Arquivo da categoria: Histórias Pessoais

História de Pronto Socorro

Em meados dos anos 80 eu estava de plantão no hospital de Pronto Socorro da minha cidade, o mais tradicional dos hospitais da capital. Estava atuando como interno do 5o ano da faculdade de medicina e era na cabeça dos embriagados que treinávamos as nossas primeiras suturas. Claro, com “supervisão” dos contratados plantonistas do hospital, o que nem sempre era a regra.

Em um determinado fim de semana o plantão estava movimentado acima da média com os casos usuais: acidentes de trânsito, brigas em “bailões”, acidentes domésticos, embriaguez, assaltos, ferimentos a bala etc. Eu notei que aquela noite, um sábado de verão, estava mais movimentada que o habitual. Como estava recém iniciando o estágio eu frequentemente pedia orientação para os velhos plantonistas a respeito do tipo de sutura a utilizar ou os rituais de degermação dos ferimentos. Por sorte, naquele dia em especial, os médicos de plantão eram solícitos e amistosos.

Subitamente irrompe na sala de pequenas suturas um jovem negro banhado em sangue. O rosto se encontrava coberto por caudalosos rios vermelhos que cruzavam sua face e coloriam de rubro todo o seu corpo. Usava apenas um calção folgado e chinelos de dedo, e se percebia que estava muito alcoolizado. Ele provavelmente mal havia passado da puberdade.

– Um entrevero, doutor. Na festa de aniversário da Michelle. Briga por causa de guria, vê só…

Quem explicou o caso foi um rapaz um pouco mais velho que havia empurrado a cadeira de rodas com o jovem semi desfalecido para a sala de pequenas cirurgias.

– Bateu com a cabeça no chão. Depois chutaram ele. Animais…

Pedi ao acompanhante e aos enfermeiros da sala que me ajudassem a colocá-lo na maca para ser avaliado. A pressão estava boa, mas os batimentos acelerados. Devia ter perdido já uma boa quantidade de sangue. Quando o examinei não encontrei nenhum ferimento sangrante pelo corpo além da cabeça, onde havia um corte de 10 cm de extensão que aparentemente já havia sangrando muito.

– Precisamos fazer um Raio X de crânio. Vou chamar os técnicos aqui para ver se houve fratura ou se temos apenas essa lesão superficial para suturar. Fique de olho nele; se houver lesão interna ele pode até convulsionar. Já volto.

Era o médico da sala pedindo que eu tivesse atenção redobrada com o jovem enquanto solicitava o exame radiológico.

Olhei mais uma vez para o jovem deitado na maca com o canto do olho enquanto preenchia os papéis de identificação e a descrição do ferimento. Havíamos colocado nele um curativo de gaze provisório, antes de fazer a costura dos tecidos. Estava desacordado, respirando profundamente, com as mãos cruzadas sobre o peito e um pé para fora da maca de onde se pendurava um chinelo havaianas empapado de sangue.

Com os olhos voltados para o relatório à minha frente, não foi necessário mais do que um minuto de desatenção para que a cena aterrorizante se chocasse contra minha retina. Da distância de 3 ou 4 metros vi o corpo do rapaz corcovear no que parecia uma convulsão clônica, fazendo a perna que pendia para fora da maca hospitalar subir e descer freneticamente.

Assustado, imediatamente me joguei sobre seu corpo ensanguentado para evitar que a convulsão o fizesse cair, aumentando ainda mais os traumas que já carregava no corpo. Com todas as forças do meu pulmão gritei histericamente por ajuda enquanto me abraçava ao corpo do jovem, apertando-o contra o curvim azul e gasto da cama onde estava.

No silêncio que se seguiu ao meu grito consegui escutar uma voz:

– Ei, dá licença moço…

Soltei o corpo magro do rapaz e pude ver, com espanto, que era ele mesmo quem falava. Ainda atônito gritei:

– Cara, o que está acontecendo? Achei que você estava tendo um “troço”. Que houve? Estava se balançando todo, parecia uma convulsão!!

O rapaz, com um sorriso na face que só os ébrios conseguem fazer, respondeu:

– Convulsão doutor? Que é isso rapá!! Eu estava só tentando tirar o chinelo do pé porque está todo sujo!! Não inventa moda doutor!!! Eu hein…

Um plantão também é feito de sustos e suspiros de alívio…

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Cirurgia… de verdade

Uma lembrança que tive hoje de uma história antiga sobre as inúmeras hipocrisias na medicina.

Em um hospital de periferia no qual trabalhei logo após me formar em medicina diagnostiquei uma paciente com um tumor ovariano. Como era jovem e tinha características chamativas na ecografia (um ovário aumentado, com materiais densos como dente, osso, cabelo, etc) percebi que se tratava de um teratoma cístico benigno, tumor de células totipotenciais do ovário que produz este tipo de material. Nada grave, mas pelo tamanho valia a pena ser retirado.

Marquei a cirurgia para a semana seguinte. No dia marcado, solicitei que a paciente subisse ao centro cirúrgico para o preparo e fui me escovar. Ao entrar na sala encontrei a paciente em uma posição pouco usual (deitada de costas com as pernas afastadas) e perguntei à enfermeira do bloco a razão por terem deixado a paciente nesta posição.

– Ora, para a cirurgia doutor. Não vai manipular o colo?

– Não. Essa é uma ooforectomia (retirada de ovário) por teratoma. Olhe na grade de cirurgias. Vocês confundiram a paciente?

– Não doutor, claro que não!!! Sabemos que é uma cirurgia de “ovário”. Por isso a preparamos assim.

Disse isso e fez com os dedos das mãos curvados o sinal de aspas enquanto falava “ovário”.

Puxei a enfermeira para o lado enquanto o anestesista preparava seus equipamentos para anestesiar a paciente. Falei com um misto de espanto e rispidez, mas sussurrando para não causar desconforto na sala. A enfermeira, também surpresa, me explicou a situação.

– Desculpe doutor, eu não sabia que era uma cirurgia de ovário de verdade!! Por favor, me perdoe. Já vou arrumar a paciente na mesa como o senhor quiser.

– Ok, mas explique porque isso, por favor…

Ainda envergonhada ela explicou.

– Acontece que os médicos da cidade usam “cirurgia de ovários” para falsear os relatórios de ligadura tubária. Sempre que vemos essa cirurgia marcada na grade do bloco cirúrgico sabemos que se trata de outra coisa. Por isso preparamos a paciente para a ligadura, na forma como é usualmente feita.

No início dos anos 90 as ligaduras eram proibidas ou seguiam uma burocracia muito difícil de ser alcançada. Boa parte delas era realizada secretamente durante as cesarianas. Quem não se atrevia a engravidar apenas para “desligar” acabava engrossando a estatística de tumores ovarianos. Até hoje lembro do espanto da enfermeira quando lhe expliquei que a cirurgia era mesmo no ovário. Sim, de verdade. Juro…

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Medicina

Deuses gregos

Robbie certa vez me contou de uma amiga cujo marido é um sujeito “out of her league”. Isto é, um sujeito que é exageradamente bonito, muito charmoso e muito além da beleza da sua mulher. Eles fazem um casal díspar: um homem demasiadamente bonito para a beleza “comum” (eu diria, medíocre) da sua companheira de muitos anos. Essas são as palavras com as quais minha amiga descreveu o casal, porque nunca os vi, mas acredito no seu apurado olhar estético.

Em uma oportunidade, durante uma visita que fez com várias amigas a ela, Robbie lhe fez o seguinte comentário:

– Querida, queria lhe falar alguma coisa e não quero que me leve a mal. Por favor, entenda como uma dúvida sincera e sem segundas intenções. Eu acredito que você deve saber o que falam do seu marido, não?

Ela balançou a cabeça sorrindo e disse:

– Sim, eu bem sei. Isso já foi dito para mim de diversas formas, com atitudes, sorrisos, gestos e até palavras – como você está para me dizer. Sei o quanto ele é bonito e também como ele parece estar bem além dos meus tímidos atributos. Não tenho dúvidas disso e até eu me surpreendo. É evidente que uma relação amorosa não se constrói somente por estas capas estéticas, mas bem o sabemos o peso que elas desempenham na escolha de uma parceria. Não fosse isso verdade, que sentido haveria na extrema exaltação da beleza – em especial das mulheres – e porque tanto estranhamento se produz ao nos ver juntos?

Robbie tentou explicar que não havia nenhum julgamento, que ela era também linda, e que se tratava dê um elogio sincero de uma amiga para o “pedaço de homem” que ela tinha em casa e blá, blá, blá. Ela sorriu benevolente e continuou:

– Amiga, acredite, já ouvi isso de muitas formas. Sei o quanto ele é bonito e honestamente não consigo explicar porque ele, podendo ficar com a chefe das “cheerleaders“, escolheu ficar com a menina mediana da escola. A verdade é que devo ter atributos que ainda o encantam depois de mais de 30 anos de casamento, mas estaria mentindo se dissesse que sei quais são. Talvez exista algo na sua fantasia mais recôndita que ele encontra nessa mãe redondinha, com furinhos nas coxas e com rugas charmosas distribuídas pelo rosto.

Deu uma pausa para um novo sorriso e explicou:

– Mas no fundo eu acredito que a razão para ele ser tão simples e continuar comigo apesar de ter uma beleza física tão comentada é algo muito mais simples, que é…

Robbie arregalou o olhos, enquanto ela respondia, sem antes dar uma boa gargalhada…

– … o fato de que ele não sabe o impacto que produz nas mulheres e suas fantasias. Ele desconhece o quanto é bonito. Nunca se julgou assim e nunca apostou em sua vaidade como ferramenta de conquista ou sucesso. Talvez isso seja até uma limitação, um bloqueio de sua autoestima, mas é esse “defeito” que me permitiu ser feliz ao seu lado, e – por que não? – permitiu que ele fosse feliz comigo.

Bebeu mais um gole do chá e concluiu sorrindo:

– Só espero que vocês não tenham vindo me visitar apenas para fazê-lo, por fim, descobrir essa verdade há tanto tempo escondida de si mesmo.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Denúncias

Em 2003, há quase 20 anos, fiz uma palestra num hospital de Cleveland em Ohio sobre uma novidade que estava surgindo no Brasil, da qual eu era – e ainda sou – um grande entusiasta: as Doulas. Minha amiga Robbie convidou para a conferência um médico já avançado em idade que foi humildemente escutar minhas palavras. Era nada menos do que o prof. John Kennell, aquele que, junto com Marshall e Phyllys Klauss, trouxe para o século XXI a ancestral figura das Doulas. Na palestra mostrei para o criador como estava sua criatura: o movimento de Doulas no Brasil. Ele a tudo escutou atentamente e mostrou um vívido interesse nas repercussões dessa “velha novidade” no país do seu amigo Moyses Paciornik. Entretanto, houve um único momento de tensão, e foi quando uma assistente – provavelmente uma doula – ergueu o braço e me perguntou:

– Dr, como agir no momento em que se testemunha um erro ou uma condução equivocada de um médico durante um trabalho de parto com uma paciente sob nossos cuidados?

Eu imaginava que esse tipo de questão ocorreria, visto que se iniciava no mundo inteiro um debate cada vez mais acirrado sobre algo que, desde aquela época, passou a ser chamado de “violência obstétrica”, entendida como uma variante da violência de gênero. Minha resposta poderia ser resumida assim:

– Não lhe cabe fazer nada. Doulas não tem competência para fiscalizar trabalho médico. Mesmo que você – por estudo ou experiência – perceba estar diante de um erro ou atitude maliciosa, não lhe cabe acusar ou apontar dedos para ninguém, pois você não foi contratada para esta função. Se a sua cliente lhe perguntar diretamente, transfira a questão ao médico responsável. Não atue sobre algo que não lhe diz respeito.

Achei que que havia sido suficientemente claro mas, para minha angústia, após dizer as últimas palavras o Dr. John Kennell levantou sua mão miúda e pediu a palavra. Congelei. Todavia, suas palavras foram simples e diretas:

– Concordo com o Dr. Ric, mas deixo claro que ainda há mais um aspecto. As Doulas são personagens novas na cena do parto. Pela perspectiva de médicos e enfermeiras elas são ‘invasoras’. Se uma doula resolve denunciar médicos, hospitais e enfermeiras não só a sua porta estará fechada, mas a de todas as suas outras colegas, pelo medo que os profissionais terão de alguém que age para além do cuidado e do bem estar da gestante, atuando em verdade como uma inoportuna espiã.

Percebi nas palavras do mestre uma preocupação nítida com a sobrevivência de um novo paradigma que precisava ser lentamente aceito pela comunidade de atendentes de parto, mais do que com a justiça a ser feita em casos pontuais. Havia sabedoria em suas palavras e ficou claro para mim, já passadas quase duas décadas, que a indignação e o sentimento de justiça devem ser controlados por quem se encontra nessa posição. Faz-se necessário ter em mente um bem maior. Aceitar denúncias de Doulas produziria o fim prematuro de um movimento, o que impediria milhões de mulheres de usufruírem do benefício que elas trazem ao nascimento. Assim, sempre que surgem Doulas envoltas em indignação por casos que testemunharam, eu acho justo que tenham noção da real função que elas desempenham na história e no futuro do parto, para que uma atitude intempestiva não coloque tanto esforço a perder

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Parto

Carros

Eu ando cada vez menos de carro. O confinamento causado pela pandemia e o meu temperamento recluso acabaram agindo sinergicamente para que eu não saia mais de casa. Ahh, e a gasolina também, que horror. Mas não contabilizo como uma real perda, porque nunca tive grande prazer em dirigir ou mesmo algum interesse em automóveis.

Meu pai foi da geração de ouro do automóvel como expressão de status e de liberdade. Gostava de carros e sempre teve carros muito bons. Desde o primeiro no final dos anos 50, um Austin importado, passando pelos DKVs e os carros da Ford, terminou a vida com um Audi, simples mas chique. Os carros sempre foram ícones do capitalismo ocidental, e meu pai era um apaixonado pelos seus múltiplos aspectos e significados.

De minha parte, jamais me interessei pelo assunto. Comprei um fusca com 25 anos, e antes disso só havia dirigido ambulâncias. Sou incapaz de dizer marcas ou nomes de carros. Quando vejo no Uber a marca de carro que o sujeito vem me buscar isso não tem significado e sequer produz alguma ajuda. Sou um ignorante confesso sobre este tema.

Há alguns anos meu irmão resolveu vender seu carro e avisou meu pai. Quando soube da venda meu pai decidiu comprá-lo e me dar de presente, porque sabia da precariedade do carro que eu usava. Pela primeira vez tive um carro com ar condicionado, o que me deixou emocionado. Isso já faz quase 15 anos.

Ainda tenho esse carro, que agora completa 21 anos de idade. Adoro andar com ele pelo bairro, mas não me arrisco a sair com ele mais do que uns 2 km de raio. Ele me lembra da generosidade do meu pai e do amor que ele sempre teve pelos automóveis. Existe muito mais do que o valor operacional de ter este veículo a me transportar; há nele um simbolismo e um valor subjetivo que me faz querer tê-lo por perto.

Na verdade, quase todos os nossos objetos são assim. Que seria do capitalismo se não houvesse nas coisas muito mais do que a sua utilidade? Que seria do consumo se por trás de cada compra não existisse uma promessa de felicidade e alegria? Que seria da publicidade se as pessoas deixassem de colocar em suas compras a responsabilidade pela sua realização pessoal? Como será o mundo quando o desejo de possuir deixar de dirigir nossas vidas?

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

A alegria alheia

Ontem mesmo escrevi sobre o sonho que tive com o meu pai e hoje estava (re)pensando alguns dos seus significados. Estranho agora entender através de uma perspectiva diferente. A morte de alguém nos deixa um vazio, e essa lacuna é ainda mais dolorida quando perdemos mãe e pai em sequência. Esse vazio nos causa tristeza, desamparo e saudade, mas agora me dei conta de que estes são os nossos sentimentos em relação à partida, mas não necessariamente os sentimentos de quem foi embora.

Eu pensei nessa perspectiva porque há muitos anos meus filhos foram embora de casa para viver fora do país, deixando seus pais com a casa esvaziada. A sensação estranha que eu tinha era que, sempre que eu conversava com eles pela Internet (que ainda engatinhava) eu tinha a nítida sensação de que a minha tristeza não era compartilhada. Sim, eu era o “pai abandonado”, aquele que havia perdido uma parte de si, enquanto eles era os filhos “libertos”, jovens que estavam conquistando sua autonomia e curtindo as milhões de coisas boas que essa vida leve e solta é capaz de proporcionar. Assim, a minha vontade de que voltassem para casa – e assim aliviar minha saudade – se chocava com a felicidade que eu via em seus relatos diante de cada nova viagem, cada país visitado, cada conquista no trabalho e os lugares que haviam conhecido. Como poderia eu ser tão egoísta a ponto de pensar que eles deveriam abandonar essas coisas boas em nome do meu sentimento egoístico de tê-los por perto?

O sonho com meu pai trouxe de volta esta perspectiva. Se houver mesmo essa dimensão extrafísica, a sobrevivência de um princípio espiritual sobrepondo-se à morte, como pedir que meu pai se demorasse por aqui diante de tantas coisas novas para se alegrar do lado de lá? Eu imagino a alegria que o envolveu ao poder conversar com minha mãe recuperada, renovada depois de tantos anos imersa em um mundo só dela. Posso até ver, diante dos meus olhos, minha mãe voltando a conversar com ele do jeito meigo que sempre teve. Seria justo privá-lo disso? Tenho certeza que, reunidos e “restaurados” eles fariam as viagens que minha mãe sempre sonhou. Voltariam a Paris, visitariam museus, encontrariam tantos amigos que já se foram, fariam planos, curtiriam a vida. Seriam felizes de uma forma que não é possível compreender deste lado de cá.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Sonho

Tive um sonho com meu pai. Nele eu estava muito deprimido e pensei que ele podia aparecer para me dar alguns conselhos ou aclarar minhas ideias sobre os dilemas que terei que enfrentar. Pois, por ser sonho, ele apareceu, do jeito que sempre me lembro dele. Suas sandálias, a camisa alinhada, os óculos e o cabelo branco. Quando me viu, no meio de um lugar movimentado que parecia ser um restaurante, pareceu surpreso.

– Oi meu filho, como vai? Que saudade!!

Emocionado o abracei.

– Obrigado pai, eu tinha muita coisa pra lhe dizer. Como você está bem!!! Como está a mãe?

Ele riu de forma tímida e respondeu.

– Pois achei que tua mãe viria junto. A gente estava conversando sobre a viagem quando ficou tudo enevoado e eu apareci aqui. Não a viu?

Respondi que não vi mais ninguém além dele, mas perguntei de qual viagem estava falando.

– Ah, uma viagem longa. Vamos a vários lugares, mas primeiro tua mãe quer passar em Paris. Sabe a paixão que ela tem por essa cidade.

– Fico feliz que vocês possam fazer estes programas. Na verdade sempre imaginei que estariam fazendo coisas assim.

– Ah, tua mãe sempre teve essas ideias. Ele adora esses programas. Pois foi um prazer lhe ver filho. Bom mesmo. Cuide o peso, caminhe bastante. Dá aqui um abraço.

Só então percebi sua inquietude.

– Está com pressa? Recém chegou!!

– Não é exatamente pressa, mas nós estávamos fazendo as malas. Imagine uma viagem que mistura Jericoacoara, Paris e o pico do Himalaia no mesmo pacote. Sabe como tua mãe gosta de levar tudo e não esquecer nenhum detalhe. Eu estava exatamente escolhendo umas camisas quentes quando você chamou. Mas veja, podemos conversar mais um pouco, se quiser.

– Na verdade eu tinha tanta coisa pra contar. Queria perguntar sua opinião sobre algumas decisões a tomar e algumas curiosidades. Por exemplo, no céu tem pão?

Ri sozinho e meu pai pareceu não entender a piada, pois ficou explicando sobre as padarias que tem na rua onde ele mora. Enquanto falava olhou para o seu relógio.

– Olha, podemos marcar pra outro dia? Sabe como é tua mãe, deve estar preocupada me procurando. Se eu estivesse com meu celular ligava pra ela, mas deixei em cima da mesa da cozinha junto com os documentos e o passaporte.

– Mas eu tenho algumas coisas a perguntar, e eu…

Sua resposta foi um abraço e mais poucas palavras.

– Em breve vamos nos encontrar, não se preocupe. Voltarei com mais tempo para conversar. Saiu caminhando em direção à saída, e quando estava próximo da porta se virou para mim e perguntou de longe:

– E o Grêmio? Lá de cima a gente não tem acompanhado.

Acordei em lágrimas…

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Bateria

A bateria do meu velho carrinho faleceu, apesar dos nossos esforços paliativos. Descobri a loja mais próxima e telefonei perguntando se haveria bateria de 60 amperes. O jovem atendente confirmou e lá fui eu para trocar. Fui atendido por um jovem de 20 e poucos anos que me mostrou em um catálogo o tipo de bateria que eu precisava, mas lamentou pois havia se enganado.

Sim, a bateria estava em falta e a que eu precisava chegaria apenas no meio da tarde. Desculpando-se pela falha ele se comprometeu a levar na minha casa, já que eu estava com a Avinha e a Bebel e não teria como esperar.

Pediu meu endereço e se surpreendeu que éramos quase vizinhos, pois ele morava não mais de 500m da Comuna. Perguntou o que eu fazia e eu lhe disse que trabalhei 35 anos como obstetra. Nesse ponto, o dono da loja de baterias apontou para o jovem e falou orgulhoso:

– Esse meu filho está se formando em psicologia.

Surpreso, perguntei a ele o que pretendia fazer depois da graduação, e ele me respondeu sem titubear: “clínica psicanalítica”. Disse que estuda Freud e Lacan e pretende fazer pós graduação aqui mesmo em Porto Alegre. Conversamos sobre alguns dos meus professores daqui, como Alfredo Jerusalinsky, Contardo Calligaris, a psicanálise argentina e a APPOA. Por fim ele me disse que no momento estava fazendo estágio em clínica de crianças, que era o que pretendia fazer no futuro. Nos despedimos e voltei para casa. Agora estou aguardando a chegada da bateria.

Pergunto a você, que leu até aqui: quando você imaginaria que, ao procurar um lugar para trocar sua bateria arriada, seria atendido por um psicanalista?

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

O Desprezo pelo Povo

Quando me submeti à entrevista para residência médica, há 35 anos passados, havia na sala de reuniões médicos contratados, professores e, representando os discentes, uma residente R3. Esta médica sempre foi para mim o paradigma das residentes do hospital: branca, loira, rica, de família de médicos, altiva, “chique” e uma típica representante da burguesia local. Estava terminando seu tempo no serviço e já tinha seu consultório montado na zona mais rica da cidade. Eu sempre achei bizarro graduar médicos pela Universidade pública que, logo após formados, nunca mais atendiam a população carente. Estes profissionais centram seu trabalho nas classes mais abastadas, deixando os proletários nas mãos do serviço público, cada vez mais escasso em recursos. Sempre acreditei que deveria haver um sistema de reciprocidade obrigatório, que determinasse aos formados em universidades públicas o trabalho compulsório para a comunidade. Como um “serviço médico obrigatório”, a exemplo do serviço militar. Nunca vi nenhum projeto nesse sentido.

Minha entrevista foi protocolar e sem qualquer sobressalto. Perguntas óbvias e manjadas (o que faria se uma paciente solicitasse um aborto?) ou “pega ratões” tolos (estetoscópio ou esfigmo?) além de perguntas sobre banalidades obstétricas. Lembro apenas que me perguntaram se eu seria “ginecologista ou obstetra” e qual meu hobbie (respondi que era “cinéfilo”). A entrevista estava terminando quando a colega residente perguntou algo sobre a assistência no serviço público. Não lembro exatamente o que era, e minha resposta hoje seria considerada banal. Ora, eu estava entrando no serviço público, em um hospital público e para atender pacientes do INAMPS – precursor do SUS. Como poderia falar mal de um hospital que me receberia de braços abertos e dos pacientes cujos corpos seriam a mim oferecidos para aprendizado?

Sim, eu sei, fui enfático em demasia nessa defesa. Expus com entusiasmo a honra de atender o povo, pois foi o povo que pagou meus professores, minha universidade, minha formação inteira e eu deveria, de alguma forma, devolver tamanho investimento na atenção aos que tanto se sacrificaram para a minha educação. Não só na Universidade, mas desde muito cedo, quando entrei na escola pública aos 6 anos de idade. Logo percebi que a minha colega se incomodou com a resposta. Talvez porque ela mostrava o contraponto à postura que ela estava prestes a tomar: esquecer o povo mais pobre e se voltar às elites e à classe média alta. Olhou para mim e respondeu no limite da rispidez:

– Quem sabe então você deveria ser assistente social.

Fiquei em silêncio, pois sabia que não havia espaço para a resposta que gostaria de dar. Todos nós candidatos estávamos nas mãos daqueles julgadores e suas avaliações subjetivas. Há poucos anos havia escutado – pela voz do próprio professor – que ele havia dado “zero” para um candidato à residência de clínica médica por ser “demasiadamente efeminado”. Eu não queria ser mais uma vítima da crueldade de um julgador preconceituoso. A entrevista se encerrou e alguns dias depois veio o resultado. Fui aprovado em 5o lugar, e três semanas depois fazia meu primeiro plantão como residente de GO naquele mesmo hospital. Mas nunca esqueci o desprezo daquela colega – a quem nunca mais vi – pelo simples fato de que reconheci uma dívida que nós, estudantes das escolas públicas, tínhamos para com o povo – povo este cujo esforço conjunto foi o suporte essencial para a nossa formação.

Quando vejo os velhos representantes da corporação se manifestando de forma tão cruel sobre a população mais necessitada – e contra o SUS – eu penso que eles são egressos dessa geração, onde o trabalho assalariado no serviço público era visto como fracasso. Mas ainda acho que para mudar a prática da Medicina é preciso revolucionar o ingresso nas Escolas Médicas. Para saber mais sobre o tema, veja esta outra crônica escrita há alguns anos aqui

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Objetos

Quase todos as noites ouço meus netos correndo com seus passos miúdos e os pés descalços em direção ao meu quarto. Trazem no rosto o olhar que conheço muito bem: a avidez por alguma novidade, uma conversa, algo para contar da escola ou um bicho diferente que viram perto do galpão de sementes. Mas na maioria das vezes eles apenas dizem em uníssono:

– História!!

Eu sempre reclamo, pois na hora que me pedem eu estou invariavelmente fazendo alguma coisa “importante”, seja estudando para uma prova, escrevendo ou olhando um vídeo. E eu sempre paro tudo o que estou fazendo porque sei que, no meu leito de morte, vou imaginar que todo o dinheiro do mundo seria pouco para poder reviver estes momentos. Melhor vivê-los agora, enquanto ainda é tempo.

Ato contínuo, o menor se volta para a vó e grita poucas palavras, mas que servem como um código para a sessão de aventuras que se aproxima:

– Vovó!!! Chá e bolacha!!!

E lá vem ela com três xícaras de chá de casca de limão (colhido na Comuna) e uma travessinha que ela trouxe do Japão quando fez estágio pela JICA em Osaka. A rotina então se repete: eles tomam o chá enquanto eu conto a história e depois distribuem farelo de bolacha salgada por todos os cantos do quarto. Terminado o capítulo, com o famoso “qua qua qua qua…” decrescente, eles ficam brabos, fazem ameaças, choram e reclamam, mas por fim aceitam ir para casa dormir.

Entretanto, o que mais me chama a atenção são estes objetos aleatórios que ficam marcados nas vidas das crianças, guardados nas memórias mais profundas. Só muito mais tarde reaparecem em suas vidas adultas, já modificados, codificados, transformados. Estes objetos fazem parte do acervo de pequenas coisas do período inicial das nossas vidas, e que depois desaparecem, porém jamais completamente. Ficam adormecidos em algum lugar da mente, para serem trazidos em formas diversas em outros momentos.

Tenho vários destes do tempo em que eu convivia com minha avó materna, a vó Irma. Quando eu passava fins de semanas inteiros na sua casa eu lembro das pequenas coisas, do quarto de ferramentas, do jardim nos fundos, das orquídeas bem tratadas e de tantos outros badulaques.

Não tenho a menor dúvida que estes artefatos ainda me acompanham, mesmo que travestidos de outras coisas, das quais não me desfaço por saber que são parte do simbólico que me constitui.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais