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Caminho das Doulas

Galeano

A inserção das doulas na atenção ao parto começou assim. Passos, lentos e graduais, em direção a um lugar que sequer sabíamos com precisão qual era. Aos poucos fomos criando, com sacrifício e cuidado, a ideia dos limites de atuação das doulas, assim como um espaço de reconhecimento da sua ocupação. No início ninguém sabia o que era exatamente isso, e sobre o doular havia duvidas e incertezas. Para muitos a gente tinha que explicar, mostrando os resultados das pesquisas e debatendo em termos de direitos reprodutivos e sexuais de gestantes. Trouxemos há 13 anos Debra Pascali para nos dizer o que o movimento nos Estados Unidos tinha a nos ensinar e a partir daí muitos grupos de formação de doulas surgiram. As doulas capacitadas se multiplicaram, mudando a face da assistência ao parto, em especial na classe média.

Para cada conquista (leis municipais de doulas, inserção em hospitais, doulas voluntárias, livros, entrevistas, matérias em jornal, etc) percebemos que mais um passo era dado para que as doulas fossem incorporadas na cultura, como personagens indissociáveis da atenção ao parto. Tínhamos fé na recriação do “Círculo de Apoio” que foi a marca ancestral da atenção ao nascimento nos milênios que nos antecederam.

Cada pequena conquista é importante e nos faz olhar para um utopia distante, mas que há poucos anos sequer imaginávamos. Hoje já podemos sonhar com a ideia de uma doula para toda a mulher que assim o desejar. Se o caminho é longo também é grande nossa persistência.

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Pra não dizer que não falei de flores

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Doula NÃO é uma profissão, e talvez nunca seja. Uma profissão envolve regras, modelos, controle externo, conselhos de classe, punições, etc… Não sei se a “fraternidade instrumentalizada”, no dizer de Max, se adaptaria a este tipo de regramento. Seria possível a profissão de “amigo”? Poderíamos fazer cursos para que a amizade fosse mais sólida, mais honesta, consistente? Podemos regrar a compaixão e o carinho? “Olha, recomendamos massagens na região lombar até cinco minutos, em séries de no máximo cinco insistências. As evidências nos dizem que…”. Não acho que a subjetividade de um parto possa se adaptar a este tipo de protocolo.

Bem, se a doula não é uma profissão, ela é o quê?

Ao meu ver a doula é uma FUNÇÃO, que pode ser exercida por muitas pessoas e por várias profissões. A mãe pode ser, a irmã, a cunhada e até o marido. Todos os grandes estudos internacionais que atestam a importância e a qualidade da assistência prestada por doulas foram feitos com pessoas que exerciam essa função sem nenhum preparo prévio além da sua ligação afetiva com a gestante.

Ok, mas o marido pode ser doula? Sim, até o marido. Entretanto, mesmo sabendo que ele “pode” exercer a função de doula eu sempre digo que não é justo com ELE pedir para que tome conta dessa tarefa. E isso ocorre porque os maridos também estão diante de um processo transformativo difícil e penoso que é tornar-se pai. Existe para eles uma tensão muito grande, junto com medo, apreensão e angústia. Pedir a eles que exerçam essa função pode ser desgastante e complexo. Em outras palavras, os maridos também precisam ser “doulados“, em muitas circunstâncias.

Se a doula é uma função ela pode ser exercida por qualquer pessoa que tenha o desejo de ajudar e que tenha consciência dos LIMITES de sua atuação. Mas é claro que os LIMITES são as questões mais tensas no debate sobre as doulas.

Entender limites é olhar através de uma descrição do que a doula não é, a partir do que ela NÃO faz.

Uma doula não é uma profissional de saúde. Ela NÃO realiza nenhuma ação de enfermagem ou médica.

NÃO verifica pressão,
NÃO avalia apresentação ou dilatação do colo uterino,

NÃO verifica batimentos do bebê,
NÃO mede a barriga da paciente,
NÃO avalia bem estar materno ou fetal,
NÃO atende parto; atende gestantes em suas necessidades emocionais e físicas.

É claro também que uma médica obstetra, uma obstetriz ou uma enfermeira podem exercer o papel de doulas. Entretanto, se elas estiverem nessa função OUTRA PESSOA deverá estar ocupada com a assistência ao parto, sob pena de sobrecarregar a(o) profissional que presta o atendimento. Uma das características mais importantes das doulas é a possibilidade de que os profissionais se ocupem exclusivamente da atenção técnica do parto, deixando as ações de relaxamento, tranquilização, alimentação, movimentação etc.. com as doulas.

Para além das doulas nós temos os profissionais que são regulamentados para a atenção ao parto: médicos obstetras, médicos de família, enfermeiras e obstetrizes. São os “skilled attendants” que tanto exaltamos. As funções deles são razoavelmente claras: somente os médicos podem atender desvios da normalidade, as patologias e as cirurgias, e aos enfermeiros e obstetrizes cabe a atenção ao parto “eutócico”, sem anormalidades perceptíveis.

Doulas exercem uma função para a qual existem muitas técnicas no sentido de facilitar o bom posicionamento fetal, assim como acupressura, hidroterapia, massagem, ritmicidade etc, mas a excelência do seu trabalho está na transferência afetiva que ela pode oferecer às gestantes com a sua presença. Mesmo sem qualquer técnica ou qualidade especial a doula, ainda assim, terá uma grande ação para facilitar o trabalho de parto e o parto. As trocas emocionais que são produzidas pela presença da figura amorosa e carinhosa da doula são a chave para entender os resultados positivos da sua utilização. As técnicas, todas elas, vem como um valioso acréscimo.

Desta forma, não há porque confundir as ações das doulas com a de qualquer profissional da saúde na atenção ao parto. Doulas não fazem trabalho redundante e não tiram o lugar de ninguém. Elas vem se somar às equipes médicas e de enfermagem para que a paciente se sinta acolhida em TODAS as suas necessidades.

“Doulas são como flores de cactus brotando da aridez desértica da tecnocracia” (Max)

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Testosterona

Sei que sou odiado por isso, mas concordo com a visão crítica que Camille Paglia tem do feminismo contemporâneo. Sua visão ácida e contra hegemônica me atrai por oferecer um contraponto ao lugar comum da visão feminista corrente. Entretanto, existe um outro aspecto que considero importante, apesar de não ter sido tratado por ela nesta breve entrevista: a marginalização dos meninos na escola, prensados entre as dificuldades da formação da identidade masculina e uma educação feminina, gerenciada por mulheres e para meninas. Veja a entrevista em Entrevista com Camille Paglia – “As Mulheres Venceram”

Quem é homem, e sobreviveu à escola, sabe que nossas válvulas de escape eram as aulas de educação física, os combates épicos no futebol de “areião“, os gracejos desafiadores nas aulas, as brigas “na saída” e a baderna. O resto era o estímulo incessante a um comportamento feminino, dócil, cooperativo, educado e submisso aos poderes e autoridades. Não se constrói uma sociedade que almeja mudanças colocando estes valores acima de todos os outros. Existe algo da insaciabilidade testosterônica que falta na educação tradicional. Há uma falha em reconhecer e trabalhar com a impetuosidade desafiante dos meninos, o que gera ressentimentos e inconformidades.

Se o seu filho nunca causou confusão na escola talvez você precise saber qual a razão de tanto conformismo.

A escola sempre ofereceu uma educação de mulheres e para meninas. E sempre foi machista. Portanto, dizer que a escola é “machista” e é para “mfundaseninas” é um falso dilema. Se as mulheres são oprimidas por uma educação machista (e o são, aparte da proteção que também recebem) isso não invalida que essa educação é para elas, levada a cabo por mulheres em sua imensa maioria, e que desconsidera as características masculinas. O mundo não se explica apenas pela ótica da opressão feminina.

Esse modelo obstruir EM ESPECIAL a natural inserção testosterônica masculina, emasculando a sua força criativa.

A escola oferece uma educação em que os valores da feminilidade são exaltados e os da masculinidade reprimidos. É isso apenas o que digo, e nesse ponto estou de pleno acordo com a autora. Quem é MAIS prejudicado não é objeto da minha análise. A escola sofre as mesmas constrições do patriarcado como qualquer outra instituição humana, mas é – ao contrário de outras como a Igreja ou a medicina – supressora das características masculinas. E os meninos se ressentem por não terem uma educação que auxilie na resolução de seus conflitos e que não os valorize pelo que são. Não é à toa que a evasão escolar é MUITO maior entre meninos do que entre meninas. Eles vão “procurar a sua turma”.

Camille Paglia fala de masculino e feminino. Fala da cultura gay também. Essas generalizações são didáticas e procedem. Quando se diz que a competitividade é mais masculina também generaliza, mas está correta. A educação, insisto, é demasiado feminina e não precisava ser assim. Vale a pena comentar este ponto em particular das ideias de Camille porque acho que ela está correta. O isolamento feminino que ela aponta – pelo desaparecimento dos grupos de mães nas tribos e comunidades – é ainda mais marcado e cruel no parto e maternagem. O círculo de apoio feminino que as mulheres sempre receberam terminou com a “emancipação” feminina. Agora é “cada uma por si mesma”. As tarefas tradicionalmente femininas ficaram ainda mais pesadas, como gestar, parir, amamentar e maternar.

Os meninos são vítimas de um modelo que tem a educação feminina como paradigma. E também concordo que a performance superior das meninas na escola é uma “vitória de Pirro“, pois não se traduziu até agora em uma equalização nas relações de gênero. Ainda há muita coisa a ser feita nesse sentido.

Quanto a “ajudar” nas tarefas domésticas… ora, sejamos maleáveis. Estas foras as funções tradicionais das mulheres até duas gerações atrás. A ideia de dividi-las é muito recente. Entretanto, nada ouço sobre a divisão de tarefa dos lixeiros, operadores de britadeira, estiva, mergulhadores de profundidade e frente de combate. Se vamos exigir equidade, é para todos os lados. O que Camille salienta é que as mulheres venceram neste aspecto ideológico, mas é fácil perceber que o mundo ainda é regido pelo patriarcado, mesmo cambaleante e decadente. É disso que o texto dela trata, e não da necessidade de proteger as mulheres contra a violência.

Os homens querem mais participação das mulheres nas tarefas que matam milhares de homens todos os dias, como a polícia e o exército. É muito pesado para eles. Trocamos tal peso pela limpeza da louça suja e pela arrumação da casa. Para debater a questão dos valores do masculino e do feminino você precisa concordar com a existência de valores culturalmente associados ao feminino. Caso contrário o debate torna-se estéril. Cooperação, docilidade, aceitação, afetividade em contraposição à competição, disputa, imposição, firmeza e luta.

As mulheres nascem nesta posição delicada no jogo de poderes porque ficam gravidas e frágeis. Só agora é que podemos igualar isso, através da tecnologia. O Velho Testamento, em especial, marca o surgimento teológico do Patriarcado. Entendam que isso está escrito na Bíblia para marcar uma sociedade com a “virtude varonil“. Podemos achar errado ou estranho tais conceitos hoje, mas há 5 mil anos os povos que assim se organizaram – através da força inegável do patriarcado – foram os vencedores, e foram esses povos que geraram mulheres de quem VOCÊ MESMA é descendente. Os povos mais igualitários, foram TODOS dizimados ou subjugados.

O patriarcado era uma necessidade vital para um mundo que acabava de ser apresentado à posse e ao sedentarismo. Suas descendentes que viviam naquela época JAMAIS aceitariam um mundo IGUAL !!!!! Elas precisavam de filhos e maridos fortes para protegê-las para que, assim seguras, pudessem parir seus filhos. Não há nenhuma superioridade moral em não fazer guerras. Se isso fosse verdade os paraplégicos seriam moralmente superiores, pois nunca vi um assaltando bancos ou matando gente. Ora… no mundo em ebulição na virada do neolítico era fundamental esta divisão de tarefas para garantir a posse da terra. Achar que a Bíblia desejava “oprimir” as mulheres por pura misoginia não encontra respaldo na ciência. A misoginia é a consequência de um mundo que precisa ser regido pela FORÇA, e não pela graça, charme ou beleza.

Com este tipo de entendimento mais abrangente do sistema de poderes sociais fica claro entender que as mulheres não nascem submissas, e nem os homens opressores. Elas nascem mais frágeis por causa do ciclo gravido-puerperal, e ISSO (e não a maldade dos seus maridos) as torna mais suscetíveis às ameaças. Todavia, como são importantes matrizes, as sociedades sempre as protegeram. O patriarcado se organizou nesse sentido: manter a terra e proteger as mulheres. A opressão é a consequência disso, e não sua origem. Mais uma vez convido a todos que se interessam pelo tema a ler os últimos achados antropológicos que confirmam esta ordenação clara sobre os modelos patriarcais, inclusive no que diz respeito às culturas primitivas pré-agriculturais, que não eram opressoras mesmo na vigência da superioridade física dos homens.

E você sabe por quê? Porque os homens amam suas mulheres e são amados por elas. É por isso que o patriarcado vai acabar, pelo amor que eles sentem uns pelos outros. De nada vai adiantar o discurso de ódio contra os homens, e nem a misoginia violenta e degradante: a natureza é sábia e vai equalizar a sociedade baseando-se nesse princípio de desejo e amor.

O que me deixa triste é ver que as agressões contra as mulheres recebem o justo e firme combate da sociedade, mas o ódio aos homens e o desprezo pelos valores masculinos – explícito ou implícito – é considerado normal e mesmo exaltado como algo positivo e construtivo. Ódio não constrói nada, mas quando é que vamos incorporar essa verdade na nossa prática?

Falsa Simetria” é um mantra feminista. Ele equivale ao “holocaust card” que eu falei anteriormente. Quando se reclama que Israel mata, despedaça e humilha covardemente os palestinos, imediatamente um oportunista aparece com a “cartinha do holocausto” e coloca na mesa, imaginando ter em mãos as cartas definitivas que terminam qualquer debate. “Mas como queres falar de massacre contra mulheres, crianças, escolas e hospitais na Palestina, se os judeus foram massacrados na segunda guerra mundial em mais de 6 milhões. Isso é uma falsa simetria. Essas mortes em Gaza não são NADA comparadas ao que sofremos”. Com esse discurso QUALQUER arbítrio, assassinato e barbárie fica automaticamente justificado e perdoado.

Algumas feministas sempre usam esta retórica vitimista (mas que lucra com sua posição sofredora) para justificar o ódio e o preconceito contra o masculino e os homens, usando o fato (verdadeiro e digno de ser combatido ao extremo) de que muitas mulheres são discriminadas, mortas, abusadas e sofrem preconceito. Usam esse fato horroroso não para angariar simpatizantes – inclusive os poucos homens verdadeiramente dispostos a combater as amarras do patriarcado – e combatê-lo, mas para JUSTIFICAR os SEUS PRECONCEITOS (contra os homens serem doulas, contra homens terem guarda compartilhada, para exercer a nojenta alienação parental, etc…) dizendo que “isso é mimimi de macho, quem sofre mesmo somos nós”.

No campo do trabalho existem tarefas MORTAIS (o que faz com que a expectativa de vida dos homens seja MUITO menor do que a das mulheres em, qualquer lugar do mundo) que historicamente os homens realizaram, mas que as mulheres ainda continuam achando que “é natural que eles carreguem esse peso, afinal, eles são homens“. Quando uma mulher diz para o marido ir ver “que barulho foi esse na garagem“, isso é natural, afinal nesse EXATO momento (de perigo) ele é (oportunisticamente) o “homem da casa“. Mas experimente ver um marido dizer para uma mulher ir lavar a louça, afinal, essa é a “tarefa da mulher da casa“….

Ah, é mimimi de macho, não é? Mas… se as  verdadeiras defensoras da igualdade  de gênero (ou da equidade, se preferir) deveriam combater os preconceitos em TODAS as frentes, e não apenas naquelas que lhes oferecem vantagens.

Por último, eu acho que o diferencial biológico feminino torna as mulheres psicologicamente e culturalmente distintas dos homens, pois cultuam valores e modelos diferentes na tradução do mundo. Como dizia meu colega Max, “Carregar um filho no ventre não é uma tarefa impune“. Há um preço a pagar (e isso nada tem a ver com tarefas domésticas) e uma consequência: o surgimento da dor, da angústia e do amor.

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Slow Medicine

Marco Bobbio

Faz algumas semanas eu publiquei uma série de mensagens sobre um autor que eu havia recentemente conhecido chamado Marco Bobbio e que liderava em seu país, a Itália, uma campanha semelhante a um movimento que existe nos Estados Unidos chamado “Choosing Wisely” que tem como mote principal a ideia de que “Fazer mais não é fazer melhor“. A proposta, que agora percebo se espalhar pelo mundo todo, é a “suavização” da prática médica diminuindo os exames, pesquisas e procedimentos em todas as áreas que não se mostram positivos e que podem inclusive induzir ao erro ou produzir dano.

Por uma coincidência maravilhosa o professor Bobbio esteve palestrando hoje ao anoitecer para um seleto grupo de não mais de 15 pessoas no hospital que eu atendo. Depois de uma maratona de 3 partos e mais de 24 horas sem dormir, fazendo “plantão” no hospital, ainda tive energias para escutar as suas palavras.

O que eu mais senti na palestra do Dr Marco Bobbio, além da necessidade urgente de modificar o modelo de atenção à saúde no mundo inteiro, foi a importância que ele – um cardiologista – percebe na atenção ao parto como um dos exemplos mais gritantes do uso excessivo de exames, diagnósticos e tratamentos. Ficou claro que o parto – pelas questões de gênero envolvidas – é um dos campos da medicina mais evidentemente afetado pela tecnocracia. Por outro lado, outro sentimento se apossou de mim. Eu senti um orgulho muito grande do movimento de Humanização do Nascimento no Brasil que faz “slow medicine” (termo que está sendo difundido para uma medicina “low tech – high touch”) há décadas através dos nossos movimentos sociais. Entretanto, entre o discurso histórico da ReHuNa e os propagadores da “Choosing Wisely” existem diferenças marcantes e que são muito evidentes quando se observa a origem, percurso e visão de futuro que cada uma dessas proposta carrega e divulga.

O que se percebe no modelo proposto pelo Dr Marco Bobbio é que o “Choosing Wisely” americano ou a sua vertente italiana “Fazer mais não é fazer melhor” é que ainda são propostas medicamente centradas, iatrocêntricas e que ainda se baseiam em um modelo autoritário mesmo quando a proposta é produzir uma “horizontalização” da atenção. Muito se fala em MBE – Medicina Baseada em Evidências – como condutora principal das ações, mas ainda não é tão marcante a ênfase sobre os paradigmas, as mitologias contemporâneas (como a transcendência tecnológica) a pressão econômica e a violência das grandes corporações farmacêuticas como condutoras de ações na área da medicina. As ideias desses movimentos até abrangem a “medicina defensiva”, e o medo dos processos como propostas de hipermedicalização, mas não tangenciam de forma marcante e clara as outras forças sociais que impulsionam os tratamentos e a diagnose para um caminho diverso da excelência.

O que nós no Brasil temos como grande virtude é que a Humanização do Nascimento, durante os últimos anos, nunca se deixou engolir por um discurso positivista, medicalizado e organicista. Pelo contrário: a Humanização do Nascimento iniciou como um movimento social e até hoje se mantém assim. Este discurso jamais foi cooptado pela Medicina, nem por outros ramos do saber, até porque é da sua origem entender que as verdadeiras mudanças só podem ocorrer pela base, e não por deliberações determinadas por notáveis profissionais da saúde, portadores de verdades inquestionáveis. A característica única e marcante das nossas pautas – que mescla a Saúde Baseada em Provas com a ideia de um movimento social de consumidores, parceiros(as), gestantes, psicólogas, médicos(as), enfermeiras(os) etc – é o que nos oferece singularidade e força.

Tive uma breve oportunidade de conversar com o Dr Marco Bobbio após a sua brilhante exposição, e pude lhe dizer da satisfação de ver este movimento crescer no mundo inteiro. É fundamental observar o momento de crise – ética, profissional, econômica – da Medicina para elevar a sua qualidade. Falei-lhe por poucos minutos da ReHuNa e seu compromisso com partos humanizados e recebi dele a chancela de que estamos no caminho correto. Disse-lhe ainda: “Sem que procuremos uma mudança paradigmática profunda na sociedade, este movimento não irá a lugar algum. O abuso de procedimentos não é uma crise médica, é uma crise da sociedade capitalista, e é sobre ela que devemos agir de forma mais intensa e decisiva“.

O professor concordou com minhas palavras, apertou fortemente minha mão, e sorriu…

Arrivederci maestro!!!“, disse eu. Um dia para ficar na memória.

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Holocausto

refugees

“Enquanto os alemães erguem faixas celebrando a fraternidade e o acolhimento de refugiados do oriente médio, bombas Israelenses cruzam os céus da Palestina abreviando a vida dos sitiados de Gaza. Tudo indica que o holocausto do século XX ensinou os algozes, mas as vítimas não aprenderam tão bem a lição.”

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Refugiados

A foto acima apressou o fim da guerra no Vietnã, o que fará a que se encontra no fim desse texto? A foto do menino morto na praia nos despertou para a tragédia dos refugiados. As imagens das execuções sumárias e das mais de 500 crianças mortas no último massacre de Gaza por Israel nos despertam lentamente para a barbárie, com a qual ainda somos coniventes.

Não reclamem das imagens; questionem a realidade estúpida e desumana.

Você não vai orar por algo ou alguém que desconhece. Faria uma oração pelos desabrigados e vítimas de bombas terrestres no Curdistão? Não, não faria isso sem ter o conhecimento dessa crueldade. A foto do menino sírio serve para nos despertar, nos mostrar o drama humano dos refugiados. Nos obriga a refletir e questionar. Nos mostra a crueza da morte de uma criança. E nos obriga a tomar posição diante dessa tragédia. A foto cumpriu seu propósito de nos sacudir.

Aylan Kurdi 01

Eu acho que a imagem da criança sem vida na praia tem a capacidade de nos despertar. Por mais cruel que seja, pode ter uma função pedagógica. Ele tinha 3 anos e se chamava Aylan Kurdi. Não conseguimos nos mobilizar sem estabelecer identificações, e a cena nos leva a pensar nos meninos que nos cercam e que poderiam estar com seus pequenos corpos gelados em uma praia abandonada. Enquanto seres humanos forem apenas números nada faremos para mudar esta realidade crua.

A imagem forte e cruel nos oportuniza despertar do nosso sono de insensibilidade. Se não fosse a fotografia do menino na praia estaríamos debatendo a tragédia dos refugiados sírios?

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Justiciamentos

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Sobre os justiciamentos populares…

“Qual a dificuldade de entender que qualquer criminoso, qualquer que seja o crime, tem direito a defesa e não pode ser maltratado? Fora isso teremos apenas justiciamentos, típicos de republiquetas onde a barbárie impera. O criminoso precisa pagar pelos seus crimes, mas a sociedade NÃO PODE ser mais doente que o sujeito. Para quem curte linchamentos, não esqueça que a civilização começa quando o estado de direito se impõem sobre a selvageria. Os crimes, quando comprovadamente cometidos, não podem ficar impunes e o meliante precisa ser afastado da sociedade.

O resto é apenas vingança de pessoas que, em essência, não diferem muito dele….

E por favor…. não aguento mais discurso de “vingadores” ao estilo “se fosse comigo…“, muito menos coisas como “leva pra casa“, “tem que pendurar num poste“, ou “tratam bem esses caras, mas…“. Chega. Estudem. Leiam o que diz a constituição de QUALQUER país civilizado. Esse tratamento digno com os criminosos ocorre em países como os Estados Unidos e na Europa, mas o que vocês preconizam existe no Zimbábue e na Nigéria.

Estou cheio de justiceiros que preferem viver na África do que na Suécia, desde que isso os beneficie. Tipo, os “outros” que se “ferrem”, o importante é manter meus privilégios.

Meu ponto de vista é que a civilização cobra caro a sua construção e manutenção, e o preço é entender que não se faz justiça maltratando o criminoso e nem jogando sobre ele nossas raivas e nossa indignação, carregadas de fúria cega. NENHUMA sociedade desenvolvida se consolidou sem antes passar pelo processo penoso de respeito às instituições em um esforço conjunto pela consolidação do estado de direito. Tratar com humanidade e respeito o criminoso NÃO SIGNIFICA desreconhecer a dor das vítimas, e nem MUITO MENOS perdoar os crimes por eles cometidos. Tratar com justiça não é tratar com crueldade e nem com violência.

A sociedade precisa ser pedagógica e não vingativa. Existem questões acima de qualquer debate, e entre elas estão os DIREITOS HUMANOS, que são elementos que cada um de nós carrega na essência de seu ser: não podem ser retirados por nenhuma circunstância ou contexto.”

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Modismos

Nelson Carneiro

Eu era adolescente quando Nelson Carneiro, deputado pelo Rio de Janeiro, fez passar a lei do divórcio.  O ano era 1977, e a partir dessa data muitas mulheres encheram-se de coragem e, enfrentando todo tipo de preconceitos e julgamentos, exigiram de seus maridos o desenlace jurídico definitivo. É verdade que muitos maridos também o solicitaram, mas reconheço que os pedidos partiam majoritariamente das esposas.

Quando a avalanche de divórcios se tornou evidente muitos disseram se tratar de um “modismo”, algo inconsequente; irresponsável até.  Entretanto, eu conheci e conversei com muitas dessas mulheres que, abrindo mão de tudo que tinham, – estabilidade,  conforto, dinheiro, segurança, reconhecimento social – separaram-se de seus companheiros para se tornarem estigmatizadas como “divorciadas”. Quando eu lhes perguntava porque se aventuravam neste salto no escuro de uma separação elas respondiam: “Claro que é difícil, angustiante e penoso, e é evidente que me sinto insegura, mas manter-me casada seria muito pior”.

Ao encontrar críticas ao “modismo” dos partos extra-hospitalares eu me pergunto se, na visão destas gestantes e seus maridos, a opção de um parto no hospital não lhes parece uma alternativa muito mais violenta e indigna do que a escolha radical que fizeram, a ponto de buscarem opções que para muitos podem parecer insensatas.

A verdade é que TODA a escolha pelo local de parto é POLÍTICA, sem exceção. A não ser que seja imposta, e aí já não é mais escolha. Parir de forma normal, no mundo contemporâneo, é ligar o liquidificador no condomínio às 3h da madrugada: não há como não se tornar algo público. Nossas escolhas influenciam os que nos circundam, e eles por sua parte interferem em nosso cotidiano. Portanto, as escolhas políticas se fazem em função de demandas daqueles com quem convivemos. Os partos na atualidade refletem a inconformidade crescente com o modo como as sociedades contemporâneas lidam com a liberdade e a autonomia das mulheres.

Se há abusos e, por vezes, escassez de bom senso, há também – e de forma exponencialmente maior – no modelo anacrônico e autoritário de partos que temos hoje. Para que a atenção seja melhor é fundamental que nos debrucemos sobre uma crítica madura e pertinente sobre os limites da tecnocracia e o preço da alienação. Com isso vamos diminuir a chance de escolhas insensatas ao oferecer um atendimento hospitalar centrado na mulher e suas necessidades, respeitando seu protagonismo e sua autonomia para tomar as decisões que lhe cabem.

Infelizmente, ao invés de fazermos uma autocrítica dura, corajosa e madura ao modelo anacrônico de atenção obstétrica,  perdemos tempo e recursos preciosos atacando a CONSEQUÊNCIA disso: a escolha livre e consciente por um parto que tenta se afastar das amarras do autoritarismo.

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Até quando?

Impaciência

Estava lendo o texto de uma colega sobre uma cesariana e percebi que é, sim, possível escrever um texto ofensivo e rancoroso ao extremo embrulhando palavras ácidas e agressivas com celofanes coloridos de falsa candura.

É muito ódio nesse coraçãozinho…

Até quando as pessoas vão continuar com esse discurso de contrapor humanização do nascimento com cesariana? Quando é que vão se dar conta de que não criticamos a cirurgia, mas seu abuso? Quando é que perceberão que não se trata de questionar a boa prática cirúrgica – que começa com uma boa indicação – mas alertar para as consequências em curto, médio e longo prazo do exagero INQUESTIONÁVEL de um recurso que é reservado apenas para os casos de risco aumentado para mães e bebês? Quanto ainda teremos de suportar essa dicotomia FALSA entre recursos tecnológicos e humanização do nascimento?

Apenas para lembrar o conceito e acabar de uma vez com essa falsa incompatibilidade entre uso de tecnologia e assistência humanizada:

“A Humanização do Nascimento vem trazer a síntese entre as conquistas recentes da ciência, que nos oferecem segurança, com as forças evolutivas e adaptativas dos milênios que nos antecederam. Este releitura do nascimento humano se faz necessária para acomodar as necessidades afetivas, psicológicas e espirituais das mulheres e seus filhos com as conquistas que o conhecimento nos trouxe através da aquisição crescente de tecnologia.”

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A Reação Conservadora

Gelo queimando 02

Sobre um texto que está rolando aí exaltando cesarianas e desmerecendo ativismo por partos dignos:

“Mais sobre o mesmo. Intervencionismo médico. Os médicos como salvadores das mulheres, donas de corpos perigosos e defectivos. Um texto óbvio do intervencionismo médico escrito com 10 a 15 anos de atraso. Os argumentos da Dra já foram contestados por inúmeras publicações no mundo inteiro. A sua fala é repleta de um vazio ruidoso: a incapacidade de enxergar o fenômeno pela perspectiva da mulher, e a brutal obliteração de ver a transcendência imanente de um nascimento.”

Se há algo que aprendi no falecido Orkut é não discutir com pessoas que fazem críticas “ad hominem“. No texto da Dra., fartamente distribuído (mas não por mim…), o que sobra como evidência é a descrição do parto por um viés biologicista, “desumanizante”, tecnicista, coisificante e objetualizante. Em nenhum momento ela se refere às pacientes como pessoas dignas e capazes de fazerem escolhas informadas sobre riscos e benefícios de uma grande cirurgia. É um texto agride as evidências científicas (SIM) e que, infelizmente, não oferece uma interface para debate, e isso ocorre por uma questão bem simples: ela NÃO enxerga no parto algo que eu e muitos ativistas dos direitos reprodutivos e sexuais enxergamos: um processo importante de empoderamento feminino e uma preservação da integridade física da mulher.

Entretanto, o texto dela reflete uma realidade cada vez mais evidente: os movimentos sociais, o governo, o Ministério Público, a pressão internacional e as evidências científicas expuseram a posição dos médicos cesaristas como amplamente questionável, demonstrando o viés mercantilista da prática de atender por “linha de montagem”. A defesa – cada vez mais frágil – é confundir “parto humanizado” com parto desassistido ou parto domiciliar, já que as bases da humanização do nascimento são mais do que provadas no campo da pesquisa (como a negativa de usar episiotomias, Kristeller, enemas, tricotomias e cesarianas rotineiramente e sem justificativa clínica).

Assim, a Dra se esforça em mostrar que um parto fora do CONTROLE da medicina é inseguro, mesmo quando as grandes potencias mundiais mostram-se cada vez mais voltadas aos tratamentos realizados por especialistas em parto normal (as enfermeiras e obstetrizes) e reservando aos médicos apenas os tratamentos que incluem patologias. Os argumentos que ela usa são os MESMOS que eu escuto há 30 anos, por isso eu disse que seus escritos tem 10 a 15 anos de atraso. Nós já debatíamos isso no início deste milênio, e a ideia de incentivar cesarianas se mostrou inadequada para mães e bebês, mas inquestionavelmente boa financeiramente para médicos e instituições. Continuar investindo no paradigma cirúrgico é colocar a vida dos pacientes em risco, mas incentivar partos normais com profissionais adequados, capacitados e aparelhados, oferecendo o PROTAGONISMO às mulheres, a visão interdisciplinar e a vinculação com a Medicina Baseada em Provas, é o caminho das grandes democracias.

Acho que não vamos a lugar algum xingando doulas, que tem sua função baseada em evidencias, e são reconhecidas como auxiliares importantes no processo de parto, exatamente por oferecer o calor do afeto à frieza da atenção médico-hospitalar.

O que o texto da doutora ressalta é a centralidade dos médicos e da medicina no cuidado de um processo fisiológico como o parto,  com uma visão de “progresso” oriunda do século XIX, onde este se confundia com o acúmulo de tecnologia. Ora, qualquer pensador contemporâneo reconhece que a adoção de um paradigma serve a interesses explícitos e implícitos.  O problema é que os interesses invisíveis se tornam cada vez mais claros e transparentes através da análise simples de dados, como a violência obstétrica e a taxa abusiva de cesarianas. O “mito da transcendência tecnológica”, como qualquer mitologia,  não se estabelece num vácuo conceitual; pelo contrário, ela expressa valores e interesses de grupos – como os médicos – e instituições – como a indústria farmacêutica e de equipamentos, hospitais etc. – que se servem de um modelo que inferioriza a mulher através de uma visão diminutiva de suas capacidades de gestão e parir com segurança e autonomia.  Enquanto tivermos mulheres “fracas” e partos “bomba relógio” teremos médicos e intervenções valorizados acima de sua real necessidade.  O texto da doutora explora explicitamente este viés característico do discurso, que serve aos propósitos da sua corporação. “Somos maravilhosos, salvamos mulheres, somos imprescindíveis, exatamente porque sem nós as mulheres são incapazes de dar conta dos desafios da parturição“.

Como eu disse acima, esse discurso “chapa branca” da medicina é antigo mas se choca com as evidências do mundo inteiro que se esforçam pela desmedicalização da vida e, em especial, do parto, em função dos resultados ruins do intervencionismo e da crescente insatisfação das mulheres com a atenção insensível e violenta que recebem.

Lendo o texto da doutora eu ficava pensando: “Meu Deus!!! Avisem os europeus, pois eles estão indo na direção oposta. Alguém precisa mostrar a eles como estão absolutamente errados,  e como nós estamos maravilhosamente certos“.

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