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Visão de Futuro

Minha visão de futuro?

“Em um futuro distante testemunharemos a lenta incorporação dos valores da autonomia e liberdade para as escolhas informadas das mulheres gestantes, a diminuição lenta e gradativa das cesarianas – em especial as de indicação duvidosa ou questionável – uma aceitação crescente de enfermeiras obstetras na atenção ao parto eutócico, a incorporação das doulas pelas equipes de assistência, a criação de núcleos extra hospitalares de assistência ao nascimento, a suavização dos procedimentos de atenção e cuidados no parto (guiados pela Medicina Baseada em Evidências) e o desaparecimento dos “dinossauros” da obstetrícia, sufocados na poeira que surgirá pelo choque dos meteoros das evidências contra a face desgastada das mitologias anacrônicas.

Todavia, é preciso olhar para todos estes eventos com olhar geológico.”

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As Regras Sujas do Jogo

O mesmo discurso ingênuo que o PT usava nos anos 80 eu vejo agora sendo utilizado pelo “outro lado”, com as mesmas características de exclusão e essencialismo. Na época os integrantes do PT chamavam a todos os “não PT” de “eles”, os outros, os que “não são como nós”. Quando um deputado do PT enfureceu-se com uma manifestação violenta e antidemocrática e convocou os petistas para “sair na porrada com os coxinhas” eu li de um colega de direita a expressão: “Olha como se comporta essa gente”.

“Essa gente”, uns irresponsáveis, baixo nível. Petistas, petralhas e corruptos.

Mais uma vez a diferença “essencial”. Essas pessoas são diferentes de nós. Suas veias carregam outra coisa, seus sonhos são diferentes, seus objetivos diversos dos nossos. Essa gente bagaceira, sem nobreza e sem valor.

Esta semana escutei outra pessoa me dizendo: “Já fui fã do PT, mas ele sujou as mãos. Não voto neles nunca mais, mas também não voto nos miseráveis da direita. Minha simpatia agora é com o PSOL“.

Pronto, o PSOL passou a ser a “virgem da vez”. Luciana passa a ser a impoluta representante dos éticos, honestos e corretos. Continuamos com a mesma retórica ilusória do futebol: “Bom mesmo é o Zezinho: não errou nenhum passe e não perdeu nenhuma bola. Bem verdade que não jogou também; estava no banco assistindo a partida”.

Mas, pasmem, as pessoas que compõe o PSOL (ou o PSTU, PCO, PMN…) são feitas da mesma carne, os mesmos vícios, o mesmo sangue e linfa que constitui a todos nós. Estivessem agora no poder e o dilema seria o mesmo:

“Se eu me mantiver puro não governo e apenas permito que os corruptos, os que se sujam, os canalhas e aproveitadores, continuem no poder. Posso me manter fiel aos princípios e fracassar em alguns meses. Porém, posso me sujar como TODOS fizeram, e tentar impor um pouco do meu estilo, minhas ideias, meus desejos e meus valores. Mas para isso precisarei me sujar na mesma lama que emporcalha a vida pública do país há séculos. Precisarei do dinheiro dos poderosos, e será necessário selar alguns compromissos com o demônio. O que fazer?”

Qualquer um tem o direito de, arrogantemente, exclamar: “Eu nunca sujaria as minhas mãos. Só “eles” fazem isso. Nós somos éticos.” Pois eu também tenho o direito de duvidar de tamanha prepotência. Ora, o poder embriaga a todos e, mais do que isso, as regras desse jogo estão aí para serem jogadas. “Não quer cair do balanço não desce pro play“, já dizia a turma do bullying. O jogo da política – como o conhecemos na atualidade brasileira – é SUJO em essência e qualquer partido que tenha a possibilidade de ascender ao poder usará todos os recursos para conquistar a maioria no congresso e fará isso da maneira que for possível. Comprará votos, ameaçará, pressionará, boicotará e todos os outros recursos – éticos ou não. Não existem “nós” ou “eles” quando as regras dadas são estas.

Não, é um erro acreditar que eu defendo uma complacência com os erros do PT. Digo o mesmo que a presidente Dilma se esforça por repetir: “Se há erros que sejam punidos exemplarmente“. O equívoco é imaginar que tirando o PT do governo teríamos todos os problemas resolvidos, como se o PT fosse um cancro, uma agremiação que concentra a podridão e a corrupção no país. A história nos mostra que não, e a própria ascensão deste partido ao poder nos anos 80 se deu para combater a corrupção galopante da época. A história apenas se repete, ou “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, como diria meu caro amigo Karl.

Trocamos os jogadores, mas mantivemos as mesmas regras pútridas. O resultado é que boas intenções (como as que reconheço no PT) acabam sendo manchadas pelas falcatruas que ocorrem pelo próprio transcorrer de um jogo com cartas marcadas.

A reforma política é a saída, mas será que desejamos mesmo que algo mude? Ou seremos apenas pobres corruptos menores aguardando a nossa chance na fila das vantagens indevidas?

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A Culpa é dos Outros

julgamento

Meu filho, porque você comeu o bolo que estava aqui em cima? Mamãe falou que estava quente e não era para comer!
A criança faz cara de choro e aponta para o irmão.
– Mas o  mano também comeu!
A mãe põe as mãos na cintura e o encara com olhar de falsa brabeza:
– Meu filho, desde quando apontar a culpa nos outros diminui o seu erro?

Quem não passou por esta cena?

Apenas quem não teve infância, ou uma mãe zelosa para apontar o certo e o errado para um filho. Pois surpreendentemente, este tipo de lógica usada pelo garoto ainda é muito frequente nos discursos que vejo sobre temas relativos à mulher. Analisem apenas estes dois fatos atuais:

O aborto passa por uma fase de intenso questionamento e avaliação por parte da sociedade civil. Evidentemente as mulheres – seu corpo e sua autonomia – são os mais visados. Parece que a sociedade ocidental patriarcal acende um sinal vermelho sempre que as liberdades femininas são acenadas, mesmo as mais sutis. As antigas estruturas falocêntricas da cultura parecem se abalar diante de qualquer iniciativa que ofereça às mulheres uma liberdade maior para a escolha de seus destinos e para gerenciar com autonomia a sua vida. Por serem elas “matrizes” tendemos a entendê-las como contêineres fetais que carregam algo que é, acima de tudo, nosso.  As mulheres ainda estão longe de garantir o pleno protagonismo de seus corpos.

Entretanto, quando li os primeiros escritos atuais sobre o aborto fiquei um pouco surpreso com o conteúdo de vários deles. Ao invés de testemunhar uma chuva de argumentos em favor da liberdade de escolha,  enfocando a questão de saúde pública envolvida, as mortes evitáveis de mulheres ou a falha dos sistemas policiais de obstaculizar o aborto clandestino no mundo inteiro,  eu me deparei com argumentos ao estilo o “aborto do homem“.

Esse argumento se baseia no fato de que milhões (ao que parece 5 milhões) de crianças não tem o nome do pai na sua certidão, e que isso seria um “aborto de pai“. Quando eu vi essa ideia pela primeira vez eu pensei: “Caraca, o que tem a ver uma coisa com a outra? Porque um pai abandonar um filho é o mesmo que não permitir que ele venha a nascer? Estão tentando comparar maçãs com brócolis! Qual a razão para criar mais culpados nesta equação?“.

Ainda não consigo aceitar que um pai fugir de suas responsabilidades pudesse ser comparável ao aborto, o impedimento de um nascimento. Ambas as situações são problemas sociais que precisam ser atacados: o aborto clandestino e a falta de presença e/ou suporte do genitor no cuidado com seus filhos. Entretanto, o aborto não passa a ter uma compreensão melhor se nós encontrarmos falhas – inquestionáveis – nas condutas masculinas relacionadas à criação de filhos! O argumento do “aborto do pai” em NADA ajuda a descriminalizar ou legalizar o aborto, apenas usa a mesma retórica da criança que comeu o bolo ainda quente. E isso, ao meu ver, apenas exalta uma culpa feminina que tem vergonha de se expressar, da mesma forma como o menino que comeu o bolo sente-se culpado e tenta exonerar esta culpa apontando para o irmão. Não é necessário criar mais culpados para libertar as mulheres do jugo do patriarcado e oferecer-lhes autonomia. O aborto do pai é um erro retórico que apenas atrasa o debate.

Outro cenário: um adolescente toma 30 “shots” em uma competição de quem suportava mais bebida alcoólica em uma festa de “bichos” de uma universidade paulista. Em consequência da intoxicação aguda por álcool ele vem a falecer. A sociedade consternada se pergunta: De quem foi a culpa? Universidade? Cultura?  Sociedade? Família?” Alguém insinua a estúpida e extemporânea pergunta: “Onde está a mãe desse menino que permitiu que isso acontecesse?

Para uma mulher enlutada pela mais dura das dores, a mais cruel das tristezas, o silêncio quebrado pelo soar de um telefone na madrugada, não poderia haver nada pior do que ser acusada por esta tragédia. Posso apenas imaginar a dor amplificada de uma mulher que perde o filho e depois é açoitada por acusações infundadas e absurdas.

Ora, muitas dessas tragédias ocorrem a despeito de todos os esforços que fazemos para que elas sejam evitadas. Eu sou pai e avô, além de ser tio de dezenas de sobrinhos “capetas”, e já tive minha cota de sustos e pânicos. Apontar o dedo para uma mãe nestas condições é mais do que injusto; ultrapassa todos os limites da crueldade. Fazer isso é desconsiderar as circunstâncias e contextos, as forças do grupo e as necessidades de expressão do ego em uma época tão complexa da vida como a adolescência.

Eu mesmo já bebi em uma festa da faculdade. Tomei todas, apenas para saber do que se tratavam as alterações de consciência que eu testemunhava no hospital de Pronto Socorro. Saí cambaleando da festa em direção à minha casa, e no meio do caminho caí. Perdi todos os meus documentos (e só soube dias depois), mas fui socorrido por um gentil passante que me ajudou a entrar em um táxi. Mas poderia ter sido assaltado, esfaqueado, atropelado. Poderia ter morrido por uma dessas tragédias que estão no jornal de hoje.

Seria justo culpar a minha mãe – ou o meu pai!!! – por uma bebedeira juvenil de um menino que antes disso nunca havia bebido, e que depois disso nunca mais se embriagou?

Certo, é estúpido e injusto oferecer esta conta para uma sofrida mulher pagar. Mas diante dessas acusações eu esperava uma defesa aberta da maternidade, um pedido de consciência sobre estes casos, uma solicitação de ponderação sobre os múltiplos elementos que levam a estas tragédias. Eu queria apenas serenidade e menos apontar de dedos. Entretanto, sou obrigado a ler algumas matérias cujo argumento principal é: “Ah, estão acusando a mãe do adolescente? Mas e o pai? Porque não falam dele?

Essas pessoas realmente acreditam que esta mulher terá menos peso a suportar se direcionarmos esta carga para seu marido? Acreditamos mesmo que a dor de uma perda como esta fica menos dolorida se acrescentarmos INJUSTAMENTE outros culpados? A angústia que uma mulher sofre por optar por um aborto fica menor quando sabemos que os homens também fraquejam e abandonam filhos?

Por quê o discurso de algumas feministas (a minoria) insiste nesta dicotomia infantil? Porque não investir em desculpabilizar as mulheres que escolhem pelo aborto ou oferecer aconchego e abraços para uma mãe cujo filho se foi numa brincadeira trágica de faculdade? Porque é necessário atirar a culpa para os “inimigos”, os homens?

E porque, afinal, continuamos a escolher os homens como inimigos quando o patriarcado e o machismo é que deveriam ser os verdadeiros alvos?

Quando me perguntam porque as modificações na sociedade são tão lentas no que diz respeito aos direitos das mulheres eu sempre respondo que enquanto as mulheres aceitarem este discurso equivocado as conquistas continuarão lentas.

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Nova Era

Renascimento

ACOG – American College of Obstetrics and Gynecology – a mais importante associação americana de obstetras, mudou sua posição em relação à assistência ao parto conduzida por enfermeiras obstetras fora do hospital. A partir de agora este tipo de atenção é aceita para as mulheres de baixo risco. Ainda não fez o mesmo em relação ao parto domiciliar, mas também não apresenta nenhuma justificativa para que os “partos em casa” não sejam igualmente contemplados.

Mas qual a razão para esta mudança histórica?  Bem, várias. Uma delas se relaciona aos custos. Um parto em hospital custa entre 30 e 50 mil dólares (entre 90 e 150 mil reais). O custo de uma enfermeira não passa de 3 a 7 mil dólares (9 a 21 mil reais) num atendimento fora do hospital. Diminuir custos é sempre importante para equilibrar as finanças de países que lutam com déficits crescentes em seu orçamento de saúde, como os Estados Unidos (e o Brasil, igualmente). Outra razão é que este orçamento é de quase 3 trilhões de dólares por ano, mas apesar de todo este investimento os EUA ocupam o lugar 26 em mortalidade infantil e o 60 em mortalidade materna, atrás de todos os outros países do chamado “primeiro mundo”. Em 1987 o número de mortes maternas era de 6/100.000 e hoje está em 28/100.000, num crescimento assustador.

Estes números são muito baixos em termos absolutos, mas o crescimento relativo nos óbitos nos obriga a repensar um modelo de assistência tecnocrático que nos oferece péssimos resultados. Por último (mas as razões não se esgotam por aqui) a publicação do NICE na Inglaterra no final de 2014, recomendando partos em casa e em casas de parto a partir dos resultados de uma extensa pesquisa chamada “Birth Place” – que comprova a excelente qualidade destas opções – deixou a obstetrícia americana defasada e sem reação.  Era imperiosa uma alteração de atitude a partir do novo cenário que se desenhava no mundo inteiro.

Esta mudança histórica terá óbvias e previsíveis repercussões em todos os países que orbitam o modelo médico dos Estados Unidos. Já não será mais possível aceitar a arrogância e a desinformação de chamar atenção em Casas de Parto de “violência obstétrica”, como se ouviu de algumas autoridades médicas. Será necessária uma revisão dos postulados que sustentam a atenção centrada na figura dos médicos e nos hospitais, até porque toda a atenção ao parto no nosso meio era baseada na confiança depositada no modelo da “matriz” americana.

Para os que lutam pela liberdade de escolha, a visão integrativa e interdisciplinar do parto e uma medicina baseada em evidências,  este é um grande momento. A partir de agora já será possível ver um futuro muito melhor para as gestantes, ao se oferecer a elas uma gama maior de alternativas comprovadamente seguras.

Veja o documento aqui:

http://www.nightingalebirth.com/nestingblog/acog

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Violentos

Um grupo de ativistas brasileiras invadem uma propriedade rural que produz transgênicos e que plantam pinus para “reflorestamento”. Sabemos o estrago que este plantio produz para as propriedades próximas e a ação é coordenada pelo MST – Movimento dos Sem Terra.

Uma parcela significativa das pessoas que comentam a notícia pedem mais respeito

Mas… o que é respeito?
Como definimos isso?

Um exemplo: brancos europeus de olhos azuis invadem terras no oriente médio e expulsam 700 mil pessoas de suas casas, argumentando serem descendentes de uma tribo que lá viveu há 2 mil anos. Exigem que sua pele clara e seus olhos azuis não cause confusão: “sim, somos descendentes dos velhos patriarcas que por algum tempo viveram aqui!!“, mas não se preocupam em arrasar vilas inteiras, incendiar casas, destruir famílias, matar mulheres e crianças no afã de “limpar a terra dos impuros” e expulsar pessoas cujos ancestrais cultivaram aquelas terras há milhares de anos.

Não satisfeitos criam “prisões a céu aberto”, enclaves superpopulados com grades, muros e checkpoints. Realizam prisões sem julgamento, encarceramento de crianças, tortura e toda sorte de violações aos direitos humanos. Exclamam em alto e bom som para todos que seu direito àquela terra foi dado por Deus, pois no livro sagrado que adotam (o mesmo que diz que o som de trombetas fez os muros caírem) existe uma “terra prometida” (por sorte não é no meu bairro).

Como discutir com pessoas que afirmam que o genocídio, o racismo institucionalizado e a limpeza étnica são determinações divinas?

Hoje em dia 5 milhões de prisioneiros vivem enclausurados em uma pequena fração da terra que durante milhares de anos foi o lar de seus ancestrais. Diante de tantas violações de tantos direitos internacionais reconhecidos seria razoável pedir àqueles cuja honra foi destruída que sejam “respeitosos”, “educados”, “comedidos” e que parem de reivindicar seu direito, referendado por todas as instituições de direitos humanos do planeta?

Por outro lado, seria justo pedir que as mulheres agricultoras fossem mais “equilibradas” vendo a destruição dos ecossistemas pelo agronegócio? “Educação” e respeito às estruturas de poder é tudo o que os “donos” pedem a nós. O objetivo é fazer as coisa aparentemente acontecerem, enquanto eles sabem que – no final – nada vai mudar.

Nunca Bertold Brecht foi tão atual:

Dos rios dizemos violentos, mas não dizemos violentas as margens que os oprimem“.

Dos “sem terra” dizemos radicais, mas não percebemos violento o modelo que os castiga.
Dos gritos dizemos barulho, mas não chamamos terror o silêncio que nos ensurdece.
Da luz dizemos ofuscante, mas não chamamos de morte a escuridão que nos cega.
Dos ativistas dizemos “vândalos”, mas não chamamos vandalismo as grades que os contém.

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Diários de Motocicleta

Eu usei a metáfora dos “Diários de Motocicleta” há uns 13 anos ao fazer a abertura do Congresso de Ecologia do Nascimento no Rio, representando a ReHuNa – Rede pela Humanização Do Parto e Nascimento. Numa cena deste filme o jovem médico – e asmático – Che (Guevara) precisa atravessar um rio gelado para atender os pacientes que precisavam de sua atenção do outro lado da margem. Movido por um impulso imperioso de dever e compromisso ético ele se arroja à corrente de água fria que retesa seu corpo e o sufoca, mas ao final vence a distância gelada com bravura e estoicismo. Os doentes precisavam dele; era sua obrigação servi-los.

Mais de uma década nos separa desta imagem de dedicação heroica aos pacientes, mas ela ainda continua fazendo sentido. Continuamos asmáticos e frágeis, mas do outro lado o número daqueles que procuram por nós só cresceu, expandiu-se para muito além do que esperávamos. Apesar das dores e da falta de ar continuamos nossas braçadas com vigor e resistência. O rio continua gelado e tormentoso, nossos braços aos poucos perdem o vigor da juventude, mas nossa teimosia humanista nos obriga a seguir.

Entretanto quando olhamos para o lado algo surpreendente ocorreu.

Não estamos mais nadando sozinhos.

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Algumas explicações necessárias

Inquisição

Para pensar:

“E se…
Ao invés de usar tanta energia para destruir os adversários de nossas convicções nós a usássemos para melhorar nosso conhecimento e combater apenas as ideias, e não as pessoas? Quando vejo ódio lançado contra os ideólogos em qualquer questão eu sempre penso que tais ataques denunciam, entre outras coisas, uma fragilidade argumentativa. Duas alternativas: ou o sujeito não consegue aclarar seu pensamento para elaborar bons argumentos ou pior: ele não acredita no que diz.

É assim em qualquer lugar e em qualquer movimento. Eu, pessoalmente, sempre achei que isso inevitavelmente ocorreria. Eu nunca consegui ser domado, e o meu pai ainda no último domingo me dizia isso: Ele me botava de castigo e eu saía, dava uma palmada e eu saía, gritava comigo e nada de eu obedecer. Lá pelas tantas ele desistia e ficava pensando em uma alternativa que não incluísse a morte por eletrocussão ou afogamento. Mas meu temperamento não aceita que minha natural espontaneidade sofra censura ou cerceamento. Eu disse uma série de coisas que mantenho, pois não são ofensivas a ninguém e estão em plena sintonia com meu pensamento de combate ao patriarcado e ao machismo. Algumas pessoas não entenderam assim. Eu me senti a “desquitada” convidada a se retirar do clube tradicional porque “não fica bem uma mulher solta demais entre tantas senhoras de família”.

Neste caso minhas palavras ofenderam as feministas mais aguerridas. Sinto muito se meus conceitos mostram demais as pernas, ou minha posição expõe demais o decote. Neste caso específico eu me afastei de qualquer adjetivação e qualquer ataque pessoal a qualquer uma delas, que continuo acreditando serem pessoas do mais alto valor moral, e ativistas da melhor qualidade. Apenas não aceitam que minhas palavras sejam ditas perto delas.

 “Um sujeito que na vida só teve amigos ou é bobo ou não fez nada. Cultivar algumas inimizades é fundamental e, para alguns temperamentos, inevitável.”

O link que gerou a discórdia é um texto meu chamado “Machismo” que pode ser encontrado neste blog.  Meu crime foi dizer que o patriarcado não é a mesma coisa que o machismo; são coisas bem diversas, apesar de estarem relacionadas. Porém, na origem são diversos. O primeiro é um sistema de poderes artificialmente criado no mundo inteiro para resolver problemas circunstanciais, principalmente pela mudança do modelo nômade para o agrário. O segundo é uma “naturalização” de algo que é artificial. Um machista acredita que a superioridade masculina na cultura, que ainda se vê hoje em dia, não é obra da cultura, mas da natureza. Isto é: os homens são superiores porque são “melhores”.

Por outro lado, tanto o machismo quanto o patriarcado podem e devem ser combatidos agora. Não apenas o modelo de poderes pode ser mudado (se houver paz) como todos os preconceitos devem cair por terra. Entretanto, a simples menção do patriarcado como uma construção social ofendeu algumas mulheres, que acham que o patriarcado foi criado por “ódio às mulheres“. Ora, nem o racismo é feito por ódio, mas por interesses políticos e econômicos.

Mas… essas ideias simples foram mal recebidas, e a minha expulsão por expor “ideias machistas” foi solicitada. Antes que alguém propusesse um debate sobre isso eu pedi para me expulsarem. Mas reitero: as pessoas que pediram a minha expulsão são excelentes pessoas e mães maravilhosas, além de profissionais da mais alta qualidade. Houve uma discordância comigo e uma posição de revolta contra as minhas ideias, o que eu respeito. Se minha presença é insuportável ou desagradável cabe a mim sair, sem dramas.

O patriarcado foi tão necessário que nenhum lugar do mundo ousou desprezá-lo. A opressão das mulheres foi um subproduto, mas o objetivo era proteger os núcleos que surgiam com a agricultura. Os vassalos e suseranos também eram oprimidos pelo senhor feudal, mas a proximidade do reino lhes conferia segurança, e por esta razão o feudalismo foi tão bem sucedido. Tentar colocar a simples opressão como objetivo me parece ingenuidade. Não é assim que o mundo constrói suas rotas.

Nunca houve nenhuma sociedade matriarcal no mundo que tenha perdurado mais do que alguns poucos anos. Rainhas Elizabeth ou Vitórias foram sociedades MARCADAMENTE patriarcais. O mundo vitoriano era machista e o pudor era sua marca. A era Vitoriana foi a época em que Freud estudou a histeria, que nada mais é do que a marca no sujeito de um campo simbólico fortemente patriarcal e obliterativo sobre a livre expressão sexual da mulher.

Matriarcado é um mito; só existe nas fantasias de Amazonas e Xena. E, ao meu ver, ele nunca existirá. Não precisaremos ter uma opressão feminina para chegarmos à equidade. Nem Malinowski, que se equivocou de forma dramática em várias interpretações de comportamentos nativos (como o não reconhecimento da mãe como corresponsável pela carga genética filial), acreditaria em sociedades matriarcais. Uma sociedade assim, se existiu, fracassou pela sua fragilidade. Não haveria como, no passado, as mulheres terem poder político num contexto de guerras e invasões. Esse é meu ponto de vista, que é bem simples. Pode ser questionado ou combatido, mas as agressões que eu recebi falam muito mais de uma aversão a minha pessoa e o que eu represento (um homem falando dos direitos das mulheres) do que a legítima discordância de uma tese.

Não. .. o que se precisava eliminar é a possibilidade de alguém pensar diferente. Por isso minhas palavras (“invasão“, por exemplo) foram distorcidas de forma covarde e interesseira. A tese em si era pouco: seria preciso me pintar como um monstro machista que acredita que os lugares na sociedade são fixos e determinados por Deus. Isso foi o que deixou clara a raiva contida contra mim. A criação do “espantalho” denuncia a fragilidade das motivações expressas, e a existência de razões inconfessas.

Não sou feminista. Digo isso porque sempre fui excluído do debate feminista. Não sou feminista em respeito ao feminismo, porque não me sinto em condições de debater com pessoas que não suportam que eu tenha ideias sobre esse tema. Sou aliado às principais teses do feminismo, e faço isso sem pertencer a nenhum “clube de mulheres” há mais de 30 anos. Entretanto não me filio e não me submeto a este movimento. Sou um livre pensador e isso é insuportável para muitas pessoas. Meu combate feroz ao machismo e ao patriarcado não precisa demonizar os homens e nem calar a sua voz, como eu vi e questionei.

Entenda: esse foi o meu crime: não concordar com a tese essencialista que coloca o patriarcado como uma invenção do “mal”. Quando faço uma leitura histórica (ela pode ser lida em Engels) do patriarcado como construção social eu não nego seus efeitos perversos para as mulheres, mas não preciso desconsiderar seu significado complexo e dinâmico. Posso ler o patriarcado da mesma forma como leio as ditaduras, tentando entender e contextualizá-las, sem a necessidade de criar justificar para sua aparição. Portanto, quem quer pregar a guerra de gêneros nunca terá em mim um aliado, e o cabresto que algumas mulheres quiseram me colocar nunca serviu.

Simone de Beauvoir entendeu a razão dessa construção, e percebeu também que o combate ao patriarcado não se dá demonizando-o (como as ditaduras) mas compreendendo seus contextos e suas características. Só entendendo as razões do nascimento e declínio do patriarcado é que poderemos planejar sua morte.

Vou repetir o que já falei anteriormente: as pessoas que se desentenderam comigo são grandes ativistas e mulheres inteligentes, e aqui não há nem um mísero grão de poeira de ironia. São mesmo pessoas muito especiais e vou continuar desejando o melhor para elas e seus trabalhos. Infelizmente as suas posições e, acima de tudo os seus desejos, não permitem que eu seja aceito, e não conseguiram tolerar minhas ideias a respeito da dinâmica de poderes nas relações de gênero. Fui muito claro e continuarei sendo: não há o que se desculpar. Mantenho minhas palavras e não retiro uma vírgula sequer, pois ainda acredito que elas estão corretas, salvo se argumentos suficientemente fortes me mostrarem o contrário.

Por outro lado, respeito o modo de ver de minhas “adversárias” (apenas neste debate). É assim que caminham as ideias ou, como dizia a minha mãe, “é nas quedas que o rio ganha energia”. Vou mais além: no dizer de Joseph Campbell “Where You Stumble Is Where Your Treasure Lies” (onde você tropeça, ali está seu tesouro). A humanização do nascimento se encontra em uma criativa encruzilhada, onde o ativismo feminista se encontra com as aspirações que enxergam o parto para além de um evento médico e para além de uma questão feminista, mas que opera para toda a humanidade. O debate, que poderia ser profícuo se houvesse mais compreensão e menos ataques pessoais, foi interrompido, mas será inevitavelmente reiniciado quando surgir um interlocutor mais hábil para trazer à discussão os temas que abordei. Como sempre eu disse algo que feriu pessoas e que as incomodou, mas penso no ditado japonês “Kokoro no sutemi” que fala de um “espírito de sacrifício” em que se deixa de lado a segurança e a estabilidade em nome de uma experiência com a unicidade.

É mais ou menos isso que sempre tentei oferecer: temas complexos ao debate das ideias, para que as arestas aos poucos pudessem ser aparadas em nome do crescimento de uma ideia em comum: o combate a um patriarcado cada dia mais anacrônico, a luta contra o machismo e outros sexismos, o empoderamento da mulher, seus direitos, suas conquistas e sua função de trazer os bebês ao mundo.

Sheila Kitzinger me disse uma vez do erro que ocorreu na Inglaterra quando Janet Balaskas foi convidada a se retirar de um grupo (agora não me lembro qual) a propósito de suas posições radicais (se não estou enganado algo a respeito de sua vinculação visceral com a liberdade de posição no parto). Sua saída acabou acarretando um atraso no debate da humanização do nascimento, e uma divisão desnecessária de um movimento nascente que apenas prejudicou a velocidade das transformações.

O mesmo fenômeno se repete agora. Uma questão que poderia ser tratada com uma conversa franca e sem emocionalismos acabou provocando um “manifesto” mal escrito e com uma série de inverdades, que mais revelam as mágoas e rancores de algumas ativistas do que um claro descontentamento com as ideias. Isso é ruim ao extremo, porque abafa a natural rebeldia das pessoas, mantém um pensamento monolítico e oficialista, não permite a criatividade e o livre fluir das ideias, e apressa a morte dos espaços de troca. Uma lástima, pois poderia ter sido evitado se o conflito se mantivesse no terreno das ideias. Sheila Kitzinger fala desse assunto em “The Politics of Birth“, um livro que deveria ser lido por “todxs xs ativistas” do parto e nascimento, para entender como agir diante de adversidades como esta. Sua postura de ativista do parto e feminista fica bem clara, e mostra como os radicalismos e as exclusões apenas atrasam o debate.

Meus escritos objetivavam fazer esta leitura: uma vivisecção (porque não haveria como fazer uma autopsia em um corpo que, mesmo envelhecido, ainda vive e respira) do patriarcado para entender sua existência desde o nascimento. Lembro dois fatos marcantes e que suscitaram o mesmo tipo de análise dolorida e marcante: o colaboracionismo francês sob o governo de Vichy na segunda guerra mundial e a ditadura no Brasil. Foi necessário entender os erros das esquerdas, as cegueiras dos resistentes assim como a docilidade francesa com a invasão teutônica hitlerista para poder banir a ditadura, o totalitarismo e o antissemitismo. Para acabar com o modelo patriarcal há que entendê-lo, mostrar porque esta escolha foi tão universal, tão forte, tão intensa e tão atual! Sem isso, e elegendo inimigos sem entender suas motivações e manobras defensivas, não poderemos prosseguir com avanços.

Outro ponto: Acho também que não devemos hiperdimensionar este fato. Existe uma linha ideológica que agora ficou bem evidente no “Vila”. É um portal de feministas que trabalham com o parto, o que é algo absolutamente respeitável (eu diria desejável). Entretanto, eu não sou feminista (pelas razões que já expliquei) apesar de defender há 30 anos com unhas e dentes todos os pressupostos feministas importantes e significativos aplicados ao nascimento. Como não suporto e não aceito cerceamento de ideias e obliteração de pensamento eu aceitei tranquilamente a minha expulsão. Sem traumas e sem dramas. Como podem ver pelo tamanho das minhas postagens, a minha vontade de escrever continua intacta, e espero que as meninas do Portal, livres do constrangimento gerado pela minha presença, possam continuar o trabalho junto às mães que sempre realizaram. É isso que eu honestamente desejo.

A resposta da sociedade nunca pode ser da mesma intensidade que aquela do sujeito. A primeira deve zelar pela civilidade. Já o sujeito, se incorre no crime, deve ser punido, mas a lei não pode ser tão ou mais violenta do que ele. Quando combatemos o modelo patriarcal e o machismo dominantes no cenário obstétrico não podemos responder com a mesma violência que testemunhamos na assistência ao parto. Como dizia Max sobre as falésias de Fortaleza:

Na costa desse recanto maravilhoso do litoral nordestino, erguem-se belíssimas e multicoloridas falésias, de onde se extrai a areia que é usada no artesanato local. Ao avistar as belas e altivas construções que embelezam o litoral, não pudemos deixar de imaginar por quantos milênios essas íngremes escarpas suportam a agressão continuada do poderoso oceano aos seus pés. Consegui, então, entender que, assim como elas, o processo de humanização do nascimento sofre com a violência daqueles que, por se negarem a enxergar a relatividade e a temporalidade de seus paradigmas, agridem o processo milenar do parto, acreditando serem as mulheres intrinsecamente incompetentes para conduzi-lo. Entretanto, não apenas o brio e a nobreza das falésias milenares nos trouxeram aprendizado. As coloridas encostas respondiam aos golpes do mar hostil colorindo de rosa as ondas que as agrediam. Da mesma forma deve proceder a humanização do nascimento, respondendo aos ataques do tecnicismo desmedido com a brandura das evidências e a suavidade de suas condutas.

(Entre as Orelhas – A Falésia do Parto Humanizado)

Assim deveria ser a nossa conduta: diante da violência desmedida modificar o paradigma e responder com suavidade e compreensão.Sim, mas como eu acho que a liberdade é o bem mais valioso, continuo fazendo a sua defesa e a da autonomia, em especial para as decisões das mulheres em relação aos seus partos. Foi pela minha defesa irrestrita disso, e pela minha particular visão do patriarcado, que fui expulso. Sim… eu fui convidado a me retirar, por pressão de outras meninas que lá escrevem. Portanto, sem meias palavras: expulsão é isso mesmo.

Não é fácil, para as pessoas movidas pela paixão do ativismo, se deparar com a decepção por alguém que não compactua com a visão dominante sobre um determinado tema. Isso é visto como uma traição, e a reação violenta que recebi foi por conta disso. As minhas falas eram vistas como um reforço de crenças alheias, e que deviam dar conta das expectativas destas pessoas, mas quando resolvi expressar uma opinião diversa do “mainstream” do feminismo – que para se fortalecer elege “inimigos” claros e fáceis de perseguir – eu fui jogado na fogueira e atacado com ferocidade por muitas ativistas. Num modelo muito emocional como este – eu circulo por diversos ativismos há décadas, do HIV, passando pela homeopatia, Palestina e Parto Humanizado – qualquer posição que relativize as bandeiras de luta é vista como uma heresia, uma deserção. Foi isso o que fiz para muitas delas: eu desertei da luta DELAS por tentar entender o patriarcado e o machismo sem as tintas que elas usam. Mas é claro: eu sou homem, branco, médico… nada pode ser pior que isso.

Essas “notas de esclarecimento” (foi publicada uma no blog do “Vila”) são documentos políticos. Não são a tradução exata do que ocorreu. Duas meninas que são articulistas do Vila pressionaram a K* pela minha saída. Outras pessoas, leitoras do portal (feministas e ativistas), também o fizeram. Ela me ligou tarde da noite muito constrangida se dizendo pressionada, e eu não tenho razões pra desconfiar disso. Para facilitar sua vida eu disse “faça o que achar melhor“. Ela então começou a explicar como funciona a “migração de conteúdo” e então eu saquei na hora que ela já há via tomado uma decisão, mas se pensava que eu me desculpar ia por pensar diferente estava enganada. Ela estava triste, mas desejava/gostaria que eu saísse. Eu apenas não dificultei nada para ela. Entendi seu sofrimento e compreendi sua dor, até porque sempre tivemos um bom relacionamento. Eu não faria o que ela fez, claro, mas não posso julgá-la.

Censurar alguém em nome de uma “pureza doutrinária”, ou como alguém falou, “podia ter escrito em outro lugar, mas não lá” me mostrou que as pessoas entendem a humanização do nascimento de forma fechada, dogmática e religiosa. Existem tabus, preconceitos e temas proibidos, que só podem ser tratados a portas fechadas. Então percebi que nunca deveria ter entrado em um portal com tal ordenamento; meu temperamento livre é avesso a isso. Deveria ter ficado quietinho e silencioso na minha caverna no “blogspot“.

Mas houve a pedra de tropeço e caímos. Resta agora levantar e seguir jornada porque, ao menos em tese, todos vamos para o mesmo lado.Eu prefiro olhar este episódio em perspectiva, e por isso eu acho que não é necessário que se dê tanta importância a isso. Essas crises sempre existem, em qualquer movimento de transformação. Se você for perguntar para qualquer uma das pessoas que me ofenderam qual a verdadeira razão para me atacar vai perceber que muitas delas nem sabem, ou pensam que é outra coisa. Portanto, sequer o debate foi “real”; ele foi uma espécie de catarse onde as pessoas fizeram discursos surdos, quase solilóquios, falando especificamente para o “Grande Outro” lacaniano, apenas para escutar em voz alta os seus próprios conceitos e a sua vinculação apaixonada com uma ideia. Na verdade nem era para mim que elas falavam, até porque eu concordava com 99% do que elas estavam dizendo (o problema do patriarcado, o machismo doentio da nossa sociedade, o parto sob o jugo de ambos, o machismo mortal e a importância de combater estes sistemas de opressão). Praticamente TUDO era concordância. Então porque as ofensas e o linchamento virtual?

Ora, porque não eram as ideias, era…. eu.

Eu hoje falei para uma menina inbox no Facebook que algumas manifestações de ativistas que são minhas queridas amigas eu as considero absolutamente reprováveis e contraproducentes. E porque não saio atacando ou batendo, chamando-as de “assassinas” ou “bandidas“, ou qualquer coisa assim? Bem, porque não é verdade, e também porque eu gosto dessas pessoas, mesmo que discorde. O problema não são as diferenças ideológicas, mas a rejeição à figura que represento.

No meu caso era o contrário: mesmo que eu estivesse 100% ao lado destas pessoas seria possível, torcendo uma palavra aqui (invasão) ou falseando um conceito ali (uma inexistente complacência com o machismo) e pronto: o inimigo está vestido para o jantar. Assim se cria o inimigo “espantalho” que desejamos, que fala o que não disse e nega o que em verdade disse existir. Quando eu disse que o patriarcado foi um “sucesso” (e isso é evidente, basta olhar qualquer sociedade no mundo) uma ex-amiga ativista interpretou viciosa e maldosamente esta frase como se eu estivesse exaltando o patriarcado e dizendo que as mulheres mortas pela violência que o patriarcado tolera eram coisas boas. Pessoas que usam este tipo de argumento cruel e mentiroso tem o coração cheio de ódio.

Esse foi o tipo de linchamento injusto e cruel que recebi, de pessoas absolutamente cegas pelas paixões e suas bandeiras, que se tornam mais importantes que as pessoas, mais importantes que as mulheres, mais importantes que o parto normal, mais importantes que bebês, da mesma forma que os fanáticos religiosos jogam bombas, pois seu fanatismo é mais intenso que o amor ao próximo que a própria religião ensina. A desautorização da fala dos homens no cenário do parto (quando ele é tomado pelo viés feminista, que é um dos olhares legítimos deste debate) normalmente é violento e cruel com qualquer homem que queira falar. E se ele discordar dos dogmas (como eu sempre fiz) é coberto com uma chuva de clichês machistas. Esse é o problema: não aceitar a interlocução e não respeitar o contraditório.  

Sabe… quando a Laura Gutman falou sobre os “abusos” eu não gostei à primeira vista, mas depois que eu li um psicólogo fazendo um ataque violento a ela percebi que era uma raiva pelo que ela é, e uma leitura viciosa do que ela disse. Quando o Michel falou contra o pai na sala de parto eu não gostei, mas depois vi que ele tinha uma ligação com a etologia que o empurrava para este tipo de visão do parto. Mas, em nenhum momento eu, nem mesmo por um segundo, duvidei das boas intenções e da idoneidade e integridade intelectual de ambos. Poderia discordar (com o Michel muitas vezes) mas continuar admirando e reconhecendo a grandeza do seu trabalho. Com a Laura, que eu conheço pouco, o linchamento que eu comecei a ver tinha muito mais a ver com os traumas de algumas mulheres do que com os conceitos que ela trouxe à discussão (que são questionáveis, mas passíveis de debate). Comigo o linchamento tem a ver com algumas feministas que passaram a me odiar no passado por uma discussão com uma subcelebridade da área.

Foi neste momento eu percebi que nada do que eu dissesse teria valor para elas. Nada mesmo, porque por enfrentar o poder monolítico de um discurso de exclusão masculina eu estava condenado eternamente. Portanto, o linchamento virtual – e até a defesa dele que eu testemunhei – não me surpreendem. Mas alguém tem que dizer que o Rei está nu, e que a agressão sistemática aos homens que participam do debate sobre o parto não ajuda ninguém. Vocês, por exemplo, acham mesmo que a discussão que iniciou toda esta celeuma era realmente sobre um “doulo“? Não, mas agora todos sabemos que não era… 

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Caza a las Brujas en España

Não é uma foto tirada no terceiro mundo, mesmo que pareça. É na Europa, na entrada do Centro Obstétrico do Hospital de Pontevedra, na Espanha. Vejam o sinal na porta: proibido doulas. Sim, graças ao famigerado documento produzido pelas “matronas” de lá os hospitais estão a vedar o ingresso das doulas. Entretanto eu vejo ali bem mais do que um simples “sinal”. Para mim trata-se da comprovação de que as doulas ameaçam o delicado balanço de poderes do sistema de atenção ao parto, fazendo-o pender perigosamente em direção ao polo historicamente mais fraco e negligenciado: as gestantes. Não há dúvidas que o rechaço lá, conduzido pelas enfermeiras obstetras – mas também o que vemos aqui patrocinado por alguns hospitais mais atrasados – se dá por conta do caráter revolucionário que tais personagens representam no cenário do parto.

Não é pelas “placentas comidas” (uma mentira que virou bandeira por lá), nem pelos óleos essências, as massagens, as canções cantadas em conjunto ou as lágrimas de alegria que elas – mães e doulas – compartilham em cada sucesso. Não, isso seria muito pouco para justificar uma perseguição e uma caça às bruxas. O fator preponderante é a ousadia de colocar a MULHER na posição de comando, reverenciando sua autonomia e liberdade reconquistadas. O que causa tanto horror é a mudança ameaçadora que a presença das doulas pode causar: as parturientes voltarem a ser o centro de todas as atenções e cuidados na assistência ao parto.

E isso, realmente, não pode ser tolerado.   Mas, olhando por uma perspectiva otimista, talvez seja este o momento de capitalizar o movimento. Muitas vezes é preciso “cutucar” a onça para ela acordar. Aqueles que defendem a plena autonomia das mulheres para fazer escolhas relativas ao seu parto, e as que combatem o machismo de nossas estruturas de assistência, precisam se unir contra este tipo de barbárie. Escrevam, manifestem-se, gritem, saiam às ruas. Esta é mais uma das proibições importas sobre as mulheres, e se elas calarem agora esta “mordaça” será institucionalizada como uma “verdade” na assistência, necessária e correta.  

Este é o texto de apoio publicado na Espanha…

Doulas Espanhol

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Sobre o Aborto

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Tenho uma opinião sobre os debates relacionados ao aborto que voltaram a aparecer: se você não consegue debater com racionalidade e sem explosões de raiva, melhor nem começar. Você inevitavelmente apelará para SUAS angústias, traumas, crenças e sofrimentos pessoais, e normalmente não convencerá a ninguém.

Estes debates se assemelham a um jogo de tênis em que não há rede, mas um muro. Cada jogador bate na bolinha (seus argumentos) solitariamente, como se não houvesse o outro, ou como se deles apenas soubéssemos da existência pelo barulho surdo da bola batendo no lado oposto da parede. O jogo em verdade não existe, é uma simulação de contenda. Nos debates emocionalmente conduzidos produzimos apenas solilóquios concomitantes.

Uma discussão pressupõe a oportunidade de aprendizado com o contraditório. Se você acha que seu oponente é incapaz de mudar sua opinião, mesmo que traga bons argumentos ao debate, o diálogo é estéril e desnecessário. Uma perda de tempo.

A pergunta que eu tento sempre fazer antes de entrar em uma discussão é a seguinte: “se meu oponente trouxer argumentos fortes e consistentes eu terei coragem de mudar meu posicionamento?” Se a resposta for “sim” então você pode (e deve) debater. Se for “não” então você está diante de um dogma pessoal, e qualquer enfrentamento de ideias será inútil.

Pense nisso antes de se desgastar em debates polêmicos.

Minha opinião sobre o tema?

Minha opinião sobre o aborto era uma, mas mudou. Não porque recebi novos e bons argumentos, mas porque resolvi escutar alguns velhos e simples que sempre estiveram por perto, mas que eu me negava a considerar. Essa é uma das poucas vantagens de envelhecer: poder mudar de opinião pelo acúmulo de experiências, o que relativiza a vida e nos obriga a rever posturas recalcitrantes.

Posso apenas dizer que jamais serei protagonista de um aborto. Fui pai aos 21 anos e quando soube que minha namorada estava grávida eu ganhava metade de um salário mínimo como estudante plantonista de um PS. Mesmo assim nunca pensei em aborto. Pelo contrario: fiquei eufórico pela possibilidade de ser pai. Na época minhas convicções espirituais eram muito mais fortes do que qualquer outro modelo ético ou jurídico. Durante anos fui contra a legalização do aborto com os argumentos que todo mundo conhece e usa.

Entretanto, com o tempo me dei conta que os mesmos argumentos de combate ao aborto poderiam ser (e o são efetivamente) usados no combate ao uso de drogas, mas nunca tivemos tanta certeza quanto hoje de que AMBAS as guerras estão inexoravelmente PERDIDAS. Os jovens continuam a se drogar (e para mim a pior droga é o capitalismo, que dá prazer e vicia) e continuam a ter gravidezes não planejadas (não creio – salvo exceções – em gravidezes não “desejadas”. O desejo sempre está lá, basta procurar) para as quais preferem o aborto como solução imediata.

Exatamente pela constatação de que estamos diante de guerras fracassadas eu prefiro um armistício: liberem e deixem a responsabilidade para os sujeitos: a mulher e o drogado. Deixemos para eles o peso de suas decisões, mas vamos evitar as mortes, de grávidas e de traficantes, pela nossa incapacidade de entender o direito que eles têm de construir seus próprios caminhos. Da mesma forma como não farei um aborto em minha vida também não usarei drogas (a não ser quanto a torcer pelo meu time, mas está é outra discussão que envolve irracionalidade e paixão).

Por outro lado, em respeito à vida destas mulheres e meninos, vítimas de guerras estúpidas que apenas beneficiam bandidos, sou favorável à liberação do aborto e das drogas.

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Primeira Emenda

Liberdade e escravidao

Percebo com pesar que no meio onde vivo apenas duas pessoas consideram o “First Amendment” uma peça civilizatória altamente correta e sofisticada: eu e o meu pai. Creio que esta coincidência se dá pelo fato de termos sido queimados em fogueiras vizinhas em um passado não muito distante por dizermos coisas que desagradaram certos poderosos. Apesar do tempo ter confirmado a correção de nossas afirmações a Verdade ainda é uma prova insuficiente para arrefecer as chamas inclementes.

Aqui, na parte de baixo do planeta, defender o direito sagrado que um idiota tem de dizer o que pensa significa o mesmo que associar-se à sua idiotia. Para a maioria das pessoas Charlie Hebdo devia ser calado porque – para elas – esculachar uma religião é errado; para mim não se pode calar a crítica e muito menos cercear a liberdade de expressão, mesmo que o preço seja alto e custoso. Defender Charlie NÃO é o mesmo que defender a islamofobia, mas significa a defesa da livre manifestação crítica, e o respeito ao direito de se expressar, mesmo de forma jocosa, sobre qualquer questão.

Talvez as minhas queimaduras tenham me proporcionado uma visão radical e mais firme sobre a importância fundamental da liberdade como propulsora da cultura, mas a verdade é que ainda não encontrei argumentos suficientemente fortes para me demover da opinião de que nenhum governo ou instância social pode proibir a livre manifestação de pensamentos, por piores que eles possam parecer. Prefiro o pagamento de qualquer preço, mas não posso aceitar que uma sociedade tenha possibilidade de evoluir amarrada por dogmatismos de qualquer natureza.

Mas, por aqui, só me cabe a resignação e o reconhecimento de que minha visão é francamente minoritária. As condenações que vejo às idiotias não tem o tom democrático que eu admiro. Eu acho que não se evolui nas ideias impedindo os outros de se manifestarem. O que devemos fazer é produzir um posicionamento FORTE e INTENSO contra posturas misóginas, racistas ou sexistas, mas não impedir a manifestação do contraditório, seja ele qual for. Não esqueça que o debate sobre o heliocentrismo já levou pessoas que o defendiam à fogueira apenas por pensarem de forma diversa do modelo hegemônico.

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