Arquivo da categoria: Histórias Pessoais

Alegria, alegria

Mulher feliz

Das possíveis alegrias na vida de um médico, em especial um obstetra e ginecologista, está o relato de uma mulher, que depois de alguns anos de atendimento e tratamento homeopático – através do que se poderia chamar de “medicina narrativa” – alcançou pela primeira vez um orgasmo, com a idade de 61 anos.

Mais do que uma melhora clínica, a cura de uma “doença”, a suavização de um sintoma ou a alteração de valores laboratoriais, esta mudança em sua sexualidade nos sinaliza para um câmbio de perspectiva de vida, para um olhar mais positivo e livre das amarras pregressas de rancores e mágoas doloridas, as quais a impediam de alcançar seus mais nobres objetivos.

No ocaso de um percurso de mais de 30 anos de escuta, um relato pleno de esperança como este é capaz de nos encher de alegria e contentamento.

Patu Saleh!!

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Checkpoint

Checkpoint

“Enquanto continuarmos a valorizar os planos de saúde eles funcionarão como uma espécie de “salvaguarda da classe média” que nos alivia da tensão de ficarmos doentes e termos que dividir espaço com os pobres. No Brasil 52 milhões de pessoas usam este artifício. Para mim é apenas segregação. Um país civilizado tem saúde de qualidade para todos e não apenas pra quem paga grandes quantias de dinheiro para empresas privadas. Aqui os planos de saúde – todos – funcionam como um muro de apartheid, como na Palestina, separando os brancos europeus da escuridão epidérmica dos palestinos. Se você tem “Bamerindus Gold” pode passar o checkpoint e entrar no hospital “Middle Class Paradise”. Ah, não tem carteirinha, cabeção? Entre na fila do hospital público, e saiba qual o seu lugar…”

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Renascimento do Parto

Renascimento

Eu estava à noite em casa quando Erica de Paula me ligou falando de um projeto sobre um filme. Esta era uma ligação razoavelmente comum há alguns anos. Eu vinha recebendo mutos convites para pequenos depoimentos sobre parto humanizado e, desde o lançamento do livro de Robbie “Birth Models that Work“, eu também era convidado a fazer isso em outros lugares, fora do Brasil. Na maioria das vezes eu nem sabia o que viria a acontecer, ou mesmo se o documentário seria ou não lançado. Devo ter algumas horas de material espalhado por aí que jamais foi usado. O que Erica me contou foi que havia o desejo de apresentar no programa do Eduardo Chauvet (SBT Brasília) uma inserção de depoimentos sobre o parto normal. Como Erica é doula, além de acupunturista, juntaram-se duas energias que se complementavam: por parte dela a vontade de criar algo pela humanização; da parte do Eduardo, a possibilidade de usar um canal muito potente de divulgação de ideias.

Entretanto, logo se percebeu que com a multiplicação de depoimentos e entrevistas o conteúdo ultrapassou sua forma original prevista. Já não era possível conter décadas de experiências, histórias, dores e alegrias em 10 minutos de programa. Ficou claro também que mesmo um curta metragem seria inviável. Para que a paixão de tantos sonhadores pudesse entrar numa tela seria necessário espichar o tempo e esticar as expectativas, e a única solução, ainda que com dolorosos cortes, foi a produção de um documentário de longa metragem.

A ligação de Erica nem foi muito longa, constando de uma breve explanação do projeto: um filme que conteria – entre outros convidados – a minha visão sobre parto, humanização, nascimentos e os desafios que este movimento mundial tem pela frente. Houve, entretanto, simples pedido: pela escassez de recursos seria muito mais barato que, ao invés da equipe toda vir a Porto Alegre me entrevistar, que eu fosse a Brasília e ficasse por lá um dia inteiro gravando minha participação.

Respondi afirmativamente, claro. Posso entender as dificuldades de iniciar um projeto dessa natureza sem financiamentos ou patrocínios de multinacionais. Não temos drogas ou aparelhos para vender, mas temos um grande desejo e, quando isso ocorre, as coisas acontecem. Acompanhei as mesmas dificuldades no documentário de Debra Pascali-Bonaro chamado “Orgasmic Birth” e estava bem consciente de que era necessário que todos oferecessem algum tipo de sacrifício. Topei na hora.

– Hummm, disse Erica. Pode ser WebJet?

– Claro, pode ser sim. Vou e volto no mesmo dia.

E assim foi. Um dia inteiro perambulando por Brasília, num dia acolhedor e ensolarado, procurando o melhor ângulo, testando o som, esperando a luz adequada e tentando não tropeçar nas palavras. Ao mesmo tempo Erica e Eduardo me contavam das outras entrevistas, de Michel, Robbie, Melania, Ana Cris, Daphne, Helô, Ricardo Chaves e tantos outros que me fogem à memória, todas curiosas, criativas, intensas e acima de tudo absolutamente apaixonadas. Se existe algo que nos conecta, nos inspira e nos atrai é a paixão de participar de um grande movimento de transformação, o câmbio paradigmático do nascimento que aos poucos se configura no mundo.

Alguns poucos anos nos separam daquela tarde em Brasília, onde gaguejei sem parar e perdi algumas vezes o rumo da fala. Por misericórdia e condescendência inacreditáveis minhas falas não foram cortadas, o que me deixou endividado e agradecido. De lá para cá, e em especial depois que o filme foi lançado, vimos uma explosão positiva no debate sobre a humanização. Hoje vivemos um sonho que há muitos anos acalentávamos: os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres parindo estão na ordem do dia. O governo federal é cada dia mais parceiro, e entendeu nossa luta de mais de 20 anos. A “Caixa de Pandora” da violência obstétrica foi aberta a machado, permitindo que nossos monstros saíssem para a luz do dia, onde sabemos que, mais cedo ou mais tarde secarão com a luz das evidências e o brilho das demandas das mulheres.

Hoje, quando o Brasil pela primeira vez pôde assistir este documentário em TV Aberta, minha homenagem à Erica de Paula e Eduardo Chauvet, pelo brilhantismo, qualidade e persistência. Espero que daqui algumas décadas minha humilde participação possa ser lembrada como um depoimento honesto e sincero sobre o futuro do parto no Brasil. Mas todos nós, os sonhadores, os malucos, os “comedores de placenta”, os naturebas e os “doidos da MBE” e aqueles que sonham com partos dignos e seguros estamos de parabéns.

Um novo momento para o parto já é realidade no Brasil.

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Negros

FMUFRGS 1985

Esta é a foto da minha formatura há 29 anos, na cidade de Porto Alegre. Tenho boas e más lembranças desta época, mas vejo que alguns dos meus colegas mantiveram um espírito crítico e uma visão positiva da profissão, apesar das agruras causadas pela “máquina de moer carne” da escola médica. Todavia, como se pode ver na imagem, não há nenhum negro representado na turma que posou para a foto na escadaria da velha escola médica. Aliás, durante os anos que frequentei a faculdade de Medicina conheci apenas um, que era sobrinho de um famoso político e que acabou também por seguir a carreira do tio. Nenhum outro negro, sequer mulato, compartilhava aquele espaço conosco. Claro, havia porteiros, serventes, auxiliares do biotério, faxineiras, e esses eram mais escurinhos. De resto todos brancos, claros, alvos e cristalinos. O que poderíamos entender do sofrimento de um negro?

Lembrei uma aula de quando eu estava no terceiro ano de medicina passando pela cadeira de semiologia. No ambulatório de clínica da universidade nos dividíamos para atender os prontuários que repousavam sobre a mesa. Nosso grupo ficou composto de 3 alunos, e a nós coube examinar um homem negro de meia idade, cujas queixas se perdem na névoa do tempo. Depois de feita uma anamnese, verificados os sinais vitais e colhida a história biopatográfica chamamos o professor para nos ajudar na continuação do atendimento. Nosso professor, já falecido há muitos anos, adentrou a sala e, ao notar que se tratava de um negro, disparou:

Queridos alunos. Quando temos pacientes “pardos” temos que pensar em três diagnósticos principais: hipertensão, escabiose e gonorreia. Já perguntaram sobre isso?

O senhor jazia deitado na mesa de exame e se manteve imóvel. Àquela época, passados mais de 30 anos, esta atitude não teria a mesma repercussão que hoje, mas mesmo assim eu fiquei estático e chocado. Olhei para o paciente deitado à nossa frente coberto com uma bata branca e esperei sua reação, enquanto eu me cobria de “vergonha alheia”. Passados alguns instantes sua atitude acabou sendo a pior possível, a mais terrível, a mais violenta e a que, por isso mesmo, mais me marcou.

Não, ele não se levantou e golpeou o professor. Sequer dirigiu-lhe palavras de indignação. Não, ele não reclamou do rótulo de promíscuo ou sujo. Ele também não tentou aclarar a situação, explicando as reais razões pelas quais ele procurava o serviço de medicina interna do hospital da universidade. Não, ele não mandou o professor se calar.

Ele apenas baixou o olhar, olhou para mim e tristemente sorriu.

Em seu sorriso eu podia ler toda a resignação com sua condição de negro, a qual nenhum de nós poderia jamais entender. Ser tratado dessa forma em um serviço público – que deveria entendê-lo e ampará-lo, acolhê-lo e tratá-lo sem julgamentos – era apenas mais um capítulo em sua longa história de humilhações cotidianas.

– De que adiantaria me indignar, jovem? disse ele em pensamentos durante seu breve sorriso amargo. Por acaso eu seria entendido? Tens alguma esperança de que o velho professor poderia entender o que é a dor de ser a vida inteira considerado inferior, sujo e indolente? Achas mesmo, menino, que meu sofrimento poderia ser captado, processado e transformado em empatia por alguém que nunca entendeu o que é nascer com “a cor errada”, ou ter o “cabelo ruim”? De que adiantaria gritar, esbofetear, reclamar ou sair correndo? De nada, meu jovem, de nada. Para vocês deixo apenas meu sorriso dolorido e meu silêncio. Talvez algum de vocês possa um dia entender o que significa nascer pintado de preto num mundo que só aceita o branco.

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Violência Infantil

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Espancamento de crianças ainda é um FATO, e centenas de pessoas o aprovam. Acreditem, eu mesmo vi comentários sobre um clip que está rolando na Internet sobre uma mulher que bate no filho com um cinto e um policial dá um sermão na criança dizendo que ele mesmo faria isso se ele ousasse reclamar novamente. Os comentários abaixo desse clip são horrendos e absolutamente inaceitáveis. Todavia, eu acho que eles escondem uma outra realidade. Eu creio que a maioria das pessoas que escreve a FAVOR das chineladas sofreu este tipo de violência na infância. Ser a favor disso é uma forma de mostrar amor pelos seus pais, e tentar retirar de quem se gosta esta culpa. Isso acontece com as mulheres que protegem seus obstetras depois de uma cesariana claramente desnecessária.

Vi isso milhares de vezes na Internet nos últimos 15 anos escrevendo em redes sociais, de “list servers” a Facebook. Mulheres submetidas a cesarianas defendiam seus médicos até o último argumento, dizendo que ele era consciente, que cordão enrolado era perigoso, que ele não permite “passar da hora”, que ele a protegeu da dor excruciante, que ele agiu de boa fé, que ele apoia o parto mas não é fanático e assim por diante. A “queda” que se seguia para algumas era normalmente espetacular. O momento em que se percebe que, por mais que você tenha afeto pelo profissional, ele lhe enganou, é terrível, e demanda muita coragem. Nós protegemos os nossos seres amados mais importantes, os pais, da mesma maneira, e por isso negamos que as palmadas tenham deixado marcas.

Eu apanhei do meu pai por causa de travessuras, mas tenho certeza que ele não se orgulha disso. Provavelmente hoje ele diria: “Estávamos nos anos 60. Era o modelo. A gente batia para impedir que más condutas se mantivessem, e tínhamos boas intenções. Educar era assim. A gente era a favor da virgindade, contra o divórcio, contra maconha, e tudo isso está caindo hoje em dia. O mundo muda, os valores se modificam, e só podemos ser julgados em nosso próprio tempo.”

Eu prefiro acreditar que as virtudes de um homem são dele, os pecados são de sua época. O que era racismo no século XVIII é diferente do que é hoje, pelo menos do ponto de vista do julgamento social, mesmo que os atos sejam os mesmos. Muitas coisas que fazemos hoje serão consideradas crimes inaceitáveis no futuro. Você acharia justo ser chamado de “assassino” por comer hoje carne de outros animais, coisa que no século XXII será proscrita? Ou comer carne é do nosso tempo, e tal fato só pode ser julgado pelos valores de agora?

O que eu acho incorreto é que HOJE, depois de tanta informação a respeito dos padrões que se repetem, criança espancada —> adulto espancador, ainda haja MUITA gente que defende esse paradigma. Gente demais, eu diria. Uma coisa é você bater no seu filho em desespero – por não saber o que fazer e se sentir pressionado – e ENTENDER que não se deve fazer isso. “Mea culpa, mea máxima culpa“, porque também agi assim. Outra coisa é bater em crianças que estão crescendo, que cometem erros, que estão olhando para o valores do mundo e tentando aprender com cada experiência, e achar que sua violência está “educando”.

Pior mesmo é vangloriar-se disso e chamar a todos os outros de idiotas.

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Elvis

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Eu tinha 17 anos e estava no último ano da escola. Naquele época se chamava “ginásio”, o que corresponderia ao nível médio hoje. Cheguei às 8h e abri a porta da sala de aula, ainda esbaforido pelos dois lances de escada obrigatórios para chegar ao andar superior. Mas eu estava impactado com o que havia escutado no rádio de casa apenas alguns minutos antes. Quando a porta se abriu a professora ainda não havia chegado e os colegas estavam arrumando seus pertences sobre as mesas de fórmica verde. O quadro negro ao meu lado esquerdo continha nomes de pessoas, desenhos rudimentares e uma fórmula matemática. As janelas olhavam para o norte, e não havia sol pela manhã a ultrapassar o vidro.

As cortinas estavam escancaradas para melhorar a luminosidade e do outro lado da rua podia-se ver a casa do João, colega de aula que, exatamente por morar ao lado da escola, sempre chegava atrasado, e sua corrida era testemunhada por todos nós, entre gracejos e gargalhadas. Postei-me em frente à turma, sem que eles de mim se apercebessem. Não me preocupei com a indiferença de todos, pois dentro de alguns minutos eles olhariam em silêncio e estarrecidos para mim, após dizer-lhes o que eu havia de contar. Encarei os colegas, imaginando que o que eu estava para dizer modificaria a vida de todos, daquele momento em diante. A minha, em especial, recebeu uma grande lição.

Um último gole de ar a inflar meus pulmões e falei, com voz alta o suficiente para que os últimos da classe, com as costas coladas à parede, pudessem me ouvir.

Amigos, Elvis Presley morreu esta manhã em sua mansão nos Estados Unidos. Ele tinha 42 anos.

E foi assim. Curto e duro.

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Praia do Pinhal

Vó Vera

Minha sogra tinha casa no Pinhal, para onde ia todos os verões, carregando seus 7 filhos. Zeza era uma das 5 filhas. O filho mais velho, Carlos Fernando, faleceu um ano antes de eu começar a namorar com ela, num acidente que marcou muito nossa geração de amigos. Eu tinha 17 anos na época e íamos de “galere” para Pinhal nos feriadões e nas férias. Era muita zoeira. A casa ficava literalmente a 30 metros do mar. Um pequeno chalé de madeira, com dois quartos, que chegava a acomodar mais de 20 pessoas nos fins de semana. A regra era: mulheres nos quartos e nas camas, homens deitados em colchões improvisados no chão da sala.

Haja fossa séptica!!! Fim de tarde saíamos para caminhar na beira da praia e quando escurecia íamos ao “centro”, perto do “osso da baleia” para tomar sorvete de milho verde. Meus filhos ainda conseguiram pegar o final desse tempo mágico, mas o tempo já havia passado e a magia foi fenecendo. Pinhal é para mim uma maravilhosa lembrança de adolescência, mas para Zeza e seus irmãos é muito mais, pois toda a infância deles foi ali, na beira do mar.

Dona Vera, minha sogra era o centro de onde irradiava essa luz de congraçamento. Em torno dela gravitavam seus filhos e os “achegados”. Enquanto teve energia e desejo, foi o elo necessário para conectar a todos. Ela foi da última geração de donas de casa, dedicadas ao lar e à família, e ia para o Pinhal no fim de novembro (quando todos os filhos já haviam passado de ano) e voltava para Porto Alegre no fim de fevereiro.

Eram quase 3 meses de areia e sol. A vida deles cursou muito por lá. Pinhal é, portanto, o lugar mágico, idílico, onde é possível ser feliz. Se Freud está certo e a felicidade é reviver os momentos e as sensações de gozo da infância então para Zeza e seus irmãos o único lugar possível para essa alegria sublime é a praia do Pinhal….

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Epifanias

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A gente sempre tenta estabelecer uma data, um marco, um linha divisória entre dois momentos da nossa vida. Falar do momento exato em que acordamos para uma realidade pode ser difícil, e as vezes impossível. Eu costumo citar o nascimento dos meus filhos como este momento definitivo, mas por certo que quando eles nasceram não havia nenhuma noção clara de humanização do nascimento em minha mente. Sobrou apenas uma espécie de indignação e dor pelo que poderia ter sido. Quando atendi uma paciente no chão da sala de exames do hospital esta indignação tomou a forma de uma vergonha. Não era apenas um mal que existia; era uma mal que dependia de mim para existir.

Todavia, esses eventos são artificialmente construídos, e o são sempre a posteriori. Na verdade o que te leva a mudar de paradigma é um sequência de minúsculos fatos, muitos deles insignificantes quando vistos de forma isolada, mas que adquirem sentido quando formam um conjunto coerente. Essas mudanças estão frequentemente escondidas de nossa percepção mais grosseira mas as epifanias as expõe pelo intenso afluxo emocional que propiciam.

Nossas mudanças são determinadas pelo trabalho diário e subterrâneo da lava incandescente de nossas experiências cotidianas. Uma pequena fissura na crosta das convicções é capaz de fazer uma erupção transformadora em nossas vidas.

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O Silêncio

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Encontrei no “Bazar Mães à Obra” o lendário obstetra Alberto Abeche, o qual tive a honra de contar no nascimento do meu filho Lucas. O Alberto faz parte de um seleto grupo de obstetras que tenho orgulho de reconhecer como colegas. Alberto é um sujeito sensível e espiritualizado como poucos. Nos minutos que conversamos, rodeados por barrigudas e bebês, ele me perguntou o que achava ser a parte mais bonita de um parto. Eu respondi que o apagamento neocortical, o mergulho na “Partolândia”, era o aspecto mais encantador e misterioso de tudo o que cerca a chegada de um bebê. O transe químico, o “barato” do parto, a zonzeira, a perda dos referenciais eram os fatos que mais me marcaram durante 30 anos atendendo partos e seus desafios.

– E você, Alberto? O que te encanta mais no nascimento?, perguntei eu.

Ele sorriu e respondeu

– O silêncio, Ricardo. O silêncio de respeito e reverência logo após o nascimento. Quando, depois do grito primal, o diálogo de lágrimas e gemidos é o único som que tem permissão de ser ouvido. É quando ficamos mudos e imóveis assistindo o milagre à nossa frente. O silêncio, Ricardo, o mais eloquente dos ruídos.

Obrigado, Alberto, pelo seu exemplo, sensibilidade e coragem.

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Medicina e Medo

Medicina e Medo

Fiquei sabendo que a Faculdade de Medicina da UFRGS, assim como a de Pelotas, foram reprovadas na avaliação do governo. Acredito que esta reprovação nada tem a ver com insuficiência de notas, mas com o boicote realizado pelos alunos contra a realização da prova. Isso me faz lembrar um incidente acontecido no hospital onde fiz a minha residência, há muitos anos.

Naquela época, em uma universidade de Porto Alegre, foi estipulada uma prova para avaliação dos residentes da GO. Após uma reunião com os residentes de 1º, 2º e 3º anos, a referida prova foi solenemente boicotada pelos mesmos, ainda que houvesse a promessa de que nenhuma nota viria a ser publicada.

Eu entreguei minha prova – neguei-me a boicotar – e fui falar com o professor responsável. Disse a ele que poderia publicar a nota com meu nome em letras garrafais na porta do departamento. Se minha insuficiência existia queria reparti-la com todos os responsáveis: eu mesmo e quem deveria estar me treinando. Nada disso ocorreu, e o assunto morreu por aí. Não houve avaliação da residência médica, pelo menos naquele ano.

Entretanto, sempre fiquei com dúvida sobre as razões pelas quais meus colegas celebraram a ideia de boicotar uma avaliação. A desculpa “oficial” era de que a residência médica, por ser tão “falha” no treinamento que nos oferecia, não tinha condições morais para nos avaliar. Discordei imediatamente desta ideia. Talvez fosse justo dizer que o sistema não poderia nos “CULPAR”, mas tinha a obrigação de nos avaliar, até para ter elementos para aquilatar as suas próprias falhas no processo de ensino. Nossa atitude, entretanto, refletia mais do que indignação com a falha pedagógica e a escassez de treino. Mesmo sendo justo o descontentamento com a ausência total de professores para nos ensinar a atenção ao parto, coisa que era realizada por residentes mais antigos e contratados desinteressados, nossa ação continha elementos inconscientes e não revelados.

Sim, havia muito mais do que o meramente manifesto nas palavras e atos superficiais. Existia, em verdade, um sentimento de profundo medo com a avaliação que pudesse ser feita sobre o nosso desempenho. Havia o pânico de que nossa verdadeira capacidade fosse desvelada, escancarando os meninos e meninas que se escondiam por debaixo de jalecos brancos, estetoscópios no pescoço, receitas decoradas, protocolos rígidos e infinitas fórmulas dialéticas de dissimular a nossa mortal insegurança. Havia um temor de que a construção arrogante e falsa de nosso saber fosse exteriorizada, mostrando nossos pés de barro.

A negativa dos alunos mais festejados – medalhas de Ouro no quesito “universidade” – em realizar uma prova que demonstraria objetivamente a sua qualidade ou competência segue a mesma linha. Muito mais do que um protesto contra o ensino – que até pode ser verdadeiro, como era a negligência do corpo docente em minha época com relação ao ensino da atenção ao parto – existem elementos mais profundos que podem dar conta da negativa peremptória em realizar a a avaliação.

Medo explica. Só o medo pode nos garantir o elemento essencial para entender. Oferecer aos outros a imagem da nossa incapacidade é sempre um ato heróico. Expor com bravura nossas fragilidades e temores é algo que dificilmente encontramos em meninos recém saídos das fraldas da universidade.

No famoso artigo “Obstetric training as a rite of passage” de Robbie Davis-Floyd existe um parágrafo que explica muito sobre o medo, a tensão constante, a angústia e a “visão em túnel” que o residente desenvolve sobre este tema.

“A maioria de nós entrou para a faculdade de medicina com ideais muito humanitários. Eu sei que cheguei dessa forma. Mas todo o processo de educação médica faz você desumano. Eu vi colegas totalmente devastados quando não sabiam uma resposta A coisa toda pode torná-lo bastante deformado. Eu acho que é aqui que os sentimentos começam, quando você sente que alguém lhe deve alguma coisa, porque você realmente, você sabe, você bloqueou uma boa parte de sua vida. Pessoas perderam namorados e namoradas, noivas e casamentos. Houve algumas tentativas de suicídio. Assim você esquece o resto da sua vida. E então, no momento em que você começa a residência, você termina por não se preocupar com nada além das mais recentes técnicas que você pode dominar e quais os sofisticados testes que você pode executar.”

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