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As diferenças

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“Enquanto o parto humanizado for opção apenas para uma casta seleta, uma parcela da classe média que possui dinheiro e informação, nosso trabalho será incompleto e insuficiente. A humanização do nascimento não é uma moda, uma “onda” ou um capricho de mulheres burguesas. Parto com dignidade é direito fundamental, e faz parte das lutas pela democracia e pela liberdade. Nossa paixão pelo parto digno deve atingir a mulher do campo e da cidade, as ricas e as pobres, sem qualquer distinção. “Para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer“, e isso precisa ocorrer em todos os níveis.”

Faz parte do processo de transformação em curso os desafios que encontramos agora na atenção oferecida por enfermeiras durante o parto. Mulheres imitaram os homens no raiar do feminismo, achando que elas também podiam usufruir do poder e da glória que o falo inspira. Eu curti o tempo do “unissex”, que nada mais era do que mulheres imitando homens, inclusive – e principalmente – nos seus defeitos. Levou tempo para as mulheres perceberem a verdade na frase que pendurei há muitos anos na parede do meu consultório: “Uma mulher que pretende imitar os homens carece de imaginação“.

Agora as mulheres percebem que, SIM, são diferentes e celebram esta diferença com a valorização de seus corpos sinuosos, suas gestações e mamas que produzem leite. Com as parteiras – as profissionais, mas também as tradicionais – ocorreu o mesmo. Pareceu por um bom tempo que imitar a ilusória superioridade tecnológica dos médicos lhes garantiria maior reconhecimento profissional. Enluvaram-se, enrouparam-se de verde, cobriram o rosto com a mascara do anonimato, usaram o aço que corta e a gaze que seca. Chamaram as mulheres de “maezinhas” e “minha filha“, olhando-as de cima a baixo para mostrar, afinal, quem é que manda.

Só agora as enfermeiras obstetras e obstetrizes percebem que não são “doutoras castradas”, mas profissionais cujo maior diferencial é a especial conexão afetiva e espiritual que protagonizam junto às mulheres. Dessa diferença é que surgirá a parteria do século XXI, que vai aliar conhecimento formal e científico com a ancestral capacidade de cuidar que receberam da linhagem de parteiras que se perde na poeira do tempo.

Quem viver, verá…

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Humanizar é…

Parteira Tradicional

Existe, inequivocamente, um crescente desconforto dos médicos quando se trata da palavra (ou do tema) humanização. Há alguns dias vi um médico fazer uma defesa apaixonada da medicina, quase às lágrimas, reclamando do uso da palavra humanização. Dizia ele que salvar pessoas, fazer cirurgias, aplicar o tratamento adequado, dar o remédio correto, dedicar-se ao estudo e atender seus pacientes com respeito e carinho era a VERDADEIRA humanização. Infelizmente esta é ainda a reação de muitas pessoas, mas este desconforto se baseia na incapacidade dos profissionais que trabalham com o parto de compreender a essência da humanização do nascimento. Essa dificuldade é notória em especial nos médicos, e muito menos presente nos profissionais das outras áreas (antropólogos, sociólogos, psicólogos, psicanalistas, etc.). O “black spot” da humanização se refere à incapacidade de reconhecer o paciente como SUJEITO, mantendo-se atrelado a uma postura que o considera como um objeto da nossa ação.

A postura que alguns médicos assumem diante dos pacientes muitas vezes me parece com aquela dos escravagistas, e com o mesmo tipo de surpresa honesta diante das queixas. “Como assim desumanos? Nós tiramos estes negros da África, onde estavam passando fome, e lhes demos roupas, comida, casa, um nome, um país e segurança. Como podem estar reclamando? O que mais podem querer?” Outro comportamento que me lembra esta situação é a queixa do marido dos anos 40 quando sua mulher lhe dizia que pretendia deixá-lo: “Mas porquê? Eu trago tudo para dentro de casa, não bato em você e não bebo! O que mais pode querer?“. Jamais passaria pela cabeça dessas pessoas (escravagistas conscientes e maridos) que eles – escravos e mulheres – pudessem desejar algo a mais do que aquilo que lhes era oferecido. Tal fato pode ser entendido porque a relação com tais personagens era objetual. Nunca se perguntava a um negro o quê desejava, o que almejava para sua vida e quais os seus valores. Para uma mulher os critérios eram sempre os masculinos, enquanto ela pudesse servi-lo, mas sem questionar suas aspirações e desejos.

Os pacientes são igualmente jogados neste lugar: patologias que precisam ser curadas, tumores a serem extirpados, bebês conduzidos à vida pela melhor via e remédios para todos males, mas através de uma visão que não leva em consideração o sujeito doente ou, no caso do parto, a mulher que está em sua travessia para o universo da maternidade.

Qualquer preocupação a respeito dos limites da autonomia de uma mulher é respeitável e compreensível. Entretanto, a tendência mundial é sempre permitir que as pessoas possam fazer escolhas baseadas em seus valores, sua visão de mundo e seus desejos. Essas histórias de “mulher que não quis deixar o médico fazer X ou Y“, questionando a autoridade médica, existem por aí, mas normalmente são um pouco diferentes do que se propaga. De qualquer maneira a existência de “radicais” nos deveria fazer pensar no tipo de atendimento que oferecemos em que uma mulher prefere parir SEM assistência do que com aquela que nós oferecemos. Um exemplo típico eu testemunhei em uma recente visita à Bulgária, quando conheci seu sistema de atenção ao parto. O movimento de humanização de lá precisa lidar com um número preocupante de mulheres que preferem parir escondidas com o auxílio de amigas do que enfrentar o sistema público (o único existente) de atenção ao parto, que obedece o modelo autoritário, punitivo e violento da medicina comunista. Mais do que criticá-las (e podemos fazer isso, sem problema) é preciso saber porque elas fogem da assistência oferecida. Assim sendo, nunca é demais repetir: se nós tivéssemos Casas de Parto e hospitais que respeitassem a autonomia e a autodeterminação das mulheres o número de gestantes optando por parto domiciliar cairia imediatamente, talvez para menos da metade, pois que boa parte delas quer um parto digno e sem violência, o que é difícil de encontrar na atualidade.

O caso Adelir traduz esta inabilidade nas suas últimas consequências. As doutoras que a atenderam até hoje acreditam piamente que fizeram o que era melhor, mas jamais pensaram na possibilidade de garantir à mulher o poder de decidir sobre como seu filho viria a nascer. Mesmo com todos os papéis e documentos assinados à gestante jamais foi oferecido o direito de decidir sobre seu parto.

Humanizar o nascimento é garantir o protagonismo à mulher. Sem isso teremos apenas tutela, a mesma que oferecemos às crianças e aos incapazes“.

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A Real Necessidade

Estender mao

A visão objetual do paciente, a persistente consideração de cada pessoa com objeto da ação da medicina – e não como sujeitos competentes para realizar escolhas informadas – são a REAL necessidade de humanizar o nascimento.Não, isso seria incompleto; uma transformação da forma, mas mantendo intacta a essência. Sem considerar cada mulher como legítima condutora do processo teremos apenas uma parcial mudança, insuficiente para a verdadeira revolução que pretendemos. Humanizar o nascimento é garantir o protagonismo à mulher.

Ainda haverá muito tempo até que os profissionais da saúde entendam o que a “humanização do nascimento” tem a dizer. Ainda há confusão e ranger de dentes, porque alguns recusam-se a compreender os aspectos ÉTICOS relacionados com esta atitude, e se mantém fixados aos aspectos técnicos da atenção. Fazer uma cesariana com uma mulher com duas cesarianas prévias e um bebê pélvico (sentado) pode ser uma indicação compreensível. Todavia, o que é inadmissível é ameaçá-la, constrangê-la, amedrontá-la e considerá-la um objeto “inanimado”, sem vontade e sem autonomia. A humanização vem colocar a MULHER no centro dessas decisões, oferecendo aos profissionais que a auxiliam a honrosa posição de consultores e orientadores.

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Fazer Partos

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A naturalização da expressão “fazer o parto” é tão intensa na nossa cultura (e não o é com igual intensidade em outras latitudes) que alguns sequer entendem nossa crítica a esta forma de descrever um nascimento. Quando dizemos que “só mulheres podem fazer um parto” confundem essa afirmação com a exclusão dos atores sociais relacionados com sua assistência e entendem tal ponto de vista favorece a desassistência. Nada poderia estar mais distante da verdade. Parto assistido por bons profissionais é uma conquista milenar das sociedades humanas. Ponto.

É por esse entorno cultural – a negação consciente e/ou inconsciente do protagonismo da mulher no parto – que os movimentos de humanização são necessários. É precisamente pela obliteração da função primordial das mulheres num evento que só ocorre na intimidade dos seus corpos que não há como se calar. Mesmo quando se repetem as acusações infantis e inconsistentes de que somos “contra os médicos” ainda assim, e com mais razão, é preciso colocar a mulher no seu verdadeiro posto. Achar que combater a violência obstétrica é ser contra médicos é tão tolo quanto acreditar que a luta contra a pesca das baleias é ser contra os marinheiros. Bons médicos e bons marinheiros serão sempre necessários.

Barbatanas de baleia e Kristeller , chega.

Entretanto, tenho SÉRIAS objeções quanto a criminalização da violência obstétrica na forma como está sendo debatida. Essa atitude terá uma reação imediata: o refúgio por parte dos profissionais no porto seguro das cesarianas e o medo crescente destes em oferecer assistência para partos. Tratar episiotomia com a mesma severidade com que analisamos espancamento doméstico é um exagero que pode ter consequências danosas para a atenção ao parto e,  mesmo sendo plena de boas intenções, pode ser um tiro no pé.

Educação e ativismo são o melhor caminho. A judicialização é sempre um caminho extremo. Produziremos muito mais efeitos positivos ao orientar mulheres, educar os novos profissionais, criar protocolos humanizados, conselhos hospitalares locais de revisão de práticas, aconselhamento de casais grávidos, comitês de direitos dos pacientes, doulas, acompanhantes, plantões multiprofissionais e muito mais. Colocar profissionais contra a parede, ameaçá-los e constrangê-los, de nada adiantará.

A única coisa certa a ocorrer é o aumento de cesarianas.

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Poderes

Humanis Corporis

Queria desenvolver mais o tema da fixação dos obstetras brasileiros de fazer seminários em que dedicam algumas horas para combater – das formas tradicionais – o parto domiciliar. Via de regra escolhem-se profissionais que apresentam os conhecidos trabalhos que confirmam o que se pretende acreditar. Falam exaustivamente dos riscos, dos problemas, dos transportes, das cidades grandes. Mostram a Inglaterra como um país completamente diferente, assim como a Holanda, e explicam que os partos domiciliares de lá podem ser estimulados pelos respectivos governos porque…. bem, eles são ingleses e holandeses, não é?

Mas o que mais chama a atenção é que os riscos, se existirem, são muito pequenos, o que os transformaria em riscos normais da vida humana. Jogar futebol na escola é muito mais arriscado do que jogar xadrez, mas nem por isso se proíbem jogos no colégio por existir uma alternativa mais segura. Há que se considerar riscos relativos e riscos absolutos, o que frequentemente não se faz, por interesse. Todavia, qualquer pessoa percebe a existência de VALOR nos jogos de futebol, o que faz com que os riscos sejam absorvidos como parte da vida, do preço que se paga por existir. O mesmo raciocínio se usa para viagens de avião e automóvel; o segundo não é proibido por ser o primeiro mais seguro. Porém, muitos se negam a perceber qualquer valor associado ao rito de passagem atravessado pelas mulheres chamado “parto”, e tentam de todas as formas desconsiderá-lo.

Partos extra-hospitalares no Brasil não chegam a 3% do total de nascimentos, mas os partos “urbanos” domiciliares e planejados, em mulheres de classe média, não chegam a 1%. A quantidade de mulheres que optam por um modelo domiciliar é desprezível diante do modelo hospitalar. Por isso cabe a pergunta: porque tanta preocupação? Porque se ocupar destas mulheres, normalmente MUITO informadas, e que optam por ter filhos em suas casas?

Minha tese é que o parto domiciliar, mais ainda do que o parto realizado em Casas de Parto, incomoda pelos seus significados invisíveis. Como dizia a professora Robbie Davis-Floyd no seu livro Birth as an American Rite of Passage a obstetrícia contemporânea se estabelece sobre a crença da defectividade essencial da mulher. Este é seu marco teórico mais importante, e menos percebido. No paradigma tecnocrático os sujeitos são máquinas, coisificados pelo modelo cartesiano, De Corporis Humani Machina. Já no que tange às mulheres, elas são dotadas pelo Criador de uma máquina defeituosa em essência, cuja fabricação é equivocada e sujeita a erros, que podem ser consertadas pela razão humana personificada na figura masculina do médico. Mulheres são seres passíveis de falhas, e cabe aos profissionais a tarefa de resgatá-las das garras cruéis de uma natureza madrasta.

O parto domiciliar é o avesso dessa crença. Muito mais além das teses da humanização do nascimento, o que sustenta o parto domiciliar planejado – com sua tecnologia simplificada (mas eficiente, como provam os estudos) – é a postura contrária (muito mais do que discordante) à visão corrente da defectividade feminina. Desconsiderando a visão médica tradicional da “bomba relógio” prestes a explodir, as parteiras modernas (enfermeiras e obstetrizes) que acompanham partos domiciliares enxergam a mulher na plenitude de suas capacidades, e na excelência de seus corpos. Mulheres parindo são exemplos de “perfeição” da natureza, expondo a delicadeza do processo adaptativo da espécie aos desafios da altricialidade e da encefalização.

Essa atitude ofende o modelo médico. Mais do que preocupar-se com possíveis problemas para mães e bebês – o que seria uma atitude nobre da corporação – o parto, sem os aparatos e os profissionais que configuram o modelo hegemônico, desafia os poderes constituídos sobre a visão catastrofista do nascimento. Fosse o bem estar de mães e bebês a questão preponderante e estaríamos combatendo um problema MUITO mais óbvio, e sobre o qual já não recai nenhuma dúvida: a epidemia de cesarianas. Nenhum médico sério questiona a mortalidade e a morbidade aumentadas com o avanço das cesarianas no mundo todo, mas as lideranças da corporação quase nada dizem ou fazem para estancar a hemorragia de cirurgias obstétricas. E por quê?

Ora, porque as cesarianas estão alinhadas com o modelo ideológico que coordena o nascimento. Elas se adaptam como uma luva à ideologia predominante de corpos mal feitos, gestações problemáticas, ciclos vitais fisiológicos tratados como patologia e o uso salvador das técnicas, hospitais e recursos de toda a ordem para “salvar” mulheres condenadas pela sua própria condição de “ser mulher”.

Os partos domiciliares ameaçam a estrutura de poderes; cesarianas em desvario não. Pelo contrário: quanto maior o número de nascimentos cirúrgicos maior será a artificialização do nascimento e mais importantes serão aqueles que o controlam. Por esta razão é que se dedica um tempo anormal para combater um modelo de assistência que está LONGE de colocar pessoas em risco, mas que ameaça poderes instituídos e hierarquias sociais estabelecidas.

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A gente não quer só comida

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Esse pensamento que li alhures me fez pensar:

“Talvez não devêssemos pensar porque os alimentos orgânicos custam tão caro, mas porque os industrializados custam tão barato”.

Um questionamento razoável seria: porque os partos industrializados pagam tão mal e custam tão pouco para o sistema, e os nascimentos “artesanais”, em contrapartida, são necessariamente mais caros?

Faz sentido?

Ser tratado como um objeto em uma esteira de montagem, como de forma genial preconizou Henry Ford, tinha exatamente esta intenção: baratear os custos e maximizar os lucros. Uma cesariana em hospital faz o “produto” bebê ter um custo de produção muito menor, assim como a couve, a soja, o arroz e o milho tratados como agronegócio. Olhar para o nascimento como negócio e bebês como “mercadoria” nos levaria inevitavelmente para esta crise com que nos deparamos hoje.

Industrializando-se a vida como um todo teremos custos menores, e…. produtos piores. Não seria melhor questionarmos as vantagens de uma abordagem mais subjetiva para a comida e o parto, retirando-os da lógica capitalista e produtiva, e estabelecendo uma nova postura em relação à alimentação e ao nascimento?

Nunca li, mas acho que Michel Odent deve ter falado algo parecido em “O Camponês e a Parteira”….

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Bruxas

Apesar da minha promessa de início de ano, baseada em inúmeros erros do passado, voltei a cometer o mesmo equívoco lamentável de tantos anos: debater com as vítimas.

Ainda hoje vi a notícia do assassinato de uma mulher (servidora pública da guarda civil) dentro do seu automóvel enquanto aguardava a chegada de sua filha de 7 anos. Uma morte estúpida, inaceitável e dolorosa, pois atinge todo aquele que vive em uma cidade. A morte de Ana Paola é um pouco a morte de todos nós.

O pior, como sempre, são os comentários, mas isso pode ser entendido como a explosão de sentimentos advindos da identificação dessas pessoas com a mulher que foi vítima, ou com seus familiares enlutados. O problema é que a dor e a indignação de muitos acaba se transformando numa explosão de ressentimento e ódio, sem que haja qualquer tipo de anteparo civilizatório, pelo menos em tempo de debate cibernético. Qualquer forma de linchamento é válida; julgamentos sumários são propostos e a vingança contra o meliante passa a ser muito mais importante do que a solução de um problema – a violência urbana – que existe há séculos e que se incrementou nas últimas décadas.

Pior: qualquer tentativa de estabelecer um diálogo, ou mesmo um pedido de que haja ponderação acarreta o rechaço imediato dos vingadores e justiceiros. A frase clichê nessas circunstâncias é: “Ah, está com pena? Então leve para casa.” Pedir que as pessoas entendam que um crime não justifica outro parece, aos ouvidos das vitimas, o mesmo que defender a prática criminosa. Dizer que o assassinato dessa moça não significa que temos que baixar a idade penal para 10 anos (sim, isso foi proposto), ou que a pena de morte deveria ser instituída, é o mesmo que dizer que essa morte não representa nada e que o criminoso é inocente.

Para a vítima, movida pela intensa emocionalidade do momento, não existe ponderação ou razoabilidade, apenas paixão e dor. Nestes casos somos TODOS vítimas, e a manifestação popular é a síntese dessa sensação de medo e insegurança.

Resolvi que nada deveria dizer, além de um breve comentário: “Os comentários fascistas acima são tão tristes quanto a notícia. Os defensores do linchamento são apenas criminosos que ainda não tiveram sua oportunidade ou circunstância para delinquir. É muito triste ver do que é feita a “opinião pública” do nosso povo. Assassinos em potencial.” Escrevi e me retirei.

Podia ter ficado quieto, até que uma ativista da humanização escreveu um texto dizendo que o parto não é lugar para “doulos“, pois este espaço é feminino e deve ser assim preservado. Imediatamente reconheci nesse texto uma forma característica de sexismo com sinal trocado: a imposição externa de uma “cartilha”, feita para que as mulheres sigam um comportamento de acordo com o ideário feminista, mas sem levar em consideração o que aquela específica mulher entende como sendo sua necessidade ou desejo. Tentei explicar que nós homens fomos obrigados a testemunhar a invasão feminina de espaços historicamente destinados aos homens e que esta ocupação de funções e posições ocorreu pela luta por igualdade e equidade que as mulheres empreenderam. A entrada das mulheres na medicina, no direito, na administração e na política – mesmo estando ainda longe do ideal – foi um movimento especial na história da cultura ocidental, que ainda está atrasada no oriente. Minha posição, entretanto, é que, assim como as mulheres puderam empreender esta benfazeja invasão, também os homens poderia ocupar os espaços que historicamente as mulheres detinham.

Entre eles o cuidado de gestantes.

Se achamos que a equidade deve ser buscada e incentivada ela certamente é uma via de duas mãos. Se desejamos ocupar espaços antigamente determinados como fixos para o sexo masculino (lutas, guerras, cirurgia, futebol, mecânica, etc.) porque não admitir o parto como um território livre para a escolha das mulheres? Porque criar uma “reserva de mercado” para a ação feminina, quando nenhuma destas reservas se admite para os homens?

Pareceria até um argumento razoável, mas lembrei que numa sociedade machista como a nossa, ainda dominada pelo patriarcado, as mulheres são todas vítimas. Pressionadas e constrangidas por uma sociedade injusta podem debater da posição subjetiva de vítimas, usando de forma liberal a emocionalidade e a violência verbal que jamais é adequada em um debate racional, principalmente se considerarmos que os debatedores eram amigos.

Erro grosseiro da minha parte. Fui criticado e ofendido de forma desnecessária, em agressões “ad hominen“, por pessoas que deveriam estar do mesmo lado na luta pelas mulheres. Meu engano foi, mais uma vez, tentar tratar de forma racional temas que são extremamente doloridos para algumas mulheres. Mostrar as contradições do discurso de algumas feministas é, para elas, o mesmo que queimar parteiras e bruxas. Não há meio termo: ou você participa do linchamento ou é um “mascus” asqueroso enganador de mulheres.

Sim, a história estabeleceu estes espaços para os homens, como a política, a guerra e os esportes em geral. A cultura, em sua dinâmica, deixou as mulheres confinadas à família, aos cuidados com os filhos, à culinária e ao lar. Esta é a história do patriarcado que, ao meu ver, foi uma brilhante solução cultural adaptada ao paleolítico superior e todos os séculos de guerra que o seguiram. A crise desse sistema só agora, felizmente, pôde aparecer. Essa mesma dinâmica cultural adaptativa proporcionou a decadência do patriarcado criando as condições para a invasão que hoje vemos, fortuita e bem vinda, como disse anteriormente. Por isso advogo que as invasões no outro sentido sejam também respeitadas.

O uso da palavra “invasão” se justifica por ser a que mais claramente traduz a luta das mulheres para conquistar (e não simplesmente “ocupar”) espaços na sociedade ocidental contemporânea. Aliás o MUNDO não é masculino nem feminino, mas algumas funções foram assim determinadas. Essas “funções” nada mais são do que acertos temporários de adaptação às condições internas e externas dos grupamentos humanos. O patriarcado determinou uma delimitação em que muitos afazeres ficaram com os homens, como citei acima. Mas basta você trocar a fralda do sei filho ou entrar na cozinha da sua casa para ver como as mulheres dizem (jocosamente, mas nem tanto) que ali quem manda são elas. O que o mundo pós-pílula fez foi questionar os lugares alocados pela cultura, oferendo oportunidade para que as mulheres invadissem locais antes tradicionalmente masculinos. A palavra “invasão” é boa exatamente porque a ocupação não foi (e não é) pacífica. Vejo beicinho por todo lado quando uma mulher ocupa um posto que sempre foi ocupado por homens, e vi muxoxos quando afirmei que somente a mulher pode decidir se quer ou não um homem como “doulo“.

Haveria muito mais a ser dito sobre este tema e de forma profunda, mas existem pessoas feridas pelo machismo que não suportam qualquer referência ao tema sem responderem com emocionalidade, o que é plenamente compreensível, mas impede o progredir dos debates. Lembro do Déda, meu vizinho russo, que fugiu do seu país durante a guerra, e que acompanhou o totalitarismo stalinista nos seus primórdios. O tema “Stalin” e a Revolução de 17 eram absolutamente insuportáveis para ele, que se alterava bastando para isso tocar de leve nestes assuntos. Ele foi vítima, e também com ele me dei conta que é inviável tentar debate racionalmente. A carga emocional era tanta que Babá, sua esposa, me fazia sinais pelas costas avisando para não falar no tema. Com alguma mulheres, vítimas de um machismo cruel e abjeto, muitas vezes é melhor calar e esperar que as feridas se fechem, para que, com o tempo, elas sejam capazes de debater sem serem vencidas pela dor e pelas lágrimas.

Minha tese, por defender postulados feministas sem sê-lo, é que as bem vindas invasões não podem causar estranheza apenas quando os homens são deslocados de suas exclusividades. Que as mulheres sejam militares, políticas, guerreiras ou matadoras de aluguel, sem problema. Invadam e tragam feminilidade e diversidade psicológica a estes campos. Todavia, aceitem que homens queiram ser babás, professores infantis, educadores de creche, cuidadores de berçário e…. doulas! Aceitem esta invasão também, pois, assim como as outras, ela vai ajudar a trazer ensinamentos masculinos para um campo em que as mulheres sempre dominaram.

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Palmada

Violência Crianças

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6 de outubro de 2014 · 04:24

Saber Parir

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Tentem imaginar minhas tentativas de explicar as múltiplas vantagens das posições verticalizadas (cócoras, joelhos, em pé com apoio) em meu primeiro ano de residência, há 28 anos, para os meus colegas. Depois de ler “Aprenda a Parir com os Índios”, do obstetra Moysés Paciornik, um mundo enorme de possibilidades se abria à minha frente, e meu entusiasmo era grande, quase tão grande quanto a minha ingenuidade. Eu só conseguiria entender a razão para a rejeição a estas ideias muitos anos depois. Após me escutar discorrendo de forma emocionada sobre o parto de cócoras, um destes colegas, hoje um famoso mastologista, me fuzilou com os olhos e calmamente falou: “Ric, você só não cai no meu conceito porque de onde você está não há como cair“. E isso apenas porque eu achava que a posição de parir era inadequada, absurda, insensata e “ilegal” (pois ia contra a mais antiga das leis deste planeta: a “lei da gravidade”).

Porém, a posição em que o médico se coloca durante o segundo estágio do parto (da dilatação completa até a expulsão do bebê) tem muito mais a ver com questões semióticas e políticas do que com a biomecânica do parto. Médicos “acima” e pacientes “abaixo” transmite uma potente mensagem para a paciente: “Obedeça, seja dócil, estou aqui em cima, controlando tudo. Eu sou o médico e tudo está em minhas mãos, mesmo que você não as possa ver”.

Essa postura física implica, por sua vez, uma “postura” subserviente e subalterna das pacientes, e isso é tudo o que desejamos: docilidade e complacência. Por isso é que, mesmo que TODAS s evidências científicas do mundo demonstrem há décadas – e por várias maneiras e perspectivas – as posturas verticais como sendo melhores para mães e bebês, basta fazer uma visita por qualquer maternidade no Brasil para perceber que o parto deitado (posição de “frango assado”) ainda é preponderante. Conheço colegas que me confessam que “nuca fiz diferente, ademais não saberia como conduzir um parto que não fosse com a paciente deitada na cama e com as pernas amarradas“.

Mas porquê tanta resistência e dificuldade? Ora, a razão para isso é porque não se trata de uma questão racional, que possa ser combatida com evidências e estudos, mas ligada ao desejo. Assim, a posição da paciente em um parto cai na definição clara de um ritual, conforme a visão de Robbie Davis-Floyd: uma ação caracteristicamente repetitiva, padronizada e simbólica, carregada de valor cultural. O simbolismo expresso na posição de parto é a dominação sobre o corpo da mulher e a manipulação deste pelo saber racional, desconsiderando a sabedoria intrínseca que a mulher carrega (o “chip” de parto nativo) sobre os modos de parir e, em especial, o SEU modo específico de fazê-lo.

Mudar este padrão é tarefa difícil, pois há muito mais do que simplesmente uma posição. A própria visão que os profissionais tem da mulher e suas habilidades é que precisa mudar…

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Massa Crítica

Mulheres greve

Enquanto a “massa crítica” daquelas que percebem a violência obstétrica for assunto para poucas mulheres estas continuarão a ser apenas vítimas, passivas e submissas. Quando conseguirmos – através da conscientização e da educação (por isso mesmo é um processo lento) – elevar este número, os próprios perpetuadores da opressão do sistema vão se sentir desconfortáveis com as ações que cometem – conscientes ou inconscientes – que expropriam o protagonismo das mulheres. Se é complexo sair da zona de conforto e assumir uma postura ativa e protagonista diante do próprio corpo e da gestação, também é a ÚNICA forma de romper o modelo opressor.

Como eu disse anteriormente em diversas oportunidades, existem MILHARES de desculpas que qualquer mulher pode usar para se acomodar na posição de vítima, a imensa maioria delas válida e compreensível. Todos nós alguma vez já ouvimos isso: “Ah, sou pobre, fui educada assim, nunca me valorizaram, sempre fui depreciada, sempre fui desconsiderada, nunca fui elogiada, sou mulher, ninguém me escuta, não se valoriza nada do que faço, etc.” Quem poderia negar a importância dessas marcas na estruturação da personalidade feminina? Como não ser compassivo com este tipo de imposição cultural a que se submetem as mulheres e seus corpos?

Tudo isso é verdade. Entretanto, somente quando ROMPERMOS AS BARREIRAS impostas pela condição de vítima é que despertaremos para uma sociedade mais justa e igualitária. Apenas quando tivermos 3, 4 ou 10, quem sabe 30 ou 50 de cada 60 mulheres plenamente conscientes de seus direitos sobre seus corpos e suas gestações poderemos mudar verdadeiramente o panorama do parto neste país.

Todavia – podem ter certeza disso!! – elencar desculpas (mais uma vez, válidas e compreensíveis) não vai transformar vítimas em protagonistas!! Isso só se faz com trabalho e luta; coragem e determinação. Muita cara vai levar tapa, muita mulher ainda será mal tratada nos serviços de saúde, mas é preciso que elas se ergam, insistam, falem alto e proponham um novo modelo.

Não existem alternativas… Somente a postura combativa e consciente nos retira da submissão e da alienação.

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