Arquivo da categoria: Ativismo

Piratas

Pirata

Depois da minha fala na Câmara de Vereadores de Porto Alegre ontem, no debate público sobre o projeto de lei das doulas, acompanhei meu neto Oliver até o corredor para pegarmos água no bebedouro que se localiza ao lado da entrada principal do salão. Logo ao chegar encontramos a simpática, jovem e enérgica vereadora Fernanda Melchionna, que veio me abraçar e agradecer as palavras de apoio ao projeto. Fernanda estava usando um curativo no olho direito, por uma lesão recente na …córnea, o que deixou meu neto de quase 3 anos absolutamente intrigado. Ainda no meu colo, olhava fixamente para seu rosto tentando entender o que estaria faltando, o que exatamente não se enquadrava na formatação dos rostos humanos que ele se acostumara a decifrar.

– A titia fez um dodói, um machucado no olho. Mas já vai ficar bom, explicou ela.

Oliver continuava a olhar fascinado, tentando compor e dar sentido ao que seus olhos de criança enxergavam. Depois de alguns instantes de séria observação abriu um sorriso majestoso e disparou:

– Você é uma pirata!

Fernanda caiu no riso e eu também não me contive. Entretanto, ficou impossível não entender sua observação como plena de um sentido transcendental. Ele tinha razão. TODOS nós ali éramos piratas, aventureiros, apaixonados, guerreiros por uma causa grandiosa e nobre: a dignidade do nascimento. Oliver, com sua ingenuidade, acabou mostrando que a luta por vezes inglória e solitária para dar voz às mulheres e espaço ao feminino é uma batalha motivada pela indignação crescente com a violência obstétrica e a objetualização de mulheres no momento de dar seus filhos à luz.

Corsários tenazes, sofridos e marcados pelas feridas de batalhas, continuamos firmes na busca pela dignidade, garantindo em cada luta um pedaço a mais de terreno. Hoje podemos ver que conquistamos lentamente o coração e as mentes de adversários de outrora, o que nos mostra a justeza de nossos ideais e a importância de nossas lutas.

Parabéns às doulas pelo seu dia, e muito obrigado pelo maravilhoso trabalho realizado pelo resgate do nascimento como evento grandiosamente humano.

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Pergunte

BRAN

Aqui está um breve manual de apoderamento sobre a saúde, que deve ser utilizado por todos aqueles que pretendem assumir o protagonismo de suas próprias vidas, em especial as gestantes que se encontram diante de dilemas importantes sobre o seu bem estar e suas escolhas.

Diante de uma intervenção médica qualquer, seja terapêutica ou diagnóstica, cabem os seguintes tópicos e perguntas ao seu médico, que podem ser memorizados pela sigla BRAN.

Benefícios: Quais os benefícios desse exame ou intervenção? Por exemplo: de que adianta realizar uma “transluscência nucal” se sou contra o aborto e esse exame não pressupõe nenhum tratamento? Quais os benefícios de fazer hemogramas, glicemia, exames de urina?

Riscos: Que riscos eu tenho ao marcar essa cesariana? Que riscos eu tenho em manter essa gestação para mais de 41 semanas? Qual o risco em fazer antibióticos profiláticos em uma bolsa rota?

Alternativas: Que alternativas eu tenho para essa medicação? Que outras possibilidades eu tenho às drogas para esta minha afecção? Que escolhas eu tenho diante das circunstâncias e contextos que se apresentam?

Nada: E se eu nada fizer, o que acontecerá? Se eu apenas aguardar, quais serão as consequências? Se eu apenas mantiver o curso natural das coisas, quais as minhas chances?   Sem essas perguntas talvez seu silêncio leve a uma perda de controle sobre sua saúde. E a alienação nunca será um caminho de crescimento.

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Incoerência

incoerencia

Não vejo incoerência alguma nos meus colegas que, ao mesmo tempo em que celebram a vida através do ativismo pelo parto humanizado, defendem o pleno protagonismo das mulheres sobre seus corpos, incluindo-se aí o direito ao aborto. Não, não é incoerente.

Essas pessoas favoráveis ao aborto se preocupam com as mulheres que morrem todos os dias pelos abortos clandestinos, em salas infectas nas periferias e por mãos totalmente inábeis para esta intervenção. Quem é a favor da descriminalização do aborto ama essas mulheres e não quer mais que elas morram em decorrência de uma proibição que amplia o fosso social do país e que faz as pobres morrerem por falta de assistência, enquanto as ricas tem oportunidade de irem a clínicas sofisticadas e limpas.

Não, não é incoerente. Porém, eu compreendo as pessoas que enxergam a alma em um embrião minúsculo, mas conseguem enxergá-la em uma jovem mulher que cometeu o terrível erro de amar e desejar. Para essas pessoas incapazes de olhar para além de seus preconceitos, eu ofereço o meu perdão.

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Papai Zuck

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Mark Zuckerberg – criador do Facebook – tornou-se pai recentemente, mas incrivelmente apenas ficamos sabendo sete dias depois do parto. Durante uma semana uma celebridade existiu entre nós de forma invisível. Eu e Bill (Gates) fomos os primeiros a saber, pelos nossos laços de amizade, mas este hiato de uma semana me faz suspeitar que Pri (Priscilla) teve um parto domiciliar nos Estados Unidos. De que outra forma poderiam parir um bebê de forma silenciosa e privada com tantos paparazzi em volta? Seria possível para eles entrar em um hospital qualquer, ganhar um bebê e não levantar nenhuma suspeita??

Que bafão!!!!

E agora, caso se confirme, o que dirão os barões do Parto Hospitalar mandatório?

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Bruxas e bruxarias

Bruxinha

Frase de um colega médico em um debate sobre a presença de doulas no hospital: “Quer dizer que doula agora virou curandeira? Para num passe de mágica sumir com a dor da gestante?

A resposta é: sim.

Quem já teve uma mãe (ou uma avó) que soprou seu joelho ralado numa partida de futebol sabe como isso pode ser verdade, até porque a “dor”, como a conhecemos, é muito mais do que simples emissões químicas eferentes em direção ao cérebro. A dor é um sentimento, é uma resposta global do sujeito dentro da formatação da linguagem. É por isso que o joelho para de doer depois do “sopro mágico” de uma pessoa querida, e pela mesma razão a proximidade afetiva das doulas faz com que as dores do parto adquiram SENTIDO, e como diriam os Terapeutas do Deserto, “a única dor insuportável é aquela que não tem sentido“.

As doulas, ao oferecerem esse significado às dores do nascer, estão conferindo uma visão especial a elas. Mais do que sinalizadores orgânicos importantes para – entre outras coisas – mudar a posição ou liberar endorfinas, a dor do parto produzirá uma marca importante e empoderadora para esta mulher. Como diria a antropóloga Barbara Katz Rothman, “partos não servem apenas para fazer crianças, mas para construir mulheres fortes e capazes para enfrentar os desafios da maternagem“. As dores do parto são como o cinzel a esculpir a mulher que surgirá, emergindo das profundezas de seus medos para ocupar o lugar que passará a ser dela.

As dores “insuportáveis” que obstaculizam o progresso do parto, a despeito de todo o suporte afetivo, emocional e psicológico oferecido (em especial pelas doulas) precisam ter o suporte da química através das anestesias, mas isso não significa que essa ação drogal deve ser nossa primeira escolha. Esses casos, pela sua raridade, precisam ser controlados com o que a tecnologia pode nos oferecer mas não faz sentido algum imaginar que um rito de passagem como o nascimento, que era levado a cabo com tranquilidade pelas nossas antepassadas, agora precise de recursos tecnológicos perigosos – como as drogas – para ser suportado com dignidade.

Será mesmo que as mulheres involuíram a ponto de que TODAS precisem de “muletas tecnológicas” em função da degenerescência de suas habilidades milenares de gestar e parir?

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Modelos de ativismo

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Existem, pela minha observação, dois tipos de “ativismo”, e creio que eles podem ser observados em praticamente todas as lutas sociais, do feminismo, passando pelo parto, LGBT e movimento negro.

O primeiro eu chamaria de INTRUSIVO. É o ativismo que é feito para dentro, para o núcleo de ativistas que abraçam essa causa específica. Ele se preocupa em canalizar a indignação coletiva e apontar pontos de confronto com os paradigmas e poderes hegemônicos. Seus líderes são por vezes alçados a posições mitológicas como “gurus” ou “mestres”. Sua autoridade é estimulada por si mesmos e pelos seus prosélitos como inquestionável.

A força dos modelos intrusivos está na focalização em um inimigo externo, palpável, reconhecido, essencializado (mau, egoísta, prepotente, etc) e com isso possui uma energia muito intensa de congregação. O movimento de humanização teve essa cara por muito tempo. Os médicos eram os culpados das mazelas do parto, assim como o capitalismo, a formação profissional equivocada, a academia etc. As mulheres, igualmente essencializadas, eram sempre vítimas impotentes, apáticas, frágeis e desrespeitadas.

O modelo intrusivo se fortalece pela indignação que, finalmente, se ordena em ação reivindicatória. É um movimento de lideranças fortes e bravas, de passeatas e greves. Funciona com a energia libidinal da confrontação com os opressores.

Existe, entretanto, um outro modelo que eu chamo de EXTRUSIVO.

Contrariamente ao modelo anterior, ele se propõe ao convencimento externo. Não se trata mais de “converter os convertidos”, mas de levar “a boa nova aos gentios”. Desta forma, não há como utilizar a energia fulgurante da indignação represada, pois a mensagem não é destinada aos oprimidos, mas aos indiferentes e mesmo aos opressores.

O movimento de humanização do parto e nascimento passou de uma forma muito clara por estes dois modelos. Há 16 anos, quando tive contato pela primeira vez com suas ideias e seus ativistas, tudo era inconformidade. Havia uma força, que aos poucos foi se expandindo, de questionamento àquilo que percebíamos como prática inadequada, hoje em dia referida como “violência obstétrica”. Entretanto, carecíamos de bases suficientemente firmes e abrangentes para formular o que verdadeiramente era a humanização e quais propostas desejávamos levar adiante.

O tempo fez amadurecer nosso paradigma e, por consequência, nossa postura. A visão tripartite da humanização hoje é aceita de forma quase unânime: Em primeiro lugar a garantia do protagonismo, seguida da visão interdisciplinar e, por fim, a vinculação com a saúde baseada em evidências. Com esse escopo ideológico seria possível dizer ao que viemos, e passar a usar o ativismo extrusivo como ferramenta.

Os filmes como “Orgasmic Birth” e o “Renascimento do Parto” são marcas claras de um novo direcionamento, já dentro da lógica do ativismo extrusivo. Já não nos parece mais suficiente convencer doulas, parteiras e os poucos médicos humanizados para as nossas ideias, mas ampliar o público para atingir “novos mercados” – para usar um jargão neoliberal. Queremos agora seduzir novos profissionais do parto para as nossas fileiras, para que possam oferecer uma atenção centrada no tripé que nos define: protagonismo, interdisciplinaridade e MBE.

Todavia, para atingir tais fronteiras é fundamental perceber que os adversários não podem ser destruídos, mas precisam ser seduzidos a valorizar os pressupostos que carregamos como bandeira. Não se trata mais de acabar com os “inimigos” através de táticas de guerra, mas cooptá-los com a doçura das evidências.

Espero que nossa transição possa ser entendida como um processo necessário de amadurecimento e fortalecimento dos paradigmas. Do entendimento de como funcionam essas lutas, e como elas são importantes, surgirão os próximos passos do ativismo pelo parto e nascimento.

E assim será até o dia em que o respeito à liberdade e à autonomia de uma gestante se tornar algo tão natural que qualquer ativismo será obsoleto, como o são desnecessárias hoje em dia as lutas pelo reconhecimento lei da gravidade ou a realidade do heliocentrismo.

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Fofocas

Anestesista

Estava operando uma paciente na noite de domingo quando o anestesista – um antigo e simpático colega de faculdade – interrompe minha conversa com minha auxiliar para me contar algo que havia escutado…

– No último congresso de anestesia, este ano em Florianópolis, surgiu uma grande novidade. Vocês ficariam felizes em saber…

– Diga aí qual é, disse eu, esperando uma nova técnica anestésica superior às analgesias combinadas peridural e raqui.

Ele sorriu discretamente e disse:

– A grande novidade é que… “as doulas não são inimigas dos anestesistas“. Essa foi a principal notícia do evento.

Achei que meu colega estava brincando. Afinal, não são incomuns suas tiradas irônicas. Perguntei-lhe se estava de gozação, mas ele prontamente confirmou.

– É sério, disse ele sorrindo por detrás da máscara. No congresso brasileiro de anestesia anterior a este as doulas eram as piadas certeiras nos grupinhos de anestesistas que se amontoavam nos intervalos em volta de cafés e biscoitos. Nossa visão sobre elas era de clara unanimidade: bisbilhoteiras, místicas, invasivas, briguentas e inadequadas. Bastaram poucos meses para essa ideia mudar.

Levantei o olhar por sobre o campo estéril que nos separava e perguntei:

– O que houve? O que produziu esta mudança? Meu questionamento veio ainda que um esboço de resposta já houvesse em minha mente. Ele continuou seu relato:

– Como em toda a corporação existem aquelas pessoas que detém o controle político das condutas e dos protocolos. Na anestesia este controle está no mais importante estado do país, São Paulo. Lá uma anestesista é quem “dá as cartas”. Pois ela foi fazer uma visita a um grande serviço americano que tem como rotina o atendimento de doulas. Como era de se esperar, voltou impressionada e encantada com o resultado do trabalho delas. Sua mensagem foi clara: “Elas não são inimigas dos anestesistas. Vieram para somar. E vão ficar“.

– Bem, disse eu sorrindo, para cada notícia ruim de perseguição, injustiça, ataques pessoais e violência existem notícias positivas como essas para nos oferecer o devido equilíbrio.

Meu colega continuou sua “fofoca”…

– Sempre que algum anestesista insistia em uma fala debochada ou irônica dois ou três ao seu lado lhe diziam: “Não resista. Não tem volta. O trabalho das doulas está invadindo os hospitais. E elas não estão contra nós“.

Terminei a minha cirurgia feliz com a novidade, que mais uma vez confirmou minha velha tese: as transformações NÃO ocorrem através de abordagens cognitivas, racionais, intelectivas. Elas vão se processar no terreno das emoções, dos sentimentos e dos sentidos mais epidérmicos. Foi preciso que uma figura de autoridade de uma grande corporação médica (a chefona dos anestesistas) fosse tocada pelo trabalho das doulas para que pudesse sentir – mais do que saber – o quanto a abordagem psicológica, emocional, social e espiritual das doulas podia fazer a diferença.

Não foi pela “Razão”, mas pela vivência subjetiva, pessoal e afetiva que ela mudou sua visão sobre a atuação das doulas. E por sua autoridade acabou por imprimir uma transformação na maneira como os anestesistas enxergam o trabalho sutil e delicado das doulas.

Ele ainda emendou uma última frase:

– Mas lá fora elas tem código de ética, o que evita os problemas que ainda se vê por aqui com doulas que interferem em condutas médicas ou que jogam as pacientes contra seus médicos. Isso não pode acontecer.

Não pode mesmo. Um código de ética para as doulas é mais do que necessário, é mandatório. Para isso seriam necessárias etapas iniciais, como um congresso de doulas, uma associação nacional, uma diretoria, várias comissões, etc. Para aquelas que acham que as doulas deveriam ser uma profissão estas etapas iniciais deveriam ser cumpridas em primeiro lugar. Para os que acham que ser uma profissão não é essencial (nem desejável) estes passos ainda assim precisam ser perseguidos para que o trabalho das doulas seja ainda mais reconhecido e respeitado.

O caminho é longo, mas o percurso sabemos qual é. De uma fase de escárnio e desconsideração passamos para a etapa do enfrentamento e do conflito. Agora estamos inseridos em uma fase de lenta aceitação. Schoppenhauer já tinha nos avisado como isso aconteceria.

A exemplo do que vi no discurso do presidente da Febrasgo a nova postura dos anestesistas mostra um caminho que não tem saída: as doulas vieram para ficar. A abordagem delicada e carinhosa que elas trouxeram ao parto mudou a face da atenção ao nascimento. Não há como regredir, e os bons médicos já reconheceram isso.

Todavia, alguns profissionais vão continuar a criar barreiras e agredir o novo paradigma, mas suas vozes aos poucos serão cada vez mais fracas e vazias. Com o tempo as barreiras ao trabalho das doulas serão vistas como marcas de um passado distante onde o bem estar das mulheres não era nossa mais sagrada missão.

Que venha esse novo tempo…

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Autonomia e Local de Parto

Parto Domiciliar - Febrasgo

Em recente artigo intitulado “Parto Domiciliar um Direito de Escolha da Mulher” a Febrasgo mantém-se com uma postura mais ponderada em relação a este tema, até porque entre seus membros existem alguns claramente comprometidos com a Saúde Baseada em Evidências. Por outro lado, a atitude dos sindicatos da corporação continua a mesma:  unilateral e sem embasamento científico, mas… que mais se poderia esperar de um sindicato a não ser a defesa firme e concentrada na manutenção de privilégios e de poderes duramente conquistados?

Sobre o artigo, resta deixar claro que a ressalva relativa ao aumento de mortalidade neonatal não é verdadeira segundo os dados do “Birth Place” (2012), mas reflete apenas o que ocorre dentro de um subgrupo: o das primigestas (mulheres que terão seu primeiro filho). Não foi citado, entretanto, que pelo mesmo estudo uma mulher que terá seu segundo filho corre significativamente mais riscos no hospital do que em casa. Pergunto: Se fôssemos proibir partos domiciliares para primigestas deveríamos proibir os hospitalares para segundigestas?

Pense dessa maneira: Uma viagem de automóvel de São Paulo ao Rio é muito mais mortal do que uma viagem de avião. Não tenho os dados desse trecho mas normalmente a comparação é de 10x mais risco de morte para as rodovias. Diante desses dados deveríamos proibir as viagens familiares de carro por existir uma opção mais segura, o avião?

Mesmo que você acredite que essa seria uma boa solução, ainda assim fica a pergunta: e os que tem pânico de voar? E os que não tem dinheiro para pagar a passagem? E os que ADORAM viajar de carro e ir parando para curtir a paisagem?

E as mulheres que tem pânico de hospital? E aquelas que valorizam o parto como um evento íntimo e familiar e NÃO como um procedimento médico? E aquelas que desejam que seus filhos não sejam afastados de si ou que não querem correr o risco de uma cesariana por razões não médicas?

Não se trata apenas de admitir o parto domiciliar, como faz a Febrasgo, mas garantir a essas mulheres um atendimento digno, com profissionais experientes e capacitados, oferecendo suporte para as transferências e colocando um FIM a todas as retaliações, constrangimentos e ameaças às famílias que optam pelo parto domiciliar, assim como acabar de vez com as perseguições desonestas a todos os profissionais que prestam esse tipo de atenção baseada em evidência e em consonância com os sagrados direitos reprodutivos e sexuais.

As mulheres merecem mais respeito em suas escolhas, e o Brasil não pode apostar no atraso com relação aos direitos humanos.

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Break the Silence!!!

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Em recente artigo escrito para a Folha de São Paulo,  Caetano Veloso faz uma espécie de “mea culpa” pela sua ida com Gilberto Gil para Israel para a apresentação de shows comemorativos da longa parceria entre ambos. O que resta da leitura do seu texto é um constrangedor “puxa, eu não sabia“. Eu esperava mais de um ícone da cultura brasileira, cuja trajetória também foi marcada pela dor de um exílio e pela arbitrariedade de um governo perverso.

Ora, não se pode perdoar Caetano quando ele usa desculpa furada de não conhecer os massacres contra os Palestinos que ocorrem de forma sistemática há décadas. Caetano foi amplamente avisado, orientado – conclamado até – para conhecer a brutal violação de direitos humanos patrocinada por Israel. Mas, por medo, falta de firmeza e brio… calou-se. Mesmo depois de conhecer a realidade “in loco”, e ter a oportunidade de gritar “Break the Silence!!!” e expor publicamente sua solidariedade ao povo massacrado da Palestina, preferiu se calar.

A atitude pusilânime de Caetano – quando poderia ter feito a diferença – é o que expõe a distância entre um artista de qualidade e uma grande personalidade. Essa é a diferença entre Caetano e Roger Waters. O músico genial do Pink Floyd não se calou e tampouco usou a desculpa esfarrapada de que “não sabia como era“. Não. Munido de informações Roger postou-se com bravura contra a barbárie e lidera o mundo da arte contra o Apartheid israelense. O que sobra em Roger Waters, falta em Caetano: coragem e postura.

A velha retórica de chamar os opositores de “furiosos”, e a crítica quase infantil contra Miko Peled, o filho do general, mostram que Caetano ainda acha – em pleno século XXI – que existe espaço para um país cuja política racista e excludente destrói as esperanças de um povo e uma pátria ocupada. Não é o que a civilização e a justiça determinam, Caetano. Embora a sua tímida retratação, você continuará representando para mim um artista de segundo nível, abaixo de Luan Santana (pela sua negativa de apresentar shows no MS até acabar o massacre Kaiowá) em termos de atitude pública diante das barbáries contemporâneas.

Suas palavras ensaiando uma retratação, mesmo diante do frágil “acho que não volto mais” ao menos sinalizam que ele percebeu o quanto sua atitude fraca prejudicou o esforço mundial de bloquear Israel em sua política de limpeza étnica. A ideia de buscar informações e pesquisar vídeos explicativos sobre a Palestina no YouTube (só agora???) pode ser interpretada como uma tentativa de resgate de sua própria coerência.

Entretanto, o texto deixa a desejar quando se busca em suas palavras a solidez e a firmeza contra os abusos de Israel. Não vi solidariedade expressa e nem a adoção de uma postura de peito aberto. O que vi foi uma série de desculpas quase infantis sobre a razão de ver uma grande oportunidade passar na sua frente e ter se calado.

Penso ser inaceitável que Caetano use sua ignorância como desculpa. É como se em meados do século XIX o filho de um lorde inglês precisasse vir ao Brasil para descobrir que havia escravidão e, aqui chegando, se desculpasse dizendo “eu não fazia ideia que era assim“. Você foi avisado, Caetano, por Roger Waters e por centenas de ativistas. Foi porque quis, ganhou seu rico dinheirinho e agora se faz de “menino assustado”.

Você provavelmente tem vergonha de ter sido enganado por Israel. Eu também fui. Sartre e Jorge Amado foram enganados pelo comunismo real soviético. Todavia, seria nobre da sua parte reconhecer que a “democracia” israelense é uma FRAUDE, que a Palestina foi roubada em 1948 com terror e massacres, que o povo palestino vive em uma prisão a céu aberto e que Israel jamais pensou em um país plural, e sua perspectiva sempre foi a da limpeza étnica e da aniquilação lenta e sistemática do povo palestino.

Espero que seus fãs possam lhe perdoar, mas não acredito que os palestinos – que podiam ter recebido sua ajuda – sejam tão condescendentes com a sua fraqueza de espírito. Reconhecer seu engano, a postura preconceituosa com o mundo árabe e o islã e o entusiasmo com a falsa “modernidade” de Israel seria um excelente começo. Mas você preferiu agir como um menino medroso, e quando o mundo pedia uma voz de solidariedade a um povo que lentamente agoniza você se calou.

Por medo.

Você foi cúmplice de um massacre e um crime contra a humanidade. “O show falou por si” é uma mentira que tenta encobrir sua covardia. Podia ter falado, gritado, esbravejado mas preferiu o silêncio. E isso ficará marcado em sua trajetória. Você viveu no tempo do Apartheid israelense mas quando teve a grande oportunidade de se posicionar, foi fraco. Que Deus se apiede de sua alma.

É fácil falar quando se está distante da dor que esmaga o peito do outro.

Pense em Gaza, Caetano.
Gaza é aqui.

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Tire o teu

tiroteio

“Muda-se a forma, mantém-se o conteúdo. As manifestações da exploração do homem pelo homem se transmutam e fantasiam, exatamente para manter sua essência intocada. O homem se disfarça, muda seus rostos e jeitos, para continuar sendo o lobo do homem”. (Max)

No meio de um cochilo aguardando minha paciente chegar acordo com uma salva de estampidos. Em alguns minutos a confirmação: tiroteio no estacionamento do hospital. Um assaltante morto e dois feridos presos. Da janela basculante envidraçada que enxerga o Guaíba consigo ver o burburinho e a ação dos policiais.

Confusão, correria, curiosidade mórbida e múltiplas versões do mesmo fato. Mas o pior são os comentários. Os da Internet eu ainda posso não ler, mas os que passam ao meu lado não posso evitar de ouvir.

Da janela do centro obstétrico podemos ver o corpo estendido no chão. “Menos um” diz um passante. “Só falta a emergência atender”, indigna-se outra, negando aos feridos qualquer migalha de comiseração. Por que será que as pessoas se amarguraram tanto nos últimos tempos? A morte de um menino é realmente algo a se comemorar?

Eu me resigno e fico quieto. Se resolver questionar as comemorações pelo óbito do qual somos todos testemunhas e cúmplices, posso acabar sendo a próxima vítima.

Tristes tempos…

PS: E depois do tiroteio nasceu Beatriz… Que venha em paz. Que não se contamine com a psicosfera carregada que hoje se abateu sobre esse lugar. Siga seu caminho cheio de luz e fuja das trevas que teimam em nos perseguir.

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