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Uzomi

cultura-machista

Uma feminista, claramente indignada com a saída da menina do Master Chef, escreveu há algumas horas a seguinte frase: “Uzomi venceram”….

Eu sei que “uzomi” é um termo usado para identificar machistas. Sei disso… Entretanto quando um médico diz “eu fiz o parto da fulana” a gente tenta corrigir explicando que quem faz o parto é a mulher, e que essa frase carrega escondida entre as palavras uma clara expropriação de um evento sagrado como o parto por parte de quem deveria apenas garantir a sua segurança e acompanhá-lo. Pelas mesmas razões, usar “os homens” para se referir a machistas, abusadores e pedófilos nos dá a entender que a luta não é contra aqueles que naturalizam sistemas de poder e usam da força física e política para oprimir as mulheres, mas que é contra todos os homens – pelo simples fato de serem homens.

Minha crítica não tem NADA a ver com a saída dessa menina do programa, até porque eu me afasto desse assunto (abusos, pedofilia, agressões), pois me causa tristeza e raiva. A ÚNICA ressalva que faço é a generalização ofensiva com os homens, como se todos nós fôssemos parceiros de pedófilos e abusadores. Pior, como se essa fosse uma luta dos homens contra as mulheres. Isso é um erro brutal e uma suprema injustiça, que só afasta os homens que poderiam se associar nessa luta.

Se cobramos dos profissionais que parem de expropriar partos e garantam o protagonismo deste evento às mulheres, também é justo pedir a algumas feministas (não todas… as que estão ao meu redor concordaram que este termo não deve ser usado) que parem de utilizar termos ofensivos contra os homens quando, em verdade, querem se referir a um grupo extremamente minoritário de pessoas que acreditam em uma pretensa superioridade masculina ou que o corpo da mulher é um objeto que pode ser usado apenas para satisfazer seus desejos.

Se queremos um mundo livre de sexismos precisamos vigiar TODAS as falas, sob pena de perdermos cada dia mais homens interessados nessa luta e que são tratados como inimigos, pela simples razão de serem homens.

Não se trata de desmerecer as lutas feministas, mas pedir que não generalizem para fazer valer seus pontos e nem apontem suas armas contra os inimigos errados: os homens. Não somos nós os inimigos: o inimigo é o machismo e o modelo que nós todos construímos na sociedade. Ele sim deve ser trocado por algo melhor e mais justo. Essas expressões afastam aqueles que gostariam de se aproximar mas se sentem imediatamente rechaçados.

Para fazer com que uma ideia seja aceita por todos o confronto nem sempre é a melhor solução. Muitas vezes a palavra doce e a compaixão – procurando sempre entender o ponto de visto do outro – são mais efetivos, mesmo que durem mais tempo. Se as mulheres desejam uma sociedade mais justa, abandonem os termos ofensivos e agressivos que aprenderam a usar com os machistas. “Uzomi” ofende quem não merece ofensa, e afasta quem desejava se aproximar.

PS: A bem da verdade, essa moça – que se identifica como uma feminista que não tem ódio de homens – corrigiu sua expressão e escreveu “os machistas venceram“. Eu me senti satisfeito.

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Equívocos

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Não faz sentido comparar os equívocos cometidos pelos governos militares com os de agora. Os erros do governo militar são comprovados: sequestros, mortes, torturas, perseguições, falta de liberdade, mordaças, maquiagens econômicas, endividamento externo e interno, etc. Também não faz sentido achar que a liberdade oferecida por este governo às instituições que combatem a corrupção foram “concessões pela governabilidade”. Não se trata disso: é um projeto claro de cortar a pele a abrir o abscesso da corrupção.

Contra o governo de Lula e Dilma, por enquanto apenas apareceram boatos (no que diz respeito à corrupção). Os erros na questão econômica poderão ser julgados no futuro, quando forem avaliados dentro dos contextos a que pertenceram. O que Dilma fez não foi algo “ao apagar das luzes do seu governo“. NÃO: foi um política clara desde o primeiro dia do seu primeiro mandato de oferecer garantias à Policia Federal e ao Ministério Público para investigarem tudo e a todos. NÃO FOI uma atitude desesperada, e nem uma “saída honrosa”; foi uma atitude do governo de curar a ferida da corrupção acabando com seu principal agente: a IMPUNIDADE. Por esta razão até mesmo José Dirceu foi condenado de forma irregular e SEM PROVAS, num escândalo jurídico (e que ainda não acabou, posto que irá para as cortes superiores da OEA). Mesmo cortando na própria carne este governo GARANTIU a continuidade do projeto de combate incessante à corrupção, e por esta razão, apesar das mentiras e das falsidades de inimigos ideológicos, é o governo mais HONESTO que tivemos neste país.

Que ainda há muito a fazer, não resta dúvida. Mas olhe bem para os partidos que são acusados de corrupção: o PT é o NONO (9º colocado). Tudo isso nos deixa claro que existe uma manipulação extensiva para culpabilizar o PT naquilo que ele faz de BOM, como o combate à corrupção. As críticas falsas, daninhas, sem provas, sem embasamento são usadas pelos mesmos grupos poderosos que agem desde 1954 para que as reformas (como o combate à corrupção hoje, ou a reforma agrária em 64) sejam interrompidas em nome da “moralidade”, ou para punir os “ladrões”.

O que me dói é ver gente pobre ou da classe média trabalhadora servir de massa de manobra para estes mesmos grupos que há séculos comandam os fios invisíveis de onde pendem nossos corpos. Não se trata de obstruir a crítica SEVERA aos erros MÚLTIPLOS que este governo cometeu e ainda vai cometer, mas de perceber que as críticas à HONRA só proliferam quando existe algo mais do que elementos de macroeconomia e políticas estruturais a combater. Nesse caso, o interesse é barrar as investigações, impedir que se chegue ao Cunha, ao Aécio, ao Nardes, à RBS, à cúpula do PP, ao PMDB (o mais corrupto de todos). É essa a luta para derrubar Dilma, que acaba sendo orquestrada pelos tolos da vez, pessoas que acham que atacando o bisturi poderão melhorar o abscesso.

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ATAME!

The Collector

Pedro Almodóvar, em seu filme “Ata-Me!”, desenvolve um instigante tema que já havia sido abordado no filme “O Colecionador” (The Collector, de William Wyler) de 1965. Nesta obra o genial diretor espanhol discorre sobre o amor como produto objetivo da procura amorosa. Em verdade, sob um ponto de vista filosófico, o filme do espanhol poderia ser analisado como um “remake” do filme de Wyler. Em ambas as películas um jovem, obcecado por uma paixão, sequestra sua vítima, foco de seu amor desmesurado, mantendo-a trancafiada e aguardando que ela um dia venha a se apaixonar por seu raptor. Após tal desesperada atitude, os sequestradores de ambos os filmes se esforçam em demonstrar – de variadas maneiras – a sua dedicação e desvelo com as vítimas, dizendo amar-lhes com devoção e respeito. Refreiam até seus impulsos sexuais, fazendo da contenção uma prova adicional do respeito que nutrem por suas adoradas cativas. Em “O Colecionador” a tragédia é o desenlace fatal, pela impossibilidade de sustentar-se a absoluta assimetria da relação. Vitimada pela penúria psicológica e física, a protagonista vem a morrer de pneumonia, nos braços de seu algoz.

Almodóvar, em seu filme de 1989, resolveu aplicar ao seu final uma solução mais otimista: o amor descoberto por detrás das capas de violência.

Atame

Em ambos os filmes a temática é clara: a possibilidade de criar-se o amor como fim, e não como meio. A ideia que perpassa é a tentativa de criar-se o afeto como o “produto” de um encontro. Forçadamente os protagonistas procuravam constranger a afeição de suas eleitas como se esta fosse uma conquista típica do universo masculino: “subjugue e imponha”. Entretanto, o afeto nunca é produto: oferece-se sempre como acessório, ou subproduto de uma relação. “Os subprodutos põem em xeque a soberba racionalista de que podemos conseguir moldar tanto o mundo exterior como o nosso próprio meio intra psíquico, fixando nossas metas e pondo imediatamente em ação os meios ou recursos adequados(*). Podemos impor o medo e o terror; jamais o respeito, o amor e a confiança. Estas aparecem como que “magicamente”, no transcorrer de um processo. Surgem quando menos se espera, e revoltam-se contra as determinações externas. As relações amorosas carregam sempre esta marca de imprevisibilidade: nunca seremos capazes de reconhecer e vislumbrar os encontros adequados, posto que apenas o engajamento de um no desejo do outro é capaz de produzir o florescimento do amor. E, como bem o sabemos, não temos como prever tal acontecimento, pois que escapa ao controle do racional.

“Mesmo sendo o Antônio Banderas! Que mais poderiam desejar?”, perguntava eu às minhas amigas, ao que elas respondiam que, não sendo do seu agrado, nenhum homem poderia dispor de sua afeição ou de seu corpo. Como na fábula de princesa monstruosa de dia e linda à noite, o segredo estava na possibilidade de escolher.

“Acontece que a donzela,
e isso era segredo dela,
Também tinha seus caprichos.
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e cobre
Preferia amar os bichos”.

(Chico Buarque, Geni e o Zeppelin)

Mesmo Geni, que representa o “esgoto social”, (**) sabia destas imponderáveis características do desejo. Os encontros de amor trazem sempre seus caprichos. Acima de tudo, o que todos queremos é o protagonismo de nossas vidas. Oferecer a elas um Banderas, sem que isso passe por sua decisão, não é capaz de produzir o amor como produto.

Marina, a heroína pornô do diretor Máximo, acaba resgatando na sexualidade desperta, o amor por Ricky. Ali encontrou Almodóvar a possibilidade redentora de seus personagens. O sexo selvagem entre eles (que tanta celeuma produziu na época) acendeu a chama que os capturou, um ao outro. O contrário se observou no filme de William Wyler, onde nada conseguiu produzir a ligação entre a dupla, e a morte tornou-se o único desfecho possível. Não havia, imagino eu, nos anos 60, essa via de redenção. Seria demais pedir que as mulheres, há quase 40 anos, buscassem na sexualidade desperta uma possibilidade transformadora. Pelo menos não no imaginário social.

Prefiro analisar a modificação temática ocorrida nos mais de três decênios que separam as películas como a possibilidade de conquista de um amor mais livre e mais justo. O filme dos anos 60 nos mostra que o inconsciente social recém despertava para a necessidade de uma maior liberdade para as mulheres, mas não traçava um horizonte mais claro pela impossibilidade de compreensão das alternativas que produziriam tal revolução. O resultado só poderia ser sombrio e lúgubre. As mulheres ainda estavam numa total subserviência ao controle patriarcal, mas o romance de Freddie e Miranda em “O Colecionador” apontava para a ideia de que, se não lhes fosse oferecida a possibilidade de escolha, o resultado para a sociedade só poderia ser funesto. Em “Ata-Me!”, Almodóvar acena com a redenção: o protagonismo conquistado, e só ele, como capaz de reverter a submissão humilhante e degradante. Marina desperta seu desejo e, na cama, como metáfora de sua opção, troca de posição com Ricky. Sobre o corpo de seu amante, acena com a subversão da dominação, impondo sobre a violência a vitória imperiosa dos seus desejos e direitos. Ali se estabelece a mudança, o corte profundo, a guinada em direção ao “amor conquistado”, em substituição ao “amor imposto”.

Quando vi o filme de Almodóvar, e fazendo a conexão imediata e natural com o drama de Wyler, foi para mim impossível não traçar um paralelo com a humanização do nascimento. Nos filmes, como na trajetória de qualquer mulher, surgirá o tema das escolhas e da autonomia. O encontro médico-paciente é um encontro entre pessoas, onde fluem energias afetivas que compõe o cenário terapêutico. Negar esse fenômeno é cegar-se à própria essência do processo de cura onde, muito mais do que drogas e intervenções, operam os processos afetivos que permeiam este encontro. Médicos podem “atar” seus pacientes em transferências sadomasoquistas, ou aprisioná-los em medicamentos e terapias, mas somente quando estes se sentem livres é que a cura pode ocorrer. Não existe terapia verdadeiramente frutuosa que não remeta o paciente a libertar-se do seu egoísmo, de suas dores, culpas, ódios e rancores. A medicina, tal qual ocorreu com os desesperados protagonistas, por vezes procura forçar o bem-estar, a despeito da autonomia, da vontade e do desejo de quem se serve dela, desconsiderando o paciente como legítimo condutor de seus desígnios.

“Liberdade é nossa meta última”, repetia-me Max. “O seu amor, ame-o e deixe-o livre para amar”, cantavam os doces bárbaros. Não existe relação verdadeira sem a liberdade de escolher.

Não existe verdadeira humanização do nascimento sem protagonismo. Entretanto, cabe dizer, o que fazer daqueles que optam pelo cativeiro por se julgarem inaptos para a liberdade, e que se jogam nas mãos dos algozes para, abrindo mão da autonomia, encontrarem pelo menos a segurança que almejam? Esta é uma questão que se responde através da educação e da informação, pois só elas levam à descoberta das alternativas para a alienação.

Ata-me

Ricky, assim como Freddie, esmerou-se em oferecer tudo o que estava ao seu alcance para proteger, ajudar e cuidar de sua amada. Ambos fizeram sacrifícios, arriscaram-se, quase morreram. Entretanto, não conseguiram oferecer aquilo que de mais valioso era possível ofertar: a liberdade. Travados por um modelo de controle e dominação, não conseguiam entender um processo que não fosse pela coerção e através do medo. Ambos foram pródigos em “sofisticar a tutela”, dando às suas amadas o que de mais rico eram capazes de oferecer: sua devoção sincera; porém, também sabiam que, se a liberdade fosse oferecida, elas poderiam ir embora. Temiam o resultado dessa atitude, pela possibilidade da perda do seu amor. Entretanto, esse amor nunca floresceria, em “O Colecionador”, e só ocorreria em “Ata-Me!” quando a própria estrutura autoritária da relação foi subvertida, o que não pôde ocorrer na relação doentia de Freddie e Miranda. Note-se que a morte da protagonista nesta película pode ser lida, simbolicamente, como a “desistência da vida”, causada pela falta de liberdade a ela imposta.

No cenário do nascimento humano, apenas a possibilidade de oferecer às mulheres o controle sobre seus corpos poderá lhes “salvar” da tragédia da sua anulação enquanto sujeitos. Nenhuma “sofisticação de tutela”, por mais dedicada que seja (como fizeram Ricky e Freddie), será capaz de resgatar as mulheres da “inanição” de um cárcere de si mesmas.

A estrutura social, com o qual convivemos, precisa descobrir as alternativas (como Marina) para resgatar a essência profunda das relações, nem que para isso precise rever os próprios alicerces que a sustentam. Uma sociedade em que se busque incansavelmente a liberdade e a justiça como metas é o destino que nós mesmos precisamos construir.

Talvez estejamos mesmo vislumbrando o ocaso de um modelo baseado na conquista e na submissão, assim como nas ilusões racionalista e positivista que permeiam tanto as relações pessoais quanto a nossa medicina autoritária. Certamente que muito ainda há que ser construído, mas não acredito em nenhum direcionamento que nos afaste do necessário rebentar de grilhões e do indispensável arrancar de mordaças.

Porque não há futuro sem liberdade, e esta jamais é oferecida ou imposta, pois que é da sua essência ser conquistada.

Referências:

* “O que Sócrates Diria a Woody Allen” – Juan Antonia Rivera – Ed Planeta

** “Violência e Homossexualismo”, Valéria Amim – Univ. Estadual de Santa Cruz/UESC – Ilhéus/BA

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Muro

Muro Berlim

Quando escrevo que percebe-se ao longe uma luz no fim do túnel sou – com frequência – metralhado virtualmente. Sei que é uma luzinha tênue, como uma lâmpada de árvore de Natal. Mesmo assim, algo aos poucos está acontecendo. A truculência típica da corporação está lentamente cedendo espaço para a aceitação de postulados mais modernos e alinhados aos direitos humanos reprodutivos e sexuais. Acredito que, com o tempo, os “caciques” fixados no biopoder e na manutenção de privilégios se sintam cada dia mais constrangidos e isolados.

Todavia, eu também acho difícil poder testemunhar uma verdadeira revolução no sentido da plena humanização do nascimento ainda em vida. Sei que as transformações que tratam de valores profundamente inseridos na rocha das culturas só produzem efeito após uma lenta erosão. Por outro lado, quando eu era residente no hospital escola da universidade no final dos anos 80, um colega me disse:

Ricardo, essa sua história de parto de cócoras, parto fisiológico, parto humanizado – apesar de estar absolutamente correta por qualquer ponto de vista – jamais vai “colar” pois está ligada ao poder. O poder é o motor do mundo e fazemos qualquer coisa para, depois de conquistado, mantê-lo conosco. E ninguém abre mão do poder sem luta ferrenha. Olhe ao redor e veja o mundo em que estamos. Os poderosos vencedores da segunda guerra mundial ergueram um muro separando a Alemanha há 40 anos que ainda está de pé. E eu te afirmo que ele jamais cairá“.

Nunca esqueci de suas palavras “proféticas”…

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Parto “autoral”

A respeito do debate sobre “Parto Autoral” surgido recentemente. Ao me ver este termo é uma tentativa de oferecer uma nova roupagem ao termo “protagonismo”, nosso velho conhecido. A “autoria” do parto é um aspecto de um conceito mais amplo de humanização do nascimento. Parto autoral não avança para além do sentido já debatido da garantia do protagonismo à mulher, algo que enfatizamos desde que o debate sobre uma “nova forma de nascer” começou a ganhar corpo no Brasil e no mundo. Por esta perspectiva a “autoria” é o eixo central a partir do qual os outros elementos da humanização vão se estabelecer. Isto é: sem plena “autoria” nunca teremos humanização, apenas ações parciais que não atingem o cerne da questão do parto: os direitos das mulheres sobre seus corpos. Ou, como diria Max, “sem o protagonismo só resta a sofisticação de tutela“.

protagonismo

Por outro lado, aprofundando-se no debate sobre o protagonismo, um parto pode ser “autoral” e NÃO SER humanizado, desde que para isso não se obedeçam os outros pilares que sustentam esse conceito, a saber: a visão interdisciplinar do evento (retirando dele as amarras de procedimento médico) e as evidências científicas (sem as quais somos presa fácil das mitologias, via de regra misóginas e potencialmente perigosas). Como exemplo podemos citar uma mulher situada no extremo do espectro do protagonismo: uma gestante diabética e hipertensa que resolve de forma autônoma ter seu filho em casa sem o auxílio de qualquer profissional ou tecnologia. É autoral, mas é uma decisão que não tem interdisciplinaridade ou evidências científicas que a sustentem. O mesmo pode ser dito das cesarianas sob demanda: são autorais, mas agridem as evidências científicas no que diz respeito à segurança para mães e bebês.

Por esta razão eu acho que vale a pena esclarecer esses termos novos que surgem no cenário da humanização do nascimento para que não causem confusão.

Resumindo: a Humanização contempla a autoria, pois ela é a parte central do modelo que preconizamos. Por outro lado, a autoria não necessariamente se abriga sob a proteção da humanização. Uma decisão “autoral” não precisa ser humanizada.

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Dívida

Médico - House

“Parabéns a todos os médicos que se esforçam para doar o que de mais precioso possuem: eles mesmos. O mais poderoso remédio que um médico pode oferecer não está em nenhum elixir ou comprimido, mas na palavra cálida para quem sofre e no olhar preciso diante da dor. Tudo o que a ciência nos oferece vem por acréscimo; retire-se a compaixão da prática médica e ela perde seu sentido e transcendência.”

Minha profissão está cheia de praticantes que não conseguem perceber qual sua verdadeira posição no cenário do nascimento. Colocam-se acima das críticas e não admitem que qualquer um questione as ideologias que permeiam e condicionam suas ações. É por existirem tantos profissionais assim, carentes de autocrítica, que as lutas pela humanização do nascimento são tão necessárias. Escrevi sobre esta postura outro dia, mas penso ser lamentável testemunhar a manutenção de um discurso calcado na ideia de que “já que salvamos tantas vidas ninguém pode nos criticar”.

Ora, que espécie de “imunidade” é essa? Por que esta “blindagem“? Que dívida temos com esta função a ponto de não podermos criticá-la quando seus rumos se provam equivocados?

Imagine um bombeiro espancar sua mulher em casa e, depois de ser detido, se explicar desta forma na delegacia da mulher “Fico muito triste de ver essas críticas à minha pessoa. Não é justo, diante de tudo que estudei e das coisas que realizo pelo bem da comunidade. Ontem mesmo apaguei um incêndio e salvei um gatinho que estava num poste. Como podem me chamar de violento?

Ora, apagar fogo e salvar gatinhos é sua obrigação profissional, mas ela não lhe dá o direito de espancar sua mulher!!!! Salvar uma vida por uma síndrome de Hellp, uma hemorragia ou mesmo através do recurso cirúrgico é maravilhoso – em verdade, é o que os médicos deveriam sempre fazer – mas não lhe dá o direito de operar sem necessidade, fazer episiotomia e Kristeller, desmerecer as mulheres, desconsiderar maridos e aplicar as infinitas formas de violência verbal e moral que existem na atenção ao parto.

Falta um olhar mais severo e crítico para a obstetrícia. Não haveria porque temer esta avaliação de nossas falhas, e acho que só evoluiremos no debate quando nossas práticas defasadas forem assumidas. Enquanto as escondemos elas crescem, como qualquer temor e qualquer medo….

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Responsabilidades

delegar

“Humanização do nascimento é uma via de duas mãos. Não existe como ser efetivamente humanizada a atenção ao parto em pacientes alienados e oportunistas, que jamais se responsabilizam por suas escolhas. Humanizar o nascimento é trabalhar em parceria, jamais se deixando seduzir pela expropriação do protagonismo da mulher, tão característica de uma medicina autoritária. Para mudar o nascimento no mundo é necessário mudar a forma de pensar a própria vida, encarando suas escolhas de forma responsável, inclusive sobre aqueles que vão acompanhá-la na trajetória em direção à maternidade”.

Um erro que vem do passado, ainda centrado numa espécie de arrogância profissional, é crer que a medicina pode ser transformada se os médicos se modificarem. Isso é ingenuidade, pois ela é um retrato dos valores e conceitos sociais, expressos ou subliminares. A arte médica (e a política, a polícia, as artes, a justiça, etc.) mudará quando quisermos que ela mude. O médico é arrogante “por demanda“, porque assim o determinamos. O professor ganha pouco e o Ronaldinho milhões porque nossa neurose coletiva e nosso desprezo pela educação assim o determinam. Culpar médicos ou políticos pelo quadro deficiente de nossa medicina ou política é tolice e perda de tempo. A culpa é toda nossa, enquanto sociedade.

Quantas vezes já escutamos alguém despudoradamente dizer: “O presidente X foi péssimo porque enquanto esteve na presidência nossa categoria não recebeu aumentos“. Isto é: um presidente é bom ou ruim se a pessoa teve benefícios PESSOAIS com seu governo, e não se o país como um todo evoluiu e/ou se desenvolveu. Nossa avaliação continua sendo ego centrada, umbiguista. Com a medicina a mesma coisa: criticamos os médicos mas não nos esforçamos para ver qual a parte que nos cabe nesse transformação. A mudança na atenção médica – em especial na assistência ao parto – ocorrerá quando as forças sociais que desejam mudança suplantarem a inércia e colocarem-se em luta por reais modificações.

Enquanto isso não ocorre continuaremos a escutar lamúrias esparsas, que mais refletem nossa incapacidade de mobilização do que um verdadeiro desejo de mudar.

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Porta

Porta

A porta só se abre pelo lado de dentro, e esse é o grande ensinamento que a gente precisa aprender: nossas ideias devem ser expostas, jamais impostas. O crescimento pessoal é uma tarefa solitária e custosa, e as pressões externas apenas podem produzir fingimentos, dissimulações e falsidades, que levam o sujeito a uma vivência neurótica e irreal. As religiões “espetaculosas” são pródigas em produzir estes fenômenos, que variam da “cura gay” até excessos de veneração. A reforma íntima, lenta e pedregosa, é o único caminho confiável de transformação. Da mesma forma a democracia, com seus problemas e sua natural morosidade, é a única maneira de produzir mudanças sociais sólidas e consistentes, e as ditaduras serão sempre um engodo sedutor.

O empoderamento no parto não é necessariamente a consequência de um parto humanizado, mas a capacidade de apreender os ensinamentos que qualquer nascimento pode oferecer. Muitas pessoas acordam para a necessidade de mudar o panorama da assistência ao parto depois de assistências violentas, cruéis e humilhantes. Isso também é empoderar-se. Sheila Kitzinger costumava dizer que um parto era válido (na perspectiva feminina) quando a mulher podia olhar para trás e ver um caminho de crescimento e consciência, e essa é uma verdade que pode sobressair de qualquer nascimento.

Infelizmente mesmo os partos mais bonitos e transcendentes não conseguem produzir estas modificações, pois não são os elementos externos que comandam esta evolução, e sim a capacidade do sujeito de captar e processar as mensagens a ele enviadas. Ali nossa tarefa termina: oferecer as condições para que as imagens, sons, conceitos e palavras possam produzir a sua ação dentro do sujeito. Mas nesta tarefa, só ele poderá agir. A nós cabe apenas a função de catalisadores…

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Baratinhas


Baratinhas

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Vai rolar uma nota de repúdio pelas expressões (descontextualizadas) que usei sobre as doulas, chamando-as de “biscateiras da Deusa” e “baratinhas” cuja presença denuncia as fissuras no assoalho da assistência ao parto. A metáfora das “baratinhas”  foi usada por duas características: por elas serem pequenas diante do gigantismo de uma corporação e por elas serem a demonstração tácita de que existe “algo de sujo no reino da obstetrícia“. E enquanto uma nota de repúdio sai – escrita por inimigas declaradas, as doulas do mal – eu continuo no hospital, atendendo orgulhosamente com uma doula, da mesma forma como faço há 16 anos, e muito feliz.

Mas pensem bem. Se eu as tivesse chamado de “anjos” seria criticado por não “humanizá-las”; se as chamasse de “maravilhosas” estaria essencializando e/ou bajulando. Se chamasse de “guerreiras” estaria reforçando o estereótipo de belicosas. Caso as chamasse de “doces” estaria tratando como submissas. Quando alguém é inimigo declarado, a ponto de vigiar cada frase escrita, nada que se diga será interpretado de forma positiva. Sem simpatia, ou mesmo respeito, que diferença faz a metáfora usada?

Quando suas mágoas pessoais sobrepujam os seus sonhos e ideais há que se questionar se sua ligação com estas propostas é o que realmente lhe mobiliza, ou apenas mais uma forma de tratar uma ferida que teima em arder.

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Trevas da Consciência Nacional

Brasil, Brasília, DF, 02/03/2015. O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ)convoca reunião com a Mesa Diretora para rever a cota de passagens aéreas para cônjuges de parlamentares. "Reconheço que a repercussão foi muito negativa", afirmou o peemedebista. O benefício foi aprovado na reunião da Mesa Diretora no dia 25 de fevereiro. - Crédito:DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/Código imagem:180989

Uma coisa fica clara: quando o desejo é maior do que os fatos a nossa mente troca a realidade para que ela se adapte ao que desejamos. Isso vale para os simples mortais em seu ofício diário tanto quanto para as grandes personalidades.

De tanto querermos acreditar que o Zé Dirceu era culpado que ele foi para a cadeia sem provas, fato esse assumido pelos próprios ministro do supremo. As manobras jurídicas e filosóficas para isso são até cômicas, não fossem uma tragédia para a justiça do Brasil.

Da mesma forma Lula e Dilma foram bombardeados por muitos anos com todo tipo de golpismo e insinuações. Quando Lula não parecia alcançável o alvo era seu filho, transformado em dono de fazendas, jatinhos, empresas (Friboi) e tantas outras. Nada foi provado contra nenhum deles em anos de investigação. NADA. Nenhuma ligação telefônica, cheque, recado, conta em Cayman, conta na Suíça, Fiat Elba ou reforma nos jardins. Porque então tanta perseguição?

Mesmo assim são os “petralhas“, corruptos, Luladrão, Dilmanta e tantas outras acusações. Hoje somos “surpreendidos” pela evidência de contas na Suíça do presidente da câmara, mas o “ruidoso silêncio das panelas” se escutou por todo o país. Onde estão as capas das revistas, as manchetes garrafais, a indignação do povo nas ruas?

Não. .. não era contra contra o roubo ou contra a corrupção. Era contra quem representava o homem comum, o pobre, o favelado. Isso é que é insuportável. No futuro esse período da política com a emergência dos BBB – Bala, Boi e Bíblia – será tratado como as trevas da consciência nacional.

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