Arquivo da categoria: Histórias Pessoais

Sorte e Azar

Há mais de quatro décadas eu estava de plantão como interno (estudante) no Pronto Socorro Cruz Azul em Porto Alegre quando, ao voltar de um atendimento domiciliar na madrugada da virada do ano, nos deparamos com uma cena insólita quando nossa ambulância fez a curva e entrou na Rua Duque de Caxias. Sobre o viaduto Loureiro da Silva jazia, ainda balançando, um Fusca de cabeça para baixo.

Quando o avistamos, as rodas ainda giravam lentamente, enquanto o capô do carro se apoiava no chão, parecendo uma tartaruga derrubada por uma onda mais forte

Paramos nossa viatura a uma certa distância olhando aquela imagem bizarra que contrastava com a rua totalmente deserta nos minutos que antecediam o nascimento do primeiro sol da década de 80. Não havia outro som senão o girar das rodas que desaceleravam aos poucos

Subitamente, duas mãos aparecem na janela do carro tateando o solo e tentando sair. Descemos da ambulância para ajudar, mas antes de chegarmos o sujeito já havia saído totalmente. Colocou-se de pé de forma cambaleante e ficou claro que estava embriagado. Tipo, muito. Vestia uma roupa toda branca combinando com o Fusca da mesma cor.

Há mais alguém no carro? perguntei.

Só eu, disse ele enrolando a língua

E você está bem? indagou meu colega.

Claro, exclamou sorrindo. Estou muito bem, só um pouco tonto.

Tonto, sei. Bebeu todas e saiu dirigindo. Podia ter morrido. Só então pude ver que sua calça branca estava rasgada na altura da coxa. Pedi licença e me aproximei para ver se não havia se cortado.

Sente alguma dor? Aqui na perna?

Nada, está tudo bem. Pode seguir seu caminho, vou pegar um táxi e depois volto pra buscar o carro.

Ele não fazia ideia do que estava falando. Imagine deixar um carro virado de “ponta cabeça” na rua e voltar para buscar mais tarde.

Posso ver sua perna?

Ele aquiesceu e eu olhei pela abertura deixada pelo rasgo na calça. Nos meus poucos anos de escola médica nunca tinha visto aquilo. Havia um corte de uns 15 cm de comprimento e muito profundo, mas com pouquíssimo sangue. Uma boca aberta com bordas precisas que pareciam ter sido feitas por bisturi.

Você não está sentindo nada mesmo na perna?

Eu me olhou com assombro e respondeu:

Já disse que não. Acaso encontrou alguma coisa aí?

A cena me trouxe imediatamente à memória outra, esta descrita em um livro muito especial: “O Século dos Cirurgiões“, de Jurgen Thornwald. No livro ele descreve a noite em que Horace Wells participava de uma festa em Hartford, no ano de 1844, onde a atração principal da noite era aspirar óxido nitroso até se espatifar no chão de tanto rir. As festas com “gás hilariante” eram comuns naquela época. Nesta em especial, Horace estava ao lado de Sam Cooley quando este caiu do tablado e bateu com a canela na quina de uma cadeira. Quando ele, que era dentista prático, examinou a perna de Sam, encontrou um rasgão que pela descrição parecia ser do mesmo tamanho deste eu testemunhava no motorista do Fusca. Tanto o ferimento do rapaz saindo da festa de Réveillon quanto aquele de meados do século XIX – que estimulou o surgimento da anestesia inalatória – não produziram dor alguma em suas vítimas, tamanha a impregnação de substâncias estupefacientes.

O mesmo tipo de corte e a mesma anestesia. Mais do que uma ação direta sobre as terminações nervosas atingidas, era a alteração mental química quem produzira a insensibilidade dolorosa. Mas, se o cérebro é capaz dessa proeza, que mais seria capaz de fazer para suprimir a dor? Alguns anos depois eu veria tais “milagres” ocorrendo no parto. Pedi que o jovem ébrio entrasse na ambulância para que o levássemos até o Pronto Socorro Municipal, mas não sem uma notável resistência da parte dele. “Não sinto nada; estou bem!!!

E assim começou a década de 80, com um ensinamento muito claro: “Caso capote seu carro, certifique-se antes que haja uma ambulância bem atrás de você“.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

A morte repetida

 

A morte de um assaltante foi exibida em horário nobre repetidas vezes para exaltar o trabalho de quem o executou: a policial candidata a deputada que o baleou na frente da escola onde ele se preparava para cometer um crime. Consta que a policial foi eleita, e a mãe do rapaz a está processando por uso da imagem mórbida e renitente do filho agonizando no asfalto quente.

As “pessoas de bem” tem uma profunda dificuldade de entender que existem DOIS crimes cometidos neste caso, e insistem em olhar para apenas um. O primeiro crime foi uma tentativa de assalto em que o rapaz acabou morto. Não há sequer o que fazer; ele foi julgado e punido no mesmo instante. Não sou expert em segurança para dizer se foi correto abrir fogo no meio da multidão, mas… que seja. Pronto, o crime foi evitado e o rapaz que estava para cometer um ato criminoso foi punido.

O OUTRO CRIME é a exposição do rapaz para fins de propaganda, o crime de usar a morte de alguém para se vangloriar, impedindo que sua família possa viver seu luto em paz. A negativa desse direito – de não ser punido duas vezes pelo mesmo crime, tanto em vida quanto após a morte – faz sentido numa sociedade que não considera negros e pobres como gente. Eles não são como nós, “gente de bem”; eles são a escória, o lixo, os inferiores. Por isso podemos mostrar indefinidamente seus corpos baleados no asfalto, agonizando indefinidamente para o nosso gozo de classe média branca.

Esse é o crime que nos negamos a ver. Afinal, que mal há em expor um negro pobre morrendo todos os dias para a nossa diversão? Por isso qualquer ideia de criticar essa desumanidade e esse abuso é tratado como “defesa do crime”.

Leva pra casa… bandido bom é…

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Política

Ginetes

Rita era uma mulher de 45 anos, bonita, separada e de voz doce. Tinha dois filhos adolescentes e vivia em um belo apartamento num bairro nobre da mesma cidade em que eu morava. Seu casamento com um arquiteto conhecido havia sucumbido há alguns anos, e a história dessa relação eu ainda preciso escrever, antes que a memória venha a me trair. Certamente um enredo de mistério, romance, aventura e tragédia…

Mas não era essa a história a contar. Em um encontro da Igreja Rita conheceu um senhor divorciado que tinha uma idade semelhante à sua. Pai de dois filhos adultos, um casamento desfeito há uns 10 anos, proprietário de terras em uma cidade do interior. Cristão fervoroso, defensor da família e dos bons costumes. Conservador. Era advogado, mas não atuava; vivia tão somente dos proventos que recebia das terras que arrendava para o plantio de arroz.

Começaram a namorar depois de um certo tempo, e a relação parecia boa. Ambos maduros, com filhos crescidos, sem problemas financeiros. Rita era professora estadual, mas além disso ganhava uma polpuda pensão do seu ex-marido. Os filhos de ambos eram quase independentes.

Depois de algumas semanas de namoro formal o namorado lhe faz um convite especial. Precisaria ir à sua cidade no interior para resolver assuntos pendentes relacionados à sua propriedade rural e a convidou para acompanhá-lo. Aproveitaria a ocasião de uma feira agropecuária na cidade para fazer essa visita. As “gineteadas”, os “tiros de laço”, a festa popular e todas estas atividades da cultura do interior poderiam ser divertidas, mesmo para uma mulher cosmopolita como Rita. Ela aceitou.

Partiram no dia combinado para a cidade. Lá encontraram uma festa típica das cidades pequenas, com a elite de agricultores e pecuaristas que dominam a cena e os inúmeros subalternos que tocam o espetáculo. Barraquinhas de comidas típicas, mulheres com vestidos rendados, jovens imitando a estética caubói, música sertaneja por todos os cantos, filas para o banheiro e gente por todo o lado.

Vamos assistir a “gineteada”, disse ele. Sei de uns bons ginetes que vão se apresentar hoje.

Participar de uma gineteada é “cavalear”, ou “cavalgar”. Na prática consiste em permanecer montado no cavalo que, através da dor, é estimulado a saltar, arquear o corpo e dar pinotes. Rita conhecia a prática de filmes e de fotografias, mas nunca havia visto uma de tão perto. Aproximou-se da pequena mureta que separa o público do tablado de areia e serragem que protege os cavaleiros das inevitáveis quedas e ali ficou observando as provas. Ficou vivamente impressionada com a agilidade e destreza dos ginetes e percebeu o quanto seu namorado vibrava com cada corcoveada e a cada manobra executada pelos exímios montadores.

Subitamente percebeu que ao lado uma moça se aproxima do seu namorado e suavemente lhe bate no ombro. Retirando os olhos do espetáculo, ele gira o corpo na direção dela, que se posta logo atrás.

– Oi, está lembrada de mim?, disse ela sorrindo.

Ele pareceu meio desconcertado e sem jeito. Tentava recordar as feições, mas não as situava no tempo e no espaço.  Fazia um esforço que só foi interrompido quando ela mesma lhe disse o nome.

– Claro que me lembro, disse ele constrangido. Como você está? Faz tempo que não lhe vejo. Tudo certo?

A jovem – que teria idade para ser sua filha – apenas lhe devolveu o sorriso e disse:

– Eu estou muito bem. Não se preocupe. Queria apenas que você conhecesse o seu filho.

Dizendo isso ergueu nos braços o menino que carregava pela mão, que não passava de três anos de idade. Aproximou-o do peito, enquanto o namorado de Rita o fitava com certo espanto. Porém, nada disse, e foi ela quem falou:

– Pode ficar tranquilo. Assista seu show. Achei apenas que devia mostrá-lo a você. Adeus e felicidades.

Ele respondeu ao adeus e girou novamente o corpo para o tablado onde os ginetes se esforçavam para manter seus corpos atados ao lombo dos cavalos ariscos e assustados. Depois de alguns instantes, voltou o rosto para Rita, que se mantinha estática e sem conseguir falar.

Olhou-a com um sorriso patético e falou:

– E não é que saiu bonito como o pai?

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

John and Moyses

Let me tell you a story. I was in Cleveland in 2002 giving a talk on “Doulas and Collaborative Work”. Five minutes before the beginning of the talk in Case Western – to doulas, midwives and obstetricians… who shows?

Yes…John Kennell himself, the guy who “invented” doulas. My personal hero, the guy who, along with Marshal and Phillys Klauss, unlocked the power of doulas to improve birth outcomes.

He kindly introduced himself to me – as if I didn’t know him from books and pictures – and made me this question:

– So you are from Brazil. Do you know Dr. Moysés Paciornik?

I responded:

– Yes, he is my friend in Brasil and much that I know from humanization of childbirth comes from his book “Learn how to birth with the natives from Brasil”. He is the “pope of squatting birth” and a sweet guy in his 80s.

He smiled at me and said something that I will never forget:

– He is the greatest obstetrician in the world.

I totally agree… even after 15 years.

(Ric)

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Posturas e Posturas

Há mais de três décadas passadas tive a iniciativa de oferecer partos na posição de cócoras para pacientes em período expulsivo após a instigante leitura do livro do mestre Moysés Paciornick. Ainda estava cursando a residência médica e esta atitude recebeu o seguinte comentário de um professor (que ainda está na ativa):

“Você precisa respeitar as abordagens sem dissociá-las das suas culturas. Parto de cócoras só funciona com índios assim como acupuntura só funciona no Japão”.

Esse era o nível. Todavia, eu era mesmo um teimoso e resolvi continuar oferecendo às pacientes a posição de cócoras como padrão de atendimento. Caso elas se negassem poderiam deitar, mas muito poucas pediam por isso. Minha postura, evidentemente, se prestou ao escárnio, ao deboche e ao bullying. “Como assim subverter a ordem? Com que autoridade você pretende mudar a forma como nós médicos atendemos partos há mais de um século?”

Herege e traidor. Exibicionista. “Joãozinho do passo certo“. Romântico. Burro. Louco, arrogante e perigoso – “e se uma criança cair no chão?“. Como não se incomodar com a presença de um sujeito chato como esse?

Depois da residência comecei a atender como plantonista de um hospital de periferia e mantive minha proposta de mudar a posição das mulheres durante o período expulsivo. Intuía que “mudar a postura poderia mudar a…. postura”. Se as mulheres se verticalizassem para parir isso poderia ter um efeito empoderador, equalizando a disputa por espaço e deixando mais justa a luta de poderes na arena das salas de parto. De objeto “inanimado” e contêiner fetal poderiam passar a agentes ativas no processo de nascimento.

Entretanto, nada seria fácil. Ficava claro para mim que a posição supina, estilo “frango assado“, não era utilizada apenas para fazer a intervenção médica mais fácil e acessível. A operacionalidade explícita poderia nos obstruir a visão do simbolismo implícito. Havia uma questão de gênero envolvida e, portanto, de poder e submissão. Algo que se escondia por detrás do meramente manifesto na posição de parir. O parto deitado era uma mensagem clara do patriarcado sobre corpos que deveriam se manter dóceis e submissos.

A pesquisa “Nascer no Brasil” de 2012 mostra que 91% dos partos normais no país ainda ocorrem sob o signo do anacronismo das posições supinas. Isso nos mostra que, mais do que um “hábito”, o parto assim “conduzido” simboliza uma relação de poderes que determina que a mulher se mantenha imóvel, alienada e não participativa no processo; sua condição será de objeto, não de sujeito.

Três décadas se passaram desde a minha postura desaforada. Meu atrevimento já foi punido, com as regras corruptas de uma corporação em crise. Entretanto, a posição de parir ainda é tabu. Ainda temos 9 entre cada 10 mulheres parindo numa posição ruim, perigosa, danosa, incômoda, desagradável, humilhante e alienante. Pouco se fez para modificar essa realidade.

Todavia, sou um otimista incurável e ainda espero ver o escândalo se institucionalizando nas atitudes combativas de enfrentamento. Sonho com o dia em que, ao abrir o jornal, possa ler a manchete em letras chamativas:

“Num movimento coordenado, mulheres do Brasil inteiro se ergueram e impediram seus médicos de atendê-las na posição deitada. Conselhos de Medicina realizam reuniões de emergência para debelar a crise. Guarda Nacional de prontidão”.

Deixe-me sonhar; deixe-me acreditar, eu sou o que tenho a vencer…

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Parto

Galaxie

O ano era 1984 e a aula recém havia terminado. Enquanto meus colegas se dirigiam para a porta da velha sala de aulas da Santa Casa eu ainda conversava com meu professor sobre temas da aula de ginecologia. Recém concursado para a vaga de monitor da cadeira de GO da faculdade de medicina eu era uma “esponja”, aflito por absorver todas as informações possíveis sobre o universo da obstetrícia. Resolvi fazer ainda aquela última pergunta, enquanto o professor guardava papéis dentro de uma pasta de couro. “Vamos indo para o estacionamento enquanto lhe explico“. Segui meu professor enquanto ele discorria sobre um assunto que se perdeu na poeira das décadas, e quando chegamos no estacionamento ele perguntou para onde eu ia. “Para o Hospital de Clínicas“, respondi. “Bem, disse ele, é para lá que eu vou. Quer uma carona?

Respondi afirmativamente, claro. Afinal, isso me garantiria meia hora a mais de descanso antes de começar a aula da tarde e um tempo a mais para almoçar.

Cheguei ao carro e senti uma sensação estranha. Um susto. Na verdade meu professor não tinha um carro, mas um Galaxie Landau azul, com estofamento em “jacquard” inglês e direção hidráulica. Fiquei estupefato de ver na minha frente um carro de cinema, que eu só conhecia da TV, ou de ver ao longe nas ruas.

Tive o cuidado dos pobres ao entrar no veículo, sabendo que se eu derrubasse alguma coisa jamais teria dinheiro para pagar. Ele me perguntou “Está quente. Quer que ligue o ar?

“Ar”? Como assim? Então ele ligou o ar condicionado do carro e o frescor súbito foi a sensação tecnológica mais impressionante da minha vida, só rivalizando com a primeira vez que falei num celular. Ar condicionado em carros era coisa de ricos, de gente “de bem” ou “grã-finos“. Tudo isso em um Galaxie Landau era a imagem do glamour. O presidente Sarney tinha um, e o meu professor também.

Nossa viagem durou os 10 minutos que separam a Santa Casa do Hospital de Clínicas, mas a sensação me acompanha até hoje, mesmo depois de 34 anos. Nos despedimos e nunca mais conversamos de novo. Este professor foi um dos pioneiros em clínicas de diagnóstico por imagem e ficou rico com suas ecografias. Para meus vinte e poucos anos de vida ele parecia uma luz, um exemplo de excelência.

Escrevi essa lembrança porque o impacto que a vida de luxo de um médico que investiu numa área charmosa e rica da medicina poderia ter me encantado a ponto de querer seguir seus passos. Os estudantes não aprendem muito com as aulas, mas com os exemplos de seus mestres. Um médico, professor na universidade, ligado às tecnologias de ponta e com sinais evidentes de sucesso é um exemplo difícil de não seguir.

Todavia, meu caminho foi no sentido oposto. Tecnologia nunca me seduziu e sempre acreditei que o verdadeiro desafio estava nos mistérios que se escondiam no vão que separa as palavras. Agora que aos poucos entendemos melhor os limites das ultrassonografias e reconhecemos seu impacto pífio nos resultados obstétricos, penso na força que estes exemplos produzem nos estudantes. Para os jovens que olham para o futuro com medo e excitação, o sucesso emoldurado por um estofado em “jacquard” inglês produz uma inequívoca fantasia de futuro radiante.

Menos de um ano depois comprei meu primeiro automóvel, que guardava de semelhança com o carro do meu professor apenas o número de rodas girando. Era um Fusca 1972.

1 comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

O passado presente

Quando eu tinha 5 anos de idade aconteceram duas coisas importantes na minha vida: o Brasil mergulhou em uma ditadura militar que durou toda a minha infância até a entrada na vida adulta e meu pai fez uma inusitada e incrível viagem de estudos à França, onde ficou por 6 meses.

Quando na minha entrada na adolescência eu disse ao meu pai que ele era um sujeito de muita sorte, pois teve a possibilidade de conhecer Paris e Marselha; Nice e Lyon. Ele me respondeu de forma profética: “Isso não é nada. Quando você tiver a minha idade estas viagens, que hoje parecem tão difíceis e caras, serão tão acessíveis quanto pegar um ônibus até o centro da cidade”.

Hoje percebo o quanto estes fatos me marcaram. Não só não consigo aceitar o novo golpe que nosso país sofreu como me tornei um viajante compulsivo. Nunca menospreze a importância das experiências primitivas na constituição do sujeito.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Surpresas

O sujeito tinha uns 45 anos e batia palmas freneticamente no portão da minha casa. Quando me aproximei ele me contou sua história. Havia sido policial e há 15 anos, durante uma batida, ele baleou uma criança que estava na linha de tiro, que veio a falecer. Foi expulso da polícia militar e condenado a 9 anos de prisão. Havia sido liberado naquela tarde e precisava de dinheiro para voltar para sua casa no interior do estado. Perguntei sobre o Serviço Social do presídio e ele me disse que “estas coisas não funcionam” e os funcionários “nunca dão dinheiro para ex-prisioneiros“. Sozinho e desamparado, pedia uma ajuda para voltar para sua cidade, sua única referência, onde encontraria sua mãe, tudo que lhe restava.

Senti pena do rapaz. Uma vida desperdiçada por um erro. Uma fatalidade que o fez passar quase uma década afastado de tudo e de todos, por um momento de desatenção. Que tristeza!! Coloquei a mão no bolso e tirei as notas que tinha comigo. Entreguei a ele e disse “Vá com Deus”.

Passei alguns dias impactado pela história. A sensação incômoda de fragilidade diante da imprevisibilidade da vida. É verdade; a qualquer momento tudo pode mudar e sua existência virar do avesso. Pobre homem!!

Cinco dias depois, ao chegar em casa, encontrei um senhor negro, de uns 50 anos parado ao lado do portão. Pediu desculpas por estar tão tarde do dia na frente da minha casa e disse que precisava de uma ajuda para voltar para casa. Explicou que durante uma ação policial havia matado uma criança por uma bala perdida, pelo que foi expulso da polícia e condenado a 9 anos de prisão. Estava saindo naquela noite do Presídio Central e por isso necessitava ajuda para a passagem do ônibus.

Olhei com firmeza para o homem e pedi que fosse embora, e que combinasse melhor as histórias com seus parceiros. Por outro lado, fiquei feliz pela criança que não morreu e pelo homem que não foi preso pelo crime que jamais cometeu.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

O Caminho como Metáfora

Em 2003 fui apresentar uma aula onde procurava mostrar graficamente como o modelo tecnocrático e intervencionista da obstetrícia contemporânea era algo extremamente recente na história da nossa espécie. Minha primeira ideia foi mostrar um relógio e explicar que este modelo, que ora usamos, representava apenas os últimos 15 segundos de um dia inteiro de aprendizado para lidar com os desafios da parturição. Os 40 anos de tecnocracia mais agudizada ficavam minúsculos diante dos 200 mil anos de adaptação apenas desta espécie, sem falar na carga de ensinamentos que recebemos dos 7 milhões de anos de história de bipedalidade.

Um tempo depois pensei uma imagem mais próxima de nós – uma estrada. Em verdade próxima de mim e da minha fantasia adolescente. Coloquei o gif de um caminhante sobre o mapa do norte da Espanha, com o traçado que liga Saint Jean Pied de Post (na França) até Santiago de Compostela, já na Galícia. Abaixo os dizeres: “Caminho de Santiago = 800 km“. A ideia era mostrar que se a forma como atendemos o parto fosse em um tempo igual ao Caminho de Santiago, o modo tecnocrático, intervencionista, medicamente controlado, cientificista, insensível, frio e afastado das evidências científicas representaria apenas os últimos… 80 metros.

Espero que tenham entendido como as modificações recentes no parto, em especial a hospitalização, produziram efeitos muito importantes e graves na forma como entendemos e sentimos esta parte tão importante da sexualidade humana.

Agora eu me sinto no fim dos pródromos de um grande trabalho de parto, que durou 37 anos. Desde a minha viagem de 108 km de Porto Alegre até o litoral, quanto não contava mais do que 20 anos de idade, que sonho em percorrer a rota mística de Santiago. Ela esteve presente em meus sonhos, nos livros que li, nos filmes e documentários que assisti e nos inúmeros e infindáveis devaneios sobre o que me aguardaria na travessia.

As contrações agora se intensificaram e começo a sentir uma certa regularidade. Não sinto mais tantas dores, as bolhas serenaram, a sola engrossou, ou músculos pararam de se embebedar com o ácido lático de todos os dias. Apesar das dores os passos estão mais confiantes. A cada albergue que chegamos cresce nossa confiança; são como nas pausas silenciosas depois de cada contração. Os olhares de apoio das minhas companheiras de caminho são como as massagens de divinas doulas sobre um corpo cheio de cicatrizes e uma alma ainda rasgada de indignação. São elas que me estimulam, e quando dizem, jocosamente, “é logo ali”, sinto o mesmo frescor das palavras que por tantas vezes eu mesmo disse a quem sofria a dor do desconhecido.

Na minha jornada – o caminho é sempre solitário – levo no alforje a metáfora do nascimento. Se existe sentido na dor, na lágrima, no nariz que corre, no músculo retorcido e nos pés que sangram também terá valido a pena lutar para que o nascimento seja um evento de luz, com autonomia, liberdade, segurança e comunhão de almas.

Sigamos!!!
Ultréia!! Suséia!!!

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Bolhas

Então ela me pergunta, mantendo uma ruga questionadora na testa: “Mas por que isso? Qual o sentido das bolhas, da dor, das noites mal dormidas, das tendinites, do frio e da chuva? Em nome de quê?

Parei por alguns instantes e lhe perguntei: “Você tem filhos?” e ela me respondeu “Sim, dois. Partos normais”, e sorriu com orgulho.

Olhei em seus olhos e repeti sua própria pergunta: “Em nome de quê?”

Sim…. O que te leva a caminhar por 800 km no frio e na chuva é diferente do que te leva a ter filhos, mas ambos compartilham algo em comum: são ações que agridem seu conforto pessoal e te obrigam a encarar uma dimensão pouco conhecida: a transcendência.

Só a possibilidade de transcender os sentidos comuns na vida nos permite aceitar tais desafios. É mais fácil terminar a vida sem jamais perder o sono por um filho que chora ou que ainda não chegou da festa, assim como passar seus períodos de férias em uma praia ou numa viagem cultural por um país desconhecido. Somente a sensação incômoda de que há algo dentro de si mesmo que pode ser descoberto é que te impele a tomar atitudes que parecem estranhas e desafiantes.

Para uma sociedade que perde a noção de sagrado e transcendente, que sequer consegue nominar o que está além de sua compreensão, tudo parece ter preço.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Pensamentos