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Minha outra vida

Minha carteirinha do “hebdo” em Paris, 1998. Essa foi a primeira etapa da minha vida, o que eu poderia chamar de “minha vida passada”. Até esta data eu não havia conhecido pessoalmente nenhum profissional do parto que fosse minimamente humanizado. Havia um professor da faculdade de medicina que se auto proclamava assim, mas hoje ele seria descrito como um “tecnocrata envergonhado”, mas jamais um verdadeiro entusiasta da humanização. Este tipo de profissional é também chamado (por Marsden Wagner, em especial) de “liberal”. Em geral não desprezam suas ideias e nem calam suas palavras, pelo contrário, eles até lhe escutam.

Eu também acho um horror esse excesso de cesarianas, mas veja que nosso hospital é de referência“, dizem. “Também tenho pensado em diminuir episiotomias, e hoje só as faço quando vejo que o períneo está para romper“, explicam. “Todos aqui sabem que sou a favor do parto normal, claro”, gabam-se.Sou a favor da humanização, mas cada um na sua função. Não acho certo enfermeiras atendendo parto no século XXI“, esclarecem eles. Esse professor atendeu o parto de uma familiar próxima e tudo o que fez foi repetir o padrão que por tantas vezes o vi, timidamente, criticar: ocitocina, litotomia, episiotomia, fórceps de “alívio”, corte prematuro, afastamento do RN. Um perfeito liberal…

Levou muito tempo para que eu percebesse que a grande barreira a vencer são as muralhas do ego. O drama que o “tecnocrata bem intencionado” tem pela frente é abandonar o suporte que o olhar dos seus iguais lhe oferece. Poucas tarefas são mais difíceis na vida de um médico do que questionar os valores de seus mestres. Como São Francisco saindo nu da Igreja, para suplantar estes desafios é preciso mergulhar no inferno de si mesmo e suportar a solidão que inexoravelmente virá. Meu olhar nessa foto é o retrato fiel de uma arrogância juvenil misturada com ingenuidade e esperança, marcas que eu ainda carregava na alma. Minha mais tola característica era acreditar que a verdade, por si só, seria capaz de mudar o mundo. Não…. ela é a base para essa transformação, mas só poderemos enxergar sua face brilhante se permitirmos que a névoa dos interesses se dissipe e seu sorriso apareça em todo seu fulgor.

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Campanhas

No Brasil as campanhas que criticam a atuação de parteiras e doulas tem um endereço evidente: renovar a crença preconceituosa de que enfermeiras e obstetrizes oferecem uma assistência de “segunda classe”, aumentar o poder médico e deixar o campo livre para as cesarianas abusivas. Dá até para escutar alguns médicos dizendo às pacientes: “Vai querer mesmo arriscar ser abusada durante o parto ou quer marcar uma cesariana já?

O modelo atual deixa a cesariana absolutamente impune, enquanto o parto normal um pode significar um risco grave para o médico ou a parteira. Com um bisturi na mão os profissionais são intocáveis; com as mãos nuas estão desprotegidos.

A culpa não está em um lugar apenas; está disseminada na cultura e atinge pacientes e cuidadores. O signo é o medo e a cesariana um refúgio para as agressões. Cesarianas em alta significam o acionamento de uma cascata de eventos, que transitam da morbimortalidade materna e neonatal aumentadas até o desmame precoce. Por outro lado o respeito aos estudos que apontam o parto normal como superior podem ameaçar o bem estar e a própria continuidade do trabalho dos atendentes de parto.

É preciso entender o que este tipo de campanha significa e onde pode nos levar.

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Parteiros Infalíveis

Uma revista de grande circulação publicou matéria sobre uma famosa parteira nordestina e seu trabalho de várias décadas na atenção ao parto. A revista prestava uma homenagem oportuna e justa, mas não foi para mim nenhuma surpresa o fato de terem informado um número exagerado de partos atendidos por ela (6 mil) além de terem acrescentado uma fala que merece uma análise mais aprofundada: “Nunca perdi um bebê“, disse ela.

Fiz um comentário discreto aqui em casa a respeito da matéria, mesmo porque sabemos que é politicamente incorreto questionar um mito muito antigo da obstetrícia: o número de partos atendidos por parteiras e médicos. Nesse terreno podemos afirmar sem medo que todos mentem sobre os famosos “múltiplos de mil” (menos eu, que anotei todos os quase dois mil que atendi na minha carreira de 30 anos).

Ora, cabe uma consideração sobre os seis mil partos que a parteira informa ter atendido durante sua carreira, sem que tenha ocorrido nenhum óbito neonatal. É importante salientar que os melhores serviços europeus de obstetrícia têm mortalidade neonatal ao redor de 4/1000 nascidos. Uma parteira que tenha atendido por volta de 6 mil partos (número obviamente inflacionado) teria o direito de perder 24 bebês. Sim …. 24!! Este é um número maravilhoso para qualquer serviço de excelência neonatal do mundo!! Portanto, essa ausência de óbitos parece deveras estranha, mas sabemos o quanto é tabu questionar tais números.

O pior cenário é quando criamos uma redoma em volta dos eleitos e recebemos uma chuva de críticas pelo que consideram “ataques aos símbolos de um movimento”. Nesse momento chamam as Deusas para acusá-lo de não respeitar “as mãos  sagradas que apanharam tantos bebês”.

Pensem bem sobre o significado em longo prazo dessas declarações. Agora mesmo eu recebi uma homenagem da Assembleia Legislativa de SC. Imaginem o que teria de repercussão se eu recebendo a homenagem declarasse: “Eu agradeço as homenagens e espero que mais nenhum bebê venha a morrer enrolado no cordão ou porque passou da hora“.

Seria justo silenciar nessa hora só porque algumas pessoas do movimento de humanização gostam de mim ou para não “estragar” uma homenagem? Estou exagerando, por certo, pois esse estrago seria muito maior do que um simples número falacioso, mas é apenas para ficar claro que jamais será justo silenciar diante dos erros.

Um episódio me marcou muito nesse aspecto. Quando eu era residente houve uma homenagem no hospital pela passagem do dia da enfermagem. Falaram enfermeiras, médicos, administradores e por fim um político, presidente da assembleia. Ele teceu uma série de elogios óbvios e previsíveis e terminou com um espetacular “afinal vocês são nossos anjos de branco”.

Resultado: vaias da galera das enfermeiras. Mas como vaiar uma homenagem???? A razão, que eu concordei quando falei com elas depois, era afastar de forma veemente o estigma desprofissionalizante das “abnegadas serviçais angelicais”. Elas me diziam “nem vem com esse papo de anjo porque anjo não tem sexo e não ganha salário“.

Veja bem…. até eu achei exagerada e grosseira a vaia a uma homenagem, mas depois entendi perfeitamente e concordei com a manifestação pois ela levava em consideração o FUTURO da enfermagem como profissão, e não uma homenagem passageira. Respeitei o ato por ele significar o cuidado com o porvir profissional de meninas que sequer estavam ali, mas que seriam as futuras enfermeiras.

Nesse caso vejo da mesma forma. Acho que se a dona Prazeres é tudo isso que falam (e eu acredito) ela vai entender a correção que nós prontamente fizemos dos números irreais. Ela deixou um legado que ninguém tira, mas corrigir estas estatísticas serve para proteger as enfermeiras que labutam e enfrentam a inevitabilidade da morte todos os dias.

Não há dúvida que este é um problema recorrente: a mitificação e a idolatria. Por está razão eu falo há tanto tempo do risco de eleger – em qualquer setor da sociedade – elementos acima do “bem e do mal” para nos representar. Dona Prazeres merece todo nosso respeito e consideração, carinho e afeto, mas ela não está acima das Deusas da Probabilidade e nem dos Deuses da Estatística. Ela é uma pessoa apenas, devotada ao seu trabalho e à sua paixão, e não um ser divino que suplantou as leis da vida e da morte.

Aprender a aceitar críticas e reparos aos nossos ídolos – de Jesus a Lula, passando lá no meio por tantas parteiras e dona Prazeres – faz parte do nosso amadurecimento. Quem deseja fazer grandes transformações terá pela frente a tarefa de remexer em solo rígido, por muitos pisoteado, e isso nunca é feito sem críticas e ataques.

O grande problema dessas fantasias disseminadas no universo dos obstetras e parteiras é desnaturalizar a morte neonatal, como se a sobrevivência dos bebês dependesse unicamente da nossa capacidade, abnegação e compaixão. Essa perspectiva irreal torna toda morte neonatal uma tragédia, fazendo a culpa recair sobre o cuidador, que será visto como negligente e incompetente.

Babies die and shit happens“, já nos avisava Marsden Wagner, chefe do serviço Materno-Infantil da OMS para o leste europeu. Criar essa ilusão de excelência é péssimo para o trabalho de parteiras e médicos. A ilusão da infalibilidade é deletéria e produz efeitos nocivos. Criar uma aura de “erro zero” para os profissionais que atendem o parto pode produzir uma expectativa irreal sobre este trabalho, e a conta será inevitavelmente cobrada depois. Sem dó.

“A tolerância exagerada com nossos equívocos gera descrédito. Credibilidade é algo que se constrói em anos e se perde em 5 minutos”.

Essa postura onipotente poderá ter um preço muito alto. Uma vez vi o filho de uma paciente que havia falecido dizer para um colega médico a respeito do óbito de sua mãe: “Como assim morreu? Hoje em dia a medicina está tão avançada; como não houve cura para ela?“.

Quem brinca de Deus será odiado pelos desastres naturais“, como também dizia o mestre Marsden.

Aqui na província um velho professor (que não fazia plantões há mais de 30 anos) disse durante uma entrevista na TV local que atendeu “mais de 30 mil partos“, e disse essa baboseira com a cara mais impávida e serena. Não passa de um mentiroso e embusteiro. Quem trabalhou nessa área sabe que número de partos é tamanho de falo, com o perdão pela comparação grosseira. Todo garoto descreve proporções exageradas de si mesmo – sempre acima da realidade – mesmo porque poucos estão interessados em ver os “documentos comprobatórios”.

Todavia, é interessante notar que essa “ilusão de excelência” surgiu quando da confrontação do trabalho milenar das parteiras com o modelo médico hegemônico que se estabelecia, onde a morte se tornou palavra maldita e considerada uma falha. As parteiras, para quem a morte tinha outro significado, acabaram por adotar o paradigma da “morte-fracasso” que os médicos instituíram, o que é uma pena; lidar com a morte com mais naturalidade seria melhor para todos. Evidentemente que “encarar a morte como parte da existência” não significa abdicar da luta para manter a vida através da arte e da competência, usando de todos os meios para mantê-la, mas significa reconhecer que ela é nossa única certeza e nosso fim inequívoco.

Por mais que tentemos evitar sua presença obscura, a morte faz parte do nosso cotidiano e dos nossos pesadelos mais sombrios. Porém, só os tolos disfarçam o medo que dela sentem ou afastam dos olhos sua miragem. Um bom obstetra ou parteira sabe o gosto que a morte tem e já sentiu seu hálito gelado a lhe trespassar a pele e congelar os ossos.

“A idolatria faz mais vítimas que o ódio explícito. Aquela é cega para os defeitos, enquanto este para as virtudes. Entretanto, ainda é melhor um defeito exagerado do que uma perversão dissimulada. Quanto às virtudes, elas aparecem, mais cedo ou mais tarde.” (Eleanor Sinclair, “Just above the Rainbow”, Ed. Aleph, pág 135.)

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Cócoras

Há exatos 35 anos iniciei a atender partos em posição vertical no hospital onde fiz residência. A reação dos colegas variava entre o escárnio debochado e a aversão explícita. As explicações que davam na época são usadas até hoje: “civilizadas são diferentes”, “só índias podem/aguentam”, “o períneo enfraqueceu pela vida moderna”, “mulher de cidade não fica acocorada e não sobe em coqueiro”, etc. Nenhuma dessas afirmações se baseia em evidências, mas ainda assim o parto continua sendo tratado da mesma maneira.

Trinta e cinco anos se passaram e o parto padrão em nossas maternidades – públicas e privadas – continua sendo nas posições que favorecem médicos e instituições, mas são profundamente inadequadas para mães e bebês. O poder é (ainda) mais importante do que as evidências.

“A história é geralmente dura com os covardes, mesmo quando poderosos, e via de regra generosa com os corajosos e ousados, mesmo quando vítimas daqueles a quem denunciaram”

Sergei Kalikowski, “Piratas do Gulag”, Ed Printemps, pag 135

Veja aqui o resumo mais recente sobre posições verticais no parto:

Texto de Gail Hart:

BIRTH TOPIC: WOW!

So… here’s a nice study of birth position. 100 women were randomly assigned to birth in lithotomy position – supine (on their backs) and 100 were delivered in the squatting position.

Look at the results:

1. Second and third degree perineal tears occurred in 9% of the lithotomy group, but none in the squatting group.

2. Forceps for delivery was twice as high in the lithotomy (24%) as the squatting group (11%)

3. There were two cases of shoulder dystocia in the lithotomy group, but none in the squatting group.

4. There were no cases of retained placenta in the squatting group, but 4% of the women supine had retained placenta and 1% had postpartum hemorrhage of more than 500cc due to uterine atony.

“”There was no significant difference in the apgar scores, foetal heart rate patterns or requirement of neonatal resuscitation.””

So, wow, that’s a heck of a lot of maternal benefit simply by changing to a more physiological delivery position. It is time to assign the Lithotomy Position to the Dustbin of History! Indeed, it is long past time!

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Activism

“The same kind of argument (that the activism for normal and physiologic birth is dangerous) is used against every social movement, like ecology, anti-racism, muslims, refugees etc. Why not attack the birth movement as well? The strategy is to use focal problems and to generalize, creating the idea that protecting gays, pregnant women, refugees, children and workers, in fact, hides a “terrible problem”, since activists are “fanatics” and “irresponsible human beings”.

Indeed, that’s what we should always expect when we witness the slow death the old paradigms.”

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Poder e Evidências

O Poder vale mais do que as evidências.

Esta visão do processo fisiológico do parto vai perdurar enquanto o parto for classificado pelos homens, e a partir de suas perspectivas. Mas quando vejo este tipo de protocolo eu lembro que eu me insurgia contra esta imposição há 30 anos, e eu já fazia isso baseado nas evidências da época, e não em visões românticas ou pessoais.

O que mais me impressiona é que passadas três décadas de profundas revoluções, em especial no terreno da disseminação de informação, ainda temos uma visão OFICIAL de parto, disseminada em serviços universitários, que já era velha há 30 anos.

O que acontece com os donos do parto, que se negam a ver as mudanças na própria ciência e mantém uma visão depreciativa da mulher e suas capacidades? Trinta anos se passaram e o mesmo modelo se mantém.

Em verdade o que se expressa nesse papel são os últimos suspiros do patriarcado, uma forma de controlar a mulher cerceando sua liberdade e controlando um dos aspectos mais fundamentais da sua sexualidade.

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Mitos ruidosos

Mitos que caem ruidosamente.

É curioso como o surgimento desses mitos médicos sempre coincidem com benefícios e privilégios para os setores que detém o poder. O mito da “segurança” superior da cesariana em várias circunstâncias (gestação a termo, cesariana anterior, pélvicos, gemelares) só consegue prosperar e florescer porque beneficia médicos e instituições. As vantagens do parto vaginal, em contrapartida, não conseguem se estabelecer com facilidade exatamente pela mesma razão: o parto vaginal agride o desejo e a própria formação tecnicista dos médicos.

Para a atenção a um parto múltiplas habilidades são requeridas, enquanto para uma cesariana bastam as qualidades técnicas. Mas, como os profissionais médicos detém o poder autoritativo, as evidências só produzem diferença quando reforçam este poder, e não quando se contrapõe a ele.

Veja aqui o estudo que demonstra a segurança de provas de trabalho de parto para gestantes com 3 ou mais cesarianas.

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Ofensas e injúrias

(Texto de resposta no Facebook)

Fiquei sabendo por terceiros de graves ofensas e injúrias a que fui submetido por um vídeo postado na internet por uma moça com a qual tive uma discussão pública há alguns dias.  No vídeo ela me trata com inúmeros palavrões e outras palavras de baixo calão, mas acrescenta mentiras graves, sendo a principal delas a de que eu a teria ameaçado assim como a amigas suas. Escrevi tudo publicamente na minha página da internet e em nenhum momento ofendi a honra de quem quer que seja. Tive uma postura clara de discordância mas em momento algum baixei o nível ou ofendi os que discordaram de mim. Em função disso estou acionando na delegacia de crimes cibernéticos a senhora em questão por ofensa grave à honra.

Tive dois contatos em privado com ela. Eu procurei conversar com ela desta forma para que ela não fosse exposta, e nem seu filho. Na primeira expliquei que não era inimigo dela, mas que expor a vida sexual de um filho menor de idade podia ser problemático. Disse explicitamente “não sou seu inimigo”. Pedi que tivesse cuidado e mostrei artigos do ECA para ela ver que isso é algo muito delicado. Nessa altura já sabia que ela mora em outro país, mas talvez lá a lei seja até mais severa. Não falei de forma ameaçante e sequer irritado. Estava preocupado com os desdobramentos das suas atitudes. Tenho no meu celular esse texto e levarei à delegacia para análise e para que conste nos autos.

A segunda mensagem inbox foi para tentar interromper sua escalada de ódio. Entendi que poderia escrever algo que encerrasse a discussão e parassem as ofensas. Também temia por ela. O segundo texto é esse:

“Sabrina… Eu queria escrever um texto para me desculpar de algumas coisas e acho que deveria ser público. Para isso eu queria te mostrar e ver se você se sente contemplada com ele. Você pode vetar ou sugerir uma modificação em que você se sinta bem. Se você achar que vale a pena eu escrevo e peço a sua licença para publicar.”

Minha ideia era escrever algo como “Desculpe se você se ofendeu. Não era pessoal e eu estava debatendo um fato, não sua pessoa. Não desejava colocar dúvidas na sua condição de mãe. Não conheço você mas me desculpe se isso a feriu de alguma forma”. Era um texto genérico para aparar palavras ásperas que surgem em qualquer debate, mesmo quando se mantém a discordância do tema central.

Ela não respondeu nenhuma mensagem.

Infelizmente ela fez um vídeo com acusações graves e terá que comprovar isso. Tenho a cópia das duas únicas mensagens privadas a ela.  NUNCA AMEACEI A ELA OU QUALQUER AMIGA SUA. Se ela me acusa disso terá que provar, e as provas de minha inocência as tenho comigo e no post da Internet. Infelizmente serei obrigado a uma ação enérgica e isso acabará repercutindo de uma maneira que nunca quis (por isso queria terminar o embate em ambiente privado, exatamente por envolver menores de idade).

Obrigado pela compreensão.

Abaixo um resumo do caso.

Há dois dias passados escrevi um texto em resposta a um artigo que li no Facebook de uma moça que falava de sua experiência com o filho de 15 anos. Este queria ter relações sexuais com a namorada de 17 anos e pediu que fosse na casa que mora com sua mãe.

Achei que a iniciação sexual de menores de idade podia ser um tema interessante para debater e pensei que muitas pessoas podiam contribuir com ideias e posicionamentos. Não citei a pessoa em nenhum momento, nem mesmo a cidade, o país ou qualquer outro elemento que a pudesse identificar. Também não critiquei a mãe, mas critiquei sua decisão por achar – está é minha tese, bem simples – que a vida sexual se constrói por conquista e não por concessões, e que um menino menor de idade deveria ser protegido.

Fiquei surpreso ao ver que a autora do texto adentrou meu Facebook profundamente indignada dizendo que eu não tinha o direito de critica e sua decisão. Eu discordei e expliquei porque não concordava com sua decisão. A partir de então houve uma chuva de críticas e – certamente – ofensas pessoais, mas achei que essas coisas são naturais no ambiente cibernético e por tocar em pontos delicados como sexo, infância, educação e mulheres. Depois de 24 horas de argumentos eu solicitei que a conversa se encerrasse porque os argumentos estavam se repetindo – contra e a favor – e não havia nada mais a ser dito.

Infelizmente meu filho me avisou que ela publicou um vídeo recheado de ofensas e acusações e distribuiu pela internet e ter suas seguidoras. Entre as ofensas há a acusação de que eu a teria “ameaçado” e também suas amigas. Na verdade eu até mandei uma mensagem inbox (veja abaixo) mas está longe de ser uma ameaça, pois é uma tentativa clara de conciliação.

Diante do exposto esclareço que:

1- Nunca expus publicamente esta moça e nem sabia seu nome, nem mesmo de onde escreveu. Escrevi sobre um FATO: como lidar com a iniciação sexual de menores de idade e me posicionei em desacordo com sua ideia. Não há no meu texto qualquer ataque pessoal a ela, nenhuma forma fácil e simples de identificá-la e – obviamente – nenhuma ameaça ou ofensa pessoal.

2- Não fiz nenhum tipo de ameaça a ela mas escrevi em privado para que ficasse atenta com o que publica na internet pois o tema é muito delicado. Enviei a ela um trecho do ECA para que ela ficasse alerta e deixei claro: “não sou seu inimigo”.

3- Não considero o texto machista porque todos os personagens no texto poderiam ter o gênero trocado e minha opinião seria a mesma.  Disse – em sua defesa – que o fato de não ter um homem para dividir essa decisão a obrigou a tomá-la sozinha. “Duas cabeças pensam melhor que uma”, e que se tivesse ajuda talvez fosse diferente. Não fiz nenhuma crítica a sua qualidade como mãe ou à sua maternagem.

4- Usei um termo feio no início do texto e imediatamente o retirei, pois poderia  gerar confusão. Pedi desculpas pela comparação imediatamente. Foi um erro, mas foi corrigido muito no início.

Por outro lado aceito que errei

Eu deveria ter no mínimo esperado mais para debater o tema. Creio que se trata de um tema importante para mães, país e até avós como eu. Esse tipo de dilema que ela enfrentou muitos irão se deparar e em idades até mais precoces. Acho que ela se ofendeu por ter lido o meu texto como uma crítica às suas qualidades como mãe. Mesmo que eu não tenha feito isso, imagino que ela tenha se sentido mal e por isso a explosão de indignação.

Por fim peço desculpas a ela e espero que ela tome as atitudes adequadas com o vídeo ofensivo que injurioso que postou. Gostaria que a solução fosse a mais branda civilizada possível, sob pena de termos que discutir em outros patamares.

Deixo o meu pedido de desculpas para todos se no debate houve algum excesso de minha parte. Se eu o fiz peço humildemente perdão e o farei explicitamente a quem se sentiu ofendido.

Obrigado
Ric

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Mais ecografias

Sobre o abuso cada vez mais descarado de ultrassonografias na gravidez:

Não existe NENHUMA base científica para justificar essa barbárie ultrassônica. Isso é uma mistura de capitalismo abusivo com ignorância ancorada na insegurança. Esta insegurança, por sua vez, é produzida pela cultura e amplificada pelo discurso médico, porque os médicos se fortalecem e empoderam quanto mais alienada e assustada estiver uma gestante.

Todos ganham: médicos, clínicas, especialistas, enfermeiras, hospitais, indústria farmacêutica e de equipamentos (a que mais lucra) e a medicina como biopoder. Só perdem mães, bebês e a sociedade. Justo, não lhes parece?

É um absurdo. Cada vez que um médico chefe ou um gestor estabelece esse protocolo insensato e sem embasamento o seu Toshiba e o seu Siemens abrem uma garrafa de Champagne Moet Chandon e caem na gargalhada.

Quando uma mulher chora ao ver seu bebê no aparelho de ultrassom ela quase sempre chora de alívio, e não de emoção. O trabalho de destruir sua autoconfiança como mulher e gestante a leva a depender das máquinas para construir uma segurança que a medicina e a cultura retiram dela.

Peço licença para fazer uma analogia: Se houvesse um leite que fosse absolutamente igual ao leite materno sem NENHUMA diferença entre as composições, acreditas que não faria diferença alguma entre essa variedade e a natural?

Existe muito mais do que um exame em qualquer exame. Um exame, assim como o ato de amamentar carregam significados que extrapolam sua operacionalidade. Eles agem no simbólico, ultrapassando os limites de sua ação física e funcional. Dar uma mamadeira e fazer ecografias simbolizam a defectividade essencial da mulher, que precisará dos recursos outros (a tecnologia) para dar conta de suas questões fisiológicas de gestar e maternar. Esses símbolos REFORÇAM a imagem diminutiva da mulher na cultura por colocá-la como essencialmente incompetente para dar contas, por si mesma, dos seus desafios de mulher.

Não se trata de permitir ou não a realização de um exame. Nesse aspecto é igual ao abuso de cesarianas. É óbvio que existem malefícios nesses abusos e que precisam ser criticados à exaustão, mas ainda prefiro mulheres livres para tomar decisões erradas e tolas (na minha perspectiva e na da ciência). O texto não tangencia a questão de cercear escolhas, mas infere que essa “escolha” NUNCA é totalmente livre e sofre condicionamento da cultura e do médico enquanto significante. E este médico tem muito a lucrar com isso, por esta razão estas opções tem aspectos éticos relevantes.

Uma ultrassonografia expropria simbolicamente a gestação de uma mulher ao colocar esta relação intermediada por uma máquina. Tudo o que ocorre depois disso é marcado por essa intervenção invasiva, em maior ou menor grau.

O discurso médico é a tradução da visão de mundo da medicina ocidental contemporânea com a qual convivemos. Mesmo sendo diverso e plural não é difícil traçar uma linha que nos conduz à fala da Medicina na cultura. O mesmo e pode dizer do discurso jurídico ou político.

Dizer que não existe um discurso médico dominante – que é iatrocêntrico, etiocêntrico e tecnocrático – porque existem médicos que “respeitam pacientes e evidências” é o mesmo que negar a supremacia da visão alopática porque conhece alguns homeopatas; é o mesmo que negar o machismo porque alguns amigos lavam a louça…

Na obstetrícia a existência de hospitais com 90% de cesarianas sepulta essa discussão. Houvesse respeito pelos pacientes como DISCURSO HEGEMÔNICO e isso jamais seria admitido ou tolerado.

Eu entendo o cuidado para não afastar os bons médicos com essa perspectiva e esse conceito mas na minha opinião os bons profissionais são capazes de fazer mea culpa e exercitam a autocrítica. Nenhum bom médico que conheço nega a crise ética da medicina, que nada mais é do que um dos milhares de braços da crise do capitalismo mundial.

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Liberdade, liberdade

Recordo que há alguns anos escrevi um artigo que falava criticamente do racismo que sobrevive no nosso meio e das suas conexões com a escravidão no Brasil. Para ilustrar o texto coloquei uma imagem da internet com um torso negro masculino envolto em uma grossa corrente. Recebi alguns elogios pela iniciativa (um obstetra falando de racismo institucional não é muito comum), mas no dia seguinte um famoso grupo identitário virtual me escreveu dizendo terem gostado do texto, mas que não aprovavam a imagem. Disseram que era hora de desvincular os negros da escravidão. Respondi explicando que o texto falava explicitamente da escravidão e suas repercussões, quase um século e meio após sua abolição, mas elas ficaram irredutíveis em sua proposta.

Eu troquei a imagem por outra (achei que não valia a pena a animosidade por um detalhe). Coloquei uma barriga grávida e negra, mas percebi o risco que havia nessa proposta de censura (que se limitou a um pedido). E se eu tivesse me negado? E se eu insistisse na imagem? Que tipo de represália eu poderia sofrer?

Quando escrevi meu capítulo no livro “Birth Models that Work“, da antropóloga Robbie Davis-Floyd, recebi um “sinal de luz” da revisora que achava que meu texto “essencializava” a mulher ao exaltar suas capacidades de gestar e parir, e isso podia incomodar algumas feministas. Desta vez bati pé e tive uma áspera discussão ao telefone que terminou com “então pode retirar o capítulo do livro“. Não foi necessário e minha contribuição nunca fui criticada por ter essa característica.

Liberdade de expressão é uma falta que eu vejo de maneira muito clara no discurso das esquerdas. As estúpidas expulsões de bolsominions de manifestações, ou mesmo negando-lhes o direito de falar, mostram a face autoritária que ainda sobrevive nesse meio. Cabe a nós, do campo progressista, eliminar qualquer forma de autoritarismo e censura, e para isso precisamos pagar o preço que se fizer necessário.

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