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Quinn’s Caffee

Garrett resgatou o cigarro perdido no bolso do casaco amassado e olhou-o como quem tenta descobrir se ainda presta. Pediu ao barman uma caixa de fósforos e acendeu seu último, anunciando que não se demoraria. Deu duas baforadas e o deixou repousando entre os dedos, enquanto tamborilava no balcão uma música que ele cantava solitariamente em sua própria cabeça, produzindo pequenas ondas no scotch à sua frente. Depois de uma pequena pausa, voltou seu olhar para Elsie e falou com a voz rasgada pelas duas carteiras diárias de cigarro.

– Não seja tola, garota. Não é a justiça que lhe move, Elsie, é o ódio. Você adora se enganar com sua caridade, sua postura superior e sua defesa dos oprimidos. Mas sua bondade não passa de uma grosseira encenação. Sua justiça é uma farsa, tão bem montada que engana a todos, menos o seu velho Garrett.

Elsie deixou que uns poucos segundos passassem, o suficiente para escutar o zumbido baixo do letreiro de neon na vitrine do bar. Repousou suas mãos no guardanapo à frente e olhou Garrett por cima dos óculos de aros redondos.

– Nada do que eu lhe diga o fará mudar de ideia, não é? Você me julga por si e acredita nessa mentira porque é a matéria que lhe constitui. Não consegue enxergar para além dos seus limites. Você é um velho patético, Garrett. Não passa de um bêbado, uma fraude.

Garrett não segurou uma risada, misturada com uma tosse carregada.

– Sua arrogância nada mais é do que uma metástase do seu ressentimento, darling. Infelizmente não há sinceridade no amor que você pensa dedicar aos desvalidos, sequer um real desejo de que eles abandonem o mundo de privação que os sufoca. Ele é puro teatro, mas você finge tão bem que engana a si mesma. Sua caridade é a fantasia traiçoeira do desprezo que nutre pelo mundo. Quando confrontada, sua essência se reduz a isso.

Apontou o dedo indicador para o cinzeiro à frente onde as cinzas do cigarro repousavam indiferentes e amorfas. Garrett se levantou e acenou para o barman, deixando o local sem dizer mais nada.

Austin MacKay, “Into the Depths of Nothing”, ed. Parliament, pag 135

Austin Phillip MacKay é um escritor escocês, nascido em Inverness em 1965. Estudou artes dramáticas e literatura na University of Aberdeen, onde passou a viver após concluir seus estudos secundários. Filho de um ator de teatro e uma enfermeira, dedicou-se muito cedo a escrever sobre ficção científica, uma de suas maiores paixões (além do Celtic). Seu primeiro livro foi lançado em 1990 e se chamava “When there is Only Dust” (Quando houver apenas pó), uma distopia que combina ficção científica, catastrofismo, futuros caóticos e pessimismo escocês. Foi bem recebido pela crítica de seu país, recebendo um prêmio pela obra, o “Prêmio Thistle”, prêmio escocês de literatura na categoria jovem escritor. Também colaborou com inúmeras revistas especializadas em contos de ficção, como “UFO Scott”, “Outer Paradise” e uma que ele mesmo criou com o novelista Noel Burr, “SOS to Earth”. Em “Into the Depths of Nothing” (Nas Profundezas do Nada), Austin conta a história da relação tempestuosa entre dois cientistas responsáveis pelo “Projeto Nova Vida”, uma força-tarefa internacional de colonização de outros planetas. Garrett é um cínico, alcoolista, depressivo e gênio projetista da NOAH, nave que carregará milhares de pessoas para a colonização de um planeta que ainda mantém condições de habitabilidade. Elsie é a executiva que está responsável pela gigantesca seleção de passageiros que terão o direito de embarcar nessa missão. Os embates entre ambos se dão na contraposição do idealismo romântico de uma e o pragmatismo depressivo do outro. Na tensão desses encontros se forma a conexão magnética entre ambos, que os coloca em contraponto diante da tragédia que se avizinha. Austin é casado com Leslie Thorpe e tem 3 filhos: James, Cameron e Alba. Mora em Edimburgo – Escócia.

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O Ensaio

Os botões coloridos na parede ao lado das portas de aço se apagaram, sinalizando a chegada do elevador. Apertei o 12, que era o meu andar, enquanto cantarolava mentalmente uma música que havia me contaminado desde a manhã ao acordar. Depois de um dia intenso de trabalho esperava chegar ao meu quarto de hotel, ligar para casa, tomar um banho e dormir o quanto fosse possível. Minha apresentação seria à tarde, mas queria assistir o trabalho dos colegas desde cedo. Segundos antes da porta metálica se fechar, minha colega Kathleen entrou mantendo a porta aberta com a mão esquerda, enquanto com a direita carregava a pasta da conferência.

– Olá, Kathy. Tudo preparado? Que pensa desse seminário? Acha que será bom?

– Creio que sim, mas não é o que me preocupa agora

Kathleen era uma mulher grande, corpulenta, sensual e sempre fez um estilo sedutora, “femme fatale”. Na minha imaginação era “Jessica Rabbit”, capaz de deixar alguns homens tontos com sua presença. Não há como negar que desde que os conhecemos eu também senti atração por ela… quem não? Não apenas pelas suas curvas voluptuosas, mas por sua inteligência e sua imposição diante dos debates da nossa área. Física quântica não é um campo em que mulheres são frequentemente vistas como diretoras de institutos, muito menos como articulistas, escritoras e palestrantes reconhecidas. Por certo que a mistura de sua competência específica em nossa área e a presença física impositiva e voluptuosa mexiam com a imaginação de qualquer um de nós.

Kathleen era uma mulher grande, corpulenta, sensual e sempre fez um estilo sedutor, “femme fatale”. Na minha imaginação era “Jessica Rabbit”, capaz de deixar alguns homens tontos com sua presença. Não há como negar que desde que a conhecemos eu também senti atração por ela… quem não? Não apenas pelas suas curvas voluptuosas, mas por sua inteligência e sua imposição diante dos debates da nossa área. Física quântica não é um campo em que mulheres são frequentemente vistas como diretoras de institutos, muito menos como articulistas, escritoras e palestrantes reconhecidas. Por certo que a mistura de sua competência específica em nossa área e a presença física impositiva e voluptuosa mexiam com a imaginação de qualquer um de nós.

Kathleen acabara se tornando minha amiga quando da publicação do meu primeiro livro “A Física Tal Qual a Imaginamos”, que recebeu boas críticas dos colegas e uma indicação para o “Quantum Awards”. Por esta época acabamos nos tornando correspondentes e trocamos muitas ideias sobre o decaimento radioativo, as quais acabaram sendo um enorme estímulo para a publicação do meu segundo livro “Afinal, qual é a do elétron?”, baseado nos trabalhos de Werner Heisenberg e Paul Dirac, dois gênios da física quântica que desenvolveram suas próprias estratégias para compreender o comportamento do elétron. Minha abordagem era, a exemplo deles, totalmente diferente daquela de Schrödinger, que apostava tudo na centralidade das ondas para descrever o comportamento do elétron, enquanto Heisenberg e Dirac buscavam uma formulação mais abstrata, prescindindo de uma imagem ondulatória visualizável — mesmo fornecendo resultados igualmente exatos. Por essa amizade e conexão que surgiu de nossas mútuas concordâncias profissionais, eu solicitei a ela que escrevesse a orelha do meu último livro, o que ela fez combinando uma espetacular capacidade de síntese com a sensualidade que expressava em cada palavra que saía de sua boca, inexoravelmente emoldurada por um batom carmim.

“Para vocês, que sempre desejaram dar uma voltinha à bordo de um elétron, embarquem nessa viagem emocionante ao lado de Ray Olson, e eu garanto que a travessia será excitante e absolutamente inesquecível.”

Para muitos, a frase da orelha do livro seria suficiente para fechar a questão. “Ela está a fim de você, garoto. Não seja tolo”, muitos (e muitas) me disseram. Não nego que, nas conversas no meio da madrugada – enquanto eu escrevia textos e corrigia provas, e ela preparava seminários para seus alunos na Faculdade de Física – rolou sedução nas conversas, mas de uma forma quase juvenil. Não há dúvida que, para um homem mais velho, ser elogiado por uma colega mais jovem e brilhante é sempre algo capaz de envaidecer. Entretanto, essas coisas para mim têm um limite bem claro; não me aventuro a procurar o fim do buraco do coelho exatamente porque reconheço que não terei como achar o caminho de volta. E, por certo, meu casamento com Jill tinha finalmente encontrado um platô de serenidade após vários anos. Depois de turbulências e desencontros, muito em função da morte de Laura, nossa filha recém-nascida, finalmente havíamos encontrado um pouco de tranquilidade a ponto de até nos aventurarmos a reencontrar uma intimidade quase perdida. Mas, inobstante estes sentimentos, houve durante esse tempo de conversas a curiosidade de saber se a admiração de Kathy estava restrita aos aspectos intelectuais ou se, por baixo daquele cabelo comprido e das unhas vermelhas, havia um corpo com algum interesse erótico em mim.

– E qual seria essa sua preocupação? perguntei, enquanto a porta do elevador lentamente se fechava.

Sua resposta foi seguida de um movimento brusco em minha direção.

– Você…

Dizendo isso, segurou minha cabeça com a mão e beijou meus lábios com força, e os percebi serem abertos com a voracidade de sua língua quente e ágil. Sem saber o que dizer — como se fosse possível — cedi momentaneamente aos seus avanços até perceber que eu estava na posição da donzela surpreendida pelos avanços do homem vigoroso de atos impulsivos. Essa reversão de papéis me chocou de forma imediata, mas com surpresa me senti na pele de milhares de mulheres cujos beijos foram roubados, distâncias foram rompidas com energia e cujos corpos foram envolvidos por mãos ávidas e sorrateiras.

O elevador fez um clique ao passar pelo segundo andar. Por um instante absurdo, pensei em nós dois como um sistema fechado e indeterminado, os dois estados possíveis — ceder, recusar — coexistindo com a mesma amplitude, sem que nada no universo tivesse ainda decidido qual deles seria real. Foi então que vi, com o canto do olho, a bolinha vermelha subindo devagar no painel ao lado da porta. Uma câmera. Bastou a possibilidade de estar sendo observado para que a superposição desabasse: não existe sistema quântico, por mais delicado, que sobreviva ao olhar de um instrumento de medição. Minhas mãos afastaram Kathy de mim antes que eu decidisse afastá-la — o colapso veio primeiro, a vontade depois, como sempre acontece quando alguém mede alguma coisa que preferiria continuar indefinida.

– Desculpe, Kathy, mas eu creio que você está confundindo as coisas. Eu…

Imediatamente a frase ecoou em minha cabeça, e nas suas várias versões que a escutei só o que apareceu foi o mais manjado dos clichês sexuais da história da humanidade. Pior: por quantas vezes eu não pensei que esta frase poderia servir tão somente como um aperitivo para o que estava para acontecer, um anteparo momentâneo, tão falso quanto convidativo, para o mergulho nas dimensões mais desabridas da luxúria. Entretanto, essa era a verdade do que eu sentia, e ninguém melhor do que eu para pressentir que seguir com aquela cena poderia me levar a um lugar conhecido chamado “pesadelo”.

O elevador fez um novo clique e percebi que havíamos passado pelo quinto andar. Kathy me olhou nos olhos, ainda sorrindo, sem se dar por vencida — como se soubesse, melhor do que eu, que um colapso pode ser revertido, que basta preparar o sistema de novo para que ele volte a se abrir em possibilidades.

– Você não pode negar que também quer. Tem o mesmo “problema” que eu. Não pode esconder que pensou em mim e que naquelas madrugadas fantasiou, como eu, este encontro. Não minta para você mesmo.

Não, eu não podia negar. Entretanto eu sabia que a vida não pode ser vivida como a simples realização de fantasias. Talvez não exista caminho mais seguro para a loucura do que a possibilidade de levar adiante todas as que criamos. Elas, por mais convidativas e prazerosas que sejam, esbarram na realidade, no outro, nos limites, no interdito. Romper essa rede de obstáculos pode ser — e frequentemente é — o primeiro passo para grandes tragédias.

– Não se trata disso Kathy. Eu, eu… entenda, não faz sentido. Somos colegas e amigos. E além disso…

Eu ia falar de Jill, mas tive medo do que Kathy diria. Talvez ela usasse uma estratégia que conheço bem pela voz dos homens, que nada mais propõe do que minimizar os significados culposos da cena, “seguir o fluxo”, “permitir-se”, “viver o momento”, “aproveitar o clima” e curtir as oportunidades que o destino graciosamente nos oferece. Nada dessa conversa era novidade, mas causava estranhamento porque a equação, desde o princípio, estava com o sinal trocado. Os olhos de Kathy diziam isso, e por mais que eu tentasse, não conseguia imaginar o que ela enxergava enquanto me olhava.

O elevador anunciou a passagem pelo nono andar, e outra vez senti aquela sensação estranha de estar sendo recalculado a cada piso, como se o próprio prédio insistisse em me medir de novo, sem nunca aceitar o resultado anterior como definitivo. Sei bem que, de minha parte, não era falta de vontade. Seu corpo por muitas vezes estivera presente em devaneios, sonhos e fantasias. Kathy era uma mulher bonita, madura, livre e provocante, mas a posição de “objeto de desejo” em que ela me colocou foi demasiado brutal para os meus preconceitos patriarcais. Confesso que eu estava despreparado para a reversão das expectativas e fiquei sem saber o que fazer ou dizer. A perfeita imagem de um garoto sem chão.

O elevador bateu no 12º andar, a porta se abriu, e o sistema, dessa vez, colapsou para fora de mim: Kathy saiu primeiro, e eu apenas a segui, já sem amplitude alguma sobrando para qualquer outro estado possível.

Por instantes desejei que seu quarto estivesse em um corredor diferente, mas ela parecia ir para o mesmo lado que eu. Enquanto caminhava, ela parecia ter certeza que era questão de tempo a minha rendição. Fiquei em absoluto silêncio enquanto permitia que suas nádegas me guiassem pelo corredor escuro do hotel. Seus saltos batiam no chão em sincronia com as batidas do meu coração e era possível sentir o perfume que ela exalava ao passar. Finalmente, ao chegar na porta do seu quarto, ela parou e deu meia volta, ainda com um sorriso confiante no rosto. Seu quarto era exatamente em frente ao meu e, por instantes, ela ficou em silêncio me olhando, com um sorriso enigmático nos olhos e segurando a maçaneta do quarto com a mão.

– Olhe Kathy, eu gostaria de lhe explicar que…

Ela sorriu enquanto pressionava a maçaneta para baixo abrindo a porta dos aposentos.

– Não precisa dizer nada, Ray. Eu já entendi tudo. Tenha uma boa noite.

Entrei no meu quarto ainda com o coração apressado. Tomei um banho rápido e me deitei. Liguei para casa e falei com Jill sobre banalidades, a conta do gás, o homem da TV a cabo, a escola das crianças e que horas ela me buscaria no aeroporto. Fiquei olhando programas tolos na televisão até pegar no sono. Pela manhã cheguei ao restaurante do hotel e lá estava Kathy sozinha em uma mesa. Sentei com ela e tentei iniciar uma conversa sobre o que havia acontecido. Ela me interrompeu educadamente e disse apenas “não se preocupe, eu entendi tudo”. Deixou sua xícara manchada de batom com café pela metade e despediu-se dizendo que precisava preparar sua conferência.

Na hora de sua palestra eu estava lá, na primeira fila. Com a desenvoltura habitual, e os slides confusos como marca registrada, ela discorreu sobre o seu – o nosso – tema de forma fluida e correta. Mas não pude deixar de notar que no último quadro de sua apresentação mostrou um gráfico retirado do meu livro, onde meu nome apareceu com a grafia incorreta. Parecia ali um sinal, o aviso de que um vaso delicado havia trincado e que não haveria mais como consertá-lo.

Alguns anos depois, envolveu-se comigo em um debate sobre tunelamento quântico em um canal para pesquisadores sênior. Tratou-me a princípio com absoluta frieza, como um mero desconhecido e, à medida que as posições se tornavam mais claras e mais radicais, colocou-se no polo contrário ao meu, apesar do fato de que já havíamos discutido esse aspecto da teoria e estivéramos de acordo com a proposta de que “qualquer lugar em que a função de onda tenha alguma amplitude será aí um lugar onde o elétron poderá estar”. Portanto, nada mais óbvio que seu posicionamento de agora só poderia ser uma resposta rancorosa, vingativa e puramente emocional. Para piorar, não havia nada que eu pudesse fazer ou dizer, até porque não existem argumentos racionais capazes de abalar uma posição construída de forma irracional. No dia seguinte, ela me bloqueou nas redes sociais. Meses depois, escreveu um texto violento – mesmo sem citar meu nome – dizendo que não pretendia voltar a conversar com pessoas que defendiam posturas tão retrógradas e que, acima de tudo, não eram eticamente confiáveis. Por certo que não respondi, apenas deixei que as páginas da vida encerrassem esse capítulo.

Até hoje me pergunto o que teria acontecido se eu tivesse feito outra escolha — se em algum outro ramo da função de onda do universo, um mundo que se separou do meu naquele elevador, um outro eu ainda estivesse com ela. Poderia ter deixado o vento me levar para onde ele estava soprando, mas respondi com medo e pudor. Agora colho apenas os frutos do desprezo, e talvez seja esse, afinal, o único estado que me restou depois que a amplitude de todos os outros desapareceu.

Gregor O´Sullivan, “O Ensaio”, ed. Parkland, pág 135

Gregor O´Sullivan é um cronista, jornalista, escritor e crítico literário, nascido em Belfast na Irlanda em 1954. Completou seus estudos de jornalismo em sua cidade natal e posteriormente fez carreira em Londres. Atualmente se dedica a escrever no “Daily Mail” em uma coluna semanal sobre política Irlandesa. “The Essay” (O Ensaio) é seu único livro de ficção, onde descreve as desventuras de um homem em crise de meia idade chamado Ray Olson e sua trajetória na Academia nos meses que antecederam sua indicação prêmio Nobel de física. O pai de Gregor foi Seamus O´Sullivan, um renomado estudioso da física que escreveu vários livros sobre o tema, tendo participado do círculo de grandes nomes da química e da física ocidentais como Ernest Rutherford e Erwin Schrödinger. O personagem é baseado na história e na perspectiva de mundo do seu pai. Mora em Londres com sua esposa Saoirse e seu gato…. Schrödinger.

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Vladimirski Central

Nikolai havia acordado mais cedo do que todos nós. Senti o cheiro de sopa de pacote que ele havia esquentado entrando por debaixo do lençol puído. Graças às mãos delicadas e ágeis de Petrov foi possível puxar dois fios da tomada acima da pequena mesa encostada na parede descascada e adaptar uma resistência, que usávamos para esquentar o chá, mas também uma sopa. Coloquei os pés para fora da cama e toquei o chão gelado da cela com as meias que Zoya havia me trazido na visita do mês anterior. O chão feria a sola dos meus pés como lanças de gelo a penetrar o espaço entre os dedos. E ainda não era o pior do inverno em Vladimirsky, onde não era incomum que os prisioneiros perdessem os dedos pelo frio. Olhei para o lado e encontrei Petrov dormindo envolvido em um cobertor cinza, enquanto Aleksei mantinha-se sentado em sua cama olhando para um ponto perdido na parede à frente. Ninguém falava, e aos poucos a luz externa aparecia pelas aberturas superiores da parede de nossa cela.

O silêncio matutino foi quebrado pelo som metálico da porta de ferro sendo aberta. Um carcereiro apenas falou em voz alta o nome de Nikolai e colocou no chão um envelope de papel amarelo-escuro. Logo depois a porta se fechou mais uma vez, deixando o breve eco do metal chocando-se com o batente em nossos ouvidos. Nikolai deixou a sopa sobre a mesa e curvou o corpo para apanhar o envelope. Abriu-o lentamente e passeou os olhos sobre o documento. Poucos segundos depois fechou o envelope e voltou a sentar-se no banquinho tosco que puxou debaixo da mesa. Segurou a xícara com ambas as mãos e continuou a captar seu calor sem dizer palavra.

– Negado? disse eu.

Ele se limitou a balançar a cabeça afirmativamente, como a dizer que nada do que se encontrava naquele papel era surpresa. Fiquei em silêncio alguns minutos e me limitei a dizer em voz baixa “bastardos” e “canalhas”.

Nikolai sorveu mais um gole de seu chá e, sem olhar para mim, me disse:

– Sabe o que eu queria, Sergey? Nenhuma utopia política, e muito menos bens materiais. Estou velho para desejar o que sabemos ser inútil ou fugaz, como um carro, uma casa ou que o mundo seja controlado por um sistema político mais justo. Em verdade, meus sonhos são todos tolos, inocentes e de uma ingenuidade dolorida e triste.

Sorveu um gole a mais, mordiscou um pedaço de pão e continuou.

– Nós tivemos uma infância dourada, Sergey. Fomos a última geração a ter uma mãe em casa cuidando de nós. Eu era capaz de dizer o que minha mãe preparava para o almoço antes mesmo de chegar, já a meia quadra de distância, só de sentir o cheiro da comida. Éramos recebidos como heróis, recém-chegados da batalha diária da escola. Cansados, famintos e eletrizados, nossa mãe nos tratava como reis; éramos o centro de sua vida. Isso é amor, Sergey.

Baixei os olhos e sacudi a cabeça afirmativamente. Ele seguiu.

– Elas se sacrificaram por nós, camarada. Hoje as mulheres têm vida própria, para além de sua família. São empresárias, médicas, engenheiras, advogadas e – apontando para o documento – juízas. Não há nada que seja interdito a elas, e bem sei que não há como retroceder, resgatando nossa infância idílica. A nós resta apenas a saudade de um mundo construído para sermos felizes. Suspirou olhando para a fumaça que saía de sua caneca de metal e continuou com seu desabafo.

– Pois eu queria apenas cinco minutos daquela vida, camarada. Sentir o cheiro da comida de minha mãe e encontrar seu sorriso na porta de casa. Nada mais.

Eu respondi, mas com cuidado, pois sabia que seu mundo havia desmoronado há apenas alguns poucos segundos.

– Sua vida foi digna, Nikolai. Nossas mães nos prepararam para a felicidade, mas nós escolhemos uma vida de luta e valor. Mais importante do que ser feliz é dar sentido a esta breve existência na terra.

– Não tentem descobrir sentido algum para a vida, camaradas. Se há um sentido, ele nunca se mostrou para nós. Somos os que perderam, os derrotados, os desvalidos. Não haverá história a contar.

Era Petrov a falar, ainda de olhos fechados e envolto em seu cobertor cinza. Aleksei, por sua vez, se mantinha observando o ponto fixo no meio da parede descascada. Talvez ali estivesse escondido algum sentido para a vida, que a nós todos escapava.

Genny Sidorov, “Vladimirsky Central”, Ed. Belaya skala, pág 135

Genny Sidorov, batizado Gennady Sidorov, nasceu na cidade russa de Leningrado (atual São Petersburgo) e fez seus estudos na tradicional Universidade Estatal de São Petersburgo, onde cursou engenharia de minas. Após trabalhar durante 15 anos como engenheiro abandonou a profissão depois do acidente na mina de Osinniki, em 2004 na Sibéria. Escreveu um livro contando os detalhes da tragédia, onde morreram 28 mineiros – entre eles seu amigo e protagonista no livro, Rodion. “O último suspiro”, seu livro de estreia, lhe rendeu o prêmio de jovem escritor e o impulsionou a abandonar a engenharia para se dedicar à literatura. Ainda nessa década escreveu 2 livros de ficção (“No fundo do Neva” e “Sob o olhar de Yekaterina”) e um de ensaios (“Galina e outras histórias frias”). Hoje tem mais de 20 livros publicados e escreve em colunas de jornais por todo o país. É casado com Yelena Pavlova e tem dois filhos, Natalya e Mikhail. É filiado ao Partido Comunista da Federação Russa.

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Os Canais

Com a delicadeza do movimento das mãos que sempre me encantou, ela me explicou uma das características mais conhecidas da sua cidade. Era a primeira vez que visitava o Black Lake District, do qual só conhecia histórias curiosas sobre peixes estranhos, uma cidade invadida pelo rio e pelos seus canais que mais pareciam Veneza.

– Quando você está na água do rio, basta você bater as mãos e os peixes pulam. Eles são grandes e fortes, mas também são ágeis e graciosos. Parece que, ao escutarem o som das palmas, eles saltam à nossa frente, como se fossem pequenos cães amestrados. É um espetáculo maravilhoso. Venha, vou lhe mostrar.

Segurou minha mão com força e me puxou para dentro do rio. Ficamos imersos até os joelhos enquanto ela olhava com atenção para a água cristalina que nos envolvia. Em alguns poucos instantes ela apontou para um peixe à distância que se aproximava.

– Vamos, bata palmas!! – disse-me ela. Veja como eles vão se aproximar.

Resisti um pouco, com medo de fazer um papelão e nada acontecer. Fiquei com medo do ridículo da situação, mas uma senhora à distância também batia palmas enquanto olhava com atenção para o leito do rio, já com a água batendo em sua cintura. Criei coragem e comecei a fazer o mesmo e percebi que o peixe que estava distante voltou a se aproximar de nossas pernas.

– Isso, continue, mais forte!!

Continuei a bater palmas com mais intensidade até o momento em que o peixe, excitado pelo som das palmas, saltou bem à nossa frente e começou a bater suas asas. Sim, ele tinha asas pequenas que batiam freneticamente como um colibri. Fez um círculo por sobre nossas cabeças com graça e charme, deixando um arco-íris em suas asas cada vez que seu corpo se interpunha entre nossa vista e a luz do sol. Depois disso, com toda a majestade, ele mergulhou nas águas translúcidas e desapareceu de nossa vista.

– São peixes-voadores – gritei eu. Que espetáculo!!

– Eu disse que bastava confiar que eles viriam – disse ela com um sorriso encantador.

Olhei ao redor e pude vislumbrar o teto dos edifícios mais altos ao alcance de nossa visão.

– Vejo a cidade daqui. Deve ser ótimo ter um rio tão próximo – disse eu.

– Pelo visto você não conhece onde moro mesmo. Aqui o rio avança cidade adentro, invadindo as ruas e as calçadas. O rio está na estrutura mais íntima da comunidade e faz parte do dia a dia de todos; ele é a energia que nos anima. Venha, vou lhe mostrar.

Segurou minha mão e passou a caminhar comigo por dentro do rio de águas refrescantes e transparentes. Aos poucos as casas foram ficando mais próximas e fomos nos aproximando da cidade e o que era um braço de rio passou a ser um canal que se misturava com as calçadas, se intrometendo entre as casas. Percebi que a cidade era uma mistura de ruas e canais aquáticos. A água agora batia no peito, mas tamanha era a clareza que ainda era possível ver meus pés enquanto caminhava. Continuamos a andar pelas calçadas aquáticas até chegar próximo de uma rua onde vi carros pela primeira vez, ainda que distantes de nós. Paramos finalmente em frente a uma cafeteria, e foi quando ela, pela primeira vez, disse seu nome — Ethel — e perguntou se eu gostaria de tomar um café.

– Molhados assim? Eu teria que me secar primeiro…

Ela riu da minha ingenuidade.

– Aqui eles servem na calçada mesmo, basta pedir. Deixa que eu pago.

Fez um gesto com o braço e prontamente um garçom se aproximou da borda do canal. Ajoelhado, anotou o pedido que Ethel lhe fez. Enquanto esperávamos, ela continuou a contar sobre a história daquela cidade construída em torno da água, sobre os que vieram antes e escolheram viver junto ao rio em vez de contra ele.

Recostado à borda do canal, e com o corpo submerso até o peito, eu me ocupei em decifrar os detalhes do rosto enigmático de Ethel. Seu olhar tímido, seus dentes incisivos superiores levemente assíncronos, que lhe ofereciam um charme que só ocorre diante das pequenas imperfeições. Seu olhar era sempre vivo e brilhante. Sem perceber, toquei o pé direito de Ethel que se apoiava no fundo do canal e senti seus dedos miúdos e sua pele macia. Ela não interrompeu o relato que fazia, mas abriu levemente seus lábios e misturou suas palavras com o mais lindo dos sorrisos.

Marjorie Barnes, “Gates of Illusion”, Ed. Parnasso, pág. 135

Marjorie Helen Barnes é uma jornalista americana nascida em 1951 na cidade de Richfield, Utah. Fez seus primeiros estudos na escola local, mas na adolescência mudou-se para a capital do Estado, Salt Lake City. Fez seus estudos no Westminster College e depois estudou jornalismo na instituição. Aos 20 anos abandonou temporariamente a faculdade e com uma colega de curso empreendeu uma viagem de um ano pela América Central. Esta colega era Amelia Duchamps, que mais tarde se tornou igualmente escritora e descreveu essa aventura em seu livro “Amigas”. Retornou dessa viagem para terminar o curso de jornalismo e logo após iniciou uma carreira como repórter no Salt Lake City Tribune. Desde muito cedo posicionou-se à esquerda no espectro político e começou a militar no partido Democrata de seu Estado. “Portões da Ilusão” é um livro de contos onde aborda o mundo a partir de realidades alternativas. Descreve mundos lisérgicos, cores absurdas, sonoridades inauditas e conexões afetivas acima de qualquer tipo de classificação conhecida. Segundo suas próprias palavras, “Usei da ferramenta dos contos para fazer um ensaio sobre um mundo alternativo, tendo à frente uma prancheta em branco nas mãos de arquiteto criativo e sem compromissos com a coerência”. Suas histórias são ricas e criativas, mas por vezes perturbadoras, ao questionarem nossos valores mais profundos em relação à vida, morte, nascimento e sexualidade.

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Ethel

Apesar de estarmos procurando há vários minutos parecia se apequenar a chance de encontrarmos a rua. Com nosso carrinho pequeno alugado, parecia difícil achar no labirinto de ruas de São Paulo aquela pequena Alameda com árvores de flores roxas que conhecíamos de nossas visitas anteriores. Olhei para Ethel mais uma vez e disse:

– Erramos de novo. Eu falei que não era na primeira, mas na segunda à direita.

O carro minúsculo agora estava parado olhando impávido para o muro de uma obra, enquanto seus pneus, quais sapatinhos pretos de usar na escola, pisavam sobre velhas telhas de amianto que restaram de um desmanche anterior.

– Pode dar ré e começar de novo. Não temos tempo. Estão todos nos aguardando para o aniversário de Nora. E o jogo deve começar em alguns minutos. Apure!

Só me restava concordar e engrenar a ré. O carrinho fez um guincho curioso e partiu de costas em direção à rua de onde viera, antes da má escolha de entrar no beco. Quando lá chegou, manobrei para seguir com o plano traçado por minha vaga memória do lugar. Entrar na segunda, e não na primeira rua, exatamente como me lembrava. Mas bastou engrenar a marcha do carro e um fato me fez frear. À nossa frente estava um gigantesco ônibus de excursão, esses de dois andares, bloqueando a rua e na contramão. Sua face quadrada olhava para nosso pejôzinho de forma ameaçadora. Por instantes ficamos parados olhando um para o outro, sem saber o que fazer.

– Como esse sujeito ousa ficar na nossa frente desse jeito, e ainda na contramão? Quem ele pensa que é? Faça você alguma coisa, não fique parado!

– Infelizmente aluguei um carro sem asas, disse eu. Carros voadores estavam muito caros. Preferi um modelito terrestre mesmo.

Ela sorriu do meu sarcasmo e voltou a olhar para a cara brava do ônibus. Senti que algo ia acontecer quando, depois de alguns segundos, o motorista pisou duas vezes no acelerador fazendo um ruidoso “Vrummm – Vrummm”. Milagrosamente vi o ônibus gigante emitir um apito conhecido e começar a andar para trás. Vagarosamente andou de ré enquanto eu o seguia, como se uma força milagrosa fizesse nosso carrinho alugado empurrar o monstro de dois andares. Mais alguns instantes e ele deixou passagem para a segunda rua, aquela que eu acreditava ser a correta para chegar na casa de Nora. Tão logo houve passagem, buzinei para a gentileza do motorista e entrei na rua de árvores com flores roxas. Liguei o rádio e começou a tocar “Todo Cambia” de Mercedes Sosa, uma música que sempre me carrega à adolescência. Mais ao fundo eu vi o final da Alameda e uma placa, mas as casas eram antigas e cinzas, completamente diferentes do que eu trazia na memória. Fiquei mais uma vez desnorteado e pedi a Ethel que me dissesse o que lia na placa.

– Calle 25 de Mayo, disse ela. Com “ípsilon” mesmo, completou.

Fiquei confuso, mas minha confusão só aumentou quando percebi ao fundo o que parecia ser um estandarte azul e branco que eu bem conhecia, o qual tremulava com a brisa salobra do Rio da Prata. À minha frente vários cupês pretos de capota amarela cruzavam ruidosamente as faixas da avenida. As casas antigas e o estilo inglês agora faziam sentido.

– Estamos em Buenos Aires, Ethel. Aconteceu alguma coisa, mas creio que só existe uma explicação. Temo dizer, mas creio que você já sabe.

Ethel sorriu conformada. De seus olhos marejados surgiram dois tênues córregos cristalinos de lágrimas.

– Eu sei, eu sei, disse ela com a voz embargada, e você pode fazer o que precisa ser feito. Estarei aqui quando você voltar. Vá, não se demore. Pode ir.

Ainda relutante, olhei fundo em seus olhos verdes enquanto suas mãos frágeis e frias juntavam as palmas das minhas junto ao meu peito.

– Você sabe como fazer.

Afastei-as e bati uma vez. Repeti o gesto e parei. Olhei para Ethel enquanto meus olhos diziam “Não posso ficar mais um pouco aqui com você?”, mas ela apenas sorriu e balançou a cabeça dizendo para bater as mãos uma derradeira vez. Na terceira batida as imagens foram se apagando, tornando-se emaranhadas e confusas. Abri os olhos e pude ver, ainda buscando o foco, a porta do armário de madeira escura, pintada pelos primeiros raios de sol da manhã. O barulho dos passarinhos já era estridente, enquanto os sons desconexos da rua se misturavam com o ar do quarto. Fiquei por instantes olhando a porta, mas depois de girar meu corpo na cama encontrei os olhos fechados de Ethel que ainda aguardava o seu momento de voltar. Quem sabe preferiu ficar na solidão do nosso carro alugado esperando o término da música de Mercedes.

Maurício Rosenfeld, “Delírios e Blues”, ed. Brasilianense, pág 135

Maurício Rosenfeld é escritor e advogado. Nasceu em 1959 em Campo Grande – MS e desde cedo escreve para jornais e coletâneas literárias de sua cidade. Na advocacia dedicou-se à defesa das comunidades quilombolas e dos trabalhadores sem terra. Escreveu vários artigos para os jornais locais e “Delírios e Blues” é seu primeiro livro de crônicas, onde aborda seu trabalho com as populações excluídas, contos eróticos, ficção e sua paixão pelo “blues”, em especial o trabalho de Riley B. King, mais conhecido como “B. B. King”. Mora em Campo Grande.

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Sussurro

No sofá do canto da sala, ajeitei meus pés sobre o espaldar e deitei meu corpo sobre o chenille gasto. Apoiei a cabeça sobre a almofada enquanto ouvia no canto oposto a risada tímida e contida de Margareth. Seus olhos verdes e salientes ainda produziam o mesmo contraste com o nariz arrebitado que tanto me encantara. O jeito de rir das piadas, quebrando as palavras em suas sílabas, conjugado com sua vivacidade curiosa sempre me atraíram de forma magnética. Durante anos ela ocupara um lugar central em minhas fantasias, mas as circunstâncias haviam fatalmente nos afastado. Minha posição era, portanto, mais do que desconfortável. Enquanto ainda sorvia seus encantos, seu perfume, sua delicadeza e me banhava nas memórias cálidas de nossas conversas e cafés compartilhados, minha morte recente não me permitia mais do que o deleite solitário de suas qualidades e o brotar de lembranças envolventes.

O sujeito a cortejá-la poderia enganar a qualquer um. Bem-vestido e com cabelo vistoso, com madeixas descoloridas a lhe cair sobre a fronte, parecia um playboy clichê do cinema italiano. A Comissão sabia muito bem de suas intenções e do perigo que representava, e coube a mim a tarefa de estar próximo a Margareth nesse encontro. Nossa amizade e a indisfarçável atração que nutri por ela durante tantos anos me faziam a pessoa adequada para esta tarefa. Mas, por certo, tornavam a missão igualmente ingrata e dolorosa.

Como recém-chegado, eu ainda não tinha pleno domínio das habilidades de convencimento dos encarnados. Para piorar, o curto período de treinamento não era capaz de nos oferecer o talento de encarar nossas próprias fantasias ou de controlar os impulsos eróticos que (surpresa!!) não se desfaziam com a morte. Margareth repousou a mão sobre o joelho e ergueu o queixo em direção ao homem que segurava a pequena caixa adornada com fitas coloridas em suas mãos. Sua postura indicava a frouxidão de suas defesas, o arrebatamento iminente das últimas barreiras. Em questão de minutos, ela estaria sob o domínio completo do homem que a levaria, sem saber, à própria destruição, como já havia feito com tantas outras.

Era o momento de me erguer, sussurrar em seu ouvido as palavras que o instrutor me fizera repetir por tantas vezes e esperar que o gelo da razão fizesse seu coração se acalmar. Se não foi possível dizer tudo o que desejava em vida, que dissesse agora, após morto, o que era preciso.

Lisbeth Ellsworth, “The Spiral of Lust”, ed. Latina, pág. 135

Lisbeth Ellsworth nasceu em Tegucigalpa, filha de pais americanos. Seu pai era pastor da Igreja Presbiteriana de Honduras, mas teve que voltar às pressas para os Estados Unidos durante as rebeliões patrocinadas pela CIA neste país – assim como toda a América latina – nos anos 80. A primeira infância de Lisbeth foi envolvida com atentados, bombas, greves e muito medo. Quando voltou com a família para os Estados Unidos, foi morar em Corpus Christi, no Texas, e estudou na Callalen High School. Ao terminar o highschool, ingressou na Universidade do Texas, onde se graduou em literatura hispânica. Escreveu seu primeiro livro “Streets of Arcieri” ainda na escola secundária, ganhando o prêmio literário júnior ao falar sobre o bairro pobre onde se localizava a Igreja que seu pai comandava. Em “The Spiral of Lust”, Lisbeth narra a história de Everett Cole, um jovem que morre prematuramente e descobre, no além, que pode se alistar na Comissão, uma organização que intervém discretamente na vida dos vivos para impedir tragédias evitáveis. Designado para proteger Margareth, sua paixão não correspondida em vida, das investidas de um sedutor compulsivo que já destruiu várias mulheres, Everett se vê dividido entre o dever profissional e o desejo nunca resolvido de finalmente declarar o que sentia. Escreveu 4 livros de contos além de “The Spiral of Lust”. Hoje mora em Los Angeles, tem dois filhos e é casada com o crítico de cinema Francis Hubbard.

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Montanha Russa

Deu dois passos em direção à mesa que se mantinha no centro da sala acanhada. Segurou a faca de pão largada sobre ela e voltou-se para mim.

– Não, nada de saudável – disse Jake, com notável impaciência. – De saudável já basta a comida que nos obrigam a comer, com a promessa de alongar esta existência insuportável. Nada que é humano é saudável. Toda ação que produzimos invariavelmente apressa o momento de nossa morte. Até respirar, e encharcar os pulmões de oxigênio, em última análise enferruja nosso corpo e nos direciona ao túmulo. O que nos mantém vivos sela o nosso destino e nossa sina.

Preferi ficar quieto, pois Jake tinha uma faca nas mãos, com a qual agora picava o fumo vagarosamente. Nunca se sabe até onde sua filosofia pode levar.

– Coisas saudáveis são para aqueles que cultuam a morte. Eu sou fã da vida, e para ser vivida é preciso andar sobre a lâmina fina dos riscos. Comer, beber, jogar-se nos braços da luxúria. Carne, gordura, açúcar. Roleta russa de amores e traições. É isso, Perry, não me peça para ser saudável, limpo e cheirar a loção de barba. Sou fuligem, caspa, arroto e remorso. Sou vida.

Jeremy Stark, “Jake and the Rollercoaster”, Ed. Printemps, pag. 135

Jeremy Jacob Stark, nasceu em Chester, Pensilvânia, subúrbio de Philadelphia, em 1948 e fez seus estudos em Columbia. Escreveu 12 livros além de “Jake and the Rollercoaster” – onde acompanha a vida de Jake Morgani, um mafioso homossexual e suas desventuras na Chicago dos anos 20 – e muitos ensaios para o New Yorker. Entre seus livros mais conhecidos estão “Supper for Margareth”, “The Last Hurricane” e “The Chimney”. Morreu em 2019 de uma infecção generalizada após se ferir em uma pescaria em Bornéu. Deixou como viúva sua esposa Lilly (cujo alter ego aparece como Martha em “Supper for Margareth”) e seus dois filhos, Jill e Buck.

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Mentiras

Tenho uma indisfarçável inveja das pessoas que reconhecem em si tantas virtudes. Falam com genuína honestidade sobre suas ações justas, sua força, sua persistência e a nobreza de seus gestos. Percebem, em si mesmas, a coragem e a humildade que norteiam seus princípios. Vi-me aplaudido em púlpitos de igrejas negras do Alabama, chamado de justo pelos mesmos homens que arriscavam a vida ao meu lado, e em cada aplauso senti mais o gosto doce da própria importância do que o peso da causa que dizia defender. Eu, sinceramente, me identifico muito mais com os fracos, os bêbados, os estúpidos e os ignorantes. Percebo em cada uma de minhas atitudes o mais vil dos interesses, mesmo quando travestidos de grandioso despojamento. Consigo enxergar nas minhas ações a fagulha egoística que me motiva, mesmo quando pareço estar oferecendo graciosamente ao mundo um pedaço de minha pretensa sabedoria. Vejo, em tudo o que faço, a sordidez mesquinha e calculada, a volúpia do orgulho insano e a vaidade desmedida.

Tudo em mim é mentira. O que me anima é esse amor gigantesco que tenho por mim mesmo, pelos meus prazeres e gozos. O que me move é o desejo de obter todas as vantagens possíveis, as quais guardo como troféus, preciosidades que se esfarelam a cada vez que as toco. Não seria possível enganar indefinidamente, mesmo com tal pureza de fachada, com tanta sujeira que me sai por cada poro, cada palavra, cada sílaba e cada silêncio cúmplice. Também não culpo ninguém pela miséria de minhas ações; as porcarias – que são minha carne e que escapam pela minha voz – são todas minhas; são o único valor que carrego e a parte que me cabe levar desta vida.

Andrew D. Manning, “Angel of Mine”, ed. Prado-Bell, pág. 135

Andrew Dewey Manning foi poeta, ensaísta e escritor. Nascido em Chalkville, Alabama, em 1937, cursou seus estudos primários em Grayson Valley. Fez apenas os estudos iniciais, tendo sido autodidata. Escreveu 5 livros de poesia e sua grande obra, o romance “Angel of Mine”, onde aborda o racismo do sul dos Estados Unidos na época do Jim Crow. Foi reconhecido como um dos precursores dos movimentos antirracistas, tendo organizado, ainda jovem, os primeiros protestos silenciosos em frente à prefeitura de Chalkville. Morreu em 1987 vítima de câncer no fígado. Deixou a mulher Ethel e os filhos Jeremy e Andrew Jr.

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Dia da Morte

Sobre a mesa desarrumada, onde um trapo sujo guardava a memória das migalhas do dia anterior, ele jogou os cotovelos de forma cansada, enquanto olhava o pão cortado à sua frente que esperava sua justa porção de manteiga e um pouco de mel.

– Eu sei como seria o meu jeito escolhido de morrer, disse Jacob enquanto finalmente colocava na boca uma fatia do pão dormido com a manteiga que Daliah havia deixado sobre a mesa.

– Mal posso esperar para saber, respondeu Hannibal sem desviar o olhar da lareira acesa à frente.

– Diga, Jacob, diga-nos como pretende morrer. Quem sabe criamos coragem para lhe ajudar, continuou com seu habitual sarcasmo.

Jacob largou o pedaço de pão sobre a mesa e olhou para o teto do quarto, como se as imagens que descrevia estivessem projetadas sobre o madeirame corroído e sujo de fuligem.

– Eu escreveria um texto contundente e acusatório contra o Rei, cheio de ofensas hepáticas e indignações intestinas. Não pouparia nem sua família imunda das minhas lanças de fogo; sua mulher nojenta, sua mãe estúpida e nem mesmo Estelle, sua concubina. Sairia no breu da madrugada colando meu ódio com cuspe em centenas de postes próximos ao Palácio. Depois, voltaria para cá, tomaria uma taça de Bourbon, colocaria minha melhor roupa, guardaria um canivete no bolso, deitaria nesta cama suja e aguardaria a chegada da guarda real para lutar minha derradeira batalha.

– Que lindo, Jacob, que heroico, sorriu Hannibal fazendo um muxoxo debochado.

– Caído no chão, com o corpo cheio de balas, ainda teria tempo para um sorriso. Olharia no rosto do soldado que chegasse primeiro, aquele que daria o tiro de piedade, e diria: “Toma aqui meu escarro de sangue. Sente o cheiro da minha pele queimada. Escuta o chiado do meu pulmão que se esvazia. Olha o sangue que pinta de rubro minha palidez. Aqui está um homem cujo ódio nenhuma bala pode matar. Ele seguirá depois que esta carne apodrecer, e vai levar ao inferno aqueles que hoje riem de minha morte.”

Hannibal cortou o último pedaço de fumo e olhou seu amigo por cima do ombro. Ele sabia que a visão de Jacob poderia ser uma fantasia mórbida de glória, mas não estava longe de se tornar um dia verdadeira. Talvez mais próximo do que desejava.

Jules Marie-Vermont, “Le Palais de la Haine” (O Palácio do Ódio), ed. Hachette, pág. 135

Jules Marie-Vermont nasceu em Calais, França, em 1947, apenas poucos anos após a vitória aliada na Europa na Segunda Guerra Mundial. Passou sua infância próximo ao mar e junto aos escombros da Batalha de Dunquerque. Suas memórias mais remotas são angústias derivadas do desastre da guerra, mas também dos sonhos de reconstrução. Estudou literatura na Universidade Lille Nord, na cidade de Lille. Escreveu basicamente contos, ensaios, crônicas e roteiros para a televisão. É um amante da ópera, em especial da obra de Jules Massenet (de quem dizia ter herdado o prenome), tendo escrito uma biografia do grande mestre francês da ópera. Em “Le Palais de la Haine”, Jules narra os últimos meses de Jacob Servant, um jovem panfletário que, ao lado do amigo Hannibal, vive escondido nos arredores do Palácio Real, sonhando com a queda da monarquia que oprime seu povo. O romance acompanha a escalada de Jacob rumo a um confronto final com a guarda real, enquanto Hannibal, mais cético, observa com uma mistura de lealdade e temor o amigo se aproximar cada vez mais da profecia sombria que ele mesmo criou para sua própria morte. É casado com Dominique e tem dois filhos: Manon e Thais (nomes de óperas famosas de Massenet).

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O Penhasco dos Sonhos

A mensagem veio dobrada em um papel amassado que Jason colocou em meu bolso momentos antes de entrarmos na sala do magistrado de apelações do condado. Resolvi abrir, com discrição, pois poderia ser algo importante, algum ponto especial a dizer – ou calar – diante do Juiz durante a sessão. Meus dedos procuraram as pontas da pequena dobradura e a abriram. Coloquei os óculos e li o que estava escrito com a letra desengonçada de Jason.

– Martin e a mulher estão mortos. Acidente de carro.

Levantei os olhos à procura de Jason, mas ele não mais estava na sala. Como auxiliar de defesa, ele não tinha obrigação de estar ali, apenas o meu defensor. Olhei de novo para o papel com a respiração ofegante, sem saber o que dizer. Percebi que estava corado. Sim, eu me sentia envergonhado.

Martin era a razão de toda a minha desgraça. Se eu estava em uma sala fria aguardando um juiz prepotente e estúpido para analisar minha causa, eu devia isso a Martin. Fora ele que, por inveja do meu sucesso rápido na banca de advogados do seu pai, havia me denunciado à polícia por defender uma mulher negra e pobre por posse de drogas, hospedando-a em minha própria casa. Sua acusação – falsa e absurda – era de intermediar a venda de drogas e esconder uma fugitiva. Sabia de suas ligações espúrias com a polícia, mas acima de tudo percebia seu ciúme doentio pelo fato de eu ser admirado por seu pai. Desde o início do processo soube que Martin estava por trás de tudo. As drogas plantadas, o falso testemunho de Bridget, a pressão sobre o pessoal na polícia. Seu cinismo ao me oferecer ajuda foi nauseante. Diante disso, eu o odiei com todas as minhas forças. Imaginei toda a sorte de sofrimentos e tragédias para ele. Fantasiei todas as desgraças imagináveis para ele e para os seus.

Inclusive essa.

Agora eu me envergonhava dos meus pensamentos. Olhava para os lados como se as pessoas ao meu redor soubessem o quanto desejei este terrível infortúnio. Mais ainda; senti culpa por desejar tanto, e com tanta veemência de espírito, como se minha vontade estivesse magicamente conectada por meio de cordéis etéreos ao acidente fatal. Uma culpa a mais com a qual teria que lidar.

Leonard Doohan, “Cliff of Dreams” (Penhasco dos Sonhos), ed. Bethesda, pág. 135

Leonard Doohan é um escritor americano nascido em Chesapeake (Virgínia) em 1977. O romance jurídico/policial “Penhasco dos Sonhos” de Leonard Doohan (seu melhor livro, ainda melhor que “Eu, Vincent”, que virou filme com Jennifer Coolidge no papel de Laura/Vincent) foi escrito imediatamente após cumprir pena no Ventress Correctional Facility em Clayton, Alabama (USA). A partir desse livro, que combina memórias pessoais com relatos recolhidos de colegas de penitenciária, ele inaugurou uma sequência de 14 obras nas quais analisa, com olhar sociológico, o fenômeno do “white trash” e dos “rednecks” do “bible belt” e dos “red states” americanos, examinando o entrelaçamento entre essa cultura e a idolatria por Trump. Vive ainda hoje em Galveston no Texas, com seu cão Jax, e está escrevendo um romance sobre o lado pouco conhecido e obscuro da família Bush.

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