Arquivo do mês: janeiro 2015

The Cétera Brothers

 

 

Cétera

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Incompreensível

parto_-_hobomama_cc

 

“É exatamente no momento em que a gestante se mostra mulher, quando o corpo se enche de alma e suplanta sua arquitetura de carne e veias, é que surge o ponto cego, o significado obscuro, misterioso e incompreensível para aqueles que assumem a visão tecnocrática do parto.

Jamais entenderão.”

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Pena de Morte

????????????????????

 

Para além das questões éticas e humanas, a pena de morte é burra e estúpida. O assassínio patrocinado pelo estado é absolutamente ineficiente para educar ou coibir. Se a pena de morte funcionasse teríamos uma diminuição significativa de crimes e assassinatos nos lugares onde ela existe, mesmo no Brasil. Sim, porque a pena capital existe no nosso país, apenas não é legalizada. Nas favelas, comunidades e bolsões de pobreza impera esta pena entre as facções do tráfico. Matam-se uns aos outros por penas impostas por eles mesmos. Fosse a morte decretada um anteparo ao crime e reinaria a paz nos domínios do tráfico. Não é o que se vê. Uma porcentagem significativa das mortes em nosso meio são decorrentes da ilegalidade oportunista deste comércio. Sair matando bandidos nunca ofereceu qualquer vantagem e jamais nos conferiu mais segurança.

A morte é IGUAL para quem morreu, tenha sido este assassinato cometido pelo governo ou por outros grupos. Portanto, do ponto de vista de quem teme, ser morto pelo Estado ou pela facção rival dá no mesmo. Pior: a morte pelos grupos paralelos tem julgamento sumário e você não tem defesa, e isso deveria te causar muito mais medo e muito mais cuidado. Pois não ocorre nada disso, e as agressões entre os grupos em disputa por pontos continuam, como se a própria morte fosse apenas um detalhe. Por isso mesmo que a pena de morte não faz diferença alguma para coibir o crime. Os bandidões do velho oeste já diziam isso no tempo do Jake Grandão: “Posso matar quantos eu quiser, mas só conseguem me matar uma vez“.

O Estado precisa ser o condutor da civilidade. Não se admite que ele esteja não animalizado quanto às pessoas a quem procura educar e proteger. Um Estado matador é medieval e inaceitável, sem falar que os sujeitos que caem nas garras desse governo vingativo são os mesmos grupos de sempre: pretos, pobres, miseráveis, inimigos políticos, etc…

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, violência

Violências e gênero

Violencia Mulher

 

A violência contra as mulheres é uma ferida aberta em nossa sociedade. Ponto. Não há como negar esta realidade e nem é possível colocar panos quentes em uma tragédia cotidiana que tira a vida de centenas de mulheres todos os anos por um machismo violento e desmedido. Por outro lado, eu creio ser possível complexificar a questão, mesmo sabendo que qualquer sujeito que fale da violenta perpetrada PELA mulher será sempre julgado como “machista”, insensível, ou que vê o cisco e não enxerga a trave diante de seus olhos. Porém, quando uma mulher inteligente, aparentemente madura, com curso superior e bom emprego te conta que há 5 ou mais anos apanha sistematicamente do seu parceiro(a) fica a dúvida até que ponto existe uma violência doentia por parte do parceiro e quando, associado a isso, há uma patologia da relação que faz aparecer nela um gozo (não confundir com prazer ou vontade) de apanhar. Estudar este gozo é fundamental para que esta mulher desfaça um sistema de violência que se retroalimenta. Acontece muito com alcoolistas: uma menina testemunha as violências aplicadas na mãe pelo pai durante toda sua infância e quando mais tarde se casa, adivinha quem é o marido? Um alcoolista violento. Ela repete a cena infantil em sua relação adulta.

Dizer que uma mulher participa inconscientemente de um jogo erótico patológico destrutivo NÃO é a mesma coisa que dizer que “ela pediu“, ou que “ela merece“, e muito menos que o parceiro dela está desculpado, perdoado ou é inocente. Significa apenas que ela também precisa ser ajudada para que possa fugir do padrão. Caso contrário ela corre o risco de se separar desse sujeito perturbado e encontrar outro drogadito violento, por nunca ser capaz de entender o que a levara a procurar relações em que sofre e é violentada. Existe um campo de estudo e pesquisa da psicologia (e da criminologia) chamado “vitimismo” que estuda as relações patológicas de pessoas que sempre são vítimas de relações ou situações deste tipo, mostrando haver um determinismo psicológico inconsciente que as leva a se colocar neste modelo de relação. Eu mesmo conheci uma mulher, minha paciente, que namorou três sujeitos na vida, e todos eles acabaram se mostrando no transcorrer da relação como homossexuais, o que pôs fim aos relacionamentos. Ela ficava muito decepcionada e não acreditava como podia ser tão azarada. Nunca acreditei na tese que ela mesmo trazia do azar, mas o caso dela parecia provar um tropismo por trejeitos e manifestações sutis que ela identificava como atrativos, e a surpresa pela descoberta da homossexualidade operava na ordem do inconsciente, ao invés de conscientemente percebido.

A violência das mulheres só é mais branda porque elas são fisicamente e politicamente mais frágeis. No filme  “O Senhor das Moscas” este tipo de ilusão é desfeito não com relação às mulheres, mas com os pequenos. Nós temos a ilusão de que as crianças são “do bem“, anjinhos inocentes e carentes, apenas porque NÃO conseguem fazer muito mal, pela sua fragilidade. Esse filme desmistifica a “candura” das crianças, assim como Freud desmistificou as relações eróticas que elas estabelecem com suas mães.

As mulheres não batem em maridos – ou os agridem com a mesma intensidade e frequência – apenas por serem frágeis e não por serem virtuosas. Esse essencialismo “mulheres do bem, homens truculentos e violentos” é tosco e tolo. Basta até você acompanhar os relatos de violência doméstica para perceber que, em muitos casos, a mulher foi vítima apenas porque era a mais fraca e não porque era moralmente superior, mais calma, ponderada, ou uma vítima silenciosa. Não é justo tratar os homens desta forma estereotipada, porque isso não ajuda a causa das mulheres. Temos que combater a violência contra a mulher sem romantizar estas relações e entendê-las como uma interação patológica de gozos destrutivos, em que ambos tem responsabilidade, mas que uma parte – a mais fraca – corre sério risco de vida.

Quando falamos de minorias como as mulheres (são maioria, mas politicamente e socialmente podem ser consideradas uma minoria) qualquer menção às perversidades femininas – inclusive em uma relação violenta por parte do parceiro – será julgada como “acusar a vítima“, quando na verdade muitas vezes se usa para que fique claro que uma relação é SEMPRE uma dualidade feita da interação de sujeitos, amalgamados e entrelaçados em seus fantasma. Se não é justo absolver os homens das violências e mortes praticadas, também é certo entender que nessa junção de almas existem parcelas de responsabilidade em ambos os sujeitos.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, violência

Coligay

Coligay

 

Para todos que me perguntam se era verdade, aqui está a prova documentada no livro de Leo Gerchmann. Houve um tempo, há 35 anos, que não havia homofobia no futebol. Existia uma torcida alegre, “gay”, assumidamente gremista e que circulava no estádio sem nenhum constrangimento. Essa era a Coligay, mistura de “Coli”, da boate gay Coliseu que havia na cidade e “Gay” que vem do fato de serem…. alegres.

Isso acabou, e uma torcida assim em qualquer canto do Brasil seria repudiada pelos homófobos, muitos deles – como Freud ensinou – nada mais do que “meninas que tem medo de seus próprios impulsos”.

Mas como explicar essa mudança radical, para o lado oposto do que se imaginaria pela sofisticação da cultura, em direção ao preconceito e à intolerância?

A “culpa”, ao meu ver (leiam as aspas quando olharem a frase) é da própria conscientização da comunidade gay. Quando o “homossexualismo” caducou e deu origem à homossexualidade, deixando os manicômios e consultórios para ocupar as casas e ruas, a antiga “doença” deixou de existir, dando lugar a uma simples variação da infinita diversidade da orientação sexual humana. Sendo assim, o que era patologia virou comportamento, fazendo com que todos nós estivéssemos sujeitos a ele, e não apenas os “pederastas”, degenerados e doentes.

A partir desse novo conceito a homossexualidade virou uma ameaça para o cidadão comum. Ninguém estava livre de que alguém descobrisse um pensamento, um desejo escondido ou uma vontade inconfessa. A masculinidade precisava ser constantemente provada, nem que para isso fosse necessário usar da nossa costumeira brutalidade testosterônica.

Era preciso exorcizar tal perigo, uma ameaça terrível à nossa persona social. E qual seria a melhor forma de se livrar desse peso?

Ora, expurgando e negando os desejos, jogando-os no outro. Os outros. A torcida adversária, os gaymistas, os coloridos, as Marias, as frangas, os pó de arroz, bambies, etc.

A liberação dos costumes e a aceitação da homossexualidade como uma orientação de objeto sexual deixou-nos a todos inseguros. Este pânico, em especial nos jovens que frequentam futebol, manifestou-se como flagrante sentimento homofóbico.

Eu sonho com o dia em que renasça a Coligay, e juro por Alah que no dia que ela aparecer no estádio estarei ao lado, seja para torcer alegremente ou para fazer um círculo de proteção aos gays que desejam expressar seu amor pelo time do coração. Sei que Bebel, minha filha, estará lá comigo. Talvez esse dia, em que ultrapassarmos o preconceito e a miséria humana, nem esteja tao longe de acontecer.

Será uma data memorável, e queria muito que meu time fosse, mais uma vez, pioneiro.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Política