Arquivo da categoria: Parto

Passe livre

Cesariana = passe livre.

Médicos podem até matar seus pacientes se o fizerem dentro do modelo médico intervencionista, pois a medicina se assenta exatamente sobre o “controle e manipulação da tecnologia”. Quem respeita essa normativa está seguro. Cesarianas oferecem total segurança; partos normais serão sempre arriscados para quem os atende.

Tipo, você pode até matar um paciente durante uma cirurgia de ponte safena, mas se ele morrer porque você o estimulou a comer melhor e mudar seu estilo de vida será tratado como um “negligente”. E de nada adianta mostrar evidencias; medicina não se move por elas, mas por interesses corporativos. Aliás, como toda corporação.

Qualquer médico cujo paciente for a óbito obedecendo a estes cânones sagrados estará protegido pelos seus pares. Toda a corporação promoverá um círculo de proteção a este profissional, porque assim estará protegendo a SI MESMA.

Todavia, qualquer profissional que desafie a ideia de supremacia médica sobre a saúde questionando seus pilares de sustentação, será execrado, perseguido e, por fim, eliminado.

Desta forma, questionar a atenção cirúrgica, hospitalar e médica ao parto cabe exatamente na definição de “heresia”, por desafiar a crença da superioridade do conhecimento médico sobre o nascimento. Vi isso muito de perto; o pior crime sequer é o local extra-hospitalar do nascimento, mas reconhecer o conhecimento autoritativo das parteiras profissionais como válido.

Todo aquele que assim proceder será tratado como traidor.

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina, Parto

Humanização de direita

É possível ser a favor da Humanização do Nascimento e ser “fascista”?

Acho que não, mas é melhor só usar a palavra “fascista” com respeito adequado ao seu conceito. Talvez melhor seria perguntar se é possível ser a favor da Humanização e ser de direita. Existem milhões de matizes que exigem avaliação bem minuciosa. Não se trata de uma postura do “Bem contra o Mal”. A realidade é bem mais complicada do que qualquer limite estabelecido pelas simplificações maniqueístas. Por exemplo, nos Estados Unidos a situação dos humanistas no espectro político é bem interessante no que diz respeito às suas origens no início dos anos 70, onde seu aparecimento esteve ligado aos movimentos “new age” e “espiritualista”. Por esta origem atraiu muitas parteiras “espirituais”, ou “spiritual midwives”. Isso lembra alguma coisa? Pois é…

Além disso, essa fonte atraiu parteiras cristãs, que se opõem ao aborto de forma muito intensa. Algumas criaram o mais importante jornal de humanização do nascimento nos EUA. Outra curiosidade: muitas parteiras espirituais, oriundas dos movimentos “beatnik” e “hippie” são brancas, e foram recentemente atacadas pelas parteiras e doulas negras, que se sentem agredidas pelo seu “racismo estrutural”.

Com isso houve uma cisão entre os movimentos de humanização liderados pela MANA e os fortes grupos identitários de parteria negra. Como é bem sabido, os movimentos contrários ao identitarismo nos Estados Unidos se situam à direita do espectro político.

Conheço mulheres que são favoráveis à humanização do nascimento exatamente porque desejam garantir seu direito de parir em casa, um direito individual mais afeito aos propósitos da direita, já dentro do espectro liberal. O mesmo com o desejo de “homeschooling” ou contra a “obrigatoriedade de vacinas”. Nos meus grupos da Internet existe muito desse discurso que se poderia chamar “libertário”. O mais chamativo dessas comunidades é “Separation of Birth and State”.

Sim, humanização e de direita, contra a ação do Estado nos nascimentos. Assim, é razoável imaginar que pessoas que enxergam o mundo pela perspectiva da liberdade, da autonomia e da livre determinação estejam à direita, contra o reforço do controle estatal e à favor da desregulamentação.

Humanização conservadora. Por quê não??

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Distopia

(Uma manifestação de contrariedade com o texto que escrevi sobre o parto normal e a humanização do nascimento – feita por uma mulher).

“…mulher nenhuma deveria ter parto normal na atualidade, para que serve a medicina? Para evitar dores e mutilação no corpo das pacientes. Hoje parto normal só para animais, e olha que os domesticados já estão passando por cesárea para não sofrer. Mas enfim, vá ter um filho em parto normal, depois a gente se fala, ok?”

Diante dessa manifestação fica muito difícil responder. Estou estupefato. Inquieto e atônito, mas com uma clareza súbita sobre estes temas. Sua mensagem me deixou perturbado a ponto de abrir um portal de iluminação sobre minha cabeça. Na luz que se produziu eu percebi a verdade de suas palavras e, mais ainda, o fato de que não só o parto normal poderia ser considerado obsoleto, mas que o próprio sexo deveria ser, com o tempo, descartado como desiderato máximo do prazer humano. Como você disse, depois do acesso aos recursos tecnológicos, o mundo “natural” deveria ser reservado apenas aos animais. Afinal, se já é possível fazer fertilização “in vitro” por que ainda insistimos nesse modelo ultrapassado de reprodução?

E veja bem…. além de ser cansativa e desagradável essa “troca de odores e fluidos”, o que dizer dos riscos? Doenças sexualmente transmitidas, infarto agudo, torcicolo, arritmias, hemorragias e gravidezes não planejadas, entre outros dissabores, poderiam ser evitados. Sexo é cansativo e pode ser dolorido, enquanto uma inseminação pode ser feita num laboratório de qualidade com toda a segurança e limpeza, enquanto o casal poderá estar viajando para a praia ou desfrutando dos verdadeiros prazeres da vida: pedir comida pelo IFood e ver séries da Netflix.

Não há como deixar de reconhecer seu acerto em decretar o fim do parto normal diante de tantas evidências científicas de sua obsolescência. Todavia, eu reconheço que, sendo o parto uma parte da vida sexual da mulher, melhor seria que todos os aspectos da sua sexualidade – e não apenas o parto – fossem relegados ao esquecimento e trocados pelas suas variantes tecnológicas. Assim, por que não banco de esperma no lugar de marido, fecundação artificial no lugar de sexo, cesariana no lugar do parto, fórmula láctea no lugar da amamentação, babás e creches no lugar da maternagem? Por que ainda insistimos nesses anacronismos que só atrapalham nosso conforto e nossa alegria?

Certamente que este futuro utópico que você imagina para todos será, por certo, mais seguro, mais feliz e indolor. Haldous Huxley e Margaret Atwood ficariam corados de vergonha de não terem pensado em todos estes detalhes.

Deixe um comentário

Arquivado em Parto, Pensamentos

Cesarianas “humanizadas”

A respeito de uma cena de cesariana realizada de forma delicada – com nascimento empelicado – e o debate que se seguiu, onde alguns participantes afirmavam que se tratava de uma “cesariana humanizada”, uma discussão que acompanho há mais de 20 anos.

————————————————————————————————————–

“Uma cesariana pode ser delicada, humana e respeitosa, mas jamais “humanizada”.

Vejamos porque não aceito essa definição para estas cirurgias. Faço, já há muitos anos, esta diferença porque o conceito que utilizamos é de que a humanização do nascimento se apoia em três elementos constitutivos:

  1. a atenção baseada em evidências
  2. o enfoque interdisciplinar
  3. o protagonismo do evento garantido à mulher

Não é difícil de entender que em uma cesariana o protagonista do evento é o médico e suas habilidades cirúrgicas. Portanto, uma cesariana – mesmo escolhida pela mulher ou com indicações médicas claras – não pode ser “humanizada” por não possuir um dos elementos basilares da humanização: o protagonismo garantido à gestante. Na cesariana, como em qualquer cirurgia, o paciente será sempre objeto da arte médica e não sujeito do processo.

Não se trata de um julgamento de mérito, mas uma questão semântica, de conceito. Como eu defino a humanização como sendo uma estrutura suportada por três pontas (protagonismo, Saúde Baseada em Evidencias e a interdisciplina) eu não posso considerar uma cesariana como humanizada – mesmo quando ela for útil, delicada, humana, bem indicada e até salvadora – pela falta de um dos elementos estruturantes.

Além disso, sabemos que existe uma questão semiótica neste rótulo reivindicado pelos propagadores das “cesarianas humanizadas”. Essa demanda serve para criar confusão entre uma cesariana – que é uma intervenção cruenta e artificial – e os mecanismos fisiológicos e naturais do corpo, chamando ambos os procedimentos de “humanizados”. Assim, para muitos fica a mensagem de que “tanto faz a via de nascimento se ambas as formas de nascer forem humanizadas“, certo?

Não, cesariana é cirurgia, parto é parto, assim como fórmula láctea é uma coisa e leite materno é outra. A superioridade em termos de riscos diminuídos e promoção da saúde do leite materno e do parto normal sobre suas variantes artificiais sequer precisa ser discutida.

Todo nascimento tem sua beleza. Mesmo a cesariana, que é uma cirurgia de grande porte, pode ser realizada com delicadeza e respeito, fazendo do nascimento pela via cirúrgica um evento igualmente belo e significativo. Não se trata de desmerecer esta cirurgia e muito menos quem porventura precisou se submeter a ela, mas é um cuidado para resguardar o conceito de humanização para os processos naturais e fisiológicos, onde a própria mulher mantém o controle dos tempos, das presenças, das posições e dos ambientes.”

Deixe um comentário

Arquivado em Parto

Batatas

Quando vejo “certos e errados” na atenção ao parto sinto arrepios. Sem dúvida que a experiência e os estudos podem nos oferecer guias, mas é fundamental entender que qualquer patologia ou mecanismo fisiológico é uma abstração, e só se torna real quando inserido no corpo de uma mulher. É ali, e somente nesse terreno, que o universo agirá para manter a vida, e sabemos o quanto a individualidade pode modificar estas rotas.

Ainda hoje a maioria dos atendentes de parto prefere se guiar por manuais rígidos, protocolos, rotinas, fluxogramas e “camas de Procusto”, mesmo quando a manifestação do sujeito lhe cospe na cara todos os dias a diversidade infinita da alma humana.

Até as batatas tem suas diferenças

Deixe um comentário

Arquivado em Parto

Silêncios

A imagem da “enfermeira pedindo silêncio”, que está na parede de tantos hospitais, e a observação da Margot Zetzsche sobre o tema, me trouxeram à memória um fato que Robbie me contou há alguns anos. Ela me descreveu a visita que fez a um hospital que havia iniciado um protocolo de “humanização”, o qual se limitava ao uso irrestrito de analgesias de parto. Além da visão completamente equivocada do que seja humanização (onde analgesias irrestritas seriam o OPOSTO desse conceito), o responsável pelo centro obstétrico – um anestesista, que surpresa – estava plenamente convencido de que a falta de gritos, sussurros e gemidos era um avanço civilizatório. Quando Robbie adentrou o centro obstétrico este médico, de forma altiva e orgulhosa, observou: “Viu? Percebeu o silêncio? Abolimos os gritos das pacientes com nossa política de analgesias para todas.”

Robbie escutou respeitosamente a descrição dos “avanços” descritos pelo profissional, mas não deixou de se questionar o quanto estes silêncios traziam de perguntas a procura de respostas. Qual o significado profundo da falta de vozes, gritos primais, choros e gemidos que se tornaram ausentes numa cena de parto?

No meu modesto entendimento, essa prática tem muito menos a ver com a diminuição das dores das pacientes e muito mais com o arrefecimento da angústia que estes gemidos inequivocamente produzem nos ouvidos dos cuidadores. Este seria, muito provavelmente, o “silêncio dos inocentes”, a mudez de quem foi despida não apenas de suas vestes, mas também de sua autonomia, sua identidade e sua voz. Se os gemidos são parte da subjetividade de uma mulher, o silêncio é mais uma forma de uniformizá-las, e assim, retirar-lhes a incômoda subjetividade.

Humanizar o nascimento nada tem a ver com a supressão química da dor, mas se refere a uma atitude que se propõe a situar esta dor como elemento constitutivo da mãe que nasce (a ponto de fazê-las suportáveis e até ausentes), impedindo que o ambiente, as vozes, os olhares e as mensagens catastrofistas sejam potentes o suficiente para inserir a gestante no círculo vicioso de Medo-Tensão-Dor.

A proposta de humanizar nascimento não pode ser resumida a um protocolo químico, invasivo e medicalizante da assistência para silenciar mulheres, mesmo quando na superfície possa parecer sedutora a simples ablação da dor de uma gestante. Humanização do nascimento é muito mais do que isso: é uma compreensão profunda desse evento e uma visão transformadora do nascimento como fator determinante para o resto da vida das pessoas que dele participam.

Deixe um comentário

Arquivado em Parto

Parto da Vaca

Queria tecer alguns comentários sobre este atendimento…

Elas poderiam ter enrolado o bezerro num tecido, talvez a própria camiseta, o que seria mais simples e fácil para os homens – por razões culturais. Por isso demorou para sair; o corpo do bezerro escorrega muito; é um sabão, mas é exatamente assim para facilitar o parto.

Mas, não se trata de tecer críticas aos partos veterinários, mas entender como essa atenção se encaixa no tema da “humanização do nascimento”. Primeiramente, vamos deixar claro que nada disso é realmente necessário. A própria vaca Julieta reclamou da V.O., pois ela bem sabia que tinha plenas condições de parir dentro do seu tempo e através de suas próprias forças e capacidades. O que a gente está vendo na filmagem é um parto instrumental, invasivo e sem justificativa aparente. Só faltou, por sorte, episiotomia….

Entretanto, é a própria sensação de vitória e sucesso que nos impregna depois de atender um parto o que produz essa euforia explícita nos cuidadores. É a “couvade”, fenômeno que se observa em comunidades originárias, a qual produz a expropriação do evento mágico do nascimento. Assim, o parto é retirado da “vaca” e colocado nas mãos das atendentes, e não há nada mais sedutor que isso.

Nas equipes que atendem partos humanos a sensação épica de um nascimento pode contaminar e comprometer nossa percepção da verdadeira função dos atendentes. O entusiasmo desmedido que toma conta de quem participa ativamente de um parto é o maior inimigo da boa atenção. Essa euforia precisa ser, primeiramente reconhecida, e depois controlada para que não se transforme em atuação invasiva. Acreditar que somos sempre imprescindíveis é o mais fácil e o primeiro de todos os erros.

Mãos cheias de dedos são o maior risco para o parto humanizado. Entretanto, não se trata apenas da criação de “protocolos respeitosos” mas, antes disso, a compreensão profunda dos tempos e da “fisiologia alargada” do parto. E, mais ainda, o respeito pelas capacidades inatas da mãe.

E, por favor, não estou criticando as moças, apenas aproveitando a deixa para analisar a psicosfera do nascimento. Veja o vídeo aqui.

Deixe um comentário

Arquivado em Parto

A Fissura Bizarra

É bem sabido que um bebê de 9 meses de idade (atingindo o estádio do espelho) tem habilidades de um chimpanzé recém nascido. Ao nascer somos incompetentes ao extremo. Nascemos todos despreparados para a vida extra uterina e por meses ainda nos comportamos como fetos fora do útero. Por isso foi necessário estabelecermos um cuidado muito intenso por parte da mãe como estratégia de sobrevivência. A altricialidade (dependência do cuidado alheio), decorrente dessa fragilidade, acabou gerando esta “fissura bizarra na ordem cósmica”, chamada “amor”.

Somos, portanto, produtos de uma conjunção de fatores adaptativos surgidos há 5 milhões de anos com a bipedalidade e posteriormente pela encefalização – que se acelerou com o surgimento de nosso gênero há 2 milhões de anos. Como os cangurus temos dois partos: um ao sair do útero e subirmos para o “marsúpio do colo materno”, onde encontramos leite, calor, afeto, a voz e o olhar da mãe; já o outro parto vai ocorrer lentamente na primeira infância, ao nos afastamos paulatinamente da dependência extremada desse cuidado.

A marca da altricialidade determinou o gozo e a tragédia dessa espécie. Sem ela não haveria o sentimento dela derivado: o amor profundo de um bebê por sua mãe. Em decorrência desse amor desmedido, também nas mães brota um sentimento inusitado e estranho. “Se existe amor, ele é o amor de uma mãe por seu filho, e todos os outros amores são dele derivados”, já diria Freud. Assim, a base edipiana de nossa estrutura psíquica surge pelo fenômeno adaptativo de grandes cérebros conjugados com pélvis estreitas levando ao parto de um bebê totalmente dependente, onde a semente do amor será acolhida em campo fértil. “Somos o que somos porque nascemos de uma forma bizarra, e esse nascimento produz a inevitável dor de ser o que se é”.

Por outro lado, na história da humanidade a maternidade sempre foi exercida de forma cooperativa, grupal e distribuída por várias figuras femininas, uma imagem completamente diferente do que observamos no cotidiano de tantas mães modernas. A tônica de hoje é o cansaço, a dúvida, a depressão e a insegurança, elementos psíquicos relacionados com o isolamento das mães contemporâneas.

Mães solitárias e muito sobrecarregadas na maternagem são uma coisa nova na história da humanidade. Não é de se espantar que o resultado seja a tragédia do desmame precoce em sociedades que negligenciam o contato íntimo entre mães e bebês nos primeiros meses de vida. É tempo, portanto, de revisitar a história humana e reverter nossa vivência para esse período anterior, onde, além do cuidado compartilhado, havia um profundo aprendizado das recém mães com a experiência de outras mulheres ao seu redor.

Só assim poderemos resgatar a amamentação como evento natural e fisiológico. Sem acolher estas mães, nenhum bebê será bem cuidado.

“É preciso uma aldeia inteira para criar uma criança“, parafraseando um famoso provérbio africano.

Deixe um comentário

Arquivado em Parto

Violência no C.O.

A agressão às funcionárias (todas mulheres) do ISEA por ter sido chamado durante a madrugada para atender uma paciente ocorreu por parte de um anestesista. E por que não me surpreendo que está agressão tenha vindo de um médico dessa especialidade?

Existe uma divisão bem clara de perspetivas que diferencia obstetras e anestesistas. Estes últimos não conseguem enxergar pacientes da mesma forma como os obstetras os enxergam, e por esta diferença tive várias discussões relativas às indicações de cesariana no início da carreira. Achavam eles que chamá-los na madrugada era uma afronta e um desaforo. Sua expectativa era de serem convocados a atender apenas cesarianas marcadas e a maioria se negava a atender analgesias de parto, por causa do tempo quecteriam a despender com esta única paciente.

Minha experiência sempre foi difícil com eles, e não me surpreende que essa atitude absurda e violenta tenha partido dessa especialidade.

O ataque direcionado às obstetras que o chamaram para anestesiar uma paciente de madrugada é típica de quem sabe que, se fizesse isso contra colegas homens correria o risco de levar uns sopapos. Também nao me deixa surpreso.

Mas ainda acredito que a culpa disso é da cultura da cesariana, causada pela medicalização do parto, e a transformação do parto contemporâneo em evento médico, controlado por cirurgiões e com pouca consciência dos significados últimos do parto na cultura.

O que percebemos hoje é que esta geração de anestesistas, gestada no auge da cultura das cesarianas, acabou criando a ideia de que estas cirurgias não acontecem de madrugada, mas apenas com hora marcada, sob o controle do médico, e não quando o bebê sinaliza o momento de nascer. Criaram a ideia de que o nascimento, profundamente inserido no paradigma médico, ocorre com a mesma previsibilidade de uma cirurgia de vesícula.

Quando eu fui plantonista e indicava cesarianas na madrugada a observação que me faziam era sempre a mesma: “você é um mau médico. Seus colegas percebem de antemão os partos que vão “encalhar” e marcam a cesariana para um horário em que todos estão acordados e em boas condições para operar”.

Com isso tentavam constranger os colegas a marcar as cirurgias para “depois da novela”. E isso acontece porque os anestesistas têm uma ação meramente técnica; eles não sabem a história, os anseios, os desejos da paciente ou o esforço da equipe. Tudo o que querem é dormir em paz, sem ser atrapalhado – mesmo estando de plantão.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Filosofia da Medicina

É claro que é “possível” fazer um ensaio MARAVILHOSO, randomizado com “n” satisfatório, avaliação isenta, e provar que X é maior que Y. Porém, quem escolhe avaliar X e Y, e porque não investigaram Z? Só a filosofia pode mostrar que um estudo comparando dois analgésicos para tratar a dor pós-episiotomia existe para normalizar estas cirurgias, estimulando a noção largamente disseminada na cultura de que as episiotomias são adequadas, seguras e que “consertam” um mecanismo falho e disfuncional de parto. Para além disso existe uma mensagem misógina de defectividade feminina, que é a estrutura que sustenta a manipulação e controle de seus corpos, seus desígnios e até seu prazer.

Tais estudos estão em sintonia com aqueles que comparam métodos farmacológicos de alívio da dor no parto, mas que servem especialmente para vender a ideia de que os partos são desumanamente dolorosos, sacrificiais, horríveis, destruidores e que, sem o auxílio da tecnologia – e dos profissionais que as controlam – eles seriam insuportáveis. E quem faz estes estudos? Os próprios profissionais que se beneficiam dessa mitologia de transcendência tecnológica, que esconde o fato de que a PRÓPRIA assistência medicalizada ao parto produz uma artificialização tão profunda de um evento fisiológico que a reação natural das mulheres é o medo, que gera tensão e que, por sua vez, produz dor. Esta, no diagrama famoso de Dick-Read, por sua vez vai gerar mais dor e manter o ciclo patológico da assistência ao parto. MEDO – TENSÃO – DOR

É por isso que, mais do que a crueza fria dos números e da ciência, é preciso criar um entendimento que coloque estes achados dentro de um invólucro cultural e econômico, e que os explique dentro da cultura e do seu tempo.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto