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À Esquerda

Existem, sim, muitos médicos de esquerda no Brasil, em especial na medicina social, medicina de família, epidemiologia e … paramos por aí­. Entretanto, a gigantesca maioria dos médicos do Brasil é direitista, conservador e – em alguns casos – claramente fascista – como o “dignidade medica” acabou trazendo à tona.

Porém, como poderíamos imaginar algo diferente? Em uma fala que apresentei em 3 países diferentes (Estados Unidos, Escócia e China) mostrei que o estudante de medicina médio brasileiro é branco (87%), mora com pais que ganham 30 salários mínimos mensais (30%), 40% tem irmão ou pai médico, 75% tem pai com curso superior e 65% tem a mãe com ensino superior completo. Como esperar que esses estudantes, egressos da elite brasileira, não reproduzissem as atitudes e os valores do estrato social que os acolheu desde o nascimento? Seria uma brutal ingenuidade esperar da corporação médica algo que atingisse em cheio seus valores mais profundos. Não virá daí­ a linha de frente das reformas que esperamos.

Por esta razão, para mudar a face da medicina brasileira (especializada, elitista, burguesa, branca e conservadora) é essencial mudar a forma de ingresso. É preciso criar cursos populares de medicina voltados aos estudantes pobres e da periferia, com currículo de primeiro mundo, especializado em saúde primária e nos 4 campos fundamentais: pediatria, gineco-obstetrícia, clínica médica e cirurgia para inundar o Brasil de clínicos gerais e médicos de família.

Esse é um dos caminhos – ou um dos mais desafiadores – para sepultar de vez uma medicina burguesa e que atende aos interesses das elites e dos grandes conglomerados hospitalares e farmacêuticos.

Ninguém duvida de que é importante ter um ensino médio de qualidade, mas por que devemos achar que apenas os alunos de periferia e mais pobres precisam disso para cursarem Medicina? Qual a relevância disso para universalizar o ensino da medicina? Minha tese é de que devemos democratizar o ensino para que tenhamos pessoas de todas as classes atendendo a população, e não apenas aqueles produzidas nas camadas mais abastadas e brancas da população.

Não vejo também qualquer problema em treinar alunos em universidades públicas, privadas ou populares para a realização de procedimentos de alta complexidade? Porém, tenhamos em mente que “cirurgias robóticas” ou o uso de tecnologias caras e sofisticadas tem impacto zero na saúde da população; é uma estratégia para auxiliar um número extremamente restrito de pacientes. Pensemos do ponto de vista do incremento de saúde após a introdução de uma técnica médica qualquer (Rx, ultrassom, aspirina, cirurgia robótica, antibióticos, tomografias, quimioterápicos, etc…) e entenderemos que adicionar açúcar a uma solução salina tem muito mais impacto na saúde das populações do que tecnologias sofisticadas e caras como ecografia, MRI e tantas outras.

Estas atitudes – muitas vezes simples e baratas – melhoraram a vida de milhões de pessoas, e não apenas de alguns poucos. Muito mais importante, para qualquer país do mundo – desenvolvido ou não – é uma excelente atenção básica à saúde, com recursos adequados e de forma preventiva e não intervencionista. O que precisamos deixar para trás é um paradigma médico ultrapassado e mercantil, baseada na sofisticação, no dinheiro, no mercado e para a atenção de pouquíssimas pessoas, quando o que precisamos é de uma visão de medicina que seja útil e adequada para todos.

Falta Ivan Illich nas faculdades de Medicina…

“Vidros nas janelas e cuecas limpas fizeram mais pela saúde do mundo do que todos os remédios jamais produzidos pela indústria”

Ivan Illich

Podemos ainda aceitar que o paradigma americano é adequado para o mundo? Pois tenhamos em mente que os Estados Unidos é o 50o país em mortalidade materna e o 52o em mortalidade neonatal, e tem resultados piores do que qualquer país europeu – incluindo aí Albânia, Grécia e Ucrânia. Os Estados Unidos é um dos poucos países (5 apenas) em que a mortalidade materna aumenta!! É o mesmo país onde se pode fazer “cirurgias robóticas”, mas a assistência é restrita a quem pode pagar, pois não é um direito básico. Além disso, são cirurgias “espetaculares”, geram encantamento e deslumbramento, mas na prática não são capazes de modificar o perfil de saúde de nenhuma população. Aqui, onde estou, só a classe média abastada consegue ter médicos na família, pois os custos são estratosféricos. Esse é um dos piores modelos de saúde do mundo e está desmoronando (leiam as notícias daqui!). É possível acreditar que ele pode ser paradigma para alguma coisa apenas porque tem sofisticação tecnológica para poucos, mesmo quando fica claro que não soluciona os problemas de saúde da  gigantesca maioria da população??

Pensemos bem; precisamos romper o preconceito sobre os alunos de periferia que ingressam na universidade, principalmente fazer uma crítica aos argumentos que batem na velha tecla do “perfil de entrada“, a mesma queixa que se mostrou falha na questão das cotas. Os alunos cotistas pobres tem desempenho igual ou superior ao dos outros alunos, e isso é uma realidade já bem conhecida. O que os argumentos anti-cotistas insinuam é que alunos pobres ou de periferia não teriam condições de exercer uma medicina sofisticada, o que é muito arriscado de dizer, já que todas as evidências apontam para a direção oposta.

Quanto à qualidade de vida, alguém ainda acredita que isso é conseguido com cirurgias de alta complexidade? Não, esta é uma visão que está redondamente equivocada. Isso se consegue com educação para a saúde. Comida, emprego, qualidade de relacionamentos, medicamentos simples e saneamento básico. São os engenheiros e os políticos que geram saúde, não os médicos. Somos muito bons para tratar doenças, mas pouco sabemos sobre promover saúde. Aliás… saúde não dá dinheiro, só doenças dão. Essas cirurgias e intervenções dispendiosas, por mais que tenham, SIM, espaço na medicina contemporânea, não são a solução para a saúde da população, mas apenas para poucos casos selecionados. Por certo que devemos ter médicos preparados para seu uso, mas jamais acreditar que é a utilização dessas técnicas que fará a diferença na qualidade de vida de todos.

Para finalizar, a ideia de que há uma necessidade para que a medicina se mantenha com o perfil aristocrático e elitista que eu apontei precisa ser criticada. Não acredito que avançaremos com médicos tão divorciados da realidade brasileira, onde o fosso que os separa da população é tão grande a ponto de não reconhecerem seus idiomas. Os estudantes de medicina oriundos das classes populares deverão ter seus custos pagos pelo Estados e terão o compromisso de dedicação exclusiva aos seus estudos. As necessidades sociais que eles tem não podem ser usadas contra eles, mas como um desafio que a sociedade como um todo precisa transpor.

Além disso, as universidades que preparam estes médicos aos poucos deverão se preparar para a medicina do século XXI, que não vai apostar na sofisticação tecnológica e no mercantilismo, mas na racionalidade dos recursos (leia sobre “slow medicine“, a nova onda, e sobre Saúde Baseada em Evidências!!!) para a atenção da população. Isso sim vai gerar uma onda positiva de saúde, e não apenas o enriquecimento perverso das máquinas de doença geradas pela busca insana de lucro através do sofrimento.

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Proletários

O Sindicato dos Médicos do Ceará em uma nota oficial (vide abaixo) avisa que não participará da GREVE GERAL marcada para o dia 28 de abril como forma de combater o desmanche da CLT e as reformas da Previdência danosas aos trabalhadores.

Primeiramente, vamos deixar claro que a nota é natural e não deveria causar nenhuma surpresa. O contrário sim seria digno de espanto: médicos descerem do seu pedestal de barro admitindo que são trabalhadores como quaisquer outros. Infelizmente os médicos do Brasil ainda “comem galinha e arrotam peru“. O tempo do médico filho de latifundiário, que vivia de clínica privada e doava uma tarde por semana aos miseráveis da Santa Casa já acabou há 30-40 anos. É preciso acordar desse sonho de grandeza aristocrática que ficou no passado.

Médico é proletário, estuda pra concurso, é funcionário público e ganha salário achatado. Continuar com essa arrogância tola e falsa é uma estupidez suicida. Manter-se fora da classe trabalhadora, desprezando-a de forma pedante é uma atitude estúpida e retrógrada. Melhor seria assumir sua posição como trabalhador e aderir a um movimento cuja proposta é garantir direitos conquistados que atingem a todos, inclusive os próprios médicos.

Mas essa humildade talvez seja inalcançável para uma categoria que esteve aliada ao golpe desde o primeiro instante. Triste reconhecer que a classe médica no Brasil é a vanguarda do atraso e da exclusão social.

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Evidências

Revisando os antigos manuscritos de Robbie para a preparação de sua “Antologia”, que deverá ser publicada em breve, me deparo com uma frase que pode explicar de maneira muito clara as dificuldades de entender a falta de racionalidade e embasamento de muitas das intervenções médicas obstétricas contemporâneas, em especial a episiotomia. Foi isso que a Dra. Melania Amorim trouxe à discussão através do seu originalíssimo ECR.

“E ainda assim, os significados culturais e simbólicos desses procedimentos são profundos, indicando cada vez mais que os protocolos hospitalares para a atenção ao parto não fazem sentido numa perspectiva científica, mas permanecem por estarem repletos de sentido cultural”.

Assim sendo, uma episiotomia, um Kristeller ou uma cesariana não precisam ter embasamento científico para serem dominantes na cultura obstétrica contemporânea. Para que sejam preponderantes basta que possuam “sentido cultural“, isto é, que estejam adaptados a uma visão cultural subjacente e silenciosa (uma ideologia) que desmerece a mulher e suas capacidades reprodutivas, e que coloca a tecnologia e o saber racional como válidos e autoritativos, desta forma desvalorizando a fisiologia feminina, em especial no momento do parto e nascimento.  

Quando ouço críticas a alguns procedimentos relacionados com o termo “humanização” – como parto extra-hospitalar, posições alternativas à litotomia, doulas, períneo íntegro, acompanhantes, livre deambulação, etc – e vejo colegas exigindo as “comprovações científicas” de tais condutas (que existem em abundância) eu acho engraçado e curioso o desejo insano de que tais procedimentos tenham a devida e justa comprovação quando praticamente nada do que é feito rotineiramente num atendimento ao parto tem qualquer embasamento científico – apesar de se conformar às normas culturais que colocam a intervenção como “salvadora” e a fisiologia feminina como “perigosa”.  

Pensem bem, onde estão as evidências que sustentam os seguintes procedimentos que ocorrem em praticamente todos os hospitais brasileiros de forma rotineira:  

– Trocar a roupa ao chegar
– Tomar banho
– Soro de rotina
– Ocitocina para apressar o parto
– Raspagem de pelos
– Enema glicerinado
– Restrição ao leito
– NPO (jejum forçado)
– Afastar a família e/ou acompanhante
– Monitorização eletrônica de rotina
– Parto em posição de Litotomia (deitada de costas)
– Episiotomia de rotina – Kristeller
– Afastamento do RN para rotinas
– Perda da “hora dourada” da amamentação
– Cesarianas (88% no setor privado e convênios)
– Cesarianas (43% no SUS e 55% no geral)

Não estão em nenhum lugar, não é? Se elas não existem, por que continuam sendo feitas inclusive em hospitais universitários, que deveriam zelar pela atualização e adequação de seus protocolos?

Ora, porque a Medicina é um sistema hierárquico e totêmico. Ela não se expressa primordialmente como ciência, mas como poder. Só isso explica que os procedimentos não se adaptem à ciência, mas a uma determinada cultura que coloca os profissionais médicos acima de seus pacientes e acima da própria ciência. As realidades científicas serão sempre bem vindas quando se adaptarem à norma cultural (cesariana, episiotomia, parto hospitalar, etc..) e serão sempre rechaçadas com extrema violência quando afrontarem os valores culturais dominantes (parto domiciliar, atenção por enfermeiras, casas de Parto, presença de acompanhantes/doulas, etc…).

A Medicina é a fiel guardiã disseminadora dos valores profundos do patriarcado.

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Médico ideal

(…sobre a produção do “médico ideal”)

Desde a época da escola médica recebemos daqueles que nos orientam a ideia de que envolver-se com os pacientes é uma atitude “fraca”, “débil”, que demonstra uma labilidade emocional e afetiva, a qual aponta para uma falha formativa. O subtexto dessa formação é que o “médico perfeito”, na concepção platônica, deveria ser como o juiz: frio, duro, imparcial e sem qualquer esboço de emoção. Ou como o Dr. House: insensível, técnico, bruto, estúpido, grosseiro e genial.

Talvez esta visão de médico tenha uma conexão atávica com os antigos operadores de casaca curta, os “cirurgiões barbeiros”, que não carregavam nenhum sangue nas veias e se mantinham de pé sustentados por seus nervos graníticos, que arrancavam pernas, cálculos da bexiga e braços sem anestesia, olhando a dor, a agonia e até a morte dos pobres enfermos sem sequer mover as sobrancelhas.

Mark Lipmann, “Doctors from the Heart”, ed. Volare, pag. 135

Mark Weinstein Lipmann é um pediatra americano nascido em Houston – Texas em 1954. Foi criador e diretor do Centro de Pediatria de Pasadena, cidade para onde se mudou após terminar a residência em pediatria e neonatologia. Desde muito cedo começou a questionar o modelo tecnocrático de atenção à saúde, com intervenções exageradas e potencialmente perigosas, em especial na sua área – a pediatria. Desta forma, começou a militar nos movimentos de apoio à amamentação, sendo membro integrante da conhecida “La Leche League”. Escreveu inúmeros artigos sobre amamentação e inclusive a importância do parto normal e fisiológico para a introdução imediata da amamentação, assim como a importância da ausência de drogas no leite materno para um processo de aleitamento mais tranquilo e efetivo. Foi perseguido pela corporação médica de sua cidade por sua militância pelo parto e pela amamentação, e seguiu lutando a despeito das agressões e sanções. No livro “Doctors from the Heart” enumera suas convicções e o arcabouço teórico e filosófico do suporte à amamentação livre e ao parto normal. Foi aclamado pela crítica como “um libelo a favor da natureza humana e pelo resgate de uma vida mais simples e saudável” por sua postura firme, embasada e concisa sobre a importância de resgatar a fisiologia perdida pelo capitalismo e a tecnocracia.

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Abusos

Estive circulando na medicina por 39 anos e as atitudes desrespeitosas e abusivas dos estudantes, residentes, preceptores e professores sempre ocorreram. Não acredito que exista uma “crise” real surgida há poucas semanas ou meses, mas apenas uma publicidade maior para um problema centenário. Não há nada que me faça pensar que na minha época de estudante a atitude dos alunos em relação a pacientes e familiares era melhor. Em verdade, lembro de alguns episódios que seriam impensáveis nos dias de hoje, tamanho o desrespeito e o desprezo com as mulheres, em especial.

O que temos agora são mecanismos mais rápidos e eficientes de disseminar a informação e uma cultura mais madura para denunciar abusos, mas o comportamento dos estudantes e médicos continua o mesmo das últimas 4 décadas. O problema pode ser melhorado com a vigilância sobre a formação e o reforço de conteúdos éticos na faculdade (nada a ver com ética médica, que tem muito mais a ver com Maçonaria e lealdade corporativa), mas nada vai mudar de verdade sem questionarmos quem são os brancos (87%) classe média alta (80%), filhos ou irmãos de médicos (40%) que constituem o corpo discente da maioria das faculdades de medicina do país.

Esse perfil de entrada é a base para entendermos o brutal fosso de valores, ideias, visões de mundo, perspectivas e posturas que separa os médicos do universo de pacientes que são por eles atendidos. Sem que essa distância seja encurtada toda e qualquer transformação será apenas parcial e/ou paliativa.

Não basta aumentar a carga horária da disciplina de deontologia médica para “passar uma cal branca sobre a casa rachada“. Não é com este tipo de atitude que vamos fazer uma revolução paradigmática. Precisamos debater que médicos queremos e quem estamos formando. Como bem sabemos, os médicos chegam à faculdade egressos de um estrato social completamente diverso dos pacientes que virão a atender, mas a escola médica, ao invés de tentar consertar este desvio e esta perversão ainda reforça os preconceitos, assim como a visão classista e excludente dos alunos. Os exemplos vem de cima; o preconceito é uma cátedra sem professor titular, mas que todos os alunos conhecem desde o primeiro dia do curso. É por isso que as pessoas que já conviveram dentro de uma faculdade de medicina não se espantam com o relato de doutores recém formados (ou não) desprezando enfermeiras, doulas e funcionárias(os) ou tendo atitudes absolutamente machistas e abusivas com os pacientes, os mesmos a quem juraram proteger e curar. Esse ainda é o padrão de uma corporação que insiste em se manter na Casa Grande.

Minha sugestão – e desde já deixo claro que ainda utópica e sonhadora – é a criação de uma instituição que existe em outros países, salvo engano, a França: a “Ordem dos Pacientes” ou o “Conselho Federal dos Pacientes” que se ocuparia de receber as queixas de pacientes e estaria a serviço da sua proteção contra erros e equívocos de hospitais e profissionais de saúde. Pedir que os médicos façam o controle de seu próprio trabalho é ingenuidade. Os conselhos servem para proteger a medicina e os médicos, e isso não é uma acusação aos conselhos diante dessa importante e essencial função, mas o reconhecimento de que ela não é eficiente para auxiliar os pacientes. O “caso Adelir” é um bom exemplo. Para mim seria importante criar uma instância extrajudicial que pudesse fazer essa mediação antes de que os casos fossem enviados aos tribunais, diminuindo as demandas e fortalecendo as negociações, sem ser movida por um caráter primordialmente punitivo.

Não parece interessante? Eu, por conhecer os tribunais e seus conselheiros, percebo o quanto é ingênuo imaginar que os conselhos  de medicina possam deliberar contra si mesmos, cortar na própria carne e agir contra os poderes estabelecidos, os quais sempre beneficiam a categoria. Não faz sentido. Quando sou confrontado com esta minha desconfiança eu sempre pergunto aos amigos: “Na última eleição para o Conselho de Medicina, em quem você votou?“. Claro que as pessoas sempre respondem que só médicos votam nessa eleição. Então eu respondo: “E por que você acha que os conselheiros médicos favoreceriam os pacientes ao invés dos seus próprios eleitores?

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Sintoma Médico

O que causa o verdadeiro desconforto com a atitude dos estudantes recentemente chegados à escola médica é que sua atitude não se desenvolve em um vácuo. Não se trata de uma anomalia ou um fato isolado, mas o sintoma de uma doença sistêmica que só agora parece ser mais facilmente diagnosticada. Não é uma unha encravada ou o ferimento superficial em um corpo previamente saudável; não se trata da aparição súbita de uma infecção exógena que ataca um corpo indefeso.

Não. O que traz preocupação é que tais manifestações são apenas os sintomas e sinais visíveis de uma doença profunda, que agride os sentidos de forma insidiosa, que contamina os tecidos e órgãos de forma silente, mas que pode ser percebida quando deixamos de olhar para o evidente e levantamos o véu para ver o que se encerra por detrás do meramente manifesto.

Não é porque são estudantes de Medicina apenas, mas por serem parte dessa classe média arrogante e retrógrada que infesta o Brasil. Esses estudantes vão apenas reforçar esse preconceito durante a formação médica, e vão reproduzi-lo durante toda a vida profissional. Muito triste saber que eles terão a saúde de pessoas em suas mãos.

Todo movimento na medicina, por mais sutil e delicado que seja, é traçado pelas linhas do poder. Ali, nas entrelinhas do discurso, no espaço que se estende entre as palavras, no gesto fino, no branco difuso, na luz ofuscante, na frase cheia de abreviaturas, na desconexão entre o sentir e o real do corpo, entre o sujeito e o objeto é que se constrói a força dessa relação.

Esse encontro mágico tem a potencialidade ser o mais criativo caminho de cura, mas exatamente pela magia que o constitui e sustenta acaba sendo permeado por gritos de soberba e arrogância. Estes apenas sinalizam que o caminho que escolhemos se perdeu há muito e que reconstruir a arte de curar é outra grande tarefa para o milênio que se inicia.

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Mensagens

Aquilo que usamos do lado de fora do corpo são mensagens de conteúdos, valores e desejos que carregamos por dentro. Mesmo uma sunga, um chapéu, paletó, gravata, cueca e meia são mensagens. São mensagens até quando estão escondidas.

Mas é bom entender que as diferenças de estrutura sexual entre homens e mulheres (e não apenas a cultura) produzem mensagens diferentes. É pela estrutura sexual narcísica feminina que o mundo da moda é gigantesco. Se dependesse da moda – roupas e mensagens – masculina nós compraríamos apenas sacos de algodão no empório da esquina para nos vestir e aquecer. Ok, um exagero, mas a indústria de moda masculina é uma fração minúscula do que é aquela feita para mulheres.

Para quebrar o estereótipo do médico como um ser superior ou “diferente” do resto da população eu jamais usei um jaleco para atender pacientes em consultório durante toda a minha vida profissional. Nunca me senti bem com a fantasia de superioridade que os médicos usam, muitas vezes para esconder a insegurança que tem diante da angústia de decidir sobre a dor e o sofrimento alheios.

Roupa é mensagem. Biquíni é mensagem. A gravata vermelha do Trump é mensagem. Decote é mensagem e jaleco com estetoscópio no pescoço é mensagem. É importante decifrar estes códigos para que o seu significado seja trazido à consciência.

O jaleco é uma forma de impor autoridade através da vestimenta, da mesma forma – e pelas mesmas razões – usada por pajés e xamãs. Se o objetivo é estabelecer um debate de igualdades entre médico e paciente, onde a assimetria técnica se estabeleça na transferência (e não na aparência) então é melhor abandonar estas parafernálias externas.

Em um encontro médico-paciente não apenas as roupas são mensagens, mas todo o entorno também faz está função. A mesa de exames, a escrivaninha, o aspecto asséptico do consultório, os diplomas na parede, a linguagem técnica e empolada (a mais importante mensagem, mais pela forma que pelo conteúdo), a distância dos corpos, o “Dr”, a secretária, a dificuldade de acesso são todas poderosas mensagens subliminares de autoridade e, acima de tudo, comunicam ao paciente que ele está diante de um ser superior.

A confiança deveria se estabelecer pelo exemplo, pelo discurso e pelas atitudes e não através dos adereços

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Medicina Americana

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Uma amiga minha que mora nos Estados Unidos foi acometida de uma dor abdominal violenta que se manteve por alguns dias. Em seu histórico o (ab)uso de remédios, em especial anti-inflamatórios e antidepressivos. Não tinha cobertura de nenhum seguro saúde, mas dentro de 5 dias ela alcançaria o vencimento de sua carência. Sozinha e em pleno desespero decidiu-se por procurar uma emergência, pois teve medo de morrer. Foi admitida e realizaram muitos exames, todos os possíveis em um caso de dor epigástrica aguda sem febre, diarreia ou sintomas sistêmicos.

Durante 5 horas permaneceu na emergência. O diagnóstico final foi “gastrite aguda”. O tratamento foi basicamente aquele para quadros similares: antiácidos e bloqueadores.

Preço do atendimento: 30 mil dólares.
Sim… mais de 90 mil reais. Tudo discriminado. 30 mil dólares por 5 horas de atendimento.
(Se eu cobrasse 20% disso por 20h de atenção ao parto seria chamado de muitas coisas desabonatórias)

No SUS, que está prestes a acabar nas garras de Temer, o valor seria zero. Mas por este tipo de relato podemos entender as forças que atuam nas sombras e que desejam acabar com o sistema universal de assistência à saúde no Brasil.

Outro problema que vamos enfrentarem breve é a transformação da assistência médica em um processo industrial, com a mesma lógica da linha de montagem de uma fábrica comum.

Uma vez conheci um oftalmologista que ganhava fortunas pela Unimed. Ele atendia mais de 300 pacientes por mês. Em função do alto custo uma equipe da Unimed foi avaliar porque suspeitaram de fraude. O resultado da investigação não podia ser pior: não era fraude.

Ele passava pacientes de 10 em 10 para sua sala de exames. Pingava colírio dilatador de pupila em um por um e depois disso pedia que saíssem e esperassem para serem chamados. Chamava outros 10 e repetia as gotinhas dilatadoras. Depois disso chamava a primeira turma novamente e fazia exame de “fundo de olho” em todos, ditando os achados para uma secretaria que copiava ao seu lado. Quando terminava essa fase repetia o exame na segunda turma. Quando finalizava essa etapa chamava de novo a primeira turma e distribuía os diagnósticos e as receitas. E assim ia fazendo, realizando um verdadeiro atendimento oftalmológico fordista, industrial. Máxima eficiência no mínimo de tempo.

Meu comentário na época foi…

Eu entendo porque ele faz este tipo de atendimento, porque aumenta os lucros diminuindo os intervalos entre a saída e a entrada dos pacientes. Mas até hoje não consigo entender as razões que levam um paciente se submeter a tal desumanidade“.

Ah…. era pela Unimed. Se fosse pelo SUS imaginem o que estaríamos falando.

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Morrer

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A face atual da medicina é como a de uma mulher eternamente insatisfeita com sua aparência. Pela impulsividade de seu desejo não interdito submete seu corpo a inúmeras cirurgias plásticas em sequência, as quais obedecem à lógica de consertar o que antes era – ou parecia – falho ou insuficiente. Quem com ela convive no cotidiano não percebe plenamente a intensidade da desfiguração; entretanto, quem a encontra depois de algum tempo, percebe que pouco restou da pessoa de outrora.

Existe um texto de Eliane Brum  (vide aqui) que é uma tocante descrição da morte, o morrer e suas circunstâncias. Fala do poder absoluto dos médicos e sua frieza arrogante. Descreve a insensibilidade dos profissionais que tratam da passagem sem a devida consideração das histórias e falas das quais somos feitos. Deixa clara a necessidade de mudar o médico e sua formação, para que o morrer seja reintegrado à vida e a entrada no mundo dos espíritos seja carregada de respeito e dignidade.

Infelizmente Eliane ainda não percebeu que mudar os médicos é INÚTIL e INEFICAZ se não houver ao mesmo tempo uma mudança nos pacientes. A sociedade forma os médicos que deseja e cultua. A frieza médica é ADMIRADA pelos pacientes; sua fala pretensiosa é valorizada e venerada. Ou, como se dizia no meu tempo: “Ele é um cavalo, mas um excelente médico”.

“Como assim?“, pensava eu, entre ingênuo e idealista. Era importante reconhecer que os médicos não vem de outro planeta; nem os políticos. Médicos e políticos são construções sociais. Temos os profissionais que merecemos e desejamos. O médico que agir em uma UTI – como pedem aqueles que desejam uma medicina mais humana – será destruído em pouco tempo, e pelos próprios pacientes cuja humanidade tenta defender. Não podemos ser ingênuos de propor mudanças em apenas um lado do muro; estas precisam ocorrer na CULTURA para só depois verter para as ações cotidianas.

Sobre isso lembro de uma história de minha época de escola médica. Havia um senhor da Santa Casa que estava em estado terminal há várias semanas. Inconsciente, velho, emagrecido e fraco. Recebia visita de uma filha apenas. Mulher pobre, morava em uma cidade vizinha e pegava duas conduções para vir ao hospital apenas para ver o pai-objeto como carne inerme sobre a cama cuja pintura descascava sem dó. Em uma das visitas eu estava ao seu lado quando confrontou o médico responsável. Disse-lhe que a situação do pai era injusta, que era crueldade mantê-lo naquele estado e que seria muito mais decente “acabar com seu sofrimento”.

Os rodeios eram inevitáveis ao falar de uma morte que era desejada, mas cuja expressão era constrangida. O médico, entretanto, foi duro. “Enquanto houver uma centelha de vida lutaremos por ela“. Despediu-se secamente e foi-se embora, deixando a pobre mulher comigo no corredor.

São uns animais insensíveis“, disse ela secando as lágrimas.

Uma semana depois o velho pai desencarnou e encontrei o médico atendente na enfermaria. Ele me contou que a senhora, filha do paciente que faleceu, veio ao hospital e ao encontrá-lo o acusou de ter “matado” seu pai. Disse que foi negligente, irresponsável, um verdadeiro assassino. Disse também, como ameaça final, que iria à polícia e ao CRM.

Por que ela agiu assim, a mesma mulher que uma semana antes pedia por um fim digno para o seu pai?” perguntou meu colega.

“Culpa”, respondi. “Alguém deveria pagar pela culpa que ela sentia por desejar a morte do próprio pai. Nada melhor que o médico que funciona como um “comedor de pecados”. É uma atitude devastadora para os profissionais, mas muito mais comum do que gostaríamos.”

Ele completou:

“Você tem razão, por isso mesmo é necessário entender as atitudes dos médicos também através desse prisma. Agimos como robôs insensíveis, mas assim o fazemos como uma forma de proteção“.

Se todos os familiares fossem sensíveis e compreensivos diante das perdas seria fácil ser humano diante da morte de um paciente. Mas eles não são…

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Violências


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Qualquer cirurgia é uma violência. Rasgar a carne, romper suas camadas, vislumbrar seu recôndito interior, desvendar seus mistérios; nada disso pode ser feito sem violar, abrir e penetrar. Até o código penal precisa se adaptar ao fato de que na sociedade alguns sujeitos específicos, dentro da lei que se obriga a existir, podem cortar, esfaquear, estripar e estrangular alguém no sentido de produzir-lhe algum benefício. 

Para fazer qualquer destes procedimentos é necessário, além do treinamento essencial, um agrandamento egóico que, ao mesmo tempo que destrava os temores, lhe coloca na rota do narcisismo, da vaidade e da temeridade. Eu sempre disse que levei poucos meses – ainda antes de formado – para aprender as etapas essenciais de uma cesariana e realizá-la com sucesso, mas passei os trinta anos seguintes aprendendo a não usá-la como recurso primeiro.

Infelizmente a corporação se preocupa mais com os egos inchados e as fantasias de poder oferecidas aos médicos pela cultura (que eles mesmos moldam e se adaptam) do que com o aprimoramento moral e ético que se segue ao esvaziamento desses egos e à retirada dessas fantasias.

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