mas sinto falta de discussões mais éticas e menos moralistas dentro da esquerda. Quando falo em discutir ética e não moral, quero dizer que deveríamos investir mais na construção de valores onde se respeita discrepâncias individuais e não se impõe uma moral de grupo . Quem critica os participantes do BBB não percebeu ainda que eles estão agindo dessa forma porque é assim que se espera que eles ajam. Como toda moral militante, a moral esquerdista, apesar de bem intencionada, tende a criar asseclas e não livres pensadores. Parece uma religião. No mau sentido. É possível fazer muitos paralelos entre a esquerda ultra militante e os evangélicos fundamentalistas, por exemplo.

Duvida?

O modus operandi da galera desconstruída progressista dos DCEs e dos frequentadores de templos pentecostais é similar. Nos dois casos, espera-se que todo mundo siga a mesma cartilha, incluindo a utilização dos mesmos jargões. Precisam demonstrar o tempo todo o quanto amam a causa e precisam se esforçar pra demonstrar em público e a todo instante o quanto são engajados. Nos dois casos induzem você a ter culpa por algum comportamento considerado desviante. A pessoa que é pega se desviando do “dogma” é esculachada. Os evangélicos excluem, dizem que a pessoa virou “do mundo”. A esquerda faz textão e cancela. Ambos exigem uma retratação pública do acusado, um verdadeiro auto de fé.

Lembram-se da Lilia Schwarz e o texto sobre a Beyoncé? Conheci crentes pegos em adultério que receberam melhor tratamento de suas igrejas.

O que mais me incomoda é a hipocrisia que acaba imperando tanto entre esquerdistas quanto entre evangélicos. Como ambos estabelecem metas morais difíceis de serem alcançadas, acabam vivendo quase que uma vida dupla. Os evangélicos fingem que casaram virgens, que não bebem nunca, que não escutam “música do mundo”, fingem que não traem a esposa, fingem que gostam do “irmão” da igreja, fingem que não tem dúvidas sobre a existência de Deus, etc.

O esquerdista não fica atrás: finge que é “desconstruído” e conta pra todo mundo que pega gente gordinha, quando na verdade só corre atrás de gente sarada; finge que ama funk e Anita porque é música popular, quando na verdade odeia, mas não quer parecer elitista; finge que ama o nordeste, mas no fundo da alma não tem nenhum interesse genuíno na região; finge que amou Bacurau, mas odeia filme nacional, mas não quer parecer colonizado; finge que apoia o amor livre, quando na verdade é monogâmico, mas não quer parecer retrógrado.

O novo ponto em comum entre a esquerda moralista e os religiosos de direita é a pornografia. Como a esquerda decidiu que ver pornô é quase o mesmo que um estupro, agora surgiu o novo tipo de esquerdista, aquele que fala mal de pornô no Facebook e assiste escondido em casa. Pro evangélico, pornô não é de Deus, é contra a sexualidade sadia. Pro esquerdista, pornô também não é saudável, mas por outras razões, como a misoginia e a exploração dos atores e atrizes no mercado pornográfico. A causa da esquerda me parece mais nobre e conta com melhor argumentação. Mas a militância não é lá muito diferente. O crente diz que “Deus tá vendo” você se masturbar assistindo Xvideos. A esquerda diz que você é um monstro que sente prazer com a exploração sexual dos outros e que te falta empatia.

O resultado é igual: culpa. A solução também é igual: assistir escondido.

Não sou contra nenhuma das problematizações levantadas pela esquerda, mas o modus operandi que parece pregação religiosa me cansa. Assim como a intolerância a pequenas divergências, a incapacidade de diálogo, o ódio e a demonização contra quem entra em dissenso, a mania de querer silenciar o outro e o extremo moralismo sufocante.

Não tem nada de estranho na atuação dos esquerdistas do BBB. Eles não estão fingindo mais do que boa parte da galera de esquerda que vocês já conhecem. São apenas pessoas querendo aceitação do grupo. A única diferença é que as besteiras que eles falam estão sendo gravadas e exibidas pra todo mundo ver e criticar. Mas quantos de nós não temos atitudes parecidas no dia a dia sem ter uma câmera nos filmando? Não precisa fingir. Nem eu, nem vocês, escapamos do desejo pulsante de aceitação.”

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Lacre

Nos anos 80 e 90 do século passado eu escutava muito um programa de esportes no rádio que era transmitido logo depois do almoço. Tinha uma característica clássica: um torcedor fanático de cada um dos times da cidade, alguns torcedores moderados e outros ditos isentos. Era cômico, divertido, machista muitas vezes, informativo e falava desse universo masculino do futebol. Ainda existe, porém claramente decadente, mas por mais de 40 anos foi o maior programa de rádio desse estado.

Havia, entretanto, uma característica desse programa que sempre me incomodou. Uma vez por mês o programa se mudava para o interior do Estado para fazer uma transmissão ao vivo, num ginásio de esportes ou em uma praça. Lá eles debatiam o mesmo tema – o futebol do estado – mas com plateia, ao vivo. Aí é que as coisas complicavam.

Os argumentos e as tiradas espirituosas davam lugar a falas cujo único objetivo era conquistar o povo reunido para escutá-los. Como em todo lugar, metade da audiência torcia por um time e metade para outro. Assim, a tarefa dos debatedores era dizer algo pretensamente espirituoso e provocativo – falar do número de títulos do seu time, lembrar quem ganhou a última disputa, quantos embates vencidos na história, quem estava melhor no campeonato, etc – e fazer a plateia vibrar quando se dizia algo aparentemente grandioso e que deixaria o adversário sem resposta. Uma espécie de “repente” nordestino, mas centrado no tema do futebol.

O problema desse modelo é que a profundidade dos argumentos, a qualidade da explanação e a própria verdade dos fatos sucumbiam à necessidade de agitar aqueles presentes ao encontro. Não se tratava mais de oferecer uma qualidade argumentativa, com lógica, coerência e precisão, mas conseguir mais aplausos, apupos e aceitação dos presentes. Isso, evidentemente, agradava quem lá se encontrava, os quais passavam uma procuração aos debatedores nessa batalha retórica. As discussões, entretanto, se tornavam pueris, infantis e maniqueístas, reduzindo o encontro de ideias a pó.

Muitos anos depois o mesmo fenômeno aconteceu nas redes sociais e hoje atende pelo nome de “lacração”. Da mesma forma como no programa de rádio, temos uma imensa plateia de pessoas que podem ler o que escrevemos. Para algumas – os chamados influenciadores digitais, ou “influencers” – esse número pode chegar aos milhões. Desta forma, nada que se diga passa impune. Como consequência dessa plateia cativa de observadores, os bons argumentos, a retórica de qualidade e a simplicidade enxuta de uma fala acabam dando lugar às manifestações “lacrativas”, que visam produzir não apenas ataques “ad hominem”, mas argumentos frágeis e até mesmo toscos e tolos, mas que são direcionados à gigantesca massa de pessoas que fazem parte da torcida organizada criada pela nossa bolha das redes sociais.

Mais ainda: os argumentos são frequentemente usados de forma desonesta, quando sabemos que, mesmo sendo errados e injustos, ainda assim os usamos, pois temos a certeza que serão aqueles que mais impacto poderão causar.

A cultura do “lacre” produz cotidianamente manchetes estúpidas como “Fulano humilha Ciclano em um debate“, “Beltrana destroi opositora em conferência“, geralmente no YouTube, e não são poucas as vezes em que o inimigo (de esquerda ou direita) é retirado do contexto e sua fala jogada nas redes para assim poder ser destruída. Vale tudo em nome da lacração.

A “Lacração Ilimitada” não é de hoje, por certo, mas as redes sociais a transformaram em uma praga que obstaculiza o pensamento, impede os debates e atrasa o progresso das ideias.

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Lacrar

A internet – e mais especificamente as mídias sociais – criaram o termo “lacração” e disseminaram o seu uso. É curioso que este termo muitas vezes é mal utilizado, dando a entender que a “lacração” se refere a um argumento tão bem utilizado, e que explica um determinado fenômeno de maneira tão completa, que é capaz de “lacrar”, fechar, terminar, colocar um ponto final, já que depois do que foi dito nada mais poderia ser acrescentado. Finis est…

Na verdade a “lacração” se refere a outro fenômeno muito mais complexo. Argumentos taxativos, brilhantes, completos e definitivos – se quisermos acreditar que isso existe – são apresentados desde o início da linguagem. Org teria dito para Uth, numa caverna há 40 mil anos: “Se você acredita que soprar é a magia está enganado. A magia está no atrito dos pauzinhos, seu otário“. Um argumento excelente, que podia inclusive ser demonstrado experimentalmente. Ele “lacrou”?

Não, porque “lacrar” não está relacionado à justeza do seu argumento, sua abrangência, sua lógica ou seu encadeamento de ideias. Também não está relacionado à sua qualidade argumentativa e nem às suas virtudes de convencimento.

Na verdade, a “lacração” está relacionada à plateia. É um jogo de cena, onde seus ouvintes, leitores ou telespectadores fazem parte do argumento. O sucesso de suas ideias depende do entusiasmo de quem as escutou. Uma ironia, um escárnio, um deboche ou uma resposta provocativa “lacram”, porque a plateia delira ao ver seu ídolo fazendo sucesso com sua fala.

No território das mídias sociais, onde as pessoas se escondem atrás de telas, a possibilidade de um debate centrado nas ideias se tornou cada dia mais difícil. Mais do que apresentar boas ideias, você precisa ser alguém que galvanize a simpatia de um número cada vez maior de fãs e simpatizantes, posto que a “lacração” dependerá disso, e não de seus argumentos e posturas. Isso acabou gerando um personagem novo: “o mendigo de likes“, pois que ele sabe que só poderá “lacrar” se tiver um grupo enorme de pessoas a lhe oferecer suporte e apoio.

Todavia, eu acho que esta fase vai passar. A “lacração” já é um fenômeno decadente e começa aos poucos a ser sinônimo de “argumento frágil e demagógico”. Sou um otimista….

Lacrei? Não….

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Sinceridade

– Eu não acredito na sinceridade de nenhuma celebridade, respondeu Henriqueta, com ar de enfado. Não acredito em seus amores, suas paixões, seus casamentos relâmpago, suas tristezas ou dramas.

Jeffrey olhou para H. através do cristal do Pinot Grigio que acalentava na mão direita. Seus lábios intumescidos mergulharam na imagem da taça, enquanto os olhos verdes boiavam por sobre o líquido rubro.

– Como sempre, exagerada, comentou Jeffrey, mas já sabendo que H. não aceitaria a crítica tão facilmente.

– Não fode, J., você sabe do que estou falando. Não se trata de duvidar que sofram como eu ou você. Sei que eles mesmos tem seus dramas, tragédias e alegrias. Entretanto, eu me refiro à narrativa construída ao redor do espetáculo de suas vidas.

Jeffrey molhou os lábios no vinho e respondeu,

– Por cedo que há exageros, mas isso não os torna à parte dessa novela da vida que todos compartilhamos. Quando a câmera apaga se pode ver a carne, o suor, as rugas e os vincos que carregam, disse ele, antes de tomar mais um gole de vinho.

– Isso me lembra Woody Allen em um conto que li há séculos. O presidente Lincoln determina a um assessor que lhe faça uma pergunta durante a próxima reunião. “Qual a pergunta“, questiona ele, ao que o presidente responde: “Qual o tamanho ideal das pernas de um homem?” O assessor concorda mas, intrigado, pergunta: “E por que exatamente essa?“, ao que ele responde “Porque tenho uma ótima resposta“.

– Sim, e daí?

– E daí, continuou Henriqueta, que no “universo da lacração ilimitada” é bem possível que uma subcelebridade diga ao seu “manager”: “Por favor, arranje uma treta comigo a respeito do meu clip, da minha roupa, da falta dela, da minha namorada, da celulite, dos peitos, da minha posição política ou da minha sexualidade. Urgente!!!” O manager responde “Mas por quê?“, ao que ela devolve: “Ora, porque tenho uma ótima lacrada para oferecer como resposta“.

H. arremata com grandiloquência.

– Nesse mundo de fantasia criado na pós modernidade não existem mais opiniões ou ideias, apenas declarações públicas, que todos sabemos de antemão que são falsas. Mas como eu já lhe disse, a verdade morreu faz tempo. Fui até no enterro…

Jeffrey apenas baixou a cabeça e terminou de sorver seu vinho, mas não conseguiu segurar a curiosidade.

– Afinal, qual o tamanho ideal das pernas de um homem?

H. Sorriu com a lembrança

– O suficiente para que cheguem até o chão.

Jennifer Coulton, “Catville, Bronx and Nowhere”, ed. Battery South, pág. 135.

Jennifer Coulton é uma jornalista e colunista americana nascida em Indianápolis cujo trabalho é enfocado em assuntos contemporâneos, com ênfase em costumes, sexualidade, feminismo e cultura pop. Escreveu uma coluna semanal sobre feminilidades no Indianápolis Recorder de 2003 até 2016. Depois disso dedicou-se a escrever livros, sendo “Catville, Bronx and Nowhere” o seu primeiro e mais conhecido. Henriquetta é neste livro seu alter ego, debatendo com diversos interlocutores os dilemas de uma mulher consciente, politizada e livre em uma sociedade em que o neoliberalismo é um cadáver insepulto.

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Lacração

 

Vivemos em tempos obscuros, onde a “lacração” mais grosseira ocupa o lugar que o humor sempre teve por direito. Antigamente as “sacadas” bem humoradas, satíricas e sarcásticas eram a maneira mais rebuscada de responder, mesmo as agressões. Hoje você “lacra”, o que basicamente significa arrasar, destruir o opositor, usar um argumento que fecha a questão (pelo menos na opinião da sua torcida).

A diferença entre as duas estratégias é a mesma entre um decote insinuante num filme de Vitório de Sicca e uma cena pornô de Rocco Sifredi.

“Sutileza e perspicácia, onde andam vocês?”

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Bolhas

Existe uma série de assuntos que eu adoraria debater até para diminuir um pouco a minha ignorância sobre eles. Quando você vive em uma sociedade branca, num estado branco, sendo de classe média e heterossexual acaba tendo dificuldade para entender as queixas das pessoas que sofrem as consequências por NÃO SEREM como você, as quais não tem a possibilidade de deixar que o fluxo do mainstream as carregue para posições mais privilegiadas. Lembro muito do ativista israelense Miko Peled que, sendo israelense e branco, tinha dificuldades de entender o ponto de vista dos palestinos, pessoas a quem NUNCA via no seu dia-a-dia, e por isso mesmo podiam ser estereotipados e/ou demonizados pela cultura em que estava embebido. Foi apenas o encontro fortuito com palestinos quando moravam em San Diego, nos Estados Unidos (!!!), que o fez acordar para a questão da Palestina, o Nakba, a limpeza étnica e as reivindicações daquele povo.

Miko Peled em seu livro “O Filho do General” agradece de forma comovente a recepção afetiva e compreensiva que teve por parte dos ativistas palestinos, os quais tinham TODAS AS RAZÕES do mundo para odiá-lo, não apenas por ser israelense, mas por ser filho de um general invasor, responsável por boa parte da desgraça afligida ao seu povo. Sem esse carinho e essa fraternidade explícita de pessoas em uma posição aparentemente tão distante, seria muito fácil para Miko manter-se dentro de sua bolha de demonização e ódio ao “inimigo”. Para mim, não foram os argumentos racionais que o convenceram que sua postura estava errada, muito menos os registros históricos a que teve acesso em sua busca pela verdade, mas o afeto e a acolhida amorosa que recebeu daqueles que por muito tempo considerou como adversários e inimigos mortais.

Para as pessoas que tem as mesmas condições que eu é importante serem apresentadas às questões femininas, raciais, de gênero e sociais para que possamos pensar fora de nossa bolha de amizades e relações cotidianas. Sem esse confronto com vivências diversas e sem o contraditório é difícil sair da zona de conforto das nossas convicções e nossas perspectivas. Por isso o confronto de ideias é tão importante.

Infelizmente, em tempos de ódio, isso é cada vez mais difícil. Fiz um comentário na página de uma doula a respeito de uma mensagem que ela postou com um texto assinado por Andrea Dworkin. Disse que o texto (sobre ser lésbica) era sensível e bonito, mas foi escrito por alguém que sofre muito mais criticas do que elogios de dentro do movimento feminista por suas lutas anti-pornografia e acima de tudo por suas atitudes controversas (liberdade para mulheres que mataram maridos abusadores). Ela, por exemplo, era extremamente conservadora e escreveu um livro cujo título era “Right-wing women”. Faleceu aos 58 anos com um quadro avançado de artrite e complicações de obesidade mórbida, mas se estivesse viva estaria ao lado de Trump fazendo campanha por ele e por sua visão de extrema direita.

Meu comentário visava apenas alertar para a origem da mensagem, para não repetir o que o ator José Wilker fez numa reunião de diretores da Globo: um discurso recheado de citações que, depois dos aplausos de todos, avisou serem todas de Adolf Hitler, retiradas do “Mein Kampf”. Infelizmente bastou eu questionar uma autora como esta – mesmo elogiando a visão poética que ela tinha da homossexualidade feminina – para sofrer ataques pessoais. Aí vieram as agressões, ironias, deboches, violências e ataques pessoais que culminaram com um festival de blocks e o fim de qualquer possibilidade de conversa.

Claro, o erro foi meu. Eu não deveria ter feito aquele comentário. Afinal, não é problema meu. Quem quiser que siga, que cite, que admire e que adore. O problema é que isso mantém a bolha e as ilhas de concordância intactas, e não permite que a gente aprenda com o pensamento alheio. Ficamos todos desconectados porque as pessoas não querem debater; querem lutar, destruir opositores, querem “lacrar”, humilhar oponentes, vencer guerras de argumentos, ser o mais irônico possível, ser o super fodão da sua turma (o meme preferido é o negro aquele que é carregado pelo amigos e recebe os óculos escuros da suprema esperteza) e tratar todas as pessoas de quem discordam como inimigos a serem destroçados.

A solução momentânea é se afastar, bloquear, voltar para o seu canto frustrado e esperar que alguém de bom coração se proponha a conversar sem pedras nas mãos. Ter a paciência de aguardar a caridade de alguém sem ódio transbordante e esperar que os ânimos possam arrefecer. Infelizmente, para algumas pessoas, isso nunca vai acontecer, pois as causas são apenas desculpas passageiras para a razão principal que as move: a luta em si e a destruição dos oponentes.

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